30 de setembro de 2008


“Mãos que servem são mais santas que bocas que rezam”.
(Sathya Sai Baba)

“Amar outro ser humano é talvez a tarefa mais difícil que a nós foi confiada, a tarefa definitiva, a prova e o teste finais; a obra para a qual todas as outras não passam de mera preparação”.
Rainer Maria Rilke (1875-1926)
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles considero a enorme realidade.
O presente é tão grande,
Não nos afastemos.
Vamos de mãos dadas
.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria,
o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
Sandro Botticelli (1445-1510)
Botticelli chegou à pintura por vias indiretas, dedicando-se primeiramente à ourivesaria, profissão muito estimada nos meados do séc. XV, e pela qual muitos artistas do Renascimento haviam começado sua formação. Ao longo de seu aprendizado, se distinguiu por um sentido particular das formas decorativas, um traço que é evidente em suas pinturas.
No fim da aprendizagem, mudou de planos, e com dezoito anos de idade, iniciou sua formação de pintor com Fra Filippo Lippi, um dos pintores mais célebres de Florença, e teve forte influência sobre Botticelli, que estudou cinco anos com seu mestre.
Um retratista primoroso, Botticelli frequentemente incluía em suas pinturas pessoas famosas, patronos e contemporâneos, entre figuras de santos e anjos. Ele trabalhou em Florença e Roma, onde decorou paredes da capela sistina.
Em 1482, após retornar de Roma, Botticelli entra em uma nova fase de sua carreira. Como outros artistas do círculo da academia dos Médici, trabalhava modelos clássicos para seus patronos. Para os próprios Médici, Botticelli realizou trabalhos mitológicos, inspirados na antiguidade, mas também influenciados por pensamentos neoplatônicos, incluindo suas famosas obras “A Primavera” e “O nascimento de Vênus”.
Os últimos anos de sua carreira foram afetados por uma profunda crise espiritual. Enquanto Botticelli criava suas obras mitológicas, um monge, conhecido como frei Savonarola, começava a entoar fervorosos sermões denunciando o paganismo de Florença. Muitos florentinos o apoiaram e fizeram passeatas pelas ruas, recriminando o uso de temas mitológicos. Nos anos 90, Botticelli também, em crise, renuncia seus próprios trabalhos, e num gesto dramático, queima muitas de suas telas em praça pública. Começa então, a produzir apenas pinturas religiosas, muito emocionais.
Numa estranha reviravolta do destino, Savonarola foi julgado e acusado de heresia, queimado em praça pública. Confuso, Botticelli desiste da pintura no fim de sua vida.
Quadro - A Primavera
De acordo com estudos mais recentes, esta pintura foi encontrada em 1499 no palácio citadino que Lorenzo di Pierfrancesco, um membro colateral dos Médicis, ocupava em Florença. É possível que Pierfrancesco tenha conhecido Botticelli pessoalmente, e que este tenha sido seu presente de casamento. A Primavera encontrava-se na antecâmara do quarto de Pierfrancesco, envolvida por uma moldura branca, colocada por cima de um divã, o que explica não só a exposição do tema, mas também a perspectiva muito inclinada do prado em que surgem as oito personagens da composição.
Nota-se no quadro um forte caráter decorativo, que lembra uma tapeçaria flamenca, por seus incríveis e intricados detalhes. Isso se dá por Botticelli ter tido uma formação de ourives, e suas habilidades decorativas e ornamentais foram acentuadas e trazidas para seu trabalho como pintor. Nota-se também que a figura central prende primeiramente nossa atenção, e a partir dela e ao seu redor, surgem outras figuras, aparentemente entretidas em suas próprias e independentes ações. A figura central parece controlar toda a situação, apesar de ao mesmo tempo, possuir um ar despreocupado e distante, próprio de uma deusa, que tudo sabe, porém com nada se preocupa. Sua mão está estendida num gesto de benção, como muitas vezes visto nas representações da virgem Maria ou do próprio Cristo, como na pintura “A virgem e o Menino com Seis anjos” do próprio Botticelli, na qual o menino Jesus Mostra a mão em gesto de benção.

