31 de dezembro de 2011

Entre a alegria e a dor

Irene Sheri
Quem me acode
à cabeça e ao coração
neste fim de ano,
entre alegria e dor?

Que sonho,
que mistério,
que oração?

Amor.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Vai Ano Velho

Vai Ano Velho
Vai, ano velho, vai de vez,
vai com tuas dívidas
e dúvidas, vai, dobra a ex-
quina da sorte, e no trinta e um,
à meia-noite, esgota o copo
e a culpa do que nem me lembro
e me cravou entre janeiro e dezembro.

Vai, leva tudo: destroços,
ossos, fotos de presidentes,
beijos de atrizes, enchentes,
secas, suspiros, jornais.
Vade retrum, pra trás,
leva pra escuridão
quem me assaltou o carro,
a casa e o coração.
Não quero te ver mais,
só daqui a anos, nos anais,
nas fotos do nunca-mais.

Vem, Ano Novo, vem veloz,
vêm em quadrigas, aladas, antigas
ou jatos de luz moderna, vem,
paira, desce, habita em nós,
vem com cavalhadas, folias, reisados,
fitas multicores, rebecas,
vem com uva e mel e desperta
em nosso corpo a alegria,
escancara a alma, a poesia,
e, por um instante, estanca
o verso real, perverso,
e sacia em nós a fome
- de utopia.

Vem na areia da ampulheta com a
semente que contivesse outra se-
mente que contivesse outra
semente ou pérola
na casca da ostra
como se se outra
semente pudesse
nascer do corpo e mente
ou do umbigo da gente como o ovo
o Sol a gema do Ano Novo que rompesse
a placenta da noite em viva flor luminescente.

Adeus, tristeza: a vida
é uma caixa chinesa
de onde brota a manhã.
Agora é recomeçar.
A utopia é urgente.
Entre flores de urânio
é permitido sonhar.

Affonso Romano de Sant'Anna

30 de dezembro de 2011

Procura da poesia

“Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?”

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
"Fragmento"

Salmo do Silêncio

Gregory Frank Harris
Tão grande é meu silêncio que ouviria
uma hóstia pousar sobre uma nuvem,
a floração de estrelas no abismo
e o murmúrio de Deus amando o mundo.

Neste convulso silêncio escutaria
uma luz caminhando no infinito
e a tristeza de um anjo abandonado.

Tão puro meu silêncio que escuto
o solitário coração de Deus
fluindo angústia.
E às vezes sinto desdobrar-se
em silêncio e mais silêncio
a grande voz a murmurar
meu nome
na negra solidão inacessível.

Yttérbio Homem de Siqueira
(R.G. do Norte 1932-1981)

29 de dezembro de 2011

Ao Sol

Charles Courtney Curran
Naufragas na noite em pompas de luz e imensidade
todo germe palpita na semente
e da nova manhã ressurges
clara divindade
nua a carnação sob o manto escarlate.

Dora Ferreira da Silva (1918-2006)
Svetlana Sewell
Não sei de que distantes tempos está
sempre vindo, cada vez mais perto,
ao meu encontro.
O teu sol e as tuas estrelas nunca
poderão esconder-se de mim para sempre.

Por várias manhãs e várias tardes os
teus passos foram ouvidos e o teu
mensageiro entrou no meu coração
e chamou-me em segredo.

Não sei porque está tão agitada hoje
a minha vida, e porque me está
atravessando o coração um sentimento
de trêmula alegria.

É como se estivesse chegado a hora
de dar por findo o meu trabalho;
e sinto no ar um aroma da tua presença.

Rabindranath Tagore (1861-1941)

28 de dezembro de 2011

Poesia é...

Byron Fly Walker - Meridian Melody
... poesias, a poesia é

- é como a boca
dos ventos
na harpa

nuvem
a comer na árvore
vazia que
desfolha a noite

raíz entrando
em orvalhos...

floresta que oculta
quem aparece
como quem fala
desaparece na boca

cigarra que estoura o
crepúsculo
que a contém

o beijo dos rios
aberto nos campos
espalmando em álacres
os pássaros

- e é livre
como um rumo
nem desconfiado...

Manoel de Barros
Jean Baptiste Armand Guillaumin
Campo sem orvalho, seca
A frente de quem não sonha.

Quem não sonha o azul do voo
perde seu poder de pássaro.

A realidade da relva
cresce em sonho no sereno
para não ser relva apenas,
mas a relva que se sonha.

Não vinga o sonho da folha
se não crescer incrustado
no sonho que se fez árvore.

Sonhar, mas sem deixar nunca
que o sol do sonho se arraste
pelas campinas do vento.

É sonhar, mas cavalgando
o sonho e inventando o chão
para o sonho florescer.

Thiago de Mello

27 de dezembro de 2011

O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.

