30 de agosto de 2009

“Ninguém pode nesta vida
ter satisfeitas as suas aspirações,
porque nunca um bem criado
sacia as aspirações humanas de felicidade”.

São Tomás de Aquino (1225-1274)

René Magritte
Não ter memória é o máximo da solidão.
Possuir memórias não compartilhadas,
diferentes do grupo do qual se está participando,
é como estar numa ilha cercado de impressões
alheias por todos os lados.
Fica-se a olhar o mar, pronto para acenar
ao primeiro navio que o atravesse.

José Roldão – in Memórias da infância dos outros
John P O'Brien
“O importante não é a casa onde moramos.
Mas onde, em nós, a casa mora”.

Mia Couto
Precisamos de você
Aprende – lê nos olhos,
Lê nos olhos – aprende
a ler jornais, aprende:
a verdade pensa com sua cabeça.

Faça perguntas sem medo,
não se convença sozinho
mas veja com seus olhos.
Se não descobriu por si
na verdade
não descobriu.

Confere tudo, ponto
por ponto – afinal
você faz parte de tudo,
também vai no barco,
“aí pagar o pato”, vai pegar o leme um dia.

Aponte o dedo, pergunta:
Que é isso? Como foi parar aí?
Por quê?
Você faz parte de tudo.

Aprende, não perde nada
das discussões, do silêncio.
Esteja sempre aprendendo
Por nós e por você.

Você não será ouvinte
Diante da discussão,
Não será cogumelo
De sombras e bastidores,
Não será apenas cenário
Para nossa ação.

Bertolt Brecht (1898-1956)
“Se você corrigir sua mente,
o resto da sua vida vai entrar nos trilhos.
Isto é porque a mente é o aspecto governante da vida humana.
Elimine o lodo mental e a obscuridade;
mantenha sua mente clara como cristal.
Aquiete suas emoções e resida em serenidade.”

– Hua Hu Ching (coleção de sabedoria Daoísta)
Mas... quem consegue isto?
Há 8 anos...
Um Sequestro mal explicado...
Em 30 de agosto de 2001 - O apresentador de televisão e empresário Silvio Santos é mantido como refém por sete horas seguidas por Fernando Dutra Pinto em sua casa. Nove dias antes, a filha de Silvio Santos, Patrícia Abravanel, foi seqüestrada na porta da própria casa, no Jardim Morumbi, em São Paulo pelo mesmo Fernando Dutra Pinto.
Depois de alguns dias de negociação, o resgate foi pago e Patrícia foi libertada. O sequestrador Fernando Dutra Pinto acabou sendo perseguido pela polícia e segundo a polícia, ele matou a tiros dois policiais. Sem ter para onde ir, acabou invadindo a casa de Silvio Santos novamente e o manteve refém.
O sequestro foi televisionado em rede nacional e até internacional por se tratar de um empresário, rico, conhecido e até querido pelo público.
Nas negociações que se seguiram até o governador do Estado na época Geraldo Alckmin, apareceu para garantir a integridade física do seqüestrador. O mundo todo viu e ouviu.
Paralelo a isso, a mídia noticiava que havia indícios, de que os policiais mortos extorquiram Fernando e o “roubaram”, e um outro matou os dois e ficou com o dinheiro, por isso colocaram a culpa no Fernando.
Alguns meses depois de preso, no dia 2 de janeiro, Fernando morreu em consequência de uma infecção generalizada causada por um corte profundo nas costas, feito pelos polícias deixando-o sem socorro e torturando-o para que infeccionasse e ele morresse.
Apesar do relatório elaborado pela ONG Comissão Teotônio Vilela de Direitos Humanos, o assunto foi “abafado” pela imprensa, mas por ai a gente vê que palavra de político não vale nada.
A integridade física de Fernando não durou 6 meses.

29 de agosto de 2009

“A vida é um eterno aprender.
O resumo? É o que fez ou não fez.
Quando pensa que tem o saber
Aí começa do zero, outra vez”.

