30 de setembro de 2012


“Me leia enquanto estou quente”.
Lygia Fagundes Telles
Gustavo Dallara
“Fica contente, amor, fica contente. Eu queria tanto que as pessoas todas fossem mais contentes, é tão bom ficar contente. A gente vê na rua todo mundo tão triste, por que as pessoas estão tristes? Ahn? Queria tanto sair por aí alegrando as pessoas, olha, não fique triste, segura minha mão e vem comigo que te mostro o jardim da alegria com Deus lá dentro, vem”.
Lygia Fagundes Telles

29 de setembro de 2012

Richard Ansdell
A Montanha por achar
Há de ter, quando a encontrar
Um templo aberto na pedra
Da encosta onde nada medra.

O santuário que tiver
Quando o encontrar, há de ser
Na montanha procurada
E na gruta ali achada.

A verdade, se ela existe
Ver-se-á que só consiste
Na procura da verdade
Porque a vida é só metade.

Fernando Pessoa (1888-1935)

Barca Bela

Van Gohg
Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela.
Que é tão bela,
Oh pescador?
Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!
Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador!
Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela,
Só de vê-la,
Oh pescador.
Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela
Foge dela
Oh pescador!

Almeida Garret (1799-1854)

28 de setembro de 2012

Ruazinha

(Max Weber)
Ruazinha que eu conheço apenas
Da esquina onde ela principia...

Ruazinha perdida, perdida...
Ruazinha onde Marta fia...

Ruazinha em que eu penso às vezes
Como quem pensa numa outra vida...

E para onde hei de mudar-me, um dia,
Quando tudo estiver perdido...

Ruazinha da quieta vida...
Tristonha... tristonha...

Ruazinha onde Marta fia
e onde Maria, na janela, sonha...

Mario Quintana (1906-1994)

Flor das Vagas

Michel Rauscher
Vai a barca do mundo à flor das vagas
No seu mar de tormentas;
Gemem os remadores,
Mordidos pelo beijo de chicote;
E tu, poeta, como um sacerdote,
Da bonança,
A conjurar o mal,
A cantar,
Sem nenhum desespero,
Te desesperar!
Sabe cada ternura a pão azedo
Os acenos são olhos disfarçados;
E os teus versos,
Gratuitos, desfolhados,
Sobre as chagas da vida
Como pensos sagrados
De beleza calmante e condoída!

Que humanidade tens, irmão?
De onde te vem a força, a decisão
E esse gosto de nunca desertar?
És o Cristo, talvez...
Um Cristo sem altar
Que ficaste a lutar
Junto de nós,
Tão presente, real e natural,
Que podemos ouvir-lhe a própria voz.

Miguel Torga (1907-1995)

27 de setembro de 2012

Delírio

(Peter Nixon)
No parque morno, um perfumista oculto
ordenha heliotrópios...
Deixa aberta a janela...

Minhas mãos sabem de cor o teu corpo,
e a alcova é morna...
Apaguemos a luz...

Não sentes na tua boca
um gosto de papoulas?...

Passa o lenço de seda de tuas mãos
sobre minha fronte,
e não me digas nada:
a febre está, baixinho, ao meu ouvido,
falando de ti...

João Guimarães Rosa (1908-1967)

A Cidade

Alfredo Volpi
Uma cidade não é medida
por becos e logradouros,
nem lembra contas e cálculos
que a gente parte e reparte.

A cidade é o que fica:
solidão, engenho e arte.

Uma cidade é um rosário,
voltando sempre ao começo.
Não é o filho querido,
que quando cresce evapora.

A cidade é o que se conta
no calcanhar da memória.

Luís Pimentel

26 de setembro de 2012

Solidão

William Etty
Ó irmãos! Na solidão, minha paz reside.
Pois, se estou só, meu Amado está comigo.
Percorri mundos, e nunca encontrei
O que pudesse com esse Amor rivalizar.

É Ele o deserto sem limites,
Onde as areias de meu afeto erguem dunas.

