31 de outubro de 2008

“O homem que aprendeu
a arte de
manter-se dentro de si mesmo
encontrou a paz”.

Paul Brunton (1898-1981)

Surpresas

Este menino tem sempre
Cinquenta surpresas nos bolsos:
Uma pedrinha encardida que,
Diz ele, dá sorte na vida.
Uma bala amassada
Que para alguma emergência
Ele traz guardada.
Uma viagem de volta ao mundo
Em um segundo
E uma entrada (permanente)
Para o circo que fica montado
Dentro de seu pensamento.

Roseana Murray
Às vezes da saudades dos tempos da antiga URSS. Lembranças nostálgicas dos países do leste europeu que integravam o antigo bloco soviético, o som da expressão cortina de ferro.
Outro dia, numa destas reuniões de condomínio - evento o qual, curiosamente há mais brigas ou conversas triviais que propriamente discussão sobre as necessidades do edifício, um morador manifestou-se apreensivo referente à formação dos seus filhos. Contou que ao mencionar a expressão marxismo–socialismo científico, referindo-se à doutrina criada por Marx e Engels, os jovens indagaram-lhe se aquilo era uma nova tendência do rock.
E pensar que, no Brasil, houve um tempo em que revelar-se comunista era sinônimo de prestígio intelectual e de sucesso entre as garotas. "O quê? Ele é comunista? Menina, que chique, hein?" - admirava-se uma amiga, em conversa acerca do novo namorado da outra.
Ainda me lembro dos primórdios da faculdade, no restaurante da Universidade Federal da Bahia, no Café, após o almoço, de debates acalorados sobre quem situava-se mais à esquerda na ideologia comunista. "Eu sou da corrente trotskista", vangloriava-se um; "eu, leninista", gabava-se outro; "fulano, é stalinista", afirmava alguém; "pois sicrano, é da linha albanesa". Ohhhh!!!, clamavam todos, em uníssono. Pois é, ser da linha albanesa era assim como uma espécie de ás de um jogo de cartas. Na categoria intolerância ao capitalismo e à burguesia, ganhava de todas as outras vertentes.
Hoje, não há mais contexto para se produzir um filme, como por exemplo, Moscou Contra 007 (From Russia With Love). Por outro lado, suponho que a produção de novas aventuras utilizando-se do cenário da antiga URSS estariam destinadas ao fracasso. Imagino os diálogos da turma com menos de trinta, após o término do filme: "Pô, véio! Filme ruim. KGB, Kremlin... os caras citam umas bandas que não passa na MTV". E ainda que nos últimos anos não houvesse mais motivos para espionagem, contudo, os caras de Los Angeles ainda insistem com a personagem. O último filme desta série, Cassino Royale, tem locações em Madagascar, além de exibir um 007 brutamontes e mais burro que uma toupeira psiônica1. Madagascar, afinal que diabos tem para se espionar por lá? Nada! Nos antigos filmes de piratas estrelados por Errol Flynn e Burt Lancaster, esta ilha servia de esconderijo para saques.
Por falar em espionagem, com a queda do muro de Berlim julguei encerrada a carreira do escritor John Le Carré, meu autor favorito de romances deste gênero. Em 1989, ao ser arrancado o primeiro tijolo do Mauer - como os alemães chamavam o muro, Le Carré perdeu o seu tema: o universo dos agentes secretos. E agora? Escreveria sobre o quê?
Mas talento é talento, assim, há poucos anos, John Le Carré escreveu um ótimo livro, O Jardineiro Fiel (The Constant Gardener), por sinal, gerador de uma adaptação para um filme de mesmo nome. No entanto, esta produção nada tem a ver com guerra fria ou espionagem, é focada em experiências não-confessáveis no Quênia, patrocinada por uma espécie de divisão cosa nostra da poderosa indústria farmacêutica norte-americana.
O fim da URSS e do chamado bloco soviético, não serviu apenas para riscar os romances de espionagem da lista de best-sellers; nem de obrigar os cartógrafos da geopolítica a fazerem horas extras; além de encerrar a linha de produção daquele pequeno automóvel fabricado na RDA, o Trabant, ou Trabbi, para os íntimos (veja foto acima), um carrinho feio de doer, todavia, mais simpático que uma Mercedes F700. A sua queda libertou o dragão da cobiça apocalíptica, ou seja, substituiu o famoso chavão dos Três Mosqueteiros "um por todos, todos por um", por "salve-se quem puder". Neste vórtice neoliberal, ainda desmoralizou a ONU; potencializou os poderes do destemido xerife Wyat Earp com novas técnicas de chutar cachorro morto; e, como uma prostituta sagaz, seduziu o luxuoso socialismo do oeste europeu, tentando-o com a sensação maravilhosa - num futuro próximo, de se respirar ar privatizado; mas eis que estamos vivendo uma crise economia financeira mundial que começou no pais todo poderoso USA e agora alastra-se para o Universo. E não é que os empresários estão pedindo “bolsa-empresa” para o governo?
Que coisa! Quem viveu a outra fase e agora está nessa fica como eu embasbacada, sentido o peso dos tempos e lendo Leonardo Boff que afirma que estamos numa “Crise de Humanidade”.

