31 de outubro de 2011

Christian Eriksen Skredsvig
Ouve como o silêncio
Se fez de repente
Para o nosso amor

Horizontalmente...

Crê apenas no amor
E em mais nada
Cala; escuta o silêncio
Que nos fala
Mais intimamente; ouve
Sossegada
O amor que despetala
O silêncio...

Deixa as palavras à poesia...

Vinicius de Moraes (1913-1980)

BANZO

Isabelle Del Piano
Visões que na alma o céu do exílio incuba,
Mortais visões! Fuzila o azul infando...
Coleia, basilisco de ouro, ondeando
O Níger... Bramem leões de fulva juba...

Uivam chacais... Ressoa a fera tuba
Dos cafres, pelas grotas retumbando,
E a estrelada das árvores, que um bando
De paquidermes colossais derruba...

Como o guaraz nas rubras penhas dorme,
Dorme em nimbos de sangue o sol oculto...
Fuma o saibro africano incandescente...

Vai com a sombra crescendo o vulto enorme
Do baobá... E cresce na alma o vulto
De uma tristeza, imensa, imensamente...

Raimundo Correia (1859-1911)

30 de outubro de 2011

Para Lula

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

Mario Quintana (1906-1994)

Tens a medida do imenso?

Tens a medida do imenso?
Contas o infinito?
E quantas gotas de sangue
Pretendes
Desta amorosa ferida
De tão dilatada fome.

Tens a medida do sonho?
Tens o número do Tempo?
Como hei de saber do extenso
De um ódio-amor que percorre
Furioso
Passadas dentro do vento?

Sabes ainda meu nome?
Fome. De mim na tua vida.


Hilda Hilst (1930-2004)

29 de outubro de 2011

William Merritt Chase
No matiz das horas adormeço.
Passo a habitar onde posso ser eu.
Por que estou só, onde sou o melhor de mim?
Onde estão os homens?
Onde estão aqueles que deveriam ver o que sou?
Não há ninguém.
Neste espaço onde sou nada
habita a não ser eu e a consciência de que Deus é.

Helen Drumond

Salgueiro

Os ramos caídos
choram amores que foram
teus entes queridos.

Delores Pires

Personalidades Históricas:

‘Centenário de Nelson Cavaquinho’
Nascido no Rio de Janeiro, em 29 de outubro de 1911, Nelson Cavaquinho viveu entre melancolia e liberdade da boemia. Era filho de um mestre tocador de tuba da Polícia Militar e de uma lavadeira do convento de Santa Teresa. O tio dava aulas de violino, por isso ninguém se espantou quando Nelson, ainda menino, tentou fabricar um cavaquinho com uma caixa de charutos vazia e cordas usadas do instrumento do tio. O resultado não foi dos melhores, mas o garoto ganhou o apelido que o acompanharia pelo resto da vida.
Nelson Cavaquinho trabalhou como eletricista, pedreiro, depois no Curtume Carioca e na Polícia Militar. Mas nunca conseguiu se manter em um emprego por muito tempo. Segundo ele, “compunha mesmo quando estava no batente”.
As primeiras gravações surgiram na década de 1940, e o reconhecimento foi chegando nos anos 1950, com sucessos na voz de Dalva de Oliveira, Ciro Monteiro, Roberto Silva. Nos anos 1960, com shows no Zicartola e no Teatro Opinião, tornou-se conhecido do público pela voz de Nara Leão. Morreu em 1986, aos 74 anos.
Ouça a música A Flor e o Espinho ( clic aqui )

28 de outubro de 2011

BUCOLISMO

Francisco Rebolo
(pintor brasileiro)
Por sobre coqueiros
no alto, a nuvem dá salto.
Cochilam pinheiros.

Delores Pires

Carl Larsson - Azalea
Pela grama verde,
os pés multicoloridos.
Azaléias floram.

Delores Pires
René Magritte
Dois loucos no bairro

Um passa os dias
chutando postes para ver se acendem

o outro as noites
apagando palavras
contra um papel branco

todo bairro tem um louco
que o bairro trata bem
só falta mais um pouco
pra eu ser tratado também.

Paulo Leminski (1944-1989)

27 de outubro de 2011

Há pessoas e pessoas

Mark Arian
Há pessoas que nos falam
e nem escutamos.
Há pessoas que nos ferem e
nem cicatrizes deixam;
mas há pessoas que aparecem em
nossa vida e nos marcam para sempre.

Cecília Meireles (1901-1964)

FALEMOS DE MIOSÓTIS

Visto que
Você não quer que as coisas continuem
Assim
Nesse caso
Falemos de miosótis
Flor sobre a qual não sabemos
Nada.

