30 de novembro de 2012

Marina Ivánovna Tsvetáyeva (1894-1941)
Poetisa e tradutora russa.
Marina Tsvetaeva nasceu em Moscou em 1892, filha de um filólogo ilustre, de origem plebeia, professor universitário e fundador do Museu Puchkin, e de uma musicista, de ascendência alemã, aristocrata, teve sua infância marcada, como ela mesma diz, pelo exemplo de dedicação ao trabalho e pelo culto à natureza (pai), ao mesmo tempo em que pelo amor à música e à poesia (mãe).
Aos dezesseis anos tem seu primeiro livro de poemas acolhido pela crítica como uma revelação.
A partir deste momento abandona seus estudos musicais e dedica-se em definitivo à poesia. Conhece a fundo a lírica europeia de seu tempo (especialmente a alemã e a francesa), mas são seus conterrâneos, a Rússia e seus temas que suscitam a pujança de sua expressão poética. Após uma vida condicionada por trágicas circunstâncias, como a execução de seu marido Sergei Efron e morte por fome em orfanato de sua Irina, suicidou-se em Kazan, em 1941.
Deixou uma obra poética que foi salva da destruição e do esquecimento por sua filha, Ariadna Efron (1912-1975). Durante o regime soviético permaneceu inédita até depois da II Guerra, quando passou a ser publicada em folhas clandestinas.
Abaixo alguns de seus poemas.
À Vida
Anthony Ross – Alas de Mariposa
Não roubarás minha cor
Vermelha, de rio que estua.
Sou recusa: és caçador.
Persegues: eu sou a fuga.
Não dou minha alma cativa!
Colhido em pleno disparo,
Curva o pescoço o cavalo
Árabe -
E abre a veia da vida.
Marina Tzvietáieva (1892-1941)
Tradução: Haroldo de Campos

Mão esquerda contra a direita

Michelangelo Buonarotti

Mão esquerda contra a direita.
Tua alma e minha alma - tentes.
Fusão, beatitude que abrasa.
Direita e esquerda - duas asas.
Roda o tufão, o abismo fez-se
Da asa esquerda à asa direita.

Marina Tzvietáieva (1892-1941)
Tradução: Haroldo de Campos

A Vladimir Maiakovski

Russian Revolution - Granger
A cima das cruzes e dos topos,
Arcanjo sólido, passo firme,
Batizado a fumaça e a fogo -
Salve, pelos séculos, Vladimir!
Ele é dois: a lei e a exceção,
Ele é dois: cavalo e cavaleiro.
Toma fôlego, cospe nas mãos:
Resiste, triunfo carreteiro.
Escura altivez, soberba tosca,
Tribuno dos prodígios da praça,
Que trocou pela pedra mais fosca
O diamante lavrado e sem jaça.
Saúdo-te, trovão pedregoso!
Boceja, cumprimenta - e ligeiro
Toma o timão, rema no teu voo
Áspero de arcanjo carreteiro.
Marina Tzvietáieva (1892-1941)
Tradução: Haroldo de Campos

29 de novembro de 2012

Comigo me Desavim

Dorothy Visju Anderson
Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.

Com dor, da gente fugia,
Antes que esta assim crescesse:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.

Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho inimigo de mim?

Francisco Sá de Miranda (1481-1558)

Solau À Moda Antiga

Jacob Collins
Senhora, eu vos amo tanto
Que até por vosso marido
Me dá um certo quebranto...

Pois que tem que a gente inclua
No mesmo alastrante amor
Pessoa, animal ou cousa Ou seja lá o que for,
Só porque os banha o esplendor
Daquela a quem se ama tanto?
E sendo desta maneira
Não me culpeis, por favor,
Da chama que ardente abrasa
O nome de vossa rua,
Vossa gente e vossa casa

E vossa linda macieira
Que ainda ontem deu flor...

