31 de março de 2011

Jana Magalhaes
“Vamos brincar de imaginar
um mundo diferente?
As pessoas deixam de ser coisas
e passam a ser gente”.

Roberto Freire (1927-2008)

Ditadura Militar

Ditadura Militar
Há 47 anos dava-se início a um episódio que mudaria e marcaria a vida de muitos brasileiros, o Golpe Militar de 1964. Para os militares, Revolução de 1964. No dia 31 de março de 1964 os militares derrubaram o governo do presidente do João Goulart, conhecido também como Jango, instalando uma ditadura que perduraria por 21 anos.
Jango, então vice-presidente, havia assumido o governo brasileiro depois que Jânio Quadros, no mesmo ano de sua posse (1961), renunciou à presidência da República.
Foram anos difíceis, nos quais, os direitos políticos e civis, praticamente, não existiam. A repressão aos que se opunham aos militares era violenta. Este período foi marcado ainda, por uma forte censura aos meios de comunicação.

Abaixo os presidentes militares nesse período de exceção
:
  1. Governo Castelo Branco (1964-1967)
  2. Governo Costa e Silva (1967-1969)
    - Em 13/12/1968 foi decretado o Ato Institucional nº 5 (AI 5), que aposentou juízes, cassou mandatos, acabou com as garantias do Habeas-corpus, aumentou a repressão militar e policial.
  3. Governo da Junta Militar (31/8/1969-30/10/1969) Formada por:
    - Aurélio Lira Tavares (Exército)
    - Augusto Rademaker (Marinha)
    - Márcio de Souza Melo (Aeronáutica)
  4. Governo Garrastazu Médice (1969-1974)
    - Período considerado como o mais repressivo da ditadura, conhecido como “ANOS DE CHUMBO”.

  5. Governo Ernesto Geisel (1974-1979)
  6. Governo João Figueiredo (1979-1985)
    - Decretado a Lei de Anistia, concedendo o retorno ao país de políticos, artistas e outros brasileiros exilados e condenados por crimes políticos.
Este breve relato é para não deixar cair no esquecimento este horrível período de nossa história, no qual passei toda minha juventude e de que não tenho nenhuma saudade. É também para que não deixemos NUNCA MAIS isso acontecer.
O Poeta é a Mãe das Armas
O Poeta é a mãe das armas
& das Artes em geral —
alô, poetas: poesia
no país do carnaval;
Alô, malucos: poesia
não tem nada a ver com os versos
dessa estação muito fria.

O Poeta é a mãe das Artes
& das armas em geral:
quem não inventa as maneiras
do corte no carnaval
(alô, malucos), é traidor
da poesia: não vale nada, lodal.

A poesia é o pai da ar-
timanha de sempre: quent
ura no forno quente
do lado de cá, no lar
das coisas malditíssimas;
alô poetas: poesia!
poesia poesia poesia poesia!
O poeta não se cuida ao ponto
de não se cuidar: quem for cortar meu cabelo
já sabe: não está cortando nada
além da MINHA bandeira ////////// =
sem aura nem baúra, sem nada mais pra contar.
Isso: ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. a
r: em primeiríssimo, o lugar.

Poetemos pois.

Torquato Neto (1944-1972)
Darryl Trott
No meio das trevas, sorrio à vida,
como se conhecesse a fórmula mágica
que transforma o mal e a tristeza em claridade e em felicidade.
Então, procuro uma razão para esta alegria,
não a acho e não posso deixar de rir de mim mesma.
Creio que a própria vida é o único segredo.

Rosa Luxemburgo (1871-1919)

30 de março de 2011

Senhor, é tempo! O estio foi bem grande.
No relógio solar pousa tua sombra,
a pela pradaria o vento expande.

Amadurece a fruta derradeira:
dá-lhe dois dias mais meridionais
em que se aperfeiçoe, e exige o mais
doce sabor à pejada videira.

