30 de novembro de 2010

A Poesia

Não pretendo que a poesia seja
um antídoto para a tecnocracia atual.
Mas sim um alívio.
Como quem se livra de vez em quando
de um sapato apertado
e passeia descalço sobre a relva,
ficando assim mais próximo da natureza,
mas por dentro da vida.

Porque as máquinas um dia viram sucata.
A poesia, nunca.

Mario Quintana (1906-1994)

Onde e quando os nossos ancestrais começaram a falar?
Sabe-se lá… O certo é que o primeiro Adão e a primeira Eva já nasceram equipados de um aparelho fonador que lhes permitiria articular palavras. Nasceram dotados também de inteligência e criatividade. Nasceram, enfim, com aquilo que se convencionou chamar de “competência” para o “desempenho” da comunicação através da “linguagem”. Vai daí que um dia, em algum lugar, um deles emitiu o primeiro sinal significante, muito provavelmente uma interjeição; um “ai” talvez, indicativo de prazer ou de dor. Depois do “ai”, deve ter murmurado o “ei”, o “ih”, o “oh”, o “ui”… E Evas e Adões passaram a dar nome às coisas: fruto, peixe, pombo, água (os substantivos) – na língua deles, claro; e a dar nome às qualidades: grande, pequeno, doce, amargo (os adjetivos); e a dar nome às ações: andar, subir, pescar, comer (os verbos). Depois inventaram os conectivos, e formaram frases, e mais frases, e outras mais. E nunca mais pararam de tagarelar.
Sabe-se, porém, que as comunidades primitivas eram nômades: esgotadas as fontes de alimento numa região, mudavam-se dali e formavam novas aldeias. Sabe-se também que o “crescei e multiplicai-vos” foi sempre levado muito a sério; e não é difícil deduzir que as famílias, multiplicando-se, acabavam se dispersando: um grupo ia para o norte, outro para o sul, e assim por diante. Não havendo meios de transporte e comunicação, as novas comunidades perdiam o contato umas com as outras.
Com isso, a suposta língua original (se é que houve uma só) foi aos poucos se transformando. Cada novo agrupamento criou novas palavras, alterou a pronúncia de outras, e de mudança em mudança o mundo chegou a ter, em determinado momento da história, algo em torno de 10 mil línguas. Hoje, segundo dados recentes, 2.796 línguas são ainda faladas na Terra (além de não se sabe quantos dialetos). As línguas dividem-se em 12 grandes famílias. O português pertence à família indo-europeia, juntamente com o francês, o espanhol, o italiano, o romeno, o alemão, o escandinavo, o inglês, o russo, e vários outros idiomas, entre os quais também o sânscrito, o grego e o latim.
Antonio Augusto de Assis, mais conhecido como A. A. de Assis
"A Língua da Gente"
Maringá: Edição do Autor, 2010.

29 de novembro de 2010

Marcus Stone
Queria mais um amor. Escrevi cartas,
remeti pelo correio a copa de uma árvore,
pardais comendo no pé um mamão maduro
- coisas que não dou a qualquer pessoa -
e mais que tudo, taquicardias,
um jeito de pensar com a boca fechada,
os olhos tramando um gosto.
Em vão.
Meu bem não leu, não escreveu,
não disse essa boca é minha.
Outro dia perguntei a meu coração:
o que há durão, mal de chagas te comeu ?
Não, ele disse: é desprezo de amor.

[Adélia Prado]
“Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre
as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios ”.

(Manoel de Barros)
Há Três classes de pessoas que considero infelizes:
  • Aquelas que não sabem e não procuram saber,
  • Aquelas que procuram saber, mas não ensinam o que sabem, e
  • Aquelas que ensinam o que sabem, mas não fazem o que ensinam.
Beda (673-735), historiador inglês

28 de novembro de 2010

Catrin Welz-Stein
A gente se negava corromper-se aos bons costumes.
A gente examinava a racha dura das lagartixas
Só para brincar de ciência.
A gente grosava a peça dos morcegos com o
lado cego das facas
Só para vê-los chiar com mais entusiasmo.
Fazíamos meninagem com as priminhas à
sombra das bananeiras, debaixo dos laranjais
Só de homenagem ao nosso Casemiro de Abreu.
Não era mister de ser versado em Kant pra se
saber que os passarinhos da mesma plumagem
voam juntos.
Nem era preciso ser versado em Darwin pra se
saber que os carrapichos não pregam no vento.
Que, apois:
Sábio não é o homem que inventou a primeira bomba atômica.
Sábio é o menino que inventou a primeira
lagartixa.

