27 de abril de 2008

Sonhar...

Arthur Frank Mathews - Spring Dance
Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão.

J. Darion - M. Leigh
Versão Chico Buarque e Ruy Guerra/1972
Para o musical O Homem de La Mancha.

23 de abril de 2008

A morte - difícil para muitos

“A morte não é tudo.
Não é o final.
Eu apenas passei para a sala seguinte.
Nada aconteceu.
Tudo permanece exatamente como foi.
Eu sou eu, você é você,
e a antiga vida que vivemos tão
maravilhosamente juntos permanece
intocada, imutável.
O que quer que tenhamos sido um para o outro, ainda somos.
Chame-me pelo antigo apelido familiar.
Fale de mim da maneira que sempre fez.
Não mude o tom. Não use nenhum ar solene ou de dor.
Ria como sempre fizemos das piadas que desfrutamos juntos.
Brinque, sorria, pense em mim, reze por mim.
Deixe que o meu nome seja uma palavra
comum em casa, como foi.
Faça com que seja falado sem esforço, sem fantasma ou sombra.
A vida continua a ter o significado que sempre teve.
Existe uma continuidade absoluta e inquebrável.
O que é esta morte senão um acidente desprezível?
Porque ficarei esquecido se estiver fora do alcance da visão?
Estou simplesmente à sua espera,
como num intervalo, bem próximo,
na outra esquina.
Está tudo bem!”.

Henry Scott Holland (1847-1918)
Poeta inglês
Esse poema foi escrito em 1910 para o Sermão
pregado na Catedral de St Paul's, em Londres,
em celebração da missa de morte do rei Eduardo VII
15 de maio de 1910.

19 de abril de 2008

Tristeza

Tristeza não é perder um amor
Que se vislumbrava sonho em nossas expectativas
A tristeza que mais machuca,
É ter que abandonar, em nome do amor-próprio,
Uma paixão ainda presente.

Ainda real,
Ainda viva no coração e na lembrança!

MJSpeglich

17 de abril de 2008

1968 um ano que merece ser lembrado

René Magritte
Quem se lembra do que se passou no ano que mudou o mundo? Foi há 40 anos! Já esqueceu? Nunca soube? Não quer saber? Olhe que vale a pena recordar!
Janeiro
- 5 de Janeiro - Início da Primavera de Praga, marcada pela vitória nas eleições do ministro Alexander Dubček, que questiona a Cortina de Ferro.
- 30 de Janeiro – começa a chamada “Ofensiva do Tet”, uma das mais marcantes de história da Guerra do Vietnã.
- 31 de Janeiro – Os Vietcongs atacam a embaixada americana em Saigon, nome da capital do antigo Vietnã do Sul.
Março
- 16 de Março - Guerra do Vietnã: Tropas americanas matam vários civis (Matança de My Lai).
Abril
- 4 de Abril - Martin Luther King é assassinado em Memphis, Tennessee.
6 de abril - Lançamento do filme 2001, Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick.
- 11 de Abril - O presidente americano, Lyndon Johnson, assina a lei sobre os direitos civis.
- 23 a 30 de Abril - Guerra do Vietnã: Estudantes americanos fazem protestos contra a guerra na Universidade de Columbia, em Nova York.
Maio
- 2 de Maio - Inicio do "Maio de 1968". Estudantes franceses manifestam-se contra o "status quo". São levantadas barricadas nas ruas de Paris e ocorrem confrontos com a polícia.
- 10 de Maio A "noite das barricadas". Os estudantes ganham as simpatias de bancários, comerciantes, funcionários públicos, jornalistas, professores e sindicalistas, que aderem à causa estudantil. O protesto estudantil transforma-se numa contestação política ao regime de Charles de Gaulle, então presidente francês.
Junho
- 5 de Junho - Robert Kennedy é atingido por tiros no Hotel Ambassador em Los Angeles, na Califórnia. Kennedy morre.
Agosto
- 20 e 21 de Agosto - Fim da Primavera de Praga: Tropas soviéticas e outros países do Pacto de Varsóvia invadem a cidade de Praga reprimindo a população local que apoiava as reformas levadas a cabo pelo governo local.
Setembro
- 3 de Setembro - O jornalista e deputado federal Márcio Moreira Alves, do MDB carioca, faz discurso no congresso criticando a ditadura militar. O discurso irrita os generais e Márcio é processado. MMA refugiou-se em Portugal, tendo sido docente do ISEG/UTL.
- 27 de Setembro - Marcello Caetano torna-se primeiro ministro de Portugal.
Outubro
- 11 de Outubro - Lançada a Apollo 7, cuja missão foi a primeira televisionada.
Dezembro
- 13 de Dezembro - O Presidente Costa e Silva decreta o AI-5 - Ato Institucional número 5, dando início ao período mais fechado e violento da ditadura militar no Brasil iniciada em 31 de Março de 1964.

