31 de julho de 2009

Reflexão

Não procures muitos amigos, nem busques prolongar
a simpatia que alguém te inspirou;
antes de apertares a mão que te estendem,
considera se um dia ela não se erguerá contra ti.

Na feira que atravessas não procures amigos
ou abrigo seguro. Aceita a dor que não tem remédio
e sorri ao infortúnio; não esperes que te sorriam:
Seria tempo perdido.

Que o teu saber não humilhe o teu próximo.
Cuidado, não deixes que a ira te domine.
Se esperas a paz, sorri ao destino que te fere;
não firas ninguém.

Omar Khayyám (1048-1131)

Frederick Morgan - Ring a Roses
“Só aqueles que têm a paciência de fazer
as coisas simples com perfeição,
são aqueles que adquirem a capacidade de fazer
as coisas difíceis com facilidade”.

Friedrich Schiller (1759-1805)
Onde estão os teus olhos
– onde estão? –
Oh, milagre de amor
que escorres dos meus olhos!
Na água iluminada dos rios
da lua eu os vi descendo
e passando e fugindo
Iam como as estrelas da manhã.
Vem, eu quero os teus olhos, meu amor!

Vinicius de Moraes, (excerto)
Pedem-me um poema,
um poema que seja inédito,
poema é coisa que se faz vendo,
como imaginar Picasso cego?

Um poema se faz vendo,
um poema se faz para a vista,
como fazer o poema ditado
sem vê-lo na folha inscrita

Poema é composição
mesmo da coisa vivida,
um poema é o que se arruma,
dentro da desarrumada vida.

Por exemplo, é como um rio,
por exemplo, um Capibaribe,
em suas margens domado
para chegar ao Recife.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)
Para viajar basta existir.
Vou de dia para dia,
como de estação para estação,
no comboio do meu corpo,
ou do meu destino,
debruçado sobre as ruas e as praças,
sobre os gestos e os rostos,
sempre iguais e sempre diferentes,
como, afinal, as paisagens são.
(...)
A vida é o que fazemos dela.
As viagens são os viajantes.
O que vemos, não é o que vemos,
senão o que somos.

Fernando Pessoa (1888-1935)

Trecho do livro "Cinco Minutos".

Federico Andreotti - Moment In The Garden
"Tu dizes que me amas"!
"Juro-te!"
"Não te iludes talvez?"
"Se a vida não é uma ilusão, respondi, penso que não, porque a minha vida agora és tu, ou antes, a tua sombra."
"Muitas vezes toma-se um capricho por amor; tu não conheces de mim, como dizes, senão a minha sombra!..."
"Que me importa?..."
"E se eu fosse feia?"
"Tu és bela como um anjo!"
"Escuta, meu amigo; tu dizes que me amas; eu o creio, eu o sabia antes mesmo que me dissesses. As almas como as nossas quando se encontram se compreendem. Mas ainda é tempo; não julgas que mais vale conservar uma doce recordação do que entregar-se a um amor sem esperança e sem futuro?..."
"Não, mil vezes não! Não entendo o que queres dizer; o meu amor, o meu, não precisa de futuro e de esperança, porque o tem em si porque viverá sempre!..."
"Não pensas que melhor é esquecer do que amar assim?"
"Não! Amar, sentir-se amado, é sempre um gozo imenso e um grande consolo para a desgraça. O que é cruel, não é essa viuvez da alma separada de sua irmã; aí há um sentimento que vive, apesar da morte, apesar do tempo. É, sim, esse vácuo do coração que não tem uma afeição no mundo e que passa como um estranho por entre os prazeres que o cercam."
"Que santo amor, meu Deus! Era assim que eu sonhava ser amada!"
José de Alencar (1829-1877)

30 de julho de 2009

“É preciso muito cinismo
para que um casal
chegue às bodas de prata”.

Nelson Rodrigues
(1912-1980)

A única maneira de se livrar de uma tentação
é entregar-se a ela.
Resista, e sua alma fica doente de desejo
pelo que foi proibido.

Oscar Wilde (1854-1900)
Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,
E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...

Pablo Neruda (1904-1973)
Illustration - Georges Barbier
Cerrai-vos, olhos, que é tarde, e longe,
e acabou-se a festa do mundo:
começam as saudades hoje.

Longos adeuses pelas varandas
perdem-se; e vão fugindo em mármore
cascatas céleres de escadas.

Pelos portões não passam mais sombras,
nem há mais vozes que se entendam
nas distancias que o céu desdobra.

As ruas levam a mares densos.
E pelos mares fogem barcas
sem esperanças de endereços.

Cecília Meireles (1901-1964)

Rua da Felicidade

Vincent van Gogh
A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino é uma rua de poeta, reta, quieta, discreta,direita, estreita, bem feita, perfeita, com pregões matinais de jornais, aventais nos portais, animais e varais nos quintais; e acácias paralelas, todas elas belas, singelas, amarelas, douradas, descabeladas, debruçadas como namoradas para as calçadas; e um passo, de espaço a espaço, no mormaço de aço baço e lasso; e algum piano provinciano, quotidiano, desumano, mas brando e brando, soltando, de vez em quando, na luz rara de opala de uma sala uma escala clara que embala; e, no ar de uma tarde que arde, o alarde das crianças do arrabalde; e de noite, no ócio capadócio, junto aos lampiões espiões, os bordões dos violões; e a serenata ao luar de prata (Mulata ingrata que mata…); e depois o silêncio, o denso, o intenso, o imenso silêncio…
A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino é uma rua qualquer onde desfolha um malmequer uma mulher que bem me quer é uma rua, como todas as ruas, com suas duas calças nuas, correndo paralelamente, como a sorte diferente de toda gente, para a frente, para o infinito; mas uma rua que tem escrito um nome bonito, bendito, que sempre repito e que rima com
mocidade, liberdade, tranquilidade: RUA DA FELICIDADE…
Guilherme de Almeida (1860-1969)
No dia 24/07 o jornal “O Globo” publicou em sua primeira página esta foto aí de cima. São fraudadores dos EUA indo em cana. Dois prefeitos, deputados e vários rabinos, num total de 44 presos. Todos devidamente algemados.
Estranhei não ler nenhuma crítica do jornal sobre o uso abusivo das algemas e a exposição “humilhante” dos “supostos” (sempre supostos, até que morra o último juiz da última turma do STF) pilantras.
Mas fui até a matéria e entendi o motivo da omissão: os 44 fraudaram “apenas” US$ 3 milhões. Coisa pouca. Aqui no Brasil, somem centenas de milhões, às vezes alguns bi de dólares, e todos passeiam suas gravatas cor de rosa, livres das algemas e das prisões. Tudo isso foi decidido logo após a prisão (e posterior libertação) de Daniel Dantas.

Definitivamente, o que é bom para os Estados Unidos não é bom para o Brasil.

29 de julho de 2009

Van Gohg
“Tenho uma terrível necessidade
de religião. Então saio pela noite
e pinto as estrelas”.

Vincent van Gogh (1853-1890)

Starry, Starry Night
(Estrelada, Estrelada Noite)
Estrelada, estrelada noite
Pinte sua paleta azul e verde
Olhe ao redor em um dia de sol
Com olhos que conhecem a escuridão na minha alma
Sombras nas colinas
Desenhe árvores e narcisos
Pegue a brisa e a friagem do inverno
Em cores da terra enevoada

Agora eu entendo
O que você tentou me dizer
E o quanto você sofreu por causa da sua sanidade
E como você tentou libertá-los
Eles não ouviriam
Não saberiam como
Talvez escutarão agora

Estrelada, estrelada noite
Flores flamejantes que resplandece brilhantemente
Nuvens rodopiando e nevoeiro violento
Refletem nos olhos de Vincent, olhos azuis de porcelana
Cores mudam a coloração
Campos matinais de grãos ambarino
Suportando rostos alinhados em dor
São acalmadas pelas mãos amorosas dos artistas.
Ouça a música com Don McLean Starry, Starry Night
Hoje faz 219 anos que van Gogh morreu.
Van Gohg - Trigal com corvos
É fato amplamente conhecido que a morte do pintor holandês Vincent van Gogh (1853-1890), em 29 de julho de 1890, ocorreu dois dias após uma tentativa de suicídio com um tiro no peito.
Alguns dias depois de pintar Campo de Trigal com Corvos (1890), van Gogh sente-se extremamente deprimido e retorna à tarde ao campo de trigo, onde dá um tiro no peito. A bala perfura-lhe o tórax e faz um pneumotórax, mas não lesa grandes vasos. Ele consegue voltar para o quarto e se deita sem dizer nada a ninguém. Madame Ravoux, proprietária do café localizado no andar térreo do prédio onde ele está residindo, percebe sua ausência no café da manhã, vai ao quarto e o encontra moribundo. Ela chama o Dr. Gachet e comunica o ocorrido a seu irmão Theo. Van Gogh é atendido, mas não resiste, sendo seu corpo sepultado em 30 de julho de 1890.
Vinte anos depois, os ossos do irmão Theo - morto em 1891 - foram transladados para um túmulo ao lado do de van Gogh.

De Hipócrates a Ordinaire

O Absinto - Quadro de Degas
Hipócrates, o pai da medicina, receitava uma planta chamada Artemisia absinthium como tratamento para anemia, asma, reumatismo e cólicas menstruais. O primeiro registro documentado da bebida ocorreu em 1769, quando o jornal de Couvet, uma pequeno povoado no Val-de-Travers, um vale localizado na região oeste da Suíça, não muito distante da fronteira com a França, publicou o anúncio de um elixir medicinal fabricado por uma freira, a irmã Henriod, e batizado de “Bon Extrait d’Absinthe” (Bom Extrato de Absinto). O “Extrato” era feito à base de álcool, absinto, anis, erva-cidreira e outros ingredientes secretos. Segundo a religiosa, a bebida era eficaz contra bronquite, febre, problemas digestivos e cólicas.
Em 1792, um médico francês um refugiado da Revolução Francesa de nome Pierre Ordinaire se surpreendeu ao encontrar, nos campos suíços, a famosa espécie que aparecia em seus livros, afinal a Artemisia Absinthium era utilizada como elixir desde o antigo Egito!
Em seus estudos, Pierre Ordinaire percebeu que, ao se acrescentar álcool à infusão, se potencializava a ação vermicida do absinto. Isso nos lembra a história da Coca-Cola, vendida inicialmente como remédio até que alguém resolveu gaseificá-la, tornado-a um refrigerante consumido mundialmente.
Os intelectuais e artistas da época, inclusive van Gogh, elegeram então o absinto a bebida da moda. Vários pintores - dentre eles Paul Gauguin, Monet, Degas e Picasso - retrataram pessoas bebendo a "fada verde", apelido dado à bebida esverdeada, por causa da sensação de euforia que ela provocava.
O absinto é extremamente hepatotóxico e neurotóxico, daí ter agravado a loucura de van Gogh. Dentre os sintomas da intoxicação pela bebida está a "xantopsia", ou seja, a distorção visual que leva seu usuário a ver objetos na cor amarela. Se observarmos os quadros da série "Os Girassóis", por exemplo, veremos que a quantidade de girassóis vai aumentando e que o fundo fica mais amarelo à medida que o nível de intoxicação de van Gogh se eleva.

28 de julho de 2009

“Felicidade se acha
é em horinhas de descuido”.

Guimarães Rosa (1908-1967)

O sentido e a essência não se encontram
em algum lugar atrás das coisas,
senão em seu interior, no íntimo de todas elas.