Quem não tem casa, agora, não a faça;
se há alguém sozinho, assim deve ficar
a ler ou longas cartas rascunhar,
nas alamedas onde inquietos passa
enquanto as folhas tremem soltas no ar.

Rainer Maria Rilke (1875-1926)
Traduções: Geir Campos e Fernando Jorge

ROTEIRO DO SILÊNCIO

Henryk Siemiradzki
Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.
Nas prisões e nos conventos
Nas igrejas e na noite
Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio

Os amantes no quarto.
Os ratos no muro.
A menina
Nos longos corredores do colégio.
Todos os cães perdidos
Pelos quais tenho sofrido:
O meu silêncio é maior
Que toda solidão
E que todo silêncio.

Hilda Hilst (1930-2004)
‘Jair Bolsonaro - Ídolo das viúvas da ditadura’.
Jair Bolsonaro (PP-RJ). É uma vergonha para o país, em especial para o Rio de Janeiro, que esse viúvo da ditadura militar ainda circule com poder pelos corredores do Congresso, defendendo as barbaridades do período mais tenebroso da história republicana brasileira e rasgando o respeito aos direitos fundamentais.
Em 2005, durante depoimento de José Genoíno na sessão da Comissão Parlamentar de Inquérito levou como convidado para a sessão o coronel do Exército Lício Augusto Pereira Marciel, responsável pela prisão de Genoíno na década de 70 quando combatia a ditadura militar na Guerrilha do Araguaia. Sob protesto, o deputado e o coronel acabaram deixando o local.
Esta semana Em um quadro de perguntas e respostas do programa CQC, ele compartilhou impressões sobre o mundo. Um filho que fuma maconha merece levar “porrada”. Ser um pai presente e dar boa educação que garanta que a prole não seja gay.
Questionado sobre o que faria se seus filhos se apaixonassem por uma negra, Bolsonaro respondeu que eles eram educados e que não viveram em ambiente de promiscuidade, como a cantora Preta Gil.
Por outro lado, isso é, ao mesmo tempo, a maior prova de que somos uma democracia.

Bailado Russo

A mão firme e ligeira
puxou com força a fieira:
e o pião
fez uma eclipse tonta
no ar e fincou a ponta
no chão.
É um pião som sete listas
de cores imprevistas;
porém,
nas suas voltas doidas,
não mostra as cores todas
que tem:
– fica todo cinzento,
no ardente movimento...
E até
parece estar parado,
teso , paralisado,
de pé.
Mas gira. Até que, aos poucos,
em torvelins tão loucos
assim,
já tonto, bamboleia
e, bambo, cambaleia...
Enfim,
tomba. E, como uma cobra,
corre mole e desdobra
então,
em parábolas lentas,
sete cores violentas
no chão.

Guilherme de Almeida (1860-1969)

29 de março de 2011

René Magritte - La Voix du sang
A alma deveria sempre
ficar entreaberta, pronta
para acolher a experiência extasiante.

Emily Dickinson (1830-1886)
René Magritte - La robe du soi
Onde correm dentro da alma
os rios da alegria?

Por quais geografias
de tempos misturados,
despenhadeiros
ou vales enluarados?

Em suas águas nadam
peixes de luz quase invisíveis,
fugidios,
rumo a um mar desconhecido.

Deságuam no olhar
esses rios,
como partituras
escritas com o sopro
das estrelas.

Roseana Murray
Ben and Raisa Gertsberg - Tree Top
Um vento surdo liga
o A e o B. É leve o alfabeto.
Do figo traz o estorninho
a polpa. Leviano universo,
mais do que leve, airado
pedestal de nula estátua.
Contudo, em um momento existem
o vento, o voo, os pontos
de partida e de chegada.
Em um momento, digo. Um só.
Depois a nova coisa ignora
outra coisa anterior. Não há.

