31 de agosto de 2008

“Todos pensam em mudar o mundo,
mas ninguém pensa em mudar a si mesmo”.

Léon Tolstói (1828-1910)

Aviso aos náufragos

Francis Danby
Esta página, por exemplo,
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.
Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.
Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta pagina, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não e assim que é a vida?

Paulo Leminski (1944-1989)

Marie Spartali Stillman

Marie Spartali Stillman(1844-1927)
The Enchanted Garden
Marie Euphrosyne Spartali foi uma pintora londrina com ascendência grega que participou do movimento pré-Raphaelita, indiscutivelmente o maior artista feminina do movimento. Durante seus sessenta anos de carreira, ela produziu mais de uma centena de obras, contribuindo regularmente para galerias na Grã-Bretanha e os Estados Unidos.
Os temas de suas pinturas eram típicas do movimento Pré-Raphaelita: figuras femininas; cenas de Shakespeare, Petrarca, Dante e Boccaccio; também várias paisagens.
Em 1871 casou-se contra a sua família com o artista americano e também jornalista W.J. Stillman; um viúvo cuja esposa havia se suicidado dois anos antes deste casamento. Ele já tinha três filhos e tiveram mais três crianças, um morreu na infância. Devido a seu trabalho no jornal como correspondente na Itália, a família se estabeleceu em Florença em 1878, e então Roma até 1898. Apesar das residências prolongadas no exterior, Spartali transformou-se um contribuinte regular à galeria de Grosvenor de 1877 até 1887.
Sua filha Euphrosyne transformou-se em artista, como sua mãe; seu filho Michael era um arquiteto e estabeleceu-se na América.
Morreu em Grâ Bretanha em 1927.
Foi realizada uma retrospectiva da sua obra nos Estados Unidos em 1982.

Isaac Newton

William Blake-Isaac Newton
Isaac Newton foi um cientista inglês, mais reconhecido como físico e matemático, embora tenha sido também astrônomo, alquimista e filósofo natural.
O formulador da Lei da gravitação universal teve uma aproximação com um clérigo. Newton possuía uma extensa biblioteca de teologia e filosofia a seu dispor, incluindo desde estudos de línguas até todos os tipos de literatura clássica e bíblica, o que pode ter vitalizado seu espírito para inspiradoras abstrações. Adquirindo uma grande fama como cientista, Newton foi influenciado pela política e acabou não se ordenando clérigo, mas permaneceu fiel à sua crença no Universo, embora tenha se comportado como um bom cristão anglicano, atendendo serviços na capela do Trinity Colege e, mais tarde, em Londres. Iniciou uma série de correspondências com o filósofo John Locke.
Considerava que a mecânica celeste era governada pela gravitação universal e, principalmente, por Deus, sobre o qual relata: "A maravilhosa disposição e harmonia do universo só pode ter tido origem segundo o plano de um Ser que tudo sabe e tudo pode. Isto fica sendo a minha última e mais elevada descoberta."
Em um manuscrito que ele escreveu em 1704 no qual ele descreve sua tentativa de extrair informações científicas a partir da Bíblia, ele estima que o mundo não iria terminar antes de 2060.
Newton escreveu muitas obras que passariam a ser classificadas como estudos ocultos. Estas obras exploraram o ocultismo, a cronologia, alquimia e escritos bíblicos, propondo-lhes interpretações especialmente do Apocalipse.

O Movimento Rosa Cruz
A sociedade secreta dos Rosa Cruz, foi possivelmente a que maior influência exerceu sobre Newton. Apesar de o movimento Rosa Cruz ter causado uma grande curiosidade entre os acadêmicos europeus durante o século XVII, à época de Newton já havia atingido a maturidade e se tornara algo menos sensacionalista. O movimento teve uma profunda influência sobre Newton, particularmente nas pesquisas sobre alquimia e filosofia.
A crença Rosa Cruz de serem especialmente escolhidos para comunicarem-se com os anjos ou espíritos ecoa nas crenças proféticas de Newton. Os rosa Cruz proclamavam também ter a habilidade de viver para sempre usando o elixir vitae e a habilidade de produzir um sem limite de quantidade de ouro a partir do uso da Pedra Filosofal, a qual diziam possuir. Tal como Newton, os Rosa Cruz foram profundamente filósofos místicos, declaradamente cristãos e altamente politizados. Newton teve muito interesse nas pesquisas sobre alquimia, mas também nos ensinamentos esotéricos antigos e na crença em indivíduos iluminados com a habilidade de conhecer a natureza, o universo e o reino espiritual.
Ao morrer, a Biblioteca de Newton apresentava 169 livros sobre o tópico da alquimia, e acreditava-se que teria consideravelmente mais livros durante os anos de formação em Cambridge, embora possivelmente os tenha vendido antes de mudar-se para Londres em 1696.

