30 de setembro de 2011

Nossas "variabilidades"...

Walter Dendy Sadler
“Pedimos somente um pouco de ordem para nos proteger do caos. Nada é mais doloroso, mais angustiante do que um pensamento que escapa a si mesmo, ideias que fogem, que desaparecem apenas esboçadas, já corroídas pelo esquecimento ou precipitadas em outras, que também não dominamos. [...]
São variabilidades infinitas cuja desaparição e aparição coincidem.
É por isso que queremos tanto agarrar-nos a opiniões prontas”.
(Gilles Deleuze e Félix Guattari)

Stanislaw Ponte Preta

Caricatura de Lan
- No Brasil, as coisas acontecem, mas depois, com um simples desmentido, deixaram de acontecer.
- Antes só do que muito acompanhado.
- Ser imbecil é mais fácil.
- Está dando mais do que cará no brejo.
- Nos trens suburbanos não livram a cara nem de padre, que dirá mulher de minissaia.
- O mais perigoso é que já estão confundindo justa causa com calça justa.
- O Reino Unido não é tão unido assim como eles dizem, não.
- Mais monótono do que itinerário de elevador.
- Mais inútil do que um vice-presidente.
- Mais mole que bochecha de velha.
- A Polícia anda dizendo que prende um bandido de meia em meia hora, então a gente fica desconfiado que eles assaltam de 15 em 15 minutos.
- Ninguém se conforma de já ter sido.
- Quem desdenha quer comprar, quem disfarça está escondendo, mas quem desdenha e disfarça, não sabe o que está querendo.
- Mulher enigmática, às vezes é pouca gramática.
- Quando um amigo morre, leva um pouco da gente.
- Nem todo rico tem carro, nem todo ronco é pigarro, nem toda tosse é catarro, nem toda mulher eu agarro.
- Quem diz que futebol não tem lógica ou não entende de futebol ou não sabe o que é lógica.
- A diferença entre o religioso e o carola é que o primeiro ama a Deus, o segundo, teme.
- Pediatra sempre capricha na pronúncia quando anuncia sua especialidade, pra evitar mal-entendidos.
- Nem todo gordo é bom, muitos se fingem de bonzinhos porque sabem que correm menos.
- Tinha tal pavor de avião que se sentia mal só de ver uma aeromoça.
- Mulher e livro, emprestou, volta estragado.
- O sol nasce para todos, a sombra pra quem é mais esperto.
E para terminar:
- Da minha janela vejo o pátio de um colégio e quando a
campainha toca para o intervalo das aulas eu paro de trabalhar e
fico olhando, como se estivesse no recreio também.
- O importante é não deixar nunca que o menino morra completamente dentro da gente. Caso contrário, ficamos velhos mais depressa. Dizem que é por isso que os chineses, de incontestável sabedoria, conservam o hábito de soltar papagaio (ou pipa, se preferirem) mesmo depois de adultos. Não sei se é verdade, nunca fui chinês.
Stanislaw Ponte Preta
(Sérgio Porto)

Hoje faz 43 anos que ele morreu.

29 de setembro de 2011

Francisco Miralles
O que desejei às vezes
Diante do teu olhar,
Diante da tua boca!
Quase que choro de pena
Medindo aquela ansiedade
Pela de hoje - que é tão pouca!
Tão pouca que nem existe!
De tudo quanto nós fomos,
Apenas sei que sou triste.

António Botto (1897-1959)
Cayetano Arquer Buigas
Em cada dia
silêncios surgem
em retalhos de estrelas,
colhidos nas frestas
do meu inverno oculto

Sussurra a noite fechada
dentro de mim,
a palavra não respondida,
o passo lento da espera,
o caminho do tempo submerso

Represento a dúvida
do meu não saber,
as trilhas desfeitas do meu ser,
buscando o falar
distante do meu ouvir.

Conceição Bentes

A atualidade de Camões

Waldemar da Costa Neto
Vê que aqueles que devem à pobreza
Amor divino, e ao povo, caridade,
Amam somente mandos e riqueza,
Simulando justiça e integridade.
Da feia tirania e de aspereza
Fazem direito e vã severidade.
Leis em favor do Rei se estabelecem;
As em favor do povo só perecem.

Luís Vaz de Camões (1524-1589)
Era a reflexão de um Poeta atento ao mundo que o rodeava, e que, infelizmente ainda continua assim.

28 de setembro de 2011

As sofridas amoras

Charles Edward Wilson - Girl i with Basket of Blackberries
As sofridas amoras
dos valados
os fogosos espinhos
que coroam os cardos
Saltam ao caminho
a sangrar-me a veia
do poema.

Luísa Neto Jorge
Valeriy Chuikov - Magnolia and red tulip
A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu resplendor.

Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria - na metáfora -
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.
A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,
um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.

Luísa Neto Jorge

27 de setembro de 2011

Discurso de Primavera

“Discurso de Primavera”
Fragmentos
“(...)
Primavera que tanto habitas
a bráctea rósea da buganvília
( em que jardins à vista ocultos
sob a fumaça que é nosso azul
residual?)
como habitavas, parnasiana,
o soneto crônico e clássico
dos poetas consumidores
de velhos topos europeus,
é forçoso que alguém celebre
o ímpeto juvenil da Terra
mesmo poluída, desossada,
Terra assim mesmo, seiva nossa.
Ah, Primavera, me desculpa
se corto em meio uma floresta
latifoliada, pois tenho pressa
de correr na estrada de Santos.
Não te zangues se já não vês
em teu perene séquito lírico
aquele sininho-flor, descoberto
em longes tempos por George Gardner
e que soava só no Brasil:
foi preciso (teria sido?)
matar o verde, substituí-lo
pela neutra cor uniforme do progresso.

Primavera, fiz um discurso?
Primavera, tu me perdoas?...
(...)”

Carlos Drummond de Andrade
Discurso de Primavera e Algumas Sombras

27. Dia Nacional do Idoso

O Dia Nacional do Idoso foi estabelecido em 1999 pela Comissão de Educação do Senado Federal e serve para refletir a respeito da situação do idoso no País, seus direitos e dificuldades.
A população no mundo está ficando cada vez mais velha e, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), por volta de 2025, pela primeira vez na história, haverá mais idosos do que crianças no planeta.
Mas, como diz a medica geriatra Karla Giacomin:

Os direitos no Brasil costumam diminuir à medida em que:
• a cor da pele escurece,
• a idade aumenta,
• a renda diminui,
• que caminhamos em direção à periferia das cidades
• ou chegamos próximos de florestas e reservas.

Este país nosso consegue ser ao mesmo tempo tão grande e tão desigual.
Karla Giacomin

26 de setembro de 2011

Às vezes

Anke Merzbach
Às vezes,
Todas as dores de uma vida inteira
Gritam...

Às vezes,
Nas mãos, os gestos de perdão
Petrificam...

Às vezes,
As canções dos anjos
Emudecem...

Às vezes,
Os silêncios , numa praia derradeira
Desaguam...

Às vezes...
Só às vezes...

Vera Muniz
O Papa Bento XVI foi recebido assim na Alemanha
Ratzinger, a cada país europeu que visita, chama multidões que protestam contra a influência indevida que o ICAR (Igreja Católica Apostólica Romana) tem nas sociedades. Quem se recorda de João Paulo II não pode deixar de reparar que o ambiente em volta do catolicismo está mudando radicalmente.
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25 de setembro de 2011

Henri Fantin-Latour – Immortality
Valha-me Deus que sou uma criança
e pra todo barro moldado
quero elogio rasgado
carinho a cada topada
valei-me que anjo caminho
caído e atordoado
valei-me que trago engasgado
um metro e meio de asa.

Chandal Meirelles Nasser
Quando lanço a rede,
para apanhar as melhores coisas da vida,
estas me escapam.
Não sei para onde.
Quando lanço em
busca da virtude,
que forma a mim mesma,
são as coisas boas da vida,
que batem à minha porta.

Rabindranath Tagore (1861-1941)

24 de setembro de 2011

Magnólia

Elena Tener
Uma flor
Uma cor
Acordada.
Uma vida feliz
Que o diz
Numa voz perfumada.

Miguel Torga (1907-1995)

23 de setembro de 2011

Inicia-se a Primavera

A Primavera
Coro das quatro estações:
Cantemos! Fora a tristeza !
Saudemos a luz do dia:
Saudemos a Natureza !
Já nos voltou a alegria !
A Primavera:
Eu sou a Primavera !
Está limpa a atmosfera,
E o sol brilha sem véu !
Todos os passarinhos
Já saem dos seus ninhos,
Voando pelo céu.
Há risos na cascata,
Nos lagos e na mata,
Na serra e no vergel:
Andam os beija-flores
Pousando sobre as flores,
Sugando-lhes o mel.
Dou vida aos verdes ramos,
Dou voz aos gaturamos
E paz aos corações;
Cubro as paredes de hera;
Eu sou a Primavera,
A flor das estações !
Coro das quatro estações:
Cantemos! Fora a tristeza !
Saudemos a luz do dia:
Saudemos a Natureza !
Já nos voltou a alegria !
Olavo Bilac (1865-1918)
Em: Poesias Infantis, Livraria Francisco Alves: 1949, Rio de Janeiro

22 de setembro de 2011

klimt - Apple Tree
As flores da macieira ocultam as abelhas
em seu minucioso trabalho.
Espesso é o pólen que a luz da manhã
derrama sobre a terra: lentíssimo sonho
de um pomar antigo.

