30 de abril de 2011

Ned M. Seidler
A história mostra muito mais as ações do que os homens, porque ela só os toma em certos momentos escolhidos, com seus trajes de gala; ela só mostra o homem público que se arrumou para ser visto; não o segue em sua casa, em seu escritório, na família; juntos aos amigos; só o retrata quando ele representa; ela pinta muito mais a sua roupa do que sua pessoa.
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)

Deixo de lado a história moderna, não só por ela já não ter fisionomia e por nossos homens serem todos parecidos, mas porque nossos historiadores, preocupados apenas em brilhar, só pensam em fazer retratos muito coloridos e que não raro nada representam. Geralmente, os antigos fazem menos retratos, e usam menos espírito e mais bom senso em seus julgamentos.
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)
Emílio Lvro IV

Parada cardíaca

Carrie Vielle
Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.
Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.

Paulo Leminski (1944-1989)

Em vez de amar

Walter Dendy Sadler
Em vez de amar singelamente
uma casa pequena com jardim,
uma varanda com pássaros,
uma janela em que ao sereno há uma bilha de barro
um pessegueiro, uma canção e um beijo
- o pessegueiro de seu pomar,
a canção popular
e o beijo que poderia alcançar-
a minha musa ama precisamente
o que não existe neste lugar.

Henriqueta Lisboa (1901-1985)
Lord Frederick Leighton
Quando ele aparece
bonito e mudo se posta
entre moitas de murici.
Faz alto-verão no corpo,
no tempo dilatado de resinas.
Como quem treina para ver a Deus,
olho a curva do lábio, a testa,
o nariz afrontoso.
Não se despede nunca.
Quando sai não vejo,
extenuada por tamanha abundância:
seus dedos com unhas, inacreditáveis!

Adélia Prado

29 de abril de 2011

Fuga

John W. Waterhouse - Wind Flowers
Vento que passas, leva-me contigo
Sou poeira também, folha de outono.
Rês tresmalhada que não quer abrigo
No calor do redil de nenhum dono.

Leva-me, e livre deixa-me cair
No deserto de todas as lembranças,
Onde eu possa dormir
Como no limbo dormem as crianças.

Miguel Torga (1907-1995)
Karla Gudeon

Arabela
abria a janela.

Carolina
erguia a cortina.

E Maria
olhava e sorria:
"Bom dia!"

Arabela
foi sempre a mais bela.

Carolina
a mais sábia menina.

E Maria
Apenas sorria:
"Bom dia!"

Pensaremos em cada menina
que vivia naquela janela;
uma que se chamava Arabela,
outra que se chamou Carolina.

Mas a nossa profunda saudade
é Maria, Maria, Maria,
que dizia com voz de amizade:
"Bom dia!"

Cecília Meireles
(1901-1964)

Deixa o olhar do mundo

Josephine Wall
Deixa que o olhar do mundo enfim devasse
Teu grande amor que é teu maior segredo!
Que terias perdido, se, mais cedo,
Todo o afeto que sentes se mostrasse?
Basta de enganos!
Mostra-me sem medo
Aos homens, afrontando-os face a face:
Quero que os homens todos, quando eu passe,
Invejosos, apontem-me com o dedo.
Olha: não posso mais!
Ando tão cheio
Deste amor, que minh'alma se consome
De te exaltar aos olhos do universo...
Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio:
E, fatigado de calar teu nome,
Quase o revelo no final de um verso.

Olavo Bilac (1865-1918)

28 de abril de 2011

Travelling life

Alfred Emile Leopold Stevens
É como se fosse uma guerra
onde o mau cabrito briga
e o bom cabrito não berra

é como se fosse uma terra
estrangeira até para ela
como se fosse uma tela
onde cada filme que passa
toda a imagem congela

é como se fosse a fera
que a cada dia que roda e rola
mais e mais se revela.

