30 de novembro de 2009

“Você é absolutamente único.
Assim como todos os demais”.

Margaret Mead (1901-1978)

O pássaro domesticado vivia na gaiola e, o pássaro livre, na floresta.
Mas o destino deles era se encontrarem, e a hora finalmente havia chegado.
O pássaro livre cantou: - Meu amor voemos para o bosque.
O pássaro preso sussurrou: - Vem cá, e vivamos juntos nesta gaiola.
O pássaro livre respondeu: - Entre as grades não há espaço para abrir as asas.
- Ah, lamentou o pássaro engaiolado - no céu não saberia onde pousar.
O pássaro livre cantou: - Amor querido, canta as canções do campo.
O pássaro preso respondeu: - Fica junto comigo, e eu te ensinarei as palavras dos sábios.
O pássaro da floresta retrucou: - Não, não! As canções não podem ser ensinadas!
E o pássaro engaiolado gemeu: - Ai de mim! Eu não conheço as canções do campo.
Entre eles o amor era sem limites, mas eles não podiam voar asa com asa.
Olhavam-se através das grades da gaiola, mas em vão desejavam se conhecer.
Batiam as asas ansiosamente, e cantavam: - Chega mais perto, meu amor!
Mas o pássaro livre dizia: - Não posso! Tenho medo da tua gaiola com portas fechadas.
E o pássaro engaiolado sussurrava: - Ai de mim! As minhas asas ficaram fracas e morreram.
Rabindranath Tagore (1861-1941)
Eastman Johnson
O nosso mundo vive demasiado sob a tirania do medo e insistir em mostrar-lhe os perigos que o ameaçam só pode conduzi-lo à apatia da desesperança. O contrário é que é preciso: criar motivos racionais de esperança, razões positivas de viver. Precisamos mais de sentimentos afirmativos do que de negativos. Se os afirmativos tomarem toda a amplitude que justifique um exame estritamente objetivo da nossa situação, os negativos desagregar-se-ão, perdendo a sua razão de ser. Mas se insistirmos em demasia nos negativos, nunca sairemos do desespero.
Bertrand Russell (1872-1970), in A Última Oportunidade do Homem
Franz von Stuck - Sisyphus
Acordar. Espreguiçar. Almoçar. Tomar banho. Vestir. Andar. Beber café. Andar outra vez. Descer escadas. Apanhar o metro. Inventar pensamentos no metro. Tomar ônibus. Despertar do sono criativo e sair do ônibus. Subir escadas. Subir outras escadas. Chegar ao trabalho. Sentar à frente do computador. Produzir. Pausa para almoço. Sentar novamente à frente do computador. Produzir. Sair do trabalho. Descer escadas rolantes. Descer escadas apenas. Apanhar o metro. Inventar pensamentos no metro (caso o dia de produção não tenha liquefeito a mente). Sair do metro. Subir escadas. Chegar a casa. Suspirar. Fazer jantar. Jantar. Ver programas estúpidos na televisão. Dormir.
Repetir tudo no dia seguinte e no dia depois de amanhã e em todos os dias depois desses.
Ser Sísifo no século XXI é mais difícil que rolar eternamente uma pedra de mármore até ao cume de uma montanha. Só não da pra enganar a morte como ele fez.

29 de novembro de 2009

Uma flor nasceu na rua!

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço de tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
Henri Lebasque - Woman Sewing
Em todos os jardins hei de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

Não julgues

Sir John Lavery
Habitas num recanto mínimo desta terra.
Os teus olhos chegam até onde alcançam muito pouco.
Ao pouco que ouves acrescentas a tua própria voz.
Mantém o bem e o mal, o branco e o negro,
Cuidadosamente separados.
Em vão traças uma linha
Para estabelecer um limite.
Se houver uma melodia escondida no teu interior,
Desperta-a quando percorreres o caminho.
Não julgues,
Ah, o tempo voa. E toda a discussão é inútil.

Rabindranath Tagore (1861-1941)

O Imortal

Ser imortal é coisa sem importância. Exceto o homem, todas as criaturas o são, porque ignoram a morte. O divino, o terrível, o incompreensível, é considerar-se imortal. Já notei que, embora desagrade às religiões, essa convicção é raríssima. Israelitas, cristãos e muçulmanos professam a imortalidade, mas a veneração que dedicam ao primeiro século prova que apenas crêem nele, e destinam todos os outros, em número infinito, para o premiar ou para o castigar.
Mais razoável me parece o círculo descrito por certas religiões do Indostão. Nesse círculo, que não tem princípio nem fim, cada vida é uma consequência da anterior e engendra a seguinte, mas nenhuma determina o conjunto... Doutrinada por um exercício de séculos, a república dos homens imortais tinha conseguido a perfeição da tolerância e quase do desdém. Sabia que num prazo infinito ocorrem a qualquer homem todas as coisas. Pelas suas passadas ou futuras virtudes, qualquer homem é credor de toda a bondade, mas também de toda a traição pelas suas infâmias do passado ou do futuro. Assim como nos jogos de azar as cifras pares e ímpares permitem o equilíbrio, assim também se anulam e se corrigem o engenho e a estupidez.
Jorge Luis Borges
(1899-1986)