13 de abril de 2008

Líderes negros dos Estados Unidos

Rosa Parks (1913-2005)
Rosa Parks em 1955,
com Martin Luther King, Jr. ao fundo.
Rosa Parks era uma costureira de 42 anos quando entrou para a história americana e mundial. No dia 1º de dezembro de 1955 ela estava em um ônibus na cidade de Montgomery, Alabama, quando um homem branco exigiu que ela se retirasse do banco onde estava para ele poder se acomodar.
Rosa se recusou a sair, desafiando as regras que exigiam que pessoas negras se sujeitassem a abrir mão de seus lugares no transporte público para brancas. Com este ato, Rosa foi presa e multada em US$ 14.
A prisão da costureira desencadeou um boicote de 381 dias ao sistema de ônibus, organizado pelo pastor da Igreja Batista, Martin Luther King Jr. Anos mais tarde, Luther King ganharia o Prêmio Nobel da Paz graças à sua luta pelos direitos civis nos Estados Unidos.
Em 1957, depois de ter perdido o emprego e recebido ameaças de morte, Rosa e seu marido, Raymond, se mudaram para Detroit, onde ela trabalhou como assistente no escritório de um congressista democrata. "Ela era muito humilde, falava baixinho. Mas por dentro ela tinha uma determinação que era feroz", disse o político John Conyers. "Ela tinha qualidades de uma santa", acrescentou Conyers, para quem Rosa trabalhou como recepcionista de 1965 a 1988.
"A verdadeira razão de eu não ter cedido meu banco no ônibus foi porque senti que tinha o direito de ser tratada como qualquer outro passageiro. Aguentamos aquele tipo de tratamento por muito tempo", disse Rosa em 1992 a respeito de seu ato em 1955.
No entanto, foram precisos 41 anos para que o governo americano reconhecesse o ato de Rosa e a premiasse com a "Medalha Presidencial pela Liberdade", em 1996. Em 1999 o Congresso americano outorgou a ela a Medalha de Ouro, a mais alta honraria civil.
“Se você não for cuidadoso,
a imprensa fará você odiar os oprimidos,
e amar os opressores”.

