31 de julho de 2008




Vou-lhe dizer um grande segredo, meu caro. Não espere o juízo final. Ele realiza-se todos os dias.

Albert Camus
A Condição Humana - René Magritte (1898-1967)
Esse pintor belga em "A Condição Humana, 1933" questiona a distinção entre a ilusão e a realidade. O estilo meticuloso e frio, derivado do mundo da publicidade e da ilustração, acrescenta uma convicção próxima da de um documentário a esta estranha imagem, desafiando as nossas certezas visuais. O caráter ilusionístico e a atmosfera de sonho são próprios da sua versão individual do Surrealismo.
A obra de Magritte pode ser considerada uma síntese do que se fez nas vanguardas das artes plásticas.
As concepções estéticas de Magritte diferem, por exemplo, de Salvador Dali, o personagem que é quase confundido com o ideário do surrealismo. Se o espanhol subverte a realidade através do onírico, usando o que chamou de método crítico-paranóico (embrenhando-se no mistério dos sonhos e das alucinações), o pintor belga a subverte colocando numa mesma composição dicotomias, paradoxos, metamorfoses, imagens bizarras.
Magritte foi um detonador de ideias e conceitos. O mundo de Magritte é o do palpável, em que a "supra-realidade" deve ser feita com elementos do dia-a-dia.Ele não facilita a vida de quem vê as suas telas. Suas imagens obsessivas solicitam que se decodifique um enigma, um quebra-cabeça, uma charada inteligente.
Uma das leituras da obra de Magritte é que através da transformação na ordem natural da vida pode se chegar a uma nova verdade ou, como ele mesmo diz: "Que o mistério do real se revele".
Na sua biografia lemos a história de um homem normal, com suas passagens dramáticas e seus momentos de alegria. Teve um só casamento, com Georgette Berges, que foi sua musa a vida inteira e a ele sobreviveu. Poucas lembranças ficaram da infância. Sua mãe suicidou-se atirando-se em um rio, mas essas lembranças não permaneceram. Lendo sua biografia tem-se a ideia de um homem comum. Vendo os seus quadros, conhece-se o gigante. Compreendendo-o melhor, descobre-se a verdade da sua afirmação: "Eu faço uso da pintura para tornar os pensamentos visíveis”.

Há no fundo das almas um precipício
inato de justiça e de virtude,
com o qual nós julgávamos as nossas ações
e as dos outros como boas ou más;
e é a este princípio que dou
o nome de consciência.

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)
Henri Matisse
“Mas no preciso instante em que o gole com migalhas de bolo misturadas me tocou o céu da boca, estremeci, atento ao que de extraordinário estava a passar-se em mim. Fora invadido por um prazer delicioso, um prazer isolado, sem a noção da sua causa. Tornara-me imediatamente indiferentes as vicissitudes da vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua brevidade, do mesmo modo que o amor opera, enchendo-me de uma essência preciosa: ou, antes, tal essência não estava em mim, era eu mesmo. Deixara de me sentir medíocre, contingente, mortal. Donde poderia ter vindo aquela poderosa alegria? Sentia-a ligada ao gosto do chá e do bolo, mas ultrapassava-o infinitamente, não devia ser da mesma natureza. Donde vinha? Que significava? Onde agarrá-la? Bebo um segundo gole, no qual nada encontro a mais que no primeiro, e um terceiro que me traz um pouco menos que o segundo. É tempo de parar, a virtude da bebida parece estar a diminuir. É verdade que a verdade que procuro não está nela mas em mim.(...) Pouso a xícara e volto-me para o meu espírito. A ele cabe encontrar a verdade. Mas como? Grave incerteza, sempre que o espírito se sente ultrapassado por si mesmo; quando ele, o explorador, é todo ele o país escuro que tem a explorar e onde lhe não servirá de nada toda a sua bagagem. Explorar? Não só: criar. Está diante de algo que não é ainda e que só ele pode tornar real e depois fazer entrar na sua luz”.
Marcel Proust (1871-1922)
- Em busca do Tempo perdido.

30 de julho de 2008

“Antes, o cotidiano me aborrecia.
Ao pintar, passei a sentir-me
gloriosamente livre e tranquilo”.

