31 de maio de 2011

Sterling Brown - Tenderness
Metade de mim é fada,
a outra metade é bruxa.
Uma escreve com sol,
a outra escreve com a lua.
Uma anda pelas ruas
cantarolando baixinho,
a outra caminha de noite
dando de comer à sua sombra.
Uma é séria, a outra sorrí;
uma voa, a outra é pesada.
Uma sonha dormindo,
a outra sonha acordada.

Roseana Murray


31 de Maio - Dia Mundial sem Tabaco.

30 de maio de 2011

Quando uma abelha
se enamora,
nasce uma flor.

Albano Martins

Riobaldo e a Religião

Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara loucura. No geral. Isso é que é a salvação da alma… Muita religião, seu moço! Eu cá não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio… Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. (...) Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca. Estremeço. Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há de a gente perdidos no vaivém, e a vida é burra. (...) Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a vida do homem está presa encantoada - erra rumo, da em aleijões como esses, dos meninos sem pernas e braços. Acho que o espírito da gente é cavalo que escolhe estrada: quando ruma para tristeza e morte, vai não vendo o que é bonito e bom.
Guimarães Rosa (1908-1967)
(Grande Sertão: Veredas)

29 de maio de 2011

Haikai

Entre a paz do branco
o riso da margarida.
Ouro reluzindo.

Delores Pires
Jean Baptiste Robie
Santinho de primeira comunhão,
retrato amarelado de um amigo esquecido,
recorte de jornal, esfarelado,
um poema qualquer, envelhecido.
Uma oração.
A receita de bolo, nunca feita.
O projeto de viagem, arquivado.
O botão desconjugado, perdido.
O desenho de um vestido ultrapassado.
Lá no fundo,
uma imagem de saudade antiga
no sorriso aberto de meus pais.
Um cachinho aloirado, uma chupeta.
Gaveta: histórias de amor de nunca mais.

Flora Figueiredo

28 de maio de 2011

Guido Borelli
Cantem comigo, todas as tristes coisas —
loucos em casas de pedra
sem portas e janelas
leprosos fumegando o amor e o cantar
um sapo a tentar
o céu alcançar;
cantem comigo, todas as tristes coisas —
dedos fendidos numa forja
a velha idade como uma almoço envolto
numa couraça
livros usados, pessoas usadas
flores usadas, amores usados
de ti preciso
de ti preciso
de ti preciso:
que fugiu
como um cavalo ou um cachorro
perdido ou morto
sentimento de fato
implacável
inexorável.

Charles Bukowski (1920-1994)
Tradução: Alice Dias

Como a morte se infiltra

Henri-Pierre Picou
Certo dia, não se levanta
porque quer demorar na cama.

No outro dia ele diz por que:
é porque lhe dói algum pé.

No outro dia o que dói é a perna,
E nem pode apoiar-se nela.

Dia a dia lhe cresce um não,
um enrodilhar-se de cão.

Dia a dia ele aprende o jeito
em que menos lhe pesa o leito.

Um dia faz fechar as janelas:
dói-lhe o dia lá fora delas.

Há um dia em que não se levanta:
deixa-o para a outra semana,

Outra semana sempre adiada,
que ele não vê por que apressá-la.

Um dia passou vinte e quatro horas
incurioso do que é de fora.

Outro dia já não distinguiu
noite e dia, tudo é vazio.

Um dia, pensou: respirar,
eis um esforço que se evitar.

Quem deixou-o, a respiração ?
Muda de cama. Eis seu caixão.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

27 de maio de 2011

Engano amigo
tenho a impressão
que a lua vem comigo.

Estrela Ruiz Leminski

Mistério

Há vozes dentro da noite que clamam por mim,
Há vozes nas fontes que gritam meu nome.
Minha alma distende seus ouvidos
E minha memória desce aos abismos escuros
Procurando quem chama.
Há vozes que correm nos ventos clamando por mim.
Há vozes debaixo das pedras que gemem meu nome
E eu olho para as árvores tranquilas
E para as montanhas impassíveis
Procurando quem chama.
Há vozes na boca das rosas cantando meu nome
E as ondas batem nas praias
Deixando exaustas um grito por mim
E meus olhos caem na lembrança do paraíso
Para saber quem chama.
Há vozes nos corpos sem vida,
Há vozes no meu caminhar,
Há vozes no sono de meus filhos
E meu pensamento como um relâmpago risca
O limite da minha existência
Na ânsia de saber quem grita.

Adalgisa Nery (1905-1980)

26 de maio de 2011

Amar você é coisa de minutos…

Filippo Indoni
Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui.

Paulo Leminski (1944-1989)

A verdade era bela

Johann Georg Meyer von Bremen
A verdade era bela,
como vinha nos livros.
À beirinha das águas
a verdade era bela.

Os que deram por ela
abriram-se e contaram
que a verdade era bela.

Quase todos se riam.
Os que punham nos livros
que a verdade era bela,
muito mais que os outros.

A verdade era bela
mas doía nos olhos
mas doía nos lábios
mas doía no peito
dos que davam por ela.

Sebastião da Gama (1924-1952)

25 de maio de 2011

Haikai

Sophie Gengembre Anderson
“Na gaiola cheia
(pedreiros e carpinteiros)
o dia gorjeia”.