Malcolm X
Malcon X
(19/05/1925 - 21/02/1965),
Defendia a criação de um Estado autônomo para os negros.
Malcolm Little passou para a história como um dos grandes líderes dos negros norte-americanos com o nome de Malcolm X. Sua infância e adolescência foram marcadas pela violência característica dos guetos pobres norte-americanos. Quando tinha apenas seis anos e brincava pelas ruas de Omaha, o seu pai, Earl Little, foi assassinado.
Após sofrer brutal espancamento, Earl teve o seu corpo atirado em uma linha de trem. A mãe de Malcolm, por sua vez, estava em tratamento num hospital psiquiátrico, de modo que ele e seus sete irmãos foram parar em orfanatos. Pouco tempo mais tarde, com uma irmã mais velha, foi morar em Boston. Depois, mudou-se para o Harlem, bairro de maioria negra em Nova York.
Na adolescência, Malcolm trabalhou como engraxate. Escapou do serviço militar fingindo-se de "louco". Na mesma época, começou a praticar pequenos furtos no Harlem e envolveu-se com o tráfico de maconha. Com mais três amigos, todos muito pobres, passou a assaltar residências, até que acabou sendo preso, em 1946.
Na prisão ocorreu a grande transformação na vida de Malcolm X. Passou a estudar o islamismo, convertendo-se aos ensinamentos de Elijah Muhammed, líder da "Nação do Islã", organização que congregava os negros muçulmanos dos Estados Unidos. Ao sair da cadeia, em 1952, Malcolm X transformou-se em um dos mais carismáticos líderes negros de seu país.
Enquanto Martin Luther King apostava na resistência pacífica como arma para enfrentar o racismo e a segregação, Malcolm X defendia a separação das raças, a independência econômica e a criação de um Estado autônomo para os negros. Ao lado de Elijah Muhammed, viajou pelos principais Estados norte-americanos para pregar as suas ideias e defender a libertação dos negros.
O projeto não foi à frente, mas deu ainda mais fama ao ativista. Em 1964, já casado, fundou a organização "Muslim Mosque Inc." e, mais tarde, a "Afro-American Unity". Um ano antes, após uma viagem para Meca, cidade sagrada dos muçulmanos, mudou o seu nome para Al Hajj Malik Al-Habazz. A partir daí, passou a defender uma posição conciliatória em relação aos brancos, fato que o deixou isolado, sobretudo quanto ao islamismo afro-americano.
No dia 21 de fevereiro de 1965, quando discursava no Harlem, Malcolm X foi assassinado com 13 tiros, ao lado de sua mulher Betty, que estava grávida, e de suas quatro filhas. A polícia não encontrou provas, mas suspeitou da participação da "Nação do Islã" no crime.
As ideias de Malcolm X foram muito divulgadas principalmente nos anos 70, por movimentos negros como o "Black Power" e "Panteras Negras". A vida do ativista norte-americano também se transformou em documentários e filmes, sendo "Malcolm X", dirigido por Spike Lee, em 1992, o mais famoso.

Martin McLuther King
Martin McLuther King, Jr. (15 de janeiro de 1929 - 4 de abril de 1968) foi um pastor protestante e ativista político estado unidense.
Tornou-se um dos mais importantes líderes do ativismo pelos direitos civis nos Estados Unidos e no mundo, através de uma campanha de não-violência e de amor para com o próximo. Se tornou a pessoa mais jovem a receber o Prémio Nobel da Paz em 1964, pouco antes de seu assassinato. O seu discurso mais famoso e lembrado é "Eu Tenho Um Sonho".