Se, de amor, eu viesse a morrer um dia,
Porém deixasse meu Amado insatisfeito,
Ainda que morta, por amor, eu viveria,
Mas morrendo, em eterno desespero.

Largar tudo para alcançar apenas Ele:
Tal é minha meta e meu caminho.

Rabia al-Adawiyya (717–801)
Walter Crane
Amor, que o gesto humano na alma escreve,
Vivas faíscas me mostrou um dia,
Donde um puro cristal se derretia
Por entre vivas rosas e alva neve.

A vista, que em si mesma não se atreve,
Por se certificar do que ali via,
Foi convertida em fonte, que fazia
A dor ao sofrimento doce e leve.

Jura Amor que brandura de vontade
Causa o primeiro efeito; o pensamento
Endoudece, se cuida que é verdade.

Olhai como Amor gera, num momento
De lágrimas de honesta piedade,
Lágrimas de imortal contentamento.

Luís Vaz de Camões (1524-1589)

Essa Dona

Paul Gauguin
Cada ruga em minha cara
é uma história bonita
contada pela vida.

O espelho revela
o tamanho da trilha percorrida:
picadas em mato fechado, estradas pavimentadas,
atalhos, becos sem saída.

Gosto de ver de frente
esta cara de mulher madura,
onde o tempo inaugura nova idade
de descobertas e perplexidades.

Quando menina, pensava:
Estarei pronta um dia,
acabada, sem espantos,
dona dos conselhos e verdades.

No entanto, sou recém-nascida agora,
nesse meu tempo,
em que meninas me chamam de senhora.

Lena Jesus Ponte

25 de setembro de 2012

O ovo de galinha

Jos van Riswick
O ovo revela o acabamento
a toda mão que o acaricia,
daquelas coisas torneadas
num trabalho de toda a vida.

E que se encontra também noutras
que entretanto mão não fabrica:
nos corais, nos seixos rolados
e em tantas coisas esculpidas

cujas formas simples são obra
de mil inacabáveis lixas
usadas por mãos escultoras
escondidas na água, na brisa.

No entretanto, o ovo, e apesar
de pura forma concluída,
não se situa no final:
está no ponto de partida.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

José Dirceu

José Dirceu de Oliveira e Silva
(Passa-Quatro, 16 de março de 1946)
José Dirceu em 4 fotos:
Com 19 anos, 22 anos e 25 anos
Atualmente.
Por que a mídia, principalmente a Globo, odeia o José Dirceu?
Pelos seguintes motivos:
1 - Foi Dirceu, quando Ministro da Casa Civil, (chefe do Gushiken), que deu a ideia de se regular as mídias. Criar uma Ley De Medios, e a Globo não perdoa.

2 - Foi Dirceu que acabou com a farra da Globo. Antes de Lula, toda a verba de publicidade do governo era dividida somente entre 499 veículos.

3 - E para cada R$ 1,00 de verba publicitária do governo, a Globo ficava com R$ 0,80 (80%).

4 - Dirceu redistribuiu a verba publicitária do governo entre quase 9.000 veículos. Antes eram só 499. Agora, Globo só recebe 16% do total.

5 - Foi ideia do José Dirceu criar o Ministério das Cidades que acabou com o poder dos coronéis locais. Oposição e velha mídia não perdoam.

6 - Foi Dirceu quem acabou com a farra dos livros didáticos que eram publicados pela Editora Abril e Fundação Roberto Marinho.

7 - Foi Dirceu que articulou e viabilizou a governabilidade do governo Lula.

8 - Foi Dirceu que BARROU Demóstenes de ser o Secretário Nacional de Justiça. Demóstenes e Cachoeira se juntaram para "ferrar" Dirceu.

9 - Por que Dirceu sofre perseguição do Ministério Público? Em 2004, foi ideia de Dirceu de se criar um controle externo sobre o MP.

10 - Por que Cesar Peluso não gosta de Dirceu? Márcio Thomaz Bastos indicou a Lula o nome de Peluso para o STF. Dirceu barrou. Márcio Thomaz Bastos forçou a barra.

