30 de maio de 2008

Medo Da Nossa Condição Humana

Quando me ponho às vezes a considerar as diversas agitações dos homens, e os perigos e trabalhos a que eles se expõem, na corte, na guerra, onde nascem tantas querelas, paixões, cometimentos ousados e muitas vezes nocivos, etc. - descubro que toda a miséria dos homens vem de uma só coisa: que é não saberem permanecer em repouso, num quarto. Um homem que tenha o bastante para viver, se fosse capaz de ficar em sua casa com prazer não sairia para ir viajar por mar ou pôr cerco a uma praça-forte. Ninguém compraria tão caro um posto no exército se não achasse insuportável deixar-se estar quieto na cidade; e quem procura a convivência e a diversão dos jogos é porque é incapaz de ficar, em casa, com prazer.
Mas quando pensei melhor, e que, depois de ter encontrado a causa de todos os nossos males, quis descobrir a razão desta, achei que há uma bem efetiva, que consiste na natural infelicidade da nossa condição frágil e mortal, e tão miserável - que nada nos pode consolar quando nela pensamos a fundo.
Blaise Pascal (1623-1662)
“Na natureza, a soberania pertence às forças silenciosas. A lua não faz o menor ruído e, não obstante, arrasta milhões de toneladas de água do mar no vaivém obediente ao seu comando; não ouvimos o sol se levantar, nem as estrelas se ocultarem. Assim, a aurora da nova vida surge silenciosamente no homem, sem que nada a anuncie ao mundo”.
Paul Brunton (1898-1981)

29 de maio de 2008

Índios protestam Brasil afora

Os Guaranis e o trabalho nos canaviais
O Jornal Estado de São Paulo anda publicando umas matérias muito interessantes sobre os índios Guarani. Uma delas é sobre o trabalho nos canaviais.
A matéria abaixo é bastante detalhada. O grande debate é se o trabalho dos índios está diminuindo a pressão pela demarcação de novas terras indígenas. Entrevistado, o antropólogo Antônio Brandt, ex-missionário do CIMI, disse que é isso que está acontecendo. Acontece que os índios Guarani vêm trabalhando nas fazendas vizinhas e nos canaviais há dezenas de anos. O emprego tem melhorado nos últimos anos por conta de melhoria salarial e melhoria nas condições de trabalho. Ainda há muita exploração, haja visto os escândalos descobertos pelo Ministério Público e do Trabalho nas suas fiscalizações. Mas é por esse meio que a situação tem melhorado.
O trabalho nos canaviais não é desculpa para a Funai não estar demarcando terras indígenas no Mato Grosso do Sul. O problema é outro, e o CIMI sabe muito bem. O CIMI quer mistificar essa questão porque sabe que as terras indígenas dos Guarani do Mato Grosso do Sul são difíceis de demarcar, pois os grupos indígenas que demandam essas demarcações saíram ou foram retiradas dessas terras há muitos anos, e os fazendeiros que as ocuparam não querem mais arredar pé delas. Por outro lado, o governador do estado do Mato Grosso do Sul não quis sancionar o projeto de lei que ressarciria os fazendeiros que estão em terras reconhecidas pela Funai como indígenas. Se assim o fizesse, as terras de Nanderu Marangatu já estariam livres para os Guarani da região de Antônio João.
Há uns dias atrás um missionário do CIMI escreveu que este ano seria o ano da virada nas demarcações das terras indígenas dos Guarani do Mato Grosso do Sul. Santa má-fé. É viver de ilusões. E alimentá-las aos índios para que forcem situações de perigo para suas vidas.
O trabalho nos canaviais não são ideais de vida para o povo Guarani. Mas podem lhes trazer melhores condições de vida do que viver de Bolsa Família e das Ongs liberais que fervilham em suas terras. Com dinheiro ganho, podem ajudar seus filhos a buscar uma educação melhor que favoreça sua vida no mundo moderno. Não há outra saída, a não ser a ilusão messiânica, com toda a irresponsabilidade que lhe é inerente.
Agora eu digo:
Nossa é inacreditável que uma pessoa primeiro critica a demarcação assim: “ o trabalho nos canaviais não é desculpa para a Funai não estar demarcando terras indígenas”, mas depois justifica o trabalho nos canaviais assim:” O trabalho nos canaviais não são ideais de vida para o povo Guarani. Mas podem lhes trazer melhores condições de vida do que viver de Bolsa Família e das Ongs liberais que fervilham em suas terras”.
Ai, meu Deus, dentro dessa filosofia do se ficar o bicho come e se correr o bicho pega, melhor sugerir que todos os índios cometam suicídio em massa.
Eu hein!

