31 de julho de 2012

Edmond Aman-Jean
Tão abstrata é a ideia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a ideia do teu ser fica tão rente

Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te tendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.

Fernando Pessoa (1888-1935)
Carl Fredrik Hill
Como se acaba um poema?
Perguntou a alma
à pena.

Sem intenção,
respondeu
a página em branco.

Quando pena
se deposita
sobre pena
página
e alma
estão plenas.

Alice Ruiz

30 de julho de 2012

O Espaço

Jack Vettriano
O vento soprou depois de alguma espera
E foram expulsos de dentro todos os fantasmas
Os restos de sombra o sol desfez.
A chuva terminou de apagar as últimas letras,
Arrancando da terra as raízes inúteis.
E nada mais sobrou além do espaço
Pronto a ser ocupado pelos novos donos,
Obstinados cultivadores de esperança.

Henrique Simas

Falai de Deus com a clareza

Thomas Cooper Gotch
Falai de Deus com a clareza
da verdade e da certeza:
com um poder

de corpo e alma que não possa
ninguém, à passagem vossa,
não O entender.

Falai de Deus brandamente,
que o mundo se pôs dolente,
tão sem leis.

Falai de Deus com doçura,
que é difícil ser criatura:
bem o sabeis.

Falai de Deus de tal modo
que por Ele o mundo todo
tenha amor

à vida e à morte, e, de vê-Lo,
O escolha como modelo superior.

Com voz, pensamentos e atos
representai tão exatos
os reinos seus

que todos vão livremente
para esse encontro excelente.
Falai de Deus.

Cecília Meireles (1901-1964)

A marcha da História

Diego Fernandez
Eu me encontrei no marco do horizonte
Onde as nuvens falam,
Onde os sonhos têm mãos e pés
E o mar é seduzido pelas sereias.

Eu me encontrei onde o real é fábula,
Onde o sol recebe a luz da lua,
Onde a música é pão de todo dia
E a criança aconselha-se com as flores.

Onde o homem e a mulher são um,
Onde espadas e granadas
Transformaram-se em charruas,
E onde se fundem verbo e ação.

Murilo Mendes (1901-1975)

29 de julho de 2012

Linguagem

Christian Schloe
O sol nos fala com luz; com cor
e com perfume nos fala a flor;
com nuvens, chuva e neve nos fala
o ar. Há no sacrário do mundo
um incontido afã de romper
com a mudez das coisas e expor
em gesto e som, em palavra e cor,
todo o mistério que envolve o ser.
A clara fonte das artes flui
para a palavra, a revelação;
para o mental flui o mundo, e aclara
em lábio humano um saber eterno.
Pela linguagem a vida anseia:
em verbo, cifra, cor, linha som,
conjura-se a nossa aspiração
e um alto trono aos sentidos ergue.
Como na flor o vermelho e o azul,
na palavra do poeta volta-se
para dentro a obra de criação,
sempre a iniciar-se e acabar jamais.
Onde palavra e som se combinam,
e soa o canto, a arte se revela,
e cada cântico e cada livro,
cada imagem, é uma descoberta
- uma milésima tentativa
de cumprimento da vida una
A penetrar nessa vida una
vos chama a música, a poesia:
para entender a criação vária,
já e bastante um olhar no espelho.
O que confuso antes parecia,
é claro e simples na poesia:
a nuvem chove, a flor ri, o mudo
fala - o mundo faz sentido em tudo.

Hermann Hesse (1877-1962)
Thomas Cooper Gotch
“A vida é fictícia,
as palavras perdem a realidade.
E no entanto esta vida fictícia
é a única que podemos suportar.
Estamos aqui como peixes num aquário.
E sentindo que há outra vida ao nosso lado,
vamos até à cova sem dar por ela.
Estamos aqui a matar o tempo”.

Raul Brandão (1867-1930)
Vereker Monteith Hamilton
“Desde que se cumpram certas cerimônias ou se respeitem certas formulas, consegue-se ser ladrão e escrupulosamente honesto - tudo ao mesmo tempo. A honradez deste homem assenta sobre uma primitiva infâmia. O interesse e a religião, a ganância e o escrúpulo, a honra e o interesse, podem viver na mesma casa, separados por tabiques. Agora é a vez da honra - agora é a vez do dinheiro - agora é a vez da religião. Tudo se acomoda, outras coisas heterogêneas se acomodam ainda. Com um bocado de jeito arranjas-lhes sempre lugar nas almas bem formadas”.
Raul Brandão (1867-1930)

28 de julho de 2012

Pralapracá

Andrzej Szczerski
E começa a longa história
do navio que ia e vinha
pela estrada azul do Atlântico:

Ia, levando pau-brasil
e homens cor da manhã, filhos do mato,
cheios de sol e de inocência;
vinha trazendo delegados…

Ia, levando uma esperança;
vinha trazendo foragidos de outras pátrias
para a ilha da Bem-aventurança.

