30 de junho de 2012

Charles Edward Perugini
“Existem momentos na vida da gente,
em que as palavras perdem o sentido
ou parecem inúteis, e, por mais
que a gente pense numa forma de empregá-las
elas parecem não servir.
Então a gente não diz, apenas sente”.

Sigmund Freud [1856-1939]

Resumo

Jack Adam Weber - Sufi Love
Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.

Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita do tempo
Até a região onde os silêncios moram.

Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.

Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
Em tudo que ainda estás ausente.

Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a ideia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.

Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.

Adalgisa Nery (1905-1980)

29 de junho de 2012

É um tom de laranja
sobre os montes
um pensamento inarticulado
de que a Virgem
pôs o mundo no colo
e passeia com ele nos rosais.

Adélia Prado

Dia do Pescador

São Pedro (século I a.C. - 67 d.C.)
Lucas Cranach
São Pedro foi um dos doze apóstolos de Jesus Cristo, segundo o Novo Testamento e, mais especificamente, os quatro Evangelhos. Os católicos consideram Pedro como o primeiro Bispo de Roma, sendo por isso o primeiro Papa da Igreja Católica.
Dia 29 de junho é o Dia de São Pedro, o apóstolo pescador e que também é padroeiro dos pescadores. Por isto, a data foi escolhida para comemorar o dia do pescador
Os pescadores que vivem de sua própria produção são bastante comuns no Brasil. No entanto, a subsistência destes trabalhadores pode estar ameaçada pela poluição das águas e pela pesca esportiva de pessoas que, sem licença e sem consciência ambiental, pescam quantidades superiores à permitida.
Com isso, percebe-se o quanto o equilíbrio da natureza é importante, não só para a economia pesqueira, como para todos que dependem ou não dela.
Pescaria - No que diz respeito à economia, existem dois tipos de pesca: a artesanal, exercida pelo proprietário do meio de produção, sozinho, em parceria ou sociedade, e a empresarial, que contrata terceiros e geralmente é feita em embarcações. A primeira é responsável pelo abastecimento do mercado interno e a segunda é voltada a processos industriais e à exportação.
Já no que diz respeito aos locais de pesca, existem as pescas em locais fechados e ao ar livre. A pesca em locais fechados, como os clubes e parques próprios, tem regras específicas. A pesca ao ar livre exige um documento: a licença de pescador amador, que obriga o mesmo a pescar somente com isca natural ou artificial e estabelece um limite de captura e um tamanho mínimo.

28 de junho de 2012

Van Gohg
“Por enquanto há escória de sobra.
O tempo é escasso - mãos à obra.
Primeiro é preciso transformar a vida,
para cantá-la - em seguida.
Os tempos estão duros para o artista:
Mas, dizei-me, anêmicos e anões,
os grandes, onde, em que ocasião,
escolheram uma estrada batida?
General da força humana - Verbo - marche!
Que o tempo cuspa balas para trás,
e o vento no passado só desfaça um maço de cabelos.
Para o júbilo o planeta está imaturo.
É preciso arrancar alegria ao futuro.
Nesta vida morrer não é difícil.
O difícil é a vida e seu ofício”.

Vladimir Maiakovski (1893-1930)
Tradução: Haroldo de Campos
Felicidade - o título tão comprido deste poema tão pequeno!
Felicidade - substantivo comum, feminino, singular, polissilábico.
Tão polissilábico. Tão singular. Tão feminino. E tão pouco comum.
Substantivo complicado, metafísico,
que cabe todo
na beleza clara de alguém que eu sei
e no sorriso sem dentes de meu filho.

Abgar Renault (1901-1995)

27 de junho de 2012

Josephine Wall
Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

O sal da língua

Duy Huynh
Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?

Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras,
pouco mais.

Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.

Elas são a casa, o sal da língua.

Eugénio de Andrade (1923-2005)

26 de junho de 2012

Steven Pearson - Light Of Love
“...Então,
de todo Amor
não terminado seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Escutai, pois!
Se as estrelas se acendem
é porque alguém precisa delas.
É porque, em verdade, é indispensável,
que sobre todos os tetos, cada noite,
uma única estrela, pelo menos, se ilumine...
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!

Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!”

Vladimir Maiakovski (1893-1930)

Só Tu

Lord Frederick Leighton
Dos lábios que me beijaram,
Dos braços que me abraçaram
Já não me lembro, nem sei...
São tantas as que me amaram!
São tantas as que eu amei!
Mas tu - que rude contraste!
Tu, que jamais me beijaste,
Tu, que jamais abracei,
Só tu, nesta alma, ficaste,
De todas as que eu amei.

Paulo Setúbal (1893-1937)

25 de junho de 2012

Sami Briss
“Inclina para mim os teus lábios
e que ao sair da minha boca
a minha alma volte a entrar dentro de ti”.

