29 de fevereiro de 2012

Velho Tema II

Sir Edward Burne-Jones - The love song
Eu cantarei de amor tão fortemente
Com tal celeuma e com tamanhos brados
Que afinal teus ouvidos, dominados,
Hão de à força escutar quanto eu sustente.

Quero que meu amor se te apresente
— Não andrajoso e mendigando agrados,
Mas tal como é: — risonho e sem cuidados,
Muito de altivo, um tanto de insolente.

Nem ele mais a desejar se atreve
Do que merece; eu te amo, e o meu desejo
Apenas cobra um bem que se me deve.

Clamo, e não gemo; avanço, e não rastejo;
E vou de olhos enxutos e alma leve
À galharda conquista do teu beijo.

Vicente de Carvalho (1866-1924)

Antônia

Guilherme de Faria
Amei Antônia de maneira insensata.
Antônia morava numa casa que para mim
não era casa, era um empireo.
Mas os anos foram passando.
Os anos são inexoráveis.
Antônia morreu.
A casa em que Antônia morava foi posta abaixo.

Eu mesmo já não sou aquele que amou
Antônia e que Antônia não amou.
Aliás, previno, muito humildemente,
que isto não é crônica nem poema.
É apenas
Uma nova versão, a mais recente, do tema "ubi sunt",
Que dedico, ofereço e consagro
A meu dileto amigo Augusto Meyer.

Manuel Bandeira (1886-1968)

28 de fevereiro de 2012

Perfeição

Guido Borelli - Alla Parete
Vejo a Perfeição em sonhos ardentes,
Beleza divina aos sentidos ligada,
Cantando ao ouvido em voz olvidada
Que do peito irrompe em raios candentes

Que não posso prender. Seu cabelo vem
Pelo peito inocente onde, confundidos,
O ideal e o real são tecidos
E algo de alegre que ao céu fica bem.

Então chega o dia e tudo passou;
A mim regresso em dorido sentir,
Qual marinheiro que o naufrágio acordou

Do sonho de um campo em dia luminoso:
Ergue a cabeça e estremece ao ouvir
O rumor da descida ao abismo penoso.

Alexander Search
Fernando Pessoa (1888-1935)
Andorinha
Tarda a aurora
e não tarda o tardo
Tardam os anos
tarda e é ébrio
o sonolento vir das manhãs.

Há o ciclo das romãs e o do grão sem cor
o ciclo das maçãs e o da flor na macieira
o ciclo do trigo e o da tenra haste.

Entre a hora e o século
tarda a cor e luze
o iminente
inevitável
tarda e existe.

Signo em rotação
cor e sentido
entreabrem-se
o poeta trava a língua
entre pedra e água
versocriação.

Violação
é dar nome ao sentido
o perfume das formas
gesto finito
um dia
tudo o mais entorna.

Michel Suleiman
Divulgador da cultura Árabe no Brasil

27 de fevereiro de 2012

Quem Sonha Mais?

Ostritskogo Arcadia Gershevich
Quem sonha mais, vais me dizer —
Aquele que vê o mundo acertado
Ou o que em sonhos se foi perder?

O que é verdadeiro? O que mais será —
A mentira que há na realidade
Ou a mentira que em sonhos está?

Quem está da verdade mais distanciado —
Aquele que em sombra vê a verdade
Ou o que vê o sonho iluminado?

A pessoa que é um bom conviva, ou esta?
A que se sente um estranho na festa?

Alexander Search
Fernando Pessoa (1888-1935)

As Vozes da Natureza

Ferdinand Georg Waldmuller
As vozes que nos vêm da natureza
Traduzem sempre um mútuo sentimento.
Cantam as frondes pela voz do vento,
Pelo manancial canta a represa.
Pelas estrelas canta o firmamento
Nas suas grandes noites de beleza.
Cada nota a outra nota vive presa,
É um pensamento de outro pensamento.
Pelas folhas murmura a voz da estrada,
Pelos salgueiros canta a água parada
E o amigo sol, apenas se levanta,
Jogando o manto de ouro ao céu deserto,
Chama as cigarras todas para perto,
Que é na voz das cigarras que ele canta.

Olegário Mariano (1889-1958)

26 de fevereiro de 2012

Renoir - Girls on the River
“Palavra puxa palavra,
uma ideia traz outra e assim se faz um livro,
um governo ou uma revolução.
Alguns dizem que assim é que a Natureza
compôs as espécies”.

Machado de Assis (1839-1908)

Impressões de Teatro

Richard Dadd
Que dramalhão! Um intrigante ousado,
Vendo chegar de longa ausência o conde,
Diz-lhe que a pobre da condessa esconde
No seio o fruto de um amor culpado.

