28 de fevereiro de 2011

Nossa Senhora da Flor Roxa
rosai por nós
assim na vida
como no chão.
A primavera de cada ano
nos dai hoje
encantai nosso jardim
assim como encantamos
o do vizinho
e não nos deixeis cair na tentação
de esquecer tuas flores.

Alice Ruiz

Palavras

Ruth Sanderson
Golpes,
De machado na madeira,
E os ecos!
Ecos que partem
A galope.

A seiva
Jorra como pranto, como
Água lutando
Para repor seu espelho
sobre a rocha

Que cai e rola,
Crânio branco
Comido pelas ervas.
Anos depois, na estrada,
Encontro

Anos depois, na estrada,
Encontro
Essas palavras secas e sem rédeas,
Bater de cascos incansável.
Enquanto
Do fundo do poço, estrelas fixas
Decidem uma vida.

Sylvia Plath (1932-1963)
(tradução de Ana Cristina Cesar)
Olho a árvore e indago: está aí para quê?
O mundo é sem sentido
quanto mais vasto é.
Esta pedra esta folha
este mar sem tamanho
fecham-se em si,
me repelem.
Pervago em um mundo estranho.
Mas em meio à estranheza
do mundo, descubro
uma nova beleza
com que me deslumbro:
é teu doce sorriso
é tua pele macia
são teus olhos brilhando
é essa tua alegria.
Olho a árvore e já
não pergunto "para quê"?
A estranheza do mundo
se dissipa em você.

Ferreira Gullar

27 de fevereiro de 2011

Haikai

Tony Ryder
Havia uma rosa no vaso.
Veio do ocaso
a hora silenciosa.

Guilherme de Almeida (1860-1969)
Carl Larsson
Brincam à margem da correnteza.
Não indagam a origem do rio.
Amam esta água necessária.
Aceitam o mistério sem surpresa.

Helena Kolody (1912-2004)
O círculo é a forma eleita:
É ovo, é zero,
É ciclo, é ciência.
Nele se inclui todo o mistério
E toda a sapiência.

É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.

Ana Hatherly

27/02 - Dia Nacional do Livro Didático

27/02 - Dia Nacional
do Livro Didático
Muitas vezes, o Livro Didático é a única forma de acesso da criança à leitura e à cultura letrada.
Suas principais funções são:
  • transmitir conhecimentos,
  • desenvolver capacidades e competências,
  • consolidar e avaliar o conteúdo estudado.
Recurso didático fundamental, sua distribuição gratuita aos estudantes da rede pública é assegurada pelo Estado. Em 1929, foi criado o Instituto Nacional do Livro, com o objetivo de legitimar o Livro Didático e auxiliar no aumento de sua produção. No entanto, essa política passou por muitas mudanças até resultar na criação do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), em 1985. A partir daquele ano, o professor da escola pública passou a escolher o livro mais adequado aos seus alunos e ao projeto pedagógico da escola, a partir de uma pré-seleção do MEC. A reutilização do livro e a introdução de normas de qualidade foram outros importantes avanços. Com o amadurecimento desse processo, a produção e a distribuição de livros didáticos tornaram-se contínuas e massivas a partir de 1997. Hoje, o governo federal envia livros didáticos aos alunos do ensino fundamental e tem aumentado a oferta de obras de literatura, dicionários e até mesmo de livros em braile (para os deficientes visuais) e em libras (para os deficientes auditivos). Também tem sido crescente, nos últimos anos, a distribuição de obras didáticas aos alunos do ensino médio e aos programas de alfabetização de jovens e adultos.

Fonte: Ministério da Educação.

26 de fevereiro de 2011

Quem é essa
que me olha
de tão longe,
com olhos que foram meus?

Helena Kolody (1912-2004)

Personalidades HIstóricas:

