24 de abril de 2013

Serlock Holmes

Frank Robert Dixon
Não teve nunca mãe nem ancestrais maiores.
Idêntico é o caso de Quijano e Adão.
Foi feito pelo acaso. Imediato ou à mão,
regem-no os vaivéns de variáveis leitores.

Não é erro pensar que nasce no momento
em que é visto pelo outro que lhe conta a história
e morre sempre em cada eclipse da memória
de todos os que o sonham. Mais vazio que o vento.

É casto. Nada sabe do amor. Não quis.
Esse homem tão viril renunciou à arte
de amar. Em Baker Street vive só e à parte.
A arte de esquecer também nada lhe diz.

Sonhou-o um irlandês, que nunca lhe quis bem
e que tentou matá-lo, ao que parece. Em vão.
Esse homem, só, prossegue, com a lupa na mão,
um destino invulgar de coisa sem além.

Ele não tem relações, mas não o atraiçoa
a devoção do outro, o seu evangelista
e que dos seus milagres nos deixou a lista.
Vive comodamente: em terceira pessoa.

Tomar banho não vai. Também não visitava
esse retiro Hamlet, lá na Dinamarca
sem saber quase nada dessa vã comarca
que é a espada e o mar, o arco e a aljava.

(“Omnia sunt plena Jovis.” Da mesma maneira
diremos desse justo que dá nome aos versos
que a sua fugaz sombra percorre nos diversos
domínios em que foi segmentada a esfera.)

Espevita no seu lar as inflamadas chamas
ou dá morte nos pântanos a um cão do inferno.
Esse alto cavalheiro ignora que é eterno.
Resolve ninharias, repete epigramas.

Chega-nos de uma Londres de gás e neblina,
A Londres que se sabe capital do império
que lhe interessa bem pouco, a Londres de mistério
tranquilo, que não quer sentir que já declina.

Não nos surpreendamos. Depois da agonia,
o fado ou o acaso (são a mesma coisa)
concede a cada um essa sorte curiosa
de ser forma e ser eco a morrer dia a dia.

Até ao dia último em que o esquecimento,
que é a meta comum, nos esqueça de todo.
Antes que nos atinja, brinquemos com o lodo
de ser durante um tempo, de ser e de ir sendo.

Pensar de tarde em tarde em Sherlock Holmes é uma
dessas boas rotinas que restam. A morte
e a sesta são outras. É a nossa sorte:
convalescer num parque ou contemplar a Lua.

Jorge Luis Borges (1899-1986)
Tradução: Fernando Pinto do Amaral

Nenhum comentário: