31 de maio de 2012

Tempo

Willem Haenraets
“Temperatura em elevação,
nuvens isoladas de ausência.
Nebulosidades aumentam
no decorrer do período .
Ao pôr-do-sol,
pancadas de saudade”.

Edival Perrini

Excursão

Hugh O'Neill
Estou vendo aquele caminho
cheiroso da madrugada:
pelos muros, escorriam
flores moles da orvalhada;
na cor do céu, muito fina,
via-se a noite
acabada.

Estou sentindo aqueles passos
rente dos meus e do muro.

As palavras que escutava
eram pássaros no escuro...
Pássaros de voz tão clara,
voz de desenho tão puro!

Estou pensando na folhagem
que a chuva deixou polida:
nas pedras, ainda marcadas
de uma sombra umedecida.
Estou pensando o que pensava
nesse tempo a minha vida.

Estou diante daquela porta
que não sei mais se ainda existe...
Estou longe e fora das horas,
sem saber em que consiste
nem o que vai nem o que volta...
sem estar alegre nem triste,

sem desejar mais palavras
nem mais sonhos, nem mais vultos,
olhando dentro das almas,
os longos rumos ocultos,
os largos itinerários
de fantasmas insepultos...

— itinerários antigos,
que nem Deus nunca mais leva.
Silêncio grande e sozinho,
todo amassado com treva,
onde os nossos giram
quando o ar da morte se eleva.

Cecília Meireles (1901-1964)

30 de maio de 2012

Georges Marie Julien Girardot
“Todos os dias deveríamos ler
um bom poema, ouvir uma linda canção,
contemplar um belo quadro
e dizer algumas bonitas palavras.

Pensar é mais interessante que saber,
mas é menos interessante que olhar”.

Johann von Goethe (1749-1832)
Elena Odriozola
“Que fique muito mal explicado.
Não faço força para ser entendido.
Quem faz sentido é soldado”.

Carlos Moreira

28 de maio de 2012

Dia de Verão

Georgina de Albuquerque - Dia de Verão
“Posto que os dias são hóstias
e o cálice, a vida,
eu persigo um tempo maior
que percorra meu corpo como água corrente.
Que o novo se apresente
e eu de mim me ausente!...
Visões diferentes, asas de um pássaro
perverso e inocente,
venha o que ainda não vi
e sobre meus cabelos insinue um véu”.

Georgina de Albuquerque (1885-1962)
Andrei Belichenko and Maria Boohtiyarova
“Gosto de viver.
Algumas vezes me sinto
muito, desesperadamente,
loucamente miserável,
atormentada pela aflição,
mas mesmo diante disso
tudo eu compreendo
que estar viva é
uma coisa grandiosa”.

Agatha Christie (1890-1976)
Vasily Perov - Organ-Grinder
Misérrimo montão de vaidades do homem,
Sonhos! que o menor vento e o menor sopro somem
Como se acaba tudo e tudo se dispersa!
O poderio, a dor, a dor na noite imersa,
Cólera, orgulho, amor, tudo, tudo, em resumo,
Não é mais do que pó, não é mais do que fumo!

Para que tanto afã, por que tanta esperança
Se em vão se corre atrás de um bem que não alcança?
Dizei, homens! por que? Por que sempre rugindo
Ameaçais mar e céu? Dir-se-ia, em vós ouvindo
Soprar nesse braseiro aceso de paixões,
No meio do furor das vossas ambições,
Em torno do que a alma abraça, crê e espera,
Que sois feitos de bronze, e entanto sois de cera!

Victor Hugo (1802-1885)

27 de maio de 2012

Humorismo

Henry Ryland - On the Cliffs
Sossego macio da tarde.
Um sol cansado
passa pelo rosto suado
uma nuvenzinha alva como um lenço
para enxugar as primeiras estrelas.
Silêncio.

E o sol vai caminhando sobre os montes tranquilos
vai cochilando. E de repente
tropeça e cai redondamente
sob a pateada dos sapos e a vaia dos grilos.

Guilherme de Almeida (1860-1969)
“Raspai o juiz, encontrareis o carrasco”.
Victor Hugo

Não me deixes

Marcus Stone
Debruçada nas águas de um regato
A flor dizia em vão
A corrente, onde bela se mirava:
" Ai, não me deixes, não!"

Comigo fica ou leva-me contigo
Dos mares à amplidão
Límpido ou turvo te amarei constante,
Mas não me deixes, não!

E a corrente passava, novas águas
Após outras vão,
E a flor sempre a dizer curva na fonte:
" Ai, não me deixes não!

E das águas que fogem incessantes
A eterna sucessão
Dizia sempre a flor e sempre embalde:
" Ai, não me deixes não!

Por fim desfalecida e machucada
Quase a lamber o chão,
Buscava ainda a corrente por dizer-lhe
Que a não deixasse, não!

A corrente impiedosa a flor enleia
Leva-a do seu torrão.
Afundar-se dizia a pobrezinha:
" Não me deixaste, não!

