26 de março de 2013

Flora Tristan

Flora Tristán
Flora Tristán (1803-1844), revolucionária, socialista, precursora do feminismo francês, de sensibilidade refinada, principalmente aos problemas sociais que a tocavam na pele diretamente; autodidata, acumula experiência e cultura e, por vontade e compulsão, torna-se escritora, pela necessidade de dizer ao mundo as verdades que infernizavam sua alma, fazendo-a mover-se pela Europa, realizando palestras para entidades de classe, na luta incansável contra as injustiças.
Contemporânea Victor Hugo e George Sand, avó do pintor Paul Gauguin. A história oficial pouco ou nada se ocupa de rebeldias indomáveis, de pensamentos audazes e de mulheres livres, muito menos de alguém que reunia essas três condições. Esse o caso dessa extraordinária mulher, cujas ideias lúcidas, propostas de ação e exemplo de vida seguem tendo pleno valor para aqueles/as que aspiram à liberdade e à igualdade.
O relato da vida de Flora Tristán está cheio de circunstâncias que parecem ter sido arrancadas das novelas românticas tão ao gosto daquela época. Nasceu em Paris, filha de um aristocrata peruano e de uma plebeia francesa que havia imigrado para a Espanha. Com as guerras napoleônicas e a morte do pai, em 1808, a família de Flora inicia uma etapa de pobreza, mitigada pela ilusão do futuro acesso a fortuna paterna, quando pudessem viajar para a América.
Em 1820, as necessidades se impõem e Flora vai trabalhar como operária de uma oficina de litografia, cujo jovem proprietário - André Chazal - se apaixona por ela. Para fugir da miséria e submetida à pressão materna, Flora casa-se em 1821, gerando dois filhos e uma filha – Aline - que veio a ser mãe do famoso pintor Paul Gauguin. Em 1826, Flora já não suporta aquela união sem amor e convencional, abandonando o lar e iniciando uma dura disputa legal e pessoal, que se prolongará por 12 anos, até que Chazal quase a mata, sendo condenado a 20 anos de trabalhos forçados. Essa vivência será um estímulo para que aflore um pensamento e uma ação que serão referências importantes para o movimento feminista. Flora foi uma figura única, que denunciou com a mais sentida sensibilidade os padecimentos da mulher de seu tempo, planteando reivindicações que continuam sendo atuais.
Em 1833-34, Flora viaja ao Peru para buscar a herança de seu pai, sendo recebida friamente pelos parentes, que lhe concedem somente uma modesta pensão anual. Retorna a Europa reafirmando suas convicções igualitárias radicais, que vem amadurecendo desde 1825, com a leitura de autores como Saint-Simon, Aurora Dupin, Fourier, Considerant e Owen, além de seus contatos diretos com o movimento operário na França e na Inglaterra.
Em 1835, publica seu primeiro folheto, dedicado à situação das mulheres estrangeiras pobres na França; em 1837, sai o segundo, em prol do divórcio; em 1838, são publicados os dois volumes de seu diário de viagem a América, sob o título de Peregrinações de uma Pária. Esta obra dá a Flora grande renome nos meios literários parisienses, reafirmado meses depois com a novela Mephis ou O Proletariado, que a eleva a categoria de rival da célebre George Sand. Ao mesmo tempo, Flora aprofunda seu compromisso ativo com as lutas sociais mais radicais de então. Primeiramente, pela emancipação da mulher e da classe operária, mas também contra a pena de morte, o obscurantismo religioso e a escravidão.
Como que pressentindo a morte próxima, os anos posteriores a 1840 encontram Flora Tristán na plenitude de seu trabalho e pensamento. É então que escreve A União Operária (1843) e A Emancipação da Mulher (inédito até 1846), obras que marcam sua maturidade intelectual e política. Realiza por toda a França a tarefa de organizar essa União Operária, que recorria à experiência inglesa das Trade Unions, ainda que com ênfase internacionalista e socialista radical. Tais ações justificam a apreciação de quem vê em Flora a esquecida e grande precursora da I Internacional, como seu biógrafo peruano L. A. Sánchez, que afirma: "Aquela Associação Internacional dos Trabalhadores era a velha União Operária, ampliada, ecumênica e viril (...) Ninguém lembrou da precursora na célebre assembleia de Albert Hall. Mas ela, com seu pensamento e exemplo, a esteve presidindo desde longe, desde a eternidade. Talvez, se com alguém se identificava mais seu espírito, era com o de um certo homem de barbas revoltas e verbo ardente, que costumava discordar vigorosamente de Marx: Miguel Bakunin".
Vargas Llosa em O Paraíso na Outra Esquina usa a brincadeira como alegoria para falar de duas personalidades francesas que devotaram a vida a perseguir ideais radicais, sem nunca alcançá-los: a socialista e precursora do feminismo Flora Tristán (1803-1844) e o pintor pós-impressionista Paul Gauguin (1848-1903).
Flora Tristán passou à história por defender teses ousadas em sua época: pregava que os operários precisavam se unir contra os patrões e que as mulheres deviam ter os mesmos direitos que os homens. Além do discurso subversivo, ela deixou seu marido, o que constituía um crime grave.
Seu neto Gauguin, por sua vez, viveu no Peru durante a infância, quando seu pai teve de fugir da França por razões políticas (ele acabaria morrendo, tragicamente, no meio da viagem). Mais tarde, já de volta a Paris, Gauguin abandonou a mulher e os filhos para abraçar a pintura. A fim de libertar sua arte dos "vícios burgueses", ele trocou Paris pela colônia francesa do Taiti, no Oceano Pacífico, onde viveu entre os selvagens maoris e pintou quadros célebres. Esse mergulho na "pureza primitiva", porém, não lhe traria a paz de espírito almejada.
Dirigindo-se a seus personagens na segunda pessoa, por meio de apelidos carinhosos, Vargas Llosa transmite aos leitores uma sutil sensação de intimidade com eles. E sabe ser convincente mesmo quando deixa a história de lado e dá asas à imaginação. Sua Flora Tristán, por exemplo, descobre o verdadeiro prazer do sexo tardiamente – pelas mãos de uma amante.
Paul Gauguin - Manao Tupapau
Trecho de O Paraíso na Outra Esquina
“Uma semana depois de terminar sua obra-prima continuava retocando-a, e passava horas inteiras diante da tela. O quadro não revelava uma mão civilizada, europeia, cristã. Na verdade, a de um ex-europeu, ex-civilizado e ex-cristão que, à custa de vontade, aventuras e sofrimento, havia expulsado de si a afetação frívola dos decadentes parisienses e voltado às suas origens, esse esplendoroso passado no qual religião e arte, esta vida e a outra, eram uma única realidade. As semanas que se seguiram a Manao Tupapau foram de uma serenidade de espírito que Paul Gauguin havia muito tempo não desfrutava”.
Mario Vargas Llosa

Um comentário:

Anônimo disse...

Mulheres como ela são o orgulho do mundo...mulheres que lutaram contra tudo e todos até chegarmos onde estamos agora!!!

Parabéns a está mulher!!! Flora!!!