11- Dirceu, quando Ministro Chefe Casa Civil, fechou as portas do BNDES à mídia: "dinheiro só para fomentar desenvolvimento, jamais pagar dívidas".

12 - Dirceu fez o BNDES parar de financiar as privatizações e deixar de ser hospital para empresas privadas falidas.
Fonte: Contexto Livre

Hoje, 12 de novembro de 2012 0 STF condena José Dirceu a 10 anos, 10 meses e dez dias (tudo 10) de prisão sem que o Procurador Geral e nem o relator do caso apresentaram provas que pudessem resultar na sua condenação.
Pior do que isso, para condená-lo utilizaram-se do argumento jurídico do “domínio do fato”, teoria do jurista alemão Claus Roxin. Segundo ele, o autor não é só quem executa o crime, mas quem tem o poder de decidir sua realização e/ou faz o planejamento estratégico para que ele aconteça.
Roxin, porém, registrou que, no caso do Mensalão, sua teoria não permite ausência de provas. “Quem ocupa posição de comando tem que ter, de fato, emitido a ordem. E isso deve ser provado”, disse. O que contradiz o argumento de Barbosa. Mas para satisfazer a mídia e encobrir a guerra civil que acontece em São Paulo, onde o PCC está ganhando desviam toda atenção para josé Dirceu. Simples assim.

24 de setembro de 2012

Certeza

Lorenzo Mattotti
Se te falo é para melhor te ouvir.
Se te ouço estou certo de ter compreendido

Se sorris é para melhor me invadir
Alcanço o mundo inteiro se me sorris

Se me uno a ti é para me continuar
Se vivermos tudo será como gostamos

Se eu te deixo recordar-nos-emos
E ao deixar-nos voltaremos a reencontrar-nos.

Paul Éluard (1895-1952)
Tradução: Maria Gabriela Llansol

Primavera

A Primavera
Charles Ward
Há sobre a praia alguns charcos d'água
Há nos bosques árvores loucas por aves
A neve liquefaz-se na montanha
Os ramos das macieiras luzem de tanto florir
Que o sol pálido recua diante de tanta primavera

Foi numa noite de inverno num mundo tão cruel
Que eu vi à beira da inocente que tu és
Não existe noite no nosso firmamento
Nada do que perece tem mando de ti
E tu não queres ter frio

A nossa primavera é uma primavera que tem razão.

Paul Éluard (1895-1952)
Tradução: Maria Gabriela Llansol

23 de setembro de 2012

Primavera

A Primavera
Laurent Joseph Daniel Bouvier
Primavera gentil dos meus amores,
- Arca cerúlea de ilusões etéreas,
Chova-te o Céu cintilações sidéreas
E a terra chova no teu seio flores!

Esplende, Primavera, os teus fulgores,
Na auréola azul dos dias teus risonhos,
Tu que sorveste o fel das minhas dores
E me trouxeste o néctar dos teus sonhos!

Cedo virá, porém, o triste outono,
Os dias voltarão a ser tristonhos
E tu hás de dormir eterno sono,

Num sepulcro de rosas e de flores,
Arca sagrada de cerúleos sonhos,
Primavera gentil dos meus amores!

Augusto dos Anjos (1884-1914)

Primavera

A Primavera
James Jebusa Shannon
Floriu da noite pro dia
lindas flores são aquelas,
flores que você colhia
rosas brancas e amarelas.

Floriu em tempo de flores
no início da primavera,
flores para os meus amores
nunca vi flores tão belas.

Só vi uma flor igual...
a que eu tinha na lapela,
de tão usada murchou.

Flor que plantei no quintal
colhi pra ofertar a ela,
ela, que é meu doce amor.

Antonio Hugo

22 de setembro de 2012

Canta poeta

Tom Roberts
Canta, poeta, canta
Violenta o silêncio conformado
Cega com outra luz a luz do dia
Desassossega o mundo sossegado
Ensina a cada alma a sua rebeldia.

