30 de dezembro de 2009

Ano Novo

O Ano Novo ainda não tem pecado:
É tão criança...Vamos embalá-lo...
Vamos todos cantar juntos em seu berço de mãos dadas,
A canção da eterna esperança.

Mario Quintana (1906-1994)

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?)

Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta. Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados,começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um ano novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Cidade Prevista

Alexander Milioukov
Guardei-me para a epopéia
Que jamais escreverei.
Poetas de minas Gerais
E bardos do Alto Araguaia,
Vagos cantores tupis,
Recolhei meu pobre acervo,
Alongai meu sentimento.
O que escrevi não conta.
O que desejei é tudo.
Retomai minhas palavras,
Meus bens, minha inquietação,
Fazei o canto ardoroso,
Cheio de antigo mistério
Mais límpido e resplendente.
Cantai esse verso puro
Que se ouvirá no Amazonas,
Na choça do sertanejo,
No subúrbio carioca,
No mato, na vila X,
No colégio, na oficina,
No território de homens livres
Que será nosso país
E será pátria de todos.
Irmãos, cantai esse mundo
Que não verei,mas virá um dia,
Dentro de mil anos,talvez mais...
Não tenho pressa.
Um mundo enfim ordenado,
Uma pátria sem fronteiras
Sem leis e regulamentos,
Uma terra sem bandeiras,
Sem igrejas nem quartéis
Sem dor, sem febre, sem ouro
Um jeito só de viver,
Mas nesse jeito a variedade,
A multiplicidade toda
Que há dentro de cada um.
Uma cidade sem portas,
De casas sem armadilhas
Um país de riso e glória
Como nunca houve nenhum.

Este país não é meu
Nem vosso ainda, poetas.
Mas ele será um dia
O país de todo homem.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

29 de dezembro de 2009

A Casa

“A casa abriga quem vive sonhando acordado,
a casa protege o sonhador,
a casa permite que ele sonha em paz”.

Gaston Bachelard (1884-1962)

Reflexão

Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz. Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
Cecília Meireles (1901-1964)

Se às Vezes Digo que as Flores Sorriem

Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.

Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem.

Alberto Caeiro
Fernando Pessoa (1888-1935)

28 de dezembro de 2009

Sabedoria

Maxfield Parrish - Winter
O verdadeiro sábio é aquele que assim se dispõe que os acontecimentos exteriores o alterem minimamente.
Para isso precisa couraçar-se cercando-se de realidades mais próximas de si do que os fatos, e através das quais os fatos, alterados para de acordo com elas, lhe chegam.
Fernando Pessoa (1988-1935)

Na orla do mar

Paul Fischer
Na orla do mar,
no rumor do vento,
onde esteve a linha
pura do teu rosto
ou só pensamento
- e mora, secreto,
intenso, solar,
todo o meu desejo -
aí vou colher
a rosa e a palma.
Onde a pedra é flor,
onde o corpo é alma.

Eugénio de Andrade

As palavras

Van Gohg
“Na casa das palavras, sonhou Helena Villagra, chegavam os poetas. As palavras, guardadas em velhos frascos de cristal, esperavam pelos poetas e se ofereciam, loucas de vontade de ser escolhidas: elas rogavam aos poetas que as olhassem, as cheirassem, as tocassem, as provassem. Os poetas abriam os frascos, provavam palavras com o dedo e então lambiam os lábios ou fechavam a cara. Os poetas andavam em busca de palavras que não conheciam, e também buscavam palavras que conheciam e tinham perdido.
Na casa das palavras havia uma mesa das cores. Em grandes travessas as cores eram oferecidas e cada poeta se servia da cor que estava precisando: amarelo-limão ou amarelo-sol, azul do mar ou de fumaça, vermelho-lacre, vermelho-sangue, vermelho-vinho...”.
Eduardo Galeano, in o Livro dos Abraços

27 de dezembro de 2009

Reflexão

Quanto mais abstrata for a verdade
que queres ensinar,
mais tens que seduzir
os sentimentos a seu favor.

