30 de abril de 2009

Cármida

Wilhelm von Gloeden – bacchanal
“Não (poderia) consentir que um homem, o qual não tenha conhecimento de si mesmo, possa ser sábio. Pois chegaria mesmo a dizer que justamente nisto consiste a sabedoria, em conhecer-se a si mesmo; e concordo com quem em Delfos colocou como inscrição a frase famosa”.
(Platão, "Cármida")

Irmandade

Fernando Botero
Sou homem: duro pouco
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.

Octavio Paz (1914-1998)
Tradução: Antônio Moura
Os indianos são um povo espiritualizado?
Quem são os Dalits?
Poucas pessoas no mundo tem experimentado um nível de abuso e pobreza como os 300 milhões de Dalits ou “intocáveis” da Índia.
Por 3.000 anos eles tem vivido num ciclo de discriminação e desespero sem esperança de escape. Para os Dalits, dor e sofrimento são parte da vida. Eles estão presos a um sistema de castas que nega a eles adequada educação, água potável, empregos com decente pagamento e o direito à terra ou à casa própria. A cada duas horas Dalits são assaltados e duas casas de Dalits são queimadas. A cada dia, dois Dalits são assassinados.
Líderes como Ram Raj tem vindo a frente exigindo justiça e liberdade da escravidão das castas e da perseguição. Um detalhada “Carta dos Direitos Humanos dos Dalits” foi redigida com apelos para a Comunidade Internacional e para a ONU, na esperança que isto colocaria um pressão positiva sobre o Governo Indiano. Mas pouco tem mudado – até recentemente.

Fatos sobre os Dalits:
• A cada dia, três mulheres Dalits são estupradas;
• Crianças Dalits são frequentemente forçadas a sentarem de costas nas suas salas de aula, ou mesmo fora da sala;
• A cada hora, duas casas de Dalits são queimadas;
• A maioria das pessoas das castas altas evitarão terem Dalits preparando a sua comida, por medo de se tornarem imundos;
• A cada hora, dois Dalits são assaltados;
• Em muitas partes da Índia, Dalits não são permitidos entrar nos templos e outros lugares religiosos;
• 66% são analfabetos;
• A taxa de mortalidade infantil é perto de 10%;
• A 70% são negado o direito de adorarem em templos locais;
• 57% das crianças Dalits abaixo da idade de quarto anos estão muito abaixo do peso;
• 300 milhões de Dalits vivem em Índia;
• 60 milhões de Dalits são explorados através do trabalho forçado;
• A maioria dos Dalits são proibidos de beber da mesma água que os de castas mais altas.
300 milhões de Dalits estão escravizados e sem esperança debaixo do julgo do hinduísmo.

Fonte: http://www.deusesharibow.blogspot.com/
Pois é ... acham que podemos chamar esse povo indiano de espiritualizados? É um absurdo, em pleno século 21, acontecer tamanha discriminação e o pior o povo exercer com orgulho este tipo de preconceito. A selvageria vem aliada com a hipocrisisa desta sociedade que posa de "light" e zen, para com o planeta. Um conceito torpe da criação é propagado e os mesmos bárbaros se justificam alegando que os Dalits são a poeira que sobrou depois de tudo pronto. Tamanha ignorância é descabida, insana, ditatorial, e repugnante.

29 de abril de 2009

“A amizade é o conforto indescritível
de nos sentirmos seguros com uma pessoa,
sem ser preciso pensar o que se pensa,
nem medir o que se diz”.

George Eliot (1819-1880)

Da Consicência

Marian Lopez
“Entre a execução de uma coisa abominável e o primeiro ímpeto, todo o ínterim é como um pesadelo, ou uma assombração. O espírito tutelar que nos guia desde quando nascemos e nosso corpo, seus mortais instrumentos, reúnem-se em conselho, e o estado do homem, como o de um pequeno reinado, padece assim com a natureza de uma insurreição”.
William Shakespeare (1564-1616)
em Júlio Cesar.
Por um momento apenas,
eu gostaria de brincar
nas arestas do tempo,
eu gostaria de ter
o tempo em minhas mãos.
E então, fracionaria as tristezas
em belos sentimentos,
multiplicaria as horas de alegria,
dividiria a saudade em retalhos
e lançaria tudo ao vento.
Do que restasse
desejaria apenas
a presença dos bons amigos.
Alex Mühlstedt