Os últimos anos de vida
Newton foi respeitado como nenhum outro cientista e sua obra marcou efetivamente uma revolução científica.
Seus estudos foram como chaves que abriram portas para diversas áreas do conhecimento cujo acesso era impossível antes de Newton.
Newton, em seus últimos dias, passou por diversos problemas renais que culminaram com sua morte. No lado mais pessoal, muitos biógrafos afirmam que ele havia morrido virgem.
Na noite de 20 de março de 1727 (Calendário Juliano) faleceu. Foi enterrado junto a outros célebres homens da Inglaterra na Abadia de Westminster. A causa provável de sua morte foram complicações relacionadas ao cálculo renal que o afligiu em seus últimos anos de vida.
Seu epitáfio foi escrito pelo poeta Alexander Pope: A natureza e as leis da natureza estavam imersas em trevas; Deus disse
“Haja Newton” e tudo se iluminou.

30 de agosto de 2008

Evelyn Pickering de Morgan
“Na sua forma atual,
a religião é
a própria antítese da verdade”.

Krishnamurti (1895-1986)

Literatura

Por que Literatura?
Pelo simples prazer de descobrir
No real, uma fissura?
Pelo rito ancestral de criar cosmos
Nas usinas da escritura?
Para estender aos arraiais da fala
Nossa visceral tortura?
Para injetar nalgum rincão do caos
O vírus de uma estrutura?
Por sentir que palavra é um brinquedo,
Poesia, uma travessura?
Pelo medo do nada que nos causa
A retangular alvura?
Por que, Literatura?