Ia levando um grito de surpresa;

----.....--;;;;;;;da terra criança;
e vinha abarrotado de saudade

-............---;;;;;;;--portuguesa.
Cassiano Ricardo (1895-1974)
Galina Chuprakova-Kazakova
Avancei pela noite. Abri os braços
e recebi a aurora pequenina.
Chorava ainda. Suas lágrimas
desceram sobre meu rosto. Veio um perfume forte
de flores molhadas. Renovaram-se as vozes
dos galos pelas campinas úmidas.
Lenhadores dormem nos casebres frios.
Estão nascendo flores misteriosas
Estão crescendo grandes almas nas sombras da noite.
Porque há um canto que sai da noite
e vem acordar a aurora adormecida! E coberta de flores.

Augusto Frederico Schmidt (1906-1965)

27 de julho de 2012

Não passou

Albert Joseph Moore – Kingcups
Passou?
Minúsculas eternidades
deglutidas por mínimos relógios
ressoam na mente cavernosa.

Não, ninguém morreu, ninguém foi infeliz.
A mão - a tua mão, nossas mãos -
rugosas, têm o antigo calor
de quando éramos vivos. Éramos?

Hoje somos mais vivos do que nunca.
Mentira, estarmos sós.
Nada, que eu sinta, passa realmente.
É tudo ilusão de ter passado.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
Ernest Biéler
Estamos perdidos há muito tempo...
O país perdeu a inteligência e a consciência moral.
Os costumes estão dissolvidos,
as consciências em debandada.
Os carácteres corrompidos.
A prática da vida tem por única direção
a conveniência.
Não há princípio que não seja desmentido.
Não há instituição que não seja escarnecida.
Ninguém se respeita.
Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.
Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.
Alguns agiotas felizes exploram.
A classe média abate-se progressivamente
na imbecilidade e na inércia.
O povo está na miséria.
Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente.
O Estado é considerado na sua ação fiscal
como um ladrão e tratado como um inimigo.
A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências.
Diz-se por toda a parte: “o país está perdido!”

Eça de Queirós (1845-1900)

26 de julho de 2012

Oração

Hilda Fairbairn - Love the Pedlar
Dá-me a alegria
Do poema de cada dia.
E que ao longo do caminho
Às almas eu distribua
Minha porção de poesia
Sem que ela diminua...
Poesia tanta e tão minha
Que por uma eucaristia
Poesia eu fazê-la sua
"Eis minha carne e meu sangue!"
A minha carne e meu sangue
Em toda a ardente impureza
Deste humano coração...
Mas, ó Coração Divino,
Deixai-me dar de meu vinho,
Deixai-me dar de meu pão!
Que mal faz uma canção?
Basta que tenha beleza...

Mario Quintana (1906-1994)
Yuri Dubinin
Ponho as mãos no teu corpo musical
Onde esperam os sons adormecidos.
Em silêncio começo, que pressente
A brusca irrupção do tom real.
E quando a alma ascendendo canta
Ao percorrer a escala dos sentidos,
Não mente a alma nem o corpo mente.
Não é por culpa nossa se a garganta
Enrouquece e se cala de repente
Em cruas dissonâncias, em rangidos
Exasperantes de acorde errado.

Se no silêncio em que a canção esmorece
Outro tom se insinua, recordado,
Não tarda que se extinga, emudece:
Não se consente em violino fado.

José Saramago (1922-2010)

