28 de fevereiro de 2010

“Fé é o pássaro
que sente a luz e
canta quando a madrugada é ainda escura”.

Rabindranath Tagore (1861-1941)

A Descoberta do Mundo

Jan Toorop
Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece. E nem ao menos posso fazer o que uma menina semiparalítica fez em vingança: quebrar um jarro. Não sou semiparalítica. Embora alguma coisa em mim diga que somos semiparalíticos. E morre-se, sem ao menos uma explicação. E o pior – vive-se, sem ao menos uma explicação. E ter empregadas, chamemo-las de uma vez de criadas, é uma ofensa à humanidade. E ter a obrigação de ser o que se chama de apresentável me irrita. Por que não posso andar em trapos, como homens que às vezes vejo na rua com barba até o peito e uma bíblia na mão, esses deuses que fizeram da loucura um meio de entender? E por que, só porque eu escrevi, pensam que tenho que continuar a escrever? Avisei a meus filhos que amanheci em cólera, e que eles não ligassem. Mas eu quero ligar. Quereria fazer alguma coisa definitiva que rebentasse com o tendão tenso que sustenta meu coração. E os que desistem? Conheço uma mulher que desistiu. E vive razoavelmente bem: o sistema que arranjou para viver é ocupar-se. Nenhuma ocupação lhe agrada. Nada do que eu já fiz me agrada. E o que eu fiz com amor estraçalhou-se. Nem amar eu sabia, nem amar eu sabia. E criaram o Dia dos Analfabetos. Só li a manchete, recusei-me a ler o texto. Recuso-me a ler o texto do mundo, as manchetes já me deixam em cólera. E comemora-se muito. E guerreia-se o tempo todo. Todo um mundo de semiparalíticos. E espera-se inutilmente o milagre. E quem não espera o milagre está ainda pior, ainda mais jarros precisaria quebrar. E as igrejas estão cheias dos que temem a cólera de Deus. E dos que pedem a graça, que seria o contrário da cólera. Não, não tenho pena dos que morrem de fome. A ira é o que me toma. E acho certo roubar para comer.- Acabo de ser interrompida pelo telefonema de uma moça chamada Tereza que ficou muito contente de eu me lembrar dela. Lembro-me: Era uma desconhecida, que um dia apareceu no hospital, durante os quase três meses onde passei para me salvar do incêndio. Ela se sentara, ficara um pouco calada, falara um pouco. Depois fora embora. E agora me telefonou para ser franca: Que eu não escreva no jornal nada de crônicas ou coisa parecida. Que ela e muitos querem que eu seja eu própria, mesmo que remunerada para isso. Que muitos tem acesso a meus livros e que me querem como sou no jornal mesmo. Eu disse que sim, em parte por que também gostaria que fosse sim, em parte para mostrar a Tereza, que não me parece semiparalítica, que ainda se pode dizer sim. Sim, meu Deus. Que se possa dizer sim.No entanto neste mesmo momento alguma coisa estranha aconteceu. Estou escrevendo de manhã e o tempo de repente escureceu de tal forma que foi preciso acender as luzes. E outro telefonema veio: De uma amiga perguntando-me espantada se aqui também tinha escurecido. Sim, aqui é noite escura às dez horas da manhã. E a ira de Deus. E se essa escuridão se transformar em chuva, que volte o dilúvio, mas sem a arca, nós que soubemos fazer um mundo onde viver e não sabemos na nossa paralisia como viver. Porque se não voltar o dilúvio, voltarão Sodoma e Gomorra, que era a solução. Por que deixar entrar na arca um par de cada espécie? Pelo menos o par humano Não tem dado senão filhos, mas não a outra vida, aquela que, não existindo, me fez amanhecer em cólera. Tereza, quando você me visitou no hospital, viu-me toda enfaixada e imobilizada hoje você me veria mais imobilizada ainda. Hoje sou a paralítica e a muda. E se tento falar, Sai um rugido de tristeza. Então não é cólera apenas? Não, é tristeza também.
Clarice Lispector (1920-1977)

No Mundo há Muitas Armadilhas

Marie Laurencin
No Mundo há Muitas Armadilhas
e o que é armadilha pode ser refúgio
e o que é refúgio pode ser armadilha

Tua janela, por exemplo,
aberta para o céu
e uma estrela a te dizer que o homem é nada
ou a manhã espumando na praia
a bater antes de Cabral, antes de Tróia

(há quatro séculos Tomás Bequimão
tomou a cidade, criou uma milícia popular
e depois foi traído, preso, enforcado)


No mundo há muitas armadilhas
e muitas bocas a te dizer

que a vida é pouca
que a vida é louca

E por que não a Bomba? te perguntam.
Por que não a Bomba para acabar com tudo, já
que a vida é louca?

Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
que não sabe

que afoito se entranha à vida e quer a vida
e busca o sol, a bola, fascinado vê
o avião e indaga e indaga


A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela.
E não te mataste, essa é a verdade.

Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar e aguentarás até o fim.

O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que sozinhos poderiam
alimentar a cidade
e os que não têm nem para o almoço de hoje

A estrela mente
o mar sofisma. De fato,
o homem está preso à vida e precisa viver
o homem tem fome
e precisa comer
o homem tem filhos
e precisa criá-los
Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las.

Ferreira Gullar

26 de fevereiro de 2010

“Não existe o esquecimento total:
As pegadas impressas na alma são indestrutíveis”.

Thomas Quincey (1785–1859)

Amar

Willem Haenraets
“Estar apaixonado é um estado” dizia Denis de Rougement; “amar, um ato.” O casal, quando sobrevive a coabitação, quando nela cresce, permite que passemos desse modo (o amor-paixão: aquele que sofremos) para esse ato (o amor-ação: que fazemos, cultivamos e assumimos). É preciso ser bem jovem ou bem ignorante para não ver nisso um progresso.
Estar apaixonado é sentir falta de alguém: I need you; te quiero… Amar é não sentir falta de nada: é fluir e regozijar-se de uma presença, de uma existência, de um amor. Cuidado, contudo, para, entre esses dois polos, não absolutizar a diferença. Não há nada mais relativo, nada mais flutuante que nossas histórias de amor.
Por força de nossa finitude, há sempre uma falta em nós, sempre paixão ou passividade, sempre dependência, sempre uma criancinha que busca um seio ou um amor. E quase sempre bastante força ou alegria para dá-lo, ao menos um pouco. “A criança só sabe pegar” dizia Svami Prajnânpad, “é o adulto que dá.” Isso pelo menos indica o caminho. Comumente, começamos por amar aquele ou aquela que não temos, que nos falta, que gostaríamos de possuir e conservar; depois aprendemos a nos regozijar, no melhor dos casos, com que ninguém jamais possuirá, que é a existência do outro, a liberdade do outro, o amor do outro… o casal não é o contrario da solidão: é um modo de vivê-la juntos, sem negá-la ou renegá-la, sem aboli-la ou atraí-la. “na medida em que somos nós”, escrevia Rilke,” o amor e a morte se aproximam. Também a solidão e o amor, na medida – sempre finita – em que vivemos.
Que tudo isso começa na sexualidade – no mais obscuro do homem e da mulher, no mais animal, no mais bestial, e nem por isso menos humano – é o que ninguém ignora e que constitui como que um prazer a mais, um distúrbio a mais, que nos fascina, que nos assusta, que nos move e que nos comove. Maravilhosa obscenidade dos corpos. Alegre repetitividade do desejo. Perturbadora intimidade das carícias. Esplendor da volúpia. E tanta violência, e tanta doçura, e tanta ternura! Poder de fluir. Poder de se regozijar. O sexo é uma noite e um sol. O amor – quando amor há – é sua luz e seu repouso.
André Comte-Sponville
Sou construída por emoções secretas.
Podem até comentar sobre mim,
mas me capturar,
só com minha permissão.

(Martha Medeiros)
Assim como protegemos nossa felicidade,
temos também que proteger nossa infelicidade.
Não há nada mais desgastante do que uma alegria forçada.
Se você está infeliz, recolha-se, não suba ao palco.
Disfarçar a dor é dor ainda maior.

Martha Medeiros

25 de fevereiro de 2010

“Quanto mais amor temos,
tanto mais fácil fazemos
a nossa passagem pelo mundo”.

Immanuel Kant (1724-1804)

Da humana condição

Portinari
Custa ao rico a entrar no Céu.
(Afirma o povo e não erra).
Porém muito mais difícil
É um pobre ficar na terra...