Manoel de Barros
John Atkinson Grimshaw
Perdão se pelos meus olhos não chegou
mais claridade que a espuma marinha,
perdão porque meu espaço
se estende sem amparo
e não termina:

- monótono é meu canto,
minha palavra é um pássaro sombrio,
fauna de pedra e mar, o desconsolo
de um planeta invernal, incorruptível.
Perdão por esta sucessão de água,
da rocha, a espuma, o delírio da maré.

- assim é minha solidão -
saltos bruscos de sal contra os muros
de meu ser secreto, de tal maneira
que eu sou uma parte do inverno,
da mesma extensão que se repete
de sino em sino em tantas ondas
e de um silêncio como cabeleira,
silêncio de alga, canto submergido.

Pablo Neruda (1904-1973)

26 de dezembro de 2011

Toada à toa

Lutz Baar - Stony Beach
A vida, apenas se sonha
que é plena, bela ou o que for.
Por mais que nela se ponha
é o mesmo que nada por.

Pois é certo que o vivido
- na alegria ou desespero -
como o gás é consumido...
Recomeçamos de zero.

Ferreira Gullar

25 de dezembro de 2011

Criador

Djanira da Motta e Silva
A mão de meu irmão desenha um jardim
e ele surge da pedra. Há uma estrela no pátio.
Uma estrela de rosa e de gerânio.
Mas seu perfume não me encanta a mim.
O que respiro é a glória de meu mano.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

24 de dezembro de 2011

TEMPO DE NATAL

Carl Larsson
Apesar dos pesares,
é um tempo diferente
e a gente sente
vibrações que dispersas no ar,
nos fazem recordar
a estrela guia
planger de sino
e menino dos cabelos de ouro
e olhar divino
da cor do céu.
Riso de criança
e a esperança de Papai Noel.

O mundo em prece
a alma enternece
e renova a fé
ao sentir a presença
do Irmão de Nazaré.
Dá uma vontade incontida
de rever amigos,
perdoar quem nos magoa.
Sentir como a vida é boa
ao distribuir sorrisos,
bons desejos, bons fluídos
não somente aqui na Terra
e entre as estrelas e planetas,
num carinho sideral,
a amar o universo
Pois outra vez é NATAL.

Ivanise Jácome Pântano

23 de dezembro de 2011

Natal

Brenda Burke
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido,
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se,
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de honesta fé,
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm,
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?

Jorge de Sena (1919-1978)

22 de dezembro de 2011

Não posso adiar amar

Emile Munier
Não posso adiar o amor
para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem meu amor
nem meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.

António Ramos Rosa

21 de dezembro de 2011

Os Sinos

Sino de Belém,
Sino da paixão...

Sino de Belém,
Sino da paixão...

Sino do Bonfim!...
Sino do Bonfim!...

Sino de Belém, pelos que ainda vêm!
Sino de Belém, bate bem-bem-bem.

Sino da paixão, pelos que ainda vão!
Sino da paixão, bate bão-bão-bão.

Sino do Bonfim, por que chora assim?...

Sino de Belém, que graça ele tem!
Sino de Belém bate bem-bem-bem.

Sino da paixão. - pela minha irmã!
Sino da paixão. - pela minha mãe!

Sino do Bonfim, que vai ser de mim?...

Sino de Belém, como soa bem!
Sino de Belém bate bem-bem-bem.

Sino da paixão... Por meu pai?...-Não! Não!
Sino da paixão bate bão-bão-bão.
Sino do Bonfim, baterás por mim?...

Sino de Belém,
Sino da paixão...
Sino da paixão, pelo meu irmão...

Sino da paixão,
Sino do Bonfim...
Sino do Bonfim, ai de mim, por mim!

Sino de Belém, que graça ele tem.

Manuel Bandeira (1886-1968)

20 de dezembro de 2011

Washington Maguetas
Serei tão secreta
como o tecido da água
e tão leve

e tão através de mim deixando passar
toda a paisagem
e todo o alheio pecado

do gesto, da presença ou da palavra
que logo que a tua mão me prenda
me não acharás:

serei de água.

Glória de Sant'Anna (1925-2009)
Rudolf Ernst
“Estamos constantemente a comparar-nos uns com os outros, com alguém que teve mais sorte, o que somos com aquilo que deveríamos ser. A comparação, de fato, mata. A comparação é degradante, ela perverte a nossa observação. E é no seio da comparação que somos criados.
Toda a nossa educação se baseia na comparação, assim como a nossa cultura. Portanto, existe uma constante luta para sermos uma coisa diferente daquilo que realmente somos.
A compreensão do que somos liberta a criatividade, mas a comparação alimenta a competitividade, a crueldade, a ambição e, pensamos nós, isso gera progresso. O progresso só nos levou até agora a guerras cruéis e à infelicidade como jamais o mundo conheceu. A verdadeira educação é educar as crianças sem comparação”.
Jiddu Krishnamurti (1895-1986)

19 de dezembro de 2011

Lord Frederic Leighton - Greek Girl Dancing
Pesa no céu da tarde esta alegria
das nuvens de dezembro. O' silêncio de quando
as nuvens ressuscitam os gestos fabulosos
outra vez revelando a frágil eternidade
que se esfuma em translúcidas imagens.

