30 de setembro de 2010

John W. Waterhouse – Narcissus
Curvar-se somente:
☺ à Beleza,
☺ à Justiça
☺ e ao Bem.
O plantador de girassóis
Lá vai ele semeando azuis.
Passa por terras ácidas,
por marés graves,
que converte em focos de luz.
Deve ter uma orquestra no bolso
e sementes de sol no coração.
A fila cresce:
o que admira,
a que suspira,
a que padece.
O semeador avança,
a orquestra toca,
o mundo, sem querer, entra na dança.
A festa aumenta.
Se a noite ciumenta se apresenta
e em protesto espalha seu negrume,
o semeador derrete a escuridão:
seduz a estrela e acende um vagalume.

Flora Figueiredo

29 de setembro de 2010

Lembrança é da memória.
Saudade é da alma.

A vida é combate

Rarindra Prakarsa
Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.

Gonçalves Dias (1823-1864)

O sentido das coisas

Paul Klee
O teu sentido depende do sentido dos outros,
quer tu queiras quer não.
O teu gosto depende do gosto dos outros,
quer tu queiras ou quer não.
O teu ato depende é movimento de um jogo.
Não de uma dança.
É eu mudar o jogo ou a dança
e mudo o teu ato num outro.
Construíste as tuas muralhas
por causa de um jogo,
tu próprio as destruíras
por causa de outro.
É que vives, não das coisas,
mas do sentido das coisas.

Antoine de Saint-Exupèry (1900-1944)

28 de setembro de 2010

ETERNO, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo,
mas com tanta intensidade, que se petrifica,
e nenhuma força jamais o resgata.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

27 de setembro de 2010

A Ignorância da Mídia brasileira
Marte Vencendo a Ignorância - Anton Claeissens
A grande mídia e a oposição não compreenderam que o país entrou em um novo período histórico e, desta forma, correm o risco de ficarem falando sozinhas por um bom tempo. As pessoas não estão votando em personalidades, como supunham os próceres da campanha Serra. Estão votando no futuro - no seu futuro e no futuro do país. A disputa eleitoral de 2010 não ficará marcada pelo “confronto de biografias”, como imaginavam os tucanos e seus aliados no início da campanha. Derrotados em seus próprios conceitos; perplexos diante de uma ampla maioria que lhes vira as costas, só lhes resta o golpe, que não tem força pra dar.
Ao afirmar recentemente que “nós” somos a opinião pública, o Presidente Lula não está cedendo a nenhuma tentação autoritária, como desejam alguns mal intencionados articulistas da grande mídia. O que está em jogo é o fim da tutela dos “formadores de opinião” sobre a formação da opinião nacional. Este é o motivo do desespero crescente da mídia monopolista do centro-sul do país.
Aliás, a midia não forma mais opinião. O povo aprendeu a pensar sozinho.

