31 de agosto de 2012

A Lua

Michael Parkes

Lua mulher:
Há uma grande afinidade
Entre as musas a Virgem Maria e a lua
Talvez o demônio não tenha penetrado na lua
Talvez que a lua não seja tão bela
Como é vista da terra

Não é possível ser poeta sem a lua
A lua influi sobre a afetividade
Não é possível haver amor sem lua:
Sem a lua o mundo acabaria.

Que brancura de lua sobre a pedra.

Murilo Mendes (1901-1975)
Rodolfo Amoedo - O Ultimo Tamoyo
Nos recôncavos da vida
jaz a morte.
Germinando
no silêncio.
Floresce
como um girassol no escuro.
De repente vai se abrir.
No meio da vida, a morte
jaz profundamente viva.

Thiago de Mello

30 de agosto de 2012

Annie Stegg Bryce
Memória é coisa recente.
Até ontem, quem lembrava?
A coisa veio antes,
ou, antes, foi a palavra?
Ao perder a lembrança,
grande coisa não se perde.
Nuvens, são sempre brancas.
O mar? Continua verde.

Paulo Leminski (1944-1989)

A Rua, o Homem.

MC Escher (1898-1972)
É uma rua enorme e silenciosa.
Ando no escuro e tropeço e caio
e me levanto e piso com pés cegos
as pedras mudas e as folhas secas
e alguém atrás de mim também as pisa:
se me detenho, se detém;
se corro, corre. Volto o rosto: nada.
Tudo está escuro e sem saída,
e dou voltas e voltas em esquinas
que dão sempre à rua
onde nada me espera nem me segue,
onde eu sigo a um homem que tropeça
e se levanta e diz ao me ver: nada.

Octavio Paz (1914-1998)

29 de agosto de 2012

William Affleck
“Os verdadeiros dias de festa para nós, são aqueles em que vencemos uma tentação; em que atiramos para bem longe de nós o orgulho, o medo, a maldade, a inveja, o egoísmo, a indolência, o luxo, a obscenidade de palavras, ou qualquer outro dos demais vícios que nos escravizam”.
Epiteto (55-135)
Filósofo grego estóico.

A Dança e a Alma

Maximilian Lenz
A Dança? Não é movimento,
súbito gesto musical.
É concentração, num momento,
da humana graça natural.
No solo não, no éter pairamos,
nele amaríamos ficar.
A dança – não vento nos ramos:
seiva, força, perene estar.
Um estar entre céu e chão,
novo domínio conquistado,
onde busque nossa paixão
libertar-se por todo lado...
Onde a alma possa descrever
suas mais divinas parábolas
sem fugir à forma do ser,
por sobre o mistério das fábulas.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

28 de agosto de 2012

Exausto

Rodolfo Amoedo
Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

Adélia Prado
Janet Hill
Hoje dói-me pensar,
dói-me a mão com que escrevo,
dói-me a palavra que ontem disse
e também a que não disse,
dói-me o mundo.
Há dias que são como espaços preparados
para que tudo doa.
Só deus não me dói hoje.
Será porque hoje ele não existe?

Roberto Juarroz (1925-1995)

Dos Cuidados

Paulo Zerbato
Há coisas
do coração
que a gente sente
e não explica

o infarto
por exemplo.

Ademir Antonio Bacca

27 de agosto de 2012

Thomas Couture
Quem pouco furta é ladrão
Quem muito furta é barão
Quem muito furta e muito esconde
Passa de barão a visconde.
E viva a monarquia!
(E os ladrões de qualquer sistema de governo)

Rui Barbosa (1849-1923)

Da Realidade

Edvard Munch
Na partilha
das minhas mágoas
não apareceu viva alma
interessada.

Ademir Antonio Bacca
do livro: “Inventário de Emoções”

26 de agosto de 2012

Albert Joseph Moore
“O rio não precisa ser nosso;
a água não precisa ser nossa.
A água anônima conhece todos os meus segredos.
E a mesma lembrança jorra de cada fonte”.

Gaston Bachelard (1884-1962)
Alonzo Perez
Que a terra me floresça nas ações
como no ouro suculento das vinhas,
que perfume a dor de minhas canções
como um fruto esquecido na campina.