Bráulio Tavares
O Poeta: Nasceu em 1950 em Campina Grande (PB). Iniciou estudos de Cinema (Universidade Católica de Minas Gerais) e Ciências Sociais (Universidade Federal da Paraíba), mas não concluiu os cursos. Morando em Salvador a partir de 1977, começou a compor e a escrever para o teatro. Mudou-se para o Rio em 1982.
Tem músicas gravadas por numerosos artistas, entre eles Lenine, Elba Ramalho, Tim Maia, MPB-4, Dionne Warwick, Ney Matogrosso e Antônio Nóbrega. Publicou até agora um romance, dois volumes de contos, alguns livros de poesia, além de estudos sobre ficção científica e sobre a poesia popular do Nordeste. Publica artigos regularmente no ‘Jornal da Tarde’ de São Paulo.
Julien Dupre
"A reciclagem hoje é cada vez mais um processo de estreitamento intelectual, porque te ensina a dar a mesma resposta. E você tem o pobre que todo dia se enriquece. Porque ele tem de descobrir como fará para continuar a viver nessa selva. Daí a nossa riqueza: ter tantos pobres. É a sorte do Brasil. Imaginou se fôssemos todos de classe média? Seria um desastre. Como os pobres são muito mais sagazes e sabem que não podem contar com ninguém, são obrigados a ter atitudes de alerta todos os dias. Eles vão refazer o País".
(Milton Santos), no livro
Entrevistas contemporâneas. São Paulo: Sesc, 2004, p.63.
Hermann Hesse (1877-1962), escreveu um livro que merece muito ser lido - O Lobo da Estepe. É a história de um intelectual cinqüentão vivendo em plena desvairada década de 1920 que, após abandonar a regrada vida burguesa, se entrega à dissipação da vida boêmia dos bares, dos salões de dança onde aprende o jazz, e das elegantes cortesãs.
O erudito Harry Haller vive o tempo toda a tensão entre a vida sublime de seus grandes poetas e músicos - Goethe e Mozart, mormente, com os quais inclusive tem encontros imaginários? A vida da alta cultura, do espírito, dos Imortais, e a vida das profundezas da superficialidade, do sensual, da carne, a que é conduzido por Hermínia, mulher da noite que conhece em um bar e alter ego de um amigo de infância que muito o impressionou. Vive, portanto, atraído por dois pólos magnéticos opostos, um representado pela vida noturna, pelo álcool, pelos cigarros, pelo jazz, pelas meretrizes e pelo despertar ao meio dia; o outro pela vida ascética, diurna, tranqüila, de jardins bem cuidados da família burguesa vizinha que admira logo no primeiro capítulo como alguém que sente nostalgia por um paraíso perdido. Mas, em verdade, sabe que viver burguesamente é viver na mesma terra mediana em que vive. O burguês vive dividido entre a atração da vida do santo e a vida do libertino, do espírito e da carne, não conseguindo superar a mediunidade e entregar-se completamente a um dos dois pólos radicais. O Lobo da Estepe, conforme explicado no "Tratado do Lobo da Estepe", pertence à burguesia, não consegue superá-la, daí seu misto de apreço e desprezo pela vida burguesa. Harry entrega-se à dissipação querendo superar a mediocridade burguesa, quer uma transcendência, ainda que pelos "martírio da carne", mas não tem força bastante para esta libertação, daí a sua atração pela vida burguesa quando sente-se aprofundar demais na vida do libertino. Porém, para além da dupla personalidade, Haller descobre ter mil almas, que além dos dois pólos pelos quais se sente atraído, uma infinidade de pulsões interiores e exteriores atua sobre o seu ser, engendrando múltiplas personalidades, mal contidas pela frágil unidade de seu ego. Mas Haller admite no delírio final do romance a coordenação das mil almas, mil personalidades em torno de um eixo central que dá unidade à pluralidade de personas Enquanto outro grande livro de Hesse, Demian, é um romance de formação da personalidade, o Lobo da estepe é um romance que narra a desintegração da personalidade num homem maduro, ou quiçá o fracasso ou a resignação ante a impossibilidade de formação de uma personalidade coesa e sólida na voragem de um tempo de transmutação de valores, de fragmentação e velocidade. Haller vive entre as trevas e a luz, o sensual e o espiritual, o moderno e a tradição, o profano e o sagrado, numa interminável e aguda crise. Não é feliz. A certa altura, no clímax de uma sensual festa de máscaras, imerso na multidão, já desfigurado, sem passado, sem face, sem personalidade, sente seu ego, sua individualidade dissolvida na união mística da alegria. Harry Haller experimenta uma espécie de transcendência espiritual às avessas.

Não deixe de ler este excelente livro.

29 de agosto de 2008

A intangível beleza

Robert James Gordon
Saiu da mão direita de Deus e é contemporânea do Gênesis.
Seus curvos braços, feitos para fecharem-se,
ainda estão imóveis, em golfo abertos,
friamente, diante de todas as águas,
com seus peixes, suas ondas, seu sal cheio de música.
Apenas os estremece, às vezes,
um ritmo de fuga ante o esplendor do fogo próximo.

Compõem sua boca as curvas do infinito e a luz,
e habitam seus olhos de maio e de distância
os vocábulos de oculto país, verdes, esbeltos e evasivos.

O romper do dia espera o alvorecer dos seus pés no chão,
caem as noites e murcham os corações
ao esmorecer de suas pálpebras,
e as tardes refugiam-se em seus cabelos de crepúsculo.

Seu ser interior e corporal é a linfa de uma fonte ausente:
pensá-lo é escalar o vértice, regressar às origens,
ver a poesia nascendo e projetando no mundo o seu mistério.

Que gesto apartará as colunas e separará terras e águas?
Que tacto se deslumbrará nos brancos astros?
Que lábio incendiará a ânfora no abismo?

(Do ninho de suas mãos obscuros pássaros cantam:
sua beleza é uma ilha de nenhum mar.)

