30 de janeiro de 2012

Epitáfio

(William Turner)
Barcos ou não
ardem na tarde.

No ardor do verão
todo o rumor é ave.

Voa coração.
Ou então arde.

Eugénio de Andrade (1923-2005)

Centenário de Herivelto Martins

Herivelto Martins (30 de janeiro de 1912 - 17 de setembro de 1992). Compositor, cantor, músico e ator brasileiro, faria 100 anos hoje.
Herivelto Martins tem sua trajetória dividida em duas partes: antes e depois de Dalva de Oliveira, de 1936 até 1950, quando se separaram definitivamente.
Participou da Dupla Preto e Branco e, em seguida, do grupo Trio de Ouro, com a participação da cantora Dalva de Oliveira, dona de uma voz poderosa por quem Herivelto se apaixonou.
A vida conjugal de Herivelto e Dalva foi sempre muito tumultuada. Após 10 anos de casamento e dois filhos Pery Ribeiro, que fez muito sucesso bem mais tarde e Ubiratan, separaram-se, protagonizando um escândalo nacional, divulgado pela imprensa. Mesmo casado, passava as noites fora de casa, bêbado e com prostitutas.
Separado de Dalva casou-se novamente e passou a se apresentar em alguns festivais e a dirigir grupos de sambas.
Em 1971 foi eleito presidente do Sindicato de Compositores do Rio de Janeiro, mas foi impedido pela ditadura militar de tomar posse, acusado de subversivo. Em 1992, alguns meses antes de sua morte, foi lançada a biografia "Herivelto Martins: uma escola de samba" (Ensaio Editora), dos jornalistas Jonas Vieira e Natalício Norberto.
Em janeiro de 2010, a Rede Globo produziu uma minissérie: "Dalva e Herivelto - Uma Canção de Amor", escrita por Maria Adelaide Amaral, com a colaboração de Letícia Mey e Rodrigo Arantes do Amaral com direção de Dennis Carvalho.

29 de janeiro de 2012

Encantamento

Hugh O'Neill - Rolling Hills
A tarde jogou os seus sete véus luminosos
sobre a montanha,
e ficou toda nua dançando
com sombras de crepúsculo
a escorrerem-lhe, suaves, pela pele dourada...
...e ficou toda nua dançando
na campina
ao som da harpa encantada do silêncio...

Tasso da Silveira (1895-1968)

O Último Poema

John William Godward - An Idle Hour
Não sei quem me manda a poesia
nem se Quem disso a chamaria.

Mas quem quer que seja, quem for
esse Quem (eu mesmo, meu suor?),

seja mulher, paisagem ou o não
de que há que preencher os vãos.

fazer, por exemplo, a muleta
que faz andar minha alma esquerda,

ao Quem que se dá à inglória pena
peço: que meu último poema

mande-o ainda em poema perverso,
de antilira, feito em antiverso.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

28 de janeiro de 2012

Milagre

Sir Edward John Poynter
Nesta manhã um raio de sol
atravessou minha janela,
eu ainda dormia.

Havia tanta graça,
milagre...
Esqueci-me até da nuvem escura
bailando na noite
Meu coração florescia.

Arnalda Rabelo

Ária

Em meio ao som da cachoeira
hei-de ouvir-me,
a vida inteira
dar teu nome.
Tudo o mais levam águas,
mágoas vagas
para a foz.
Vida que o viver consome.
Um rio, e, do rio à beira,
tua imagem. Minha voz.
A cachoeira
diz teu nome.

João Guimarães Rosa (1908-1967)

27 de janeiro de 2012

Esperemos

Arthur Hughes - Returning Home
Há outros dias que não têm chegado ainda,
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas
- há fábricas de dias que virão -
existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos
com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato.

Pablo Neruda (1904-1973)

O tempo

Maria Ilieva
O tempo cria um tempo
Logo abandonado pelo tempo,
Arma e desarma o braço do destino.
A metade de um tempo espera num mar sem praias,
Coalhado de cadáveres de momentos ainda azuis.
O que flui do tempo entorna os pássaros,
Atravessa a pedra e levanta os monumentos
Onde se desenrola - o tempo espreitando - a ópera do espaço.
Os botões da farda do tempo
São contados - não pelo tempo.
O relojoeiro cercado de relógios
Pergunta que horas são.

O tempo passeia a música e restaura-se.
O tempo desafia a pátina dos espíritos,
Transfere o heroísmo dos heróis obsoletos,
Divulga o que nós não fomos em tempo algum.

Murilo Mendes (1901-1975)

26 de janeiro de 2012

Edwin Austin Abbey - Fiammetta's Song
Levo comigo a imagem da tua voz
Que me aponta, ilumina o caminho.
Teu olhar derrama como foz
E me lança dentro do rodamoinho.