Henri Matisse
A Dança - Henri Matisse (1869-1954)
O corpo como obra de arte
Cinco figuras cor-de-rosa dançam alegremente, formando um circulo. Elas viram o corpo de um lado para o outro, embrenhadas no ritmo da dança. Parecem mover-se tão depressa que a mão esquerda da mulher no centro do quadro e em primeiro plano se soltou. O esquema de cores vivas e a liberdade expressiva das mulheres enquadram-se na gama de cores do Fauvismo, de que Matisse foi o expoente máximo.
"Fauve" significa "animal selvagem" e foi um termo aplicado depreciativamente à obra de Matisse, por parte de um crítico de arte indignado com a utilização das cores garridas. O seu fascínio pela arte e pelos têxteis do Oriente Próximo deu origem a um estilo exótico decorativo, que muitas vezes incorporava superfícies fortemente padronizadas. Junto com Picasso, Matisse é considerado por muitos o grande gênio artístico do século XX. O uso revolucionário que deu à cor para evocar emoções inspiraria as gerações de pintores que se seguiram. Henri Matisse nasceu na França, em 1869 e morreu em 1954.
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?

José Saramago

29 de julho de 2008


Na vida tem três injustiças essenciais das quais o homem nunca consegue se libertar:
- a morte,
- a opressão,
- e a separação dos amantes.

Albert Camus (1913-1960)

Frederick Morgan (1846–1927)

Frederick Morgan nasceu em Londres e pintou retratos de animais domésticos e cenas familiares, principalmente pinturas de crianças.
Ele era conhecido como Fred Morgan e, por vezes, como Júri Morgan após uma de suas pinturas "Os Cavalheiros do Júri.", no mesmo estilo que o seu contemporâneo João Arthur Elsley. Suas pinturas alcançaram grande popularidade ainda em vida e foram amplamente divulgadas. Ele foi membro do Royal Institute of Oil Pintores. Durante muitos anos, Thomas Agnew & Sons comprou todo o trabalho que ele produziu.
Suas pinturas estão em muitas galerias de arte e museus, incluindo o Walker Art Gallery, em Liverpool e da Russell-Cotes Museu, em Bournemouth.
“Conhecer alguém aqui e ali
que pensa e sente como nós, e que
embora distante, está perto em espírito.
Eis o que faz da Terra um jardim habitado.”

Goethe (1749-1832)
Devemos andar sempre bêbados. Tudo se resume nisto: é a única solução. Para não sentires o tremendo fardo do Tempo que te despedaça os ombros e te verga para a terra, deves embriagar-te sem cessar. Mas com quê? Com vinho, com poesia ou com virtude, a teu gosto. Mas embriaga-te. E se alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre as verdes ervas duma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunta-lhes que horas são: “São horas de te embriagares! Para não seres como os escravos martirizados do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem cessar! Com vinho, com poesia, ou com virtude, a teu gosto”.
Charles Baudelaire (1821-1867),
in “O Spleen de Paris”

28 de julho de 2008

OS MANTRAS são sons sagrados que ajudam a entrar em estado de meditação, mas podemos usá-los sempre que necessário.
Man, em sânscrito quer dizer mente, e Tra quer dizer liberação. Portanto, mantra quer dizer literalmente liberação da mente. O mantra é uma vibração sonora que, quando emitido corretamente, exerce um efeito poderoso em nosso corpo e nossa mente. Ele acalma nossas mentes e sentidos, relaxam o corpo e nos liga a energias superiores, pois sua vibração provoca a limpeza de energias de vibração mais baixa. O mantra é definitivamente uma palavra de poder, uma palavra sagrada, que deve ser usado com propriedade e consciência.
A força do mantra reside em sua entonação correta e na mentalização adequada.
O OM o mais conhecido dos mantras, foge a todas as regras gramaticais expostas, pois é considerado a síntese de todos os sons.
Max Hayslette - Island-Afternoon
Max Hayslette é um artista americano, nascido em 1930 em West Virginia. É um artista romântico, famoso por seu processo de usar a sua imaginação para interagir com sua memória, re-criar objetos e locais que visitou. O que ele se propõe a fazer é capturar uma essência espiritual ou uma verdade mais profunda dos temas de suas pinturas, que mistura a sua própria essência e a do local, capturando a beleza do mundo que o rodeia.
Maxfield Parrish - The Lantern Bearers
“A palavra tem uma arte e uma ciência: Como ciência exprime o pensamento com toda a sua fidelidade e singeleza: Como arte, reveste a ideia de todos os relevos, de todas as graças e de todas as formas necessárias para fascinar o espírito”.
José de Alencar (1829-1877)
As nossas visitas despediam-se, eu ficava só, evadia-me deste cemitério banal, ia juntar-me à vida, à loucura nos livros. Bastava-me abrir um deles para redescobrir esse pensamento inumano, inquieto, cujas pompas e trevas ultrapassavam o meu entendimento, que saltava de uma ideia a outra tão depressa que eu largava a presa cem vezes por página, deixando-a escapulir, aturdido, perdido. Eu assistia a acontecimentos que meu avô julgaria inverossímeis e que, não obstante, possuíam a deslumbrante verdade das coisas escritas. [...]
Jean-Paul Sartre (1905-1980)
Mãe, que é que é o mar, mãe? Mar era longe, muito longe dali, espécie de lagoa enorme, um mundo d'água sem fim. Mãe mesma nunca tinha avistado o mar, suspirava. “Pois mãe, então o mar é o que a gente tem saudade”?
João Guimarães Rosa (1908-1967)
As palavras
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade (1923-2005)