28 de novembro de 2009

"Qualquer caminho é apenas um caminho e não constitui
insulto algum - para si mesmo ou para os outros –
abandoná-lo quando assim ordena o seu coração.
Olhe cada caminho com cuidado e atenção.
E tente-o tantas vezes quantas julgar necessário...
Então, faça a si mesmo uma pergunta:
Possui este caminho um coração?
Em caso afirmativo, o caminho é bom.
Caso contrário, esse caminho não possui importância alguma..."

Carlos Castañeda (1925-1998)
- Os ensinamentos de Don Juan
Sir Lawrence Alma-Tadema - Faust and Marguerite
Falai-me, ó pedras! oh falai, vós altos palácios!
Ruas, dizei uma palavra! Gênio, não te moves?
Sim, tudo tem alma nos teus santos muros,
Roma eterna; só para mim tudo se cala ainda.
Quem me diz segredos, em que fresta avisto
Um dia o ser belo que queimando me alivie?
Não pressinto ainda os caminhos, pelos quais sempre,
Pra ir dela e pra ela, sacrifique o tempo precioso?
Ainda contemplo igrejas, palácios, ruínas, colunas,
Homem composto, decoroso, que aproveita a viagem.
Mas em breve passa: então haverá um só templo,
O templo do Amor, que se abra e receba o iniciado!
És um mundo em verdade, ó Roma; mas sem o Amor
O mundo não era mundo, e Roma não era Roma.

Johann von Goethe (1749-1832)
A. Andrew Gonzalez
Assim eu te amo, assim; mais do que podem
Dizer-to os lábios meus, — mais do que vale
Cantar a voz do trovador cansada:
O que é belo, o que é justo, santo e grande
Amo em ti. — Por tudo quanto sofro,
Por quanto já sofri, por quanto ainda
Me resta de sofrer, por tudo eu te amo.
O que espero, cobiço, almejo, ou temo
De ti, só de ti pende: oh! nunca saibas
Com quanto amor eu te amo, e de que fonte
Tão terna, quanto amarga o vou nutrindo!
Esta oculta paixão, que mal suspeitas,
Que não vês, não supões, nem te eu revelo,
Só pode no silêncio achar consolo,
Na dor aumento, intérprete nas lágrimas.

Gonçalves Dias (1823-1864)

A Paixão Humana

Pino Daeni
A gama da paixão humana é quase ilimitada, atingindo alturas e profundidades impensáveis. Precisamente por abarcar tais extremos é a paixão a autêntica pedra de toque da nossa humanidade, e talvez também da nossa divindade.
De todas as criaturas da terra, o homem é a única de comportamento imprevisível.
Há em nós alguma coisa de toda a criação. Quando nos é negada a menor parcela de liberdade, ficamos espiritualmente limitados e mutilados. É a plena consciência da nossa natureza múltipla e a integração da miríade de elementos de que somos compostos que nos faz completos, que nos faz humanos.
A religião faz de nós santos, ou apenas bons cidadãos, mas o que faz de nós homens, o que nos faz humanos até ao âmago, é a liberdade. É uma palavra terrível, a liberdade, para aqueles que viveram toda a vida mentalmente algemados.
Henry Miller (1891-1980)

27 de novembro de 2009

Felicidade

Anne Geddes
“A felicidade é um bem que
se multiplica ao ser dividido”.

Marxwell Maltz (1899-1975)
Encontraste-me um dia no caminho
em procura de quê, nem eu o sei.
- Bom dia, companheiro, te saudei,
que a jornada é maior indo sozinho,

é longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei...
Na venda em que pousaste, onde pousei,
bebemos cada um do mesmo vinho.

É no monte escabroso, solitário.
Corta os pés como a rocha de um calvário,
e queima como a areia!... Foi no entanto

que choramos a dor de cada um...
E o vinho em que choraste era comum:
tivemos de beber do mesmo pranto.