Taj Mahal

Taj Mahal, uma das Novas Sete Maravilhas do Mundo Moderno, é um mausoléu situado em Agra, uma cidade da Índia, e é o mais conhecido dos monumentos do país. Em 1993, foi eleito como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO, e é hoje um importante destino turístico.
Contendo inscrições retiradas do Corão, ele é incrustado com pedras semipreciosas, tais como o lápis-lazúli, entre outras, e sua cúpula é costurada com fios de ouro. O edifício é flanqueado por duas mesquitas e cercado por quatro minaretes.
O suntuoso monumento é a maior prova de amor do mundo. O Príncipe Shah Jahan, então com quatorze anos, conheceu Arjumand Banu Begam, uma princesa persa muçulmana, em um bazar no interior das muralhas do palácio real, em Agra. Foi amor à primeira vista. Arjumand era tão bela que, segundo os poetas, "a Lua escondeu seu rosto de vergonha diante dela". Encantado, Jahan, no mesmo momento, comprou um diamante de 10.000 rupias, e anunciou ao pai da princesa o seu desejo de se casar com ela. O casamento ocorreu cinco anos mais tarde e Arjumand passou a ser conhecida como Mumtaz Mahal (que significa "a preferida do palácio").
Apesar de ser o segundo casamento de Jahan, ele foi realizado através da paixão e do amor verdadeiro; amor este que os fez praticamente inseparáveis.
Mumtaz Mahal acompanhava o marido em todas as suas viagens e expedições militares, tornando-se sua principal conselheira e apoiadora. Jahan cercava de mimos sua companheira e confidente. Ela, por sua vez, além dos sábios conselhos e da devoção, lhe deu muitos filhos para assegurar a continuidade da dinastia Mughal.
Em 1631, a rainha deu à luz seu décimo quarto filho, mas logo depois sofreu complicações do parto, vindo a falecer. Segundo a lenda, em seu último suspiro, ela obteve a promessa do marido de construir para ela o mais lindo mausoleu nunca antes visto.
Após a morte de Mumtaz, o rei se recolheu em sua dor. A tristeza era visível e o choro, constante. Seus cabelos e sua barba tornaram-se brancos como a neve. Não mostrava mais entusiasmo pela administração do reino. O que o movia agora era a tarefa de erguer o monumento mais bonito do mundo em memória de sua amada.
Seis meses depois, ele lançou as bases para o memorial, através do rio Jamuna, perto de seu palácio em Agra. Ali, sobre o túmulo de sua adorada rainha, seria construído o famoso Taj Mahal, a jóia da India.
Shah Jahan mergulhou então no mundo da arte e da arquitetura, obcecado pela perfeição. A qualidade na construção e a riqueza dos detalhes são singulares. Mais de mil elefantes transportaram materiais de construção dos confins do continente. O jaspe foi importado do Punjab, e o cristal e o jade, da China. Do Tibete trouxeram-se turquesas e do Afeganistão o lápis-lazúli, enquanto as safiras provinham de Ceilão e os quartzos da Península arábica. No total utilizaram-se 28 tipos de gemas e pedras semipreciosas para fazer as incrustações no mármore.
Os melhores contrutores e artistas da região, inclusive alguns vindos da Europa, foram convidados, e cerca de 20 mil homens foram trazidos de várias cidades do Oriente para trabalhar no monumento.
Porém, em 1657, pouco tempo antes do término da obra, Shah Jahan adoeceu gravemente e seu filho Aurangzeb, aproveitando-se da fragilidade do pai, atacou o trono, declarando-se imperador. Shah Jahan foi então encarcerado pelo próprio filho em uma torre do Forte Vermelho de Agra.
Shah Jahan permaneceu em cativeiro até sua morte, em 1666.
Reza a lenda que ele passou o resto dos seus dias observando pela janela o Taj Mahal.
Depois da sua morte, ele foi sepultado no mausoléu, lado a lado da esposa.

26 de setembro de 2010

Vivo para florescer outros jardins

“Vivo para florescer outros jardins e sem perceber
o meu se abarrota de rosas e manacás
Vivo cada dia como se fosse cada dia.
Nem o último nem o primeiro - o único”.

Pablo Neruda (1904-1973)
O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a
imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta que o
rio faz por trás de sua casa se chama enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que
fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.