Alberto de Lacerda (1928-2007)
Daniel Ridgway Knight
Nos canteiros
Riem as flores
e tu passas, entre elas,
também a rir.

Em volta, tudo ri,
e eu sinto-me possuído desse riso.
Cerro os olhos.
Receio que me cegue a luz do Paraíso.

Saúl Dias (1902-1983)

26 de outubro de 2011

Thornton Sensitive Plant
“Sua voz quando ela canta
me lembra um pássaro mas
não um pássaro cantando:
lembra um pássaro voando”.

Ferreira Gullar
“Abençoados são aqueles que
permitem a si mesmos serem contagiados
com a festividade, com o amor, com a paz,
com o silêncio e a celebração”.

Rajneesh Chandra Mohan Jain (1931-1990)
Osho
Jules-Élie Delaunay
Por onde andamos
nós que raramente nos falamos?
Engolidos pela pressa
ou pela saga do compromisso?
Ó Deus que maratona é essa?
Deixo um recado de saudade
para você pensar.
Por mais que a vida corra e o mundo agite,
por favor, acredite:
o nosso coração não muda de lugar.
O tempo e a distância
costumam nos arrastar.
É como se folhas de outono
se separassem pelo sopro de algum vento.
Mas nosso coração não muda de lugar.
Conservo a mão estendida,
o peito aberto,
o ombro compreensivo,
o pensamento alerta.
A qualquer hora você pode me chamar.
O meu carinho permanece vivo.
É que o nosso coração não muda de lugar.

Flora Figueiredo

25 de outubro de 2011

Childe Hassam
Não é nada, eu te diria,
se agora me procurasses.
É só um menino antigo
que num dourado crepúsculo
vai voltando para casa.
É só um rio de águas escuras,
pesadas, cortando o vale.
É só essa grama verde,
ainda úmida de orvalho,
que ela pisa indiferente
e se vai, os pés descalços.
É só a lua velando
a praça da noite alta,
e aquele amigo cantando,
e esse outro embriagado,
e o violão com seu lamento
sob janelas fechadas.
É só esse corpo triste
da mulher da madrugada,
de que me afasto levando
o desencanto comprado.
É só a menina branca
que, num sono inviolável,
lá se vai para a colina
em seu caixão pequenino
sob a garoa da tarde.
É só a moça que dói,
espezinha, humilha, mata,
lança-me as cinzas ao vento.

Ruy Espinheira Filho

25 de Outubro - Dia do Sapateiro

Antonio Rotta - At The Cobblers
O ofício de sapateiro é muito antigo e de início era discriminado, comparado ao ofício de curtidores e carniceiros. O cristianismo fez com que essa situação se revertesse com o surgimento de três santos sapateiros: Aniano, sucessor de São Marcos como arcebispo de Alexandria (século I), e os irmãos Crispim e Crispiniano, martirizados em Saisson na França.
Por muito tempo, os sapateiros continuaram trabalhando de forma artesanal. O início da uniformização e da padronização começou na Inglaterra, quando em 1305, o rei Eduardo I estabeleceu medidas uniformizadas e padronizadas para a produção de sapatos.
O Rei decretou que uma polegada fosse considerada como a medida de três grãos secos de cevada, colocados lado a lado. Os sapateiros da época compraram a ideia e passaram a fabricar seus calçados seguindo as medidas do rei. Assim, um par de sapatos para criança que medisse treze grãos de cevada, passou a receber o tamanho treze.
A partir daí a padronização tornou-se uma tendência mundial. Na idade moderna, surgem e crescem o número de indústrias produtoras de sapatos. Hoje, os sapateiros artesanais têm que disputar com as grandes indústrias de calçados ou trabalham apenas com concertos.
O primeiro sapato - O primeiro calçado foi registrado na história do Egito, por volta de 2000 a 3000 a.C.. Trata-se de uma sandália, composta por duas partes, uma base, formada por tranças de cordas de raízes como, cânhamo ou capim, e uma alça presa aos lados, passando sobre o peito do pé.

24 de outubro de 2011

ÉTICA

Paul Klee
Vou falhando as pequenas coisas
que me são solicitadas.
Sentindo que as ciladas
se acumulam cada vez que falo.
Preferi hoje o silêncio.
A ausência de equívocos
não é partilhável.
No inegociável deste dia,
destituo-me de palavras.
O silêncio não se recomenda.
Deixa-nos demasiado sós,
visitados pelo pensamento.