Abgar Renault (1901-1995)

Anita Malfatti

Anita Malfatti (1889-1964)
Pé de jabuticaba
Anita Malfatti nasceu em São Paulo. Logo pequena teve contato com a arte, pois, sua mãe era professora de pintura. Incentivada pela família foi, em 1910, para a Alemanha, onde freqüentou, por três anos, a Academia Real de Berlim. Estudou gravura, desenho e pintura, além de conhecer os principais mestres do expressionismo alemão.
De volta ao Brasil, em 1914, realizou sua primeira exposição individual. Foi a seguir para Nova York estudar na Independent School of Art, experiência marcante em sua obra. Teve contato com artistas e intelectuais. Anita iniciou uma obra de tendência claramente expressionista, longe dos padrões acadêmicos vigentes até então no Brasil. Sua exposição em 1917, em São Paulo, recebeu crítica ferrenha de Monteiro Lobato.
Anita é considerada precursora do modernismo nas artes plásticas brasileiras. As obras A Boba e Torso fazem parte dos trabalhos expostos em 1917, considerados o climax de sua produção. Com bolsa do governo de São Paulo foi para Paris, em 1923, onde conviveu com Brecheret, Di Cavalcanti, além de pintores europeus. Ao retornar, em 1928, organizou várias mostras de arte e deu aulas de pintura. Em 1937 integrou-se à Família Artística Paulista. Foi diretora do Sindicato de Artistas Plásticos. Depois da Segunda Guerra, seu trabalho tornou-se mais espontâneo do que intelectual, com uma carga maior de fantasia.
Participou das I e VII Bienais de São Paulo. Morreu em 1964, em São Paulo.

Samsara

► Samsara (2001)
► Direção: Nalin Pan
► Origem: França/Índia/Itália
► Gênero: Drama
► Duração: 145 minutos
Sobre o Filme:
Tashi é um jovem monge tibetano que, após passar três anos em reclusão meditando, é resgatado por seus companheiros, que o ajudam a retornar ao monastério. No caminho, ele vê escrito em uma pedra
“Como impedir que uma gota d'água desapareça ao sol ?” De volta à vida religiosa, Tashi se vê preso a desejos que deveria ter transcendido nos 3 anos de meditação, entre eles:
1. Luxúria (pecado: sexo). Ele passa a ter sonhos eróticos e poluções noturnas que não consegue esconder de seus companheiros... Os desejos por uma existência mundana o atormentam tanto, que ele decide deixar o templo, e ir viver na cidade, para trabalhar, se casar e constituir família. Numa das peregrinações dos monges, Tashi conhece Pema, uma jovem que demonstra interesse por ele. Ao deixar o mosteiro, vai trabalhar na fazenda do pai de Pema. Ela lhe pede desculpas por tê-lo feito abandonar a vida monástica, mas ele diz que fez isso por si mesmo. Casam-se e têm um filho... O pai de Pema vendia sua produção a um comerciante local desde sempre, mesmo que ele o roubasse na pesagem. Tashi praticamente chama de ladrão o único que atravessava o vale para vir comprar a produção da fazenda e este decide não mais fazer negócios por ali. Isso obriga o pai de Pema a vender sua produção na cidade, onde repara que era muito lesado pelo outro comprador, pois na volta o dinheiro nem lhe cabia na carteira...
2. Ambição: (outro pecado).
Tashi conhece a criada de Pema, Sujata, e se encanta por ela (mais um pecado:cobiça). Tashi pensa em aumentar os lucros dispensando trabalhadores locais
3. Cobiça: (outro pecado egoísmo), o que o faz desistir é sua esposa, com pena dos pobres trabalhadores... Uma noite, a plantação pega fogo e todos os trabalhadores da região têm que lutar contra o incêndio para salvar a colheita... salvam metade dela, e ao invés de ficar grato por isso, Tashi vai à cidade espancar o antigo comprador da plantação e o acusa de ter começado o fogo para vingar-se
4. Ira: (mais um pecado), mas sai todo quebrado. Depois disso, ele não tinha mais cara de aparecer na cidade para vender a colheita, e quem passa a acompanhar o pai nisso é Pema. Aproveitando-se da ausência de Pema, Tashi trai a esposa com Sujata
5. Traição: (mais pecado). Ao notar que a esposa voltara, tenta desvencilhar-se rápido de Sujata, que lhe diz: “Por que a pressa? Pema sempre me disse que isso acabaria acontecendo um dia...” Então Tashi vê que sua esposa o tinha por qualquer outro homem e não como um ser especial como ele mesmo se sentia por ter sido monge desde os 5 anos...
6. Orgulho: (outro pecado) assim, ele nem sabia mais como encarar a esposa. Logo chega um seu antigo companheiro de mosteiro lhe trazendo a notícia de que seu mestre morrera, mas que lhe deixou uma mensagem: “Vou voltar para o Samsara. Quem sabe então você possa me dizer o que é melhor: satisfazer mil sonhos ou conquistar apenas um”. Tashi reconhece nisso a oportunidade de voltar ao mosteiro, e resolve faze-lo como fez Buda ao deixar seu palácio: no meio da noite e sem se despedir da esposa e filho pequeno. Quase chegando ao mosteiro, ele encontra Pema, que lhe pergunta se ele sabe quem foi Yashodara (esposa de Buda), ou o que ela fez depois que ele a deixou, quais eram seus sonhos e aspirações, se Buda na verdade não desenvolveu a compaixão pelo mundo devido à convivência com ela (o que é muito provável). Depois que ela parte, ele reencontra a pedra com a frase do início: “Como impedir que uma gota d'água desapareça ao sol” ?. Atrás vinha a resposta:
“Atirando-a ao mar”. Ali ele entendeu que o fim do sofrimento, da angústia e da dor era a morte do ego. Apenas isso. E que sem isso, todos voltamos ao Samsara.
Elenco Principal: Christy Chung, Jamayang Jinpa, Kelsang Tashi, Lhakpa Tsering, Neelesha BaVora, Shawn Ku, Sherab Sangey, Tenzin Tashi.