27 de julho de 2008

Eliseu Visconti (1866-1944)

Eliseu Visconti - Trigal
Eliseu D'Angelo Visconti nasceu na Itália em 1866 e faleceu no Rio de Janeiro em 1944. Tendo chegado ao Brasil com menos de um ano, em companhia dos pais, a princípio desejou ser músico, chegando a estudar teoria, solfejo e violino.
Coube à sua madrinha, a Baronesa de Guararema, descobrir-lhe a verdadeira vocação, após ter visto o desenho de uma camponesa italiana que o afilhado fizera.
Em 1884, trocando a música pela pintura, Visconti está matriculado no Liceu de Artes e Ofícios, tornando-se aluno de Vítor Meireles.
Muito se escreveu sobre Visconti como o introdutor do Impressionismo no Brasil; mas pouco sobre o fato de ter esse artista praticado o Art Noveau no momento da maior vitalidade do estilo. Estilisticamente foi um eclético; e, tolerante embora para com a arte moderna, nunca a compreendeu de todo - apesar de visitar com interesse as exposições de Portinari e Segall realizadas em 1943.
Em meados de 1944, Visconti, então com 77 anos, sofreu uma queda em seu ateliê da Avenida Mem de Sá, no Rio. As circunstâncias em que tal acidente ocorreu são misteriosas, chegando Frederico Barata a falar vagamente em "acidente ou crime de que foi vítima no ateliê". A agonia durou dois meses; reanimou-se, pouco depois, por mais duas ou três semanas, durante as quais com descomunal força de vontade retomou os pincéis, dizendo repetidas vezes a seus familiares: “Nasci de novo! E agora é que vou começar a pintar, vocês vão ver!”
A euforia pouco durou: a 15 de outubro de 1944 faleceu, não sem antes ter dito ao amigo fiel essas sábias palavras, que lembram tão de perto as conhecidas frases de Hokusai: “O que falta às gerações de hoje é angústia da humildade, da impotência diante dos problemas da pintura, que parecem simples e são incrivelmente grandes e complexos. Satisfazem-se rapidamente com o que fazem e julgam-se mestres, na juventude, quando deviam convencer-se de que até à velhice, até à morte, serão humildes aprendizes...”
Guernica - Picasso (1881-1973)
“É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e, quanto mais come e consome, tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades em que não há mal nenhum que ou se não padeça, ou se não tema, nem bem que seja próprio e seguro: — o pai não tem seguro o filho; o rico não tem segura a fazenda; o pobre não tem seguro o seu suor; o nobre não tem segura a honra; o eclesiástico não tem segura a imunidade; o religioso não tem segura a sua cela; e até Deus, nos templos e nos sacrários, não está seguro”.
Padre António Vieira, Sermão Histórico e Panegírico.

