31 de outubro de 2012

Tema e Voltas

Edward Robert Hughes
Mas para que tanto sofrimento,
se nos céus há o lento
deslizar da noite.

Mas para que tanto sofrimento,
se lá fora o vento
é um canto da noite?

Mas para que tanto sofrimento,
se agora, ao relento.
cheira a flor da noite.

Mas para que tanto sofrimento,
se meu pensamento
é livre na noite?

Manuel Bandeira (1886-1968)

As Estações Humanas

Paul Cézanne - Seasons
Quatro estações se sucedem no decurso do ano;
quatro estações tem o homem na vida;
tem ele sua Primavera ardente, quando a fantasia
absorve toda a beleza com facilidade;
tem seu Verão, quando voluptuosamente
rumina os doces pensamentos juvenis da Primavera
e, assim, sonhando alto, aproxima-se do céu;
grutas quietas tem a alma em seu outono,
quando as asas ele fecha, satisfeito em contemplar
as brumas, indolente, deixando as coisas belas
passarem imperturbadas como um riacho veloz.
Tem também seu Inverno, desfigurado e pálido,
sem o qual se veria privado de sua natureza mortal.

John Keats (1795-1821)

30 de outubro de 2012

Leonid Afremov
Sem me falar
Sem me olhar
Levantou-se
Pôs
o chapéu na cabeça
Vestiu
a capa de chuva
porque chovia
E saiu
Debaixo de chuva
Sem uma palavra
Sem me olhar
Quanto a mim pus
a cabeça entre as mãos
E chorei.

Jacques Prévert (1900-1977)
Franz Dvorak - In the Orchard
Quem pode livre ser, gentil Senhora,
Vendo-vos com juízo sossegado,
Se o Menino que de olhos é privado
Nas meninas de vossos olhos mora?

Ali manda, ali reina, ali namora,
Ali vive das gentes venerado;
Que o vivo lume e o rosto delicado
Imagens são nas quais o Amor se adora.

Quem vê que em branca neve nascem rosas
Que fios crespos de ouro vão cercando,
Se por entre esta luz a vista passa,

Raios de ouro verá, que as duvidosas
Almas estão no peito trespassando
Assim como um cristal o Sol trespassa.

Luís Vaz de Camões (1524-1589)

29 de outubro de 2012

Jorge Luis Alio
“Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão.

E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim”.

Chico Buarque

A sós para mim e para ti também

Edvard Munch - Lovers on the beach
A sós
para mim
e para ti também,
quer dizer: eu e tu,
quer dizer: nós.

Nós assim,
sem ninguém...
Quando eu e tu
nos encontramos,
eu só, tu só,
de repente passamos
a ser nós,
e como sozinhos já não ficamos,
ficamos a sós...

Eu e tu
a sós,
seja lá onde for,
quer dizer: nós
e nosso amor...

J. G. de Araujo Jorge (1914-1987)

28 de outubro de 2012

Felicidade

Charles Edward Perugini
Ó felicidade de ser nesta hora fixa
a luminosa forma de um sonho;
talvez a vida, quem sabe, não passasse
desse esquecimento e dessa ausência de luta.

Eu sei, a luz nunca demora.
Há um estágio marcado para as festas.
Mas se ainda me vejo capaz dessa ambição,
que importa, o que é, que importa,
se efêmero sou mais forte
do que tudo o que eterno é sempre em mim?

Lúcio Cardoso (1912-1968)
Edward Kienholz - O Restaurante
Era o relógio de meu avô
e quando o ganhei de meu pai ele disse
Estou lhe dando o mausoléu
de toda esperança e todo desejo.

Dou-lhe este relógio não para
que você se lembre do tempo,
mas para que você possa esquecê-lo
por um momento de vez em quando
e não gaste todo o seu fôlego
tentando conquistá-lo.

William Faulkner (1897-1962)
O som e a fúria.

27 de outubro de 2012

René Magritte
A terra leva-nos por terra;
mas tu, mar,

levas-nos pelo céu.