A Mitologia
O título “A Primavera”, corresponde a uma pintura que representa e festeja a chegada da primavera. No meio de um bosque de laranjeiras, surge sobre um prado Vênus, deusa do amor e da beleza, na mitologia romana.(tida como Afrodite para os gregos, Ísis para os egípcios, e Ishtar para os babilônios, entre outros.)
Essa cena misteriosa é proveniente de um texto da antiguidade, provavelmente o dos “fastos”, que se encontra no calendário romano dos festivais, o qual devemos a Ovídeo. O poeta descreve neste texto o principio da primavera como o momento em que a ninfa Clóris se transforma em Flora, a deusa das flores: “Eu era Clóris, a quem chamam Flora” – é assim que a ninfa começa sua narrativa, enquanto algumas flores escapam de sua boca. Zéfiro, lamenta-se ela, foi arrebatado por uma paixão selvagem ao vê-la. Assim, perseguiu-a e tomou-a à força para sua mulher. Porém, se dando conta de seus atos brutais, arrependeu-se, e para recompensá-la transforma-a na deusa das flores, rainha da primavera.
O tema expresso por esses três personagens, então, simboliza a chegada da primavera, tal como descrito por Ovídeo em seu calendário. Isso explica também o porquê das roupas das duas mulheres tomarem direções diferentes; pois elas pertencem a dois momentos completamente distintos na narrativa de Ovídeo.

29 de setembro de 2008

A Falácia da Comparação

Paul Gauguin
“Os homens não se conhecem uns aos outros com facilidade, ainda que ponham nisso o melhor da sua vontade e das suas intenções. Porque há que contar sempre com a má vontade que tudo distorce.
Conhecer-nos-íamos melhor uns aos outros se não estivéssemos sempre a querer comparar-nos uns com os outros. Decorre daí que as pessoas fora do vulgar ficam em pior situação, porque, como as outras não chegam a poder comparar-se com elas, tornam-se alvo de demasiada atenção”.
Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)
Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.
O ar que respiro, este licor que bebo
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.
Nem nunca, propriamente, reparei
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
serei tal qual pareço em mim? serei
Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.

Álvaro de Campos
Fernando Pessoa (1888-1935)

Poesia

29/09: 1908 - A despedida de Machado de Assis.
Há 100 anos morreu em sua casa, no bairro carioca do Cosme Velho, o escritor Joaquim Maria Machado de Assis, vítima de arteriosclerose. Sofrendo de epilepsia, aliada a problemas nervosos, estava em depressão profunda desde a morte da sua esposa, Carolina, três anos antes.
De origem humilde, neto de escravos alforriados, o escritor soube vencer as dificuldades financeiras e tornar-se um dos mais respeitados nomes da literatura brasileira de todos os tempos. Diferente dos demais escritores de sua época, Machado de Assis primou pelo uso essencial das palavras para exprimir seu pensamento. Exercitou permanentemente o recurso da metalinguagem e envolveu a participação do leitor em suas narrativas.
O conjunto de sua obra retrata a coexistência do amor e do ciúme, da verdade e da mentira, do ser e do parecer, chamando a atenção pelo humor e pelo estado mental dos personagens, e mantém-se tão atual quanto há um século atrás.
Jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, foi o fundador da Cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras, instituição que presidiu de 28 de janeiro de 1879 até o fim da vida.
No cinquentenário de sua morte, o presidente da República Juscelino Kubitschek declarou do domínio público a totalidade das obras de Machado de Assis. E encomendou ao Ministério da Educação a publicação de uma edição comemorativa e popular em sua homenagem.
Para saber mais sobre a vida e obra de Machado de Assis Acesse o site
aqui Academia Brasileira de Letras
Em 1908 o Brasil perdia o seu escritor máximo. Na cidade de Cordisburgo, no interior de Minas, nascia, naquele mesmo ano, João Guimarães Rosa. São eles, talvez, os dois gênios da nossa literatura, dois dos mais brilhantes escritores da literatura universal. O legado deixado por ambos é, indiscutivelmente, uma das maiores riquezas da nossa cultura.