Amores de casa, amores da rua

Charles Courtney Curran
É certo que a ideologia moral expressa pelos estóicos "os que crêem que a felicidade está na virtude", durante os primeiros séculos de nossa era, antes da expansão do cristianismo, favorecia a procriação, a propagação da espécie, como fim e justificativa do casamento.
Muito amor, no entender de Jerônimo, confessor e doutor da Igreja, era justamente o amor sem reservas ou limites. E muito amor era ruim. Esse era um tipo de amor nefasto, pois equivalente à paixão dos amantes fora do casamento.
Um homem sábio devia amar sua mulher com discernimento e não com paixão.
E, por consequência, controlar seu desejo e não se deixar levar pelo prazer do sexo. “Nada é mais impuro do que amar sua mulher como a uma amante. Que eles se apresentem às suas mulheres como maridos e não, amantes”. O tom de Jerônimo, como vê o leitor, é o de um mandamento.
A velha e banal fórmula do “amor contido” no casamento e do “amor paixão” fora do casamento, de início concebida pelo estoicismo, não como uma prática, mas como a regra de um código moral, era aí aproveitada.
Mary Del Priori

28 de abril de 2009

Henri Rousseau
Preciso do teu silêncio
cúmplice sobre minhas falhas.
Não fale.
Um sopro, a menor vogal
pode me desamparar.
E se eu abrir a boca
minha alma vai rachar.
O silêncio, aprendo, pode construir.
É um modo denso/tenso
- de coexistir.
Calar, às vezes,
é fina forma de amar.

Affonso Romano de Sant'Anna
Se você não consegue entender o meu silêncio
de nada irá adiantar as palavras,
pois é no silêncio das minhas palavras
que estão todos os meus maiores sentimentos.

Se você não se atrasar demais,
posso te esperar por toda a minha vida...

Oscar Wilde (1854-1900)
Jeanne Lorioz
Talvez não amemos a vida o bastante. Já reparou que só a morte desperta nossos sentimentos? Como amamos os amigos que acabam de deixar-nos, não acha?! Como admiramos nossos mestres que já não falam mais, que estão com a boca cheia de terra! A homenagem vem, então, muito naturalmente, essa mesma homenagem que talvez tivessem esperado de nós durante a vida inteira. Mas sabe por que somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Em relação a eles, já não há obrigações. Deixam-nos livres, podemos dispor de nosso tempo, encaixar a homenagem entre o coquetel e uma doce amante: em resumo, nas horas vagas. Se nos impusessem algo, seria a memória, e nós temos a memória curta. Não, é o morto recente que nós amamos em nossos amigos, o morto doloroso, nossa emoção, enfim, nós mesmos!
Albert Camus (1913-1960)
- A Queda

27 de abril de 2009

Cançao da Indiazinha
NA, na,
mas porque chora essa menina?
Pela flor do maracujá.

Mas, se eu lhe der uma conchinha,
a menina se calará?
Aána, aáni na na.

Na, na,
se eu lhe der a asa da andorinha,
a cantiga do sabiá?
Aáni, aáni, na na

Na, na,
nada disse: que esta menina
quer a flor do maracujá.

Na, na.
E ela a quer apanhar sozinha!
E chora que chora a menina
pela flor do maracujá.
Na na.

Cecília Meireles (1901-1964)
O amor fino não há de ter "porquê" nem "para quê."
Se amo porque me amam, é obrigação, faço o que devo; se amo para que me amem é negociação, busco o que desejo;
Pois, como há de ser o amor para ser fino?
Amo porque amo e para amar.

Padre Antonio Vieira
Madalena – Erhart

...e lhe regou de lágrimas os pés,
e os enxugava com os cabelos da sua cabeça.

Evangelho de S. Lucas

Ó Madalena, ó cabelos de rastos,
Lírio poluído, branca flor inútil,
Meu coração, velha moeda fútil,
E sem revelo, os caracteres gastos,

De resignar-se torpemente dúctil,
Desespero, nudez de seios castos,
Quem também fosse, ó cabelos de rastos,
Ensanguentado, enxovalhado, inútil,

Dentro do peito, abominável cômico!
Morrer tranquilo, – o fastio da cama.
Ó redenção do mármore anatômico,

Amargura, nudez de seios castos,
Sangrar, poluir-se, ir de rastos na lama,
Ó Madalena, ó cabelos de rastos!