Miguel Torga (1907-1995)
(Pierre Auguste Renoir)
Minuto a minuto
quis
um dia
todo azul
no teu dia.

Meu querer
quero crer
azulou
teu dia a dia
tudo
que podia.
Alice Ruiz

21 de setembro de 2012

Nada no mundo se repete

Anita Malfatti- O barco
Nada no mundo se repete.
Nenhuma hora é igual à que passou.
Cada fruto que vem cria e promete
Uma doçura que ninguém provou.

Mas a vida deseja
Em cada recomeço o mesmo fim.
E a borboleta, mal desperta, adeja
Pelas ruas floridas do jardim.

Homem novo que vens, olha a beleza!
Olha a graça que o teu instinto pede.
Tira da natureza
O luxo eterno que ela te concede.

Miguel Torga (1907-1995)

Mágoa

Van Gohg
Medas de trigo ao sol – Agosto.
Tudo o calor do sonho amadurece;
Só a verde amargura do meu rosto
Permanece.

Até me lembro que não sou da vida!
Que não pertence à terra esta tristeza...
Que sou qualquer desgraça acontecida
Fora do seio-mãe da natureza.

E contudo não sei de criatura
Que mais deseje ter esta alegria
De um fruto azedo que arrancou doçura
Do céu, das pedras e da luz do dia.

Miguel Torga (1907-1995)

20 de setembro de 2012

A semântica das rosas

Wilhelm Menzler Casel
O signo rosa significa a rosa
a rosa em si mora no mundo
e é no fundo a flor da metaflora
que só floresce nos jardins suspensos
de Platão
(assim, se não se sabe se uma pena
é uma pena ou é uma pena
também nunca se sabe se uma rosa
é uma rosa ou é somente a insígnia
o enigma ou a senha ou a metáfora
significando alguma outra rosa).

Em suma, cada signo é uma ponte
entre a palavra, seu império
e cada rosa sempre indecifrada
em seu mistério.
E falta.

Geraldo Carneiro

O que eu fui

Joan Miró
O que eu fui o que é?
Relembro vagamente
O vago não sei quê
Que passei e se sente.

Se o tempo é longe ou perto
Em que isso se passou,
Não sei dizer ao certo,
Que nem sei o que sou.

Sei só que me hoje agrada
Rever essa visão
Sei que não vejo nada
Senão o coração.

Fernando Pessoa (1888-1935)

19 de setembro de 2012

Autonálise

Edward Lamson Henry
Te cansas disto, deste
engenho
há poemas em demasia
duas paredes de estantes uma escrivaninha
uma arca repleta de poemas

Tuas cartas se convertem em poemas
teus poemas em insensatezes
em breve não haverá
ninguém a quem escrever
então objetarás que andam te interpretando mal.

Michael Dransfield (1948-1973)
Edward Cucuel
O tempo nos parques é
íntimo, inadiável, imparticipante, imarcescível.
Medita nas altas frondes,
na última palma da palmeira
Na grande pedra intacta,
o tempo nos parques.

O tempo nos parques cisma no olhar cego dos lagos
Dorme nas furnas, isola-se nos quiosques
Oculta-se no torso muscular dos fícus,
o tempo nos parques.

O tempo nos parques gera
o silêncio do piar dos pássaros
Do passar dos passos,
da cor que se move ao longe.

É alto, antigo, presciente o tempo nos parques
É incorruptível; o prenúncio de uma aragem
A agonia de uma folha, o abrir-se de uma flor
Deixam um frêmito no espaço do tempo nos parques.

O tempo nos parques envolve de redomas invisíveis
Os que se amam; eterniza os anseios, petrifica
Os gestos, anestesia os sonhos, o tempo nos parques.

Nos homens dormentes,
nas pontes que fogem, na franja
Dos chorões, na cúpula azul o tempo perdura
Nos parques; e a pequenina cutia surpreende
A imobilidade anterior desse tempo no mundo
Porque imóvel, elementar, autêntico, profundo
É o tempo nos parques.

Vinícius de Moraes (1913-1980)