25 de julho de 2012

Polícia de São Paulo

Polícia que mata
não assegura paz nem tranquilidade
Polícia de São Paulo
O roteiro é conhecido.
A periferia já convivia faz tempo com a alta letalidade da Polícia Militar de São Paulo. Cerca de um quinto dos homicídios do Estado são praticados por PMs. Índices bem superiores àqueles que envolvem, por exemplo, os Estados Unidos.
Mas a luz vermelha só acendeu quando a morte chegou a um empresário em um bairro de classe média da capital.
O chefe do policiamento afirmou que a ação desastrosa teria sido ao menos “tecnicamente correta”, mas diante da repercussão na grande mídia, até mesmo o governador assumiu o excesso da polícia.
Dias antes, pelas redes sociais, entidades da sociedade civil e uma imprensa menos poderosa vinham advertindo que a matança alcançara altíssimos índices, logo em seguida à ação de criminosos contra policiais em folga.
E o roteiro também parecia um dejá-vu, pois o número de mortos pela polícia, supostamente em combate ou abertamente fora dele, também chegara aos píncaros nos meses que se seguiram aos ataques do PCC em 2006.
Tudo o que o Estado não pode fazer é agir como uma facção criminosa.
Nada justifica, nem mesmo a ideologia de uma suposta linha-dura para combater o crime.
Quando o Estado cruza a linha que distingue o legal do ilícito, já não se diferencia dos criminosos que pretende combater.
Nunca é demais lembrar que o homicídio da juíza Patrícia Acioly, que comoveu o país, e especialmente aqueles que se utilizam do incremento da violência como discurso político, teria sido provocado pela firmeza da magistrada em rejeitar simulações de autos de resistência.
Aqueles mesmos, por meio dos quais, homicídios de policiais estavam sendo fraudulentamente transformados em exercícios regulares de direito.
Ao revés do que se supõe, a violência estatal não traz eficácia nem sossego.
Quando a polícia é capaz de matar e de mentir, quem nos dará a tranquilidade?
Dezenas de juristas estão percorrendo o país nos últimos meses para discutir a edição de um novo Código Penal. Mas que relevância terá o trabalho se concedermos a alguns agentes, por aval superior ou omissão de quem tem fiscaliza, o poder de processar, julgar e executar a lei penal em qualquer viela, quando o sol se põe?
A violência do Estado não é o oposto da leniência com o crime –é exatamente seu combustível.
Estimular que pela vingança, ideologia ou por um motivo qualquer de faxina ética ou social, policiais cruzem a fronteira da legalidade, não turbina apenas a espiral da violência; também catapulta agentes para o mundo do crime. Afinal, aonde se meterão policiais responsabilizados por mortes ou aqueles que se acostumarem com o ofício?
A adesão de ex-matadores e ex-torturadores sustentados pelo regime militar à ilegalidade vitaminou o crime organizado com o fim da ditadura.
A convivência de policiais com os trâmites do justiçamento não há de produzir resultado menos danoso. As milícias cariocas talvez sejam o melhor exemplo dos perigos dessa promiscuidade.
Nenhum criminoso merece a impunidade, nem mesmo como atributo de sua maior temeridade.
O “crescimento da violência” pode nos revelar, talvez, o equívoco de termos estancado o processo de desarmamento –mas não fazer com que as armas trabalhem indiscriminadamente mais.
A morte jamais pode ser a regra ou a praxe de uma polícia.
Esse não é apenas o preço da democracia. É também o preço da tranquilidade.
Porque de uma polícia que mata, nem a polícia pode nos proteger.
Marcelo Semer
Terra Magazine
Ernest Biéler
“A discussão pode não trazer a luz,
mas liquida com muita ideia imbecil”.

Millôr Fernandes (1923-2012)

Do Amor

Giuseppe Galli
“O amor é uma das doenças mais bravas e contagiosas. Qualquer um reconhece os doentes dessa doença. Fundas olheiras delatam que jamais dormimos, despertos noite após noite pelos abraços, ou pela ausência de abraços, e padecemos febres devastadoras e sentimos uma irresistível necessidade de dizer estupidezes. O amor pode ser provocado deixando cair um punhadinho de pó de me ame, como por descuido, no café ou na sopa ou na bebida. Pode ser provocado, mas não pode impedir. Não o impede nem a água benta, nem o pó de hóstia; tampouco o dente de alho, que nesse caso não serve para nada. O amor é surdo frente ao Verbo divino e ao esconjuro das bruxas. Não há decreto de governo que possa com ele, nem poção capaz de evitá-lo, embora as vivandeiras apregoem, nos mercados, infalíveis beberagens com garantia e tudo. ”.
Eduardo Galeano
- O livro dos abraços.

24 de julho de 2012

Passarinho Fofoqueiro

Um passarinho me contou
que a ostra é muito fechada,
que a cobra é muito enrolada,
que a arara é uma cabeça oca,
e que o leão marinho e a foca...
xô , passarinho! chega de fofoca!

José Paulo Paes (1926-1998)

Balada das dez bailarinas do cassino

Edgar Degas - Blue Dancers
Dez bailarinas deslizam
por um chão de espelho.
Têm corpos egípcios com placas douradas,
pálpebras azuis e dedos vermelhos.
Levantam véus brancos, de ingênuos aromas,
e dobram amarelos joelhos.