27 de maio de 2008

Madrigal

Eugene Henri Cauchois
Tu és no campo, ó Rosa,
A flor de mais beleza
De quantas produziu a Natureza
Que em tuas perfeições foi cuidadosa.
E se Glaura formosa
No seio dos prazeres te procura,
Qual outra flor será de mais ventura,
Ou mais digna de amor ou mais mimosa?
Tu és no campo, ó Rosa,
A flor de mais ventura e mais beleza
De quantas produziu a Natureza.

Silva Alvarenga (1749-1814)

26 de maio de 2008

Cantiguinha

Roy Lichtenstein
Brota esta lágrima e cai.
Vem de mim, mas não é minha.
Percebe-se que caminha,
sem que se saiba aonde vai.

Parece angústia espremida
de meu negro coração
- pelos meus olhos fugida
e quebrada em minha mão.

Mas é rio, mais profundo,
sem nascimento e sem fim,
que, atravessando este mundo,
passou por dentro de mim.

Cecília Meireles (1901-1964)

19 de maio de 2008

Encontro do padre Manuel da Nóbrega com um pajé indígena

Foto de Aristóteles Barcelos Neto - Máscaras Wauja
“Trabalhei por me encontrar com um feiticeiro, o maior desta terra, o qual todos chamam para curar as suas doenças. Perguntei-lhe em nome de que poder o fazia, se tinha comunicação com Deus, que fez o céu e a terra e reinava nos céus, ou com o demônio, que estava nos infernos? Respondeu-me com pouca vergonha, que ele era deus, e que havia nascido deus, e me mostrou um deles a quem dizia haver curado, e que o Deus dos céus era seu amigo e lhe aparecia em nuvens, em trovões e em relâmpagos, e em outras muitas coisas”.
(In: Cartas dos primeiros jesuítas do Brasil.
Editadas pelo padre Serafim Leite. São Paulo:
Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, 1954)
Sobre o papel dos pajés entre os Tupinambás da costa do Brasil, quando da chegada dos primeiros missionários jesuítas no século XVI, pode-se afirmar que:
Em relação às sociedades indígenas do Brasil, o mundo sobrenatural era muito real para os indígenas. Sentiam-se rodeados de espíritos, benéficos ou maléficos, alguns protetores, mas em sua maioria malévolos. A vida tribal estava envolvida numa trama de lendas, mitos, cerimônias e crenças espirituais. Toda tribo tinha pajé para interpretar o mundo sobrenatural e curar por meio de seus poderes especiais.

18 de maio de 2008

Esta Noite...

Esta noite
quero demorar-te em mim,
quero ficar em ti,
provar-te e ser saboreado
no parentesco da alma,
no magnetismo indizível
que a distância não embarga.