(Manoel de Barros, O livro das ignorãças)
O que é a inspiração?...
“Eu não sei o que é a inspiração. Mas também a verdade é que às vezes nós usamos conceitos que nunca paramos a examinar. Vamos lá a ver: imaginemos que eu estou a pensar determinado tema e vou andando, no desenvolvimento do raciocínio sobre esse tema, até chegar a uma certa conclusão. Isto pode ser descrito, posso descrever os diversos passos desse trajeto, mas também pode acontecer que a razão, em certos momentos, avance por saltos; ela pode, sem deixar de ser razão, avançar tão rapidamente que eu não me aperceba disso, ou só me aperceba quando ela tiver chegado ao ponto a que, em circunstâncias diferentes, só chegaria depois de ter passado por todas essas fases.
Talvez, no fundo, isso seja inspiração, porque há algo que aparece subitamente; talvez isso possa chamar-se também intuição, qualquer coisa que não passa pelos pontos de apoio, que saltou de uma margem do rio para a outra, sem passar pelas pedrinhas que estão no meio e que ligam uma à outra. Que uma coisa a que nós chamamos razão funcione desta maneira ou daquela, que funcione com mais velocidade ou que funcione de forma mais lenta e que eu posso acompanhar o próprio processo, não deixa de ser um processo mental a que chamamos razão”.
José Saramago (1922-2010),
in "Diálogos".

25 de setembro de 2010

Esse mar tanto sulcado
por meus avós navegantes,
fugindo das praias de antes
ficou dentro em mim guardado.
Pois quanto mais alto e fundo
e perdido é o sonho, vejo
que os barcos todos do mundo
navegam no meu desejo.

Tasso da Silveira (1895-1968)

22 de setembro de 2010

Primeiro sorriso de primavera

Sophie Gengembre Anderson
Enquanto os homens, com suas obras perversas,
Ofegantes correm
Malgrado os aguaceiros,
Março, que ri, prepara em seguida a primavera.

Para as alvas e pequenas margaridas,
Quando tudo adormecido está,
Dissimuladamente ele, mais uma vez, repassa a gola
E amarelos ranúnculos cinzela.

No pomar e na vinha
Lá se vai, furtivo barbeiro,
Com uma borla de cisne
A amendoeira, na geada, polvilhar.
Descansa, no leito, a natureza.
Sobre ele desce um jardim deserto
Enlaçando os botões de rosa
Em seu espartilho de veludo verde.

Tudo são solfejos
Que aos melros, à meia noite, silva
Nos prados campainhas brancas semeia
Nos bosques, violetas.

Sobre o agrião da fonte
Onde bebe o cervo, a orelha em pé,
Com a mão oculta, do lírio-do-vale
Os guizos d’ouro debulha.

Sob a erva, pra que a colha,
O morango de tom vermelho põe
E te trança um chapéu de folhas
A proteger-te do sol.

Em seguida, concluída a tarefa,
Vendo o fim de seu reinado.
Ao limiar de Abril, voltando a cabeça
Lhe diz: “Podes vir, ó primavera”!

Théophile Gautier (1811-1872)
Primavera 2010
Primavera - Boticelli
(22 de Setembro a 21 de Dezembro).
Primavera - Carl Larsson
Alegrem-se: a primavera chegou!
O mundo vestindo-se de flores,
A vida enfeitando-se de cores,
A gente enchendo-se de amores...
A Primavera é a estação do ano que se segue ao Inverno e precede o Verão. É tipicamente associada ao reflorescimento da flora e da fauna terrestres.

21 de setembro de 2010

Árvore, cujo pomo, belo e brando,
natureza de leite e sangue pinta,
onde a pureza, de vergonha tinta,
está virgíneas faces imitando;

nunca da ira e do vento, que arrancando
os troncos vão, o teu injúria sinta;
nem por malícia de ar te seja extinta
a cor, que está teu fruito debuxando.

Que, pois me emprestas doce e idôneo abrigo
a meu contentamento, e favoreces
com teu suave cheiro minha glória,

se não te celebrar como mereces,
cantando-te, sequer farei contigo
doce, nos casos tristes, a memória.

Luís Vaz de Camões (1524-1589)

20 de setembro de 2010

Dia da Árvore
Devemos respeitar a árvore,
não só pelo que é em si mesma,
mas por ser necessária à nossa própria vida.
Quando alguém destrói uma árvore,
está destruindo uma fonte de vida no planeta.