Mario Quintana (1906-1994)

28 de novembro de 2012

Wladyslaw Theodor Benda
Se sou alegre ou sou triste?…
Francamente, não o sei.
A tristeza em que consiste?
Da alegria o que farei?
Não sou alegre nem triste.
Verdade, não sou o que sou.
Sou qualquer alma que existe
E sente o que Deus fadou.
Afinal, alegre ou triste?
Pensar nunca tem bom fim…
Minha tristeza consiste
Em não saber bem de mim…
Mas a alegria é assim…

Fernando Pessoa (1888-1935)
A foto que está chacoalhando
as mulheres do mundo árabe.
Uma jovem síria postou uma fotografia sem véu no Facebook, e está provocando muito barulho. Uma imagem de mulher jovem está provocando uma formidável controvérsia mundial no Facebook.
É uma foto banal e ao mesmo tempo extremamente provocativa. Banal porque não há nudez nem completa e nem parcial, a não ser que você considere braços de fora alguma coisa no gênero.
Provocativa porque a foto é de uma síria de 21 anos, Dana Bakdounis. Dana postou há poucas semanas uma foto sem véu num grupo criado no Facebook por mulheres árabes em busca de igualdade de direitos.
Nela, segura sua identidade e um bilhete manuscrito que é um pequeno manifesto, intitulado “A primeira coisa que senti quando tirei meu véu”. Nele afirma:
“Estou com o Movimento de Liberação da Mulher Árabe porque, ao longo de 20 anos, não me permitiram sentir o vento em meu cabelo e em meu corpo”.
A foto, ninguém sabe explicar por que, foi uma sensação instantânea. Em pouco tempo, atraiu 1 600 likes, foi compartilhada 600 vezes e foi objeto de 250 comentários. Com isso, o grupo ganhou uma visibilidade que ainda não tinha. Os debates se acirrariam ainda mais pouco depois, quando o Facebook simplesmente tirou a foto do ar, sem explicações, e também bloqueou a conta pessoal de Dana.
Censura? Um ataque à liberdade de expressão? Os protestos tomaram a página do grupo no Facebook, hoje com 70 000 integrantes e transformado num fórum vivo de debates de jovens mulheres ávidas insatisfeitas com sua situação. Uma delas disse: “Se vocês fazem este tipo de censura então não podem reivindicar os méritos pela Primavera Árabe.”
O Facebook acabaria, depois de idas e vindas, liberando a foto, e também a conta de Dana. “Minha vida mudou depois que tirei o véu”, diz ela. “Recebi muitas manifestações de solidariedade de outras mulheres com véu. Elas diziam ter vontade de fazer a mesma coisa, mas acrescentavam que faltava a audácia que tive.”
Meses atrás, quando o então presidente da França Nicolas Sarkozy iniciou na França uma cínica e eleitoreira caça às burcas sob o argumento de que estava ajudando as mulheres árabes, escrevi que era uma falácia. Todos os movimentos históricos de conquista de direitos nasceram das próprias vítimas de injustiça, e não de tutores.
Sempre foi assim, das sufragettes, as mulheres inglesas que lutaram pelo direito ao voto no começo do século passado, aos negros americanos que combateram por sua inclusão social, para ficar em apenas dois casos. A foto de Dana pode ser um sinal de que as mulheres árabes estão efetivamente decididas a batalhar, elas também, por sua própria Primavera. Se for isso, a imagem entrará para a história da humanidade.

Fonte::
Por Paulo Nogueira:( Diário do Centro do Mundo )

Wladyslaw Theodor Benda
Amo-te por sobrancelha, por cabelo,
debato-te em corredores branquíssimos
onde se jogam as fontes de luz,
discuto-te a cada nome,
arranco-te com delicadeza de cicatriz.
Vou te pondo no cabelo
cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam à chuva.

Não quero que tenhas uma forma,
que sejas precisamente o que vem atrás da tua mão,
porque a água, considera a água e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula, e os gestos,
essa arquitetura do nada,
acendendo as lâmpadas a meio do encontro.

Todo amanhã é o quadro onde te invento e te desenho,
disposto a te apagar, assim não és,
muito menos com esse cabelo liso, esse sorriso.
Busco tua soma, a borda da taça
onde o vinho é também a lua e o espelho,
busco essa linha que faz o homem tremer
numa galeria de museu.
Além do mais te amo, e faz tempo e frio.