28 de setembro de 2008

“Ninguém se serve da ambiguidade sem ser à sua própria custa”.
(Jean Paul de Gondy)


Saudade!
Paul Newman e Joanne Woodward, casados há 50 anos.

Poema XIII

João Batista da Costa
Não me procures ali
Onde os vivos visitam
Os chamados mortos.
Procura-me
Dentro das grandes águas
Nas praças
Num fogo coração
Entre cavalos, cães,
Nos arrozais, no arroio
Ou junto aos pássaros
Ou espelhada
Num outro alguém,
Subindo um duro caminho
Pedra, semente, sal
Passos da vida. Procura-me ali.
Viva.

Hilda Hilst (1930-2004)
Haverá alguma coisa que ofenda mais profundamente, que afaste mais radicalmente do que alguém dar a ver um pouco do rigor e da elevação com que a si próprio se trata? E, pelo contrário, quanta simpatia e agrado nos mostra toda a gente quando procedemos como toda a gente e quando nos “deixamos ir” como toda a gente?
Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900),
in Para a Genealogia da Moral
28 de Setembro - Dia da Luta pela Descriminalização do aborto.
Descriminalizar o aborto não significa promover o aborto, mas significa perceber que a via penal não é a melhor forma de tratar a questão. Para compreender o que significa sair da via penal um bom exemplo é o adultério. O adultério deixou de ser crime este ano no Brasil. A sua descriminalização não implica no seu aceite moral ou que a sociedade brasileira passou incentivá-lo, ou, ainda, que com a descriminalização, o numero de adultérios irá aumentar. O aborto, ao contrário do adultério, sempre será um tema limite. Causa polêmicas apaixonadas por lidar com questões delicadas como vida, morte, pessoa e humanidade. No entanto, tem incríveis semelhanças com o adultério, uma delas é o fato de que é uma prática, apesar de condenada, pouco penalizada.
Mulheres e casais com condições econômicas razoáveis não sofrerão riscos à saúde tampouco o julgamento moral da sociedade, uma vez que isto será feito no silêncio do mundo privado. Não há estatísticas oficiais, mas entidades calculam que complicações com aborto chegam a ser responsáveis por 13% das mortes maternas. Neste 28 de setembro, dia de luta pela descriminalização do aborto, é importante refletir sobre as conseqüências que uma legislação ultrapassada causa na vida das pessoas, em especial nas de menor renda, que não podem pagar uma clínica clandestina de alto luxo, como muitas que existem nos bairros nobres das grandes cidades brasileiras.
Desde o início de 2005 uma comissão tripartite formada por representantes do governo, do Congresso e da sociedade civil busca avançar na formulação de nova legislação que amplie os direitos da mulher sobre e garanta os serviços públicos para a interrupção da gravidez nos casos previstos no Código Penal, ou seja, quando houver risco de vida da gestante e gravidez provocada por estupro.
Por diversas vezes a votação dessas propostas foi adiada no Congresso, muito por influência da “Frente Parlamentar em Defesa da Vida”, formada em agosto de 2005. Um substitutivo ao PL 1135/91, apresentado pela deputada Jandira Feghali.
Apesar do forte lobby de parlamentares conservadores e da igreja, o debate avança na sociedade, mas ainda está longe de se tornar consenso. Cabe aos movimentos sociais e sindical aprofundar esse tema, levar sua posição aos parlamentares e enfrentar as posições reacionárias e moralistas que não levam em consideração a mulher como dona de sua sexualidade e de seu corpo.
Os mesmos que defendem com rigor a criminalização do aborto, não se emocionam ao ver crianças nas ruas e nem as maltratadas pelos pais e padrastos e madrastas.
O difícil é entender que a hipocrisia das nossas práticas se sobrepõe à capacidade de analisar o problema com praticidade e bom senso.

27 de setembro de 2008

Eu acredito que a disseminação
do catolicismo é o meio mais horrível
de degradação política e social deixado no mundo.