Juan Ramón Jiménez (1881-1958)
Lord Frederick Leighton
Desordem na alma
que se atropela
sob esta carne
que transparece.
Desordem na alma
que de ti foge,
vaga fumaça
que se dispersa,
informe nuvem
que de ti cresce
e cuja face
nem reconheces.
Tua alma foge
como cabelos,
unhas, humores,
palavras ditas
que não se sabe
onde se perdem
e impregnam a terra
com sua morte.
Tua alma escapa
como este corpo
solto no tempo
que nada impede.
Procura a ordem
que vês na pedra:
nada se gasta
mas permanece.
Essa presença
que reconheces
não se devora
tudo em que cresce.
Nem mesmo cresce
pois permanece
fora do tempo
que não a mede,
pesado sólido
que ao fluido vence,
que sempre ao fundo
das coisas desce.
Procura a ordem
desse silêncio
que imóvel fala:
silêncio puro
. de pura espécie,
voz de silêncio,
mais do que a ausência
que as vozes ferem.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

26 de outubro de 2012

Gustav Klimt – Mountain slope at Unterach
A solidão era eterna
E o silêncio inacabável.

Detive-me com uma árvore
e ouvi falar as árvores.

Juan Ramón Jiménez (1881-1958)

25 de outubro de 2012

“Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante. Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do Mundo. Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio. Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo”.
Dom Hélder Câmara (1909-1999)

A Vidraça

Joann Vitali
Chuvas puras, esperadas mulheres,
O rosto que lavais,
De vidro condenado aos sofrimentos,
É o rosto do revoltado;
O outro, fremindo ao fogo da lareira,
É a vidraça do afortunado.

Vos quero bem, ó duplice mistério,
A um e outro estou ligado;
Dói-me tanto e me sinto bem.

René Char (1907-1988)
Tradução: Cláudio Veiga

Poesia vestida de azul

Marc Chagall
Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas.
Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.
E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.
E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.

Carlos Pena Filho (1929-1960)

Vladimir Herzog

Hoje - 37 Anos da morte de Vladimir Herzog
Vlado Herzog (1937-1975). Jornalista, professor da USP (Universidade de São Paulo) e teatrólogo.
Torturado e assassinado na noite do dia 24 de outubro de 1975 na sede do DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações/ Centro de Operações de Defesa Interna), em São Paulo, falecendo no dia seguinte.
A versão oficial da época, ele teria se enforcado com o cinto do macacão de presidiário. Agora, 37 anos depois o Tribunal de Justiça de São Paulo determinou que o atestado de óbito do jornalista Vladimir Herzog seja retificado, para constar do documento que a morte dele “decorreu de lesões e maus-tratos sofridos em dependência do II Exército – SP (DOI-Codi)”. O juiz Márcio Martins Bonilha Filho, da 2ª Vara de Registros Públicos do TJ-SP, atendeu, assim, a expediente de iniciativa da Comissão Nacional da Verdade, criada para esclarecer as violações de direitos humanos no período da ditadura militar.
O juiz destacou, em sua decisão, a deliberação da Comissão Nacional da Verdade “que conta com respaldo legal para exercer diversos poderes administrativos e praticar atos compatíveis com suas atribuições legais, dentre as quais recomendações de ‘adoção de medidas destinadas à efetiva reconciliação nacional, promovendo a reconstrução da história’." E completou: "à luz do julgado na Ação Declaratória, que passou pelo crivo da Segunda Instância, com o reconhecimento da não comprovação do imputado suicídio, fato alegado com base em laudo pericial que se revelou incorreto, impõe-se a ordenação da retificação pretendida no assento de óbito de Vladimir Herzog”.

24 de outubro de 2012

Mary Harding
Lembro, o fogo aceso
no fundo da caverna
ou na clareira da mata,
o chamado das estrelas,
a lua errante, ensanguentada.
Lembro das palavras murmuradas.
Lembro, enquanto viro as páginas
do livro, da vida, toda lembrança
da humanidade é minha.
Roseana Murray

23 de outubro de 2012

Thomas Dewing
Talvez o vento saiba dos meus passos,
das sendas que os meus pés já não abordam,
das ondas cujas cristas não transbordam
senão o sal que escorre dos meus braços.
As sereias que ouvi não mais acordam
à cálida pressão dos meus abraços,
e o que a infância teceu entre sargaços
as agulhas do tempo já não bordam.
Só vejo sobre a areia vagos traços
de tudo o que meus olhos mal recordam
e os dentes, por inúteis, não concordam
sequer em mastigar como bagaços.
Talvez se lembre o vento desses laços
que a dura mão de Deus fez em pedaços.

Ivan Junqueira

A Morte Chega Cedo

John William Godward
A morte chega cedo,
Pois breve é toda vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida.

O amor foi começado,
O ideal não acabou,
E quem tenha alcançado
Não sabe o que alcançou.

