30 de junho de 2010

Quem ama inventa

E. Berscheicht
Quem ama inventa as coisas a que ama...
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava...
E era um revôo sobre a ruinaria,
No ar atônito bimbalhavam sinos,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressurreições...
Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
O palpitar de nossos corações
Batendo juntos e festivamente,
Ou sozinhos, num ritmo tristonho...
Ó! meu pobre, meu grande amor distante,
Nem sabes tu o bem que faz à gente
Haver sonhado... e ter vivido o sonho!

Mario Quintana (1906-1994)

29 de junho de 2010

Pânico e luar

Francesca Aristarchi
As noites e os dias
vestem o mundo
com navalhas macias

para sempre perdidas
as horas vão caindo
orquídeas num abismo

entre grutas e navios
oblíquas sombras
sempre por um fio

no cais à espreita
velas içadas
com pânico e luar.

Roseana Murray
Nicoletta Ceccoli
Não é o grau de adesão às crenças
que as transforma em conhecimento.
De fato, o traço distintivo do comportamento científico
é certo ceticismo mesmo em relação
ás teorias mais acalentadas.
A adesão cega a uma teoria
não é uma virtude intelectual - é um crime intelectual.

Imre Lakatos

28 de junho de 2010

Nicoletta Ceccoli
“É impossível lutar com o que a alma escolheu”.
Jean-Paul Sartre (1905-1980)
Ontem passou por aqui um meu ancestral,
que solfejava Bach:
“Fique conosco, Senhor, que a noite chega.”
Ele cantava assim nas estradas mais sujas.
E aquelas borboletas sobre uns ramos de
tomilho cantavam com ele.

Manoel de Barros

27 de junho de 2010

Reinaldo Arenas

Só hoje assisti o filme “Antes do Anoitecer” que conta a vida de Reinaldo Arenas.
Com Direção de Julian Schnabel e o ator principal Javier Bardem.
Gostei muito do filme e desta poesia dele.
Reinaldo Arenas
Sou esse menino desagradável,
sem dúvida inoportuno,
de cara redonda e suja,
que fica nos faróis,
onde as grandes damas tão bem iluminadas,
ou onde as meninas que parecem levitar,
projetam o insulto de suas caras redondas e sujas.

Sou uma criança solitária,
que o insulta como uma criança solitária,
e o avisa:
se por hipocrisia você tocar na minha cabeça,
aproveitarei a chance para roubar-lhe a carteira.

Sou aquela criança de sempre,
que provoca terror,
por iminente lepra,
iminentes pulgas, ofensas,
demônios e crime iminente.

Sou aquela criança repugnante,
que improvisa uma cama de papelão
E espera, na certeza,
que você me acompanhará.

Reinaldo Arenas (1943-1990)

26 de junho de 2010

Canção do amor imprevisto

Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.
Mas tu apareceste com a tua boca fresca
De madrugada, com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos...
E o homem taciturno ficou imóvel, sem
compreender nada, numa alegria atônita...
A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho
inútil aonde viessem pousar os passarinhos.

Mario Quintana (1906-1994)

25 de junho de 2010

Magritte
Quem hoje em dia
ensina filosofia não seleciona
o alimento para o seu aluno
com o objetivo de lhe adular o gosto,
mas sim para o modificar.

Wittgenstein

24 de junho de 2010

Aguste Cot
Sou andarilha navegante
enquanto em minha pele
a vida escreve seus espelhos
e o universo faz pouso
com seu barulho grave de universo

sou o cântaro onde a noite
deposita seus duendes
deposita seus leiteiros
cuidadosamente
como vagos habitantes de um mistério

sou estrada esquina encruzilhada
onde os rios desaguam seus segredos
e a lua se derrama em duas faces
dando de comer ao coração
feito um cavalo a quem se dá feno.

