31 de dezembro de 2010

Esperança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada “Esperança”
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

Mario Quintana (1906-1994)
Fernando Botero
Esse tempo que tempo
é esse
escorrendo pelo ralo
da pia
junto com os restos
do século
junto com cabelos
e silêncios
e magnólias mortas?


os homens tiram as almas
durante o dia
e guardam nos bolsos
e a noite
elas não cabem mais
no corpo
e ficam assim
inúteis
feito velas esburacadas
de barco
flutuando entre
tantos outros desejos
que já não cabem.

Roseana Murray

30 de dezembro de 2010

Li um dia, não sei onde,
Que em todos os namorados
Uns amam muito, e os outros
Contentam-se em ser amados.

Fico a cismar pensativa
Neste mistério encantado...
Digo pra mim: de nós dois
Quem ama e quem é amado?

Florbela Espanca (1894-1930)

29 de dezembro de 2010

Nunca

Luisa Villavicencio
Nunca ninguém sabe se estou louco para
rir ou para chorar.
Por isso o meu verso tem
Esse quase imperceptível tremor...
A vida é louca, o mundo é triste:
Vale a pena matar-se por isso?
Nem por ninguém!
Só se deve morrer de puro amor...

Mario Quintana (1906-1994)
“É verão, bom sinal,
Já é tempo de abrir o coração
e sonhar”!

Roupa Nova
“Ver o Céu de Verão
É poesia, ainda que não esteja num Livro -
Os Verdadeiros Poemas escapam-nos”.

Emily Dickinson (1830- 1886)

28 de dezembro de 2010

Soneto das definições

August Macke
Amar o próximo
É folgado
O difícil é se dar
Com o homem do lado.

Millôr Fernandes (1923-2012)

Banzo

Mestiço - Portinari
E por que deixou na areia do Congo
a aldeia de palmas;
e porque seus ídolos negros não fazem mais feitiços;
e porque o homem branco o enganou com missangas
e atulhou o porão do navio negreiro
com seu desespero covarde;
e porque não vê mais de ânfora ao ombro
a imagem do conga nas águas do Kuango,
ele fica na porta da senzala
de mão no queixo e cachimbo na boca,
varado de angústia,
olhando o horizonte,
calado, dormente,
pensando,
sofrendo,
chorando.
morrendo.

Menotti del Picchia (1892-1988)

27 de dezembro de 2010

Tenho ouvido e lido muitas criticas ao Programa “Bolsa Família”. Devido à nossa colonização católica dizem que “vicia”, que é esmola, enfim... não gostam, não propõe nada melhor e nem ao menos verificam, como de fato, funciona o Programa.
O Bolsa Família é um programa de transferência direta de renda com condicionalidades, que beneficia famílias em situação de pobreza e de extrema pobreza. O Programa integra a Fome Zero que tem como objetivo assegurar o direito humano à alimentação adequada, promovendo a segurança alimentar e nutricional e contribuindo para a conquista da cidadania pela população mais vulnerável à fome.
O Bolsa Família é um programa de transferência direta de renda que atende mais de 12 milhões de famílias em todo território nacional.
O Bolsa Família possui três eixos principais:
1. Transferência de renda
  • Combater a fome imediata.
2. Condicionalidades
  • Crianças menores de 07 anos – monitoramento do estado nutricional e cumprimento do calendário vacinal.
  • Gestantes – comparecimento das consultas pré-natal.
  • Crianças e Jovens tem que ter no mínimo 75% de frequência escolar.
3. Programas complementares.
  • Capacitação profissional programas de geração de trabalhos e renda,
  • Alfabetização de adultos,
  • Fornecimento de registro civil e demais documentos.
Extraído da entrevista da professora Marilena Chauí à revista “Caros Amigos” de dezembro, pág. 14.
“Eu tenho uma colega, socióloga, que viajou pelo Brasil inteiro fazendo a pesquisa em torno do Bolsa Família. O Bolsa Família produziu uma desestruturação da família, porque ele produziu a perda de lugar masculino e a presença forte da figura feminina. Isso mudou as relações de poder dentro do interior da família, isso mudou o lugar da mulher nas pequenas comunidades e pequenas sociedades. E isso produziu o seguinte efeito: as mulheres do Bolsa Família foram capazes de usar o recurso de tal maneira que sempre houve uma sobra … e elas se reuniram … formaram cooperativas … foram fazer artesanato, foram fazer corte e costura. Há mil e uma atividades que as mulheres estão fazendo no Brasil inteirinho e isso mudou a relação com os filhos, porque, para fazer isso, elas compreenderam com clareza o significado do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação. FUNDEB e a ida da criança para a escola. E o FUNDEB, através do PRONAF, criou o sistema nacional de merenda. A comunidade produz a merenda e a criança come. Essa despesa a mãe não tem. Essa é uma mudança absolutamente incalculável, incalculável, não tem volta. "É uma revolução".”
Vale a pena ler Caros Amigos.

