31 de dezembro de 2012

O TEMPO PASSA? NÃO PASSA.

Desejo de Criança (A Child's Wish)
O tempo passa?
Não passa no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer toda a hora.

E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama escutou
o apelo da eternidade.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Recomeça

Henry Siddons Mowbray
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

Miguel Torga (1907-1995)

30 de dezembro de 2012

Canções da Inocência

William-Adolphe Bouguereau
“Quando vozes de crianças se ouvem na relva,
E risos se ouvem nas colinas
Meu coração descansa no meu peito,
E todo o resto fica sereno”.

William Blake (1757-1827)

A linguagem

Ferdinand Laufberger
A linguagem não pode ser dita
a não ser quando se mostra
interdita

entre o arco da ponte que não tomba
e as manadas de silêncio que atravessam

perfuram
doem

no poema na desordem inicial
na loucura sem a lógica que grita -

(des) dita
temporal

desmorona.

Raul Macedo

29 de dezembro de 2012

À beira d'água moro...

Johan Severin Nilsson
À beira d'água moro,
à beira d'água,
da água que choro.

Em verdes mares olho,
em verdes mares,
flor que desfolho.

Tudo o que sonho posso,
tudo o que sonho.
E me alvoroço.

Que a flor nas águas solto,
e em flor me perco
mas em saudade volto.

Cecília Meireles (1901-1964)

O Passarinho Dela

Rebecca Rebouché
O passarinho dela
é azul encarnado.
Encarnado e azul são
as cores do meu desejo.

O passarinho dela
bica meu coração.
Ai ingrato, deixa estar
que o bicho te pega.

O passarinho dela
está batendo asas, seu Carlos!
Ele diz que vai-se embora sem você pegar.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

28 de dezembro de 2012

Azul de Sol

Willem Haenraets
Acordamos com o sol,
tambolirando na janela
e o vento respirando fundo,
como se precisasse de fôlego
pra aguentar o dia.

Aí, juntos, pintamos
o sol
de azul
e a estrada
de verdesperanças.

Donald Maischitzky
Willem Haenraets
Devemos colecionar os domingos
e escondê-los entre páginas
devemos aprender do seu silêncio
suas mudas preces

E entenderemos que mesmo a música
em sua muda forma transborda de
silêncios

E as cores que acaso
formam o azul, se dissipam
e se juntam neste movimento
de armar o domingo
domar os domingos
dever dos poetas.

Pena que não temos o laço.
Pena que não somos os lagos
Pena que emudecemos, nesta linda
Sinfonia.

Georgio Rios

27 de dezembro de 2012

Amanda Cass
Noite
onde a lua se esconde
nova?

descompasso no céu
e em mim.

Nydia Bonetti

Aprendendo a viver

Carlos Caetano
Acordei último. Alteado só se podia nadar no sol. Aí, quase que não se passavam mais os bandos de pássaros. Mesmo perfiz: que o dia ia dever ser bonito, firme. Chegou o Cavalcanti, vindo do Cererê-Velho, com recado: nenhumas novidades. Para o Cererê-Velho recambiei aviso: nenhumas novidades minhas também. O que positivo era, e do que os meus vigiadores do redeador davam confirmação. Antes, mesmo, por mais, que eu quisesse ficar prevenido, o dia era de paz.
João Guimarães Rosa (1908-1967)
Grande Sertão: veredas

26 de dezembro de 2012

Renoir
Os dias iguais são ensaios
de eternidades

todos os dias são um só
dia

as dores: memórias
esquecidas

as alegrias

o canto tardio do pássaro cego
os lírios

tudo
como num grande e fugaz
delírio.

Nydia Bonetti

Serena

Amanda Cass
Essa ternura grave
que me ensina a sofrer
em silêncio, na suavidade do entardecer,
menos que pluma de ave
pesa sobre meu ser.

E só assim, na levitação da hora alta e fria,
porque a noite me leve,
sorvo, pura, a alegria,
que outrora, por mais breve,
de emoção me feria.

Henriqueta Lisboa (1901-1985)

Noturno

Ismael Nery
Meu pensamento em febre
é uma lâmpada acesa
a incendiar a noite.

Meus desejos irrequietos,
à hora em que não há socorro,

dançam livres como libélulas
em redor do fogo.

Henriqueta Lisboa (1901-1985)

25 de dezembro de 2012

MÚSICA

Vrindavan Das - Krishna with Radha
Ia tão longe aquela música, Bhai!
E o luar brilhava. Mas por mais que o luar brilhasse,
não se sabia quem tocava e em que lugar.

Pelos degraus daquela música, Bhai,
podia-se ir além do mundo, além das formas,
e do arabesco das estrelas pelo céu.

Quem tocaria pela solidão, Bhai,
na clara noite - toda azul como o deus Krishna -
alheio a tudo, reclinado contra o mar!