O filme é uma reflexão profunda sobre o desejo e a necessidade de auto-satisfação. Sobre até que ponto você iria, o que você arriscaria para realizar suas vontades/necessidades e se isso valeria realmente a pena. Com base nos ensinamentos budistas, o filme guarda seu golpe para o final, em que o diretor/roteirista conclui que nenhuma ação no caminho da realização pessoal é isenta de vítimas. Não que o filme exalte a culpa, mas sim a consideração com o próximo. O filme até tenta escapar deste destino, mas preferiu apostar no protagonista (e no homem, em geral) como um produto de sua história. Sem dúvida, esse filme mostra que sem amor (renúncia, desapego), a vida não vale nadinha.
Surpreende o fato de se tratar também de um filme super sensual. Cenas de sexo são exibidas, nada apelativo, de muito bom gosto. E, quando se sai da sala, é inevitável imaginar a posição "helicóptero". Estaria certamente em um livro chamado “Para Além do Kama Sutra”, se este tivesse sido escrito...

28 de agosto de 2008

A. Andrew Gonzalez
Eu escolho um homem que não duvide de minha coragem,
que não me acredite inocente,
que tenha a coragem de me tratar como uma mulher.

Anaïs Nin (1903-1977)

Ausência

Na almofada branca,
as sandálias sonham
com a seda dos teus pés...
Partiste.
Mas a alegria ainda ficou no quarto,
talvez no ninho morno, calcado por teu corpo
no leito desfeito...
Entardece...
Esfuziante e verde,
um beija-flor entrou pela janela,
(pensei que a tua boca ainda estivesse aqui...)
Do frasco aberto,
vestidas de vespas,
voam violetas...
E na almofada de seda,
beijo as sandálias brancas.
vazias dos teus pés.

João Guimarães Rosa
(1908-1967)

Reflexão

“O feio é uma forma do belo. (…) Todas as belezas contêm, como todos os fenômenos possíveis, algo de eterno e algo de transitório, de absoluto e de particular. A beleza absoluta e eterna não existe, ou melhor, ela não é mais que uma abstração que desflora na superfície geral das diversas belezas. O elemento particular de cada beleza provém das paixões e, como temos nossas paixões paticulares, temos nossa beleza”.
Charles Baudelaire (1821-1867)

Alphonse Marie Mucha

Alphonse Mucha (1860-1939)
Alphonse Marie Mucha nasceu em Ivancice e morreu em Praga, na Checoslováquia. Foi um ilustrador e designer gráfico checo e um dos principais expoentes do movimento Art Nouveau. Entre seus trabalhos mais conhecidos estão os cartazes para os espetáculos de Sarah Bernhardt realizados na França de 1894 a 1900 e uma série chamada Épicos Eslavos entre 1912 e 1930.