Em 1955, Rosa Parks, uma mulher negra, se negou a dar seu lugar em um ônibus para uma mulher branca e foi presa. Os líderes negros da cidade organizaram um boicote aos ônibus de Montgomery para protestar contra a segregação racial em vigor no transporte. Durante a campanha de 381 dias, co-liderada por King, muitas ameaças foram feitas contra a sua vida, foi preso e viu sua casa ser atacada. O boicote foi encerrado com a decisão da Suprema Corte Americana em tornar ilegal a discriminação racial em transporte público.
Depois dessa batalha, Martin Luther King participou da fundação da Conferência de Liderança Cristã do Sul (CLCS, ou em inglês, SCLC, Southern Christian Leadership Conference), o CLCS era composto principalmente por comunidades negras ligadas a igrejas batistas. King era seguidor das ideias de desobediência civil não-violenta preconizadas por Mohandas Gandhi (líder político indiano também conhecido como Mahatma Gandhi), e aplicava essas ideias nos protestos organizados pelo CLCS.
Ele organizou e liderou marchas a fim de conseguir o direito ao voto, o fim da segregação, o fim das discriminações no trabalho e outros direitos civis básicos. A maior parte destes direitos foi, mais tarde, agregada à lei estado-unidense com a aprovação da Lei de Direitos Civis (1964), e da Lei de Direitos Eleitorais (1965).
King e o CLCS escolheram com grande acerto os princípios do protesto não-violento, ainda que como meio de provocar e irritar as autoridades racistas dos locais onde se davam os protestos.
Em 14 de outubro de 1964 King se tornou a pessoa mais jovem a receber o Nobel da Paz, que lhe foi outorgado em reconhecimento à sua liderança na resistência não-violenta e pelo fim do preconceito racial nos Estados Unidos.
Antes, em 1963, King foi um dos organizadores da marcha em Washington, que inicialmente deveria ser uma marcha de protesto, mas depois de discussões com o então presidente John F. Kennedy, acabou se tornando quase que uma celebração das conquistas do movimento negro (e do governo) - o que irritou bastante ativistas mais radicais e menos ingênuos.
A partir de 1965 o líder negro passou a duvidar das intenções estado-unidenses na Guerra do Vietnã. Em fevereiro e novamente em abril de 1967, King fez sérias críticas ao papel que os EUA desempenhavam na guerra.
Também deve ser destacado o impacto que King teve nos espetáculos de entretenimento popular. Ele conversou com a atriz negra do seriado Star Trek original, Nichelle Nichols, quando ela ameaçava sair do programa. Nichelle acreditava que o papel não estava ajudando em nada sua carreira e que o estúdio a tratava mal, mas King a convenceu de que era importante para o negro ter um representante num dos programas mais populares da televisão.
Martin Luther King era odiado por muitos segregacionistas do sul, o que culminou em seu assassinato no dia 4 de abril de 1968, momentos antes de uma marcha, num hotel da cidade de Memphis.
Em 1986 foi estabelecido um feriado nacional nos Estados Unidos para homenagear Martin Luther King, o chamado Dia de Martin Luther King - sempre na terceira segunda-feira do mês de janeiro, data próxima ao aniversário de King. Em 1993, pela primeira vez, o feriado foi cumprido em todos os estados do país.

