20 de julho de 2013

Soneto

Pierre Gavarni
Adeus, cabana, adeus; adeus, ó gado;
Albina ingrata, adeus, em paz te deixo;
Adeus, doce rabil
¹; neste alto freixo²
Te fica³, ao meu destino consagrado.

Se te for meu sucesso perguntado,
não declares, rabil, de quem me queixo;
não quero que se saiba vive Aleixo
por causa de uma infame desterrado.

Se vires a pastor desconhecido,
lhe dize então piedoso: "Ah! vai-te embora,
atalha os danos que outros têm sentido.

Habita nesta aldeia uma pastora,
de rosto belo, coração fingido,
umas vezes cruel, e as mais traidora."

Tomás Antonio Gonzaga (1744-1810)
NOTAS:
1. rabil: também chamado arrabil, era na definição de Morais Silva, um "instrumento pastoril de cordas, como uma rabequinha".
2. Adeus, doce rabil, neste alto freixo / Te fica, ao meu destino consagrado: Este versos parecem ecoar aquilo de Camões, em Babel e Sião: "Aquele instrumento ledo / Deixei da vida passada, / Dizendo: - Música amada, / Deixo-vos neste arvoredo, / À memória consagrada." (Obras Completas. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1963, p. 498).
3. Te fica: Fica-te. Embora haja outros exemplos clássicos desta construção, a norma do português contemporâneo tende a rejeitar a anteposição de um pronome átono ao imperativo afirmativo.
(Texto estabelecido e anotado por Sérgio Pachá)

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