Julio Cortázar (1914-1984)

27 de novembro de 2012

Simeon Solomon

Simeon Solomon - Night
Simeon Solomon (Londres, 9 de Outubro de 1840 - Londres, 14 de Agosto de 1905). Veio uma proeminente família de judeus. Tinha dois irmãos também pintores: Abraham Solomon (1823-1862) e Rebecca Solomon (1832-1886).
Simeon Solomon revelou-se um artista precoce. Quando tinha dez anos começou a receber lições de pintura do seu irmão Abraham e aos doze anos começou a frequentar a Carey's Art Academy. Em 1854, com catorze anos, ingressou na Royal Academy Schools; a partir de 1857 estabelece amizades com vários artistas da Irmandade Pré-Rafaelita, como Dante Gabriel Rossetti, Algernon Charles Swinburne e Edward Burne-Jones. Os seus primeiros trabalhos, representando passagens bíblicas ou rituais do judaísmo. Outras obras denotam personagens andróginas e alusões homoeróticas.
No dia 13 de Fevereiro de 1873 foi detido por ter relações sexuais com um homem de sessenta anos, George Roberts, num banheiro público de Londres. Os homens foram acusados de indecência e tentativa de praticar sodomia. Ambos foram condenados a dezoito meses de prisão, mas a pena acabou por ser reduzida a vigilância policial para Solomon.
O incidente teria consequências trágicas para a sua carreira artística. A maioria dos seus amigos artistas e donos de galerias acabariam por ostracizá-lo. Tornou-se alcoólico e morre na pobreza em 1905. A sua relevância para o movimento dos pré-rafaelitas foi durante muito tempo esquecida e só recentemente valorizada pelos historiadores de arte.

Veja suas obras no site:
( ArtMagick )

Ao Amor e à Fortuna

Simeon Solomon
Amor e Fortuna são
dois deuses que os antigos
ambos os pintaram cegos;
ambos não seguem razão;
ambos aos mores amigos
dão mores desassossegos;
ambos são sem piedade;
ambos não lhes tomais tino
do querer ou não querer;
ambos não falam verdade:
Amor é cego mínimo,
Fortuna é cega mulher.

Francisco Sá de Miranda (1481-1558)

Sugestão

George Laurence Nelson
Sede assim - qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Flor que se cumpre,
sem pergunta.

Onda que se esforça,
por exercício desinteressado.

Lua que envolve igualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios.

Também como este ar da noite:
sussurrante de silêncios,
cheio de nascimentos e pétalas.

Igual à pedra detida,
sustentando seu demorado destino.
E à nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser.

À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.

Sede assim - qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Não como o resto dos homens.

Cecília Meireles (1901-1964)

26 de novembro de 2012

Pierre Puvis de Chavannes
“Muito além dos conceitos
de malfazer e
bem-fazer
existe um campo.
Lá te encontrarei”.

Jalaludin Rumi (1207-1273)

As Cidades Pequenas

Alois Hans Schramm
As moças das cidades pequenas
com o seu sorriso e o estampado claro de seus
.......................... [vestidos
são as próprias vida. Elas
é que alvorotam a praça. Por elas
é que os sinos festivamente batem, aos domingos.
Por elas, e não para a missa!... Mas Deus não se
.......................... [importa...afinal,
só nessas cidadezinhas humildes
é que ainda o chamam de Deus Nosso Senhor...

Mario Quintana (1906-1994)
In Esconderijos de Tempo

Canção da Despedida

Nathan Altman - Anna Akhmatova
“Não ri e não cantei:
fiquei o dia inteiro calada.
Mais do que tudo queria estar contigo
de novo desde o começo.
Irrefletida a primeira briga,
absoluto e claro delírio;
silenciosa, insensível, rápida,
nossa última refeição”.

