30 de março de 2010

O modo como você joga o jogo

Robert Lewis Reid
Chame-a de amor
coloque-a de pé sob a luz
imperfeita
ponha-lhe um vestido
reze cante implore chore ria
apague as luzes
ligue o rádio
acrescente-lhe enfeites:
manteiga, ovos crus, jornais de
ontem;
um cadarço novo, e então
páprica, açúcar, sal, pimenta,
ligue para sua tia velha e bêbada em
Calexico;
chame-a de amor,
espete-a bem, adicione
repolho e molho de maçã,
então a esquente primeiro
no lado esquerdo,
depois no
direito,
ponha-a numa caixa
livre-se dela
deixe-a nos degraus de uma porta
vomitando como você fará
nas hortênsias.

Charles Bukowski (1920-1994)

Tenta esquecer-me

Brenda Burke
Tenta esquecer-me...
Ser lembrado é como evocar
Um fantasma... Deixa-me ser o que sou,
O que sempre fui, um rio que vai fluindo...
Em vão, em minhas margens cantarão as horas,
Me recamarei de estrelas como um manto real,
Me bordarei de nuvens e de asas,
Às vezes virão a mim as crianças banhar-se...
Um espelho não guarda as coisas refletidas!
E o meu destino é seguir... é seguir para o Mar,
As imagens perdendo no caminho...
Deixa-me fluir, passar, cantar...
Toda a tristeza dos rios
É não poder parar!

Mario Quintana (1906-1994)
Livro: Lavoura Arcaica
Autor: Raduan Nassar
Ed. Companhia das Letras.
Com uma linguagem rápida, valendo-se de metáforas poéticas, Raduan descreve a viagem particular de André, uma história de filho pródigo às avessas. André é filho de uma família tradicional de origem árabe, radicada no interior do Brasil, que ao contestar a tradição, a família e os mais profundos valores morais, passará por uma trajetória de revolta, crime, fuga e castigo. Com características autobiográficas, essa novela de drama rural, remete as próprias raízes culturais do autor, nascido em Pindorama interior paulista, filho de família de origem árabe. André é uma personagem reflexiva e contestadora, sob seu ponto de vista acompanharemos o desenrolar da trama. Ovelha negra da família, esmiuçando a anatomia das relações e personalidades familiares ele será autor de crime imperdoável contra os mais profundos valores morais. Sua culpa o fará fugir, para manter seu crime em segredo. A verdade não pode vir a tona sob pena de desagregar e destruir a família em todas suas relações. Nem a severidade e rusticidade do pai poderão reprimi-la, nem a ternura e compreensão da mãe poderá perdoá-la, nem a austeridade e responsabilidade do irmão mais velho poderá suporta-lá, nem a o amor da irmã, nem a revolta infantil do irmão mais novo. Inadmissível a todos seria seu crime. Sua fuga desencadeará uma busca pelo seu paradeiro, busca, no entanto, que revelará mais do que isso. Pela sua profundidade e beleza, essa obra de Raduan Nassar, está, com certeza, entre as maiores obras da literatura brasileira do século XX.

28 de março de 2010

Perdas

Vittorio Matteo Corcos
“Com as perdas, só há um jeito:
perdê-las.
Com os ganhos,
o proveito é saborear cada um
como uma fruta boa da estação”.

“A vida não tece apenas uma teia de perdas mas nos proporciona uma sucessão de ganhos. O equilíbrio da balança depende muito do que soubermos e quisermos enxergar”.
Lya Luft

Colher flores

Daniel Ridgway Knight
Quero colher flores nos campos!
rosas, lírios cravos e jasmim
E um pequeno galho de alecrim
E também angélicas arrosar
Com seu perfume no ar a inzalar
Guarda a fragrância de doçura
Da essência de um puro olhar
Um ciciar de uma prece embelezar
Embalando atua suavidade no ar
A grandeza da natureza em se
Neste buquê vou te entregar
Para que o meu amor, eu possa
Verdadeiramente te encantar.