Manoel de Barros
Porto é lugar da memória
atrelemos o desejo às ondas -

somos barcos, frágeis barcos
sobre as horas.

Fernando Campanella
Quanta notícia horrível. Tudo acontecendo por esses dias...
  1. Jornalista é sequestrada e morta por Rodrigo Domingues Medina, que pertence ao Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate). Ele a matou e assim mesmo pediu resgate.
    Provavelmente a estuprou também, porque homem adora fazer isso.
    O corpo foi encontrado algemado, com as mãos para trás.
  2. Recém-nascido é encontrado dentro de bolsa na região de Higienópolis.
    Alguém que passava pela calçada ouviu o choro de uma criança, avisou a polícia e o bebê foi levado rapidamente para o Instituto da Criança do Hospital das Clínicas, onde seria salvo pelos médicos, que o batizaram de Gabriel.
    Segundo a equipe médica, no momento em que foi encontrado, ele tinha no máximo 4 horas de nascimento.
  3. Adolescentes batem (tentam matar) gratuitamente pessoas na Avenida Paulista.
  4. Os pais da adolescente de 15 anos Larissa Rafaela de Lima a espancaram até a morte por namorar escondido.
    Hum... ai tem ciúme de Édipo.

  5. Guerra no Rio.

27 de novembro de 2010

“Tive um chão (mas já faz tempo)
todo feito de certezas
tão duras como lajedos.
Agora (o tempo é que o fez)
tenho um caminho de barro
umedecido de dúvidas.
Mas nele (devagar vou)
me cresce funda a certeza
de que vale a pena o amor”.

Thiago de Mello
“As ensinanças da dúvida”.
Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.

Ferreira Gullar

26 de novembro de 2010

Lowell Herrero
Perdeu-se em nada,
caminhou sozinho,
a perseguir um grande sonho louco.

(E a felicidade
era aquele pouco
que desprezou ao longo do caminho).

Helena Kolody (1912-2004)
“Se Pica-Flor me chamais,
- Flor aceito ser,
Mas resta saber agora,
Se no nome que me dais
Meteis a flor, que guardais!
Se me dais este favor,
Sendo eu só o Pica,
E o mais vosso, claro fica,
que fico então Pica-Flor”.
“Se Pica-Flor me chamais,
-Flor aceito ser”.

Gregório de Matos (1636-1695)
Gregório de Matos morreu em 26 de novembro de 1695. Foi o primeiro poeta a cantar o elemento brasileiro, o tipo local, produto do meio geográfico e social.
Betty Carr
Flutua o horizonte
sobre o tempo
e as ilusões partidas.
O olhar apascenta nuvens,
montanhas e distâncias
e uma corda roída
tenta amarrar lembranças.

Roseana Murray

25 de novembro de 2010

“Quem agora conhece a antiga linguagem da Lua?
Quem agora fala com a Deusa ?...
Só as pedras agora se recordam do que
a Lua nos disse há muito tempo,
e o que nós aprendemos com as arvores,
e as vozes das ervas e dos cheiros das flores... ”.

Tony Kelly, "Pagan Musings".
Elissa Gore - Autumn
Na mata o silêncio
cobre as folhas:
todas as palavras
que não foram ditas,
as que ficaram presas
no fundo da garganta
aqui habitam,
metade terra-metade ar.
As que mudariam
o rumo de uma vida,
as que se perderam,
as que se desmancharam,
as que nem nasceram.

