30 de novembro de 2011

Leo Lesser Ury (1861–1931)
“Precisamos deixar algo para a posteridade”,
disse o poeta, contemplando o gari
que recolhia o lixo da cidade.
E o pássaro que não deixa nenhum canto após a morte
e se limita a ser vida no ar perene
que habita o instante
em silêncio pousou no ramo de uma árvore.

Lêdo Ivo

Os Sinais

Jim Daly - High Fly
Saibam quantos vivem
neste mundo imenso:
Deus não cheira a incenso.
É no estrume fresco
e na alga viscosa
que devemos ver
os sinais divinos
com os olhos de quando
éramos meninos.

Lêdo Ivo

29 de novembro de 2011

Navego o incerto

William Turner
Faz anos navego o incerto.
Não há roteiros nem portos.
Os mares são de enganos
e o prévio medo dos rochedos
nos prende em falsas calmarias.
As ilhas no horizonte, miragens verdes.
Eu não queria nada além
de olhar estrelas
como quem nada sabe
para trocar palavras, quem sabe um toque
com o surdo camarote ao lado
mas tenho medo do navio fantasma
perdido em pontas sobre o tombadilho
dou a face e forma a vultos embaçados.
A lua cheia diminui a cada dia.
Não há respostas.
Queria só um amigo onde pudesse jogar o coração
como uma âncora.

Caio Fernando Abreu (1948-1996)

Antigamente

Evelyn Pickering De Morgan
Antigamente não acreditava no outro mundo.
Pelo menos tinha minhas dúvidas.
Pensava nele como categoria abstrata
presença (ou ausência) de amor
inominado
etéreo
talvez terrível.

Hoje creio simplesmente num outro mundo
parecido com este:
cadeiras, mesa, copo d´água,
e de novo tuas mãos, tuas cartas:
“Meus queridos...” .

Odylo Costa Filho (1914-1979)

27 de novembro de 2011

SONETO DE INDAGAÇÃO

Peder Severin Kroyer
Triste é o nosso sorrir.
Às vezes, chegar é o mesmo que partir.
Somos uma longa viagem
em que vamos perdendo rumo e paisagem.
E no silêncio final dos caminhos
estaremos sozinhos.
Por isso, em minha alma indormida
o sonho é como o apito de despedida
de um navio tragado em rodopio.

Artur Eduardo Benevides

26 de novembro de 2011

Pássaro

Franz Dvorak - The Angel Of The Birds
Aquilo que ontem cantava
já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
não do espinho na garganta.

Ele amava a água sem sede,
e, em verdade,
tendo asas, fitava o tempo,
livre de necessidade.

Não foi desejo ou imprudência:
não foi nada.
E o dia toca em silêncio
a desventura causada.

Se acaso isso é desventura:
ir-se a vida
sobre uma rosa tão bela,
por uma tênue ferida.

Cecília Meireles (1901-1964)
‘Centenário de nascimento de Mário Lago’
(Rio de Janeiro, 26 de novembro de 1911 - Rio de Janeiro, 30 de maio de 2002).
Autor de sambas populares como "Ai, que saudades da Amélia" e "Atire a primeira pedra", ambos em parceria com Ataulfo Alves, foi também Ator, produtor, diretor, compositor, radialista, escritor, poeta, autor de teatro, cinema, rádio e TV, frasista, militante sindical, ativista político e boêmio, Mário Lago foi muitos.
Três coisas
Pra mim três coisas no mundo
Valem bem mais do que o resto.
Pra defender qualquer delas
Eu mostro o quanto que presto.
É o gesto, é o grito, é o passo,
É o grito, é o passo, é o gesto.

O gesto é a voz do proibido
Escritasem deixar traço.
Chama, ordena, empurra, assusta.
Vai longe com pouco espaço.
É o passo, é o gesto, é o grito,
É o gesto, é o grito, é o passo.

O passo começa o voo
Que vai do chão pro infinito.
Pra mim, que amo estrada aberta,
Quem prende o passo é maldito.
É o grito, é o passo, é o gesto,
É o passo, é o gesto, é o grito.

O grito explode o protesto
Se a boca não tem espaço
Que guarde o que há pra ser dito
No grito, no passo e gesto.
É o gesto, é o grito, é o passo,
É o passo, é o gesto, é o grito.

Mário Lago

25 de novembro de 2011

Que mundo grosso

Amanda Cass
Que mundo grosso, gente avara,
– E mais e mais sem mais sabor!
Diz de você... o quê, amor?
Que não tem vergonha na cara.

Mundinho avaro, mundo cego,
Sempre disposto a julgar mal.
Seu beijo doce é meu apego,
Sem falar na ardência final.
Heinrich Heine (1797-1856)

24 de novembro de 2011

Este vai-se, aquele vai-se,
e todos, todos se vão:
Galiza, sem homens ficas
que te possam trabalhar.
Tens, em troca, órfãos e órfãs
e campos de solidão;
e mães que não têm filhos
e filhos que não têm pais.
E tens corações que sofrem
longas ausências mortais.
Viúvas de vivos e mortos
que ninguém consolará.