Ademir Alves

26 de março de 2010

Disputas Tusculanas

Max Weber
“Não existe ocupação tão agradável como o saber; o saber é o meio de nos dar a conhecer, ainda neste mundo, o infinito da matéria, a imensa grandeza da Natureza, os céus, as terras e os mares.
O saber ensinou-nos a piedade, a moderação, a grandeza do coração; tira-nos as nossas almas das trevas e mostra-nos todas as coisas, o alto e o baixo, o primeiro, o último e tudo aquilo que se encontra no meio; o saber dá-nos os meios de viver bem e felizmente; ensina-nos a passar as nossas vidas sem descontentamento e sem vexames”.
Marco Túlio Cícero (106 a.C - 43 a.C)

Soneto sonhado

Pierre Auguste Cot
Meu tudo, minha amada e minha amiga,
Eis, compendiada toda num soneto,
A minha profissão de fé e afeto,
Que à confissão, posto aos teus pés, me obriga.

O que n'alma guardei de muito antiga
Experiência foi pena e ansiar inquieto.
Gosto pouco do amor ideal objeto
Só, e do amor só carnal não gosto miga.

O que há de melhor no amor é iluminância,
Mas, ai de nós! não vem de nós. Viria
De onde? Dos céus?... Dos longes de distância?...

Não te prometo os estos, a alegria,
A assunção...Mas em toda circunstância
Se-te-ei sincero como a luz do dia.

Manuel Bandeira (1886-1968)

25 de março de 2010

John Everett Millais - Apple Blossom
“Sou uma parte de tudo aquilo
que encontrei no meu caminho.”

Alfred Lord Tennyson (1809-1892)

Espera

Galina Chuprakova-Kazakova
Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.

Eugénio de Andrade (1923-2005)

Dissidentes

Guillermo Fariñas – dissidente cubano em greve de fome
O presidente americano, Barack Obama, pediu que o governo de Cuba "respeite os direitos" de sua população e lamentou a morte do dissidente político Orlando Zapata em uma greve de fome, em um comunicado divulgado nesta quarta-feira. O líder dos EUA também exigiu a libertação de todos os presos políticos e o fim da repressão aos direitos humanos no país.
Obama qualificou os últimos acontecimentos em Cuba de "profundamente preocupantes", e disse que, em vez de entrar em uma nova era, as autoridades cubanas continuam a responder às aspirações de seu povo com a "mão dura" do regime comunista.

Preso sendo torturado em Abu Ghraib por soldado norte-americano
Quem vai lamentar a morte de milhões de iraquianos? Não ha damas pra pedir a liberdade dos vários torturados de Guantánamo (já que os gringos devem ter matado as mulheres dos prisioneiros)... Só em Guantánamo ha mais de 2 vezes o número de pessoas do que todos os dissidentes presos em Cuba... Ai, contem mais Abu Ghraib... Quase 50 mortos por tortura...
Afinal o que não é conveniente para um não importa para o outro.

24 de março de 2010

Indiferença

“A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam frequentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes, os leva a desistir de gesta heroica”.
Antonio Gramsci (1891-1937)

Ateu

Edmund Blair Leighton - Santa Isabel da Hungria
“Deus não existe (...) A salvação de todos consiste agora em provar essa ideia a toda a gente, percebes? Quem é que há de prová-la? Eu! Não entendo como é que até agora um ateu podia saber que Deus não existe e não se suicidava logo. Reconhecer que Deus não existe e não reconhecer ao mesmo tempo em que o próprio se tornou deus é um absurdo, pois de outra maneira suicidar-se-ia inevitavelmente. Se tu o reconheces, és um rei e não te matarás, mas viverás na maior glória. Mas só o primeiro a perceber isso é que deve inevitavelmente matar-se, senão o que é que principiaria e provaria?
Sou eu que me vou suicidar para iniciar e para provar. Ainda só sou deus sem querer e sofro porque tenho o DEVER de proclamar a minha própria vontade. Todos são infelizes porque todos têm medo de afirmar a sua vontade. Se o homem até hoje tem sido tão infeliz e tão pobre, é precisamente porque tem tido medo de afirmar o ponto capital da sua vontade, recorrendo a ela às escondidas como um jovem estudante.
Eu sou profundamente infeliz porque tenho medo profundamente. O medo é a maldição do homem... Mas hei de proclamar a minha vontade, tenho o dever de crer que não creio. E serei salvo. Só isto salvará todos os homens e há de transformá-los fisicamente, na geração seguinte; porque, no seu estado físico atual (refleti nisso muito tempo), o homem não pode, de modo algum, passar sem o seu velho Deus.
Durante três anos procurei o atributo da minha divindade e achei-o: o atributo da minha divindade é a minha vontade, é o livre arbítrio. É com isso que posso manifestar sobre o ponto capital a minha insubmissão e a minha terrível liberdade nova. Porque é terrível! Mato-me para afirmar a minha insubmissão e a minha terrível liberdade nova”.
Fiódor Dostoiévski (1821-1881),
in "Os Possessos" - Discurso do personagem Kirilov