Pedro Tamen

28 de março de 2011

Irisz Agocs
Perdi uma maleta
cheia de nuvens
e de flores
maleta onde eu carregava
todos os meus amores
embrulhados em neblina.
Perdi essa maleta
em alguma esquina
de algum sonho
e desde então
eu ando tristonho
sem saber onde pôr as mãos.
Se andando pelas ruas
você encontrar a tal maleta
por favor
me avise em pensamento
que eu largo tudo
e venho correndo...

Roseana Murray
O destino plantou-me aqui
e arrancou-me daqui.
E nunca mais as raízes me seguraram
bem em nenhuma terra.

Ter um destino
é não caber no berço onde o corpo nasceu,
e transpor as fronteiras uma a uma
e morrer sem nenhuma.

Miguel Torga (1907-1995)

Três lições de moral

Archibald Thorburn
I

Olhemos à nossa volta.
Todos os nossos companheiros têm um nome;
todos os objetos,
todos os animais de nossas gravuras
têm um nome para designá-los.

Todas as pessoas,
todos os animais,
todas as coisas
têm um nome.

II

Se alguém lhe disser:
desenhe uma laranja...
Você interroga:
uma laranja verde, madura, grande, pequena, redonda?

Para desenhar com exatidão
devo lhe informar como ela é.
As palavras: verde, madura etc.
que são acrescentadas ao nome laranja
e que dizem de suas qualidades
boas ou más
são os adjetivos predicadores.

As palavras que dizem como são as pessoas
os animais e as coisas
são os adjetivos predicadores.

III

Se eu disser:
Uma andorinha voa,
serei compreendido.
Se disser:
Uma andorinha atravessa,
alguém me pergunta:
Atravessa o quê?
A rua,
o telhado,
o prado?

Faltam-me uma informação.
Por exemplo:
Uma andorinha atravessou o telhado.
Foi o bastante acrescentar o complemento.

Desse modo, às vezes,
o verbo necessita de um complemento.

Emmanuel Hocquard
Tradução: J. A. Rodrigues

27 de março de 2011

“O tempo não comprou
passagem de volta.
Tenho lembranças
e não saudades”.

Mário Lago (1911-2002)
‘Financial Times sugere que Portugal
seja anexado ao Brasil
para sair da crise’
Em artigo publicado na edição desta sexta-feira (25), a equipe de colunistas da seção Lex do Financial Times sugere que Portugal seja anexado ao Brasil para sair da crise econômica e política em que vive: “Aqui vai uma maneira ‘out-of-the-box’ para lidar com o problema: anexação pelo Brasil (uma década de 4% de crescimento anual do PIB, muito mais elevado recentemente). Portugal seria uma grande província, mas longe de ser dominante: 5% da população e 10% do PIB”, lê-se na coluna mais influente do jornal britânico de negócios e finanças.
Para o FT apesar da perda de status, Portugal sairia ganhando caso tornar-se uma província brasileira: “A antiga colônia tem algo a oferecer, mesmo para além da diminuição dos ‘spreads’ de crédito e, proporcionalmente, déficits e contas correntes governamentais muito mais baixos. O Brasil é um dos BRIC, o centro emergente do poder mundial. Isto soa melhor lar que uma cansada e velha União Europeia”, escreve o FT, em tradução feita pelo portal luso Económico.
Para o diário britânico, a União Européia vê em Portugal um membro problemático: “Sem governo, elevada resistência à austeridade e crônico desempenho econômico”.
É a história que muda mesmo quando demora.
O que diria Tiradentes?

26 de março de 2011

Unidade

Deitando os olhos sobre a perspectiva
Das coisas, surpreendo em cada qual
Uma simples imagem fugitiva
Da infinita harmonia universal.

Uma revelação vaga e parcial
De tudo existe em cada coisa viva:
Na corrente do Bem ou na do Mal
Tudo tem uma vida evocativa.