Paulo Leminski (1944-1989)

Noturno de Chopin

‘Noturno de Chopin’
Emma Florence Harrison
Eu fico todo bestificado olhando a lua
enquanto as mãos brasileiras de você
fazem fandango no Chopin

Tem uma voz gritando lá na rua:
Amendoim torrado
tá cabano tá no fim...
Coitado do Chopin! Tá acabando tá no fim...

Amor: a lua tá doce lá fora
o vento tá doce bulindo nas bananeiras
tá doce esse aroma das noites mineiras:
cheiro de gigilim manga-rosa jasmim.

Os olhos de você, amor...

O Chopin derretido tá maxixe
meloso
gostoso
(os olhos de você, amor...)
correndo que nem caldo
na calma da noite belo horizonte.

Pedro Nava (1903-1984)

27 de abril de 2011

Nuvem mansa

Max Hayslette - Island Afternoon
Minúscula, branca,
leve sem rumor,
boia no azul uma nuvem:
volve teus olhos e sente
como em seu alvo frescor te conduz
feliz por entre sonhos azuis.

Hermann Hesse (1877-1962)
Montagem: William-Adolphe Bouguereau e o Super-Homem
Novos casos de Amor, novos enganos,
envoltos em lisonjas conhecidas,
do bem promessas falsas e escondidas,
onde do mal se cumprem grandes danos:

como não tomais já por desenganos
tantos ais, tantas lágrimas perdidas,
pois em a vida não basta nem mil vidas
a tantos dias tristes, tantos anos?

Um novo coração mister havia
com outros olhos menos agravados
para tornar a crer o que eu não cria.

Andais comigo, enganos, enganados;
e se o quizerdes ver, cuidai um dia
o que se diz dos bem acutilados.

Luís Vaz de Camões (1524-1589)

Inconstância

Edward Killingworth Johnson
Procurei o amor que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava.
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer...
Um sol a apagar-se e outro a acender
Nas brumas dos atalhos por onde ando...

E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há de partir também... nem eu sei quando...

Florbela Espanca (1894-1930)
Antonio Berni
Fui agraciado com o amor sem limites.
Mas, quando garoto,
a gente preocupada trabalhava
e eu escapava
para as margens do rio Rion
e vagava sem fazer nada.
Aborrecia-se minha mãe:
"Garoto danado!"
Meu pai me ameaçava com o cinturão.
Mas eu, com três rublos falsos,
jogava com os soldados sob os muros.
Sem o peso da camisa,
sem o peso das botas,
de costas ou de barriga no chão,
torrava-me ao sol de Kutaís
até sentir pontadas no coração.
O sol assombrava:
“Daquele tamanhinho
e com um tal coração!
Vai partir-lhe a espinha!
Como, será que cabem
nesse tico de gente
o rio,
o coração,
eu
e cem quilômetros de montanhas?”

Vladimir Maiakovski (1893-1930)

26 de abril de 2011

George Dunlop Leslie
Não fui profetizado. Aconteci.
Como é difícil cumprir
missão que não recebi.
Vivendo foi que aprendi
a que vim ao mundo: amar.

Quando liberto do tempo
me pediram testemunho,
as minhas mãos mostrarei:
não terei marca de cravos.
Verão, indeléveis, lanhos
da rosa que mais amei.

Thiago de Mello

Dia

Agim Sulaj
De que céu caído,
oh insólito,
imóvel solitário na onda do tempo?
És a duração,
o tempo que amadurece
num instante enorme, diáfano:
flecha no ar,
branco embelezado
e espaço já sem memória de flecha.
Dia feito de tempo e de vazio:
desabitas-me, apagas
meu nome e o que sou,
enchendo-me de ti: luz, nada.

E flutuo, já sem mim, pura existência.

Octavio Paz (1914-1998)

O silêncio

Arthur Hovhannisyan
Há um grande silêncio que está sempre à escuta.