José Mauro de Vasconcelos
91 anos: O escritor José Mauro de Vasconcelos, nasceu no Rio de Janeiro em 26 de fevereiro de 1920, de origem pobre, quando era criança chegou a viver com alguns tios na cidade de Natal, no Rio Grande do Norte.
Já crescido, por dois anos, cursou Medicina na capital potiguar, porém resolveu abandonar o curso esperando encontrar melhores oportunidades na sua cidade natal. Quando retornou ao Rio de Janeiro exerceu funções diversas, de boxer a carregador de frutas. Sua vida nunca foi fácil e com muitos sonhos na cabeça, mudou-se para São Paulo. Começou sua vida em Sampa como garçom de boate e trabalhou em outras áreas.
Passou um período viajando em muitos países da Europa e ganhou uma bolsa de estudos na Espanha até ganhar uma bolsa de estudos na Espanha. Retornando ao Brasil, trabalhou com os irmãos Villas-Boas e, juntos, exploraram até então muito pouco conhecida região do Araguaia, que inspirou a temática para o primeiro livro que ele escreveu: “Banana Brava” (1942), lançando quando ele tinha apenas 22 anos.
José Mauro Vasconcelos viveu em muitos lugares bem distintos, exerceu diversas profissões muito diferentes e, diante disso, conheceu muitas culturas e os tipos mais variados de pessoas. Demonstrando ser muito sensível, desenvolveu um estilo de escrita simples e emotiva, que atinge profundamente o leitor
É um escritor respeitado, conhecido e valorado muito mais em outros países do que no Brasil e consta em listas de escritores brasileiros mais lidos no exterior. Seus livros foram traduzidos para o alemão, inglês, espanhol, francês, italiano, japonês e holandês, entre outras línguas.
O livro “Meu pé de Laranja Lima”, foi o seu maior sucesso editorial e inspirou adaptações para uma novela de televisão e filme para o cinema. Vendeu em seus primeiros meses de lançamento, 217 mil exemplares, e foi inspirado em suas próprias experiências pessoais ao retratar os choques que ele sofreu na infância com as mudanças bruscas na sua vida. Além de “Meu Pé de Laranja Lima”, muitos outros de seus livros ganharam versões cinematográficas.
O mercado editorial brasileiro perdeu um grande e sensível escritor com a morte de José Mauro de Vasconcelos no dia 25 de julho de 1984.
Meu livro favorito dele é:
Rosinha,minha canoa - fala da relação mágica de Zé Orocó e sua canoa Rosinha. O autor de "Meu pé de laranja lima" transporta-nos a um universo mágico da floresta e nos faz refletir sobre essa natureza das matas e dos bichos. O capítulo "Olhos Vegetais" é um hino de amor à natureza. Nele, José Mauro conta o surgimento da canoa. A partir da história do nascimento e da vida de uma canjirana-branca, narrada pela própria Rosinha ao seu dono Orocó, o autor revela o desejo de um velho landi em transformar-se numa canoa a serviço dos índios. É simplesmente lindo e emocionante.
Li esse livro aos 16 anos, e jamais me esqueci. Foi um dos primeiros livros de fantasia juvenil, que cheguei a ler, e no mundo de Zé Orocó há toda uma gama de paisagens com clima bem brasileiro, personagens regionais inesquecíveis, o sabor e o clima de nossa terra.
Suas principais obras são:
  • (1942) Banana Brava
  • (1945) Barro Blanco (grande sucesso de crítica)
  • (1949) Longe da Terra
  • (1951) Vazante
  • (1953) Arara Vermelha
  • (1955) Arraia de Fogo
  • (1962) Rosinha, minha canoa
  • (1963) Doidão
  • (1964) O Garanhão das Praias
  • (1964) Coração de Vidro
  • (1966) As Confissões de Frei Abóbora
  • (1968) Meu pé de Laranja Lima
  • (1969) O Palácio Japonês
  • (1969) Rua Descalça
  • (1970) Farinha Órfã
  • (1972) Chuva Crioula
  • (1973) O Veleiro de Cristal
  • (1974) Vamos Aquecer o Sol

25 de fevereiro de 2011

Edmund Blair Leighton
Se eu apagasse a fina
linha do horizonte
será que o céu
cairia no mar?
E as estrelas e a lua
começariam a navegar?

Ou será que o mar
viraria céu
e os peixes
aprenderiam a voar?

Roseana Murray

A Única Alegria Neste Mundo é a de Começar

Excerto

Willem Haenraets - Room with a View
A única alegria neste mundo é a de começar.
É belo viver, porque viver é começar, sempre, a cada instante.
Quando esta sensação desaparece - prisão, doença,
hábito, estupidez - deseja-se morrer.
[...]