Nada é inútil; dos homens aos insetos
Vão-se estendendo todos os aspectos
Que a ideia da existência pode ter;

E o que deslumbra o olhar é perceber
Em todos esses seres incompletos
A completa noção de um mesmo ser...

Raul de Leoni (1895-1926)
Ismael Nery (1900-1934)
Aqui me tenho
como não me conheço
nem me quis
sem começo
nem fim
aqui me tenho
sem mim

nada lembro
nem sei
à luz presente
sou apenas um bicho
transparente.

Ferreira Gullar

25 de março de 2011

Torquato

Paul Klee
Eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

Eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos segredos dentes
nesta hora

Eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

Eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

Torquato Neto (1944-1972)
Paul Cézanne
Deixa ficar cinza nos cinzeiros
e as flores murchas nas jarras.
Não dês ordem às coisas
A cinza ainda é resto de presença
e as flores recordações.

Maria Eugênia Cunhal

24 de março de 2011

“Belo, é tudo quanto agrada desinteressadamente”.
Immanuel Kant (1724-1804)

Hoje na História

Na madrugada do dia 24 de março de 1976, uma junta militar derrubou o governo da presidente argentina María Estela Martínez, conhecida como Isabelita Perón, viúva e sucessora de Juan Domingo Perón, falecido no exercício do poder. Formada pelo general Jorge Rafael Videla, pelo almirante Emilio Massera e pelo brigadeiro Orlando Agostí, sob a justificativa de conter o desgoverno, a inflação e a influência socialista que assolava toda América Latina, a junta instituiu uma ditadura militar pautada na violação dos direitos humanos e na entrega econômica do país.
O chamado "Processo de Reorganização Nacional" tornou comum a prática de sequestros, prisões arbitrárias, torturas, mortes, ocultação de cadáveres e medidas como a censura aos meios de comunicação, intervenção aos sindicatos, proibição de greves, dissolução dos partidos políticos, suspensão da vigência do Estatuto do docente e eliminação de organizações políticas de esquerda.

Faziam parte também da ideologia do Estado os voos da morte e a apropriação de crianças. Nos voos da morte, os opositores ao regime militar eram dopados, empurrados vivos e arremessados ao mar em pleno voo dos aparelhos das forças armadas.
A apropriação de crianças também foi uma ação da guerra suja, descrita pelas Mães e Avós da Praça de Maio como um plano pensado e articulado pela Doutrina da Segurança Nacional, cuja orientação consistia em romper os laços de consanguinidade e “influência subversiva” que as crianças poderiam sofrer dos pais.

Em sua primeira viagem internacional a presidente Dilma Rousseff teve um encontro, em Buenos Aires, com as Mães e Avós da Praça de Maio e foi muito aplaudida, pois ela lutou durante a ditadura militar (1964-1985) no Brasil.
“Espero que essa agenda possa atualizar as marcas que ela (a presidenta da República) traz”, disse Cecília em referência ao fato de Dilma Rousseff ter atuado na resistência contra a ditadura e ter sido torturada e encarcerada por “subversão”, no Presídio Tiradentes, em São Paulo, entre 1970 e 1972.
Johann Moritz Rugendas
Não o canto de mentira e falsidade
que a ilusão ariana
cantou para o mundo
na conquista do ouro
nem o canto da supremacia dos derramadores de sangue
das utópicas novas ordens
de napoleônicas conquistas
mas o canto da liberdade dos povos
e do direito do trabalhador...

Solano Trindade (1908-1974)

23 de março de 2011

Sarça Ardente
No esplendor
de uma língua de fogo,
AQUELE QUE É
clama o nosso nome.

Despojamento pungente
de pisar com os pés desnudos
a ardente aspereza
do solo sagrado.

Helena Kolody (1912-2004)
Jean Hippolyte Flandrin, pintor francês
(Lyon, 23 de março de 1809 – Roma, 21 de março de 1864)
Rapaz nu sentado a beira mar