A Cortina

Caspar David Friedrich - Woman at a Window
Quando a rua em que moro tu subias,
Por detrás da cortina eu te esperava;
E passavas sorrindo, pois bem vias
Que a cortina de rendas ondulava…

Como foram felizes esses dias
Em que meu coração se alvoroçava,
Quando longe passavas, e sabias
Que eu, de longe, te via… e te adorava!

Deixaste de passar à minha porta.
Da cortina rasgaram-se os babados.
– O tempo, rendas e esperanças corta! –
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Foi trocada a cortina da janela!
A nova é toda feita de bordados
… Mas, eu gostava muito mais daquela…

Maria Thereza de Andrade Cunha

19 de setembro de 2010


"Há momentos efêmeros que
justificam toda uma vida".

Rubem Alves
“A alma é uma borboleta...
há um instante em que uma voz nos diz
que chegou o momento de uma grande metamorfose...”.

Rubem Alves
A tinta e a lápis
Escrevem-se todos
Os versos do mundo.

Que monstros existem
Nadando no poço
Negro e fecundo?

Que outros deslizam
Largando o carvão
De seus ossos?

Como o ser vivo
Que é um verso,
Um organismo

Com sangue e sopro,
Pode brotar
De germes mortos?

O papel nem sempre
É branco como
A primeira manhã.

É muitas vezes
O pardo e pobre
Papel de embrulho;

É de outras vezes
De carta aérea,
Leve de nuvem.

Mas é no papel,
No branco asséptico,
Que o verso rebenta.

Como um ser vivo
Pode brotar
De um chão mineral?

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

18 de setembro de 2010

A gente pode enfeitar a amargura.
Caio Fernando Abreu (1948-1996)

Memória

Vladimir Volegov
Em consideração a mim,
cobri-me de recuos.
Eu, que de docilidade me fizera.

Hilda Hilst (1930-2004)

Pecuária

A diferença entre a Pecuária do nordeste com a do sul eram tantas que as letras das músicas abaixo deixam claras:
Eu venho desde menino
Desde muito pequenino
Cumprindo o belo destino
Que me deu Nosso Senhor
(...)
Eu nasci pra ser vaqueiro
Sou mais feliz brasileiro
Eu num invejo dinheiro
Nem diploma de doutor.

Fagner
O dono quer ver a terra plantada,
Ri de mim, que vou pela grande estrada.
Deixem-no morrer, não lhe dêem água,
Que ele é preguiçoso e não planta nada.

Geraldo Vandré

17 de setembro de 2010

Papéis

Bob Byerley
Naquele tempo, o que eu mais desejava era uma árvore.
A mangueira.
E minha avó plantou a mangueira no jardim.
Cresceu devagar, com dificuldade.
Sofria de uma doença que a envolvia,
de vez em quando parecia afogada numa teia de aranha,
como se fosse morrer.

Afinal, atingiu a altura da janela do quarto.
Nesse ano, minha avó morreu.
E eu, sentada à beira da cama,
via-a aparecer na janela.

Muitas histórias melancólicas envolvem as crianças.
Às vezes, eu estava brincando com os meus bonecos,
mas estava pensando no bastidor da mamãe,
com um bordado interrompido,
e em coisas antigas, que estavam por ali,
e que tinham vindo de casas acabadas,
de pessoas acabadas,
de um mundo acabado.
Era a minha família.

Meu avô, que não conheci,
morreu debaixo do cajueiro,
de repente.
Ao lado do manacá plantado por suas mãos.
Logo que um manacá floresce,
vejo esse avô que não conheci.

Um avô jovem, belo, de olhos verdes,
e as lágrimas de minha avó abraçada ao seu peito.
Seu peito, ela recordava,
era branco, firme, polido – um marfim.

Minha infância foi sobre um velho tapete oriental.
Nele aprendi a beleza das cores.
Nele sonhei com as raízes do azul e do encarnado.
E sempre me pareceu que o desenho era uma escrita:
que o tapete falava coisas,
– eu é que ainda o não podia entender.