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900)

Texto

Marcela esteve nas neves do Norte. Em Oslo, uma noite, conheceu uma mulher que canta e conta. Entre canção e canção, essa mulher conta boas histórias, e as conta espiando papeizinhos, como quem lê a sorte de soslaio. Essa mulher de Oslo veste uma saia imensa, toda cheia de bolsinhos. Dos bolsos vai tirando papeizinhos, um por um, e em cada papelzinho há uma boa história para ser contada, uma história de fundação e fundamento, e em cada história há gente que quer tornar a viver por arte de bruxaria. E assim ela vai ressuscitando os esquecidos e os mortos; e das profundidades desta saia vão brotando as andanças e os amores do bicho humano, que vai vivendo, que dizendo vai.
Eduardo Galeano, in "O Livro dos Abraços."

O amor antigo vive de si mesmo

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede.
Nada espera, mas do destino vão nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.
Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mais pobre de esperança.
Mais triste?
Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

26 de dezembro de 2009

No mistério do Sem-Fim

Alexander Nicolajevich Averin
No mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro, uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de uma borboleta.

Cecília Meireles (1901-1964)

Todas as rosas são a mesma rosa

Todas as rosas são a mesma rosa,
Amor! A única rosa;
e tudo está contido nela,
breve imagem do mundo,
Amor! A única rosa.

Juan Ramón Jiménez (1881-1958)
Tradução: Manuel Bandeira

O Ramalhete

Jose Miguel Roman Frances
“Eu ando colhendo flores
Para a deusa dos amores,
Que além espera por mim.
Já tenho cravos cheirosos,
Não me deixes primorosos
E o branco e puro jasmim.

Tenho violetas dobradas,
Estas cravinas rajadas
E o fragrante mogorim:
Para ornar o ramalhete,
Tenho a sécia, o alfinete
E um galhinho de alecrim.

Só a rosa aqui me falta,
Que só ela me esmalta
Este tão lindo jardim!
Mas também para que rosas!
Se as tem nas faces mimosas
E em seus lábios de cetim!”

Gonçalves de Magalhães (1811-1882)

24 de dezembro de 2009

Natal

NATAL!... Quem louva Jesus,
Com júbilos imortais,
Suprime, esquece ou reduz
A morte dos animais.

Milton da Cruz

Também a vida é só um instante

Richard S. Johnson
Também a vida é só um instante,
apenas um dissolver-se,
de nós mesmos nos outros,
Como um dom que se faz.

Apenas um rumor de bodas que,debaixo,
irrompe pelas janelas,
nada além de um canto, um sonho,
uma pomba azul-cinzentada.

Boris Pasternak (1890-1960)

Passado não é Cronologia

O passado é um labirinto e estamos nele, um passado não tem cronologia senão para os outros, os que lhe são estranhos. Mas o nosso passado somos nós integrados nele ou ele em nós. Não há nele antes e depois, mas o mais perto e o mais longe. E o mais perto e o mais longe não se lê no calendário, mas dentro de nós.
Vergílio Ferreira (1916-1996)

Erros

"Erros são, no final das contas, fundamentos da verdade.
Se um homem não sabe o que uma coisa é,
já é um avanço do conhecimento saber o que ela não é."

Carl Gustav Jung (1875-1961)

23 de dezembro de 2009

Poesia

Há o momento de chegada
E o instante de partida
Quanta vida já vivi
Quanto resta a ser vivida?

São dois espelhos quebrados
Dois vezes sete de má sorte
Já vivi quatorze anos
Quanto resta para a morte?

É fácil vê-la chegar
Em cada momento que passe
Pois se começa a morrer
No momento em que se nasce

Estou caminhando pra morte
Não decidi meu nascer
Da morte não sei o dia
Mas posso saber!