30 de outubro de 2008

“Um único instante de amor
reabre o éden fechado”.

Victor Hugo (1802-1885)

Ontem à noite

Fotografo: Joao Estevão Andrade De Freitas (Jefras)
Ontem - sozinhos - eu e tu sentados,
Nos contemplamos quando a noite veio:
Queixosa e mansa a viração dos prados
Beijava o rosto e te afagava o seio,
Que palpitava como ao longe o mar...
E lá no céu esses rubis pregados
Brilhavam menos que teu vivo olhar!

Com a mão nas minhas, no silêncio augusto,
Tu me falavas sem mentido susto,
E nunca a virgem que a paixão revela,
Passou-me em sonhos tão formosa assim!
Vendo essa noite pura, e a ti tão bela,
Eu disse aos astros: - dai o céu a ela!
Disse teus olhos: - dai amor pr'a mim!

Victor Hugo (1802-1885)
Tradução de: Casimiro de Abreu
Rafal Olbinski
Nunca encontrei uma pessoa oca. Nunca encontrei uma vida sem significado quando se procura realmente o seu significado. É esse o perigo de dizer que não procuramos, porque foi assim que chegamos ao ponto em que sentimos que a vida não tinha qualquer significado. Bem vê, nós repudiamos tantas formas de terapia. Quer dizer, tantos de nós repudiam atualmente a filosofia, a religião ou qualquer outro padrão que nos mantinha coesos anteriormente. Repudiamos tudo. Até repudiamos a terapia da arte. Por isso não nos restou realmente mais que olhar para dentro, e os que o fazem descobrem que toda a vida tem significado porque a vida tem significado. Fomos seriamente prejudicados por pessoas que disseram que a vida era irracional e de qualquer modo não significava nada. Mas assim que começamos a olhar, descobrimos o padrão e descobrimos a pessoa. Nunca encontrei aquilo a que se poderia chamar uma pessoa totalmente oca.
Anaïs Nin (1903-1977), in "Fala Uma Mulher"

29 de outubro de 2008

A Saudade (uma visão)

Frederick Stuart Church
Trem estranho a saudade...
é amarga, mas doce
é cruel, mas fiel
implacável, mas afável
e não raro, indesejável.
Entretanto,
não abrimos mão de senti-la.
É a lâmina de um punhal
ao lado de uma flor
ambos, de forma mágica,
coreografam o amor.
Dilacera-nos o peito,
faz-nos brilhar,
confere-nos valor.
Faz-nos pérolas escondidas
dentro de ostras sob a cambraia
do mar que as comprime
e lhes doa seu frescor...
Lembra-nos insofismavelmente
que somos humanos
_ filhos do Criador!