Crescem no céu as asas que se entregam
aos rumos de dezembro. No ritmo dos rumos
fica o sinal de partida, a inquieta ventura
de explorar finalmente a solidão do azul.

De seu breve mistério a flor soluça
pela noite de estrelas afanosas
pelo amor noturno e os desejos inúteis
de dezembro a dezembro.

H. Dobal (1927-2008)

18 de dezembro de 2011

O VÔO

Dói o domingo
no ninho dos tédios.

Dói o verão:
esta pele seca
estirada
sobre os ministérios vazios.

Dói o clube
dos domingos.
Dói o rito
dos domingos:
o amargo esporte
de viver.
O amargo esporte
de esquecer.

Dói a divisão da vida:
o pão subtraído,
o peixe poluído,
a paz envenenada.

H. Dobal (1927-2008)
0 pássaro chegou
e com ele a luz:
de cada trilo seu
nasce a água.

E entre água e luz que o ar desata
está a Primavera inaugurada já,
sabe a semente que já cresceu,
na corola desenha-se a raiz,
abrem-se por fim as pálpebras do pólen.

Tudo isto fez um simples pássaro
no alto dum verde ramo.

Pablo Neruda (1904-1973)

17 de dezembro de 2011

Edward Robert Hughes
Inda percorro os dias
e as noites sem sono

e o que perpassa é o sonho.

Glória de Sant'Anna (1925-2009)
Oh rosa, estás enferma!
O verme transparente
Que voa na noite
Ao som da borrasca

Encontrou tua cama
De alegria carmesim
E seu amor, sombrio e secreto,
Tua vida arruína.

William Blake (1757-1827)
Tradução de José Jorge de Carvalho

16 de dezembro de 2011

Dee Flouton - Sudden Squall
A ventania
Assovia o vento dentro de mim
Estou despido
Dono de nada
Dono de ninguém
Nem dono de minhas certezas
Sou minha cara contra o vento
A contra-vento
E sou o vento
Que bate em minha cara.

Eduardo Galeano
Buraco negro no centro da Via Láctea
prepara seu ‘jantar’
Imagem divulgada pela Nasa do buraco negro supermaciço Sagitário A*.
Assim como um experiente chef de cozinha, o gigantesco buraco negro no centro da Via Láctea, com cerca de 4 milhões de vezes a massa do Sol, está calmamente preparando um novo prato para “jantar”. Astrônomos do Observatório Europeu do Sul (ESO, na sigla em inglês) identificaram uma imensa nuvem de gás com aproximadamente três vezes a massa da Terra acelerando em direção deste monstro cósmico.
Em meados de 2013, a nuvem deve passar a apenas 40 bilhões de quilômetros, ou 36 horas-luz, do horizonte de eventos. Em termos astronômicos, a distância é muito pequena para um encontro do tipo e ela então será capturada pela gravidade e finalmente consumida pelo buraco negro. A descoberta foi possível graças a um projeto de 20 anos que usa o telescópio VLT, no Chile, para acompanhar os movimentos das estrelas em torno do buraco negro no núcleo de nossa galáxia e assim procurar definir suas características.
- A ideia de que um astronauta próximo de um buraco negro seria esticado até parecer com um espaguete é bem comum na ficção científica, mas agora podemos ver isso de verdade com essa nuvem – diz Stefan Gillessen, principal autor do artigo sobre a descoberta, previsto para ser publicado na edição de 5 de janeiro da revista “Nature”. - Ela não vai sobreviver a essa esperiência.
Segundo os astrônomos, nos últimos sete anos a velocidade da nuvem praticamente dobrou, chegando a 8 milhões de quilômetros por hora. Por enquanto, a nuvem, composta principalmente de hidrogênio e hélio, é muito mais fria do que as estrelas em sua volta que congestionam o centro da galáxia e brilha apenas sob a forte radiação ultravioleta emitida por essas estrelas.
A medida que a nuvem se aproximar do buraco negro, no entanto, a gravidade deverá comprimi-la, aquecendo-a e fazendo com que comece a emitir raios-x. Como atualmente há muito pouco material nas proximidades do buraco negro no núcleo da Via Láctea, a nuvem deverá formar um disco de acreção em torno dele, servindo de “refeição” ainda por alguns anos.

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