Roseana Murray
Com Dilma, EUA continuarão sem "policial"
na América do Sul, diz Tariq Ali
A América do Sul é hoje a região mais independente do poder americano e a vitória do PT na eleição presidencial brasileira indica que os EUA continuarão sem contar com um "policial" que possa agir por eles nesta parte do mundo, diz o escritor paquistanês Tariq Ali.
Um dos editores da revista britânica "New Left Review" e colaborador da "London Review of Books", Ali é conhecido pela militância contra as intervenções externas americanas e veio ao Rio para participar de conferência com sindicalistas e ativistas de favelas sobre imprensa alternativa.
Seu penúltimo livro, "O Duelo", sobre a relação EUA-Paquistão, acaba de ser publicado no Brasil pela editora Record. No exterior, ele recém-lançou "Obama Syndrome", em que destaca as continuidades entre o ocupante da Casa Branca e seu antecessor, George W. Bush. "Só mudou a música ambiente."

24 de novembro de 2010

Kenarik Boujikian Felippe, nasceu numa aldeia de armênios que fica na Síria e veio para o Brasil, com 3 anos, hoje é juíza de direito em São Paulo, cofundadora e secretária do Conselho Executivo da Associação Juízes para a Democracia.
Pois bem, esta juíza condenou o ex-médico Roger Abdelmassih a 278 anos de prisão.
Resta saber: O Ministro Gilmar Mendes
vai deixar ele preso ???
Os Anjos
criaturas de encantamento
habitam meus pensamentos.
O que podem os anjos,
de mãos azuis,
fazer por nós,
simples humanos?

O que podem,
com seu hálito de estrelas,
o céu nos olhos
e uma enorme compreensão
para com nossos corações fatigados?

Que um anjo durma
sempre ao meu lado
e faça com seu silêncio
o tecido dos meus sonhos.

Roseana Murray

Água

Se enovela pelas pernas
em fio de vigor espiralado
sobre o ventre e o alto das coxas.
O orgasmo é quem mede forças
sem ter ímpeto contra a água.

Olga Savary
Terra
Em golfadas envolve-me toda,
apagando as marcas individuais,

devora-me até que eu
não respire mais.

Olga Savary

23 de novembro de 2010

Johnny: ‘A vida do espião que delatou a rebelião comunista de 1935’
Autores: R. S. Rose (Americano), Gordon D. Scott (canadense).
Editora: Record
Páginas:602 pág.

O livro revela a face brutal do mais lendário governante brasileiro (Getúlio Vargas), e relata episódios aterradores que ocorreram sob seu governo. O pesquisador descreve primeiro o ambiente familiar violento em que Getúlio nasceu, entre histórias façanhudas e pistoleiros a soldo do pai, fazendeiro gaúcho. Vemos a seguir o primeiro crime de morte em que ele se envolveu, ainda menino, ao participar de uma emboscada contra um desafeto de seu irmão mais velho.
Depois de apresentar uma síntese da ascensão política de Getúlio, pontuada por outros crimes e atos de violência, Rose penetra nas entranhas do aparelho repressivo do governo Vargas, caracterizado por um grau de brutalidade nunca visto até então no país. Sua narrativa da repressão aos revoltosos paulistas de 1932 e aos fomentadores da Intentona Comunista exibe sem eufemismos a rotina da tortura como política de Estado. O livro traz ainda lances pouco conhecidos das relações entre agentes brasileiros e espiões e torturadores americanos, ingleses e alemães da Gestapo, sugerindo que, ao menos em matéria de barbárie, o Brasil de Vargas se equiparou às práticas adotadas ou estimuladas pelas nações mais avançadas da Terra.
O livro também sustenta que o alemão Johann Heinrich Amadeus de Graaf, conhecido pelo codinome de Johnny foi enviado ao Brasil pelo serviço secreto soviético para ajudar no levante comunista de 1935 (Intentona Comunista), era, na verdade, espião e agente duplo a serviço da Inteligência Britânica, em 1933 e delatou Prestes e seus companheiros.

Fuzilado... Aliás, o falso agente, que teve 69 identidades frias, foi executado em Moscou, em 1938.
Maxfield Parrish - Contentment
“Há barcos para muitos portos,
mas nenhum para a vida não doer,
nem há desembarque onde se esqueça”.

Fernando Pessoa (1888-1935)
Bill Brauer
Dá-me tua mão, e dançaremos;
dá-me tua mão, e me amarás.
Uma única flor seremos
uma só flor, e nada mais...