Cesare Pavese [1908-1950],
in 'O Ofício de Viver'.
Poesia tem poder transformador
Władysław Czachórski
É possível ensinar a escrever poesia? Aparentemente, sim. Num centro cultural numa cidade da Coreia do Sul, um grupo de pessoas senta-se em mesinhas escolares. Seus olhares são ávidos como de crianças no primário à espera de aprender as primeiras letras do alfabeto.
O professor, um poeta conceituado, mostra-lhes uma maçã e pergunta se alguém já viu a fruta. Claro, todos já viram, como ele mesmo diz, milhares de maçãs em suas vidas.
"Vocês nunca viram uma maçã de verdade", decreta. Mas qual a diferença entre ver e enxergar?
Ao centro do drama sul-coreano "Poesia" está exatamente essa questão: o que vemos e o que enxergamos? Mija (Jeong-hie Yun) é uma senhora que cuida do neto, e trabalha como faxineira e uma espécie de enfermeira de um homem que sofreu um derrame (Hira Kim). Ela é a última a se matricular na aula de poesia, e a aluna mais esforçada. Em seu caderninho, faz anotações quando frases e observações lhe ocorrem - não importa onde esteja.
A atriz Jeong-hie era uma das favoritas no Festival de Cannes em maio passado - mas acabou perdendo para Juliette Binoche, em "Cópia Fiel", de Abbas Kiarostami, ainda inédito no país. "Poesia" saiu da competição com o prêmio de melhor roteiro.
O diretor e roteirista Chang-dong Lee estabelece a protagonista de "Poesia" por meio das suas ações simples do cotidiano. Trabalhar - limpando o apartamento e cuidando do paciente -, fazendo comida para o neto ("o que faz a vovó mais feliz no mundo é dar de comer para Wook") e ir ao médico. Alguns elementos, no entanto, perturbam a paz da vida de Mija.
Ao sair de um hospital, a senhora depara-se com uma mãe desesperada, que recebia o corpo da filha que se atirou no rio. A dor desta mãe é incomensurável e mais tarde irá reverberar na vida de Mija. Naquele dia, a protagonista saía de uma consulta médica, reclamando estar com a memória afetada, não se lembrar de palavras simples. Mais tarde, uma médica lhe explicará: primeiro esquecerá os substantivos, depois, os verbos. Mija a olha, mais intrigada do que inconformada.
O diretor e roteirista, Chang-dong, e a atriz Jeong-hie dão vida a Mija de forma repleta de nuances e sutilezas - uma personagem que já nasceu destinada a ser grande. Sempre bem-arrumada, geralmente com um chapéu branco e uma echarpe, ela cruza as ruas em seus trajetos cotidianos. Com uma atuação contida, a atriz transforma a jornada de sua personagem, uma mulher simples que passaria despercebida, em algo valioso.
Mija se reúne com os pais de outros garotos, que, ao lado de seu neto, abusavam da garota que se matou. Todos eles são, claramente, mais ricos do que a senhora, que cuida do neto, enquanto a filha trabalha em outra cidade. Eles propõem fazer um acordo com a mãe da vítima, indenizando-a para que a história não se torne pública e atrapalhe o futuro dos rapazes. Mija, no entanto, não tem a quantia que eles pedem.
A arte - a poesia, nesse filme, em especial - é não apenas uma válvula de escape do cotidiano, mas, também, a ferramenta para observação e compreensão dos fatos da vida de Mija. Quando, finalmente, ela dá ordem ao poema sobre o qual trabalha o filme todo, Chang-dong traz à tona o poder catártico e libertário que a poesia tem na vida da personagem. Ao final, "Poesia", tal qual aquilo que prega, é um filme capaz de transformar a sensibilidade das pessoas, e, consequentemente, do mundo.

Por Alysson Oliveira, do Cineweb - (Reuters)

24 de fevereiro de 2011

Enquanto

Vladimir Volegov
Sou inconstante como o vento
Sou inconstante como a vaga
Por isso fica
Enquanto estou desvelada
Enquanto eu não for
Vento ou vaga.

Olga Savary
“Sofro de mimfobia,
Tenho medo de mim mesmo
mas me enfrento todo dia”.

Millôr Fernandes (1923-2012)

23 de fevereiro de 2011

Frederick Morgan
Sol na varanda –
sombras ao entardecer
brincam de ciranda.
Velho pássaro, este mundo
dorme como um menino
e se renova cada manhã.