Roseana Murray
24 de Junho
Dia de São João
Esse santo é o responsável pelo título de "santo festeiro", por isso, no dia 24 de junho, dia do seu nascimento, as festas são recheadas de muita dança, em especial o forró.
Alguns símbolos são conhecidos por remeterem ao nascimento de São João, como a fogueira, o mastro, os fogos, a capelinha, a palha e o manjericão.
Hoje, nas cidades nordestinas, existe o costume de, na madrugada do dia 24 de junho, tomar banho em um rio ou mesmo mergulhar uma imagem do santo, como forma de purificação.
As festas juninas estão enraizadas de arte popular com suas influências próprias das regiões, cheias de pureza, ingenuidade, poesia e inspiração.

23 de junho de 2010

Vladimir Volegov
“Pretendo que a poesia tenha a virtude de,
em meio ao sofrimento e o desamparo,
acender uma luz qualquer,
uma luz que não nos é dada,
não desce dos céus,
mas que nasce das mãos e do espírito dos homens”.

Ferreira Gullar

22 de junho de 2010

Dizes

Jake Baddeley
Dize:
O vento do meu espírito
Soprou sobre a vida.
E tudo que era efêmero
Se desfez.
E ficaste só tu,
que és eterno...”.
Cecília Meireles (1901-1964)

21 de junho de 2010

Trecho de "A Gaia Ciência"

Daniel Garber
“O que é a originalidade? É ver qualquer coisa que ainda não tem nome e que, por isso, não pode ainda ser mencionada, embora esteja mesmo à frente dos olhos de toda a gente. A maioria das pessoas não consegue ver aquilo que não tem um nome. As pessoas originais são as que já deram (ou têm capacidade para dar) nomes às coisas.”
Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900),
in "A Gaia Ciência"

19 de junho de 2010

Santa Teresa de Ávila

Santa Teresa de Ávila (1515-1582)
Freira carmelita e mística espanhola
Santa Teresa de Ávila é sem dúvida, uma das mulheres mais admiradas da história da Igreja. Mesmo ateus e livres-pensadores a admiram.
Esta freira mística chamada Teresa D’Ávila escreveu um livro: “Celebration of Discipline” (Celebração da Disciplina) que até hoje é muito discutido e apreciado.
Richard Foste, um guru da Contemplação nos diz: “Podemos descer da mente para o coração, mais que facilmente, através da imaginação... Não devemos desprezar a rota mais simples e humilde para chegar à presença de Deus... O próprio Jesus ensinou desta maneira, fazendo constante apelo à imaginação, e muitos dos mestres devocionais nos encorajam a fazê-lo”.
Santa Teresa D’Ávila diz: “Quando eu não conseguia fazer reflexão com o meu entendimento, criava um retrato de Cristo dentro de mim”.
A oração prescrita por Teresa D’Ávila às Quatro Mansões do Castelo Interior, é tida como um misterioso dom universal que Deus oferece a qualquer pessoa que deseje recebê-lo. A descrição de Teresa da fonte que fica cheia da nascente direta, Deus, está bem próxima das expectações dos Amigos para as orações, tanto públicas como particulares, nas quais eles se “sentam em pura quietude e silêncio de toda a carne e esperam pela luz”.
A compreensão do silêncio como uma arena ativa de condução e comunicação está muito próxima da compreensão monástica do silêncio. Basil Pennington fala do silêncio como “suficiente”. “No final, o monge aprende que Deus fala através do silêncio e pode ser ouvido em silêncio.”