Gonçalves Dias (1823-1864)

Linhas escritas em Thorp Green

Charles Courtney Curran
Esse sol de verão, cujo brilho agradável
Agora anima meu espírito tão abatido
Deve frio e distante ficar,
E somente a luz do nosso clima nórdico
Com raios fracos, antes do tempo
Eu desejo tanto ver.

E essa suave e sussurrante brisa que agora
Tão gentilmente esfria minha testa febril,
Esta também, ai de mim, deve mudar
Para uma selvagem ventania cujo sopro gelado
Penetra e arrepia-me o coração,
Antes que eu pare de lamentar.

E essas flores brilhantes que eu amo tanto,
Verbena, rosa e a doce campânula azul,
Devem cair e morrer lá fora.
Aquelas grossas folhas verdes com todas as suas tonalidades
e sons farfalhantes, devem desaparecer
E todas devem cair.

Mas se o ensolarado tempo de verão
E de florestas e campinas em seu vigor
É doce para aqueles que vagueiam
Muito mais doce é o inverno escalvado
Com longas noites escuras e paisagens lúgubres
Para aqueles que estão em Casa !

Anne Brontë (1820-1849)
Tradução: Dandara Machado

26 de maio de 2012

Há um melro

Bill Cannon - Three Blackbirds
Há um melro que faz
o ninho na minha memória. Ouço-o
agora. Canta
a flor das giestas
e da cerejeira. Traz,
emoldurados no bico,
os meus dezoito anos.

Albano Martins

Safo de Lesbos

“A água fria murmura através dos ramos
das macieiras; toda a terra está sob a sombra
das roseiras; e das folhagens a estremecer
escorre o sono”.

Safo de Lesbos (600 a.C.)
Tradução: Frederico Lourenço

Ilusão

Egon Schiele
Dizes que sou feliz. Não mentes. Dizes
Tudo que sentes. A infelicidade
Parece às vezes com a felicidade
E os infelizes voltam a ser felizes!

Assim, em Tebas - a tumbal cidade,
A múmia de um herói do tempo de Ísis,
Ostenta ainda as mesmas cicatrizes
Que eternizaram sua heroicidade!

Quem vê o herói, inda com o braço altivo,
Diz que ele não morreu, diz que ele é vivo,
E, persuadido fica do que diz...

Bem como tu, que nessa crença infinda
Feliz me viste no Passado, e ainda
Te persuades de que sou feliz.

Augusto dos Anjos (1884-1914)

25 de maio de 2012

Encosta do Mar

Bob Orsillo
[…]
O meu país são todos os amigos
que conquisto e que perco a cada instante
Os meus amigos são os mais recentes
os dos demais países os que mal conheço e
tenho de abandonar porque me vou embora
pois eu nunca estou bem aonde estou
nem mesmo estou sequer aonde estou
[…]

Ruy Belo (1933-1978)
"Fragmento"
Peregrino e hóspede sobre a terra

Coisa Amar

John William Waterhouse
Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como dói

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

Manuel Alegre

24 de maio de 2012

Impressionismo

Camille Pissarro
Jacob Abraham Camille Pissarro (1830-1903) foi um pintor francês, co-fundador do impressionismo, e o único que participou nas oito exposições do grupo.
Camile Pissarro nasceu em uma ilha do Caribe, em 10 de julho de 1830. Embora tivesse talento para desenho, seus pais – uma mulata e um judeu francês de origem portuguesa que possuía uma loja de ferragens no porto de Charlotte-Amalie – o incentivaram a ser comerciante. Foi com este objetivo que o enviaram a Paris aos 11 anos de idade para estudar. Lá, morou em uma pensão em Passy, onde o dono Sr Savary o incentivou em seus desenhos sugerindo que desenhasse observando a natureza, ao ar livre. Esta era uma prática incomum naquela época.
Aos 17 anos voltou para a ilha para tomar conta dos negócios da família. Entretanto não abandonou o hábito de desenhar e a paixão pela pintura. Cerca de cinco anos depois, conheceu e tornou-se amigo do pintor dinamarquês Fritz Melbye. Amizade essa que mudou sua vida: ocorreu que Melbye havia sido enviado pelo governo a uma expedição às Antilhas Dinamarquesas para estudar a Fauna e a Flora locais, e Pissarro decidiu acompanha-lo nesta missão na Venezuela ao longo de dois anos.
Posteriormente, já em Paris, a independência conquistada, ainda que em início de carreira e com a ajuda de Melbye, ele teria outras influências marcantes como Camille Corot, Paul Cézanne, e aquele que viria a ser considerado o maior expoente do impressionismo Claude Monet. Com Monet, passaria a sair para pintar ao ar livre. A esta altura, ele já possuía dois filhos com sua amante Julie Vellay, e o casamento só ocorreu poucos anos depois em 1861. Com Julie teve ao todo oito filhos.
Cartas escritas pelo próprio pintor dão indícios de que havia uma forte preocupação financeira, e esta insegurança era resultado das despesas com uma família numerosa e os poucos recursos que a carreira como artista o oferecera. Apesar disso, os quadros de Pissarro não demonstram cores escuras e traços ou imagens dramáticas, pelo contrário. Embora com alguma dificuldade material, as telas são fartas em contraste de luz e cores, com motivos alegres e pinceladas curtas, sem a preocupação com o contorno, mas buscando a divisão das cores através das marcas de cores isoladas, ressaltando uma espécie de essência das imagens – maior característica das obras impressionistas.
Um fato curioso em sua carreira foi que cerca de 1500 telas pintadas por ele desapareceram de seu ateliê e o artista encarou o fato como forma de libertação. Foi professor e teve alunos como Paul Gauguin, e ainda o seu próprio filho Lucien Pissarro. Trabahava com tintas a óleo, mas experimentou também aquarelas, pastel, litogravuras e água forte.
Com a influência de artistas neo-impressionistas como George Seurat e Paul Signac, o artista chegou a investir temporariamente na técnica conhecida como Pontilhismo.

