6 de maio de 2013

Padre Antonio Vieira

Padre Antonio Vieira: o príncipe dos Jesuítas
Há 405 anos, nascia um jesuíta tão eloquente que aconselhava o rei português e argumentava com Deus em pessoa.
“Olhai, Senhor, que vivemos entre gentios, uns que o são,
outros que o foram ontem; e estes, que dirão? Que dirá o Tapuia
bárbaro sem conhecimento de Deus? Que dirá o Índio inconstante,
a quem falta a pia afeição da nossa Fé?”.

Pe. Antonio Vieira (1608-1697)
Sermão Pelo Bom Sucesso das Armas
Quando jovem na Bahia, Vieira testemunhou os assaltos dos holandeses ao litoral brasileiro. Acerca das invasões holandesas ele escreveu o Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as da Holanda, texto muito apropriado para ilustrar o poder persuasivo da eloquência sagrada por ele desenvolvida. Este sermão foi pregado na igreja de Nossa Senhora da Ajuda, em Salvador, em maio de 1640, no tempo em que o povo baiano - frágil e desarmado diante da potência inimiga -, esperava a interferência de Deus contra os invasores holandeses. O Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal foi o último de uma série de quinze pronunciados nas igrejas da cidade. Em foco, estava a necessidade de uma ação rápida e eficaz da Providência, para a salvação do rebanho de Cristo.
No Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal, Vieira revela os ardis típicos que caracterizaram o seu talento para a construção das mais complexas peças de retórica religiosa. No referido sermão, ele se dirige a Deus de forma extremada. Utiliza-se do tom próprio de quem possui plena convicção do mérito de sua diligência. De forma destemida, clama a Deus proteção para a cidade do Salvador que, só pelo nome já deveria ser objeto preferencial e, portanto, merecedora de auxílio eficaz contra a invasão das heresias.
Sem dúvida, o Sermão... possui uma energia comparável a poucos textos da mesma natureza. É bom lembrar que foram mais de duzentos sermões da lavra de Vieira. No sermão em foco, Vieira emprega os seus dotes de eloquência para persuadir ninguém menos do que Deus. Tal audácia surge da necessidade extrema já que os recursos humanos disponíveis aos homens de boa fé não eram suficientes para prover a segurança da cidade à beira de sucumbir diante do inimigo.
Dança Tapuia - Albert Eckhout
Segundo Vieira, os povos não catequisados perderiam a fé no Deus cristão se o desamparo continuasse.
No Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal, o autor discorre sobre a legitimidade do desesperado pleito. A intervenção divina não poderia tardar. Do contrário, a obra civilizadora que os católicos promoveram a duras penas nessas terras poderia perder-se facilmente. Ora, muitas e graves consequências colocariam abaixo todo o esforço realizado em nome de Deus. A derrota para os holandeses faria com que os indígenas e negros recém-catequizados formassem uma imagem pouco positiva acerca do poder divino. Assim, tais povos poderiam ser levados a se bandearem para as tradições heréticas dos holandeses. Acerca do tema, vejamos o tom de gravidade utilizado por Vieira em seu texto: “Olhai, Senhor, que vivemos entre gentios, uns que o são, outros que o foram ontem; e estes que dirão? Que dirá o Tapuia bárbaro sem conhecimento de Deus? Que dirá o Índio inconstante, a quem falta a pia afeição da nossa Fé? Que dirá o Etíope boçal que, apenas foi molhado com a água do batismo sem mais doutrina? Não há dúvida que todos estes, como não têm capacidade para sondar o profundo de vossos juízos, beberão o erro pelos olhos. Dirão, pelos efeitos que veem, que a nossa Fé é falsa, e a dos holandeses a verdadeira, e crerão que são mais cristãos, sendo como eles...”.

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