Camilo Pessanha (1867-1926)
Maurice Denis
Como discutem e como gritam!
Como desconfiam e se desesperam!
Nunca param de brigar!
Que tua vida se ponha entre eles, inalterável e pura
Como uma língua de luz
E lhes imponha silêncio com sua formosura.
Que cruéis os torna a cobiça e o ciúme!
Violências disfarçadas sedentas de sangue são suas palavras.
Ponha-se entre suas corações irados e que
Teu olhar sublime caia sobre eles como cai a indulgente
Paz do anoitecer sobre a batalha do dia.
Deixe que olhem tua face
E que assim compreendam o sentido de todas as coisas.
Que te amem, e assim amem um ao outro.
Vem ocupar teu lugar nos braços do Eterno.
Abre e levanta teu coração ao nascer do sol, como uma nova flor.
E quando o sol se por, inclina tua cabeça e reze
Em silêncio a oração da tarde.

Rabindranath Tagore (1861-1941)
O escritor português José Saramago, Prêmio Nobel da Literatura, questiona a utilidade do Estado estimular a leitura, afirmando que "voluntarismos" não valem a pena no que "sempre foi e será coisa de uma minoria".
Segundo Saramago, atualmente se confunde a "instrução", ligada ao conhecimento, com a "educação", ligada aos valores. "Onde está a educação na escola em que os professores são agredidos, humilhados, desprezados?", questionou, dizendo que eles "são os heróis do nosso tempo". E fez uma recomendação: a leitura em voz alta deve ser encorajada na sala de aula.
"Quem manda no mundo não são os órgãos democráticos que são governados por poderes não democráticos, o poder do dinheiro".
(José Saramago)
E você? Concorda com ele?
A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça anistiou nesta quinta-feira (26/11) o educador Paulo Freire, morto em 1997. Segundo o órgão, Freire foi punido durante a ditadura militar por "identificar na alfabetização um processo de libertação dos oprimidos". As informações são do Ministério da Educação (MEC).
De acordo com o Ministério da Justiça, o método pedagógico de Freire, criado a partir de uma experiência em Angicos (RN), em 1963, quando 300 trabalhadores foram alfabetizados em 45 dias, seria levado a todo o País no ano seguinte com o Programa Nacional de Alfabetização. Contudo, o projeto foi cancelado com a instalação do regime militar.
A ditadura aposentou compulsoriamente o educador da cadeira de professor de História e Filosofia da Universidade Federal de Pernambuco. Freire ainda foi preso por 70 dias em Olinda (PE) e, depois, exilado.
Freire continuou desenvolvendo programas de educação no Chile, onde escreveu uma de suas principais obras: Pedagogia do Oprimido. O educador retornou ao Brasil somente 16 anos após o exílio. A viúva do educador, Ana Maria Araújo Freire, que entrou com o requerimento de anistia em 2007, vai receber R$ 100 mil.

Fonte: Portal Terra

26 de novembro de 2009

O problema não é inventar.
É ser inventado hora após hora
e nunca ficar pronta nossa edição convincente.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Haikai

Folha seca
sobre o travesseiro
acorda borboleta.

Alice Ruiz
Anita Malfatti-O Caminho da vida.
Ensaia um sorriso
e oferece-o a quem não teve nenhum.
Agarra um raio de sol
e desprende-o onde houver noite.
Descobre uma nascente
e nela limpa quem vive na lama.
Toma uma lágrima
e pousa-a em quem nunca chorou.
Ganha coragem
e dá-a a quem não sabe lutar.
Inventa a vida
e conta-a a quem nada compreende.
Enche-te de esperança
e vive á sua luz.
Enriquece-te de bondade
e oferece-a a quem não sabe dar.
Vive com amor
e fará um Mundo melhor.

Mahatma Ghandi (1869-1948)
Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d'água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.
Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.
Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.
Rubem Braga (1913-1990)
Texto extraído do livro "Ai de ti, Copacabana".

25 de novembro de 2009

“O bosque seria muito triste
se só cantassem os pássaros
que cantam melhor”.

Rabindranath Tagore (1861-1941)
Alguém diz:
"Aqui antigamente houve roseiras."
Então as horas
Afastam-se estrangeiras,
Como se o tempo fosse feito
de demoras.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

Soneto inglês nº 1

Renate Dartois
Quando a morte cerrar meus olhos duros
– Duros de tantos vãos padecimentos.
Que pensarão teus peitos imaturos
Da minha dor de todos os momentos?

Vejo-te agora alheia, e tão distante;
Mais que distante – isenta. E bem prevejo,
Desde já bem prevejo o exato instante
Em que de outro será não teu desejo,

Que o não terás, porém abandono,
Tua nudez! Um dia hei de ir embora
Adormecer no derradeiro sono.

Um dia chorarás... Que importa? Chora.
Então eu sentirei muito mais perto
De mim feliz, teu coração incerto.

Manuel Bandeira (1886-1968)