Rosália de Castro (1837-1885)
Por que, alma minha,
agora não queres
o que antes querias?

Por que, pensamento,
agora não vives
de amantes desejos?

Por que, meu espírito,
agora te humilhas
quando eras altivo?

Por que, coração,
agora não falas
falasres de amor?

Por que já não bates
com doce batida
que acalma os pesares?

Por que, enfim, Deus meu,
a um tempo me faltam
a terra e o céu?

Ó tu, rubra estrela,
que dizem comigo
nasceste, puderas

para sempre apagar-te
já que não pudeste
sempre iluminar-me!

Rosália de Castro (1837-1885)

23 de novembro de 2011

Edward Cucuel
Há um poeta em mim que Deus me disse...
A Primavera esquece nos barrancos
As grinaldas que trouxe dos arrancos
Da sua efêmera e espectral ledice...
Pelo prado orvalhado a meninice
Faz soar a alegria os seus tamancos...
Pobre de anseios teu ficar nos bancos
Olhando a hora como quem sorrisse...

Florir do dia a capitéis de Luz...
Violinos do silêncio enternecidos...
Tédio onde o só ter tédio nos seduz...

Minha alma beija o quadro que pintou...
Sento-me ao pé dos séculos perdidos
E cismo o seu perfil de inércia e voo...

Fernando Pessoa (1888-1935)
Trent Gudmundsen
No tempo d'eu menina
os corredores eram longos
as mesas altas
as camas enormes.
A colher não cabia
na minha boca
e a tigela de sopa
era sempre mais funda
do que a fome.
No tempo d'eu menina
só gigantes moravam
lá em casa.
Menos meu irmão e eu
que éramos gente grande
vinda de Lilliput.
Marina Colasanti

22 de novembro de 2011

Tempo

Peter Taylor Quidley
Como num louco mar, tudo naufraga.
A luz do mundo é como a de um farol
Na névoa. E a vida assim é coisa vaga.

O tempo se desfaz em cinza fria,
E da ampulheta milenar do Sol
Escorre em poeira a luz de mais um dia.

Cego, surdo, mortal encantamento.
A luz do mundo é como a de um farol...
Oh, paisagem do imenso esquecimento.

Dante Milano (1899-1991)

Dia do Músico

22/11 - Dia de Santa Cecília.
Dia do Músico.
“Sem a música, a vida seria um erro”.
Friedrich Nietzsche (1844-1900)
William-Adolphe Bouguereau
Em 22 de novembro é comemorado o Dia de Santa Cecília, a padroeira dos músicos.
Santa Cecília foi uma jovem romana do século II d. C., consagrada no cristianismo como protetora dos músicos. Descendia das nobres gens romanas dos Cecilii e dos Metelli, tendo como ancestral a importante senhora romana do século I a. C. Cecilia Metella, filha de Quinto Cecílio Metello Crético e esposa de Marco Licínio Crasso, filho do triúnviro de Júlio César.
A jovem Cecília, padroeira dos músicos, nascida de uma nobre família romana, converteu-se ao cristianismo e junto com seu noivo, dedicaram-se à vida religiosa, tendo ambos sido executados como mártires em 180 d. C., durante o governo do imperador Marco Aurélio.
Segundo uma tradição cristã, o papa Pascoal I (817-824) teria mandado abrir o caixão da santa e visto que o corpo estava intato, ainda com o corte da execução no pescoço, na mesma posição em que havia sido enterrado. O papa ordenou que fechassem o caixão e o colocassem em capela consagrada a Santa Cecília, no Trastevere, em Roma.
O cardeal Sfondrati, em 1599, pediu que abrissem novamente o caixão. O corpo da santa foi encontrado da mesma forma como o papa Pascoal havia descrito. Chamou-se então o escultor Stefano Maderno que fez um esboço da imagem e depois esculpiu o que vira em mármore branco, resultando a imagem em tamanho natural, que se encontra na igreja romana de Santa Cecília.
Desde o século XV, Santa Cecília é nomeada santa protetora da música sacra. A data de 22 de novembro lhe é consagrada, que também é o Dia da Música e dos Músicos.
Muitos artistas elaboraram obras em sua homenagem como o pintor Botticini, e o escultor Stefano Maderno, músicos como Henry Purcell, Georg Friedrich Händel e Benjamin Britten fizeram composições em sua honra. Também os poetas John Dryden, Alexander Pope e Wystan Hugh Auden homenagearam-na com sua arte. Até mesmo músicos populares como Paul Simon, David Byrne e Brian Eno dedicaram composições a Santa Cecília, isso apenas para citar alguns.
Edward Reginald Frampton - Saint Cecilia
Michiel van Coxcie - Saint Cecilia
John William Waterhouse – O Sonho de Santa Cecília

21 de novembro de 2011

Charles Zhan
Estou na montanha e vejo a enseada.
Os barcos descansam sobre a superfície do verão.
“Somos sonâmbulos. Luas vagabundas”.
Isso dizem as velas brancas.
“Deslizamos por uma casa adormecida.
Abrimos as portas lentamente.
Assomamo-nos à liberdade”.
Isso dizem as velas brancas.
Um dia vi navegar os desejos do mundo.
Todos, no mesmo rumo – uma só frota.
“Agora estamos dispersos. Séquito de ninguém”.
Isso dizem as velas brancas.