Que me transcenda a carne a semeadura
ávida de brotar por toda parte,
que minhas artérias levem água pura,
água que canta quando se reparte!

Desnudo quero estar sobre sarmentos,
pisado pelos cascos inimigos,
quero me abrir e repartir sementes
de pão, eu quero ser de terra e trigo!

Pablo Neruda (1904-1973)

25 de agosto de 2012

Segredo

Andorinha no fio
Escutou um segredo
Foi à torre da Igreja.
Cochichou com o sino.
E o sino bem alto:
delém-dem
delém-dem
delém-dem
delém-dem!

Toda a cidade
Ficou sabendo.

Henriqueta Lisboa (1901-1985)

Outro serei amanhã

Henry Thomas Schafer
Quando o silêncio pousar
Na rosa branca dos ventos
Rosa de espuma e luar.
Outro serei, quando as aves
Voltarem da tempestade,
Trazendo a luzir na treva
Sementes de eternidade.
Outro serei, quando a noite,
Como nunca, de mansinho,
Vier espreitar-me os passos,
Junto à incerteza e ao caminho.
Outro serei amanhã
E entre dois esquecimentos
Levarei meu sorriso
E a rosa dos ventos.

Paulo Bonfim

24 de agosto de 2012

Prohorov Semen
Quisera o canto jubiloso
que corresse por dentro de minhas palavras.
Como um rio destampado corresse para os
campos.
Manoel de Barros

Dia de São Bartolomeu

Detalhe: de “Juízo Final”, Michelangelo, Capela Sistina
São Bartolomeu, mártir queimado vivo, segura sua pele arrancada.
O rosto na pele é um autorretrato de Michelangelo.
São Bartolomeu é o padroeiro dos padeiros, dos alfaiates e dos sapateiros.
Ele representa um dos fatos históricos mais chocantes da intolerância religiosa. O assassinato de milhares dos protestantes pelos católicos, em Paris, na França, na noite de 24 para 25 de agosto de 1572. O ato de violência ficou conhecido como o Massacre da Noite de São Bartolomeu.
As cenas de barbárie foram retratadas no filme Rainha Margot (1994), de Patrice Chéreau com Isabelle Adjani e Daniel Auteuil.

23 de agosto de 2012

E o resto é silêncio

E então ficamos os dois em silêncio, tão quietos
como dois pássaros na sombra, recolhidos
ao mesmo ninho,
como dois caminhos na noite, dois caminhos
que se juntam
num mesmo caminho...
Já não ouso... já não coras...
E o silêncio é tão nosso, e a quietude tamanha
que qualquer palavra bateria estranha
como um viajante, altas horas...
Nada há mais a dizer, depois que as próprias mãos
silenciaram seus carinhos...
Estamos um no outro
como se estivéssemos sozinhos...

J. G. de Araujo Jorge (1914-1987)

Cem Anos de Nelson Rodrigues

Nelson Rodrigues
(Recife, 23 agosto 1912 - Rio de Janeiro, 21 dezembro 1980).
Dramaturgo, jornalista e escritor brasileiro.
Foto de Nelson Rodrigues
“Tarado é toda pessoa normal pega em flagrante”.
Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos.
Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível.
Dinheiro compra tudo. Até amor verdadeiro.
Só não estamos de quatro, urrando no bosque, porque o sentimento de culpa nos salva.
No Brasil, quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte.
A morte de um velho amigo é uma catástrofe na memória. Todas nossas relações com o passado ficam alteradas.
Deus só frequenta as igrejas vazias.
Copacabana vive, por semana, sete domingos.
Não ama seu marido? Pois ame alguém, e já. Não perca tempo, minha senhora!
A fome é mansa e casta. Quem não come não ama, nem odeia.
Todo ginecologista devia ser casto. O ginecologista devia andar de batina, sandálias e coroinha na cabeça. Como um são Francisco de Assis, com a luva de borracha e um passarinho em cada ombro.
A verdadeira grã-fina tem a aridez de três desertos.
No passado, a notícia e o fato eram simultâneos. O atropelado acabava de estrebuchar na página do jornal.
Não reparem que eu misture os tratamentos de tu e você. Não acredito em brasileiro sem erro de concordância.
Os magros só deviam amar vestidos, e nunca no claro.
Um filho, numa mulher, é uma transformação. Até uma cretina, quando tem um filho, melhora.
O cardiologista não tem, como o analista, dez anos para curar o doente. Ou melhor: - dez anos para não curar. Não há no enfarte a paciência das neuroses
Não há ninguém mais vago, mais irrelevante, mais contínuo do que o ex-ministro.
O Natal já foi festa, já foi um profundo gesto de amor. Hoje, o Natal é um orçamento.
Nelson Rodrigues