25 de dezembro de 2010

Tradição de Natal: O Quebra-Nozes
Companhia Russa de Moscow
“O Quebra-Nozes” é o “Jingle Bells” do balé. Em toda época de Natal, os principais teatros do mundo exibem o espetáculo.
Há 118 anos, o sucesso se repete. Desde que estreou na Rússia, em 17 de dezembro de 1892, o balé O Quebra-Nozes continua encantando multidões ao redor do mundo. Atração de fim de ano em diversos países, neste mês estará em palcos da China, Nova Zelândia, Austrália e Inglaterra, entre muitos outros. Nos Estados Unidos e no Canadá, virou um ritual de Natal tão popular e presente quanto a canção Jingle Bells.
Mas, afinal, qual o motivo de tanta popularidade? O resgate da inocência ou do paraíso perdidos, que a obra parece provocar nas plateias, talvez seja uma das razões da longevidade do balé, baseado no conto Nussknacker und Mausekönig (Quebra-Nozes e o Rei dos Ratos), do escritor alemão E.T.A. Hoffmann, tido como um mestre da literatura fantástica. O texto ganhou encenação coreográfica graças à iniciativa do francês Marius Petipa, que dirigiu o Ballet de São Petersburgo, e do compositor russo Tchaikovsky.
A refinada união entre música e dança que marca O Quebra-Nozes não permite suspeitar que a criação do espetáculo tenha enfrentado sérios contratempos. Tchaikovsky escreveu a partitura em meio a crises depressivas motivadas pela perda de sua mecenas, madame Von Meck, que em 1891 resolveu apoiar outro compositor, o francês Debussy. Já Petipa acabou desistindo de realizar a coreografia - porque ficou doente, segundo alguns, ou por ter se desinteressado do tema, de acordo com outras fontes. O certo é que, ao entregar a tarefa a seu assistente, o russo Lev Ivanov, Petipa deixou de fazer sombra a um coreógrafo brilhante, que revelou profunda sensibilidade musical.
Embora simples, a história de Hoffmann favorece a magia. Entre os russos, o espetáculo é um patrimônio cultural, obrigatório tanto quanto as missas no dia de Natal. Na manhã de 25 de dezembro deste ano, o Ballet Kirov vai apresentá-lo no Teatro Maryinsky, de São Petersburgo.
Na América do Norte, O Quebra-Nozes chega a ser mais cultuado do que na Europa.
No Brasil, a Rede Globo exibiu o programa em 1978, o que contribuiu para tornar O Quebra-Nozes mais conhecido por aqui.
Ícone pop, o espetáculo rende até feiras de Natal. Na cidade canadense de Montréal, está-se realizando desde novembro o 1º Nutcracker Market, uma ação filantrópica que comercializa artigos de moda, decoração, beleza e cozinha, além de brinquedos, todos associados aos temas do balé. A grande novidade é o lançamento de um perfume. Seu nome? Clara.

24 de dezembro de 2010

Ouvi sinos de Natal tocando, de verdade,
E canções natalinas soando por toda a cidade,
E, doces e bravas,
Repetirem-se as palavras

“Paz na terra aos homens de boa vontade”.
Henry Wadsworth Longfe (1807-1882)

Natal

Festa na terra e no céu...
Só eu só... tão triste assim...
- Quem dera Papai Noel
trouxesse Você pra mim!

Quem dera Papai Noel
descendo pelos espaços
me desse um pouco de céu
pondo Você em meus braços...

Neste dia belo e doce
de festa, - sentimental,
- quem dera que Você fosse
meu presente de Natal!

J. G. de Araujo Jorge (1914-1987)

23 de dezembro de 2010

O que fizeram do Natal

Lucas Cranach the Elder
Natal
O sino toca fino.
Não tem neves, não tem gelos.
Natal.
Já nasceu o deus menino.
As beatas foram ver,
Encontraram o coitadinho
(Natal)
mais o boi mais o burrinho
e lá em cima
a estrelinha alumiando.
Natal.

As beatas ajoelharam
e adoraram o deus nuzinho
mas as filhas das beatas
e os namorados das filhas
foram dançar black-bottom
nos clubes sem presépio.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
Silêncio é crístico.
É o emblema da luz.
A conexão com a fonte.
Tome-o por filho
e ouça a sua respiração.
Ouvirás o inspirar da prece
e o expirar da paz.

Maria Lúcia Siqueira

22 de dezembro de 2010

Vinde, ó anjos, com as vossas espadas,
as vossas espadas e as vossas balanças,
para pesar estas vidas pesadas
de tristes sonhos, mas não de esperanças.