26 de julho de 2008

Dante e Beatriz

Henry Holyday - Dante e Beatriz
Qual é a propaganda mais difundida, mais poderosa e mais eficaz do mundo? Coca-Cola? Malboro? IBM? Nada disso. É a do amor romântico. Ela existe há 800 anos, mas até o século passado, apesar de arrebatar corações, não podia se misturar a uma relação fixa e duradoura. Casamento por amor, nem pensar! Impossível de se realizar, inatingível e tormentoso, nele a pessoa amada é sempre idealizada.
As histórias de Tristão e Isolda e de Romeu e Julieta ilustram bem como o amor romântico é regido pela impossibilidade. Quanto mais obstáculos a transpor, mais apaixonado ele se torna. Entretanto, em um determinado momento, interesses econômicos introduziram esse tipo de amor no casamento, transformando toda a sua história.
Até a Revolução Industrial, no final do século 18, as pessoas moravam mais no campo, junto a vários outros membros da família, o que fazia com que sentissem afetivamente amparadas. Os casamentos aconteciam por razões econômicas e políticas. Por isso é que duravam a vida toda. Não havendo romance nem expectativa de satisfação sexual, não havia decepções, e ninguém pensava em se separar.
Mas as fábricas e os escritórios que surgiam foram atraindo os homens para trabalhar nos centros urbanos. Nasceu, então, a família nuclear – mãe, pai, filhos - agora sozinhos na cidade. Para que o casal suportasse viver assim, longe daqueles com quem tinha laços afetivos, inaugurou-se o amor romântico no casamento.
Atualmente existe uma campanha, incorporada por todos os meios de comunicação, que procura nos convencer de que só é possível ser feliz vivendo um romance, que traz a ilusão do amor verdadeiro. Tão grande quanto o desejo de vivê-lo. Por isso, poucos suportam ouvir que, apesar de toda a magia prometida, ele não passa de uma mentira. Sem contar que traz mais tristeza do que alegria, além de muito sofrimento.
Desde que nascemos nos empurram o amor romântico goela abaixo, como se fosse um pacote econômico do governo. Não se discute, cumpre-se. Uma criança de um ano, por exemplo, já toma sua sopinha com a babá, assistindo à novela das sete. Na hora de dormir, a mãe conta a história de Branca de Neve ou Cinderela, e assim por diante. Todas as expectativas e ideias do amor romântico são passadas como uma única forma de amor, e aprendemos a sonhar e a buscar um dia viver tal encantamento. Entretanto, são várias as mentiras que o amor romântico impõe para manter a fantasia do par amoroso idealizado, em que duas pessoas se completam, nada mais lhes faltando. Entre elas estão afirmações absurdas como:

.............Só é possível amar uma pessoa de cada vez.
.............Quem ama não sente tesão por mais ninguém.
............. O amado é a única fonte de interesse do outro.
.............Quem ama sente desejo sexual pela mesma pessoa a vida inteira.
........Qualquer atividade só tem graça se a pessoa amada estiver presente.
........
Todos devem encontrar um dia a pessoa certa. Como nenhuma delas corresponde à realidade, em pouco tempo de relação vêm a decepção e a frustração. No amor romântico idealizamos a pessoa amada e projetamos nela tudo que gostaríamos de ser ou como gostaríamos que ela fosse. Não nos relacionamos com a pessoa real, mas com a inventada. É claro que, na intimidade da convivência do dia-a-dia, para manter a idealização a consequência natural é o desencanto. É por isso que se faz tanta música de dor de amor. E, para completar, todo mundo adora.
Regina Navarro Lins - Psicanalista

John William Godward

John William Godward - Autumn
John William Godward - Autumn John William Godward (Britânico, 1861-1922). Dedicou toda sua vida a pintar jovens em túnicas clássicas e posando em uma varanda de mármore.
Em meados dos anos 20 do século passado, a maioria dos pintores vitorianos foram motivos de piada, já que ninguém mais queria saber de obras "antiquadas". A moda era o modernismo e a inovação.
Foi um protegido de Sir Lawrence Alma-Tadema, mas seu estilo perdeu o gosto do público com a concorrência de pintores como Picasso. Godward não conseguiu mudar de estilo de pintura e quando viu que não vendia mais seus quadros, se suicidou, inalando gás, e diz-se que em seu bilhete de suicida estava escrito: "O mundo não é grande o suficiente para mim e Picasso".
Sua família se sentiu tão humilhada por isso, que resolveu destruir todas as suas fotografias e desenhos.Não se tem conhecimento de ter restado alguma fotografia de Godward.
Felizmente, as pinturas foram salvas. Hoje em dia, uma obra de Godward supera a cifra de um milhão de dólares. A maioria das pinturas se encontram em algumas coleções particulares.
Sua obra mais famosa é (abaixo)
Dolce Far Niente.
Pesquise mais Aqui
Vai Passar
Vai passar
Nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo
Da velha cidade
Essa noite vai
Se arrepiar
Ao lembrar
Que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais
Num tempo
Página infeliz da nossa história
Passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia
A nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações
Seus filhos
Erravam cegos pelo continente
Levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais
E um dia, afinal
Tinham direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia
Que se chamava carnaval
O carnaval, o carnaval
(Vai passar)
Palmas pra ala dos barões famintos
O bloco dos napoleões retintos
E os pigmeus do bulevar
Meu Deus, vem olhar
Vem ver de perto uma cidade a cantar
A evolução da liberdade
Até o dia clarear
Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório geral vai passar
Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório geral
Vai passar.

