31 de julho de 2010

Soneto 18

Jose Miguel Roman Frances
Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.
Ás vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.

Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:
Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.

William Shakespeare (1564-1616)

30 de julho de 2010

Muitos campos tênues
que se inclinam pálidos:
flores decadentes
por todos os lados.

Grandes nuvens líricas,
ventos e astros lânguidos
a alta noite fria
clareando e sombreando.

Que vitória etérea
de guerreiros límpidos!
Mira a brava guerra
sonhos decorridos.

Desce no tempo íngreme
o planeta rápido.
Todo de ouro, o instinto
imobilizado.

E os nomes nos túmulos,
frágil cinza vária...
- Quebrados escudos,
abolidas armas.

Cecília Meireles (1901-1964)

Nossa ausência de agrura

Richard S. Johnson
Nossa porção de noite
Nossa porção de aurora
Nossa ausência de amor

Nossa ausência de agrura

Uma estrela, outra estrela
Que se extravia!
Uma névoa, outra névoa,
Depois - o Dia!

Emily Dickinson (1830-1886)
Tradução: Augusto de Campos

29 de julho de 2010

"Fala-se tanto da necessidade de deixar um
"planeta melhor para os nossos filhos",
e esquece-se da urgência de deixarmos
"filhos melhores para o nosso planeta".
Não sei quem escreveu,
mas de fato, é bom refletir...
“Torna-te quem tu és”.
Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900)

28 de julho de 2010

“Minha alma tem o peso da luz.
Tem o peso da música.
Tem o peso da palavra nunca dita,
prestes quem sabe a ser dita...”.

Clarice Lispector (1920-1977)

27 de julho de 2010

Contemplo o lago mudo
que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
ou se tudo me esquece.
O lago nada me diz
não sinto a brisa mexe-lo.

Não sei se sou feliz
nem se desejo sê-lo.
Trêmulos vincos risonhos
na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
a minha única vida?

Fernando Pessoa (1888-1935)
Regar o jardim, para animar o verde!
Dar água às plantas sedentas! Dê mais que o bastante.
E não esqueça os arbustos, também
Os sem frutos, os exaustos
E avaros! E não negligencie
As ervas entre as flores, que também
Têm sede. Não molhe apenas
A relva fresca ou somente a ressacada;
Refresque também o solo nu.

Bertolt Brecht (1898-1956)

26 de julho de 2010

Cárcere de Argila

Pieter Boel
Deus, que os orbes regulas esplendentes
em número e medida ponderados,
neles abrigo dás aos desterrados,
que se vão suspirosos e plangentes.

Assim, dos céus às vastidões silentes
ergo os meus pobres olhos fatigados,
indagando em que mundos apartados
lenitivo à saudade nos consentes.

Breve, Senhor, do cárcere d’argila
hei de evolar-me, murmurando ansioso
tímida prece: digna-Te de ouvi-la!

Põe-me ao pé do Cruzeiro majestoso,
que no antártico céu vivo cintila,
fitando sempre o meu Brasil saudoso!

Dom Pedro de Alcântara (1825-1891)

24 de julho de 2010

Viver para contar

“A vida não é a que a gente viveu,
e sim a que a gente recorda,
e como recorda para contá-la.

Gabriel García Márquez
em sua autobiografia “Viver para contar”.
Compreendi, então,
que a vida não é uma sonata que,
para realizar a sua beleza,
tem de ser tocada até o fim.
Dei-me conta, ao contrário,
de que a vida é um álbum de mini-sonatas.
Cada momento de beleza vivido e amado,
por efêmero que seja,
é uma experiência completa
que está destinada à eternidade.
Um único momento de beleza e amor
justifica a vida inteira.

Rubem Alves

23 de julho de 2010

Uma simples Elegia

Caminhozinho por onde eu ia andando
E de repente te sumiste
- o que seria que te aconteceu?
Eu sei... o tempo... as ervas más... a vida...
Não, não foi a morte que acabou contigo:
Foi a vida.

Ah, nunca a vida fez uma história mais triste
Que a de um caminho que se perdeu...

Mario Quintana (1906-1994)

22 de julho de 2010

Eu não sabia explicar nós dois
Ela mais eu, por que eu e ela
Não conhecia poemas
Nem muitas palavras belas
Mas ela foi me levando
Pela mão

Íamos tontos os dois assim ao léu
Ríamos, chorávamos sem razão
Hoje, lembrando-me dela
Me vendo nos olhos dela
Sei que o que tinha de ser se deu
Porque era ela
Porque era eu.