22 de agosto de 2012

Auto-retrato falado

Photography - Alex Robinson
Venho de um Cuiabá de garimpos e de
ruelas entortadas.
Meu pai teve uma venda no Beco da
Marinha, onde nasci.
Me criei no Pantanal de Corumbá entre
bichos do chão,
aves, pessoas humildes, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes
por gosto de estar
entre pedras de estar
entre pedras e lagartos.
Já publiquei 10 livros de poesia: ao
publicá-los me sinto
meio desonrado e fujo para o Pantanal
onde sou
abençoado a garças.
Me procurei a vida inteira e não me
achei - pelo que
fui salvo.
Não estou na sarjeta porque herdei
uma fazenda de gado.
Os bois me recriam.
Agora eu sou tão ocaso!
Estou na categoria de sofrer da moral porque só faço
coisas inúteis.
No meu morrer tem uma dor de árvore.

Manoel de Barros

Venturosa

Washington Maguetas
Venturosa de sonhar-te,
à minha sombra me deito.
(Teu rosto, por toda parte,
mas, amor, só no meu peito!)

–Barqueiro, que céu tão leve!
Barqueiro, que mar parado!
Barqueiro, que enigma breve,
o sonho de ter amado!

Em barca de nuvem sigo:
e o que vou pagando ao vento
para levar-te comigo
é suspiro e pensamento.

–Barqueiro, que doce instante!
Barqueiro, que instante imenso,
não do amado nem do amante:
mas de amar o amor que penso!

Cecília Meireles (1901-1964)

21 de agosto de 2012

Confissão inicial

Stephan Bakalowicz
Às vezes, tenho a impressão
de que não devia publicar estas palavras
nascidas para viverem em surdina ao teu ouvido.

Às vezes penso que deveria deixar
no limbo do coração estas palavras
de ti e para ti e que tomaram
imprevistamente a forma de canção.

Estas palavras que te colhem
toda e te deixam nua, e me
dão a impressão de que também
tenho nu o coração, em plena rua.

J. G. de Araujo Jorge (1914-1987)

Do desejo

Albert Bierstadt
Águas. Onde só os tigres mitigam a sua sede.
Também eu em ti, feroz, encantoada
Atravessei as cercaduras raras
E me fiz máscara, mulher e conjetura.
Águas que não bebi. Crepusculares. Cavas.
Códigos que decifrei e onde me vi mil vezes
Inconexa, parca. Ah, toma-me de novo
Antiquíssima, nova. Como se fosses o tigre
A beber daquelas águas.

Hilda Hilst (1930-2004)

20 de agosto de 2012

Portinari
“Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte do tédio
Que vai de mim para o outro”.

Mário de Sá Carneiro (1890-1916)

Angústia

Wassily Kandinsky
Há um incêndio de angústia e de sons
Sobre os instentos. E no corpo da tarde
Se fez uma ferida. A mulher emergiu
Descompassada no de dentro da outra:
Uma mulher de mim nos incêndios do Nada.
Tinha o dorso de uns rios: quebradiço
E terroso. O peito carregado de ametistas.
Uma mulher me viu no roxo das ciladas:
Esculpindo de novo teu rosto no vazio.

Hilda Hilst (1930-2004)

19 de agosto de 2012

Vento

Camille Felix Bellanger-Sieste
O vento sopra lá fora.
Faz-me mais sozinho, e agora
Porque não choro, ele chora.
É um som abstrato e fundo.
Vem do fim vago do mundo.
Seu sentido é ser profundo.

Diz-me que nada há em tudo.
Que a virtude não é escudo
E que o melhor é ser mudo.

Fernando Pessoa (1888-1935)