Ia tão longe a tênue música, Bhai!
E era no entanto uma pequena melodia
tímida, triste, em dois ou três límpidos sons.

Tão frágil sopro em flauta rústica, Bhai!
- como o da vida em nossos lábios provisórios...
- amor? queixume, pensamento? - nomes no ar...

Ele tocava sem saber que o ouvido, Bhai,
podia haver acompanhado esse momento
da sua rápida presença em frágil voz.

E ia tão longe aquela música, Bhai!
Com quem falava, entre a água e a noite? e que dizia?
(Da vida à morte, que dizemos, Bhai, e a quem?)

Cecília Meireles (1901-1964)
In Poemas Escritos na Índia

Sem composição definida

Maurice Denis
“O ser mais delicado, mais sensível,
não se compara ao que sou.
Sou de papel de seda, asa de borboleta,
casa de caracol, corpo de libélula.
Não tenho composição definida.
Sou etérea, sou completamente mortal”.

Sabrina Davanzo

Crepúsculo

Albert Braut
Crepúsculo da tarde, esta agonia
de cores meigas e de luz magoada
não a compreende a mente rude e fria,
onde a ilusão e a dor não têm pousada.

Mas à alma sonhadora e amargurada
bem familiar é a tua nostalgia:
- Efêmera saudade eternizada
na velhice infantil de cada dia ...

Cada dia a morrer eternamente,
é como o sol que agora já não arde
esta minha alegria descontente.

Ante o cair da noite muda e calma,
é como tu, crepúsculo da tarde,
sempre triste gêmeo de minha alma ...
José Lannes (1895-1956)

24 de dezembro de 2012

Natal

Fra Filippo Lippi
Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno,
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto… A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
“Mudaria o Natal ou mudei eu?”

Machado de Assis (1839-1908)

Natal

Ambrigui Bergognone
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num sótão num porão numa cave inundada
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
dentro de um foguetão reduzido a sucata
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
numa casa de Hanói ontem bombardeada

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num presépio de lama e de sangue e de cisco
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para ter amanhã a suspeita que existe
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Tem no ano dois mil a idade de Cristo

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Vê-lo-emos depois de chicote no templo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
e anda já um terror no látego do vento
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para nos vir pedir contas do nosso tempo.

David Mourão Ferreira (1927-1996)

23 de dezembro de 2012

Natividade

Anita Malfatti - Natividade
"... Dizem que ao chegar a época em que se comemora a Natividade de Nosso Salvador, o pássaro matinal se põe a cantar a noite inteira: nenhum espírito então se atreve a adejar pelo espaço; as noites são saudáveis, os planetas se acalmam; as fadas não atuam, nem as feiticeiras usam o seu poder de encantamento.
Como este tempo é feliz e cheio de graça!"
William Shakespeare (1564-1616)
Hamlet

Brinde no banquete das musas

Sir Lawrence Alma-Tadema
Poesia, marulho e náusea,
poesia, canção suicida,
poesia, que recomeças
de outro mundo, noutra vida.

Deixaste-nos mais famintos,
poesia, comida estranha,
se nenhum pão te equivale:
a mosca deglute a aranha.

Poesia, sobre os princípios
e os vagos dons do universo:
em teu regaço incestuoso,
o belo câncer do verso.

Azul, em chama, o telúrio
reintegra a essência do poeta,
e o que é perdido se salva
Poesia, morte secreta.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

MITOLOGIA

Nöel-Nicolas Coypel (1690-1734)
Europa foi seduzida:
Mas quem pode contra um touro?
Que Danáe seja absolvida:
A Semele perdoemos,
pois que a uma nuvem cedeu:
Uma nuvem que mal vemos
A ninguém comprometeu.

Com Leda o caso é diverso.
Não pode ser perdoada.
Que tola pata não era
Pra ser de um cisne violada!
Heinrich Heine (1797-1856)

22 de dezembro de 2012

QUANTO?

Arnold Böcklin
Quanto há a falar?
a calar?
quanto a esperar?
a sonhar?

Talvez não deva saber.
Apenas viver
o que me é dado ter.
Helen Drumond

MATA-ME

Joseph DeCamp
Mata-me de amores
Não do amor comum
Mas mata-me de amores
Que alma compreende
Mata, o que não sou

Mata-me
Revela o que sou

Mata-me
De amores sons e cores
Ressuscita-me!
Helen Drumond

A Chuva

Jean Beraud
A chuva cata segredos
nas folhas vivas da tarde.
O leve passar do vento,
o lento passar do tempo
nas folhas vivas da tarde.
E a chuva a chuva,
as águas doces da chuva,
no lento apodrecer
das folhas mortas da tarde
vão despertando os segredos da vida.

H. Dobal (1927-2008)