Nilson Barcelli

CIVILIZAÇÃO, Uma vida absurda, aceita como natural

Cada novo aumento da produção automobilística é comemorado pela mídia. Compram-se automóveis em 99 prestações. Entupidas, as cidades param. Estaremos, como diz Paulo Mendes da Rocha, nos dedicando a aprimorar a máquina de produzir veneno que inventamos?
O governo, os empresários e a mídia comemoraram, em 2007, a produção de três milhões de automóveis no Brasil. Agora, ambicionam uma meta ainda maior. Grande parte desses carros foi vendida na cidade de São Paulo. Todos os dias, 650 novos automóveis (além de 250 motos) são licenciados. São apenas os últimos acréscimos a uma frota de seis milhões de veículos — a segunda do mundo. A capital paulista enfrenta um trânsito cada vez mais lento, forçando grande parte da população a passar horas e horas em congestionamentos.
Apesar do aumento do preço do petróleo, a indústria automobilística mundial conhece um de seus maiores booms. Fabricantes indianos e chineses introduzem no mercado veículos de 2.500 dólares, que cedo ou tarde chegarão aqui. No Brasil, carros zero são agora financiados em até 99 meses.
É perceptível que a velocidade de circulação nas cidades brasileiras está caindo rapidamente (o Rio de Janeiro está seguindo o caminho de São Paulo). Todos vêm sentindo as conseqüências tanto da irresponsabilidade das autoridades para com o transporte coletivo quanto da expansão sem barreiras da frota de veículos. A quantidade dos que rodam em São Paulo cresceu. Em um ano, houve um aumento de 7%, sendo três quartos automóveis que, normalmente, circulam apenas com seus motoristas. A enorme expansão do número de motocicletas (cerca de um milhão), autorizadas pela legislação em vigor a circular entre as faixas, também contribui para degradar o trânsito e aumentar as mortes em acidentes.
Os problemas não se restringem ao trânsito. A poluição, causada essencialmente pelos veículos, em São Paulo, voltou a piorar, agravando, também, as tendências ao aquecimento da região.
A cada dia, duas ou três horas da vida de dez milhões de pessoas seja jogada fora, num estresse sem propósito. Mas elas têm dificuldades de perceber seu caráter grotesco
Temendo desgastar-se, a prefeitura não adota medidas de restrição à circulação de veículos — como pedágios urbanos, praticados nas capitais européias, exclusão dos automóveis particulares do centro velho, aumento do rodízio (como fez a Cidade do México) e da fiscalização (um terço da frota é irregular), maiores restrições a caminhões no centro ou a simples expansão das zonas azuis. Também não acelera a criação de corredores exclusivos de ônibus, por pressão dos comerciantes e moradores das vias onde eles seriam implantados.
O prefeito Gilberto Kassab afirmou que os congestionamentos são resultado da falta de investimento municipal na expansão do metrô nos últimos 32 anos. Para Kassab, agora “não adianta chorar sobre o leite derramado”. O presidente da Companhia de Engenharia de Tráfego (e seu gestor em vários governos conservadores) Roberto Scaringella foi mais franco: não haverá “medidas radicais que dariam fluidez” ao trânsito, porque “podem impactar negativamente a economia”. “A conseqüência é que a gente terá de aprender a conviver com um número maior de quilômetros de lentidão. Quando eles se excedem, não gera um colapso da cidade, mas a deterioração e a delinqüência urbana”, completou Scaringella. Pressionada pela imprensa, a prefeitura acabou anunciando uma série de medidas, mas elas são cosméticas: redução do espaço para estacionamento em algumas ruas, divulgação de rotas alternativas às vias principais etc.