Naturalmente o conde fica irado
O pai que é? Pergunta — Eu lhe responde
Um jovem que entra. — Um duelo! — Sim! Quando? Onde?—
No encontro morre o amante desgraçado.

Folga o intrigante... Porém surge um mano
E, vendo morto o irmão, perde a cabeça:
Crava um punhal no peito do tirano.

É preso o mano, mata-se a condessa,
Endoidece o marido, e cai o pano,
Antes que outra catástrofe aconteça.

Artur Azevedo (1855-1908)

As lendas são a poesia do povo

Ethan Harris - The Optimistic Crag
“As lendas são a poesia do povo;
elas correm de tribo em tribo, de lar em lar,
como a história doméstica das ideias e dos fatos;
como o pão bento da instrução familiar... mas o povo crê,
e não convém destruir as fábulas do povo...
Este cultivo dos mitos, não é, talvez,
o guardar laborioso das verdades eternas?”

Machado de Assis (1839-1908)

25 de fevereiro de 2012

Janet Hill
Não foram os anos
que me envelheceram –
longos, lentos, sem frutos.
Foram alguns minutos.

Cassiano Ricardo (1885-1974)
Dia de chuva é para viajar
na neblina e no vento
para dentro para dentro.

Um livro fechado espera
que se abram as suas portas
com as chaves do pensamento.
Roseana Murray
John William Godward
Hoje arrumo as flores
em cima da mesa
as frutas na memória
quero um dia bem simples
alguma luz pousada
na superfície da água.

Hoje chamo para mim
amorosas palavras
que vivam um dia
perto do meu coração
que corram pela casa
com sua mistura de mel e espanto.

Alguém parte com um ruído seco
alguém sempre está partindo.

Roseana Murray

24 de fevereiro de 2012

Flor de Açucena

Paulo Zerbato
“Caí em meu patético período de desligamento. Muitas vezes, diante de seres humanos bons e maus igualmente, meus sentidos simplesmente se desligam, se cansam, eu desisto. Sou educado. Balanço a cabeça. Finjo entender, porque não quero magoar ninguém. Este é o único ponto fraco que tem me levado à maioria das encrencas. Tentando ser bom com os outros, muitas vezes tenho a alma reduzida a uma espécie de pasta espiritual. Deixa pra lá. Meu cérebro se tranca. Eu escuto. Eu respondo. E eles são broncos demais para perceber que não estou mais ali”.
Charles Bukowski (1920-1994)

O beija-flor

Martin Johnson Heade
Acostumei-me a vê-lo todo o dia
De manhãzinha, alegre e prazenteiro,
Beijando as brancas flores de um canteiro
No meu jardim - a pátria da ambrosia.

Pequeno e lindo, só me parecia
Que era da noite o sonho derradeiro…
Vinha trazer às rosas o primeiro
Beijo do Sol, nessa manhã tão fria!

Um dia foi-se e não voltou… Mas quando
A suspirar me ponho, contemplando,
Sombria e triste, o meu jardim risonho…

Digo, a pensar no tempo já passado:
Talvez, ó coração amargurado,
Aquele beija-flor fosse o teu sonho!

Auta de Souza (1876-1901)

23 de fevereiro de 2012

Rotação

Stefano Novo
Roda mundo, roda vida, roda vento.
Passa tudo, passa tanto, passa tempo.
Rodopiam as cores
na eterna reticência do momento.
Entre uma volta e outra do destino,
continuo apenas um menino
a soprar meu gira-sonho como um catavento.

Flora Figueiredo

Amor Pacífico e Fecundo

Joel Witmeyer - Walk in the Rain
Não quero amor
que não saiba dominar-se,
desse, como vinho espumante,
que parte o copo e se entorna,
perdido num instante.

Dá-me esse amor fresco e puro
como a tua chuva,
que abençoa a terra sequiosa,
e enche as talhas do lar.
Amor que penetre até ao centro da vida,
e dali se estenda como seiva invisível,
até aos ramos da árvore da existência,
e faça nascer
as flores e os frutos.
Dá-me esse amor
que conserva tranquilo o coração,
na plenitude da paz!

Rabindranath Tagore (1861-1941),
Tradução: Manuel Simões
in "O Coração da Primavera"

22 de fevereiro de 2012

“Antes de partir,
permitiu então que a tocasse.
Era de veludo, era de seda,
toda bordada era a borboleta.
Pousada ali,
e sobre o encanto dos meus olhos,
dormiu na minha mão.
E eu, minúscula criatura diante dela;
tive, comovida, a sensação mais bela.
Veio me falar a borboleta:
- que as grandes coisas,
são sempre as mais singelas”.