Tuas mãos me fizeram mulher.
Tuas palavras me conduziram
Ao mundo e seu infinito saber
E aos mistérios que emergiram.

Hoje eu quero ser a senhora
Da minha vida, do tempo-agora,
Pra levar em meu caminho

A tua Poesia sonora,
A tua Luz de aurora,
A suavidade do teu carinho.

Rachel Rabello

Canção sem rumo

Frederick Morgan
A vida subiu, desceu,
foi longe demais a vida.
Como uma estrela caída,
a minha vida desceu
rolando na tua vida.

Como uma estrela caída,
caída, de onde? Do céu?
a tua vida desceu
rolando na minha vida,
como uma estrela caída.

Emílio Moura (1902-1971)
Tempestade solar chegou ao nosso planeta.
Na noite de ontem, dia 24, a Terra recebeu ondas de radiação provenientes de explosões solares, que haviam sido diagnosticadas pelos cientistas. Essas explosões que ocorrem no Sol, são chamadas de ejeções de massa coronal, na qual, acabam lançando partículas no espaço
Na noite de 24 de janeiro de 2012, a Terra recebeu ondas de radiação provenientes de explosões solares, que haviam sido diagnosticadas pelos cientistas. Essas explosões que ocorrem no Sol, são chamadas de ejeções de massa coronal, na qual, acabam lançando partículas no espaço.
Ao longo desta quarta-feira, dia 25, a radiação continuará chegando ao nosso planeta. No último domingo o fenômeno começou a ser percebido após uma explosão central no Sol a qual causou uma tempestade de ondas solares, que viajaram a uma velocidade de 6,4 milhões de quilômetros por hora.
Apesar de ser considerado o maior evento solar desde 2005, os danos não serão percebidos pela maioria da população. De acordo com a Administração Nacional de oceanos e Atmosfera (NOAA) dos Estados Unidos, o maior dano poderá ocorrer nos satélites de comunicação que orbitam o planeta.

25 de janeiro de 2012

John Roddam Spencer-Stanhope - Cupid and Psyche
Esta noite eu conversei tristezas
e ouvi as horas mortas pisando de leve,
para não perturbar meu pranto.
Senti minha alma desgarrar-se
e seguir outros rumos,
palmilhar caminhos estranhos,
em busca do meu sorriso
que se perdera no abismo da noite.
Esta noite eu conversei tristezas,
e teci saudades,
e magoei meus olhos,
lembrando coisas que já estavam mortas!

Anilda Leão (1923-2012)
Marcus Stone
“Uma missão divina não significa um sacrifício, nem uma fuga do mundo, nem uma rejeição às alegrias da beleza e da natureza; ao contrário, significa um grande e pleno aproveitamento de todas as coisas. Significa fazer o trabalho que amamos com toda a alma e com todo o coração, seja ele cuidar da casa, trabalhar na fazenda, pintar, representar, ou servir ao nosso semelhante, dentro e fora de casa. E esse trabalho, seja qual for, se o amamos acima de qualquer outra coisa, é o supremo mandamento de nossa alma, a tarefa que temos de cumprir neste mundo, a única em que podemos nos sentir sinceros, interpretando na matéria a mensagem do nosso verdadeiro Eu. Podemos, dessa forma, julgar pela nossa saúde e felicidade se estamos interpretando bem essa mensagem”.
Edward Bach (1886-1936)

24 de janeiro de 2012

Canção da falsa adormecida

Giorgione (Giorgio Barbarelli) - Sleeping Venus
Se te pareço ausente, não creias:
Hora a hora o meu amor agarra-se aos teus braços,
Hora a hora o meu desejo revolve estes escombros
E escorrem dos meus olhos mais promessas.

Não acredites neste breve sono;
Não dês valor maior ao meu silêncio;
E se leres recados numa folha branca,
Não creias também: é preciso encostar
Teus lábios em meus lábios para ouvir.

Nem acredites se pensas que te falo:
Palavras
São o meu jeito mais secreto de calar.

Lya Luft

A Mangueira e o Sabiá

O sabiá pousou em cima da mangueira e cantou,
cantou uma semana inteira.
Depois foi-se embora, nunca mais voltou.
A mangueira ficou triste, mas toda cheia de mangas.
Mangas tão doces, tão bonitas, a mangueira nunca deu.
Deu agora de saudades, porque a mangueira sofreu...

Quanta mulher-sabiá!
Quanto homem-mangueira!...

Álvaro Moreyra (1888-1964)

23 de janeiro de 2012

Argila

Evelyn Pickering de Morgan - Boreas and Oreithyia
Nascemos um para o outro, dessa argila
De que são feitas as criaturas raras;
Tens legendas pagãs nas carnes claras
E eu tenho a alma dos faunos na pupila...