Chico Buarque de Holanda - em 1984
Não passou... Olhando pela janela observo que as páginas infelizes de nossa História não vêm sendo devidamente lembradas para nunca mais poderem voltar. A moçada que está aí, não tem ideia do que seja viver em uma Ditadura e, muitas vezes, chegam a falar em necessidade de tempos totalitários.
A Pátria continua dormindo distraída e as tenebrosas transações já não são tão escondidas, acontecem registradas em câmeras e são usadas como elemento de chantagem.
Nossas crianças moradoras nas ruas, nossos pigmeus do boulevard, transformam-se cada vez mais rápidos em aviõezinhos, depois traficantes, e, rapidamente, em presuntos chacinados por outros barões e napoleões retintos, com origem semelhante e também faminta, em uma guerra insana.
Severinos descarados já se afastaram da sina descrita poeticamente por João Cabral de Melo Neto, e hoje olham distante e com desprezo para os que morrem um pouco por dia.
O Sanatório Geral está lotado, nunca esteve tão cheio, e sua insanidade se espalha em uma velocidade crescente. Nosso sistema educacional, por exemplo, não educa mais ninguém. Nossos cuidadores de saúde, em outro exemplo, estão doentes e impotentes para cuidar de alguém. Nossos valores culturais, em síntese, vem cada vez mais se tornando um reservatório de sub culturas e produzindo condições alarmantes de geração de bobagens.
No entanto, mais do que nunca, precisamos acreditar que isso tudo vai passar. Mas fazendo dessa fé uma ação para que isso tudo mude. Não basta ficar esperando que alguém mude por nós. Nossos medos e inseguranças precisam mobilizar intenções de transformação social.

25 de julho de 2008

Spring, Pont de Clichy
Vincent Van Gohg (1853 - 1890)

O Sexo é um Caso Sério

Sir John Everett Millais
“Pensai no casal mais belo, mais encantador, como ele se atrai e se repele, se deseja e foge um do outro com graça num belo jogo de amor. Chega o instante da volúpia, e toda a brincadeira, toda a alegria graciosa e doce de súbito desapareceram. Porquê? Porque a volúpia é bestial, e a bestialidade não ri. As forças da natureza agem por toda a parte seriamente. A volúpia dos sentidos é o oposto do entusiasmo que nos abre o mundo ideal. O entusiasmo e a volúpia são graves e não comportam a brincadeira”.
Arthur Schopenhauer (1788–1860),
in 'Metafísica do Amor'
(...) no Mundo e entre os homens, isto que vulgarmente se chama amor, não é amor, é ignorância. Pinta-se o Amor sempre menino, porque ainda que passe dos sete anos, como o de Jacob, nunca chega à idade de uso de razão. Usar de razão, e amar, são duas coisas que não se juntam. A alma de um menino, que vem a ser? Uma vontade com afetos, e um entendimento sem uso. Tal é o amor vulgar. Tudo conquista o amor, quando conquista uma alma; porém o primeiro rendido é o entendimento. Ninguém teve a vontade febricitante, que não tivesse o entendimento frenético. O amor não deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tresvariar, se é amor. Nunca o fogo abrasou a vontade, que o fumo não cegasse o entendimento. Nunca houve enfermidade no coração, que não houvesse fraqueza no juízo. Por isso os mesmos Pintores do Amor lhe vendaram os olhos. E como o primeiro efeito, ou a última disposição do amor, é cegar o entendimento, daqui vem, que isto que vulgarmente se chama amor, tem mais partes de ignorância: e quantas partes tem de ignorância, tantas lhe faltam de amor. Quem ama, porque conhece, é amante; quem ama, porque ignora, é néscio. Assim como a ignorância na ofensa diminui o delito, assim no amor diminui o merecimento. Quem, ignorando, ofendeu, em rigor não é delinqüente; quem, ignorando, amou, em rigor não é amante.
Padre Antonio Vieira, em “Sermão do Mandato”.