- Orlando Costa Filho
O Feio tem mais Encanto que o Belo
"Por vezes existe nas pessoas ou nas coisas um charme invisível, uma graça natural que não pôde ser definida, a que somos obrigados a chamar o «não sei o quê». Parece-me que é um efeito que deriva principalmente da surpresa. Sensibiliza-nos o fato de uma pessoa nos agradar mais do que deveria inicialmente e somos agradavelmente surpreendidos porque superou os defeitos que os nossos olhos nos mostravam e que o coração já não acredita. (…) Os encantos encontram-se muito mais no espírito do que no rosto, porque um belo rosto mostra-se logo e não esconde quase nada, mas o espírito apenas se mostra gradualmente, quando quer e do modo que quer; pode esconder-se para surgir de novo e proporcionar essa espécie de surpresa que constitui os encantos."
Baron de Montesquieu (1689-1755)

23 de outubro de 2008

O escritor tcheco Milan Kundera, autor do romance "A Insustentável Leveza do Ser", foi acusado no dia 13 de outubro de colaborar com a polícia comunista da Tchecoslováquia em 1950. As declarações dadas por ele foram responsáveis pela condenação de um homem a 22 anos de prisão.
Kundera, na época com 21 anos, denunciou um encontro de um piloto chamado Miroslav Dvoracek, que havia desertado do serviço militar e entrado ilegalmente na Alemanha. Detido, ele foi preso e enviado a trabalhos forçados em uma mina de urânio. Segundo a pesquisa de Adam Hradilek, autor do artigo, o escritor não conhecia pessoalmente o denunciado, mas ouviu falar do encontro.
O escritor era, em 1950, delegado da residência estudantil de Praga onde, Miroslav Dvoracek passaria a noite, convidado por Militka. Detido poucas horas depois e acusado de traição, Dvoracek foi condenado a 22 anos de prisão, dos quais cumpriu 14.
Segundo Marketa Dvoracek Novak, esposa do condenado, afirmou que para seu marido, hoje com 80 anos, não importa saber quem o denunciou.
"Ele sabe que foi denunciado, mas conhecer quem o fez não muda nada para ele", declarou Marketa. "Não estamos surpreso do envolvimento de Kundera. Entre os famosos da época, muitos eram fanáticos do regime comunista nos anos 50. Ele é um bom escritor, mas não tenho nenhuma ilusão a respeito dele como ser humano", disse.
Que decepção!!
Arthur Walker Redgate
“Como pode uma mente, presa do tumulto da aflição e do sofrimento de cada dia, presa da ignorância e da limitação, conhecer o que ilimitado, Inefável? Como pode o que é produto do tempo, conhecer o atemporal? NÃO PODE. Por conseguinte, não pode sequer pensar a respeito de Deus”.
Krishnamurti (1895-1986)
Da Insatisfação à Felicidade.

Não é de hoje que o capitalismo suplantou a moral e a ética. No caso da imprensa isso é exagerado, pois com tanta tragédia, a apresentadora Sonia Abrão, especialista em fofocas de artistas, acabou invadindo as negociações, e entrou ao vivo, com o sequestrador Lindemberg Alves, que se sentiu “o príncipe do gueto” e fez o que fez.
Lamentável!
Por que a Imprensa não faz uma reflexão e auto critica de sua atuação??

19 de outubro de 2008

Citações:

“É melhor ser odiado pelo que sou,
do que ser amado pelo que não sou”.

“Nada torna um rosto mais impenetrável
do que a máscara da bondade”.

“O homem sensato é aquele que se surpreende com tudo”.

André Gide (1869-1951)
O filósofo francês Luc Ferry, que se tornou best-seller ao expor suas ideias de forma simples, diz, em entrevista que os filhos tomaram o lugar da fé e das ideologias na vida espiritual do homem moderno.A entrevista é de Gabriela Carelli e publicada pela revista Veja, 22-10-2008.
Eis a entrevista.