Mario Quintana (1906-1994)
"[...] Quando todas as cercas cairem,
todas as flores poderão desabrocharem juntas
em um jardim de esplendor incomparável,
um paraíso na terra. [...]"

Brian Weiss - in A Divina Sabedoria Dos Mestres
"Viver sem filosofar é o que se chama ter os olhos fechados sem nunca os haver tentado abrir".(René Descartes)
Filosofar é pensar por conta própria; mas só se consegue fazer isso de um modo válido apoiando-se primeiro no pensamento dos outros, em especial dos grandes filósofos do passado. A filosofia não é apenas uma aventura; também é um trabalho, que requer esforços, leituras, ferramentas.
dizia Kant: só se pode aprender a filosofar filosofando por conta própria: interrogando-se sobre seu próprio pensamento, sobre o pensamento dos outros, sobre o mundo, sobre a sociedade, sobre o que a experiência nos ensina, sobre o que ela nos deixa ignorar... Encontrar no caminho as obras deste ou daquele filósofo profissional, é o que se deve desejar. Com isso pensaremos melhor, mais intensamente, mais profundamente. Iremos mais longe e mais depressa. Mas esse autor, acrescentava Kant “não deve ser considerado o modelo do juízo, mas simplesmente uma ocasião de se fazer um juízo sobre ele, até mesmo contra ele”.
Toda filosofia é um combate. Sua arma? A razão. Seus inimigos? A tolice, o fanatismo, o obscurantismo. Seus aliados? As ciências. Seu objeto? O todo, com o homem dentro. Ou o homem, mas no todo. Sua finalidade? A sabedoria: a felicidade, mas na verdade. Tem pano para muita manga, como se diz; ainda bem, porque os filósofos gostam de arregaçá-las!
André Comte-Sponville

24 de fevereiro de 2010

“Traga sempre a lembrança o fato que você é um peregrino, e que o mundo não é mais que um lugar, e que as situações que você se encontra, ou cria para si, devem ser consideradas não somente do ponto de vista mundano, mas de uma busca para nós mesmos”.
Paul Brunton (1898-1981)