José Antonio dos Santos

Pássaros ao por do sol

Tanto que fazer!
livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tudo quanto se esquece.

Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis...
até o fim do mundo assinando papéis.

E os pássaros detrás de grades de chuva.
E os mortos em redoma de cânfora.
(E uma canção tão bela!)

Tanto que fazer!
E fizemos apenas isto.
E nunca soubemos quem éramos,
nem para quê.

Cecília Meireles (1901-1964)
(....) É assim que a mulher exerce a sua tentação. As criaturas humanas trazem o que têm de mais magnífico para alimento dos deuses, não conhecem nada de mais magnífico que possam ofertar; também a mulher é um fruto para ser admirado, os deuses não conheciam nada que se lhe comparasse. Ei-la, aqui está, bem perto, presente, e, contudo infinitamente longe, escondida no pudor, até ao momento em que ela mesma trai o seu esconderijo, embora não saiba como; o astucioso delator não é ela, mas sim a própria existência. É travessa, como uma criança que brinca ás escondidas e que espreita do esconderijo, e, contudo a travessura dela é inexplicável, pois que ela própria nada sabe de tal coisa, e é sempre enigmática, enigmática quando esconde os olhos, enigmática quando envia o mensageiro do olhar que nenhum pensamento consegue seguir e as palavras ainda menos. E, contudo, se o olhar é o "intérprete" da alma, onde está afinal a explicação se também o intérprete fala de maneira inexplicável.
Soren Kierkegaard (1813-1855),
Tradução: José Miranda Justo

28 de agosto de 2009

Cântico Negro

Vincent van Gogh
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
ninguém me peça definições.
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

José Régio (1901-1969)
Há muito tempo, sim, que não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci: Olha, em relevo,
estes sinais em mim, não das carícias

(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que ao sol-posto
perde a sabedoria das crianças.

A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
“Deus te abençoe”, e a noite abria em sonho.

É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Will Durant

Van Gohg
A nossa cultura é hoje muito superficial, e os nossos conhecimentos são muito perigosos, já que a nossa riqueza em mecânica contrasta com a pobreza de propósitos. O equilíbrio de espírito que hauríamos outrora na fé ardente, já se foi: depois que a ciência destruiu as bases sobrenaturais da moralidade o mundo inteiro parece consumir-se num desordenado individualismo, refletor da caótica fragmentação do nosso caráter.
Novamente somos defrontados pelo problema atormentador de Sócrates: como encontrar uma ética natural que substitua as sanções sobrenaturais já sem influência sobre a conduta do homem? Sem filosofia, sem esta visão de conjunto que unifica os propósitos e estabelece a hierarquia dos desejos, malbaratamos a nossa herança social em corrupção cínica de um lado e em loucuras revolucionárias de outro; abandonamos num momento o nosso idealismo pacífico para mergulharmos nos suicídios em massa da guerra; vemos surgir cem mil políticos e nem um só estadista; movemo-nos sobre a terra com velocidades nunca antes alcançadas, mas não sabemos para onde vamos, nem se no fim da viagem alcançaremos qualquer espécie de felicidade.
Os nossos conhecimentos destroem-nos. Embebedem-nos com o poder que nos dão. A única salvação está na sabedoria.
Will Durant (1885-1981),
in “Filosofia da Vida”