Em seu novo livro, “Famílias, Amo Vocês”, o senhor argumenta que a família substituiu a religião como entidade sagrada no mundo moderno. Isso não contradiz a constatação do aumento no número de fiéis em diversas igrejas de todo o mundo?
Essa corrida para as igrejas não chega nem perto do que acontece quando o assunto é família. Pergunte aos milhões desses novos fiéis se eles morreriam pelo seu deus. A resposta será não. A família é a única entidade realmente sagrada na sociedade moderna, aquela pela qual todos nós, ocidentais, aceitaríamos morrer, se preciso. Os únicos seres pelos quais arriscaríamos a vida no mundo de hoje são aqueles próximos de nós: a família, os amigos e, em um número bem menor, pessoas mais distantes que nos causam grande comoção. No século XX, o ser humano virou sagrado.
O que o senhor considera sagrado?
Para entender o que é sagrado é preciso conhecer a história do sacrifício, ou seja, por quais razões os humanos já aceitaram sacrificar a própria vida. No fundo, esse é o significado do sagrado: algo pelo qual vale a pena morrer. O homem abriu mão da vida por três grandes causas através dos tempos: por Deus, pela pátria e pelas revoluções. Matou e provocou a morte de milhões de pessoas em guerras religiosas, batalhas nacionalistas e embates revolucionários. Hoje, no Ocidente, ninguém mais aceita morrer por um deus, um país ou um ideal. Há, sim, religiosos extremistas no Islã. Há gente na Chechênia ou na Ossétia disposta a morrer pela nação. Mas garanto que não há cidadãos com tais intenções na Alemanha, na França ou nos Estados Unidos. Em contrapartida, não conheço pai que não arriscaria a vida por seus filhos. Os filhos se tornaram o principal canal para o homem tentar transcender espiritualmente. As crianças substituíram as instituições despedaçadas que citei acima.
Os pais de antigamente amavam menos seus filhos que os de hoje?
O amor dos pais pelos filhos é instintivo e descrito desde a Antiguidade em mitos e lendas. Esse sentimento, porém, estava longe de ser uma prioridade para os casais. O escritor francês Michel de Montaigne (1533-1592), celebrado como grande humanista, confessou não se lembrar do número exato de filhos seus que morreram enquanto ainda eram amamentados. O filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), um dos próceres do Iluminismo, abandonou seus cinco filhos sem dó nem piedade. Esses exemplos parecem bizarros, mas temos de lembrar que, até a Idade Média, não havia sequer o conceito de infância. Foi entre os séculos XVII e XVIII que a infância passou a ser definida como um período de fragilidade e ingenuidade, no qual se deve prover as crianças de mimos e carinhos.
O que provocou essas mudanças?
Praticamente todas as relações familiares da sociedade contemporânea têm origem no casamento por amor, que nasceu com o capitalismo. Antes disso, o casamento se destinava a atender a uma série de interesses. O sentimento era o que menos contava. Casava-se para dar continuidade à família, manter a linhagem e a propriedade. Com o capitalismo e tudo o que é derivado dele, como o salário e o mercado de trabalho, uma nova ordem se estabeleceu. As mulheres, antes confinadas em suas casas, foram para as cidades trabalhar na casa dos burgueses, como empregadas, ou se tornaram operárias nas fábricas. Essa mulher começou a ganhar o seu dinheiro – pouco, mas seu – e a conquistar a independência. Com isso, houve uma grande ruptura. A percepção a respeito dos filhos e das crianças em geral também sofreu grande modificação.
A frequência com que os casais hoje se divorciam e iniciam novos relacionamentos não desmonta o argumento de que a família é sagrada?