Patty Vicensotti

AO TEMPO

Miguel Avataneo
Tempo, vais para trás ou para diante?
O passado carrega a minha vida
Para trás e eu de mim fiquei distante,

Ou existir é uma contínua ida
E eu me persigo nunca me alcançando?
A hora da despedida é a da partida

A um tempo aproximando e distanciando...
Sem saber de onde vens e aonde irás,
Andando andando andando andando andando

Tempo, vais para diante ou para trás?

Dante Milano (1899-1991)

21 de fevereiro de 2012

Encontro das Almas

Henri Matisse - Joy Of Living
“Todos os amores deveriam ser possíveis.
Pessoas não deveriam chegar nem antes nem depois.
Tudo deveria ser exatidão.
Pontualidade vital para que o amor aconteça.
A Terra deveria girar com esse único propósito:
O encontro das almas. O resto seria resto.
E tudo seria pra sempre Brilhar pra sempre.
Brilhar como um farol. Brilhar com brilho eterno.
Gente é pra brilhar. Esse é o meu slogan. E do sol”.

Vladimir Maiakovski (1893-1930)

Redação

Sir John Everett Millais - The Crown of Love
Uma senhora pediu-me
um poema de amor.
Não de amor por ela,
mas "de amor por amor".
À parte aquelas
trivialidades "minha rosa",
"lua do meu céu interior",
que eu podia eu dizer
para ela, a não destinatária,
que não fosse por ela?
Sem objeto, o poema
é uma redação
dos 100 Modelos
de Cartas de Amor.

Alexandre O'Neill (1924-1986)

20 de fevereiro de 2012

Arte

Tarsila do Amaral - Carnaval em Madureira

Hoje é carnaval

Joan Miró - Carnival
É
Dia
De samba,
De alegria.
Danço nos meus sonhos,
Visto a fantasia de arco-íris,
Deixo o tamborim me levar,
Do amor sigo o ritmo...
Colombina
Me chama
E eu.

Mardilê Friedrich Fabre
O Estado é Laico e a Psicologia também.
Em apoio à decisão do CRP 8 que solicita à psicóloga Marisa Lobo que trabalhe com Ética respeitando a diversidade de orientação sexual e de gênero e para que não utilize sua religião no exercício de práticas psicológicas.

19 de fevereiro de 2012

Rosinha do Prado

John William Godward - The Flowers Of Venus
Viu um rapaz uma rosa,
Rosinha do prado,
Era tão fresca e formosa,
Correi a vê-la, viçosa,
Viu-a, ficou encantado.
Rosa, rosa, tão vermelha,
Rosinha do prado.

Disse o rapaz: "Vou colher-te,
Rosinha do prado!"
Disse a rosa: "Eu vou picar-te,
Tu de mim hás de lembrar-te,
E não aceito esse Fado."
Rosa, Rosa, tão vermelha
Rosinha do prado

Fogoso, o rapaz colheu
A rosa do prado;
Defendeu-se ela e picou,
Mas de nada lhe valeu,
E sofreu seu Fado.
Rosa, rosa, tão vermelha,
Rosinha do prado.

Johann von Goethe (1749-1832)
Tradução: João Barrento
Paul Cézanne
Arde a montanha
- brasa de ametista –
atravessada de sol

O grande crepúsculo
é um calmo incêndio
que se espalma
na redoma da tarde

Os laranjais
- surdo perfume –
se preparam
para acolher a noite

Hélio Pellegrino (1924-1988)

18 de fevereiro de 2012

Quero fazer contigo o que a primavera faz com as cerejas

Emile Vernon - Under the Cherry Tree
Quando não te doeu acostumar-te a mim,
à minha alma solitária e selvagem,
a meu nome que todo afugentam.
Tantas vezes vimos arder o luzeiro
nos beijando os olhos e sobre nossas cabeças
destorcer-se os crepúsculos em girantes abanos.
Sobre ti minhas palavras choveram carícias.
Desde faz tempo amei teu corpo de nácar ensolarado.
Chego a te crer a dona do universo.
Te trarei das montanhas flores alegres,
copihues, avelãs escuras, e cestas silvestres de beijos.
Quero fazer contigo o que a primavera faz com as cerejas.

Pablo Neruda (1904-1973)
Pois bem... tal como a Primavera...faz de ti uma pessoa melhor, mais bela e, sobretudo, mais madura... “Quero fazer contigo o que a Primavera faz às cerejas”.