Pedro Bandeira

Meio ambiente

Trecho de 'A Escolha de Sofia'

Charles Edward Perugini
Segundo Aristóteles, a filosofia surgiu da capacidade que os homens têm de se surpreender. O homem acha tão estranho viver, que as perguntas filosóficas surgem por si mesmas. (...)
A capacidade de nos surpreendermos é a única coisa de que precisamos para nos tornarmos bons filósofos.
Todas as crianças possuem essa capacidade, isso é óbvio. Com poucos meses de vida, começam a aperceber-se de uma realidade completamente nova. Mas quando cresce, esta capacidade parece diminuir. (...) Muito antes que a criança aprenda a falar corretamente (...) o mundo tornou-se para ela algo habitual. É pena.
(...) Perdemos durante a nossa infância a capacidade de nos surpreendermos com o mundo. Mas com isso, perdemos algo essencial - algo que os filósofos querem reavivar.
Porque em nós algo nos diz que a vida é um grande mistério. Já tivemos essa sensação muito antes de termos aprendido a pensar nisso.
(...) Apesar de todas as questões filosóficas dizerem respeito a todos os homens, nem todos os homens se tornam filósofos. Por diversos motivos, a maior parte está presa de tal forma ao quotidiano que o espanto perante a vida é muito escasso. (...)
Para as crianças, o mundo - e tudo o que existe nele - é uma coisa nova, uma coisa que provoca estupefação. Os adultos não o vêem assim. A maior parte dos adultos vê o mundo como qualquer coisa completamente normal.
Os filósofos constituem uma exceção notável. Um filósofo nunca se conseguiu habituar completamente ao mundo. Para um filósofo ou para uma filósofa o mundo é ainda incompreensível, inclusivamente enigmático e misterioso. Os filósofos e as crianças pequenas possuem uma importante qualidade em comum. “Podes dizer que um filósofo permanece durante toda a sua vida tão capaz de se surpreender como uma criança pequena.”
E agora tens que decidir, cara Sofia: és uma criança que ainda não se habituou ao mundo? Ou uma filósofa que pode jurar que isso nunca lhe acontecerá?
Se simplesmente abanas a cabeça e não te sentes nem como criança nem como filósofa, é porque te acostumaste tão bem ao mundo que este já não te surpreende. Nesse caso, o perigo está eminente. (...) Não quero que tu pertenças ao clube dos apáticos e indiferentes. Quero que vivas a tua vida de modo consciente.
“A capacidade de nos surpreendermos é a única coisa de que precisamos para nos tornarmos bons filósofos.”
Jostein Gaarder,
in "O Mundo de Sofia".


E se você estivesse na pele da Sofia, qual seria a sua escolha?

22 de dezembro de 2009

A Boneca

Deixando a bola e a peteca,
Com que inda há pouco brincavam,
Por causa de uma boneca,
Duas meninas brigavam.
Dizia a primeira: "É minha!"
— "É minha!" a outra gritava;
E nenhuma se continha,
Nem a boneca largava.
Quem mais sofria (coitada!)
Era a boneca.
Já tinha Toda a roupa estraçalhada,
E amarrotada a carinha.
Tanto puxaram por ela,
Que a pobre rasgou-se ao meio,
Perdendo a estopa amarela
Que lhe formava o recheio.
E, ao fim de tanta fadiga,
Voltando à bola e à peteca,
Ambas, por causa da briga,
Ficaram sem a boneca...

Olavo Bilac (1865-1918)

A André Masson

Corey Ford
Com peixes e cavalos sonâmbulos
pintas a obscura metafísica
do limbo.

Cavalos e peixes guerreiros
fauna dentro da terra a nossos pés
crianças mortas que nos seguem
dos sonhos.

Formas primitivas fecham os olhos
escafandros ocultam luzes frias;
invisíveis na superfície pálpebras
não batem.

Friorentos corremos ao sol gelado
de teu país de mina onde guardas
o alimento a química o enxofre
da noite.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

Dinâmica da vida

O primeiro olhar da janela de manhã
O velho livro de novo encontrado
Rostos animados
Neve, o mudar das estações
O jornal
O cão
A dialética
Tomar ducha, nadar
Velha música
Sapatos cômodos
Compreender
Música nova
Escrever, plantar
Viajar, cantar
Ser amável.

Bertolt Brecht (1898-1956)