A atuação do governo do Estado também é marcada pela inação. Ele não acelera a expansão do metrô e, tampouco, cumpre as metas de construção da Linha 4 - Amarela, onde os métodos privatistas geraram sucessivos desastres e atrasos. Perdido em disputas menores de rateio dos custos com a prefeitura, o governo, nem mesmo, geri uma integração adequada com a rede de ônibus.
É absurdo que duas ou três horas por dia da vida de dez milhões de pessoas seja jogada fora, em um estresse sem propósito. Mas o sistema do automóvel está tão profundamente arraigado no imaginário das pessoas que elas têm dificuldades de perceber seu caráter grotesco. É aceito como natural ou inevitável, permitindo que governantes ajam de forma irresponsável.
No entanto, como afirma o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, “é como se tivéssemos inventado uma máquina de produzir veneno e, todo dia, nos empenhássemos em aprimorá-la. A questão dos transportes é fundamental. Não se trata, puramente, de introduzir conforto. Trata-se de ver que, queimar petróleo para transportar uma pessoa de 60 quilos numa lataria de 700 quilos, que não anda, é um erro grave. É repugnante ver a cidade congestionada de carros que não andam. A questão não é fazê-los andar, é ver que isso não tem saída, o transporte individual é uma bobagem. Construir túneis e viadutos é aprimorar a máquina do veneno. E já não importa que o carro não ande, porque você vê todo mundo lá dentro falando no celular, usando o laptop... É a rota do absurdo”.
O correto é que o uso do transporte individual seja desestimulado, o coletivo favorecido e o usuário do carro passe a pagar por todo o impacto que provoca
O proprietário do carro impõe, a toda sociedade, custos que ele não paga no IPVA ou quando compra o automóvel. Ocupação do espaço público (50% do território urbano em São Paulo é dedicado ao transporte), perda de tempo, danos à saúde de milhões de pessoas etc. O correto é que o uso do transporte individual seja desestimulado, o coletivo favorecido e o usuário do carro passe a pagar por todo o impacto que provoca.
Parece evidente que não se pode esperar nada dos governantes! Esse é um problema que São Paulo só poderá enfrentar se organizar um movimento cidadão que reúna força política para libertar a cidade da ditadura do automóvel. Uma mobilização com propósitos claros, capaz de impor uma expansão da oferta e qualidade do transporte público e reduzir o espaço para o carro.
Assistimos, nos últimos anos, ao acúmulo de uma série de problemas de novo tipo, gerados pela lógica sem freios do mercado. Esse cobram um preço humano e ambiental cada vez maior.
O caso mais notório é o do aquecimento global, resultado de toda a economia do petróleo, carvão e automóvel, associada ao consumismo desenfreado. Ela exige pensarmos a atividade produtiva em função das necessidades humanas e não da busca do lucro e, portanto, do crescimento. Mas, como manter o capitalismo sem a maior expansão possível?
E agora os moradores de São Paulo enfrentam as consequências da irracionalidade que representa a “racionalidade” do mercado. Cada um busca satisfazer seus desejos na lógica do transporte (ou do consumo) individual, sem que haja intervenção do poder regulador de caráter público tolhendo os absurdos que o consumismo carrega.
Todas são questões que colocam a necessidade de outra vida e de outra organização da nossa sociedade em discussão.