Charles Dickens (1812-1870)

Vicente do Rego Monteiro

Vicente do Rego Monteiro (1899-1970).
Pintor brasileiro nascido e falecido na cidade do Recife (PE). Era descendente, por parte de mãe, de Pedro Américo. Entre 1911 e 1914, estudou em Paris na Académie Julien - também freqüentada por Tarsila do Amaral.
Participou da Semana de Arte Moderna com uma coleção de dez quadros (entre estes três retratos - um deles de seu efetivo inspirador, o poeta Ronald de Carvalho). Em 1923 vai a França, integrou-se de tal maneira à vida cultural parisiense que, já na década de 20, era um dos pintores estrangeiros mais conceituados no exterior, com assídua participação em mostras individuais e coletivas.
Em 1957, fixou-se de vez no Brasil, onde passou a lecionar na Escola de Belas-Artes do Recife (Universidade Federal de Pernambuco).
Além de pintor e poeta, Vicente do Rego Monteiro era também um bom dançarino, tendo vencido vários concursos de dança de salão em Paris.
A história que inspirou a tela
Certa vez, Zeus ia a caminho da cidade de Tróia e encontrou Leda, a jovem esposa de Tíndaro, herdeiro do reino de Esparta, deitada seminua na relva e parou para contemplá-la de longe. Temendo assustá-la com sua figura gloriosa e resplandecente, Zeus transforma-se em um cisne imenso e de bela plumagem para poder cortejar a princesa.
Ao ver o belo cisne se aproximando, Leda senta-se e começa a observá-lo. Diante dos olhos da princesa, o cisne começa a mover suas asas com grande excitação, movimenta seu corpo em uma dança de vai e vem que mostra seu desejo e soa sua voz delicada, emitindo sinais de atração e paixão. Leda ficou fascinada e o cisne aproximou-se mais e começou a tocá-la e acariciá-la com suas plumas e seu longo pescoço.
Excitada, Leda deitou-se novamente na relva, aguardou que o cisne se deitasse sobre ela e então se amaram.
Meses depois a princesa sente fortes dores e percebe que de seu ventre haviam saído dois ovos: do primeiro, nascem Castor e Helena, do segundo, Pólux e Clitemnestra.
Os filhos de Leda e Zeus, Castor e Pólux, tornam-se grandes guerreiros e amigos inseparáveis. Porém Castor (que herdou a mortalidade humana) perde a vida em uma batalha e Pólux (que herdou a imortalidade divina) suplica a Zeus que devolva a vida ao irmão. Comovido com esta demonstração de amor fraterno, Zeus propõe a Pólux dividir sua imortalidade, alternando com o irmão um dia de vida e um dia de morte.
Assim os irmãos passaram a viver e a morrer alternadamente e Zeus os homenageia com a constelação de Gêmeos, na qual não poderiam ser separados nem com a morte.
O primeiro a pintar uma tela (abaixo) sobre este tema foi o italiano Antonio Allegri Corregio (1490-1534)O Mito de Leda e o Cisne sobrevive e suas expressões nas artes podem ser encontradas desde as esculturas na Grécia antiga até na pintura contemporânea.
Leda e o Cisne
Súbito golpe: as grandes asas a bater
Sobre a virgem que oscila, a coxa acariciada
Por negros pés, a nuca, um bico a vem reter;
O peito inane sobre o peito, ei-la apresada.
Dedos incertos de terror, como empurrar
Das coxas bambas o emplumado resplendor?
Pode o corpo, sob esse impulso de brancor,
O coração estranho não sentir pulsar?
Um tremor nos quadris engendra incontinenti
A muralha destruída, o teto, a torre a arder
E Agamêmnon, o morto.
Capturada assim,
E pelo bruto sangue do ar sujeita, enfim
Ela assumiu-lhe a ciência junto com o poder,
Antes que a abandonasse o bico indiferente?