Mas por que sempre lembrar essas coisas longínquas?
A verdade, porém, é que há uns dias inesquecíveis,
uns fatos inesquecíveis, dentro de nós.
Tudo o mais, que vivemos, gira em redor deles.
Toda uma vida se reduz, afinal, a umas poucas emoções,
por muitos anos que vivamos,
apesar de viagens, experiências, realizações, sonhos, saber...
Vivemos tudo – o humano e universal –
nuns pequenos instantes, obscuros e essenciais.

Todos os dias assim, de chuvinha fina,
Penso em velhas cenas da infância:
a tarde em que comia um pedaço de maçã
e conheci o arco-íris;
o livro em que estudava francês,
com uma gravura de crianças felizes, que riam para o ar:
La pluie;
a minha solidão com tesouras, cola e cartolina:
“Brinquedos para os dias de chuva...”

Tudo isso vem à minha memória, como visitantes inesperados.
Interrompo o que estou fazendo, tenho uma pena imensa de mim.
Depois, penso em velhos poemas chineses, curtos e leves.

Sou como quem mira uma antiga coleção de cartões-postais.

Cecília Meireles (1901-1964)
"As palavras são eternas.
Deveis pronunciá-las ou escrevê-las,
lembrando-vos da sua eternidade."

khalil Gibran

Ódio Eterno

William-Adolphe Bouguereau
Na fé em quê? No amor a quê? Na esperança de quê?... Estes fracos, não tenhamos dúvidas, também querem chegar um dia a ser eles os fortes. Um dia, dizem, há de chegar o seu “reino”... Repita-se, o “reino de Deus”, como eles tão simplesmente dizem..., tão humildes que são, em tudo! Só para chegar a viver isso já é preciso viver muito, viver para lá da morte... É mesmo necessário que disponham da vida eterna para — eternamente e no “reino de Deus” — poderem ressarcir-se desta passagem pelo mundo, vivida “na fé, no amor, na esperança”. Mas ressarcir-se de quê e por intermédio de quê?... Quer-me parecer que Dante cometeu um erro grosseiro ao colocar sobre a porta do seu Inferno, com uma ingenuidade que mete medo, aquela parte da inscrição: “... Também eu sou criação do eterno amor.”
Com melhores razões poderia estar sobre a porta de entrada para o paraíso cristão e para a respectiva “beatitude eterna” uma inscrição dizendo: “também eu sou criação do ódio eterno... ”
Dante Alighieri (1265-1321),
A Divina Comédia,
“Inferno” III, 5-6

16 de setembro de 2010

Balada da Gota d'Água no Oceano

Frank Richards
O verão chega, e o céu do verão
Ilumina também vocês.
Morna é a água, e na água morna
Também vocês se banham.
Nos prados verdes vocês
Armaram suas barracas. As ruas
Ouvem os seus cantos. A floresta
Acolhe vocês. Logo

É o fim da miséria? Há alguma melhora?
Tudo dá certo? Chegou então sua hora?
O mundo segue seu plano? Não:
É só uma gota no oceano.

A floresta acolheu os rejeitados. O céu bonito
Brilha sobre desesperançados. As barracas de verão
Abrigam gente sem teto. A gente que se banha na água morna
Não comeu. A gente
Que andava na estrada apenas continuou
Sua incessante busca de trabalho.

Não é o fim da miséria. Não há melhora.
Nada vai certo. Não chegou sua hora.
O mundo não segue seu plano:
É só uma gota no oceano.

Vocês se contentarão com o céu luminoso?
Não mais sairão da água morna?
Ficarão retidos na floresta?
Estarão sendo iludidos? Sendo consolados?
O mundo espera por suas exigências.
Precisa de seu descontentamento, suas sugestões.
O mundo olha para vocês com um resto de esperança.

É tempo de não mais se contentarem
Com essas gotas no oceano.

Bertolt Brecht (1898-1956)