Vinde com as vossas estrelas e flores
enfrentar animais flamejantes.
Ai! que campinas só de desamores,
que universo de só desamantes!

Cecília Meireles
(1901-1964)
Se o amor ainda medrasse,
aqui ficava contigo,
pois gosto da tua face,

desse teu riso de fonte,
e do teu olhar antigo
de estrela sem horizonte.

Como, porém, já não medra,
cada um com a sorte sua!

(Não nascem lírios de lua
pelos corações de pedra...)

Cecília Meireles (1901-1964)

21 de dezembro de 2010

“Sem saudade de você,
sem saudade de mim,
o passado passou enfim.”

Alice Ruiz
Saber é pouco
“Saber é pouco
como é que a água do mar
entra dentro do coco” ?

Paulo Leminski (1944-1989)
Pela tua beleza que se curva
Ante maior Beleza que te vence,
Pelo nosso valor adivinho
Entre tuas mentiras a Verdade,
Não te choramos! Dar-nos-á o mundo,
Depois do velho reino, outro reinado.
Pã é morto!
O mundo deixa além as fantasias
Que, em sua juventude, o embalaram
E as fábulas mais belas e mais vãs
Tolas parecem em face da verdade.
De Febo o carro terminou o curso!
Olhai de frente o sol, olhai, poetas!
E Pã, e Pã é morto!

Elizabeth Barrett Browning (1806-1861)

20 de dezembro de 2010

Este tempo,
esta taça,
esta terra são teus.
Conquista-os e escuta
como nasce a aurora.

Pablo Neruda (1904-1973)
...outrora, nesse dia
Longínquo em que a razão tornava à fantasia
A asa multicor e, entre areias de ouro,
O rio carregava um líquido tesouro!
Quando a mulher, sem par, beleza peregrina
Que de sofrer e amar e lutar teve a sina,
A terra percorreu, exausta, noite e dia,
Em procura do Amor, que só no céu vivia!

T.K. Harvey

19 de dezembro de 2010

Lowell Herrero - picnik
Tem muita gente que se distrai e é feliz pra sempre, sem conhecer as delícias de ser feliz por uns meses, depois infeliz por uns dias... Viver não é seguro. Viver não é fácil. E não pode ser monótono. Mesmo fazendo escolhas aparentemente definitivas, ainda assim podemos excursionar por dentro de nós mesmos e descobrir lugares desabitados em que nunca colocamos os pés, nem mesmo em imaginação. E, estando lá, rever nossas escolhas e recalcular a duração de "pra sempre". Muitas vezes o "pra sempre" não dura tanto quanto duram nossa teimosia e receio de mudar.
Martha Medeiros
Desde que te conheci
dei para sonhar
com ilhas desertas e
estradas que sigam
o esplendor do sol.
Quero proteger este
amor com o silêncio
da lua e das estrelas,
adormecer seu perfume
no aroma das flores e
ouvir sua voz murmurar
cantigas de passarinhos.
Nosso amor vai durar
enquanto houver versos
e o mar chegar à praia
em sorrisos de espuma.

Alvaro Bastos (1956-2011)

18 de dezembro de 2010

Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.

Leis feitas, estátuas vistas, odes findas
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, por que não elas?
Somos contos contando contos, nada.

Fernando Pessoa (1888-1935)
Rosas que já vos fostes, desfolhadas
por mãos, também que já se foram; rosas
suaves e tristes! Rosas que as amadas,
mortas também, beijaram suspirosas...

Umas rubras e vás, outras fanadas,
mas cheias do calor das amorosas...
Sois aromas de alfombras silenciosas,
onde dormiram tranças destrançadas.

Umas brancas, da cor das pobres freiras,
outras cheias de viço e de frescura.
Rosas primeiras, rosas derradeiras!..

Ai! Quem melhor que vós, se a dor perdura,
para coroar-me, rosas passageiras,
o sonho que se esvai na desventura?

Alphonsus de Guimaraens (1870-1921)

17 de dezembro de 2010

A um Jesuíta Moderno

Marianne von Werefkin
Paleontólogo e padre, ad abundantiam
homem do mundo, se queres fazer-nos crer
que um indício de nós se destaca da crosta
deste mundo, menos crosta que mingau,
para alojar-se depois na noosfera
que envolve as outras esferas ou com elas convive
imutável no tempo,
te digo que me arrepio todo
quando te ouço. O tempo nada termina
porque ele próprio nunca teve início.
Deus mesmo é recém-nascido. A nós cabe fazê-lo
viver ou viver sem ele; a nós matar
o tempo porque nele não é possível
a existência.

Eugenio Montale (1896-1981)
Tradução: Geraldo Holanda Cavalcanti

O jesuíta em questão é Teilhard de Chardin (1881-1955)