Denis Diderot (1713-1784)

Canção Quase Inquieta

Saudade - Almeida Júnior
De um Lado, a eterna estrela
e do outro a vaga incerta,
meu pé dançando pela
extremidade da espuma,
e meu cabelo por uma
planície de luz deserta.
Sempre assim:
de um lado, estandartes do vento …
- do outro, sepulcros fechados.
E eu me partindo, dentro de mim,
para estar ao mesmo momento
de ambos os lados.
Se existe a tua Figura,
se és o Sentido do Mundo,
deixo-me, fujo por ti,
nunca mais quero ser minha!
(Mas, neste espelho, no fundo
desta fria luz marinha
como dois baços peixes,
nadam meus olhos à minha procura …
Ando contigo — e sozinha.
Vivo longe — e acham-me aqui…)
Fazedor da minha vida,
não me deixes!
Entende a minha canção!
Tem pena do meu murmúrio,
reúne-me em tua mão!
Que eu sou gota de mercúrio
dividida,
desmanchado pelo chão …

Cecília Meireles (1901-1964)

24 de junho de 2012

A FAZENDA

Paul Gauguin
Seis horas... Salto do leito,
Que céu azul ! que bom ar !
Ai, como sinto no peito,
Moço, vivo, satisfeito,
O coração a cantar !
No meu quarto, alegre e claro,
Há rosas e girassóis.
Eu, com enlevo, reparo
No mínimo do seu preparo,
Na alvura dos seus lençóis.
Que doce encanto, e que graça,
Nesta simples aldeã,
Tem sobre os vãos da vidraça,
Leves cortinas de cassa,
Bailando ao sol da manhã !

Paulo Setúbal (1893-1937)
Lord Frederick Leighton
Caminho para o dia
para o centro
deste dia
para a noite
deste dia
caminho para a noite
para o centro
desta noite
para o dia
desta noite.

Hélio Pellegrino (1924-1988)

Dia se São João

Alfredo Volpi - Festa de São João
Hoje 24 de junho, é dia de São João. No Nordeste do País, existem muitas festas em homenagem a São João que são muito bem elaboradas.
A típica festa de São João brasileira é realizada em uma área ao ar livre chamada de arraial ou "arraiá" (em uma alusão ao modo caipira de falar). O local é decorado com bandeirinhas de papel de várias cores, palha de coqueiro e balões feitos com papel de seda. Além disso, faz-se uma grande fogueira na área central do "arraiá" e erguem-se barraquinhas com atendentes que servem comida variada. As comidas mais típicas dessas festas são as que têm o milho como base do seu preparo, tais como a canjica e a pamonha, devido ao fato de ser uma época ideal para a colheita desse vegetal.
Sem dúvida, o ponto alto da festa é o da realização da Quadrilha, onde os participantes, disfarçados com roupas ao estilo caipira, dançam aos pares, realizando todo tipo de evoluções. Também conhecida como Saruê, Baile Sifilítico ou Mana-Chica em outras regiões do Brasil, a Quadrilha Caipira geralmente é liderada por um rapaz e uma moça, que fazem o papel de "noivos". O enredo da Quadrilha, geralmente, se resume ao seguinte: o pai da "noiva", furioso pelo avançado estado de gravidez da filha, força o "noivo" a casar-se com ela. Ao contrário do que se poderia pensar, o tom da Quadrilha não é trágico, mas sim cômico, sobretudo pela resistência do "noivo" em aceitar o casamento.
Noite de São João
Alegria no terreiro!
Coloridas bandeirolas,
sanfona, flauta, pandeiro,
cantores violões e violas.
Junto ao mastro de São João,
nas mesas e tabuleiros,
tigelinhas de quentão …
quitutes bem brasileiros…
pinhão, pipoca, amendoim…
O céu, cheinho de estrelas,
e eu, com você junto a mim,
não me cansava de vê-las…
Lá fora, clareando tudo,
a crepitante fogueira,
estalando como açoite,
queimava o negro veludo
daquela festiva noite
de tradição brasileira.

Décio Valente

23 de junho de 2012

Ian David Soar - I Have A Dream
Aproveita os nós desatados
o silêncio das águas perdidas
as fendas nas montanhas
aproveita as violetas entrecortadas
de desejo
os sinos soltos pela chuva
como sonhos desencantados
aproveita as caravelas invisíveis
assombrando as noites
os pios das corujas solitárias
aproveita os caminhos recém-abertos
por cogumelos escarlates
aproveita as rendas dos luares
de agosto
os rostos pontuando as sombras
aproveita os cavalos engravidando a terra.

aproveita o peso escuro da terra
e tece teu poema.

Roseana Murray

EXPERIÊNCIA

Kurt Van Wagner
É possível viver um amor em sustenido:
basta que ele seja
mais amante que marido
e que tenha na mulher,
a namorada.
Aquela que ganha a lua
enfeitada
dos brilhos azulados da manhã.
Às vezes fêmea, às vezes fada, quem sabe irmã.
E que deitada
num colchão de encantos,
possa lamber o mel da vida.
Quando saciada,
envolva a beleza de ternuras tantas,
que não falte então mais nada
pra que num espaço mais curto
que o minuto,
possa escrever a estória mais perfeita
que já foi feita sobre o amor absoluto.