Thiago de Mello

“O maior bandido que existe é o Estado”. (José Arbex)
Escrivã foi colocada nua, revistada à força e ainda filmada. A cena foi escatológica.
Vê-se nessa cena de selvageria um frenezi proporcionado pelo trabalho policial e eu me pergunto: Há muitos policiais (homens) corruptos, no entanto nunca se viu fazer uma revista como fizeram com a escrivã. Por quê?
O primeiro inquérito policial foi arquivado a pedido do procurador Lee Robert Kahn da Silveira. Além de não enxergar abuso nas imagens que chocaram o País, ele ainda elogiou a atuação dos delegados “Não vislumbro crime de abuso de autoridade na conduta do Delegado de Polícia Eduardo Henrique de Carvalho Filho e/ou membros de sua equipe (…) posto que, a meu ver, não agiram movidos por interesse pessoal ou por ódio, mas por zelo à administração pública. (…) Agiram portanto, estritamente no exercício de suas funções policiais”. Imaginem se eles “tivessem ódio”???? Esse promotor que recebe o seu salário (bem alto) com o nosso dinheiro tem um jeito "Muammar Khadafi" de ser.
Agora diante da repercussão do fato chegou até a ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário que emitiu nota contra abuso de poder sofrido por escrivã paulista. Só então o governador Alckmin decidiu pedir afastamento dos delegados.

22 de fevereiro de 2011

Edmund Dulac
Eu era, à Tua porta, um mendigo insistente.
Jamais foste mesquinho em teus favores,
Tesouros transbordaram-me das mãos.

Cedo aprendi que há um verme de amargura

Corroendo as belas rosas da vitória.
Há os grilhões dos encargos, e o cilício
Das pequenas perfídias sorridentes.

Liberta-me do encargo excessivo.
Deixa meu rosto me assente à beira de Teu pórtico,
Ó Senhor das renúncias!

Helena Kolody (1912-2004)
Johanna Wright – Haunted Kettle
Sempre cheguei tarde
Ou cedo demais.
Não vi a felicidade acontecer.

Nunca floresceram
Em minha primavera
As rosas que sonhei colher.

Mas, sempre os passarinhos
Cantaram
E fizeram ninhos
Pelos beirais
Do meu viver.

Helena Kolody (1912-2004)

21 de fevereiro de 2011

E agora

Emma Thomson - Dancing
“E agora o que fazer com essa manhã
desabrochada a pássaros?”

Manoel de Barros
O passado repetido no presente. Famílias angolanas ocupam hoje, no Rio de Janeiro, espaços que foram ocupados por ex-escravos e seus descendentes, muitos dos quais, com antepassados angolanos.
Johann Moritz Rugendas (1802-1858)
“No começo do século passado, uma ampla área da cidade do Rio de Janeiro, entre o cais do porto e os bairros da Saúde, Cidade Nova e Praça Onze, era conhecida entre os cariocas como Pequena África. O ambiente repleto de candomblés, como o de João Alabá, de exímios capoeiristas e de baianas trajadas com panos-da-costa não deixava dúvidas sobre a origem de seus moradores – era uma gente que trazia no sangue a herança de um continente do qual só sabiam estar do outro lado do oceano. Seus antepassados eram de lugares distantes como Benin ou Moçambique, mas o maior número de africanos havia sido trazido em navios negreiros para o Brasil do Reino de Ndongo, onde hoje está a maior parte de Angola e do Congo. Após a abolição da escravatura, o Rio de Janeiro tornou-se um destino preferencial para milhares de ex-escravos que buscavam trabalho na capital”.
Fonte: Livro Didático Geografia 8ª série
Projeto Araribá
Editora Moderna.
Johann Moritz Rugendas - Habitação de Negros
Quando eu tiver bastante pão
para meus filhos
para minha amada
pros meus amigos
e pros meu vizinhos
quando eu tiver
livros para ler
então comprarei
uma gravata colorida
larga
bonita
e darei um laço perfeito
e ficarei mostrando
a minha gravata colorida
a todos os que gostam
de gente engravatada.

Solano Trindade (1908-1974)

* As moradias de hoje nas favelas são piores que as retratadas por Rugendas no século XIX.

20 de fevereiro de 2011

Porque há lugares,
meu Deus, que têm de ser mantidos.
E é preciso que tudo isto continue,
Quando já não for como agora,
Mas melhor.
É preciso que a vida do campo continue.
E a vinha e o trigo e a ceifa e a vindima.
(...)

Charles Péguy (1873-1914)

"- Minha senhora - disse -, não espere muita coerência nesta volta ao dia. Alguns dos meus oitenta mundos são velhos planetinhas aonde cheguei em tempos já distantes, um pouco como o pequeno príncipe de Saint- Exupéry, tão vilipendiado pelos durões da literatura e tão comovente para nós que continuamos fiéis a City Lights, a Jelly Roll Morton, a Oliver Twist."
Julio Cortázar (1914-1984) (pág 171)