30 de abril de 2012

Hoje de Manhã

Francoise de Felice
Não escolho nada deixo-me vestir
Pela música discreta que tacteia
Meu corpo em sua breve caminhada.

Não desejo nada consinto apenas
Que a dor me visite e a jovem ceifeira,
Mãe das coisas todas, me seduza.

Não escolho nada nem sequer o vaso
Onde me derramo devagar
Como se fosse água, ou leve lume.

Casimiro de Brito

Decoro Parlamentar

Cesare Maccari - Julius Caesar
- O ilustre senador é um sem-vergonha!
- O quê?! Vossa Excelência é que é safado!
E os dois parlamentares, no Senado,
disputam palavrão que descomponha.
Um grita que o colega usa maconha.
Responde este que aquele outro é viado.
Até que alguém aparte, em alto brado
anima-se a sessão que era enfadonha.
Inútil tentativa, a da bancada,
de a tempo separar o par briguento
aos tapas, se engalfinham por um nada…
Imagem sem pudor do Parlamento,
são ambos mais sinceros que quem brada:
- Da pecha de larápio me inocento!

Glauco Mattoso

29 de abril de 2012

Viver é sucinto

William Merritt Chase
Inverno
…….......hhhhhhÉ tudo o que sinto
….Viver
…………..........ççç É sucinto.
Paulo Leminski (1944-1989)

Cético

Sir Edward Burne-Jones
Não creia em tudo aquilo que está lendo.
Duvide até da própria assinatura.
Não cante sem reler a partitura.
Recuse poesia com remendo.
Se um cego diz seu calvário horrendo,
coloque mais pimenta, que ele atura.
Se ser um masoquista é o que ele jura,
no máximo masturba-se escrevendo.
Cantando espalharei por toda parte,
mas sei que poucos vão acreditar
que sou Átila, Nero ou Bonaparte.
Vá lá, não sou guru nem superstar.
Na dúvida, porém, nunca descarte
que onde há fumaça o fogo pode estar.

Glauco Mattoso

28 de abril de 2012

Rua

Jurgen Gottschlag
Se sua rua porventura aparecer
coberta de pétalas caídas
pela inclemência
de um vento qualquer,
não faça nada.
Deixe-a assim desordenada
e descabida.
São reticências que sobraram da estação passada.
Acabarão varridas pela própria vida.

Flora Figueiredo

AGORA É A HORA...

Leon SOFUS
Ah! se eu pudesse impregnar meu canto
Só de ternura, em rimas convertida,
Unia em sons à tua a minha vida,
De tua graça faria o meu encanto;
Ah! se a canção lograsse tornar brando
Meu coração, rebelde e empedernido,
Qual barco, conturbado e sacudido,
Ao porto da alegria ia aportando.
Na comunhão fraterna do poema
Tornara um só o universal desejo
E amar seria a força de meu lema.
Ah! puro som, harmonizada aurora,
Horizonte de luz, só para o beijo,
Converte-se em alegria agora, agora...

Antônio Lázaro de Almeida Prado
Fritz Zuber-Buhler
A poesia foi sempre e será
companheira inseparável dos homens,
porque é o canal mais adequado
que permite condividir
através de palavras os movimentos
mais caracteristicamente humanos:
emoções, solidariedade, ânsias,
anseios e temores. Daí o caráter
essencialmente unitivo, vale dizer articulador,
da arte literária.

Antônio Lázaro de Almeida Prado

Código Florestal

27 de abril de 2012

Desilusão

Joan Llimona i Bruguera
E que é amar? A estranha dor
de estilhaçar a alma em carinho...
É colher ao acaso alguma flor
para despetalá-la no caminho.

E que resta depois de tantos ais?

A saudade? Talvez...Ó alma enganada,
de ti e da flor não resta quase nada:
um punhado de pétalas na estrada,
um perfume nos dedos... - Nada mais.