E a gente se põe a dizer inquietamente qualquer coisa,
qualquer coisa, seja o que for,
desde a corriqueira dúvida sobre se chove ou não chove hoje
até a tua dúvida metafísica, Hamleto!

E, por todo o sempre, enquanto a gente fala, fala, fala
o silêncio escuta...
e cala.

Mario Quintana (1906-1994)

25 de abril de 2011

Pietro Perugino
De Apolo o carro rodou pra fora
Da vista. A poeira que levantara
Ficou enchendo de leve névoa
o horizonte;
A flauta calma de Pã, descendo
Seu tom agudo no ar pausado,
Deu mais tristezas ao moribundo
Dia suave.
Cálida e loura, núbil e triste,
Tu, mondadeira dos prados quentes,
Ficas ouvindo, com os teus passos
Mais arrastados,
A flauta antiga do deus durando
Com o ar que cresce pra vento leve,
E sei que pensas na deusa clara
Nada dos mares,
E que vão ondas lá muito adentro
Do que o teu seio sente cansado
Enquanto a flauta sorrindo chora
Palidamente.

Ricardo Reis
Fernando Pessoa (1888-1935)
Chama-se liberdade o bem que sentes,
Águia que pairas sobre as serranias;
Chamam-se tiranias
Os acenos que o mundo
Cá de baixo faz;
Não desças do teu céu de solidão,
Pomba da verdadeira paz,
Imagem de nenhuma servidão!

Miguel Torga (1907-1995)

24 de abril de 2011

Eine Kleine Nachtmusik - Meluseena

Devagar no jardim a noite poisa
E o bailado dos seus passos
Liberta a minha alma dos seus laços,
Como se de novo fosse criada cada coisa.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)
Brenda Burke
Canta
Saudade é tanta
Não vai passar se você cantar
Mas quanto mais se canta
Mais vontade de cantar
Dança, é só mudança
Não vai parar se você dançar
Mas quando você dança
É você quem vai mudar
Sonha como criança
Ainda dói se você sonhar
Mas pra que a gente acorde
É fundamental sonhar.

Alice Ruiz
Cesare Marchesini - Toscana Naif
Sobe o vento pelas flores do lilás.
Riem tenros rebentos ao sol,
Pétalas deslizam pelas paredes do pomar.
Mas, para mim, já se cumpriu a Primavera.

Sob as flores da macieira
Sigo o caminho das geadas,
Pois, paixões que em Abril sorriem,
Estão em Maio abandonadas.

Sara Teasdale (1884-1933)
Versão de Manuel Anastácio

23 de abril de 2011

As Caravelas

‘As Caravelas’
Já no largo Oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando
As marítimas águas consagradas,
Que do gado de Proteu
(* ) são cortadas.
Luís Vaz de Camões (1524-1589)
Os Lusíadas (Fragmento)
(*) Proteu, pastor de Netuno, que mudava de aspecto toda vez que precisava desse disfarce para fugir.

A Vida

Renoir-Figures the beach
Na água do rio que procura o mar;
No mar sem fim; na luz que nos encanta;
Na montanha que aos ares se levanta;
No céu sem raias que deslumbra o olhar;

No astro maior, na mais humilde planta;
Na voz do vento, no clarão solar;
No inseto vil, no tronco secular,
— A vida universal palpita e canta!

Vive até, no seu sono, a pedra bruta . . .
Tudo vive! E, alta noite, na mudez
De tudo, — essa harmonia que se escuta

Correndo os ares, na amplidão perdida,
Essa música doce, é a voz, talvez,
Da alma de tudo, celebrando a Vida!

Olavo Bilac (1865-1918)

As estrelas

Quando a noite cair, fica à janela!
E contempla o infinito firmamento.
vê que planícies fulgurantes e belas!
Vê que deslumbramento.

Olha a primeira estrela que aparece
Além, naquele ponto do horizonte...
Brilha, trêmula e vívida...Parece...
Um farol sobre o píncaro do monte.

Olavo Bilac (1865-1918)