31 de julho de 2011

O Outro

“Feridas mais fundas do que em mim
abriu em ti o silêncio,
estrelas maiores
enredam-se na rede dos seus olhares,
cinza mais branca
repousa sobre a palavra em que acreditaste”.

Paul Celan (1920-1970)
Tradução: João Barrento

A Velhice

Adriaen Jansz - Old couple
O neto:
Vovó, por que não tem dentes?
Por que anda rezando só.
E treme, como os doentes
Quando têm febre, vovó?
Por que é branco o seu cabelo?
Por que se apoia a um bordão?
Vovó, porque, como o gelo,
É tão fria a sua mão?
Por que é tão triste o seu rosto?
Tão trêmula a sua voz?
Vovó, qual é seu desgosto?
Por que não ri como nós?

A Avó:
Meu neto, que és meu encanto,
Tu acabas de nascer...
E eu, tenho vivido tanto
Que estou farta de viver!
Os anos, que vão passando,
Vão nos matando sem dó:
Só tu consegues, falando,
Dar-me alegria, tu só!
O teu sorriso, criança,
Cai sobre os martírios meus,
Como um clarão de esperança,
Como uma benção de Deus!

Olavo Bilac (1865-1918)

30 de julho de 2011

August Macke
Sempre amei por palavras
Muito mais do que devia

São um perigo as palavras.
Alice Vieira

As borboletas do meu jardim

William-Adolphe Bouguereau - Flora and Zephyr
As borboletas do meu jardim voam livres
E voam longe
E voltam sempre
Pois não é mais do que o amor que quero delas
E as reconheço em qualquer jardim
Dentre todas as outras borboletas
Todas as que sonho em ter voando em meu jardim.

Texto adaptado do filme "Lavoura Arcaica".

A flauta vértebra

Salvador Dali - premonition of civil war
A todas vocês
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos meu crânio.

Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
Esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.

Vladimir Maiakovski (1893-1930)
Tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman

29 de julho de 2011

Nel mezzo del camim

Simon Quaglio
Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E alma de sonhos povoada eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

Olavo Bilac (1865-1918)
Jim Warren
A chuva molhava os seus cabelos,
A chuva descia sobre os seus cabelos
Voluptuosamente.
A chuva chorava sobre os seus cabelos,
Macios,
A chuva penetrava nos seus cabelos,
Profundamente,
Até as raízes!

Ela era uma árvore,
Uma árvore molhada
E coberta de flores.

Augusto Frederico Schmidt (1906-1965)

O Ideal da Amizade

Renoir-Girls Picking Flowers
A camaradagem, o companheirismo, às vezes, parecem amizade. Os interesses comuns por vezes criam situações humanas que são semelhantes à amizade. E as pessoas também fogem da solidão, entrando em todo o tipo de intimidades de que, a maior parte das vezes, se arrependem, mas durante algum tempo podem estar convencidas de que essa intimidade é uma espécie de amizade. Naturalmente, nesses casos não se trata de verdadeira amizade. Uma pessoa imagina que a amizade é um serviço. O amigo, assim como o namorado, não espera recompensa pelos seus sentimentos. Não quer contrapartidas, não considera a pessoa que escolheu para ser seu amigo como uma criatura irreal, conhece os seus defeitos e assim o aceita, com todas as suas consequências. Isso seria o ideal. E na verdade, vale a pena viver, ser homem, sem esse ideal?
E se um amigo falha, porque não é um verdadeiro amigo, podemos acusá-lo, culpando o seu caráter, a sua fraqueza? Quanto vale aquela amizade, em que só amamos o outro pela sua virtude, fidelidade e perseverança? Quanto vale qualquer afeto que espera recompensa? Não seria nosso dever aceitar o amigo infiel da mesma maneira que o amigo abnegado e fiel? Não seria isso o verdadeiro conteúdo de todas as relações humanas, esse altruísmo que não quer nada e não espera nada, absolutamente nada do outro? E quanto mais dá, menos espera em troca? E se entrega ao outro toda a confiança de uma juventude, toda a abnegação da idade viril e finalmente oferece a coisa mais preciosa que um ser humano pode proporcionar a outro ser humano, a sua confiança absoluta, cega e apaixonada, e depois se vê confrontado com o fato de o outro ser infiel e vil, tem direito de se ofender, de exigir vingança? E se ofende e grita por vingança, era realmente amigo, o traído e abandonado?