Camilo Pessanha - Clepsydra

Judá - A Contracepção e a Prostituição
Judá, o quarto filho de Israel,
deu origem à tribo mais notória dos israelitas: os judeus.
A sua história, no livro de Génesis,
tem também detalhes curiosos, no capítulo 38.
Resumo de Genesis 38
Judá teve três filhos: Er, Onã e Selá.
Er, o filho mais velho de Judá, casou-se com uma mulher chamada Tamar, mas morreu (castigado por Deus porque era mau!) sem lhe deixar filhos.
Judá então solicitou ao segundo filho, Onã, para se casar com Tamar de modo a dar-lhe filhos e que ela permanecesse na família. Onã ficou com Tamar, mas não quis dar-lhe filhos, por isso, cada vez que tinha relações com Tamar, derramava o seu sêmen no solo (praticava aquilo a que hoje chamamos de coito interrompido; a palavra “onanismo” vem do nome de Onã mas, na linguagem de hoje, está mais relacionada com masturbação do que com coito interrompido). Deus castigou-o por tal “pecado”, matando-o.
Judá ficou apenas com um filho, Selá, que ainda era muito novo para se casar, por isso ordenou que Tamar voltasse para a terra dela. Tamar, novamente sem família e sem herdeiros, resolveu disfarçar-se de prostituta, colocando-se no caminho de Judá, que seguia numa viagem. Judá não reconheceu Tamar e, como achou que esta era uma prostituta bem apetecível, fez negócio com ela: um cabrito em troca dos serviços sexuais. Mas, como Judá não dispunha de um cabrito para lhe dar imediatamente, Tamar exigiu-lhe como garantia o anel, entre outros objetos que Judá tinha.
Passado algum tempo, Judá tentou, em vão, encontrar a prostituta desconhecida para lhe dar o cabrito e reaver o anel e os outros objetos. Meses mais tarde, corria a notícia que Tamar tornara-se prostituta e que estava grávida, por isso Judá mandou prendê-la para ser queimada. Mas Tamar defendeu-se dizendo que tinha ficado grávida pelo proprietário de um certo anel e outros objetos que mostrou e, por isso, Judá foi obrigado a reconhecer-lhe o direito de pertencer à família.
Tamar deu à luz os gêmeos Peres e Zerá, sendo Peres considerado aquele que deu continuidade à família de Judá (sendo, portanto, antepassado do rei David e, segundo os evangelhos, de Jesus).
Esta burlesca novela, do capítulo 38 de Gênesis, foi estranhamente inserida no meio da saga de José, o irmão de Judá, que é contada nos capítulos 37 até ao 45, sendo interrompida por esta história de Judá e da sua nora Tamar.
A explicação pode ser a seguinte: a tribo de Judá sempre rivalizou com as outras tribos israelitas, principalmente com as tribos de Manassés e Efraim, que têm origem lendária nos dois filhos de José. A história de José pode ter sido redigida por um escriba pertencente a uma destas tribos inimigas de Judá e que tenha inserido esta história para depreciar os judeus, indicando que estes tiveram origem numa relação entre sogro e nora, considerada abjeta na lei israelita e punível com a morte (Levítico 18:15; 20:12).

26 de abril de 2009

René Magritte
Só não te percas ao entrar
no meu infinito particular.
Manoel de Barros
Os cartões-postais são tranquilos,
mas nas casas as pessoas sofrem.

Adélia Prado
Meu frágil coração, para que adoras,
Para que adoras, se não tens ventura?
Se uns olhos, de quem ardes na luz pura,
Folgando estão das lágrimas que choras?
Os dias vês fugir, voar as horas,
Sem achar neles a menor ternura;
E inda a louca esperança te figura
O premio dos martírios que devoras!
Desfaz as trevas dum funesto engano,
Que não hás de vencer a inimizade
De um gênio contra ti sempre tirano.
A justa, a sacrossanta divindade
Não força, não violenta o peito humano,
E queres constranger-lhe a liberdade?!

Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805)
Dan Beck
Tenho trabalhado tanto, por isso mesmo talvez ando pensando assim em você. Brotam espaços azuis quando penso. No meu pensamento, você nunca me critica por eu ser um pouco tolo, meio melodramático, e penso então tule nuvem castelo seda perfume brisa turquesa vime. E deito a cabeça no seu colo ou você deita a cabeça no meu, tanto faz, e ficamos tanto tempo assim que a terra treme e vulcões explodem e pestes se alastram e nós nem percebemos, no umbigo do universo. Você toca minha mão, eu toco na sua. Demora tanto que só depois de passarem três mil dias consigo olhar bem dentro dos seus olhos e é então feito mergulhar numas águas verdes tão cristalinas que têm algas na superfície ressaltadas contra a areia branca do fundo. Aqualouco, encontro pérolas.
Caio Fernando Abreu (1948-1996)

25 de abril de 2009

O homem é um reles animal, que se orgulha de ser racional.
Um tantinho emocional, mas seu instinto não nega.
Às vezes como canibais, devoram seus iguais,
e os diferentes? Segrega...
J B Ziegler
Um guerreiro da luz estuda com muito cuidado a posição que pretende conquistar. Por mais difícil que seja o seu objetivo, existe sempre uma maneira de superar os obstáculos.
Ele verifica os caminhos alternativos, afia a sua espada, procura encher o seu coração da perseverança necessária para enfrentar o desafio.
Mas, à medida que avança, o guerreiro dá-se conta de que existem dificuldades com as quais não contava.
Se ficar à espera do momento ideal, nunca sairá do lugar; é preciso um pouco de loucura para dar o próximo passo.
O guerreiro usa um pouco de loucura.Porque- na guerra e no amor - não é possível prever tudo...

Paulo Coelho - Manual do Guerreiro da Luz
“Havia um homem apaixonado pelas estrelas.
Para ver melhor as estrelas ele inventou a luneta.
Aí formou-se uma escola para estudar a sua luneta.
  • Desmontaram a luneta.
  • Analisaram a luneta por dentro e por fora.
  • Observaram os seus encaixes.
  • Mediram as suas lentes.
  • Estudaram a sua física ótica.
  • Sobre a luneta de ver as estrelas escreveram muitas teses de doutoramento.
  • E muitos congressos aconteceram para analisar a luneta.
Tão fascinados ficaram pela luneta que nunca olharam para as estrelas.”

Rubem Alves

24 de abril de 2009

Tristeza

Amedeo Modigliani
Eu perdi minha vida e o alento,
E os amigos, e a intrepidez,
E até mesmo aquela altivez
Que me fez crer no meu talento.
Vi na Verdade, certa vez,
A amiga do meu pensamento;
Mas, ao senti-la, num momento
O seu encanto se desfez.
Entretanto, ela é eterna, e aqueles
Que a desprezaram – pobres deles!
Ignoraram tudo de talvez.
Por ela Deus se manifesta.
O único bem que ainda me resta
É ter chorado uma ou outra vez.

Alfred de Musset (1810-1857)
Tradução: Guilherme de Almeida

Violoncelo

Jiri Borsky
Chorai, arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...
De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por debaixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.
Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas, (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...
Trêmulos astros...
Solidões lacustres...
– Lemes e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!
Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
– Chorai, arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

Camilo Pessanha (1867-1926)
O fogo e o calor fornecem meios de explicação nos mais diversos campos, pois facultam-nos o ensejo de recordar coisas imorredouras, experiências pessoais simples e decisivas. O fogo é, portanto, um fenômeno privilegiado que pode explicar tudo. Se aquilo que se modifica lentamente se explica através da vida, o que se modifica depressa é explicado pelo fogo. O fogo é ultravivo. O fogo é íntimo e universal. Vive no nosso coração. Vive no céu. Sobe das profundezas da substância e oferece-se como o amor. Volta a tornar-se matéria e oculta-se, latente, contido, como o ódio e a vingança. Entre todos os fenômenos, é ele realmente o único que pode aceitar as duas valorações opostas: o bem e o mal. Brilha no paraíso. Arde no Inferno. É doçura e tortura. É cozinha e apocalipse. É prazer para a criança que se senta com juízo à lareira; no entanto castiga qualquer desobediência de quem pretende brincar demasiado perto das chamas. É bem estar e respeito. É um deus tutelar e terrível, bom e mau. Pode contradizer-se: é portanto um dos princípios de explicação universal.
Gaston Bachelard (1884-1962)
Até que enfim, alguém disse ao Ministro Gilmar Mendes quem ele é,
e o que ele representa.
Parabéns Ministro Joaquim Barbosa.

23 de abril de 2009



“A metáfora é a guardiã da realidade”.

Adélia Prado
Pranto para comover Jonathan
Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.

Adélia Prado