Prudência

Sir John Everett Millais
Não aprofundes nunca, nem pesquises
O segredo das almas que procuras:
Elas guardam surpresas infelizes
A quem lhes desce às convulsões obscuras.

Contenta-te com amá-las, se as bendizes,
Se te parecem límpidas e puras,
Pois se, às vezes, nos frutos há doçuras,
Há sempre um gosto amargo nas raízes...

Trata-as assim, como se fossem rosas,
Mas não despertes o sabor selvagem
Que lhes dorme nas pétalas tranquilas,

Lembra-te dessas flores venenosas!
As abelhas cortejam de passagem,
Mas não ousam prová-las nem feri-las...

Raul de Leoni (1895-1926)
O historiador de religiões Philip Jenkins, da Penn State University, decidiu comparar a violência presente no Corão e na Bíblia. Sua conclusão, mostra a National Public Radio, é que a Bíblia é mais agressiva que o livro sagrado dos muçulmanos. “Surpreendentemente”, enfatiza Jenkins, levando-se em conta a imagem de brutalidade que os fundamentalistas islâmicos espalharam pelo mundo em nome de sua religião.
Segundo o historiador americano, a violência do Corão é mais “defensiva” – e, “pelos padrões do século 7º, razoavelmente humana”. Já a Bíblia traz um tipo específico de violência que “nós só podemos chamar de genocídio”. No primeiro livro de Samuel (15:3), o profeta diz a Saul, a mando de Deus: “Vai, pois, agora e fere a Amaleque; e destrói totalmente a tudo o que tiver, e não lhe perdoes; porém matarás desde o homem até a mulher, desde os meninos até aos de peito, desde os bois até as ovelhas, e desde os camelos até aos jumentos”. Ou seja: completa aniquilação. A ordem era tão definitiva que, quando Saul decide poupar algumas das vítimas, Deus desabafa (15:12): “Arrependo-me de haver posto a Saul como rei; porquanto deixou de me seguir, e não cumpriu as minhas palavras”.
Jenkins afirma, porém, que o judaísmo e o cristianismo, com o passar dos séculos, deixaram a violência da Bíblia somente no campo das representações. Hoje, diz ele, “aniquilar o inimigo” significa simplesmente combater os próprios pecados.
Leia também essa ótima reportagem: Marcos Guterman

22 de março de 2010

Tanto que choveu
Tanto que molhou
Coração se encheu de amor e transbordou.
Água que correu ribeirão levou
Foi pro oceano e lá se evaporou.

Almir Sater

Dia Mundial da Água

1. A água faz parte do patrimônio do planeta. Cada continente, cada povo, cada região, cada cidade, cada cidadão é plenamente responsável aos olhos de todos.

2. A água é a seiva do nosso planeta. Ela é a condição essencial de vida e de todo ser vegetal, animal ou humano. Sem ela não poderíamos conceder como são a atmosfera, o clima, a vegetação, a cultura ou a agricultura. O direito à água é um dos direitos fundamentais do ser humano: o direito à vida, tal qual é estipulado no Art. 30 de Declaração Universal dos Direitos Humanos.

3. Os recursos naturais de transformação da água em água potável são lentos, frágeis e muito limitados. Assim sendo a água deve ser manipulada com racionalidade, preocupação e parcimônia.

4. O equilíbrio e o futuro de nosso planeta dependem da preservação da água e dos seus ciclos. Estes devem permanecer intactos e funcionando normalmente, para garantir a continuidade da vida sobre a Terra. Este equilíbrio depende, em particular, da preservação dos mares e oceanos por onde os ciclos começam.