João Batista da Costa


[Pintura Brasileira]
João Batista da Costa (Itaguaí, 24 de novembro de 1865 — Rio de Janeiro, 20 de abril de 1926) foi um pintor, desenhista, professor e ilustrador brasileiro.
Filho de Francisco José da Costa e Emília da Costa. Depois de uma infância pobre passada no Asilo de Meninos Desvalidos, no Rio de Janeiro, Batista da Costa ingressou em 1885 na Academia Imperial de Belas Artes, com o apoio do Barão de Mamoré, Ministro do Império.
Em 1894, conquistou com o quadro Em repouso o Prêmio de Viagem à Europa na primeira Exposição Geral de Belas Artes do período republicano. Seguiu em 1896 para Paris, onde estudou na Academia Julian.
Retornando ao Brasil em 1898, expôs na Casa Postal, no Rio de Janeiro, apresentando sua produção européia.
Em 1900, ganhou medalha de ouro de segunda classe na Exposição Geral de Belas Artes.
Em 1904, recebeu a medalha de ouro de primeira classe com o quadro Fim de jornada.
Casou no Rio de Janeiro, em 23 de setembro de 1905 com Noêmi Gonçalves Cruz, filha do Bento Gonçalves Cruz, irmã do também médico e sanitarista Osvaldo Cruz. Tiveram quatro filhos.
A partir de 1906, foi professor na Escola Nacional de Belas Artes, instituição que dirigiu a partir de 1915 e onde trabalhou até sua morte.

27 de agosto de 2008

Cindy Thornton
Odeio quem me rouba a solidão sem
em troca me oferecer verdadeira companhia.

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900)
Acho a solidão ótima companheira, principalmente se comparada a estar com alguém que não me acrescente coisas boa, em certos momentos, é preferível ficar só, aprender consigo mesmo, do que emprestar seu tempo a quem não tem nada a lhe oferecer.

Sir Frank Dicksee

Sir Frank Dicksee (1853-1928)
Pintor, escritor e ilustrador inglês. Embora não seja um membro da Irmandade Pré-Rafaelita muitas das pinturas Dicksee's podem ser consideradas neste estilo.
Dicksee começou seus estudos artísticos no estúdio de seu pai que era pintor retratista e de cenas históricas em geral. Entrou na Royal Academy Schools de Londres, após ganhar uma bolsa de estudos em 1871. Seus temas favoritos eram as lendas do Rei Arthur, medievalismo em geral e Shakspeare.

Veja mais obras dele aqui

Os Degraus

Rafael de Sanzio
Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...

Mario Quintana (1906-1994)

A Queda

Albert Camus
O verdadeiro deboche é libertador porque não cria nenhuma obrigação. No deboche, só nos possuímos a nós mesmos; ele fica sendo, pois, a ocupação preferida dos grandes apaixonados da sua própria pessoa.
A indiferença, que ocupava já tanto espaço dentro de mim, deixava de encontrar resistência e alastrava a sua esclerose. Nada de emoções! Um humor igual, ou antes, humor nenhum.
Acabara-se a vida gloriosa, mas também a raiva e os sobressaltos. Era preciso submeter-me e reconhecer a minha culpabilidade. Era preciso viver no «desconforto». É verdade, o senhor conhece aquela cela de masmorra a que na Idade Média chamavam o "desconforto"? Em geral, esqueciam-nos aí para o resto da vida. Esta cela distinguia-se das outras por engenhosas dimensões. Não era suficientemente alta para se poder estar de pé, nem suficientemente larga para se poder estar deitado. Tinha-se de adotar o gênero tolhido, viver em diagonal; o sono era uma queda, a vigília um acocoramento. Meu caro, havia gênio, e eu peso as minhas palavras, neste achado tão simples. Todos os dias, pelo imutável constrangimento que anquilosava (paralisava) o seu corpo, o condenado sabia que estava culpado e que a inocência consiste em nos espreguiçarmos gostosamente. Pode imaginar nesta cela um freqüentador dos cimos e das cobertas dos navios? O quê? Podia-se viver nesta cela e ser-se inocente? Improvável, altamente improvável! Ou então o meu raciocínio caía pela raiz. Que a inocência seja forçada a viver corcunda, recuso-me a considerar por um único segundo esta hipótese. De resto, nós não podemos afirmar a inocência de ninguém, ao passo que podemos afirmar com segurança a culpabilidade de todos. Cada homem atesta o crime de todos os outros, eis a minha fé e a minha esperança.
Há sempre razões para matar um homem. Pelo contrário, é impossível justificar-se que ele viva. Aí está porque o crime encontra sempre advogados e a inocência por vezes apenas.