Às belezas heroicas te comparas
E em mim a luz olímpica cintila,
Gritam em nós todas as nobres taras
Daquela Grécia esplêndida e tranquila...

É tanta a glória que nos encaminha
Em nosso amor de seleção, profundo,
Que (ouço ao longe o oráculo de Elêusis)

Se um dia eu fosse teu e fosses minha,
O nosso amor conceberia um mundo
E do teu ventre nasceriam deuses...
Raul de Leoni (1895-1926)

Ingratidão

John W.Waterhouse - Gathering Almond Blossoms
Nunca mais me esqueci! ... Eu era criança
E em meu velho quintal, ao sol-nascente,
Plantei, com a minha mão ingênua e mansa,
Uma linda amendoeira adolescente.

Era a mais rútila e íntima esperança...
Cresceu... cresceu... e aos poucos, suavemente,
Pendeu os ramos sobre um muro em frente
E foi frutificar na vizinhança...

Daí por diante, pela vida inteira,
Todas as grandes árvores que em minhas
Terras, num sonho esplêndido semeio,

Como aquela magnífica amendoeira,
E florescem nas chácaras vizinhas
E vão dar frutos no pomar alheio...

Raul de Leoni (1895-1926)

22 de janeiro de 2012

O Espírito do Poeta

Frederick Stuart Church - Girl with Rabbits
O espírito do poeta flutua e dança
nas ondas da vida em meio
às vozes do vento e da água.

Agora, quando o sol se escondeu
e o céu escurecido
se arrasta por sobre o mar,
como lânguidos cílios
sobre olhos cansados
é tempo de arrebatar-lhe a pena
e deixar seus pensamentos baixar
ao fundo do abismo em meio ao eterno
segredo desse silêncio.

Rabindranath Tagore (1861-1941)
John William Godward
Esta é a saudade: viver no afeto
E não ter morada no tempo
Estes são os desejos: conversa silenciosa
Horas diárias com a eternidade.

Esta é a vida. Até que de um ontem
suba a mais solitária de todas as Horas
Tão sorridente, diferente das irmãs
que se calam eternamente.

Rainer Maria Rilke (1875-1926)

21 de janeiro de 2012

Florence Harrison
Venho de longe, trago o pensamento
Banhado em velhos sais e maresias;
Arrasto velas rotas pelo vento
E mastros carregados de agonia.

Provenho desses mares esquecidos
Nos roteiros de há muito abandonados
E trago na retina diluídos
Os misteriosos portos não tocados.

Retenho dentro da alma, preso à quilha
Todo um mar de sargaços e de vozes,
E ainda procuro no horizonte a ilha

Onde sonham morrer os albatrozes...
Venho de longe a contornar a esmo,
O cabo das tormentas de mim mesmo.

Paulo Bonfim
John Simmons-Hermia and Lysande
Em nossa transparência
Os muros da carne.

Em nossa angústia
O vento rebelde.

Em nossa nuvem
O voo do pássaro.

Em nossa fonte
A água invisível.

Em nossa árvore
A serpente do nada.

Somos o ar
Na torre das palavras.

Paulo Bonfim

20 de janeiro de 2012

Lord Fredric Leighton – Bacchante
Para encher um vazio
Ponha de volta Aquilo que o causou.
Baldado cobri-lo
Com outra coisa — sua boca vai mais se escancarar —
Não se pode soldar o Abismo
Com ar.

Emily Dickinson (1830- 1886)
Marilyn Smith
De pássaro a pássaro caía
tudo o que o dia traz,
ia de flauta em flauta o dia,
ia vestido de verdura
com voos que abriam um túnel,
e por ali passava o vento
por onde as aves cortavam
o ar compacto e azul:
por ali entrava a noite.

No regresso de tantas viagens
fiquei suspenso e verde
entre o sol e a geografia:
vi como trabalham as asas,
como se transmite o perfume
por um telégrafo emplumado,
vi das alturas o caminho,
as fontes, as telhas,
os pescadores a pescar,
os cais da espuma,
tudo isto eu vi do meu céu verde.
Não tinha mais letras
que a viagem das andorinhas,
a água pura e diminuta
do pequeno pássaro ardendo
que baila saindo do pólen.

Pablo Neruda (1904-1973)

O casaco

René Magritte
Um homem estava anoitecido.
Se sentia por dentro um trapo social.
Igual se, por fora, usasse um casaco rasgado e sujo.
Tentou sair da angústia.
Isto ser:
Ele queria jogar o casaco rasgado e sujo no lixo.
Ele queria amanhecer.

Manoel de Barros