19 de setembro de 2012

O tempo nos parques

Edward Cucuel
O tempo nos parques é
íntimo, inadiável, imparticipante, imarcescível.
Medita nas altas frondes,
na última palma da palmeira
Na grande pedra intacta,
o tempo nos parques.

O tempo nos parques cisma no olhar cego dos lagos
Dorme nas furnas, isola-se nos quiosques
Oculta-se no torso muscular dos fícus,
o tempo nos parques.

O tempo nos parques gera
o silêncio do piar dos pássaros
Do passar dos passos,
da cor que se move ao longe.

É alto, antigo, presciente o tempo nos parques
É incorruptível; o prenúncio de uma aragem
A agonia de uma folha, o abrir-se de uma flor
Deixam um frêmito no espaço do tempo nos parques.

O tempo nos parques envolve de redomas invisíveis
Os que se amam; eterniza os anseios, petrifica
Os gestos, anestesia os sonhos, o tempo nos parques.

Nos homens dormentes,
nas pontes que fogem, na franja
Dos chorões, na cúpula azul o tempo perdura
Nos parques; e a pequenina cutia surpreende
A imobilidade anterior desse tempo no mundo
Porque imóvel, elementar, autêntico, profundo
É o tempo nos parques.

Vinícius de Moraes (1913-1980)

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