Albert Camus (1913-1960), in A Queda

26 de agosto de 2008

John Collier

Lady Godiva
John Collier (1850-1934)
John Collier nasceu em Londres. Foi um escritor e pintor do estilo Pré-Rafaelita, abordando temas dramáticos, retratos e paisagens. Pertencia a uma família talentosa e bem sucedida, filho de um juiz e artista amador, Lord Monkswell. Foi educado em Eton e estudou arte em Munique e Heidelberg, bem como na Slade School, sob a orientação de Poynter, e em Paris com Laurens. Também teve o estímulo de Millais e Alma-Tadema. Sua primeira esposa foi Marian Huxley, pintora, que estudou, tal como seu marido, na Slade School e apresentou trabalhos na Royal Academy e em outros salões. Vítima de vários problemas de saúde após o nascimento de sua única filha, faleceu em 1887. Em 1889 Collier casou-se então com sua cunhada Ethel Huxley, com quem teve uma filha e um filho.
Lady Godiva
Godiva (?)990–1067 foi uma aristocrata, anglo-saxônica, considerada patrona das artes e que de acordo com a lenda cavalgou nua pelas ruas de Coventry na Inglaterra, em protesto contra os altos impostos.
Godiva foi esposa de Leofric que foi o Conde da Mercia, um condado que hoje se refere ao País de Gales, incluindo a cidade de Coventry.
Diz a lenda que a bela Lady Godiva teve pena do povo de Coventry, que sofria com os altos impostos do marido. Lady Godiva mandou que todos os moradores se fecharem em suas casas até que ela passasse nua cavalgando em protesto. Mas a lenda fala que somente uma pessoa ousou olhá-la, e ficou cego por conseqüência. Ao final da história, Leofric manda diminuir os impostos.
- Godiva foi imortalizada num poema de Alfred, Lord Tennyson.
- Freddie Mercury, vocalista do Queen, cita Lady Godiva na música "Don´t Stop me Now" neste trecho: "I´m racing car, passing by like Lady Godiva".
- No Brasil, Fausto Fawcett faz uma analogia à Godiva na música "Katia Flávia, a Godiva do Irajá" que tem o trecho "Ficou famosa por andar num cavalo branco pelas noites suburbanas toda nua”!! Toda nua!!
Hoje a revista playboy sempre traz alguma beldade imitando a Lady Godiva, só que ao invés de pedir para as pessoas não a olharem fazem bastante publicidade para que muitos a vejam.

Mario Quintana


As três crises mundiais do momento:
  • Financeira (derrocada dos bancos americanos)
  • energética (alta dos combustíveis)
  • alimentar (a escassez de alimentos)
É a financeirização generalizada da produção capitalista. E Marx está fora de moda? Está mesmo? O que você acha? Você deve estar perguntando. E a educação? E a água? E as florestas?:
Ai, calma! Vamos devagar...

25 de agosto de 2008

“Sê muito vale o já feito, mais vale o que virá”.
(Fernando Brant)

Acaso

Cada pessoa que passa em nossa vida,
passa sozinho, mas não vai só,
nem nos deixa só.
Leva um pouco de nós, deixa um pouco de si.
Há os que levaram muito,
mas não há os que não deixaram nada.
Esta é a maior responsabilidade
de nossa vida e a prova de que duas almas
não se encontram por acaso...