O Velho Novo Casamento

[Antoine Dieu -Um casamento arranjado
entre Luis XIV França e Maria Teresa Áustria]
No jogging diário, cruzo com três senhoras encantadoras: chapeuzinho protegendo do sol, roupas coloridas e uma pergunta no ar: como se casava no passado? Existia casamento, véu, grinalda, noiva virgem e tudo o mais? Respondo à mais curiosa delas: dona Conceição, viúva e agora "noiva", prestes a se casar novamente. Durante muito tempo - explico-lhe - não era óbvio que o casamento fosse obrigatoriamente monógamo e fundado no consentimento de duas pessoas.
Primeiro, dona Conceição, o casamento cristão é tão antigo quanto o cristianismo. Invenção medieval, casar-se na igreja só tornou-se corrente entre os séculos XII e XIII, progressivamente, unificando costumes muito diferentes.
No Velho Testamento, narrativas sobre a criação fecham-se com cenas emblemáticas sobre essa questão. Deus criou para o homem uma companheira, "carne de sua carne", para que fizessem "uma só carne", multiplicando-se sobre a Terra. E o Novo Testamento parece querer privilegiar o celibato. Os homens deveriam fazer-se "eunucos voluntários", diz Mateus, enquanto Paulo insiste sobre o valor superior da castidade. A continência - não na teoria, mas na prática - é, ainda, glorificada pelo celibato exemplar de Cristo e a virgindade de Maria.
Santo Agostinho, no entanto, deu uma definição positiva do casamento e ajudou a Igreja a sair do impasse: o casamento é um bem pois foi instituído por Deus desde o início do mundo e elevado por Jesus Cristo ao papel sublime de representar sua própria união com a Igreja.
Desde o século VI, dona Conceição, benzia-se o casal à porta ou no quarto nupcial, primeiro sentados e depois deitados na cama. Bênção precedida de um rito de purificação. Os noivos eram aspergidos com sal e proibidos de manter relações sexuais de três a trinta dias. A liturgia refletia a doutrina: a sexualidade era abençoada mas devia sofrer, antes, uma "limpeza". Contudo, nos dez primeiros séculos do cristianismo, a bênção nupcial não era uma obrigação para os cristãos.
O casamento era, em princípio, um engajamento civil e, como tal, dependente de diferentes tradições jurídicas ocidentais. No Direito Romano, retomado pelos canonistas do século XII, era o consentimento entre esposos que fazia o casamento. No Direito Germânico, havia pelo menos dois tipos de matrimônio. Um, no qual o esposo recebia do pai ou da família a tutela de sua esposa, tutela que era retribuída pela entrega de um dote. O ritual era obrigatoriamente público e fazia-se de acordo com um cerimonial cuidadoso. E existia, ao mesmo tempo, outro tipo de união, também reconhecida pelo Direito, na qual não havia nem transferência da tutela nem a doação de dote. Marido e mulher podiam, pois, separar-se sem problemas.
No final do século XI, os ritos familiares celebrados em casa transferiram-se para a entrada da igreja, podendo ou não ser seguidos da missa romana. O papel do padre foi se modificando, dona Conceição. De juiz da liberdade com o qual os esposos se escolhiam, ele passou também a entregar a jovem esposa ao futuro marido - antes, uma obrigação do pai, que os incitava a manter as mãos unidas. Já o padre dizia: "eu vos uno etc..." Foi quando apareceu o anel como símbolo da fidelidade e do amor, laço de unidade conjugal.
Em finais do século XII, o ritual do casamento era praticado em toda a Europa cristã. Justificado pelo Direito Canônico e pela teologia cristã, tinha sua própria liturgia, que reservava ao padre um papel muito importante. O consentimento válido não era mais o das famílias mas o dos noivos.
Como é que se casava no Brasil, há 300 anos, dona Conceição? Pelas leis da Igreja, aos 14 anos os rapazes podiam se casar; as meninas estavam aptas a partir dos 12 anos. Mas essa não era a regra. Estudos comprovam que, no Sudeste, a idade média era de 21,6 anos para os homens e 20,8 para as mulheres. Casamentos e batizados numa mesma família costumavam realizar-se no mesmo dia, sobretudo no interior. O padre ia à capela da fazenda e, num só dia, realizava as duas cerimônias.
Ao voltar para casa, os noivos eram recebidos com tiros de mosquetão, foguetes e cantorias que louvavam a comezaina e o baile que se seguiriam. Uma semana depois, um almoço ou "boda" encerrava as festas, que tinham farta distribuição de rapadura, aguardente e eram animadas por batuques e repeniques de viola. As pessoas evitavam casar-se no dia de Sant'Ana (26 de junho), pois acreditava-se que a noiva estaria fadada a morrer de parto. A superstição impedia ainda que as noivas vissem ou provocassem sangue, matando ave ou ajudando na cozinha, ou que saíssem de casa ou olhassem para trás no caminho da igreja.
Entre ciganos, no século XIX, após realizada a cerimônia na igreja, o casal dirigia-se à casa da esposa para a bênção paterna. Ali, a noiva recebia do parente mais velho uma camisa recoberta de bordados, que lhe era cobrada no dia seguinte com as marcas de sua virgindade. Espécie de "troféu do hímem", segundo um viajante estrangeiro de passagem pelo Brasil. A propósito, dona Conceição, virgindade não era o forte das noivas no período colonial, época em que muito poucas tinham condições financeiras de pagar um vestido nupcial para ir à igreja e em que a maioria entregava-se ao noivo nas redes e quintais das casas em troca de "promessa de casamento". O vestido, o buquê e a valorização da castidade feminina só chegaram no século XIX com o crescimento do modo de vida e dos valores burgueses.
Logo, em sua condição de viúva, posso assegurar-lhe que "historicamente" a senhora não representa novidade! Não se preocupe com grinalda, nem véu branco... e muitas felicidades, dona Conceição!
Mary Del Priore
Histórias do Cotidiano. São Paulo: Ed. Contexto
"Há de haver algum lugar
Um confuso casarão
Onde os sonhos serão reais
E a vida não.
Por ali reinaria meu bem
Com seus risos, seus ais, sua tez
E uma cama onde à noite
Sonhasse comigo.
Talvez
Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados.
Vão parar
Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava
Jamais."