Poema de William Butler Yeats, (1865 -1939) poeta irlandês.
Prêmio Nobel da Literatura de 1923.
Tradução: Péricles Eugénio da Silva Ramos

O Homem sem Qualidades

Joan Miró
“Fui educado, e eduquei-me, debaixo da ideia imperial da moral. Muitos disseram-me, e com razão, que já era o tempo de acordar e perceber o que é viver.
Os intelectuais diziam-me que era necessário fazer o jogo do poder (ou do contra poder, o que resulta no mesmo) em nome do diálogo construtivo.
Calmamente desisti e agora dou conselhos. Eu que não gosto de conselhos. Eu que nem vontade tenho de ser razoável.
Agora, sempre que posso, devolvo aos outros aquilo que precisam de descobrir neles próprios. No fundo, poucos existem que ainda saibam, no meio da sua vida, a forma como puderam chegar a ser aquilo que hoje são, às suas distrações, à sua concepção do mundo, à sua mulher, ao seu caráter, à sua profissão e aos seus êxitos; mas pressentem que pouco ou nada podem alterar isso”.
Robert Musil (1880-1942)

26 de setembro de 2008


“A cultura é o melhor conforto para a velhice”.
(Aristóteles)
“A idade ajuda na adaptação às contínuas transformações da vida. Em deixá-la correr. Deixá-la sangrar. Deixá-la ser. "To let it be". E eu me sinto cada vez melhor com ela. É um estado de felicidade, no qual estou sempre feliz com tudo o que acontece comigo. Afora um pequeno rumor que sempre permanece, a morte não me causa medo.”
Gilberto Gil

Aqui na orla da praia…

Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei em seguida.

A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;
O amor é um sonho que chega para o pouco ser que se é;
A glória concede e nega; não tem verdades a fé.

Por isso na orla morena da praia calada e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E comecei a morrer muito antes de ter vivido.

Deem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,
Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;
Deem-me um vago amor de quanto nunca terei,
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.

Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu.

Fernando Pessoa (1888-1935)
Vem.
Conversemos através da alma.
Revelemos o que é secreto aos olhos e ouvidos.
Sem exibir os dentes,
sorri comigo, como um botão de rosa.
Entendamo-nos pelos pensamentos,
sem língua, sem lábios.
Sem abrir a boca,
contemo-nos todos os segredos do mundo,
como faria o intelecto divino.
Fujamos dos incrédulos
que só são capazes de entender
se escutam palavras e vêem rostos.
Ninguém fala para si mesmo em voz alta.
Já que todos somos um,
falemos desse outro modo.
Como podes dizer à tua mão: "toca",
se todas as mãos são uma?
Vem, conversemos assim.
Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma.
Fechemos pois a boca e conversemos através da alma.
Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.
Vem, se te interessas, posso mostrar-te.

Jalaludin Rumi (1207-1273)
Mawlānā Jalāl-ad-Dīn Muhammad Rūmī, conhecido apenas como Rumi nasceu em 30 de setembro de 1207 e morreu em 17 de Dezembro de 1273, em Balkh (no hoje Afeganistão). Foi um poeta, jurista e teólogo muçulmano do século XIII. Seu nome significa literalmente "Majestade da Religião".
Ele viveu a maior parte de sua vida sob o Sultanato onde produziu a maior parte de seus trabalhos. Foi enterrado na Turquia e seu túmulo tornou-se um lugar de peregrinação. Após sua morte, seus seguidores e seu filho fundaram a Ordem Sufi, também conhecida como ordem dos Dervishes girantes, famosos por sua dança conhecida como cerimônia sema. Considerado o criador do sufismo, a vertente mais mística do islamismo. Acreditava que o exercício do amor era essencial para o amadurecimento e aperfeiçoamento dos seres humanos. Pregava a tolerância, a bondade, a paciência, a calma e a compaixão incondicionais.
Para entender Rumi ao invés de ir buscar algum poema dele eu prefiro pegar algo bem contemporâneo – a letra de Pedaço de Mim, de Chico Buarque. O sentimento mais essencial de Rumi é o mesmo desta música tão triste.