Chico Buarque

Nenhuma religião evita divórcios

Lucas Cranach - Adam and Eve
O que Deus uniu o homem separa. Um cruzamento entre dados de estado conjugal e religião realizado pelo Nepo (Núcleo de Estudos de População) da Unicamp mostra que a fé não segura casamentos.
De acordo com o texto, a proporção das mulheres separadas, desquitadas ou divorciadas de cada igreja é muito similar à distribuição das crenças pela população. Segundo a pesquisadora Joice Melo Vieira, que cruzou os dados, estudos no Brasil e no exterior mostram que a preocupação é estar em relações satisfatórias. Como a separação já não é tão estigmatizada, o fim da união é sempre uma possibilidade quando as coisas vão mal.
No final, relata Vieira, o que faz casais à beira da separação pensarem duas vezes são a situação dos filhos e a questão financeira. Como hoje mais mulheres trabalham, a dependência econômica não segura mais o casamento. Já os filhos o fazem apenas por tempo limitado.
Hélio Schwartsman - Folha de São Paulo

21 de julho de 2010

Há uma solidão no céu,
uma solidão no mar
e uma solidão na morte.
Mas fazem todas companhia
comparadas a este local profundo,
esta polar intimidade,
uma Alma que reconhece a Si mesma:
finita infinidade.

Emily Dickinson (1830- 1886)
Tradução de Paulo Mendes Campos

20 de julho de 2010

Água, é a sede que ensina.
Terra, a travessia do mar.
Êxtase, a agonia.
Paz, o guerrear.
Amor, o retrato eterno,
Pássaros, o inverno.

Emily Dickinson (1830- 1886)
Não me deixe rezar por proteção contra perigos,
mas pelo destemor em enfrentá-los.
Não me deixe implorar pelo alívio da dor,
mas pela coragem de vencê-la.
Não me deixe procurar aliados na batalha da vida,
mas minha própria força.
Não me deixe suplicar com temor aflito para ser salvo,
mas esperar paciência para merecer a liberdade.
Não me permita ser covarde,
sentindo sua clemência apenas no meu êxito,
mas me deixe sentir a força da Sua mão quando eu cair.

Rabindranath Tagore (1861-1941)

19 de julho de 2010

Todo mundo aceita que ao homem
cabe pontuar a própria vida:
que viva em ponto de exclamação
(dizem: tem alma dionisíaca);

viva em ponto de interrogação
(foi filosofia, ora é poesia);
viva equilibrando-se entre vírgulas
e sem pontuação (na política):

o homem só não aceita do homem
que use a só pontuação fatal:
que use, na frase que ele vive
o inevitável ponto final.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

18 de julho de 2010

Posso entrar no seu
reino, meu rei?

- Só se ocupar todas
as pausas, reinando
sobre as palavras.

- Posso entrar no seu
reino, meu rei?

- Só se trouxer o livro
de adivinhar canto de
passarinho.

- Posso entrar no seu
reino, meu rei?

- Só se vier pulando
amarelinha e inventando
o caminho.

Pé aqui...
Pé acolá...
Pode entrar!

Eloí Elizabet Bocheco

17 de julho de 2010

Quadro de Picasso
Mulher e pombos.
Mulher entre sonhos.
Nuvens nos seus olhos?
Nuvens sob seus cabelos.

(A visita espera na sala;
a notícia, no telefone;
a morte cresce na hora;
a primavera, além da janela).

Mulher sentada. Tranquila
na sala, como se voasse.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

16 de julho de 2010

Bryce Cameron
Inútil é que te aflijas:
nada podes acerca do teu destino.
Se és prudente, aproveita o momento atual.
O futuro?
Sabes o que ele te reservará?...

Omar Kháyyám
Tradução de Cecília Meireles
“Só algumas pessoas escolhidas
pela fatalidade do acaso
provaram da liberdade esquiva e delicada da vida”.

(Clarice Lispector)