A Doutora Devocional Teresa D´Ávila
A Enciclopédia Americana nos informa que: Em 1560, com aprovação das autoridades eclesiásticas romanas, Teresa fundou o primeiro dos seus mosteiros, sobre a mais antiga e rigorosa regra carmelita. Foi durante esse mesmo tempo que em obediência ao seu confessor, ela escreveu ‘VIDA’, uma narrativa de suas experiências espirituais... Com aprovação de Roma [Teresa] estabeleceu vários outros mosteiros carmelitas...
Durante esse período (1563-1568), Teresa escreveu também para as freiras dos seus mosteiros “The Way of Perfection” (O Caminho da Perfeição) uma instrução sobre os métodos de oração e os significados do alcance da virtude. Em 1567, através de amizade com S. João da Cruz, ela começou a incentivar o estabelecimento dos mosteiros carmelitas reformados para homens.
Teresa D’Ávila. Parece que ela foi atormentada pela moléstia na maior parte de sua vida. Em 1538, Teresa ficou muito doente “do que poderia ser malária” e em razão de alguns medicamentos experimentados, ela entrou “num estado de quase coma”, por três dias, e ficou sem andar por três anos.
Durante a sua moléstia e convalescença, ela fazia orações mentais diárias, as quais, por sua vez, conduziram-na a experiências com a oração mística.
Para Frei Betto, S. Teresa foi uma “feminista avant-la-lettre” que abriu espaço para mulheres numa igreja até então medieval e machista. Por pouco não foi condenada pela Inquisição, enquanto outras visionárias menos sortudas como Madalena da Cruz foram.
Frei Betto, enfim, parece subordinar a sabedoria de S. Teresa a lutas históricas (pelo feminismo, pelo “antropocentrismo”, contra uma igreja hierárquica e uma teologia abstrata) que ela supostamente ilustra. Depois dela, Deus deixaria de ser “um conceito” e viraria “uma experiência”.
Nada te perturbe, Nada te espante,
Tudo passa, Deus não muda,
A paciência tudo alcança;
Quem a Deus tem, Nada lhe falta:
Só Deus basta.
Eleva o pensamento, Ao céu sobe,
Por nada te angusties, Nada te perturbe.
A Jesus Cristo segue, Com grande entrega,
E, venha o que vier, Nada te espante.
Vês a glória do mundo? É glória vã;
Nada tem de estável, Tudo passa.
Deseje às coisas celestes, Que sempre duram;
Fiel e rico em promessas, Deus não muda.
Ama-o como merece, Bondade Imensa;
Confiança e fé viva, Mantenha a alma,
Que quem crê espera, Tudo alcança.
A maldade, a injustiça,
O abandono, não ameaçará,
Quem a Deus tem,
Mesmo que passe por momentos difíceis;
Sendo Deus o seu tesouro, Nada lhe falta.
Ainda que tudo perca, Só Deus basta.

Santa Teresa D’Ávila

18 de junho de 2010

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer.

Então sabemos tudo do que foi e será.

O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.

Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos.
Com doçura.

Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.

Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

José Saramago
(Azinhaga, 16 de Novembro de 1922 - Lanzarote, 18 de Junho de 2010)
A carne conta,
a carne produz perfume,
mas o contato com as palavras
apenas engendra sofrimento e divisão.

Anaïs Nin (1903-1977)

17 de junho de 2010

Segue o teu destino
Rega as tuas plantas
Ama as tuas Rosas
O resto é a sombra
De árvores alheias

A Realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios

Suave é viver só
Grande e Nobre é sempre
Viver simplesmente
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos Deuses

Vê de longe a vida
Nunca a interrogues
Ela nada pode Dizer-te
A resposta está além dos Deuses

Mas serenamente
Imita o Olimpo no teu coração
Os Deuses são Deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis
Fernando Pessoa (1888-1935)

16 de junho de 2010

"Quantas horas perdi
foi por ti
que as perdi."
Vai o meu coração
repetiu a lição:
- "Quantas horas perdi
foi por ti
que as ganhei…"

Sebastião da Gama (1924-1952)

14 de junho de 2010

“Quando conhecer sua alma,
pintarei seus olhos”.

(Modigliani )

Noturno

Devagar, devagar... A noite dorme
e é preciso acordar sem sobressalto.
Sob um manto de sombra, denso, informe,
o mar adormeceu a sonhar alto.

Devagar, devagar... O rio dorme
sobre um leito de areias e basalto...
Malhada pela neve a serra enorme
parece um tigre a preparar o salto.

E dorme o vale em flor. Dormem as casas.
Nenhum rumor. Nenhum frémito de asas.
Nada perturba a noite bela e calma.