(Chico Buαrque)
Dois grandes sorrisos que a China não quer ver juntos.
DUAS DAS PESSOAS com o sorriso fácil e contagioso se encontraram sob um clima de grande apreensão no xadrez político internacional: Barack Obama e o Dalai Lama.
Todo Mundo está hoje interessado em conquistar a simpatia da China pelo formidável tamanho de seu mercado interno consumidor. Fazer negócios na China é, hoje, um símbolo de prestígio entre as grandes empresas do mundo. Um grande empresário americano uma vez notou que, se você vender uma bicicleta a cada chinês, terá feito uma operação bilionária.
A China, recentemente, decidiu falar como superpotência. E o universo limpou os ouvidos para entender o que está sendo dito.
O encontro do presidente norte-americano, Barack Obama, com o líder espiritual dos tibetanos, Dalai Lama, foi marcado pela discrição.
René Magritte
“A alma só acolhe o que lhe pertence; de certo modo, ela já sabe de antemão tudo aquilo por que vai passar. Os amantes não contam nada de novo uns aos outros, e para eles também não existe reconhecimento. De fato, o amante não reconhece no ser que ama nada a não ser que é transportado por ele, de modo indescritível, para um estado de dinamismo interior. E reconhecer uma pessoa que não ama significa para ele trazer o outro ao amor como uma parede cega sobre a qual cai a luz do Sol. E reconhecer uma coisa inerte não significa identificar os seus atributos uns a seguir aos outros, mas sim que um véu cai ou uma fronteira se abre, e nenhum deles pertence ao mundo da percepção. Também o inanimado, desconhecido como é, mas cheio de confiança, entra no espaço fraterno dos amantes. A natureza e o singular espírito dos amantes olham-se nos olhos, e são as duas direções de um mesmo agir, um rio que corre em dois sentidos, um fogo que arde em dois extremos.
E então é impossível reconhecer uma pessoa ou uma coisa sem relação conosco próprios, pois o ato de tomar conhecimento toma das coisas qualquer coisa; mantêm a forma, mas parecem desfazer-se em cinzas por dentro, algo delas se evapora, e o que resta é apenas a sua múmia. É por isso também que não existe verdade para os amantes; seria um beco sem saída, um fim, a morte do pensamento que, enquanto estiver vivo, se assemelha à fímbria arfante de uma chama, onde se abraçam a luz e a escuridão. Como pode uma coisa iluminar onde tudo é luz? Para quê a esmola do que é seguro e inequívoco onde tudo é plenitude? E como podemos ainda desejar alguma coisa só para nós, ainda que seja aquilo que amamos, depois da experiência que nos diz que os amantes não se pertencem, mas têm de se dar em oferenda a tudo o que vem ao seu encontro e se oferece aos seus olhares entrelaçados?”
Robert Musil (1880-1942)
- “O Homem sem Qualidades”.

23 de fevereiro de 2010

Diferença

Christoffer Wilhelm Eckersberg
Por que
tanta suavidade, tanta
ternura, no começo
do nosso amor?
Por que tantos carinhos,
tantas delícias, depois?
E...por que, hoje, o teu
único prazer é dilacerar
o meu coração?
Por quê?

Omar Khayyám (1048-1131)

Mudança

Stephanie Pui-Mun Law
“Ocorreu uma mudança durante essas últimas semanas. Mas onde?
É uma mudança abstrata que não se fixa em nada.
Fui eu que mudei?
Se não fui eu, então foi esse quarto,
essa cidade, essa natureza;
é preciso decidir”.

Jean-Paul Sartre (1905-1980),
in A Náusea

Fastos

Phatpuppy Art & Photography
O Verão cantava sobre a sua rocha preferida
quando tu me apareceste,

o Verão cantava afastado de nós
que éramos silêncio, simpatia,
liberdade triste, mar
mais ainda do que o mar,cuja enorme comporta azul
brincava aos nossos pés.

O Verão cantava
e o teu coração nadava longe dele.
Eu beijava a tua coragem,
entendia a tua perturbação.

Estrada através do absoluto das vagas
em direção a esses altos picos de escuma
onde navegam virtudes assassinas
para as mãos que seguram as nossas casas.

Não éramos crédulos.
Éramos rodeados.

Os anos passaram.
As tempestades morreram.
O mundo partiu.

Sofria por sentir que era o teu coração que já não me conhecia.

Eu amava-te.
Na minha ausência de rosto e no meu vazio de felicidade.

Eu amava-te,
mudando em tudo,
fiel a ti.