O fim do czarismo

Família Imperial, 1911, Museu do Hermitage, São Petersburgo
A eclosão da guerra mundial foi o derradeiro fracasso que engoliu a monarquia russa. O regime czarista, completamente anacrônico na sua vontade de governar um Estado do século XX como uma sociedade agrária do século XVIII, não estava preparado para enfrentar esta prova. Depois de mobilizar 6 milhões de soldados, os generais se aperceberam que não dispunham de 5 milhões de fuzis. As perdas de vidas humanas se acumulavam, inevitável o recuo em todas as frentes, obrigando a Nicolau II a assumir pessoalmente o comando das forças armadas.
Largando nas mãos de Alexandra Feodorovna o descontentamento reinante e sua repressão, assistida espiritualmente pelo monge Rasputin, que se tornou mito no folclore da corte com a fama de devasso, beberrão, analfabeto e grosseiro, porém tinha prestígio na família pois conseguiu estancar a hemofilia do filho mais novo da czarina, Alexei Nikolaevich Romanov.
[Grigori Rasputin (1869-1916) foi um alquimista russo. Foi personagem proeminente no final da era czarista, pré-revolução russa de 1917. Era considerado místico pela corte do czar russo. Nascido na Sibéria, filho de camponeses. Tornou-se místico e grande influente na corte imperial russa em 1905. Conseguiu obter confiança da czarina Alexandra Feodorovna como conselheiro. Existem relatos de que Rasputin conseguiu salvar Alexei Romanov, o filho do Czar, da hemofilia.
Na Primeira Guerra Mundial, Rasputin foi acusado de espionagem favorecendo os alemães. Numa intriga de políticos, depois de várias tentativas de assassinato, Rasputin foi envenenado numa ocasião de um jantar. Rasputin teria sido fuzilado, sendo atingido por um total de onze tiros, tendo no entanto sobrevivido; foi castrado e continuou vivo, somente quando foi agredido e o atiraram inconsciente no rio Neva ele morreu, não pelos ferimentos, mas afogado. Existe um relato de que, após o seu corpo ter sido recuperado, foi encontrado água nos pulmões, dando apoio à ideia de que ele ainda estava vivo quando jogado no rio parcialmente congelado.]
Em 26 de fevereiro de 1917, com o anúncio da dissolução da Duma, regimentos, tropas e soldados se misturaram ao povo que, encorajado, levantou barricadas, queimou prédios públicos e enfrentou a Okrana, a implacável e violenta polícia política instalada em pontos estratégicos. Reduziram as metralhadoras ao silêncio e o czar foi informado por telégrafo. A ação das massas foi uma ação espontânea, não preparada nem guiada por nenhum partido político, mesmo porque, em virtude da repressão, os principais líderes e organismos centrais dos partidos políticos de esquerda se encontravam fora da Rússia no momento da insurreição. Com a revolução vitoriosa, eles voltaram.
Enquanto a Duma reunida no Palácio Tauride formava um governo provisório, as massas invadiam em desabalada correria os salões dos palácios e ocupavam gabinetes para criarem comitês de ação política. Intelectuais, pequenos proprietários, a classe operária, sargentos e tenentes, mujiques (camponeses), sociais-revolucionários, sociais-democratas, mencheviques, bolcheviques, anarquistas e extremistas de todas as tendências, agrupados no seio do Soviete de Petrogrado, discutiam que rumo tomar diante do caos e da fome, da ruína que assolou mil anos de monarquia.
No dia 17 de julho de 1918 a família imperial foi assassinada, pelo governo Bolshevique, aparentemente sob ordens de Lênin. O Czar Nicolau II, a Czarina Alexandra, as suas quatro filhas (Olga(22 anos), Tatiana (21 anos), Maria (19 anos), Anastasia (17 anos), Czarevich Alexei (13 anos).
A 17 de Julho de 1998, foi conduzida uma cerimônia de funeral cristão, com os restos mortais encontrados colocados na Catedral de S. Pedro e S. Paulo, em São Petersburgo.
A 14 de Agosto de 2000, o Czar e a sua família foram canonizados como santos pela Igreja Ortodoxa Russa.
Em 30 de setembro de 2008 a Suprema Corte da Rússia reabilitou a Família Real Russa e o czar Nicolau II, 90 anos após sua morte. A Suprema Corte russa declarou que sua execução foi ilegal e que a família real russa foi vítima de um crime.

15 de julho de 2010

Desde 15 de julho de 2009 a Capoeira é
Patrimônio Imaterial Brasileiro!
Surgida nos guetos negros há mais de um século como forma de protesto às injustiças sociais, a capoeira é uma arte que mistura dança, música e cultura popular, confunde-se com esporte, e já foi considerada luta. A capoeira é a 14ª expressão artística do Brasil registrada como patrimônio imaterial e, com o título, fica assegurada sua preservação como patrimônio cultural e torna-se capaz a elaboração de projetos e políticas públicas em prol da continuidade dessa manifestação.
País de muitas misturas, o Brasil apresenta forte miscigenação de cores, raças, batuques e temperos, que pode ser vista por meio da diversidade cultural e artística do povo.
A Capoeira, ao longo do tempo e por meio de sua história tem se mostrado como elemento fundamental para a preservação e o resgate da cultura afro-brasileira, e a formação identitária da nação, tendo se tornado patrimônio cultural e imaterial brasileiro.
O registro começou com o desejo do ex ministro da Cultura, Gilberto Gil. Desde então, as ações do ministério voltadas à valorização da capoeira como a criação do programa Capoeira Viva começaram a se voltar para o reconhecimento da expressão como patrimônio cultural.
Se diariamente consegue o homem
para seu sustento um pedaço de pão
e uma gota de água fresca, servida que seja
num velho cântaro esbeiçado,

por que se põe ele a serviço de outrem?

A troco de quê
polui ele o seu ideal,
atraiçoa a consciência
e se humilha diante dos demais ?

Omar Khayyám (1048-1131)