Essa ideia não se sustenta nem do ponto de vista histórico nem do filosófico. Há vários argumentos que desmentem os clichês hoje propagados sobre o declínio do casamento e o fim da família nuclear. A família na Idade Média era muito mais dividida do que hoje. Havia muito mais pais e mães sozinhos cuidando de seus filhos. Por causa da elevada taxa de mortalidade, as pessoas se casavam mais vezes e tinham mais filhos com outros parceiros. Quem alardeia o declínio da instituição familiar esquece que o divórcio foi inventado junto com o casamento por amor. A partir do momento em que a união entre duas pessoas se ampara apenas na lógica do sentimento, basta que o amor se apague para que outro amor se imponha. A família burguesa é aparentemente estável, mas na maioria dos casos está carcomida por infelicidades. Ela é inseparável de outra instituição: a infidelidade. Muitas mulheres sacrificam a profissão e, em seguida, a vida afetiva por um marido que as engana.
Uma sociedade sem religiões e sem ideologias, como o senhor a vislumbra, não é contrária à índole humana?
De jeito nenhum. Muitas religiões e ideologias fizeram as sociedades e os indivíduos sacrificar-se por ideais inúteis. O sociólogo alemão Max Weber costumava dizer que era possível encontrar os valores tradicionais do sacrifício no código do mar. Segundo esse código, o comandante de um navio deve morrer com sua embarcação naufragada, mesmo quando os passageiros e a tripulação se salvam. Para continuar a metáfora, eu diria que hoje ninguém mais está disposto a morrer pelo casco do navio, mas somente pelos passageiros que ele abriga. Isso é um grande progresso. Não tenho nenhuma saudade dos extremistas religiosos ou nacionalistas que provocaram a morte de 50 milhões de pessoas na II Guerra.
O senhor argumenta que o amor dá sentido à vida. A busca desenfreada pelo amor não causa mais sofrimento?
A condição do homem moderno é mais trágica do que nunca. O casamento por amor nos condiciona a amar mais e mais. A perda do ser amado tornou-se um luto. Isso só aumenta o descontentamento do mundo ocidental, no qual o homem se transformou num ser eternamente insatisfeito.
Então o senhor concorda com a tese de muitos filósofos contemporâneos de que o homem nunca foi tão infeliz?
Há um descontentamento generalizado no mundo moderno. A sociedade se interessa mais pelos meios em si do que pelos fins. Um olhar sobre o Iluminismo ajuda a compreender esse novo mundo. As mentes mais brilhantes do século XVIII buscavam nas ciências e nas artes emancipar a humanidade do obscurantismo da Idade Média. Tudo era feito com o objetivo de, no fim, alcançar a liberdade e a felicidade. Hoje, o movimento das sociedades não se inspira em ideais superiores em termos de civilização. A sociedade se movimenta no sentido de estabelecer a concorrência acirrada entre todos os indivíduos, sem objetivos finais claros. A história não se move pela aspiração a um mundo melhor, mas pela ação mecânica da competição. O êxito pessoal é o que importa. Precisamos ter poder, dinheiro, um carro novo, uma mulher nova, os filhos mais bonitos, tudo para conseguir o reconhecimento alheio e nos sentir superiores aos outros. Como dizia o filósofo romano Sêneca, enquanto esperamos viver, a vida passa rapidamente.
Dentro dessa perspectiva, a felicidade é possível?