Flora Figueiredo

22 de junho de 2012

Fazenda

Ana Maria Dias
Vejo o Retiro: suspiro
no vale fundo.
O Retiro ficava longe
do oceanomundo.
Ninguém sabia da Rússia
com sua foice.
A morte escolhia a forma
breve de um coice.
Mulher, abundavam negras
socando milho.
Rês morta, urubus rasantes,
logo em concílio.
O amor das éguas rinchava
no azul do pasto.
E criação e gente, em liga,
tudo era casto.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Verso e controvérsia

Jules-Élie Delaunay
“Medo. Tem-se.
Mas não se deixa ele mandar na gente”.

Paulo Mendes Campos

“Nunca pude dizer tudo o que quero porque ela não quer. Meu verso se faz trôpego e medido por causa dela. Meu riso se fez tímido. Meus passos foram passos tortos de bêbedo, minha sabedoria foi uma sequência de trevas, minhas afeições não valeram, meus amores ficaram inconclusos, minhas alegrias foram alegrias loucas de louco. (...) Quando olho o mar eu me canso; se leio poesia me aborreço; quando durmo não descanso; se me embriago me entristeço”.
Paulo Mendes Campos (1922-1991)

21 de junho de 2012

Poema-Oração

Karen Ilari
A todos os ventos
eu peço coragem.
A cada estrela e estrada
Ao mar que não morre nunca
eu peço coragem...

E ao sol e à lua
E a todo o firmamento.
A cada pássaro
A cada pedra
A cada bicho da terra e do ar.

Peço coragem a tudo o que vive agora
E ainda viverá
Coragem para cavalgar os dias
Navegar nas horas
E a cada minuto e segundo, sonhar.

Roseana Murray
Lord Frederick Leighton - Antigona
As coisas que não conseguem morrer
Só por isso são chamadas eternas.
As estrelas, dolorosas lanternas
Que não sabem o que é deixar de ser.

Ó força incognoscível que governas
O meu querer, como o meu não-querer.
Quisera estar entre as simples luzernas
Que morrem no primeiro entardecer.

Ser deus — e não as coisas mais ditosas
Quanto mais breves, como são as rosas
É não sonhar, é nada mais obter.

Ó alegria dourada de o não ser
Entre as coisas que são, e as nebulosas,
Que não conseguiu dormir nem morrer.

Cassiano Ricardo (1885-1974)

20 de junho de 2012

Rio + 20

Aquecimento Global
No Período de Aquecimento Medieval entre os séculos 9 e o 14, conhecido como Óptimo Climático Medieval, algumas regiões do mundo experimentam uma alta de temperatura como a que estamos vivendo hoje . Depois desse período, a Terra viveu uma Pequena Era Glacial, com resfriamento da temperatura planetária. É concebível que o planeta esteja uma vez mais passando por fenômeno semelhante.
Registos históricos provenientes de toda a Europa e da Groelândia atestam a realidade destes dois acontecimentos e do seu impacto profundo na humanidade. A colonização da Groelândia pelos vikings no início do milênio, por exemplo, só foi possível graças ao calor que se fazia sentir na época medieval. Durante a Pequena Era do Gelo, estas colônias da Groelândia desapareceram. Na mesma época, o Tamisa gelou muitas vezes.
Os períodos do Óptimo Climático Medieval e da Pequena Era do Gelo dependem de certa maneira daquilo que se considera "quente" e "frio" em relação às temperaturas atuais.
A conclusão é clara: as variações solares foram a causa da Pequena Era do Gelo e, com forte probabilidade, também do Óptimo Medieval. Utilizando o isótopo de carbono 14 como indicador da atividade solar antes de 1600, foi possível pôr em evidência um nível elevado de atividade solar durante o período medieval. Esse nível arrastou a elevação da temperatura. Também sobressaiu um período frio designado "mínimo de Sporer", durante o ano de 1350.
Esta análise histórica do clima contém duas dificuldades sérias para a teoria atual do aquecimento global:


1) Se o período Óptimo Medieval, sem contribuição de gases antropogênicos, foi mais quente do que o dos dias de hoje, qual o espanto por a época moderna ser igualmente quente?

2) Se as variações solares foram a causa simultânea do Óptimo Medieval e da Pequena Era do Gelo, a mais forte atividade solar do século XX não explicará, pelo menos em parte, o pretenso calor anunciado?
Jack Vettriano - The Pier
Vem, canção bonita, alimentar minha alma.
Vem, mulher-encanto, nutrir meus desejos.
Vem, lua crescente, pratear meu corpo.
Vem, noite serena, traze-me um poema
Fresco como a brisa, brando como tu.

Barão da Mata