José Correa Leite

Buddha Bar Nature trailer by Arno Elias

16 de maio de 2008

Visões sobre a História

Vênus de Milo (Louvre - Paris)
“A História como registro consiste em três estados, tão habilmente misturados que parecem ser apenas um.
  1. O primeiro é o conjunto dos fatos.
  2. O segundo é a organização dos fatos para que formem um padrão coerente.
  3. E a terceira é a interpretação dos fatos e do padrão”.
Henry Steele Commager (1902-1998)

“A história é a verdadeira testemunha do tempo,
luz da verdade, vida da memória, mestra da vida,
mensageira do passado”.
Marco Túlio Cícero (106 a.C.- 43)

“O homem não vive somente de pão; a História não tinha mesmo pão; ela não se alimentava se não de esqueletos agitados, por uma dança macabra de autômatos. Era necessário descobrir na História uma outra parte. Essa outra coisa, essa outra parte, eram as mentalidades”.
Jacques Le Goff (1924-2014)

5 de maio de 2008

Sagrada Família (?)

Jan Brueghel der Jüngere - Adams in Paradies
Vivemos numa civilização com valores cristãos. O ocidente é todo pautado nesses valores.
O papa Bento XVI defende a importância das raízes cristãs da Europa, ressaltando que “a história e a cultura da Europa têm o selo do Cristianismo e isso é fundamental no alargamento da UE perceber as questões da identidade e dos fundamentos espirituais em que se apóiam os Estados e os povos europeus”.
O papa Bento XVI também acredita que a família é "a principal agência da paz" no mundo. Sendo assim, dentro desses valores cristãos a família é algo sacro, intocável, protetora, onde uns protegem-se aos outros.
Deixamos de ser bárbaros quando nos agrupamos em famílias mas quando nos deparamos com casos como o de “Elisabeth Fritzl” e “Isabella” vemos que isso não é uma verdade absoluta.
Casos como o de Isabella são mais comuns do se parece mas a sociedade não aceita tentando a todo custo dizer que isso é uma exceção, quando na verdade não é. Não necessariamente atirar pela janela, mas matar acontece muito.
Além de muitos pais torturarem seus filhos psicologicamente tem os que batem para deixar marcas e após crescerem fazem de conta que tudo passou, quando, na verdade, não passam.
Por que é tão difícil discutir esses assuntos na nossa sociedade impregnada de valores cristãos?
A violência dentro de casa pode começar num olhar raivoso, berros, um tapinha, um empurrão, um beliscão, surras, falas que provocam baixa estima até chegar à tragédia de por fim à vida de um membro da família, quer por morte real ou por morte psicológica, destruindo o ser por dentro.
Casos como esse nos fazem repensar dogmas e crenças, inclusive o da sagrada família.