27 de agosto de 2009

Wassily Kandinsky
A civilização moderna aparece na história como uma verdadeira anomalia: de todas que conhecemos, é a única que se desenvolveu num sentido puramente material, e também a única que não se apoia em qualquer princípio de ordem superior. Este desenvolvimento material, que vem já de vários séculos, e que se vai acelerando cada vez mais, tem sido acompanhado de uma regressão intelectual totalmente incapaz de ser compensada.
Um único exemplo permitiria medir a extensão dessa regressão: a Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino era, em seu tempo, um manual para uso dos estudantes; onde estão hoje os estudantes capazes de aprofundá-lo e assimilá-la?
O declínio não ocorreu de modo súbito: poderíamos seguir suas etapas através da filosofia moderna. Foi a perda ou o esquecimento da verdadeira intelectualidade que tornou possível dois erros que se opõem apenas na aparência, mas que são, na realidade, correlativos e complementares: o racionalismo e o sentimentalismo. Desde que se passou a negar ou a ignorar todo conhecimento puramente intelectual, como se fez a partir de Descartes, devia-se chegar, de um lado, ao positivismo, ao agnosticismo e a todas as aberrações do "cientíssimo", e, de outro lado, a todas as teorias contemporâneas que, não se contentando com o que a razão pode dar, buscam outra coisa, mas pela veia do sentimento e do instinto, isto é, abaixo da razão e não acima.
Com efeito, que interesse poderia ter a verdade num mundo em que as aspirações são apenas materiais e sentimentais?
René Guénon (1886-1951)
Filósofo Metafísico francês
Entre Deus-flor-beleza e
Deus-mel-nutrição
está Deus-abelha-trabalho.

Hermógenes
Não me cabe conceber nenhuma necessidade
tão importante durante a infância de uma pessoa
que a necessidade de sentir-se protegido por um pai.

Sigmund Freud (1856-1939)
Eu queria que os outros dissessem de mim:
Olha um homem! Como se diz:
Olha um cão! quando passa um cão;
como se diz: Olha uma árvore! Quando há uma árvore.
Assim, inteiro, sem adjetivos, só de uma peça: Um homem!

José de Almada Negreiros (1893-1970)

25 de agosto de 2009


“Viajar é trocar a roupa da alma”.
Mario Quintana (1906-1994)

Malu Delibo
Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

Que overdose desse reality - A Fazenda na TV.
E como inveja é vivível nos participantes que não se conformam em perder e não param de atacar o vencedor. Já foi... podiam mudar o discurso!
Aquela Baby mostrou como é grossa.
Imaginem se ninguém jogou por que é que foram lá?
Poupem-nos dessas baixarias.

24 de agosto de 2009

A Fotografia como Objeto da Memória

Hoje, um fato é incontestável: a fotografia, em suas múltiplas formas, se afirma cada vez mais como um modo de expressão, de informação e de comunicação, íntegra, essencial e específica. Nós a enxergamos em toda a parte sem, muitas vezes, enxergá-la realmente. Olhamos, sem ver. Ao longo das páginas da imprensa cotidiana e das revistas, a fotografia contribui tanto para o conhecimento dos fatos quanto para compor o visual de anúncios publicitários. E mais, num registro completamente diferente, nós a utilizamos para guardar a lembrança emocionada de acontecimentos íntimos e para, de alguma maneira, ilustrar nossa própria história, num quadro que se convencionou chamar “álbum de família”.
No espírito de muita gente, a fotografia está associada à ideia de documento. Quer dizer: ela serve para testemunhar uma realidade, e em seguida, para lembrar a existência desta mesma realidade. O tempo tem aqui um papel fundamental, em particular, do ponto de vista histórico e emocional, quando a fotografia é testemunha de mudanças, de transformações físicas e materiais, de desaparecimento de coisas ou de morte de entes queridos.
Ao “congelar” um instante da vida, o fotógrafo, por sua vez, coloca em evidência o antes e o depois da vida de uma pessoa. E a fotografia também nos incentiva a adivinhar aquilo que está fora do cenário fotografado, do campo visual do fotógrafo. E uma das qualidades da imagem fotográfica reside precisamente neste poder de evocação, no fato de que ela pode suscitar, naquele que observa, o desejo de conhecer mais, de imaginar, de reconstituir interiormente, a partir da visão de um destes momentos. A fotografia é uma forma de registro das atividades do homem. A comparação, por exemplo, de fotografias antigas e atuais tem um papel importante na percepção das mudanças que ocorreram na vida em função da passagem do tempo, da diferença de contextos, das alterações do ambiente, dos grupos de convivência.
Mary Del Priore
Historiadora