E dormem os rosais, dormem os cravos...
Dormem abelhas sobre o mel dos favos
e dorme, na minha alma, a tua alma.

Fernanda de Castro (1900-1994)
O jornal dobrado
sobre a mesa simples;
a toalha limpa,
a louça branca

e fresca como o pão.

A laranja verde:
tua paisagem sempre,
teu ar livre, sol
de tuas praias; clara

e fresca como o pão.

A faca que aparou
teu lápis gasto;
teu primeiro livro
cuja página é branca

e fresca como o pão.

E o verso nascido
de tua manhã viva,
de teu sonho extinto,
ainda leve, quente

e fresco como o pão.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

12 de junho de 2010

O Leitor

Só ontem assisti esse belo filme:
O Leitor
O Leitor (no original em inglês: The Reader) é um filme teuto-americano de 2008, do gênero drama, dirigido por Stephen Daldry e baseado no romance Der Vorleser, de 1995, do escritor alemão Bernhard Schlink.
Hanna Schmitz é vítima de uma segregação peculiar: o analfabetismo. Quando nasce já está em curso o regime nazista. Quando atinge a maturidade convive com o período nazista. Como integrante, à época, de um contingente de não-alfabetizados, não pode escolher emprego, e consegue uma vaga de guarda na SS. Torna-se, naturalmente, funcionária de um Estado totalitário e nazista.
Esta questão, levantada no tribunal, torna-se crucial, quando a julgada inverte o jogo e pergunta ao juiz o que ele faria se estivesse no lugar dela? Ela submeteu-se a uma vaga de guarda. Era preciso seguir com a sobrevivência física, a necessidade material. Raciocínio simplista? E por que o juiz não lhe responde quando indagado sobre o que faria se estivesse no lugar dela? Ela não deveria proceder como guarda e não abrir a porta da igreja para evitar o caos da fuga? E não deveria inscrever-se na Siemens? Continua simplista a questão dos compromissos materiais?
Hanna aos 43 anos, se exila voluntariamente do convívio social. Mas Hanna, na sua busca pela expiação espiritual, se encerra em um lugar nada convencional: um presídio e foi condenada à prisão perpétua. É verdade; mas ela poderia ter pego apenas quatro anos e meio de prisão, como as outras quatro sentenciadas. No entanto, ela assume uma culpa que não teve sozinha, ela assume a confecção de um relatório que não escreveu. E por quê? Esse é o segredo de Hanna. Um segredo inconfesso, até o dia do juízo final, que ela mesma decreta, quando recebe o indulto após 20 anos de reclusão.
Será que se Hanna Shmitz soubesse ler, ela cometeria os crimes que cometeu durante o Holocausto?
Questionamentos
:
1. Fica a dualidade da personagem: ela merece nossa compaixão ou a nossa repulsa? Afinal de contas, ela cometeu aqueles crimes consciente do que estava fazendo ou por que não tinha saída?
2. Em tempos de guerra, é culpado o soldado que mata ou o oficial de patente maior que ordena a execução?
3. A minha opinião é que a Hanna estava somente cumprindo ordens e houve uma necessidade de se achar culpados para o holocausto. De repente a corda partiu do lado mais fraco. Tanto é que ela só foi a julgamento muitos anos após o holocausto e nesse intervalo deu tempo dela se relacionar com um garoto que nunca deixou de amá-la apesar de tudo.

Muito bem merecido o Oscar para Kate Winslet.

10 de junho de 2010

“ (...) amo os grandes rios, pois são profundos como a alma dos homens. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como os sofrimentos dos homens. Amo ainda mais uma coisa de nossos grandes rios: sua eternidade.
Sim, rio é uma palavra mágica para conjugar eternidade...”
João Guimarães Rosa (1908-1967)

8 de junho de 2010

Que nome tem uma flor
Que voa de pássaro em pássaro?

Pablo Neruda - "Livro das Perguntas".