Tomas Tranströmer
Prêmio Nobel da Literatura 2011
Uma árvore anda de aqui para ali sob a chuva,
com pressa, ante nós, derramando-se na cinza.
Leva um recado. Da chuva arranca vida
como um melro ante um jardim de fruta.

Quando a chuva cessa, detém-se a árvore.
Vislumbramo-la direita, quieta em noites claras,
à espera, como nós, do instante
em que flocos de neve floresçam no espaço.

Tomas Tranströmer
Prêmio Nobel da Literatura 2011

20 de novembro de 2011

Dia da Consciência Negra

“Enterro de uma negra católica chegando à Igreja da Lampadosa”
- Jean Baptiste Debret -
Sepultada por toneladas de terra e séculos de esquecimento, jaz no Centro antigo do Rio, uma dolorosa memória da escravidão. São os resquícios do Cemitério dos Pretos Novos, cimentados sob os bairros da Gamboa e da Saúde. Eles reaparecem aos poucos, em escavações, análises de ossos, dentes e objetos. Cada um deles revela um pouco mais de uma história que assombra pelas dimensões da crueldade e da ambição que trouxeram da África milhões de escravos para o Rio.
No Brasil, a morte de um ente querido ou não, poderia ser um problemão para os familiares, que sem condições de custear o cerimonial, os apetrechos, a missa e o sepultamento viam-se em maus lençóis, recorrendo muitas vezes a empréstimos a juros aviltantes. Um recurso era pertencer a uma Irmandade Religiosa e desfrutar dos privilégios do amparo. Protegidos pela irmandade, na vida e após a morte, bastava aos familiares informar ao membro responsável a morte do irmão para que as providências fossem tomadas. Com punição, monetária e até de expulsão, prevista em regulamento aos membros que se recusassem a participar do acompanhamento do membro da irmandade até a sepultura. Na imagem temos a Irmandade de negro da igreja da Lampadosa - Avenida dos Passos, centro da Cidade do Rio de Janeiro, acompanhando o ritual de encaminhamento da alma de um membro. Observe que o corpo está na rede, com muitos irmãos e curiosos acompanhando o cortejo.

Dia da Consciência Negra

Muro de uma Escola Particular de São Paulo
Jean Baptiste Debret
“A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, na porta das lojas para vendê-las.”
Machado de Assis (1839-1908)
Trecho do Conto Pai contra Mãe
Publicado em 1906, no livro Relíquias da Casa Velha.

19 de novembro de 2011

Cantiga

Natalia Tur
A vida é linda,
mesmo doendo
nos desencontros
e despedidas,
mesmo sangrando
em malogrados,
áridos hortos,
searas maduras
de sofrimento.
Chegar ao porto
da vida finda
cantando sempre,
sonhando ainda.

Helena Kolody (1912-2004)

A morte a cavalo

Francesco di Stefano Pesellino
A cavalo de galope
a cavalo de galope
a cavalo de galope
lá vem a morte chegando.

A cavalo de galope
a cavalo de galope
a morte numa laçada
vai levando meus amigos.

A cavalo de galope
depois de levar meus pais
a morte sem prazo ou norte
vai levando meus irmãos.

A morte sem avisar
a cavalo de galope
sem dar tempo de escondê-los
vai levando meus amores.

A morte desembestada
com quatro patas de ferro
a cavalo de galope
foi levando minha vida.

A morte de tão depressa
nem repara no que fez.
A cavalo de galope
a cavalo de galope

me deixou sobrante e oco.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

18 de novembro de 2011

Amar-te

Peter Taylor Quidley
Amar-te – não por gozo da vaidade,
Não movido de orgulho ou de ambição,
Não à procura da felicidade,
Não por divertimento à solidão.

Amar-te – não por tua mocidade
- Risos, cores e luzes de verão -
E menos por fugir à ociosidade,
Como exercício para o coração.

Amar-te por amar-te: sem agora:
Sem amanhã, sem ontem, sem mesquinha
Esperança de amor, sem causa ou rumo.

Trazer-te incorporada vida fora,
Carne de minha carne, filha minha,
Viver do fogo em que ardo e me consumo.

Aurélio Buarque de Holanda
(1910-1989)
Louis Aston Knight
Desperto o automóvel
que tem o para-brisas coberto de pólen.
Coloco os óculos de sol.
O canto dos pássaros escurece.
Enquanto isso outro homem compra um diário
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.
Não há vazios por aqui.
Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta que como foi caluniado
até na Direção.
Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agoirento.
E o melro que se move em todas as direções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:
Não há vazios por aqui.
É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.
Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.

Tomas Tranströmer
Prémio Nobel da Literatura 2011