O filósofo alemão Immanuel Kant tem um ótimo argumento sobre isso. Se a felicidade fizesse parte da natureza humana, Deus não nos teria dado a inteligência. Desde sempre o ser humano vive seus conflitos e tenta gerenciá-los da forma que pode. Hoje, vivemos na era do hiperconsumo. O que nos dá a sensação de progredir, de ser felizes, pelo menos momentaneamente, é comprar, comprar e comprar. Claro que isso não basta. A lógica contemporânea aumenta a insatisfação e nos incute medos cotidianos e recorrentes.
Que medos acometem o homem contemporâneo?
Nós, ocidentais, temos medo de tudo. Da velocidade, do sexo, do álcool, do tabaco, da carne vermelha, de frango, da Europa, do efeito estufa, da globalização, das notas escolares das crianças, e por aí vai. Todo ano se acrescenta um novo medo aos anteriores. Na época em que era ministro da Educação, fiquei com medo quando vi jovens franceses que mal tinham saído da universidade fazendo passeatas em defesa da aposentadoria deles. Em meus anos no governo, nunca recebi uma delegação sindical que não começasse a conversa com um "Senhor, estamos muito preocupados". E não há nenhuma ironia nisso. O medo é uma das paixões dominantes das sociedades democráticas. Ele não existia dessa forma no Iluminismo. Quando eu era criança, era feio ter medo. Superá-lo era um dos marcos da chegada à idade adulta. Hoje, ter medo não implica culpa. É através do medo que os movimentos ecológicos radicais, por exemplo, se impõem.
Como os medos cotidianos prejudicam a sociedade?
Qualquer ameaça, como o terrorismo, o aquecimento global ou a gripe aviária, desperta uma neurose global. A angústia que essa histeria causa individualmente é mais prejudicial do que a ameaça a que ela se contrapõe. Veja o exemplo do aquecimento global. Aos olhos das novas ideologias, a natureza é admirável e a ciência, ameaçadora e maléfica.
Como ministro da Educação, o senhor foi acusado de racista ao banir o uso de véu pelas estudantes muçulmanas e de solideu pelos judeus nas escolas públicas. O senhor tomaria essa medida novamente?
Certamente. Em primeiro lugar, essa lei teve a aprovação de 75% dos franceses. Foi apoiada tanto pela direita quanto pela esquerda, o que é muito raro na França, uma nação singular. Nela convivem enormes comunidades judaicas e muçulmanas. Só há mais judeus em Israel e nos Estados Unidos. Estimamos que existam 5 milhões de muçulmanos no país. Após o início da segunda intifada, vimos aumentar exponencialmente os conflitos entre os dois grupos. O mínimo que poderíamos fazer era deixar nossas crianças fora desse clima de guerra. Não foi uma medida anti-religiosa, muito menos racista, mas de promoção da paz.
Seu livro anterior, Aprender a Viver, foi um enorme sucesso mesmo tratando de um assunto que não atrai muitos leitores, a filosofia. A que o senhor atribui esse êxito?
O ser humano precisa da filosofia mais do que imagina. A filosofia grega surgiu para ajudar o homem a superar seus medos e angústias e, assim, encontrar a serenidade. Os gregos propunham a reflexão como exercício de sabedoria. As principais correntes filosóficas são, na verdade, grandes doutrinas de salvação, assim como as religiões. A diferença entre religião e filosofia é que a primeira tenta encontrar a paz interior e a felicidade através da fé, enquanto a outra busca o mesmo pela razão, sem a intervenção de um deus. Mais do que nunca, vivemos num mundo no qual a religião não é suficiente para dar ao homem as respostas que ele procura.
Em plena crise global, com governos e mercados preocupados com uma possível recessão mundial, a revista especializada britânica New Scientist defende que a busca por crescimento econômico está matando o planeta e precisa ser revista.
“A Ciência nos diz que se for para levarmos a sério as tentativas de salvar o planeta, temos que remodelar nossa economia”, afirma a revista.

