15 de julho de 2013

A vizinha

Gustave Courbet
As mãos, intocadas,
apanham o ar da noite gelada.
À janela expõe o coração singelo
embora a idade não lhe permita a doçura
e a meiguice do olhar.
Dizem: não fica bem para uma mulher,
depois de certa idade, carregar nos olhos
o fulgor das flores de laranjeira.
No ar gelado do cômodo solitário
os bicos dos seios endurecem e o
oco vão entre as pernas é como se não portasse
a áspera cor de certos desejos…
Oco no olhar, é como se não houvesse
úbere e já não pudessem cantar
os pássaros na primavera.
No entanto, porque é mulher, e porque
a cerca a cidade, que também é feminino,
aplaca o tempo de um só golpe
com o simples sal do chorar.

João José de Melo Franco

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