Barack Obama
Barack Hussein Obama II (Honolulu, 4 de agosto de 1961) é um advogado e político dos Estados Unidos, o quadragésimo quarto e atual presidente do país, desde 20 de janeiro de 2009, e o Nobel da Paz de 2009. Sua candidatura foi formalizada pela Convenção do Partido Democrata em 28 de agosto de 2008.
Até então, era senador pelo estado de Illinois. Obama foi o primeiro negro (afro-americano no contexto estadunidense) a ser eleito presidente estadunidense. Foi também o único senador afro-americano na legislatura anterior.
Obama ensinou direito constitucional na escola de direito da Universidade de Chicago por doze anos.

12 de abril de 2008

A tragédia com Isabella nos lembra afetos dolorosos que regram nossa maneira “moderna” de casar.

Não conhecemos os eventos que levaram à morte de Isabella Nardoni; só sabemos que a menina, de cinco anos, foi assassinada, intencionalmente ou não, enquanto estava na custódia do pai e da madrasta. E conhecemos um pouco a história da família: a mãe e o pai de Isabella não chegaram a se juntar. Foi um romance adolescente que acabou antes de Isabella nascer. O pai tem dois filhos pequenos com sua mulher atual.
É uma situação trivial: a pensão mensal, as visitas, o padrasto ou a madrasta, os meio-irmãos etc. Mas a banalidade dessa situação não deveria disfarçar o emaranhado de afetos dolorosos que ela produz-afetos que muitos vivem e que todos preferimos esquecer.
Não sei se esses afetos são responsáveis pela morte de Isabella. Mas talvez eles sejam responsáveis pela extraordinária comoção produzida pela sua morte. Como assim?
A morte violenta de uma criança nos fere a todos: é como se, ao mesmo tempo, alguém nos arrancasse um pedaço de nosso próprio futuro e destruísse a fantasia nostálgica da infância, que sempre cultivamos, mesmo que o primeiro período de nossa vida tenha sido infeliz.
Mas a história de Isabella nos comove também por outra razão: as tentativas de “explicar” o acontecido evocam, inevitavelmente, as dificuldades de nossa maneira “moderna” de casar.
São dificuldades nas quais, em geral, preferimos evitar de pensar.
É comum que o marido ou a mulher (às vezes, ambos) levem para o casamento filhos que são frutos de uma relação anterior. Espera-se que isso aconteça sem complicação: afinal, se descasamos e casamos por amor, por que o mesmo amor não reinaria pelo lar todo? Pois é, o amor é uma coisa complicada. Exemplos.
A rivalidade, que sempre existe entre irmãos, vinga entre enteados e meio-irmãos. E vinga redobrada, justamente por ser mais inconfessável do que a rivalidade entre irmãos - por ser silenciosa, reprimida pelo esforço geral de compor uma nova família ideal, em que todos os integrantes se amariam.
Na nova família, à primeira vista, o homem convive com seus enteados melhor do que a mulher. Não é nenhum milagre do “instinto” paterno: o homem encontra uma satisfação narcisista no exercício da paternidade. Ele, aliás, curte ser e se sentir amado por suas qualidades “paternas”. Pare ele, saber ser pai de filhos e enteados faz parte de uma virilidade que ele quer que seja reconhecida e festejada pela mulher. Mas cuidado: a encenação da paternidade, embora às vezes espalhafatosa, não resiste à pressão da culpa de dar para seus filhos de sangue menos do que para seus enteados.Essa culpa, envergonhada e reprimida, é inevitável, porque há uma coisa que o homem, na grande maioria dos casos, dá mais aos enteados do que aos filhos: sua própria presença no lar.
A mulher, ao contrário, vive quase sempre uma rivalidade dramática com seus enteados: compete com eles como se ela fosse mais uma filha. Para a mulher, o enteado ou a enteada não usurpam o lugar dos filhos que ela trouxe de um casamento anterior, nem o lugar dos filhos que nasceram no novo casamento: eles ameaçam usurpar o próprio lugar dela. Essa rivalidade, escondida, expressa-se de maneiras travessas: por exemplo, numa crítica assídua das manifestações do afeto paterno do homem para com o filho ou a filha dele. Ou seja, para não admitir um ciúme envergonhado do enteado, a mulher censura o “excesso” dos sentimentos paternos do marido. Esse, criticado como pai, sente-se diminuído como homem. O desastre está às portas.
São apenas exemplos. O casamento “moderno” é um nó de afetos reprimidos, uma convivência explosiva que aposta no amor do casal como se fosse remédio para todos os males.
Não se trata de condenar a ideia de que seja possível refazer sua vida com outro ou outra e, nessa ocasião, levar consigo os filhos dos casamentos anteriores. Mas seria melhor que a gente se engajasse nesses projetos sem a ilusão de que os bons sentimentos prevalecerão por conta própria. Seria melhor, para começar, que nossas disposições menos nobres, em vez de silenciadas e reprimidas, fossem faladas, explicitadas. Isso, para evitar que, de vez em quando, a trágica morte de uma menina nos lembre, por um dia ou uma semana, que a vida das famílias “modernas” é muito mais difícil do que parece.

Contardo Calligaris
Amei o texto de Contardo Calligaris publicado na da Folha de SP de 10 de abril. Mas permito-me discordar de uma coisa.
È impossível uma pessoa fazer o que fez com Isabela e dizer que não foi intencional. Por favor, uma tapa você até pode dar sem querer, mas asfixiar, torcer, jogar pela janela, por favor... nem papai Noel acreditaria nisso.

6 de abril de 2008

Tu tens um medo

Gary Benfield
Tu tens um medo
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo...
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...
... E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno
.

Cecília Meireles (1901-1964)

Chovem duas chuvas

Chovem duas chuvas:
de água e de jasmins
por estes jardins
de flores e de nuvens.
Sobem dois perfumes
por estes jardins:
de terra e jasmins,
de flores e chuvas.
E os jasmins são chuvas
e as chuvas, jasmins,
por estes jardins
de perfume e nuvens.

