30 de junho de 2009

(Mary Dipnall)
Azuis e amarelas
borboletas preenchem o ar
que respiro
suas asas percorrem minha
pele,
entram em meu sangue,
deságuam nas mãos com que escrevo
este poema.

Roseana Murray
... Clamamos por aí, em botequins
e livros, "que o país é uma choldra".
Mas que diabo!
Porque é que não trabalhamos
para o refundir, o refazer
ao nosso gosto e pelo molde
perfeito das nossas ideias?...
Eça de Queirós (1845-1900)
(Os Maias)

28 de junho de 2009

Pode alguém dizer-me
até onde vai a minha vida?
Sou um sopro na tempestade,
uma onda no lago?
Ou serei, talvez,
essa branca e pálida bétula
arrepiada de primavera?

Rainer Maria Rilke (1875-1926)

Abismo

Filippo Palizzi
“Talvez o abismo nos engula
Talvez cheguemos a Atlântida
Talvez não tenhamos mais a força
de mover montanhas.
Mas somos o que somos”.

Alfred Lord Tennyson (1809-1892)
Não saber o que aconteceu
antes do teu nascimento
seria para ti a mesma coisa
que permanecer criança para sempre.

Marco Túlio Cícero (106 a.C - 43 a.C)

Gênesis

Francis Coates Jones
De mim não falo mais: não quero nada.
De Deus não falo: não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
pois nasce e morre em cada madrugada.

Nem de existir, que é a vida atraiçoada,
para sentir o tempo andar comigo;
nem de viver, que é liberdade errada,
e foge todo o Amor quando o persigo.

Por mais justiça ... - Ai quantos que eram novos
em vâo a esperaram porque nunca a viram!
E a eternidade...Ó transfusão dos povos!

Não há verdade: O mundo não a esconde.
Tudo se vê: só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais,todos mentiram.

Jorge de Sena (1919-1978)

A Difícil Arte de Ser Mulher

O filme Ágora", dirigido pelo chileno Alejandro Amenabar, a atriz inglesa Rachel Weiz, interpreta Hipácia, única mulher da Antiguidade a se destacar como cientista. Astrônoma, física, matemática e filósofa, Hipácia nasceu em 370, em Alexandria. Foi a última grande cientista de renome a trabalhar na lendária biblioteca daquela cidade egípcia. Na Academia de Atenas ocupou, aos 30 anos, a cadeira de Plotino. Escreveu tratados sobre Euclides e Ptolomeu, desenvolveu um mapa de corpos celestes e teria inventado novos modelos de astrolábio, planisfério e hidrômetro.
Neoplatônica, Hipácia defendia a liberdade de religião e de pensamento. Acreditava que o Universo era regido por leis matemáticas. Tais ideias suscitaram a ira de fundamentalistas cristãos que, em plena decadência do Império Romano, lutavam por conquistar a hegemonia cultural.
Em 415, instigados por Cirilo, bispo de Alexandria, fanáticos arrastaram Hipácia a uma igreja, esfolaram-na com cacos de cerâmica e conchas e, após assassiná-la, atiraram o corpo a uma fogueira. Sua morte selou, por mil anos, a estagnação da matemática ocidental. Cirilo foi canonizado por Roma.
O filme de Amenabar é pertinente nesse momento em que o fanatismo religioso se revigora mundo afora. Contudo, toca também outro tema mais profundo: a opressão contra a mulher. Hoje, ela se manifesta por recursos tão sofisticados que chegam a convencer as próprias mulheres de que esse é o caminho certo da libertação feminina.
Na sociedade capitalista, onde o lucro impera acima de todos os valores, o padrão machista de cultura associa erotismo e mercadoria. A isca é a imagem estereotipada da mulher. Sua autoestima é deslocada para o sentir-se desejada; seu corpo é violentamente modelado segundo padrões consumistas de beleza; seus atributos físicos se tornam onipresentes.
Onde há oferta de produtos - TV, internet, outdoor, revista, jornal, folheto, cartaz afixado em veículos, e o merchandising embutido em telenovelas - o que se vê é uma profusão de seios, nádegas, lábios, coxas etc. É o açougue virtual. Hipácia é castrada em sua inteligência, em seus talentos e valores subjetivos, e agora dilacerada pelas conveniências do mercado. É sutilmente esfolada na ânsia de atingir a perfeição.
Segundo a ironia da Ciranda da bailarina, de Edu Lobo e Chico Buarque, "Procurando bem / todo mundo tem pereba / marca de bexiga ou vacina / e tem piriri, tem lombriga, tem ameba / só a bailarina que não tem". Se tiver, será execrada pelos padrões machistas por ser gorda, velha, sem atributos físicos que a tornem desejável.
Se abrir a boca, deve falar de emoções, nunca de valores; de fantasias, e não de realidade; da vida privada e não da pública (política). E aceitar ser lisonjeiramente reduzida à irracionalidade analógica: "gata", "vaca", "avião", "melancia" etc.
Para evitar ser execrada, agora Hipácia deve controlar o peso à custa de enormes sacrifícios (quem dera destinasse aos famintos o que deixa de ingerir...), mudar o vestuário o mais frequentemente possível, submeter-se à cirurgia plástica por mera questão de vaidade (e pensar que este ramo da medicina foi criado para corrigir anomalias físicas e não para dedicar-se a caprichos estéticos).
Toda mulher sabe: melhor que ser atraente, é ser amada. Mas o amor é um valor anticapitalista. Supõe solidariedade e não competitividade; partilha e não acúmulo; doação e não possessão. E o machismo impregnado nessa cultura voltada ao consumismo teme a alteridade feminina. Melhor fomentar a mulher-objeto (de consumo).
Na guerra dos sexos, historicamente é o homem quem dita o lugar da mulher. Ele tem a posse dos bens (patrimônio); a ela cabe o cuidado da casa (matrimônio). E, é claro, ela é incluída entre os bens... Vide o tradicional costume de, no casamento, incluir o sobrenome do marido ao nome da mulher.
No Brasil colonial, dizia-se que à mulher do senhor de escravos era permitido sair de casa apenas três vezes: para ser batizada, casada e enterrada... Ainda hoje, a Hipácia interessada em matemática e filosofia é, no mínimo, uma ameaça aos homens que não querem compartilhar, e sim dominar. Eles são repletos de vontades e parcos de inteligência, ainda que cultos.
Se o atrativo é o que se vê, por que o espanto ao saber que a média atual de durabilidade conjugal no Brasil é de sete anos? Como exigir que homens se interessem por mulheres que carecem de atributos físicos ou quando estes são vencidos pela idade?
Pena que ainda não inventaram botox para a alma. E nem cirurgia plástica para a subjetividade.
Por Frei Beto

Apolo e Jacinto

Jean Broc - A morte de Jacinto
Apolo amava apaixonadamente um jovem chamado Jacinto. Acompanhava-o em suas diversões, levava a rede quando ele pescava, conduzia os cães quando ele caçava. Certo dia, os dois divertiram-se com um jogo e Apolo, impulsionando o disco, com força e agilidade, lançou-o muito alto no ar. Jacinto contemplou o disco e, excitado com o jogo, correu a apanhá-lo, ansioso por fazer a sua jogada, mas o disco saltou na terra e atingiu-o na testa. O jovem caiu desmaiado. O deus, pálido como Jacinto, ergueu-o e tratou de aplicar toda a sua arte para estancar o sangue e conservar a vida que se esvanecia, mas tudo em vão: o ferimento estava além dos poderes da medicina. Como um lírio, cujo haste quebrou-se num jardim, curva-se e volta para a terra suas flores, assim a cabeça do jovem moribundo, como se tivesse se tornado muito pesada para o pescoço, pendeu sobre o ombro.
- Morreste, Jacinto - exclamou Apolo -, roubado por mim de tua juventude. O sofrimento é teu, e meu o crime. Pudesse eu morrer por ti! Como, porém, isso é impossível, viverás comigo, na memória e no canto. Minha lira há de celebrar-te, meu canto contará teu destino e tu te transformarás numa flor gravada com minha saudade.
Enquanto Apolo falava, o sangue que escorrera para o chão e manchara a erva deixou de ser sangue; uma flor de colorido mais belo que a púrpura tíria nasceu, semelhante ao lírio, com a diferença de que é roxo, ao passo que o lírio é de uma brancura argêntea. E isso não foi bastante para Febo. Para conferir ainda maior honra, deixou seu pesar marcado nas pétalas, e nelas escreveu "Ai! Ai!", como até hoje se vê. A flor tem o nome de jacinto e, sempre que a primavera volta, revive a memória do jovem e lembra o seu destino.
Conta-se que Zéfiro (o vento oeste), que também amava Jacinto e tinha ciúme da preferência de Apolo, desviou o disco de seu rumo para fazê-lo atingir o jovem. Keats faz alusão a isso no "Endimião", quando descreve os espectadores do jogo de argolas:
Contemplam os jogadores dos dois lados
Lembrando, ao mesmo tempo,
A sorte de Jacinto, quando o sopro,
De Zéfiro o matou;
De Zéfiro que, agora, penitente,
Quando Febo se eleva
No céu, as pétalas da florzinha beija.

BULFINCH, Thomas.
O livro de ouro da Mitologia: histórias de deuses e heróis.
Rio de Janeiro: Ediouro.
Linda Le Kinff
Se convocarmos os demônios dos infernos devemos aproveitar para conversar com eles, antes que voltem às suas profundezas e nos esqueçamos de suas existências, em nossa comodidade cega.
Sigmund Freud [1856-1939]

27 de junho de 2009

Algumas flores
teimam em viver

apesar do peso
apesar da morte
apesar de algumas

que teimam em morrer
apesar de tudo.

Alice Ruiz
Acabei com tudo
Escapei com vida
Tive as roupas e os sonhos
Rasgados na minha saída.

Mas saí ferido,
Sufocando meu gemido,
Fui o alvo perfeito
Muitas vezes no peito atingido.

Animal arisco,
Domesticado esquece o risco,
Me deixei enganar
E até me levar por você.

Eu sei quanta tristeza eu tive,
Mas mesmo assim se vive
Morrendo aos poucos por amor.

Eu sei, o coração perdoa
Mas não esquece à toa
E eu não me esqueci.
Roberto Carlos
“Começa-se a escrever com gana, porém há um momento em que a pena não risca nada além de tinta poeirenta, e não escorre nem uma gota de vida, e a vida está toda fora, além da janela, fora de você, e lhe parece que nunca mais poderá refugiar-se na página que escreve, abrir um outro mundo, dar um salto. Quem sabe é melhor assim; talvez quando escrevia com prazer não era milagre nem graça: era pecado, idolatria, soberba. Então, estou fora disso tudo? Não, escrevendo mudei para melhor: consumi apenas um pouco de juventude ansiosa e inconsciente. De que me valerão estas páginas descontentes? O livro, o vazio, não valerá mais do que você vale. Não há garantias de que a alma se salve ao escrever. Escreve, escreve, e sua alma já se perdeu.”
Ítalo Calvino (1923-1985)
Ninguém merece um presidente do
Supremo Tribunal Federal, como este.

26 de junho de 2009

Luta de Classes

“A história da sociedade
até aos nossos dias é
a história da luta de classes”.

Karl Marx (1818-1883)

Semeio com minhas mãos,
Planto com os meus rins;
A chuva fina é muda.

Numa senda estreita,
Escrevo o meu segredo.
Meia-noite só há uma.

O eco é meu vizinho,
A bruma, a minha sequência.

René Char (1907-1988)
Tradução - Augusto Contador Borges
"De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantarem-se
os poderes nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar da virtude,
a rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto".

Rui Barbosa (1849-1923)

Fernando Gabeira

Gabeira usou Dinheiro Público para
Pagar Empresa da Mulher
“Fernando Gabeira, o líder da nova UDN, foi pego com a "boca na botija" (como a gente dizia na época do colégio). Gabeira, aquele que deu um verniz "pop" à velha direita moralista, admitiu que usou dinheiro público para pagar a empresa da mulher dele.
Incrível, não? Lembram do Gabeira com o dedo em riste, espinafrando o Severino Cavalcanti? A imprensa babava de alegria. O Severino é nordestino, tem jeito de matuto. O Gabeira mora na zona sul carioca. A neo-UDN vibrava com o Gabeira, lembram?
"A sua presença na Presidência da Câmara é um desastre para o Brasil e para a imagem do País. Ou Vossa Excelência começa a ficar calado, ou vamos iniciar um movimento para derrubá-lo", babava Gabeira em 2005. Na época, ele andava valente, porque a Globo punha o Gabeira toda noite no JN. Virou "fonte marcada para falar."
Esse caso do Gabeira me lembra aqueles padres que pregam a "retidão moral", condenam a "promiscuidade", mas apalpam uns garotinhos no fundo (sem trocadilho) da sacristia...
Agora, outra observação. Impressão minha, ou essa notícia sobre o Gabeira foi publicada sem nenhum destaque?
Não tenho lido muito jornal (problemas de azia), mas dei uma folheada aqui na redação, e não achei quase nada sobre essa história do Gabeira. Parece que a "Veja" publicou alguma coisa no fim-de-semana...
No "Estadão", nada na primeira página. Mas, pelo menos, o assunto foi parar no alto da página 7 desta terça-feira (23/06).
Na versão impressa da "Folha", a notícia quase sumiu. Saiu num "colunão" (pequena nota).

Imagine se o Gabeira estivesse no PT?

Ah! Manchete em todos os Jornais.

Segundo Descartes: “O pensamento é uma atividade mental organizada, com alto grau de liberdade, não limitada ao mundo físico. É um processo organizado de representação neural que forma um modelo mental para o planejamento, definição de estratégias, previsões e soluções de problemas. Este processo envolve a correlação e a integração de eventos críticos no tempo e no espaço”.
O elemento chave para o bem pensar ou pensar por nós mesmos é a reflexão. É uma volta sobre si mesmo.
Nossa mente pode ser comparada a um computador com muitos softweres e muitos arquivos, trabalhando em ritmo acelerado e contínuo, que precisa, vez por outra, parar e executar “desfragmentação”, “sacandisk”, limpeza de disco, passar um antivírus, enfim, cuidar de si mesmo.
No caso da mente, ela realiza em nós os procedimentos necessários para nossa otimização interior quando relaxamos, paramos a máquina do pensamento, permanecendo num estado meditativo, de serenidade e paz.

25 de junho de 2009

“Ora penso, ora existo!".
Paul Valéry (1871-1945)

Frida Kahlo
“Pensaram que eu era surrealista,
mas nunca fui.
Nunca pintei sonhos,
só pintei minha própria realidade”.

Frida Kahlo (1907-1954)
Mara Sicca
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

Em surdina

Calmo, na paz que difunde
a sombra dos altos ramos,
que o nosso amor se aprofunde
neste silêncios em que estamos.

Coração, alma e sentidos
se confundam com estes ais
que exalam, enlanguescidos,
medronheiros e pinhais.

Fecha os olhos mansamente
e cruza as mãos sobre o seio.
Do teu coração dolente
afasta qualquer anseio.

Deixemo-nos enlevar
ao embalo desta brisa
que a teus pés, doce, a arrulhar,
a relva crestada frisa.

E quando a noite sombria
dos carvalhos for baixando,
o rouxinol a agonia
da nossa alma irá cantando.

Paul Verlaine (1844-1896)
Tradução: Onestaldo de Pennafort
Jim Warren
O céu é sempre o mesmo: as nossas almas
É que se mudam, contemplando-o. É certo.
Umas vezes está cheio de palmas;
Outras vezes é só como um deserto.

Quem sabe quando vêm as horas calmas?
Quem sabe se a ventura vem bem perto?
Homem de carne infiel, em vão espalmas
As tuas asas pelo céu aberto.

O que nos cerca é a fugitiva imagem
Do que sentimos, do que longe vemos,
Sempre sofrendo, sempre em vassalagem.

A vida é um barco a voar. Soltem-se os remos...
Cada um de nós da morte é servo e pajem:
Somos felizes só porque morremos.

Alphonsus de Guimaraens (1918-2008)
Alfredo Volpi - Mogi das Cruzes
“Aqui vemos sonhos tirados de livros, aqui vemos um coração exasperado por teorias; aqui vemos a decisão de dar o primeiro passo, mas uma decisão de uma espécie particular — ele tomou a decisão, mas foi como se tivesse caído de uma montanha ou despencado de um campanário, e chegou ao crime como se não houvesse caminhado com as próprias pernas. Esqueceu-se de fechar a porta após entrar, e matou, matou duas pessoas, apoiado na teoria. Matou, mas não conseguiu se apoderar do dinheiro, e o que agarrou meteu debaixo de uma pedra. Achou pouca a aflição que suportou sentado atrás da porta enquanto tentavam arrebentá-la e puxavam o cordão da sineta — , não, depois foi ao apartamento, já vazio, meio delirando, relembrar aquela sineta, sentiu a necessidade de voltar a experimentar o frio na espinha... Bem, mas isso, suponhamos, aconteceu durante a doença, no entanto veja mais uma coisa: matou, mas se considera um homem honrado, despreza as pessoas, anda por aí como um anjo pálido.”
Fiódor Dostoiévski (1821-1881),
em Crime e Castigo.

24 de junho de 2009

Rachelle Anne Miller
“Lutai primeiro pela
alimentação e pelo vestuário,
e em seguida
o reino de Deus virá por si mesmo.”

Georg Hegel (1770-1831)

Há um murmúrio na floresta,
Há uma nuvem e não há.
Há uma nuvem e nada resta
Do murmúrio que ainda está
No ar a parecer que há.

É que a saudade faz viver,
E faz ouvir, e ainda ver,
Tudo o que foi e acabará
Antes que tenha de o esquecer
Como a floresta esquece já.

Fernando Pessoa (1888-1935)
Só nos momentos em que
exerço minha liberdade
é que sou plenamente eu mesmo:
ser livre significa ser eu mesmo.

Karl Jaspers
Peter Taylor Quidley
Aconteceu-me do alto do infinito
Esta vida. Através de nevoeiros,
Do meu próprio ermo ser fumos primeiros,
Vim ganhando, e través estranhos ritos

De sombra e luz ocasional, e gritos
Vagos ao longe, e assomos passageiros
De saudade incógnita, luzeiros
De divino, este ser fosco e proscrito...

Caiu chuva em passados que fui eu.
Houve planícies de céu baixo e neve
Nalguma cousa de alma do que é meu.

Narrei-me à sombra e não me achei sentido.
Hoje sei-me o deserto onde Deus teve
Outrora a sua capital de olvido...

Fernando Pessoa (1888-1935)