Guilherme de Almeida (1860-1969)

‘ Cantilena ’

Cortaram as asas
ao rouxinol
Rouxinol sem asas
não pode voar.
Quebraram-te o bico,
rouxinol!
Rouxinol sem bico
não pode cantar.
Que ao menos a Noite
ninguém, rouxinol!,
ta queira roubar.
Rouxinol sem Noite
não pode viver.

Sebastião da Gama (1924-1952)

24 de maio de 2011

Vento

Frederic Edwin Church
Está
ventando,
vento forte
vento furioso
vento que assobia
vento-vento.
Vento de nostalgia
que relembra
o farfalhar
dos leques verdes
da palmeira ...
Vento...

Delores Pires

23 de maio de 2011

O Valor das Coisas

Adam Emory Albright
“O valor das coisas não está
no tempo que elas duram,
mas na intensidade com que acontecem.
Por isso existem:
* momentos inesquecíveis,
* coisas inexplicáveis e
* pessoas incomparáveis”.

Fernando Pessoa (1888-1935)

∗ Tênis ∗

A titia
borda e espia
o gato branco, enroscado
no feltro verde da mesa
e acordado,
com certeza.

Um novelo
cai. E, ao vê-lo,
o gato bate na bola
e a bola, branca de neve,
pula e rola,
fofa e leve…

Silenciosa,
vagarosa,
– uma duas angolinhas… –
a bola solta uma lenta,
longa linha
que se aumenta.

Pouco a pouco,
no mais louco
desnorteante corrupio,
a bola desaparece.
Mas o fio
Cresce… cresce…

Guilherme de Almeida (1860-1969)

∗ O Papagaio de Papel ∗

Cícero Dias
Deixem-no lá, deixem-no lá, o papagaio!
Deixem-no lá, bem preso à terra,
vibrando!

Aos arranques,
a fazer tremer a terra,
a querer voar
pelo ar
até pertinho do Céu…

Deixem-no lá, deixem-no lá, o papagaio!
Deixem-no lá viver a sua inquietação
e ser verdade aquela ânsia
de fugir.
Não lhe cortem o cordel!
Poupem o papagaio à dor enorme
de cair,
papel inútil, roto, pelo chão.

Não lhe ensinem,
ao pobre papagaio de papel,
que a sua inquietação
é a única força que ele tem.

Deixem-no lá,
naquela ânsia de fuga,
no sonho (a que uma navalha
pode dar o triste fim)
de fazer ninho no Céu:
Sempre anda longe da terra, assim,
o comprimento do cordel…

Deixem-no lá, deixem-no lá,
o papagaio de papel!...

Sebastião da Gama (1924-1952)

22 de maio de 2011

Portinari

Candido Portinari (Brodosqui, 29 de dezembro de 1903 — Rio de Janeiro, 6 de fevereiro de 1962). Pintor expressionista, poeta, político e desenhista.
Nasce numa fazenda de café, em Brodosqui, no interior do Estado de São Paulo. Filho de imigrantes italianos, de origem humilde, recebe apenas a instrução primária e desde criança manifesta sua vocação artística.
Antes mesmo de terminar o 1º grau integrou um grupo de pintores que chegava a Brodosqui para decorar a Igreja.
Aos quinze anos de idade vai para o Rio de Janeiro, em busca de um aprendizado mais sistemático em pintura, matriculando-se na Escola Nacional de Belas-Artes, tornando-se mais tarde, o maior pintor brasileiro.
Meninos brincando - Portinari
A paisagem onde a gente brincou pela primeira vez
não sai mais da gente.

Candido Portinari (1903-1962)

Café - Portinari
Vim da terra vermelha e do cafezal.
As almas penadas, os brejos e as matas virgens
Acompanham-me como o espantalho,
Que é o meu autorretrato.
Todas as coisas frágeis e pobres
Se parecem comigo.

Candido Portinari (1903-1962)
1ª Missa

∗ Por Delicadeza ∗

Bailarina fui
Mas nunca dancei
Em frente das grades
Só três passos dei

Tão breve o começo
Tão cedo negado
Dancei no avesso
Do tempo bailado

Daçarina fui
Mas nunca bailei
Deixei-me ficar
Na prisão do rei

Onde o mar aberto
E o tempo lavado?
Perdi-me tão perto
Do jardim buscado

Bailarina fui
Mas nunca bailei
Minha vida toda
Como cega errei

Minha vida atada
Nunca a desatei
Como Rimbaud disse
Também direi:

“Juventude ociosa
Por tudo iludida
Por delicadeza
Perdi minha vida”.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)
∗ Estupro, Violação Sexual ∗
Edgar Degas (1834-1917)
Paul Rubens (1577-1640)
Nicolas Poussin (1594-1665)
Estupro ou violação é a prática não consensual de conjunção carnal, imposta por meio de violência ou grave ameaça de qualquer natureza, ou ainda imposta contra pessoas incapazes de consentir
A psicologia evolucionista prega que o comportamento humano vem de mecanismos psicológicos que são o produto da seleção natural durante a era das cavernas. Diz que os homens sentem mais desejo sexual, são mais promíscuos.
No entanto todas as regras e leis de enclausuramento, mutilação genital, morte por adultério etc., são feitas para restringir e punir a sexualidade feminina. E além do mais em todos os lugares do mundo os homens estupram mulheres.
Por quê?
Por que homens abusam até de filhas? Como explicar isso?

21 de maio de 2011

Carles Gomila
Tua sedução é menos
de mulher do que de casa;
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)