1 de maio de 2008

Meirelles afirma que "barbárie está instalada" na sociedade

Filme de Fernando Meirelles vai abrir Festival de Cannes

Blindness, de Fernando Meirelles, inspirado no livro Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, não só passa a integrar a lista como terá o privilégio de abrir a disputa pela Palma de Ouro do festival, que começa no dia 14. Com estréia prevista para 12 de setembro no Brasil, Blindness traz o relato de uma misteriosa epidemia de cegueira que se abate sobre uma cidade moderna.
Quando o cineasta Fernando Meirelles decidiu filmar uma versão cinematográfica do livro "Ensaio sobre a Cegueira", de José Saramago, em setembro de 2006, imaginou o ator norte-americano Sean Penn no papel do oftalmologista.
O personagem do médico é o que tenta conservar valores humanistas, num ambiente onde progride a barbárie, à medida em que uma epidemia de cegueira atinge toda a população, exceto a mulher do médico.
Penn leu o roteiro, conversou com o diretor e quis ler também a obra original. No fim, negou o papel. "[Ele] Disse que não saberia por onde começar seu trabalho. Além de não terem nomes, os personagens do filme não têm passado nem história. Para atores que usam isso como método de construção de personagem, fica meio esquisito criar uma pessoa sem saber a sua história. Entendi seu ponto de vista", diz Meirelles.
Quase dois anos depois desse diálogo, o Festival de Cannes reaproximará Penn de "Ensaio sobre a Cegueira".
Penn é o presidente do júri que decidirá o vencedor, entre os 22 concorrentes. O longa brasileiro "Linha de Passe", de Walter Salles e Daniela Thomas, também está na disputa.
Na entrevista a seguir, o diretor comenta o trabalho da atriz e diz julgar atual a trama do filme. "Diariamente, os limites do que chamamos civilização são rompidos, mas parece que não enxergamos isso. A barbárie está instalada e não vemos."
Folha - A protagonista de seu filme é a cegueira ou a mulher do médico, única imune à doença?
Fernando Meirelles - A cegueira é a protagonista, mas não a cegueira física, e sim a cegueira psicológica, ideológica. Há uma frase do livro que diz: "Não acho que ficamos cegos, acho que somos cegos. Cegos que podem ver, mas não vêem".
Diariamente, os limites do que chamamos civilização são rompidos, mas parece que não enxergamos isso. A barbárie está instalada e não vemos.
Talvez por estar fazendo este filme, cada vez mais vejo gente meio cega ao meu redor, do padre Adelir [de Carli], que se lançou no ar preso a mil balões por não conseguir enxergar as reais condições que tinha ao redor, às multidões de pessoas com fortes convicções ideológicas que se orgulham de nunca mudarem sua visão do mundo.
Esta autocegueira parece ser mais a regra do que a exceção. Há uma boa frase sobre isso no filme, já não sei se está no livro: "Liberdade para os cegos não é um espaço aberto, é um espaço onde os dedos possam tocar as paredes, é confinamento, que significa proteção".
Folha - Você comentou no blog do filme que espectadores de sessões-teste rechaçaram com enfática indignação as cenas de estupro, numa reação que você atribuiu, em princípio, ao conservadorismo do público norte-americano. Como avalia a representação da violência e do sexo por Hollywood?
Meirelles - Quando vi muitas mulheres saindo no meio da primeira projeção do filme em Toronto [Canadá], durante uma seqüência meio dura, como um reflexo de autodefesa, coloquei a culpa nas mulheres ou na cultura moralista norte-americana.
Após alguns minutos, recobrei certo equilíbrio e percebi que o problema não eram elas, mas o filme mesmo. Tínhamos ido mais longe do que precisávamos para expor a ideia.
Remontamos o filme, aliviando a tensão da tal sequência. De qualquer maneira, parece-me que os norte-americanos são mais sensíveis em relação a sexo, mas, ao mesmo tempo, extremamente liberais e arrojados no que se refere à exposição de violência.
Folha - Acha legítimo um filme ter o objetivo de chocar o espectador?
Meirelles - Meu filho falava "cocô" quando tinha dois anos e vibrava com sua ousadia. O gosto por uma atitude assim, cheia de som e fúria, me parece infantil ou, na melhor das hipóteses, adolescente. Aliás, a coisa mais fácil do mundo é chocar. Abra a internet e procure os verbetes "bestialismo", "incesto", "canibalismo", "escatologia", "pedofilia". A pesquisa está pronta, não há mérito nenhum em bancar o perverso. Acho isso meio xarope.
Folha - Ao fazer um filme, até que ponto abre mão de suas escolhas para não afastar o espectador?
Meirelles - Minha escolha costuma fazer com que o espectador embarque na história que estou contando. Tenho alguma noção de quem é o espectador com quem quero dialogar. Na televisão, tento incluir mais gente, claro.
Em "Cidade de Deus" [2002], tentei fazer um filme acessível também. Acho que neste "Ensaio sobre a Cegueira" a viagem é mais acidentada e sei que muita gente não vai se interessar em embarcar.
Mesmo assim, faço o possível para incluir e manter a bordo quem vier. Alguns colegas dizem que tentam apenas agradar a si mesmos quando filmam. Quisera eu me conhecer tão bem assim para saber como agradar a mim mesmo.
Folha - Após fazer um filme sobre uma população vítima de uma epidemia que reflete sua própria decadência moral, como se sente diante das reações --da polícia, da imprensa, da população -- ao caso Isabella?
Meirelles - Impressionou-me a eficiência técnica da polícia, mas toda a exposição e espetacularização do caso pela mídia e o interesse mórbido da audiência me deixa um pouco aflito. Até onde irá este fascínio por "reality shows"?
Sou daqueles dinossauros que preferem ketchup a sangue de verdade para me fazer refletir e me colocar em contato com meu lado sombrio.
Quando sabemos que o sangue tem plaquetas, linfócitos etc., fica mais difícil manter distanciamento, o que provoca certa imantação mórbida, como acontece com pornografia.
Folha - Com seu novo filme, pretende debater que aspecto concreto da vida social ou política?
Meirelles - Saramago é bastante irônico toda vez que se refere aos políticos e ao Estado. Os políticos, como mestres do ilusionismo, focam seus esforços em criar aparências antes das soluções. Num mundo onde as imagens desapareceram, as aparências perdem a relevância. Revela-se o que está por baixo.
Dentro dessa ideia de sermos reduzidos a instintos básicos, uma possível sinopse para o filme seria: "Uma história sobre a perda e o reencontro da humanidade em cada um de nós".

SILVANA ARANTES da Folha de S.Paulo