Luís Quintais

24 • Dia das Nações Unidas – ONU

Hoje é Dia das Nações Unidas – ONU
O principal objetivo do Conselho é propor resoluções para os conflitos e guerras internacionais. Para isso, ele pode autorizar uma intervenção militar ou enviar missões de paz para regiões que julgue necessário. Outro papel fundamental e frequentemente exercido é a aplicação de sanções de ordem econômica contra países que, no entender do Conselho, violem leis, acordos ou princípios internacionalmente aceitos.
Na atualidade, há 16 operações de manutenção da paz ativas em todo o mundo.
O Brasil participa, no momento, de nove dessas operações, com cerca de 2.200 militares e policiais.
A participação brasileira na Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti é o principal envolvimento do Brasil em operações de manutenção da paz. O Brasil é o maior contribuinte de tropas para essa Missão.
Desde 1948, o Brasil participou de mais de 30 operações de manutenção da paz, tendo cedido um total de mais de 24.000 homens. Integrou operações na África (entre outras, no Congo, Angola, Moçambique, Libéria, Uganda, Sudão), na América Latina e Caribe (El Salvador, Nicarágua, Guatemala, Haiti), na Ásia (Camboja, Timor-Leste) e na Europa (Chipre, Croácia). Embora tenha enviado militares e policiais em diversos casos, apenas a cinco operações o Brasil cedeu tropas, isto é, unidades militares formadas: Suez (UNEF I), Angola (UNAVEM III), Moçambique (ONUMOZ), Timor-Leste (UNTAET/UNMISET) e Haiti (MINUSTAH).
O Conselho de Segurança tem 15 membros, cinco deles permanente – China, França, Reino Unido, Rússia e Estados Unidos -, que tem poder de veto nas decisões, por isso, o Brasil luta por uma mudança no Conselho de Segurança, que deveria ser uma instituição multilateral capaz de dar voz ativa, na solução das crises no mundo.

Fonte: Ministério das Relações Exteriores do Brasil.
Se o mundo fosse civilizado, Muanmar Gaddafi deveria ser preso e julgado, mas foi caçado e executado como mostram vários vídeos.
Não foi para isso que se fizeram 10 mil voos de bombardeio à Líbia, número proveniente dos próprios caçadores. E a ONU, de maneira cínica, "questiona" as condições de sua morte.
A Líbia é composta por vários clãs partidários e tribos que, durante 500 anos, sempre tiveram atritos internos e agora passam a ser controladas pelos "loucos por guerra" -EUA com sua fúria assassina - e os países europeus loucos por controlar o petróleo deles.

23 de outubro de 2011

Jardim interior

Herbert Thomas Dicksee - The Old Garden
Todos os jardins deviam ser fechados,
com altos muros de um cinza pálido,
onde uma fonte
pudesse cantar
sozinha
entre o vermelho dos cravos.
O que mata um jardim não é mesmo
alguma ausência
nem o abandono...
O que mata um jardim é este olhar vazio
de quem por eles passa indiferentemente.

Mario Quintana (1906-1994)
Charles Joseph Natoire - Venus and Adonis
Os deuses, noutros tempos, eram nossos
Porque entre nós amavam. Afrodite
Ao pastor se entregava sob os ramos
Que os ciúmes de Hefesto iludiam.

Da plumagem do cisne as mãos de Leda,
O seu peito mortal, o seu regaço,
A semente de Zeus, dóceis, colhiam.

Entre o céu e a terra, presidindo
Aos amores de humanos e divinos,
O sorriso de Apolo refulgia.

Quando castos os deuses se tornaram,
O grande Pã morreu, e órfãos dele,
Os homens não souberam e pecaram.

José Saramago (1922-2010)

22 de outubro de 2011

As Portas

Guido Borelli - Le Porte Rosse Sulla Strada
A porta aberta
a porta fechada
a porta.
Porta é o instrumento
que corta a relação do dentro
com o fora.
As casas têm uma porta de entrada.
Passada essa porta
ficamos dentro
mas fora de outros dentros agora.
As casas estão cheias de portas
porque as casa estão cheias
de dentros comunicáveis
os quais dentros têm outros dentros
os irremediáveis dentros dos armários.

Salette Tavares (1922-1994)

O Valor do Vento

Philippe Fernandez - Typically Magically
Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em Agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento atualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto.

Ruy Belo (1933-1978)

21 de outubro de 2011

Holly Kempe
Lua de neve quebrada
em seis pedaços de seda.
Luz de Lua que se queda
em meio às folhas cravada.
Lua em seis raios cortada.
Luz em pétalas de alvura.
Sobre a rama verde-escura
cetim branco e perfumado.
Nácar de Lua rasgado
em seis raios de luz pura.

Rafaela Chacón Nardi ( Cuba )
Tradução de Aurélio Buarque de Holanda