Sándor Márai (1900-1989), in “As Velas Ardem Até ao Fim”.

28 de julho de 2011

O Mais que perfeito

Vicente Romero Redondo
Ah, quem me dera ir-me
Contigo agora
Para um horizonte firme
(Comum, embora...)
Ah, quem me dera ir-me !
Ah, quem me dera amar-te
Sem mais ciúmes
De alguém em algum lugar
Que não presumes...
Ah, quem me dera amar-te !
Ah, quem me dera ver-te
Sempre ao meu lado
Sem precisar dizer-te
Jamais : cuidado...
Ah, quem me dera ver-te !
Ah, quem me dera ter-te
Como um lugar
Plantado num chão verde
Para eu morar-te
Morar-te até morrer-te...

Vinicius de Moraes (1913-1980)

Duas almas deves ter

Bernadette Triki
Duas almas deves ter…
É um conselho dos mais sábios;
Uma, no fundo do Ser,
Outra, boiando nos lábios!

Uma, para os circunstantes,
Solta nas palavras nuas
Que inutilmente proferes,
Entre sorrisos e acenos:
A alma volúvel da ruas,
Que a gente mostra aos passantes,
Larga nas mãos das mulheres,
Agita nos torvelinhos,
Distribui pelos caminhos
E gasta sem mais nem menos,
Nas estradas erradias,
Pelas horas, pelos dias…

A outra alma, pérola rara,
Dentro da concha tranquila,
Profunda, eterna e tão cara
Que poucos podem possuí-la,
É alma que nas entranhas
Da tua vida murmura
Quando paras e repousas.
A que assiste das Montanhas
As livres desenvolturas
Do panorama das cousas

Duas almas tão diversas
Como o poente das auroras:
Uma, que passa nas horas;
Outra, que fica no tempo.

Raul de Leoni (1895-1926)

27 de julho de 2011

Versos na tarde

Berthe Morisot
Uma sépala, pétala, um espinho,
Numa simples manhã de verão
Um frasco de orvalho
Uma abelha ou duas
Uma brisa um bulício nas árvores
E eis-me rosa!

Emily Dickinson (1830-1886)
Trad. Ana Luísa Amaral
Com chuva branda
a goteira tamborila
nas pautas do dia.

Delores Pires
Vincent van Gogh
Às vezes tenho ideias felizes,
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...
Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...
Às vezes tenho ideias felizes,
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...
Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...

Álvaro de Campos
Fernando Pessoa (1888-1935)

26 de julho de 2011

A Morte

Marianne Broome
A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus.

Desce das estrelas
Das brancas estrelas
As loucas estrelas
Trânsfugas de Deus.

Chega impressentida
Nunca inesperada
Ela que é na vida
A grande esperada!

A desesperada
Do amor fratricida
Dos homens, ai! dos homens
Que matam a morte
Por medo da vida.

Vinicius de Moraes (1913-1980)

"E depois"

Os labirintos
que criam o tempo
se desvanecem

(só fica
o deserto)

O coração
fonte do desejo
se desvanece,

(só fica
o deserto)

A ilusão da aurora
e os beijos
se desvanecem

só fica o deserto
um ondulado deserto.

Federico Garcia Lorca (1898-1936)
Tradução: William A. de Melo
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25 de julho de 2011

Deem-me um arco e recriarei a infância,
os tordos sob a neve,
o rio sob as tábuas.

Deem-me a chuva e a gávea
duma figueira,
a flor dos eucaliptos,
um agapanto de água.