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu.
O tema central de Rumi é a saudade, a dor da separação, que ele expressa de várias formas uma das mais belas é quando diz que o canto da flauta é triste pela saudade que sente do junco do qual foi cortada. Também expressa esta saudade na ausência de seu mestre Shams al-Tabrizi ou mencionando a história do Corão da paixão escandalosa de Zuleika, esposa de Potifar, por José.
Esta saudade, este sentimento de insaciedade, estas buscas todas, diz Rumi, são na verdade uma transferência, uma expressão de um sentimento que não somos capazes de alcançar de imediato: a dor da alma por estar separada do Uno. Para ele somos como a flauta que lembra e sofre por não estar mais ligada ao junco e por isto canta.
Esta sensação está expressa em diversas metáforas, a embriaguez, o amor, a identidade com o outro, as saudades do Bem-Amado, a dor da perda. Mas não são só metáforas, mas símbolos mais expressivos porque também estes tantos estados não só expressam o que no fundo é esta sensação de separação da Unidade como também podem ser portas através das quais se pode chegar a desvelar o Amor Divino, do qual todos os demais amores são emanações.
Rumi consegue desvelar aquele amor profundo, aquele amor que não é reflexo nem emanação, o Amor Divino, único que é capaz de reparar esta sensação de ter um pedaço de si separado do todo. Mas aqueles que estão entre os pobres mortais e não sentiram o amor não conseguirão despertar para aquele Amor mais profundo, aquele Amor que permite transcender a identidade.

25 de setembro de 2008

Haikai

Pássaro tenor
afina a garganta
ao sol se pôr.

Carlos Seabra

Gostamos de História

Gostamos de História. Da História dos homens "os únicos objetos da história - de uma história que não se interessa por um qualquer homem abstrato, eterno, imutável e perpetuamente idêntico a si próprio - os homens, analisados sempre no quadro das sociedades de que são membros. Os homens, membros dessas sociedades, numa época bem determinada do seu desenvolvimento - os homem, dotados de múltiplas funções, de atividades diversas, com preocupações e atitudes diferentes, que se misturam, se chocam, se contradizem, acabando por firmar uma paz de compromisso, um modus vivendi a que se chama Vida."
Lucien Febvre (1878-1956)
'Combates pela História'

Se a todos nós fosse concedido o poder

Childe Hassam
Se a todos nós fosse concedido o poder, como num passe de mágica, de ler a mente uns dos outros, suponho que o primeiro efeito seria que quase todas as amizades se desfariam. O segundo efeito, entretanto, poderia ser excelente, pois um mundo sem amigos seria sentido como intolerável, e nós teríamos de aprender a gostar uns dos outros sem a necessidade de um véu de ilusão para esconder de nós mesmos que não nos consideramos uns aos outros pessoas absolutamente perfeitas. Sabemos que os nossos amigos têm as suas falhas, e que apesar disso são pessoas de um modo geral aprazíveis das quais gostamos. Consideramos intolerável, no entanto, que tenham a mesma atitude conosco. Esperamos que pensem que, ao contrário do resto da humanidade, nós não temos falhas. Quando somos compelidos a reconhecer que temos falhas, tomamos esse fato óbvio com demasiada seriedade.
Bertrand Russell (1872-1970),
in "A Conquista da Felicidade"

24 de setembro de 2008

É inadmissível privatizar lucro e socializar perda.
(Lula na ONU)

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

Fernando Pessoa

Se me é negado o amor

Freydoon Rassouli
Se me é negado o amor, por que, então, amanhece;
por que sussurra o vento do sul entre as folhas recém nascidas?
Se me é negado o amor, por que, então,
A noite entristece com nostálgico silêncio as estrelas?
E por que este desatinado coração continua,
Esperançado e louco, olhando o mar infinito?

Rabindranath Tagore (1861-1941)
(Premio Nobel de Literatura 1913)
A Lua
A lua pinta a rua de prata
e na mata a lua parece
um biscoito de nata.

Quem será que esqueceu
a lua acesa no céu?

Roseana Murray