Seria

Sophie Gengembre Anderson
Se não fosse a beleza,
seria a graça;
se não fosse a graça,
seria a doçura,
quem sabe? - a simpatia,
ou até, talvez, - quem diria!
apenas a risada.

Mas mesmo que não fosse nada,
ainda assim,
seria.

Flora Figueiredo

23 de maio de 2012

Indômitus

a Murilo Mendes
O mar é uma esmeralda suja.
Recifes de coral repontam como flores
de sangue salpicado de espuma.
(Coisa que explica naturalmente sangue róseo dos náufragos.)

As espadas dos peixes aguerridos
(os espadartes) trançam cintilações de prata
em campo blau, como num escudo.
O escudo de Netuno contra o casco do Indômitus.
A arte de navegar entre espadas
não é tão fácil, senão a mais oscilante das
artes.
Não consta da rosa-dos-ventos...
Se bem que uma rosa-dos-ventos é rosa
mas apenas no nome.
Antes, a chamaremos de malme-quer
até Dumquerque.
Indômitus está dançando agora
entre duas espécies de estrelas.

A hora não é pra considerações em torno do
que possa acontecer.

É a hora do sangue-frio. Porque os peixes,
como os capitães, são animais de sangue-frio.

A hora é do vento
pela proa, ou a maubordo (não bombordo).
Nasce uma flor no mastro, um flama (não flâmula).
Indômitus então navega em plena rosa cega.

Uma fulguração súbita escreve no ar uma frase.
Thamuz, Thamuz, panmegas tethneka. Fulmotondro.
O comandante está dizendo à sua maruja que não há
no dicionário uma palavra mas bonita do que arquipélago.

Trinta pombos azuis em formação geométrica voltarão ao navio.

Cassiano Ricardo (1895-1974)

Predileção

William Merritt Chase
Amo os gestos estáticos, plasmados
numa atitude lenta de abandono;
certos olhares bêbedos de sono
e a poesia dos muros desbotados...

Amo as nuvens longínquas... o reflexo
na água dos foscos lampiões...as pontes...
a sufocação ríspida das fontes
e as palavras poéticas sem nexo.

Mas, sobretudo, eu amo esses instantes
em que, como dois presos foragidos,
os meus olhos se embrenham, distraídos,
na natureza - como dois amantes...

Onestaldo de Pennafort (1902-1987)

22 de maio de 2012

O Sonho

Carlos Schwabe
O sonho, essa neve doce
que beija o rosto, rói até que encontre
debaixo, suspenso por fios musicais,
o outro, que desperta.

Julio Cortázar (1914-1984)
Gary Benfield
Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.

Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.

Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.

Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.

Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.

Cecília Meireles (1901-1964)

21 de maio de 2012

Alois Hans Schramm
Dai-me algumas palavras,
- porém, somente algumas! -
que às vezes apetece,
pelos jardins de areia,
colher flores de espuma.

Deixai, deixai, secreto,
o silêncio que dorme
às portas da minha alma,
guardando os labirintos
e as esfinges enormes.

(O silêncio caído
com seus firmes oceanos
- onde não há mais nada
dos litorais do mundo
nem do périplo humano!)

Cecília Meireles (1901-1964)

A morte e o amor

Zhao Chun
Só a morte põe fim seguro
às dores e aflições da vida.
A vida, porém, temerosa,
tudo faz para adiar esse encontro.

É que a vida vê da morte
apenas a mão sombria
e fecha os olhos à luzente taça
que a mesma morte oferece.

Assim também foge do amor
o coração apaixonado,
receoso de um dia morrer
da mesma paixão por que vive.

"Lá onde nasce o verdadeiro amor
morre o 'eu', esse tenebroso déspota.
Tu o deixas expirar no negro da noite
e livre respiras à luz da manhã."

Jalaludin Rumi (1207-1273)

20 de maio de 2012

Mo Tzu (Mozi)

Sir Lawrence Alma-Tadema
“O amor das pessoas umas pelas outras
beneficiam-nas mutuamente.
Aqueles que amam os outros também serão amados.
Tratem outros países como seus,
tratem outras famílias como a sua,
e tratem outras pessoas como tratam a si mesmos”.

Mo Tzu (470-391 a.C)
Filósofo chinês