Big Bang

Uma das maiores descobertas dos homens foi sem dúvida o fato de que o Universo está em expansão. Por muito tempo pensou-se que, descontado o movimento aparente das estrelas devido à órbita da Terra ao redor do Sol, o Universo seria estático, imutável. O próprio Albert Einstein acreditava em um Universo estático, pois não havia evidências experimentais do contrário. Em 1929, o astrônomo americano Edwin Hubble observou que as galáxias estão se afastando de nós, ou seja, que o Universo está em expansão .
Para obter este resultado Hubble usou o chamado efeito Doppler. Todos que assistem a uma corrida de fórmula 1 percebem que os carros de corrida fazem barulhos diferentes se estão se aproximando ou afastando do microfone. O som é mais agudo quando eles estão se aproximando e mais grave quando se afastam do microfone. Este fenômeno ocorre com todos os tipos de onda, não apenas as ondas sonoras. Em particular, a luz, que é uma onda eletromagnética, também apresenta o efeito Doppler, mas o que muda é a cor associada à luz. Uma luz torna-se mais azulada ou avermelhada caso a sua fonte esteja se aproximando ou afastando do observador.

Herança

Max Weber-Vorgebirge
Eu vim de infinitos caminhos, e os
meus sonhos choveram lúcido pranto pelo chão.
Quando é que frutifica, nos caminhos infinitos,
essa vida, que era tão viva, tão fecunda,
porque vinha de um coração?
E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos,
do pranto que caiu dos meus olhos passados,
que experiência, ou consolo, ou prêmio alcançarão?

Cecília Meireles (1901-1964)
É o bom leitor que faz o bom livro; em cada livro, ele encontra trechos que parecem confidências ou apartes ocultos para qualquer outro e evidentemente destinados ao seu ouvido; o proveito dos livros depende da sensibilidade do leitor; a ideia ou paixão mais profunda dorme como numa mina enquanto não é descoberta por uma mente e um coração afins.
Ralph Waldo Emerson, in “Sociedade e Solidão”
Lê massacre de la Saint-Barthélemy - François Dubois
Em 24 de Agosto de 1572 ocorreu o Massacre de São Bartolomeu, um episódio sangrento na repressão dos protestantes na França pelos reis franceses, católicos. As matanças, organizadas pela casa real francesa, começaram na noite do dia em 24 e duraram vários meses, inicialmente em Paris e depois em outras cidades francesas, vitimando entre 30.000 e 100.000 protestantes franceses (chamados huguenotes).

23 de agosto de 2009

O homem não é nada em si mesmo.
Não passa de uma probabilidade infinita.
Mas ele é o responsável infinito dessa probabilidade.

Albert Camus (1913-1960)

Um bom lugar

Era um lugar em que Deus ainda acreditava na gente...
Verdade que se ia à missa quase só para namorar
mas tão inocentemente que não passava de um jeito,
um tanto diferente, de rezar enquanto, do púlpito,
o padre clamava possesso contra pecados enormes.
Meu Deus, até o Diabo envergonhava-se. Afinal de contas,
não se estava em nenhuma Babilônia... Era só uma cidade pequena,
com seus pequenos vícios e suas pequenas virtudes: um verdadeiro
descanso para a milícia dos Anjos com suas espadas de fogo.
- Um amor! Agora, aquela antiga cidadezinha está dormindo
para sempre em sua redoma azul, em um dos museus do Céu.

Mario Quintana (1906-1994)
Picasso - Blue Nude
Cada vez estou mais só
Mais abandonado.
Pouco a pouco quebram-se-me
Todos os laços
Em fé ficarei sozinho


O meu pior mal é que não consigo nunca
esquecer a minha presença metafísica na vida.


De aí a timidez transcendental que me atemoriza
Todos os gestos, que tira a todas as minhas frases
O sangue da simplicidade, da emoção direta.

Fernando Pessoa (1888-1935)
O mundo continua a perseguir
os ideais da Revolução Francesa:

Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Quem sabe um dia isso acontece!