Menotti del Picchia (1892-1988)

Simplicidade

Donald Zolan
Tudo é tão simples nesta vida e fica
às vezes tão confuso ou tão bisonho
que a linguagem das coisas se duplica
ante os olhos atônitos de sonho.
E essa simplicidade, clara e rica
de sensações indefiníveis, ponho
no pensamento real que frutifica
na ambiguidade em que me decomponho.
Mas o cenário vai mudando. E a vida
se lança calma e convenientemente
na foz do tempo. E eu continuo , a esmo,
minha jornada interrompida,
procurando o horizonte inexistente
na planície impossível de mim mesmo.

Gilberto Mendonça Teles

26 de abril de 2012

Vivi ou sonhei que vivi

Salvador Dali – The persistence of memory
A inexpressiva multidão dos anos
Passou, anônima e apressada
Afinal, eu vivi,
Ou sonhei que vivi?

Helena Kolody (1912-2004)

Céu

Sascalia
A criança olha
Para o céu azul
Levanta a mãozinha,
Quer tocar o céu
Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
Crê que o não alcança,
Quando o tem na mão.

Manuel Bandeira (1886-1968)

Sinfonia Cotidiana

Di Cavalcanti - Menina com gato e piano
A manhã surge
aos sons do Concerto n.º 1 de Grieg
no rádio madrugador do meu vizinho.

A tarde chega
acompanhada pelo Prelúdio n.º 24 de Chopin,
num piano sem lugar.

A madrugada se embala
com a música do mar.

J. G. de Araujo Jorge (1914-1987)

25 de abril de 2012

Flor de açucena

Henrietta Rae - Hylas and the Water Nymphs
Quando acariciei o teu dorso,
campo de trigo dourado,
minha mão ficou pequena
como uma flor de açucena
que delicada desmaia
sob o peso do orvalho.
Mas meu coração cresceu
e cantou como um menino
deslumbrado pelo brilho
estrelado dos teus olhos.

Thiago de Mello

Agir

George Dunlop Leslie
Agir, eis a inteligência verdadeira.
Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for.
O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito.
Condições de palácio tem qualquer terra larga,
mas onde estará o palácio
se não o fizerem ali?

Bernardo Soares
(heterônimo de Fernando Pessoa)
Livro do Desassossego

24 de abril de 2012

A missão das folhas

Naquela tarde quebrada
contra o meu ouvido atento
eu soube que a missão das folhas
é definir o vento.

Ruy Belo (1933-1978

Filme

“Há quem passe pelo bosque e só veja lenha para a fogueira.”
(Léon Tolstói)
Assisti o filme – ‘A Última Estação’ - que aborda os últimos meses de vida, ou melhor, da vida do notável escritor russo: Léon Tolstói (1828-1910).
Um ótimo filme, baseado em livro de Jay Parini, porém, eu preferia que o filme fosse feito em língua russa porque para se contar a história de um povo, de uma época é muito melhor na língua original, inclusive a atriz Helen Mirren me fazia lembrar a ‘Rainha Elizabeth’ e Paul Giamatti , interpretando Vladimir Chertkov parecia americano demais.
Sem esquecer que essa estória se passa em 1910, numa Rússia dos Czares.
O filme merece ser visto sem pressa. Recomendo sim, aos que gostam não apenas do escritor, Tolstói, mas também aos que gostam da matéria História. Será mais um incentivo aos adolescentes a gostarem de leituras.
Tomara que Professores levem ‘A Última Estação’ para a Sala de Aula. É um ótimo filme.
“É no coração do homem que reside o princípio e o fim de todas as coisas.”
(Léon Tolstói)

Genocídio Armênio

Genocídio Armênio
O primeiro genocídio do século 20
“Quem ainda se lembra dos Armênios?”
Hitler ao iniciar o genocídio dos judeus.