Graça Pires

Costuro o infinito sobre o peito

René Magritte
Costuro o infinito sobre o peito
E no entanto sou água fugidia e amarga
E sou crível e antiga como aquilo que vês:
Pedra, frontões no Todo inamovível.
Terrena, me adivinho montanha algumas vezes.
Recente, inumana, inexprimível
Costuro o infinito sobre o peito
Como aqueles que amam.

Hilda Hilst (1930-2004)

21 de setembro de 2011

Marcha

Arthur Hacker
As ordens da madrugada
romperam por sobre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes nem fontes.
Apenas o sol redondo
e alguma esmola de vento
quebram as formas do sono
com a ideia do movimento.

Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns mortos pelo fundo.
As aves trazem mentiras
de países sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida aumento.

Também não pretendo nada
senão ir andando à toa,
como um número que se arma
e em seguida se esboroa,
- e cair no mesmo poço
de inércia e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras, águas, pensamento.

Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda, amarga
como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga, é tudo
que tenho, entre o sol e o vento:
meu vestido, minha música,
meu sonho e meu alimento.

Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudade;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos ristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá contentamento.

Como tudo sempre acaba,
oxalá seja bem cedo!
A esperança que falava
tem lábios brancos de medo.
O horizonte corta a vida
isento de tudo, isento…
Não há lágrima nem grito:
apenas consentimento.

Cecília Meireles (1901-1964)

21 de Setembro - Dia da Árvore

Tomasz Alen Koperae
A mera presença delas desperta uma paz e um sossego na alma humana. Esse é um segredo que explica por que – desde os tempos mais remotos – em todos os cantos do mundo, os sábios e místicos têm usado florestas como locais de refúgio e de inspiração. Há uma relação natural e instintiva entre a árvore e o homem. Até os seus modos de respirar se completam.
Aquele que medita pode aprender com as árvores uma sábia e serena imobilidade. Na antiga Índia, conta a lenda que Gautama Buda alcançou a iluminação ao pé de uma grande árvore chamada Bodhi, símbolo da sabedoria universal. Sentou-se ali em um entardecer, foi saudado amorosamente pelos seres da floresta, e travou sua batalha final. No momento da aurora, venceu definitivamente a ilusão e a ignorância.
É difícil imaginar seres tão benéficos quanto as árvores. Elas embelezam a paisagem, dão sombra, madeira, frutas, e são o refúgio e abrigo de pássaros e outras espécies de animais. Comunicam o subsolo com a atmosfera e purificam o ar. Atraem nuvens, regulam as chuvas, estabilizam o clima e garantem a umidade do solo. Combatem a erosão e evitam o excesso de ventos.
Carlos Cardoso Aveline

20 de setembro de 2011

Penso linhos e unguentos

William Whitaker
Penso linhos e unguentos
para o coração machucado de Tempo.
Penso bilhas e pátios
Pela comoção de contemplá-los.
(E de te ver ali
À luz da geometria de teus atos)
Penso-te
Pensando-me em agonia. E não estou.
Estou apenas densa
Recolhendo aroma, passo
O refulgente de ti que me restou.

Hilda Hilst (1930-2004)
Peter Emmerich
Ainda agora é manhã, e já os ventos
Adormecem no céu. Pouco a pouco,
A névoa antiga e baça se levanta.
Ruivamente, o sol abre uma estrada
Na prata nublada destas águas.
É manhã, meu amor, a noite foge,
E no mel dos teus olhos escurece
O amargo das sombras e das mágoas.

José Saramago (1922-2010)

19 de setembro de 2011

Eu preferirei sempre aqueles que sonham...
embora se enganem;
aqueles que esperam...
embora, às vezes, suas esperanças fracassem;
aqueles que apostam na utopia...
embora, em seguida, fiquem no meio do caminho.
Aposto nos que confiam em que
o mundo pode e deve mudar;
naqueles que acreditam que a felicidade virá.
Só daqueles que esperam
será o reino da felicidade.

José Luis Martín Descalzo (1930-1991)
Karl Witkowski - Two Girls Playing in a Field of Daisies
Os sonhos são flores altas
de umas distantes montanhas
que um dia se alcançarão.

Resta a areia, resta o barro,
pobreza de folha e conchas
em campos de solidão.

A menina da varanda,
com tantas asas nos braços
e borboletas na mão,
viu partirem grandes barcos,
por mares que não são de água
mas sim de recordação.

Os sonhos são flores altas
dentro dos olhos fechadas,
além da imaginação.

A menina da varanda
dormirá sobre os seus ossos.
E os sonhos, flores tão altas,
de seus ossos nascerão.

Cecília Meireles
(1901-1964)