E tudo isto a morte
Risca por não estar certo
No caderno da sorte
Que Deus deixou aberto.
Fernando Pessoa (1888-1935)
Sir Lawrence Alma-Tadema
Preciso ler um bom poema antes
de dormir
antes que a noite encerre o
diário inventário das lembranças
antes que o sono cale a boca e olhar, antes
que o prumo caia
horizontal.
Preciso ler um bom poema antes
que seja tarde
que fique escuro
que chegue o frio.
Ler um bom poema
antes que a morte venha
e escreva o seu.

Marina Colasanti

22 de outubro de 2012

Sarabanda

Manuel Ruiz Guerrero
Desejo um poema casto e solene
Feito o olhar de quem despojado
Apenas vê o céu com lentas nuvens
Fugidias pelo silêncio, um poema que mergulhe
No azulado encanto da noite ainda vacilando
Sob a luz das primeiras estrelas
Quando nascem, longínquas,
entre as aves que soem passar
Na mudança de estação,
desejo um poema que muito possuindo
A nada mais se curve se não ao desengano,
E seja como a ausência da parede e do ornato
Modelando aquele amplo vazio da janela
Que livre se entrega ao que não a cinge
Em seu contorno, um poema desse modo
Cujo movimento celebre tranquilo e sem consolo
Por saber tal perda para sempre
E que o sangue nela flui, um poema,
Um náufrago que indague o mar
Sem madeiros, e guarde sua derradeira força
A fim de contemplar a fria beleza das vagas.

José Paulo Moreira da Fonseca (1922 -2004)

Para Além da Curva da Estrada

Peder Mork Monsted
Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva.
Só olho para a estrada antes da curva.
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada
Antes da curva.
De nada me serviria estar olhando
para outro lado
E para aquilo que não vejo.
importemo-nos apenas com o lugar
onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra
parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para
além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá
chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva,
e antes da curva
Há estrada sem curva nenhuma.
Medo da Morte?
Alberto Caeiro
Fernando Pessoa (1888-1935)

21 de outubro de 2012

Texto Futuro

Tela Oliver Ray
O que vão descobrir em nossos textos,
não sabemos.
Temos intenções, pretensões inúmeras.
mas o que vão descobrir em nossos textos,
não sabemos.

Desamparado o texto,
desamparado o autor,
se entreolham, em vão.
Órfão,
o texto aguarda alheia paternidade.
Órfão,
o autor considera
entre o texto e o leitor
- a desletrada solidão.

Affonso Romano de Sant'Anna

A criança

William Affleck
Que tens criança?
O areal da estrada
Luzente a cintilar
Parece a folha ardente de uma espada.
Tine o sol nas savanas.

Morno é o vento.
À sombra do palmar
O lavrador se inclina sonolento.

É triste ver uma alvorada em sombras,
Uma ave sem cantar,
O veado estendido nas alfombras.
Mocidade, és a aurora da existência,
Quero ver-te brilhar.
Canta, criança, és a ave da inocência.

Tu choras porque um ramo de baunilha
Não pudeste colher,
Ou pela flor gentil da granadilha?
Dou-te, um ninho, uma flor, dou-te uma palma,
Para em teus lábios ver
O riso — a estrela no horizonte da alma.

Não. Perdeste tua mãe ao fero açoite
Dos seus algozes vis.
E vagas tonto a tatear a noite.
Choras antes de rir... pobre criança!...
Que queres, infeliz?...
— Amigo, eu quero o ferro da vingança.

Castro Alves (1847-1871)

20 de outubro de 2012

Onde estava a Poesia?

William-Adolphe Bouguereau
E a Poesia?
Onde estava a verdadeira Poesia?
A que deixava
na praia longa e louca de ventania,
um rasto a sinais enigmáticos
de mulher descalça.

José Gomes Ferreira (1900-1985)

Mínima poética

Sir Edward John Poynter
Poesia como forma de dizer
o que de outras formas é omitido—
não de calar o que se vive e vê
e sente por vergonha do sentido
. Poesia como discurso completo,
ao mesmo tempo trama de fonemas,
artesanato de éter, e projeto
sobre a coisa que transborda o poema
(se bem que dele próprio projetada).
Palavra como lâmina só gume
que pelo que recorta é recortada,
cinzel de mármore, obra e tapume:
a fala —esquiva, oblíqua, angulosa-
do que resiste á retidão da prosa.

Paulo Henriques Britto

19 de outubro de 2012

Idealismo
Leopold Franz Kowalski
Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor da Humanidade é uma mentira.
É. E é por isto que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.
O amor!
Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
É o amor do sibarita e da hetaíra,
De Messalina e de Sardanapalo?!
Pois é mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique imaterializado
— Alavanca desviada do seu fulcro
—E haja só amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!

Augusto dos Anjos (1884-1914)