Você já ouviu essa história? Há 97 anos, o povo armênio quase foi exterminado pelos turcos. E, até hoje, luta pelo reconhecimento internacional do massacre, que vitimou 1,5 milhão de pessoas.
Tudo começou no dia 24 de abril de 1915. Na manhã daquele Sábado de Aleluia, em meio às comemorações da Páscoa cristã, cerca de 600 intelectuais, políticos e religiosos da comunidade armênia que viviam no então Império Turco-Otomano, atual Turquia foram presos acusados de traição.
A partir dai começa a matança e deportação forçada de centenas de milhares ou até mais de um milhão de pessoas de origem armênia que viviam no Império Otomano, com a intenção de exterminar sua presença cultural, sua vida econômica e seu ambiente familiar, durante o governo dos chamados Jovens Turcos, de 1915 a 1917.
Versão turca
A Turquia admite que houve uma "terrível mortalidade" entre os armênios, mas nega o genocídio.
No mesmo momento em que se esforça para ingressar na União Europeia, a Turquia sofre pressão para reconhecer as atrocidades cometidas contra o povo armênio. Passados 97 anos da tragédia, o genocídio só é reconhecido pela França, Austrália, Argentina, Suécia, Itália, Chipre, Grécia e Uruguai e por organizações internacionais como o Parlamento Europeu, a Comissão de Direitos Humanos da ONU e o Conselho Ecumênico das Igrejas. Os armênios, no entanto, não contam com o apoio oficial dos Estados Unidos, que têm na Turquia o seu mais forte aliado no mundo muçulmano. O país desempenha um relevante papel no xadrez político global e abriga bases da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Se por um lado, existe um imenso e profundo volume de conhecimento sobre o holocausto, por outro, grande parte da história do crepúsculo do Império Otomano ainda não foi contada, faltando detalhamento para que conclusões possam ser tiradas sobre o que realmente aconteceu.

23 de abril de 2012

SINAL DE TI

Cesar Pattein
Única sobrevivente
de uma casa desabada
- só eu me achava acordada.

E recordo a minha gente,
na noite sem madrugada.
Só eu me achava acordada.

Minha morte é diferente:
eles não souberam nada.
Só eu me achava acordada.

Mas quem sabe o que se sente,
entre ir na casa afundada
e ter ficado – acordada!?

Cecília Meireles (1901-1964)

Deixem-me o sono

Arte de Sheilla Liz
Deixem-me o sono! Sei que é já manhã.
Mas se tão tarde o sono veio,
Quero, desperto, inda sentir a vã
Sensação do seu vago enleio.

Quero, desperto, não me recusar
A estar dormindo ainda,
E, entre a noção irreal de aqui estar,
Ver essa noção finda.

Quero que me não neguem quem não sou
Nem que, debruçado eu
Da varanda por sobre onde não estou
Nem sequer veja o céu.

Fernando Pessoa (1888-1935)

22 de abril de 2012

Relógio

Jacek Yerka
Diante de coisa tão doída
conservemo-nos serenos.

Cada minuto de vida
nunca é mais, é sempre menos.

Ser é apenas uma face
do não-ser, e não do ser.

Desde o instante em que se nasce
já se começa a morrer.

Cassiano Ricardo (1885-1974)

Poema

Charles Courtney Curran
O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Como rumor do mar com o passar do vento
O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento
No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas
E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)
Hoje na História:
22 de abril de 1915 - Alemães introduzem o gás clorídico
como arma química na I Guerra Mundial.
As tropas germânicas horrorizaram os soldados aliados ao longo do front ocidental ao lançar mais de 150 toneladas de gás clorídrico contra duas divisões francesas em Ypres, Bélgica. Foi o primeiro grande ataque a gás que devastou as linhas aliadas.
Em janeiro de 1915, os alemães lançaram obuses carregados com brometo de xileno, um gás mais letal, sobre as tropas russas em Bolimov no front oriental. Devido ao frio hibernal, a maior parte do gás congelou, mas, apesar disso, os russos relataram mais de mil baixas fatais como resultado dessa nova arma química.
Em 22 de abril, os alemães lançaram sua primeira e única ofensiva do ano. Os alemães utilizam gás clorídico como arma química na Segunda Batalha de Ypres, matando em dez minutos mais de 5 000 soldados por asfixia no primeiro uso em larga escala de gás venenoso na I Guerra Mundial.

21 de abril de 2012

Pior que o cão é sua fúria

Darren Fisher - Summer Rain
Pior que o cão é sua fúria,
pior que o gato é sua garra.
pior que a sanha de ferir
a que se esconde
sob feição de amor.
Pior que a vida é a não-vida
do que se faz espectador;
nem mergulha, nem nada, nem conhece
o mar fundo:
está sempre à beira da estrada.