Abril

Frederick Morgan
Brinca a manhã feliz e descuidada,
como só a manhã pode brincar,
nas curvas longas desta estrada
onde os ciganos passam a cantar.
Abril anda à solta nos pinhais
coroado de rosas e de cio,
e num salto brusco, sem deixar sinais,
rasga o céu azul num assobio.

Surge uma criança de olhos vegetais,
carregados de espanto e de alegria,
e atira pedras às curvas mais distantes
- onde a voz dos ciganos se perdia.

Eugénio de Andrade (1923-2005)

Tem tudo a ver

Sir Edward Coley Burne-Jones
A poesia
tem tudo a ver
com tua dor e alegrias,
com as cores, as formas, os cheiros,
os sabores e a música
do mundo.

A poesia
tem tudo a ver
com o sorriso da criança,
o diálogo dos namorados,
as lágrimas diante da morte,
os olhos pedindo pão.

A poesia
tem tudo a ver
com a plumagem, o voo e o canto,
a veloz acrobacia dos peixes,
as cores todas do arco-íris,
o ritmo dos rios e cachoeiras,
o brilho da lua, do sol e das estrelas,
a explosão em verde, em flores e frutos.

A poesia
— é só abrir os olhos e ver —
tem tudo a ver
com tudo.

Elias José (1936–2008)
Van Gohg
As pessoas não querem que se lhes dê lições. É por isso que não compreendem agora as coisas mais simples. No dia em que o quiserem, verificar-se-á que são capazes de compreender também as coisas mais complicadas. Até lá, as instruções são: continuar a trabalhar, discutir o menos possível. Com efeito, só poderíamos dizer a um indivíduo: você é um imbecil, a outro: você é um patife, e há boas razões que excluem a realização expressiva de tais convicções. Sabemos, de resto, que estamos diante de pobres diabos, que receiam por um lado chocar, prejudicar as suas carreiras e que, por outro lado, se encontram acorrentados pelo medo do que está recalcado neles próprios. Teremos de esperar que todos eles morram ou se tornem lentamente minoritários. De qualquer maneira, o que acontece de fresco e de novo é a nós que pertence.
Sigmund Freud (1856-1939)
'As Palavras de Freud'

18 de outubro de 2008

“Somos feitos de carne,
mas temos de viver
como se fôssemos de ferro”.

Sigmund Freud (1856-1939)

Oração

Jean Léon Gérôme
A oração é a água da vida:
anima a existência e traz boa nova e júbilo.

O que é oração, atitude ou palavra?

É tanto atitude como palavra; depende do estado da alma.
Assemelha-se a uma canção.
Algumas vezes é a melodia que nos comove;
outras vezes, é a palavra
Devemos ser sensíveis à música da prece.
Assim como o amante sente a necessidade
de expressar o seu amor à amada,
a criatura humana também sente o desejo
de expressar seus sentimentos ao Criador.

`Abdu'l-Bahá (1844-1921)
Pieter Mondrian
O mal estar que exala quem discorda
Porque não sente quase ou não entende
Concorda bem com o de quem assente
Sem romper a casca, e não acorda.

Somente se distar de estar de frente
Distrai a sua mente da derrota.
Distante como diante de uma porta
Destrói na letra preta o branco ausente.

A vida do sentido o incomoda —
Vigor de ponta a ponta da serpente
Que o branco ovo a cada dia lota.

Suporta, não se importa ou então mente,
Não compreende o que o prende à borda —
O ouro da palavra, um acidente.

Arnaldo Antunes
Já vem raiando a madrugada
Acorda, que lindo
Mesmo a tristeza está sorrindo
Entre as flores da manhã se abrindo nas flores do céu
O véu das nuvens que esvoaçam
Que passam pela estrela a morrer
Parecem nos dizer que não existe beleza maior do que o amanhecer
E no entanto maior, bem maior do que o céu
Bem maior do que o mar, maior que toda natureza
É a beleza que tem a mulher namorada
Seu corpo é assim como aurora ardente
Sua alma é uma estrela inocente, seu corpo uma rosa fechada
Em seus seios pudores renascem das dores
De antigos amores que vieram mas não era
Um amor que se espera, o amor primavera
São tantos os encantos que para os comparar
Nem mesmo a beleza que tem as auroras do mar.