Andam as dez bailarinas
sem voz, em redor das mesas.
Há mãos sobre facas, dentes sobre flores
e com os charutos toldam as luzes acesas.
Entre a música e a dança escorre
uma sedosa escada de vileza.

As dez bailarinas avançam
como gafanhotos perdidos.
Avançam, recuam, na sala compacta,
empurrando olhares e arranhando o ruído.
Tão nuas se sentem que já vão cobertas
de imaginários, chorosos vestidos.

A dez bailarinas escondem
nos cílios verdes as pupilas.
Em seus quadris fosforescentes,
passa uma faixa de morte tranquila.
Como quem leva para a terra um filho morto,
levam seu próprio corpo, que baila e cintila.

Os homens gordos olham com um tédio enorme
as dez bailarinas tão frias.
Pobres serpentes sem luxúria,
que são crianças, durante o dia.
Dez anjos anêmicos, de axilas profundas,
embalsamados de melancolia.

Vão perpassando como dez múmias,
as bailarinas fatigadas.
Ramo de nardos inclinando flores
azuis, brancas, verdes, douradas.
Dez mães chorariam, se vissem
as bailarinas de mãos dadas.

Cecília Meireles (1901-1964)
Guido Borelli
Caem as folhas de repente,
brotam outras pelos ramos,
murcham flores, surgem pomos
e a planta volta à semente.

Assim somos. Sutilmente,
diferimos do que fomos.

Impossível transmitir,
por secreto e singular,
o acrescentar e perder
desse crescer que é mudar.

Helena Kolody (1912-2004)

23 de julho de 2012

Desinventemos os dias

Danielle Richard

Desinventemos os dias;
Atravessemos as pontes:
Ainda que tudo
pareça
o mesmo,
O OLHAR, ah, este sim,
poderá ser NOVO !
Maurício Veneza

Delírio

Emile Vernon
Tem um cacho de flor
se balançando às minhas costas,
que se diverte abertamente às minhas custas .
Oscila lasso, tão flacidamente,
que não sei se é vermelho perfumoso,
ou se é cheiroso vermelhosamente.

Flora Figueiredo

22 de julho de 2012

Walter Crane - Diana and Endymion

Já que buscas um sonho e não o alcanças,
pastor de enganos, cala a tua avena!
Foram-se todas as ovelha mansas
que conduzias na manhã serena...

Da tua terra fértil mas pequena
tirou-te um dia a sede das andanças!
Partiste, então; mas nessa idade amena
tangias um rebanho de esperanças!

Hoje, nas tardes tristes e vermelhas,
anda a apascentar outras ovelhas,
e estás perdido de intranquilidades...

Buscas (não vês?) um bem que não existe;
e nem percebes que vagueias, triste,
conduzindo um rebanho de saudades...

Sânzio de Azevedo

Testemunhei meu Criador

Marc Chagall
Assombro-me tanto de Ti como de mim,
oh anelo do meu desejo!
Aproximaste-me tanto a Ti,
que acreditei que teu “Eu” fosse meu “eu”.
Logo Te eclipsaste , no êxtase, até que, em Ti,
me livraste de mim mesmo.
Oh dita nesta vida, oh descanso na sepultura!
Não há para mim júbilo sem Ti,
pois és Tu meu temor e confiança.
Nos jardins de Teus emblemas está contida toda ciência
e se ainda me resta algum desejo,
Tu és tudo o que eu desejo.

Mansur al-Hallaj (858-922)
Mestre Sufista de origem Persa

Xenhenhém

Jean-Léon Gérôme
Em meio às minhas muitas dores
talvez maiores do que o mundo,
surges, às vezes, um segundo,
cheia de pérfidos langores.
Chegas sutil e sem rumores…
E até sinto o odor profundo
No qual eu sôfrego me inundo
─ pária do amor, sonhando amores.
Depois, tu falas não sei donde…
És como um eco que responde
Mas, sempre e sempre, além… além…
Súbito, encontro a casa oca.
Não estás! ─ Meu Deus, que coisa louca,
Só é na vida um xenhenhém!

Ascenso Ferreira (1895-1965)

21 de julho de 2012

No labirinto

Tela Dima Dimitriev
As perguntas que, criança,
eu me fazia
continuam
na idade adulta
a prosperar.

O labirinto agora me é mais familiar
tenho conversado com o Minotauro
e Ariadne
tem infindáveis novelos
para me emprestar .
Sou capaz de guiar um cego
por algumas quadras
e alguns sinais abstratos
chego a decifrar.

Habito o mistério que me habita
e isto
- é caminhar.

Affonso Romano de Sant'Anna