Albano Martins

Dia do Escritor

Hans Holbein - Erasmo de Rotterdam
O 25 de julho foi definido como dia nacional do escritor por decreto governamental, em 1960, após o sucesso do I Festival do Escritor Brasileiro, organizado naquele ano pela União Brasileira de Escritores, por iniciativa de seu presidente, João Peregrino Júnior, e de seu vice-presidente, Jorge Amado.

24 de julho de 2011

O Mundo Está Prestes a Rebentar

Gervasio Gallardo
Não olhes.
O mundo está prestes a rebentar.

Não olhes.
O mundo está prestes a despejar a sua luz
E a lançar-nos no abismo das suas trevas,
Aquele lugar negro, gordo e sem ar
Onde nós iremos matar ou morrer ou dançar ou chorar
Ou gritar ou gemer ou chiar que nem ratos
A ver se conseguimos de novo um posto de partida.

Harold Pinter (1930-2008), in "Várias Vozes"
Tradução: Jorge Silva Melo e Francisco Frazão
Premio Nobel da Literatura em 2005
Posições políticas estão implícitas em grande parte de sua obra. Embora as peças descrevam armadilhas da memória e falhas do caráter humano, revelam também a luta pelo poder.
No discurso de agradecimento pelo Nobel, Harold Pinter que sempre manifestou repúdio a qualquer forma de repressão e censura, fez uma vigorosa denúncia contra a política externa dos Estados Unidos que, segundo ele, “usou a mentira para justificar a invasão e a guerra no Iraque; apoiou e em muitos casos engendrou cada um das ditaduras militares no mundo depois da II Guerra Mundial”. Citou como exemplos, Indonésia, Grécia, Uruguai, Brasil, Paraguai, Haiti, Turquia, Filipinas, Guatemala, El Salvador e Chile.

Toda religião é fundamentalista

Sou uma pessoa anti religiosa. Acho um absurdo todo tipo de religião, mas principalmente contra o cristianismo, islamismo e judaísmo, que são as mais influentes, e, claro, os maiores poços de fundamentalismo, hipocrisia e retrocesso que se poderia ter. Sou de natureza questionadora, e para algumas coisas simplesmente não tenho resposta – nesse caso, aliás, ninguém tem. Mas me recuso a acreditar que uma criatura divina esteja a olhar por nós, regendo nossas vidas, pronta a nos punir e mandar para o inferno ao menor pecadilho.
De onde viemos? Boa pergunta. Provavelmente nunca será respondida. Só não acredito ter sido do barro ou pela simples vontade de um deus.
Acho que as religiões tiveram e tem seu papel no mundo, pro bem e muito mais, muito mais mesmo pro mal.
  • Já pararam para analisar quantas pessoas morreram e morrem por causa de uma fé que se auto impõe nas sociedades nos mais diversos tempos da história?
  • Já parou para pensar o quanto de pessoas foram exploradas em nome de “Deus”?
  • No antigo Egito, com Moisés (um sanguinário),
  • Salomão que explorava o povo,
  • E os romanos então?

Os regimes totalitários da época moderna (stalinismo, nazismo, fascismo) mataram muito, mas a Inquisição matou mais do que todos eles juntos.
E a Inquisição foi católica romana, mas e os mórmons?
Os islâmicos?
Os talibãs?
E esse caso da Noruega? Tudo em nome de Deus. Tudo para “purificar” o ser.

Outro ponto a se colocar é a indústria da fé.
A quantidade de pastores evangélicos, só pra dar um exemplo, que se aproveitam da inocência de seus seguidores é abismal, grotesca e revoltante. Não consta num daqueles evangelhos apócrifos que o reino de deus está em nós, e não dentro de construções?