A mesma estrofe cantaremos,
ao mesmo passo bailarás.
Como uma espiga ondularemos
como uma espiga, e nada mais...

Chamas-te Rosa, eu Esperança;
mas o teu nome olvidarás,
porque seremos uma dança
sobre a colina, e, nada mais...

Gabriela Mistral (1889-1957)
(Tradução de Tasso da Silveira)

22 de novembro de 2010


Revolta da Chibata - 100 anos
No dia 22 de novembro de 1910 estourava uma rebelião no Rio de Janeiro: eram os marinheiros indignados com os castigos físicos que lhes eram aplicados em função de desobediências aos seus superiores que lhes subordinavam à tarefas desumanas. Quase todos eram negros e o procedimento evidenciava a persistência de mecanismos da escravidão abolida apenas 22 anos antes do acontecimento para preservarem a hierarquia militar.
Os revoltosos foram presos e torturados - alguns fuzilados - na Ilha das Cobras (RJ). João Candido ficou trancafiado numa solitária na qual o chão era coberto de cal e nem mesmo água lhe era servida regularmente, tendo muitas vezes que beber a própria urina para matar a sede. Além dele, apenas um outro marinheiro sobreviveu.
No dia 9 de março de 2008, os documentos sobre este personagem e a Revolta da Chibata tornaram-se públicos. Isto é muito bom, pois a versão oficial, a da Marinha, foi a que permaneceu nos registros até ao término da ditadura Militar em 1964. Hoje sabemos a verdadeira história da “Revolta da Chibata”.
A liberação é um fato novo. Durante todo este tempo, os pesquisadores e os filhos de João Cândido esbarraram em negativas da Marinha, que jamais aceitou a elevação dos revoltosos à condição de heróis. O próprio João Cândido nunca conseguiu ter acesso à documentação.
No dia 06 de dezembro de 1969 morre aos 89 anos o Almirante Negro - João Cândido líder da Revolta da Chibata.
Em 2002, a então senadora pelo (PT-AC), Marina Silva enviou proposta ao presidente Lula para “anistiar” a família de João Candido (indenização, porque no Brasil, a anistia é indenização econômica).
Em 23 julho de 2008 o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva sanciona anistia póstuma a João Cândido Felisberto, líder da Revolta da Chibata, isto após 39 anos de sua morte.
Alfred Gockel
“O corpo: superfície de inscrição dos acontecimentos (enquanto que a linguagem os marca e as ideias os dissolvem).
Uma pessoa está atravessada por relações de poder. É o corpo o lugar de todas as interdições. Todas as regras sociais tendem a construir um corpo pelo aspecto de múltiplas determinações. O poder não somente reprime, mas também produz efeitos de verdade e saber, constituindo verdades, práticas e subjetividades”.
Michel Foucault (1926-1984)

Patrimônios da Humanidade

Rafael de Sânzio - São Miguel
No século XVI e princípios do século XVII, os padres jesuítas espanhóis fundaram aldeias, denominadas de missões, orientadas pela religião católica, onde os índios viviam de acordo com os princípios da cultura ocidental na região oeste do território, hoje pertencente ao Brasil, Uruguai, Paraguai e à Argentina. Foram criados sete povoados, que ficaram conhecidos como os “sete povos das missões”.
A etnia desses povos era variada, nela predominando os traços dos índios guaranis. Os “Sete Povos” eram formados pelas aldeias de:
  1. São Francisco Borja (1682),
  2. São Nicolau (1687),
  3. São Luiz Gonzaga (1687),
  4. São Miguel Arcanjo (1687),
  5. São Lourenço Mártir (1690),
  6. São João Batista (l697) e
  7. Santo Ângelo Custódio (1707), nas terras do Rio Grande do Sul.
Ruínas da missão Guarani de São Miguel
São Miguel, uma das mais antigas missões dos Sete Povos, foi o primeiro lugar a ser tombado pelo IPHAN, como símbolo de agregação territorial.
Em 1993 Vinte famílias sem-terra invadem área em São Miguel das Missões.