Vinícius de Moraes
(1913-1980)
Alex Katz
“Existem infinitamente mais homens que aceitam a civilização como hipócritas do que homens verdadeiramente e realmente civilizados, e é lícito até perguntarmo-nos se um certo grau de hipocrisia não será necessário à manutenção e à conservação da civilização, dado o reduzido número de homens nos quais a tendência para a vida civilizada se tornou uma propriedade orgânica”.
Sigmund Freud (1856-1939),
in 'As Palavras de Freud'
Todos os pensamentos que renunciam à unidade exaltam a diversidade. E a diversidade é o local da arte. O único pensamento que liberta o espírito é aquele que o deixa só, certo dos seus limites e do seu fim próximo. Nenhuma doutrina o solicita. Ele espera o amadurecimento da obra e da vida. Separada dele, a primeira fará ouvir, uma vez mais, a voz levemente ensurdecida de uma alma para todo o sempre liberta da esperança. Ou nada fará ouvir, se o criador, cansado do seu jogo, pretende afastar-se. Tudo isso se equivale.
Albert Camus, in "O Mito de Sísifo"

17 de outubro de 2008

Van Gohg
“Todas as pessoas cruéis
descrevem-se como modelos de sinceridade”.

Tennessee Williams (1911-1983)



É impossível para os seres humanos
renunciar a uma fonte de prazer,
uma vez descoberta.

Sigmund Freud (1856-1939)
Wassily Kandinsky
A morte é certa
a carne é fraca
a vida é curta
o sofrimento inevitável

a vida é breve
a febre é alta
a alma é uma
e o demônio tão amável

o mundo é grande
a mente é suja
o sangue é quente
e o desejo indisfarçável

o amor é cego
o amor é surdo
o amor é mudo
e a moral abominável

o corpo humano
é desumano
o corpo amado
é desalmado
tudo
é pecado.

Arnaldo Antunes
Sonia Sadler - Let It Fly
A conquista da liberdade
é algo que faz tanta poeira,
que por medo da bagunça, preferimos,
normalmente, optar pela arrumação.

Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987)
Henri Matisse
As pessoas delicadas são aquelas que a cada ideia ou gosto juntam muitas ideias ou muitos gostos acessórios. As pessoas grosseiras apenas têm uma sensação; a sua alma não sabe compor nem descompor; não juntam nem retiram nada ao que a natureza fornece: ao passo que as pessoas delicadas no amor criam elas próprias a maior parte dos prazeres do amor.
Baron de Montesquieu (1689-1755)
Jack Vettriano
Volta-se o rico para os prazeres da carne e a maior parte do mundo faz o mesmo. E não sem acerto, porque todas as coisas agradáveis devem ser tidas como inocentes, e até que se provem culpadas todas as presunções pendem a seu favor. A vida já é bastante penosa para que ainda a agravemos com proibições e obstáculos aos seus deleites; tão arisca se mostra a felicidade que todas as portas por onde ela queira entrar devem permanecer escancaradas. A carne enfraquece muito precocemente - e os olhos olham com melancolia para os prazeres de outrora. Muito rapidamente todas as alegrias perdem a vivacidade - e admiramo-nos de como pudessem ter-nos interessado tanto. O próprio amor torna-se grotesco logo que atinge os seus fins. Guardemos o ascetismo para a estação própria - a velhice.
É este o grande drama do prazer; todas as coisas agradáveis acabam por amargar; todas as flores murcham quando as colhemos, e o amor morre tanto mais depressa quanto é mais retribuído. Por isso o passado parece-nos sempre melhor que o presente; esquecemos os espinhos das rosas colhidas; saltamos por cima dos insultos e injúrias e demoramo-nos sobre as vitórias. O presente parece muito mesquinho diante de um passado do qual só retemos na memória o bom, e diante de um futuro que ainda é sonho. O que alcançamos nunca nos contenta; olhamos para diante e para trás em procura do que não está ali; não somos bastante sábios para amar o presente do mesmo modo que o amaremos quando se tornar passado. Quando mergulhamos num prazer, o nosso olhar vai para longe - a felicidade ainda não está alcançada apesar de termos o deleite nos nossos braços. Que mau demônio nos afeiçoou assim?
Will Durant (1885-1981),
in “Filosofia da Vida”

16 de outubro de 2008

Namastê: “O Deus que há em mim
saúda o Deus que há em você.”