❀❀❀
E os católicos que se intrometem na política, usando o púlpito para fazer campanha contra este ou aquele candidato e não fazem auto critica com os pedófilos de sua própria instituição?
Não consigo conjecturar um modo de acabar com essa exploração, visto que o fundamentalismo nesse pessoal é tão arraigado, que fica difícil, muitas vezes, manter uma simples conversa mais racional.
Ouse tentar um diálogo com um cristão fanático, pra ver o que acontece.
Desculpe, mas não da para respeitar instituições que pregam a:
  • proibição do aborto,
  • a demonização da homossexualidade,
  • a proibição das pesquisas com células-tronco.
Aliás, assunto, que não são da esfera religiosa. Como disse um senador da Argentina, direitos fundamentais não se plebiscitam, como gostaria a execrável Marina Silva, mas se garantem.
Não deveríamos deixar o Direito se pautar por dogmas, como lamentavelmente acontece, algumas vezes Brasil, e muito na maior parte do mundo.
Sou a favor do Estado laico como é no Brasil, embora muita gente se esqueça disso.
❀❀❀

23 de julho de 2011

Peixes no aquário

Henri Matisse
“Os peixinhos que nadam
no meu aquário
têm nomes de amores
acabados:
João, Assis, Sebastião...”.

Maria José Limeira

Este é o prólogo

Alexander Mark Rossi
Deixaria neste livro
toda a minha alma.
este livro que viu
as paisagens comigo
e viveu horas santas.
Um livro de poesias
é o outono morto:
os versos são as folhas
negras em terras brancas,
e a voz que os lê
é o sopro do vento
que lhes incute nos peitos
- entranháveis distâncias.
O poeta é o médium
da Natureza
que explica sua grandeza
por meio de palavras.
Poesia é amargura,
mel celeste que emana
de um favo invisível
que as almas fabricam.
Poesia é o impossível
feito possível. Harpa
que tem em vez de cordas
corações e chamas.
Poesia é a vida
que cruzamos com ânsia,
esperando o que leva
sem rumo a nossa barca.

Oh ! que penas tão fundas
e nunca remediadas,
as vozes dolorosas
que os poetas cantam !
Deixaria neste livro
toda a minha alma...

Federico Garcia Lorca (1898-1936)
Tradução: William Agel de Melo

22 de julho de 2011

René Magritte
Ser totalmente livre é impossível. De uma forma ou de outra sempre estaremos sujeitos a restrições, financeiras, éticas, morais.
O poder de exercermos nossa vontade livremente nunca será obtido em toda plenitude, pois existem leis, regras que forçosamente somos obrigados a seguir sob as penas da lei.
Além de tudo, sempre estaremos sujeitos a arbitrariedades políticas, (exemplo: nossos salários são controlados por lei, o dos políticos por eles) e principalmente, policiais (exemplo tem milhares, o mais recente, o caso menino Juan de Moraes).
Portanto este quadro de Magritte ilustra bem nossa condição humana.
Marc Chagall
Sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa.

Paulo Leminski (1944-1989)
Paul Klee
Meu povo e meu poema crescem juntos
como cresce no fruto
a árvore nova

No povo meu poema vai nascendo
como no canavial
nasce verde o açúcar

No povo meu poema está maduro
como o sol
na garganta do futuro

Meu povo em meu poema
se reflete
como a espiga se funde em terra fértil

Ao povo seu poema aqui devolvo
menos como quem canta
do que planta.

Ferreira Gullar

21 de julho de 2011

Gloriosa solidão

Vicente Romero Redondo
Gloriosa solidão
a de quem
escuta o silêncio
sem se despedaçar
na ausência de uma voz.

Ana Marques Gastão

A Eternidade

Tiziano Vecellio (Titian)
Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
Ao sol.

Minha alma imortal,
Cumpre a tua jura
Seja o sol estival
Ou a noite pura.

Pois tu me liberas
Das humanas quimeras,
Dos anseios vãos!
Tu voas então...

— Jamais a esperança.
Sem movimento.
Ciência e paciência,
O suplício é lento.

Que venha a manhã,
Com brasas de satã,
O dever
É vosso ardor.

Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
Ao sol.

Arthur Rimbaud (1854-1891)
Tradução: Claudio Daniel