René Char (1907-1988)
Tradução: Margarida Vale de Gato
“Ser ‘normal’ é talvez a coisa mais útil e conveniente com que podemos sonhar; mas a noção de ‘ser humano normal’, tal como o conceito de adaptação implica limitar-se à média (...). Ser ‘normal’ é o ideal dos que não tem êxito, de todos os que ainda se encontram abaixo do nível geral de adaptação. Mas para as pessoas dotadas de capacidades acima da média, que não encontram qualquer dificuldade em alcançar êxitos e em realizar sua quota-parte de trabalho no mundo, para estas pessoas a compulsão moral a não serem nada senão normais significa o leito de Procustro: mortal e insuportavelmente fastidioso, um inferno de esterilidade e de desespero.”
Carl Gustav Jung (1875-1961)

22 de fevereiro de 2010

Que fiz?

Kuzma Petrov
Passei a maior parte da minha vida enriquecendo uma longa espera pelos grandes acontecimentos. Agora compreendo a estranha inquietação, o trágico senso de fracasso, o profundo descontentamento. Eu estava esperando a hora de expansão, do viver verdadeiro. Todo o resto foi uma preparação para ficar apoiada em meus próprios pés novamente, para não depender de ninguém. Por quê? Medo de ser magoada mais uma vez...
Anaïs Nin (1903-1977)
Henri Rousseau - War
O Vosso tanque General, é um carro forte
Derruba uma floresta esmaga cem
Homens,
Mas tem um defeito
- Precisa de um motorista

O vosso bombardeiro, general
É poderoso:
Voa mais depressa que a tempestade
E transporta mais carga que um elefante
Mas tem um defeito
- Precisa de um piloto.

O homem, meu general, é muito útil:
Sabe voar, e sabe matar
Mas tem um defeito
- Sabe pensar.

Bertolt Brecht (1898-1956)

De heroína a vilã: Margaret Thatcher

A glória é efêmera: Thatcher em 1979, eleita primeira-ministra
Em 1979, Margaret Thatcher tornou-se a primeira mulher a dirigir uma democracia moderna, sendo eleita primeira-ministra do Reino Unido.
Thatcher é considerada junto com o ex-presidente norte americano Ronald Reagan, os dois maiores ícones do que é conhecido hoje como “Neoliberalismo”. Seguiam o lema: “Governo bom é governo que não intervém, que não socorre ninguém em apuros no mundo dos negócios”. O famoso ‘Estado Mínimo’.
Governou com pulso firme até 1990, ganhando o apelido de "Dama de Ferro", por suas posturas inflexíveis. Conseguiu bons indicadores econômicos, com o controle da inflação e a valorização da moeda. No entanto, não pôde evitar o aumento do desemprego.
Os anos 2000 diminuíram Thatcher. A crise econômica mundial mostrou o quanto mercados sem regulamentação podem ser perigosos. Grandes bancos internacionais, sem rédea nenhuma, se deixaram levar pela ganância e só não quebraram porque os governos os socorreram com muitos bilhões de dólares.
Nada é definitivo. Essa é a maior lição que se extrai das reviravoltas em relação ao prestígio de Margaret Thatcher. Hoje, aos 85 anos, tornada baronesa, ela está recolhida, em sua mansão londrina, e sofre de demência. Pergunta pelo marido morto e está longe do seu filho favorito, Mark, o homem imprestável que lhe deu dois netos para os quais ela jamais foi uma avó tal como concebemos uma. Os conservadores que ela levou ao poder depois de muitos anos sob os trabalhistas não falam dela. Mantêm distância de seu nome e de suas ideias e a colocam numa lista das 50 pessoas que arruinaram a Inglaterra.

21 de fevereiro de 2010

Dor Oculta

Quando uma nuvem nômade destila
gotas, roçando a crista azul da serra,
umas brincam na relva; outras, tranqüila,
serenamente entranham-se na terra.

E a gente fala da gotinha que erra
de folha em folha e, trêmula, cintila,
mas nem se lembra da que o solo encerra,
da que ficou no coração da argila!

Quanta gente, que zomba do desgosto
mudo, da angústia que não molha o rosto
e que não tomba, em gotas, pelo chão,

havia de chorar, se adivinhasse
que há lágrimas que correm pela face
e outras que rolam pelo coração!

Guilherme de Almeida (1860-1969)