24 de julho de 2008

A Finalidade do Estado é a Liberdade

Thomas Kostecki
Num Estado democrático, o que menos se tem a temer é o absurdo, pois é quase impossível que a maioria dos homens unidos em um todo, se esse todo for considerável, concorde com um absurdo.
(...) Não, repito, a finalidade do Estado não é fazer os homens passarem da condição de seres razoáveis à de animais brutos ou de autómatos, mas, pelo contrário, é instituído para que a sua alma e o seu corpo se desobriguem com segurança de todas as suas funções, para que eles próprios usem uma Razão livre, para que não lutem mais por ódio, cólera ou artifício, para que se suportem sem animosidade uns aos outros. A finalidade do Estado é portanto, na realidade, a liberdade.
Baruch Von Espinoza (1632-1677)

Nossa imagem da felicidade

Arild Rosenkrantz
“Entre os atributos mais surpreendentes da alma humana, diz Lotze, "está, ao lado de tanto egoísmo individual, uma ausência geral de inveja de cada presente com relação a seu futuro". Essa reflexão conduz-nos a pensar que nossa imagem da felicidade é totalmente marcada pela época que nos foi atribuída pelo curso da nossa existência. A felicidade capaz de suscitar nossa inveja está toda, inteira, no ar que já respiramos, nos homens com os quais poderíamos ter conversado, nas mulheres que poderíamos ter possuído. Em outras palavras, a imagem da felicidade está indissoluvelmente ligada à da salvação. O mesmo ocorre com a imagem do passado, que a história transforma em coisa sua.
O passado arrasta consigo um índice secreto que remete à salvação. Será que não há, em vozes a que prestamos atenção, um eco de vozes agora silenciadas? Será que as mulheres que cortejamos não têm irmãs que elas mesmas não chegaram a conhecer? Se assim é, então existe um acordo secreto entre as gerações passadas e a nossa. Alguém na terra está à nossa espera. Nesse caso, como a cada geração, foi-nos concedida uma frágil força messiânica para a qual o passado dirige um apelo. Esse apelo não pode ser rejeitado impunemente”.
Walter Benjamin (1892-1940)

23 de julho de 2008

Imagem

Spring - John Collier (1850 - 1934)
“Desejava duas coisas, a primeira era a possessão absoluta. A segunda era a lembrança absoluta que ele lhe queria deixar. Os homens sabem tão bem que o amor está votado à morte que trabalham pela memória desse amor durante todo o tempo que vivem. Ele queria deixar-lhe uma grande ideia de si mesmo a fim de que o seu amor fosse grande, definitivamente. Sabia, porém, agora, que ele próprio não era grande, que ela, mais cedo ou mais tarde, o viria a saber um dia, e que, cm vez da recordação absoluta, seria para ele pelo menos a morte absoluta. A vitória, a única vitória seria reconhecer que o amor pode ser grande mesmo quando o amante o não é. Mas ele ainda não estava preparado para essa terrível modéstia”.
”Há uma honra no amor. Perdida ela, o amor nada é”.

Albert Camus (1913-1960)

Henri Rousseau

Carnaval na Floresta - Henri Rousseau (1884-1910)
Este genial autodidata, conhecido como "Le Douanier" - devido ao seu emprego como fiscal aduaneiro, pintava de modo intuitivo, sem preocupações teóricas, movido apenas por um objetivo concreto: reproduzir na tela a realidade circundante com a maior fidelidade possível. Foi o único pintor de estilo naïf que conseguiu exercer influência sobre estilos posteriores, como o surrealismo, o simbolismo e a arte Pop. Sua obra foi objeto, a princípio, de escárnio generalizado, devido ao estilo infantil e ingênuo. No entanto, Rousseau manteve presença constante no Salon des Indépendents, exposição fundada em 1884 e que não estava sujeita ao julgamento de um júri. Depois disso, passa a organizar soirées no seu atelier onde se reúnem os mais destacados elementos do mundo artístico e intelectual de então.
Em 1908, Picasso deu um jantar no seu estúdio em honra de Rousseau, um acontecimento que o ajudou a estabelecer-se como um símbolo do interesse sofisticado na arte pseudo-primitiva.