Anna Akhmátova (1889-1966)
Tradução: Lauro Machado Coelho

25 de novembro de 2012

Os Mistérios do Ofício

Carl Zewy
De que servem exércitos de canções
e o encanto das elegias sentimentais?
Para mim, na poesia, tudo tem de ser desmesurado,
e não do jeito como todo mundo faz.
Se vocês soubessem de que lixeira
saem, desavergonhados, os versos,
como dente-de-leão que brota ao pé da cerca,
como a bardana ou o cogumelo.
Um grito que vem do coração, o cheiro fresco de alcatrão,
o bolor oculto na parede...
E, de repente, a poesia soa, calorosa, terna,
Para a minha e tua alegria.

Anna Akhmátova (1889-1966)
Tradução: Lauro Machado Coelho

Separação

William Gale
Nem semanas nem meses - anos
levamos nos separando. Eis, finalmente,
o gelo da liberdade verdadeira
e as cinzentas guirlandas na fachada dos templos.

Não mais traições, não mais enganos,
e não me terás mais de ficar ouvindo até o amanhecer,
enquanto flui o riacho das provas
da minha mais perfeita inocência.

Anna Akhmátova (1889-1966)
Tradução: Lauro Machado Coelho

24 de novembro de 2012

Charles Warren Mundy
Nunca sei ao certo
se sou um menino de dúvidas
ou um homem de fé
certezas o vento leva
só dúvidas continuam de pé.

Paulo Leminski (1944-1989)

Morte

Elihu Vedder
Com a perspectiva segura da morte, uma deliciosa, odorosa gota de leviandade poderia ser mesclada a cada vida -- mas vocês, estranhas almas de farmacêutico, dela fizeram uma gota de veneno de mau sabor, com que toda a vida se torna repugnante! )
Friedrich Nietzsche (1844-1900)

Pedro Álvares Cabral

Oscar Pereira da Silva - Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro
O enorme céu que cobre mar e mágoas
e abriga os astros,
sustém meu claro sonho sobre as águas,
velas e mastros.

Um dia hei de encontrar terra ignota:
é assim quem sonha.
E se nenhuma houver em minha rota,
Que Deus a ponha.

Em meio ao longo mar não faço caso
dos dias meus,
Pois tenho a guiar-me o vento ou o puro acaso
e o acaso é Deus.

Carlos Pena Filho (1929-1960)

23 de novembro de 2012

Diane Leonard
A pedra, o vento, a luz alteada,
o salso mar eterno, o grito
do mergulhão, sob o infinito azul:
— Deus não me deve nada.
para acolher a noite

Hélio Pellegrino (1924-1988)

Canção da Primavera

Luciana Teruz - Catavento
Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.

Cata-vento enlouqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do cata-vento
Dancemos todos em bando.

Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo...

Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!

Mario Quintana (1906-1994)

22 de novembro de 2012

Permanência da poesia

Ludwig Knaus
Quando a luz desaparecer de todo,
Mergulharei em mim mesmo e te procurarei lá dentro.

A beleza é eterna.
A poesia é eterna.
A liberdade é eterna.
Elas subsistem, apesar de tudo.

É inútil assassinar crianças. É inútil atirar aos cães os que,
de repente, se rebelam e erguem a cabeça olímpica.
A beleza é eterna. A Poesia é eterna. A liberdade é eterna.
Podem exilar a poesia: exilada, ainda será mais límpida.

As horas passam, os homens caem,
A poesia fica.

Aproxima-te e escuta.
Há uma voz na noite!

Olha:
É uma luz na noite!

Emílio Moura (1902-1971)

Grão de Chão

Benedito Calixto
Folha, mas viva na árvore,
fazendo parte do verde.
Não a folha solta,
bailando no vento
a canção da agonia.

Grão de areia, quase nada,
Inútil quando sozinho.
Mas que é terra,
a terra,
quando é grão
fazendo parte do chão,
esta coisa firme
por onde o homem caminha.

Thiago de Mello

21 de novembro de 2012

Momento

Edward Cucuel
Nesta hora humilde, Senhor,
é em vão que procuro em mim
todos os vestígios de minha loucura.
Os caminhos voltaram a ser tranquilos e luminosos.

Olha como esta água é pura.

Emílio Moura (1902-1971)