5. A água não é somente uma herança dos nossos predecessores, ela é sobretudo um empréstimo aos nossos sucessores. Sua proteção constitui uma necessidade vital, assim como uma obrigação moral do Homem para as gerações presentes e futuras.

6. A água não é uma doação gratuita da natureza, ela tem um valor econômico: é preciso saber que ela é, algumas vezes, rara e dispendiosa e que pode muito bem escassear em qualquer região do mundo.

7. A água não deve ser desperdiçada, nem poluída, nem envenenada. De maneira geral, sua utilização deve ser feita com consciência e discernimento, para que não se chegue a uma situação de esgotamento ou de deterioração de qualidade das reservas atualmente disponíveis.

8. A utilização da água implica o respeito à lei. Sua proteção constitui uma obrigação jurídica para todo o homem ou grupo social que a utiliza. Esta questão não deve ser ignorada nem pelo Homem nem pelo Estado.

9. A gestão da água impõe um equilíbrio entre os imperativos de sua proteção e as necessidades de ordem econômica, sanitária e social.

10. O planejamento da gestão da água deve levar em conta a solidariedade e o consenso em razão de sua distribuição desigual sobre a Terra. O Brasil é o grande reservatório de água do mundo pois tem a maior reserva hidrológica do planeta - 11, 6 % da água doce disponível estão no Brasil, que perfazem 53% dos recursos hídricos da América do Sul. Cada brasileiro possui, em tese, 34 milhões de litros ao ano a sua disposição, um volume enorme, já que é possível levar vida confortável com 2 milhões de litros ao ano, conforme as estimativas da ONU. Mas essa água é mal distribuída, 80% concentram-se na Amazônia, onde vivem apenas 5 % dos habitantes do país; os 20% restantes abastecem 95% dos brasileiros. Várias cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Goiás e Minas Gerais convivem com oferta anual inferior a 2 milhões de litros por habitante, para uso direto e indireto.

21 de março de 2010

Heitor dos Prazeres - Favela
“Não há assunto tão velho que
não possa ser dito algo de novo sobre ele”.

Fiódor Dostoiévski (1821-1881)
Vladimir Volegov
Ser capaz, como um rio
que leva sozinho
a canoa que se cansa,
de servir de caminho
para a esperança.
E de lavar do límpido
a mágoa da mancha,
como o rio que leva,
e lava.

Crescer para entregar
na distância calada
um poder de canção,
como o rio decifra
o segredo do chão.

Se tempo é de descer,
reter o dom da força
sem deixar de seguir.
E até mesmo sumir,
para, subterrâneo,
aprender a voltar
e cumprir, no seu curso,
o ofício de amar.

Como um rio, aceitar
essas súbitas ondas
de águas impuras
que afloram a escondida
verdade nas funduras.

Como um rio, que nasce
de outros, saber seguir,
junto com outros sendo
e noutros se prolongando
e construir o encontro
com as águas grandes
do oceano sem fim.

Mudar em movimento,
mas sem deixar de ser
o mesmo ser que muda.
Como um rio.

Thiago de Mello

20 de março de 2010

A Vida Real de um Pensamento

Gerard ter Borch
A vida real de um pensamento dura apenas até ele chegar ao limite das palavras: nesse ponto, ele lapidifica-se, morre, portanto, mas continua indestrutível, tal como os animais e as plantas fósseis dos tempos pré-históricos. Essa realidade momentânea da sua vida também pode ser comparada ao cristal, no instante da cristalização.
Pois, assim que o nosso pensamento encontra as palavras, ele já não é interno, nem está realmente no âmago da sua essência. Quando começa a existir para os outros, ele deixa de viver em nós, como o filho que se desliga da mãe ao iniciar a própria existência. Mas diz também o poeta:

Não me confundais com contradições!
Tão logo se fala, já se começa a errar.
Arthur Schopenhauer (1788–1860),
in 'Sobre o Ofício do Escritor'

Congresso Internacional do Medo

Raffaelo Sorbi
Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
“Eu invejo os passarinhos,
os mosquitos, as borboletas
e as formigas que cruzam os seus caminhos”.

Milton Moura