22 de julho de 2008






Onde estais, anjos meus, que nunca vos conheci?
Litzlberg am Attersee - Gustav Klimt
Agora que nos encontramos,
de repente compreendemos
que estávamos sozinhos…
Que importa o que vivemos?
Que importa o que passamos?
Seria mesmo Vida, a vida que levamos
por diferentes caminhos?
Agora que nos encontramos,
que te quero e me queres
como uma força jamais
pressentida,
parece incrível que eu já tenha falado de amor
a outras mulheres,
e que antes de mim pudesse ter havido algum amor
em tua vida!

J.G.de Araujo Jorge (1914-1987)

21 de julho de 2008



“Platão disse que víamos no rosto de quem amamos a imagem do deus que nos governa. Convém acrescentar que também nele encontram-se os nossos demônios pessoais...”.
Imagem: Illustration - Georges Barbier

O Povo

Stefan Luchian
Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão.
Estes homens, são o Povo.
Estes homens estão sob o peso de calor e de sol, transidos pelas chuvas, roídos de frio, descalços, mal nutridos; lavram a terra, revolvem-na, gastam a sua vida, a sua força, para criar o pão, o alimento de todos.
Estes são o Povo, e são os que nos alimentam.
Estes homens vivem nas fábricas, pálidos, doentes, sem família, sem doces noites, sem um olhar amigo que os console, sem ter o repouso do corpo e a extensão da alma, e fabricam o linho, o pano, a seda, os estofos.
Estes homens são o Povo, e são os que nos vestem.
Estes homens vivem debaixo das minas, sem o sol e as doçuras consoladoras da Natureza, respiram mal, comendo pouco, sempre na véspera da morte, rotos, sujos, curvados, e extraem o metal, o minério, o cobre, o ferro, e toda a matéria das indústrias.
Estes homens são o Povo, e são os que nos enriquecem.
Estes homens, nos tempos de lutas e de crises, tomam as velhas armas da Pátria, e vão, dormindo mal, com marchas terríveis, à neve, à chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nós conservemos o nosso descanso opulento.
Estes homens são o Povo, e são os que nos defendem.
Estes homens formam equipagens dos navios, são lenhadores, guardadores de gado, servos mal retribuídos e desprezados.
Estes homens, são os que nos servem.
E o mundo oficial, opulento, soberano, o que faz a estes homens que o vestem, que o alimentam, que o enriquecem, que o defendem, que o servem?
Primeiro, despreza-os, não pensa neles, não vela por eles, trata-os como se tratam os bois; deixa-lhes apenas uma pequena porção dos seus trabalhões dolorosos; não lhes melhora a sorte, cerca-os de obstáculos e de dificuldades; forma-lhes em redor uma servidão que os prende a uma miséria que os esmaga; não lhes dá proteção; e, terrível coisa, não os instrui: deixa-lhes morrer a alma.
É por isso que os que têm coração e alma, e amam a justiça, devem lutar e combater pelo Povo.
E ainda que não sejam escutados têm na amizade dele uma consolação suprema.
Eça de Queirós (1845-1900)
Vê como o verão
subitamente
se faz água no teu peito,
e a noite se faz barco,
e a minha mão marinheiro.

Eugénio de Andrade (1923-2005)

20 de julho de 2008

Competição

Em cada geração, as melhores inteligências e as mais ricas imaginações são imoladas no Altar do Supremo Deus da Competição. A competição é, não apenas má, como um ato educativo, mas também como um ideal para a juventude. O que o mundo necessita não é de competição, mas de organização e cooperação; toda a crença na sua utilidade torna-se um anacronismo. E mesmo que a competição fosse útil, não seria louvável em si própria, considerando que as emoções correspondentes são de hostilidade e crueldade. A concepção da sociedade como um todo orgânico é de muito difícil aceitação, para os que foram educados numa ideologia de competição. Ética ou economicamente, é indesejável que a juventude seja educada na competição.
Bertrand Russell (1872-1970)
Imóvel,
o barco.
No entanto, viaja.

Yeda Prates Bernis

19 de julho de 2008




Uma rosa para a Dercy Gonçalves!
Morreu hoje aos 101 anos.