Antoine de Saint-Exupèry (1900-1944)

Paulo Freire

“Se há algo que os educandos brasileiros precisam saber, desde a mais tenra idade, é que a luta em favor do respeito aos educadores e à educação inclui que a briga por salários menos imorais é um dever irrecusável e não só um direito deles. A luta dos professores em defesa de seus direitos e de sua dignidade deve ser entendida como um momento importante de sua prática docente, enquanto prática ética. Não é algo que vem de fora da atividade docente, mas algo que dela faz parte”.
Paulo Freire (1921-1997)

Impressionismo

Grande Jatte
Seurat (1859-1891)
Georges-Pierre Seurat nasceu numa abastada família burguesa em Paris, e estudou na Escola de Belas Artes, para onde entrou em 1878. O seu trabalho, influenciado pelos mestres da renascença, caracterizava-se por ser extremamente disciplinado e ordenado. Embora influenciado pelos impressionistas, apreciando os seus valores e alicerces científicos, Seurat rejeitou a espontaneidade e a ausência de forma destes, e reintroduziu a estrutura e a formalidade na pintura.
A década de 1880 foi um período florescente para as artes. Os jovens pintores sentiam-se excitados com a perspectiva do próximo século e, adotando novas e científicas teorias da cor, procuravam criar um estilo moderno que expressasse bem essa nova época. Seurat não foi exceção, dedicou-se à técnica do impressionismo, assim como ao estudo da teoria da cor e à óptica. Georges Seurat contribuiu para a pintura francesa ao introduzir uma técnica mais sistemática e científica, chamada divisionismo ou pontilhismo a que ele chamou Pintura Óptica. A técnica consiste em separar as cores nas suas componentes, de maneira que, em vez de serem misturadas como pigmentos e aplicadas à tela, são, desde que as vejamos à distância certa, misturadas pelo olhar.
A técnica do divisionismo utilizada por Seurat deu origem ao neo-impressionismo e foi extensivamente utilizada na arte do século XX. Pode-se dizer que a teoria do divisionismo foi o precursor da televisão e da imagem digital. Tal como Mondrian e Leonardo da Vinci, Seurat também recorreu à técnica da simetria dinâmica usando retângulos de ouro nas suas pinturas.

24 de agosto de 2008

Espinhos
de flores
carinhos
de dores

espinhos
de dores
carinhos
de flores

malditos
benditos
carinhos

benditos
malditos
espinhos.

Afonso Estebanez

Da paginação

James Joseph Jacques Tissot
Os livros de poemas devem ter margens largas e muitas páginas em branco e suficientes claros nas páginas impressas, para que as crianças possam enchê-los de desenhos gatos, homens, aviões, casas, chaminés, árvores, luas, pontes, automóveis, cachorros, cavalos, bois, tranças, estrelas – que passarão também a fazer parte dos poemas…
Mario Quintana (1906-1994)
Deve chamar-se tristeza
Isto que não sei que seja
Que me inquieta sem surpresa
Saudade que não deseja.
Sim, tristeza - mas aquela
Que nasce de conhecer
Que ao longe está uma estrela
E ao perto está não a Ter.
Seja o que for, é o que tenho.
Tudo mais é tudo só.
E eu deixo ir o pó que apanho
De entre as mãos ricas de pó.

Fernando Pessoa (1888-1935)

Volpi

Alfredo Volpi
(1896-1988)
Mastro com Bandeiras
Alfredo Volpi nasce em Lucca, na Itália. Os pais de Volpi chegaram ao Brasil quando ele tinha menos de dois anos de idade e fixaram residência em São Paulo. Autodidata, começa a pintar em 1911 ainda adolescente, executando murais decorativos. Em 1922 passa a pintar também sobre tela e madeira. De 1937 a 1940 integra o Grupo Santa Helena, juntamente com Francisco Gonzales Rebolo, Mário Zanini e Aldo Bonadei, e a Família Artística Paulista, que se dedica a uma pintura mais tradicional e figurativa. Em 1944 realiza sua primeira exposição individual. Nos anos 50 evolui para a abstração geométrica, com a série de bandeiras e mastros de festas juninas que se tornaria sua fase mais marcante. Recebe o prêmio de melhor pintor nacional na 2ª Bienal Internacional de Artes de São Paulo (1953). Participa da Bienal de Veneza em 1954 e da 1ª Exposição de Arte Concreta dois anos depois. Morre em São Paulo aos 92 anos de idade.