Marly de Oliveira (1935-2007)
Globalização
Discutiam os camponeses:

Vi uma pedra fumando água, disse um.
Impossível, ripostou o outro.
Aqui só os rios é que bebem fumos.

O geólogo ouviu e disse: é preciso
desentortar as palavras dessa gente!

O antropólogo argumentou
em defesa de uma lógica, pura e mágica
não tocada por ocidentais impurezas.

O político chegou e disse: é preciso
despalavrar os que sofrem de excesso de alma

O que fizeram os camponeses?
Venderam falsas amostras
da pedra mágica ao geólogo.
Cozinharam umas tantas ingenuidades
para encantar o antropólogo.
Por fim,
filiaram-se no partido político
que mais luta contra o campesinato.

Mia Couto
em: Idades, Cidades, Divindades

21 de Abril - Dia da Inconfidência Mineira

Ouro Preto - Anita Malfatti
A cidade brasileira que mais representa o dia de hoje é Ouro Preto.
Em 1980, Ouro Preto foi considerado Patrimônio da Humanidade.
Em 20 de novembro de 1949, Cecília Meireles escreveu no jornal "Folha da Manhã":
"Os amigos de Ouro Preto estão consternados: a antiga Vila Rica, a preciosa cidade mineira em que desenrolou grande parte do drama da Inconfidência, está ameaçada de grande ruína: chuvas copiosas que lavam o cabeço dos morros e arrastam habitações deixam a ameaça de perigos sucessivos. Quem sabe o que farão novas chuvas? Quem sabe o que restará, dentro em breve, desse monumento histórico encravado entre montanhas graves, com igrejas de anjos, vales cheios de silêncio, córregos vazios de água e de ouro?
(...) Ah! essas casas aconchegantes, como boas amigas, tão bem arranjadas em suas proporções, na discreta fantasia de suas janelas, na fresquidão de seus vestíbulos, no sossego de suas alcovas, na simplicidade nobre de seus pátios, de seus tanques...
Essas pesadas portas com seus espelhos de fechadura brincando, rendilhados, sorrindo na severidade das grossas madeiras; essas varandas que são as asas de cada sobrado; essas grandes lajes das ruas, que, ao sol, cintilam como prata; esse cantar dos sinos a cada instante do dia; esses cavalos brancos abanando as crinas pelos descampados; esses caminhos tortuosos onde brincam meninas de olhos lindíssimos...
(...) Os amigos de Ouro Preto estão consternados, porque não se resignam à ideia de um dia apontar-se para uma ruína informe, ou para uma pretensiosa cidadezinha plantada sobre as cinzas da Fênix, bendizer-se "Aqui foi Ouro Preto".
(...) Precisamos tanto de passado, para entendermos o presente e construirmos o futuro!
E o nosso passado está ali, nas primeiras explorações da terra, na penetração do oeste, na afluência das raças, nas lutas do trabalho com a aventura e, finalmente, nos apaixonados sonhos de Independência ...
(...) salvar Ouro Preto não é apenas salvar uma cidade tradicional - o que seria suficiente para conduzir-nos e inspirar-nos: mas é salvar a mais bela página da nossa história de povo livre. Adotamos o Sete de Setembro como dia da Pátria. Mas a Inconfidência Mineira foi o prólogo desse dia. No mapa da nacionalidade, esse é o lugar de Ouro Preto."
Cecília Meireles (1901-1964)
Vila Rica e os caminhos do ouro.

20 de abril de 2012

Vento, Água, Pedra

Michael & Inessa Garmash
A água perfura a pedra,
o vento dispersa a água,
a pedra detém ao vento.
Água, vento, pedra.

O vento esculpe a pedra,
a pedra é taça da água,
a água escapa e é vento.
Pedra, vento, água.

O vento em seus giros canta,
a água ao andar murmura,
a pedra imóvel se cala.
Vento, água, pedra.

Um é outro e é nenhum:
entre seus nomes vazios
passam e se desvanecem.
Água, pedra, vento.

Octavio Paz (1914-1998)
Edward Robert Hughes
“Não contemplo a noite,
mas um alvorecer para o qual
ninguém jamais acordou a tempo”.

Henry David Thoreau (1817-1862)