Hermann Hesse (1877-1962)
Tarsila do Amaral - Segunda Classe
Se as necessidades básicas de alimentos de um vasto número de pobres permanecerem além deles, com uma ampla gama de conseqüências para seu bem-estar, provavelmente não terão alternativas a não ser levarem suas vozes às ruas.
Ernest Corea
Lavadeiras - Carybé
“Eu não conheço felicidade maior que a alegria de reconhecer-me nos demais. Talvez essa seja, para mim, a única imortalidade digna de fé. Reconhecer-me nos demais, reconhecer-me em minha pátria e em meu tempo, e também me reconhecer em mulheres e homens que são meus compatriotas, nascidos em outras terras, e reconhecer-me em mulheres e homens que são meus contemporâneos, vividos em outros tempos. Os mapas, as almas não têm fronteiras”.
Eduardo Galeano
(Quadro de Magritte)
“Este homem tem andado por aí, ora aflito, ora chateado, dispersivo, fraco, sem paciência, mais corajoso que audacioso, gastando-se como se gasta um cigarro. Este homem esqueceu muita coisa, mas há muita coisa que ele aprendeu contigo e que não esqueceu, que ficou, obscura e forte, dentro dele, no seu peito. Mar, este homem pode ser um mau filho, mas ele é teu filho, é um dos teus, e ainda pode comparecer diante de ti gritando, sem glória, mas sem remorso, como naquela manhã em que ficamos parados, respirando depressa, perante as ondas que arrebentavam - um punhado de meninos vendo pela primeira vez o mar...”.
Rubem Braga (1913-1990)
"Fragmento"

26 de julho de 2009

Darryl Trott
“Eu, que sou cega, posso dar uma sugestão aos que veem – um conselho àqueles que deveriam fazer completo uso do dom da vista: servi-vos dos vossos olhos como se amanhã fosseis cegar.
O mesmo princípio é válido para os restantes sentidos. Ouvi a música das vozes, o canto de uma ave, os poderosos acordes de uma orquestra, como se fosseis vítimas de surdez.
Tocai em tudo o que desejais tocar, como se amanhã viésseis a ficar privados da faculdade do tacto.
Aspirai o perfume das flores, saboreai com deleite os vossos alimentos, como se amanhã perdêsseis o olfato e o paladar”.
Helen Keller (1880-1968)
Mesmo sem mar e sem fim,
mesmo sem terra e sem mim.
Mesmo sem naus e sem rumos,
mesmo sem vagas e areias,
há sempre um copo de mar
para um homem navegar.

Jorge de Lima(1893 -1953)
Jacek Yerka
Há pessoas que desejam:
▸ saber só por saber, e isso é curiosidade;
▸ outras, para alcançarem fama, e isso é vaidade;
▸ outras, para enriquecerem com a sua ciência, e isso é um negócio torpe;
▸ outras, para serem edificadas, e isso é prudência;
▸ outras, para edificarem os outros, e isso é caridade.

São Tomás de Aquino (1225-1274)
Edgar Degas - Girl At Ironing Board
Coarar as emoções,
junto às camisas e lenços,
secando tudo isto,
para os poder usar
no serviço.

Coarar as emoções
febris e as elevadas
na grama ou laje de viver,
no quintal,
lavando estas peças
do bem e do mal,
amontoando-as
na bacia, ao fundo.

Talvez o sol.
Antes que tal suceda,
que as paixões sequem
e o medo e os pressentimentos
vindos, amiúde,
no tecido que fomos e somos,
as Parcas entrarão
para dentro do inverno
e nós esperaremos,
a depender do tempo,
do barro, dos elementos,
a depender de fios, atavios,
céu, inferno,
a depender da sorte
que nos recolhe
ao balde.

A alma! Que ferro de engomar
a desenrugue dos erros
e ela se limpe, ao menos!

Que o ferro alise
suas ênfases, tropeços.
E trace as imagens
nas emoções mais velhas,
nas que foram pisadas.
Esquecê-las!

O ferro de passar
no mundo inapreendido.
Depois,
coser botões caídos
ou quem sabe,
coser os símbolos
e a jubilação do dia.

Que a alma, ao menos,
saia sem vincos!

Carlos Nejar
A Criação de Deus como Trave aos Instintos
Hugo Simberg
Uma obrigação para com Deus: esta ideia foi, porém o instrumento de tortura. Imaginou-se Deus como um contraste dos seus próprios instintos animais (do homem) e irresistíveis e deste modo transformou estes instintos em faltas para com Deus, hostilidade, rebelião contra o “Senhor”, “Pai” e “Princípio do mundo”, e colocando-se galantemente entre “Deus” e o “Diabo” negou a Natureza para afirmar o real, o vivo, o verdadeiro Deus, Deus santo, Deus justo, Deus castigador, Deus sobrenatural, suplício infinito, inferno, grandeza incomensurável do castigo e da falta. Há uma espécie de demência da vontade nesta crueldade psíquica. Esta vontade de se achar culpado e réprobo até ao infinito; esta vontade de ver-se castigado eternamente; esta vontade de tornar funesto o profundo sentimento de todas as coisas e de fechar a saída deste labirinto de ideias fixas; esta vontade de erigir um ideal, o ideal de “Deus santo, santo, santo”, para dar-se melhor conta da própria indignidade absoluta… Oh, triste e louca besta humana!
A que imaginações contra natura, a que paroxismo de demência, a que a bestialidade de ideia se deixa arrastar, quando se lhe impede ser besta de ação!… Tudo isto é muito interessante, mas quando se olha para o fundo deste abismo, sentem-se vertigens de tristeza enervante. Não há dúvida de que isto é uma doença, a mais terrível que tem havido entre os homens e aquele cujos ouvidos sejam capazes de ouvir, nesta negra noite de tortura e de absurdo, o grito de amor, o grito de êxtase e de desejo, o grito de redenção por amor, será presa de horror invencível… Há tantas coisas no homem que infudem espanto! Foi por tanto tempo a terra um asilo de dementes!
Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900,
em “A Genealogia da Moral”.

Árvore adentro

Cresceu em minha fronte uma árvore.
Cresceu para dentro.
Suas raízes são veias,
nervos suas ramas,
Sua confusa folhagem pensamentos.
Teus olhares a acendem
e seus frutos de sombras
são laranjas de sangue,
são granadas de luz.

...................
Amanhece
na noite do corpo.
Ali dentro, em minha fronte,
a árvore fala.

......................................
Aproxima-te. Ouves?
Octavio Paz (1914-1998)
Tradução: Antônio Moura
John W.Waterhouse- Circe The Sorceress
“Agora vou escrever ao correr da mão: não mexo no que ela escreve. Esse é o modo de não haver defasagem entre o instante e eu: ajo no âmago do próprio instante. Mas de qualquer modo há alguma defasagem. Começa assim: como o amor impede a morte, e não sei o que estou querendo dizer com isto (…) Você tornou-se um eu (…) Como traduzir o silêncio do encontro real entre nós dois? (…) Tais momentos são meu segredo. Que estou fazendo ao te escrever? Estou tentando fotografar o perfume (…) Para te escrever eu antes me perfumo toda (…).
Nossa pele tem memória e o olfato guarda as recordações dos cheiros, dos odores que marcaram as descobertas de uma vida. Cheiro de chuva no fim de tarde, cheiro de bolinho de chuva coberto de açucar e canela, cheiro de infância. É possível voltar no tempo e fazer do tempo um grande ir e vir de instantes que se foram, conjugados com aqueles que ainda hão de vir com os novos sentidos despertos…
E quando o perfume é de mulher?
Cheiro de outro é aquela outra coisa que se mistura ao nosso entranhando-se como parte de nós mesmos.”

Clarice Lispector (1920-1977)