Cecília Meireles (1901-1964)

Textos inéditos de Cecília Meireles já podem chegar ao público

Brigas familiares por direitos autorais impediram, por 24 anos, o acesso a textos e documentos da escritora.
O futuro da obra de Cecília Meireles (1901-1964) depende dos desdobramentos de dois fatos: a preservação do seu acervo e uma decisão judicial do ano passado. Entre 1944 e 1964, ela organizou uma biblioteca particular de cerca de 10 mil volumes no imóvel onde morou com o segundo marido, Heitor Grillo, no Cosme Velho, no Rio. Nesse sobrado, Cecília guardou uma série de textos e documentos que até hoje permanecem inéditos. E que, ao lado dos milhares de obras de outros autores, ficaram ao deus-dará durante 20 anos, em razão de brigas familiares envolvendo direitos autorais. As rixas impediram a maior circulação de seus títulos.
Para entender o porquê é preciso visitar a árvore genealógica da família Meireles. Cecília teve três filhas com o artista plástico português Fernando Correa Dias. Da primogênita para a caçula: Maria Elvira, Maria Mathilde e Maria Fernanda. Quando Cecília Meireles morreu em 1964, os direitos autorais sobre suas obras passaram para as filhas, cada qual tendo direito a uma cota de um terço. Segundo o artigo 32 da Lei de Direitos Autorais (9.610/98), a maioria dos co-autores - neste caso, os detentores dos direitos - é que decide em caso de divergência.
Maria Elvira morreu em 1987 e sua parte foi transmitida para o único filho: Ricardo Strang. "Minha mãe era a mediadora de Maria Fernanda e Maria Mathilde, que sempre brigaram por terem temperamento opostos", diz Strang. Foi a partir daquele momento que, diz Strang, Maria Fernanda, "que não encontrou mais resistência", passou a cuidar da casa do Cosme Velho, onde está até hoje o acervo de Cecília Meireles. Segundo Strang e Alexandre Carlos Teixeira, um dos filhos de Maria Mathilde e agente literário da obra de Cecília Meireles, durante 20 anos ninguém além de Maria Fernanda teve acesso ao imóvel e, por tabela, à biblioteca, que sofriam a ação implacável do tempo e do abandono.
Procurada pela reportagem do Estado, Maria Fernanda preferiu não comentar o assunto. Médico reformado da Marinha, Ricardo Strang morou em Belém (PA) entre 1987 e 2000, quando mudou para Londrina (PR), onde vive até hoje. Teixeira não se envolvia muito com "a propriedade material" deixada pela avó, embora ele fosse o agente literário da poeta.
A situação se complicou quando Maria Fernanda, no começo dos anos 2000, rejeitou a administração dos direitos autorais feita pelo sobrinho Alexandre Carlos Teixeira. Dali em diante a Justiça seria palco de ações entre Maria Fernanda, Maria Mathilde e Ricardo Strang até um acórdão do Tribunal de Justiça (TJ) do Rio chegar à conclusão, em julho do ano passado. A essa decisão não cabe recurso, segundo o consultor da FGV-Rio Pablo de Camargo Cerdeira, consultado pelo Estado.
Essa sentença ratifica o poder de decisão da maioria na celebração de contratos em relação às obras de Cecília Meireles sem a interferência da minoria. Em outras palavras, Maria Fernanda (a minoria, por deter um terço) deve se submeter às decisões da maioria, representada pela Maria Mathilde e Ricardo Strang (juntos, eles detêm os dois terços).
Em agosto do ano passado, dois meses depois do acórdão, Maria Mathilde fez um contrato escrito, ao qual o Estado teve acesso, em que cedia a parte dela para o sobrinho Ricardo Strang. Assim, quando morresse, ela evitaria pulverizar sua cota entre os três filhos. Ela faleceu dois meses depois da transferência. Segundo Strang e Alexandre Carlos Teixeira, ela pretendia com a cessão dar fim às disputas que tornavam o mercado editorial arredio à publicação das obras da autora de Romanceiro da Inconfidência. Dono de dois terços dos direitos intelectuais, Strang é hoje representado pelo primo e advogado Alexandre Carlos Teixeira, que negocia com as editoras.
"Essa transferência é excelente, porque evita o conflito", diz Sérgio Branco, professor de Direito na FGV-Rio. Segundo Branco, a Lei de Direitos Autorais tem o objetivo de remunerar o criador para ele continuar produzindo. "O problema é que o direito dura demais, 70 anos contados a partir da morte do autor, um prazo excessivamente absurdo", ele diz. "São três gerações que brigam, e a obra deixa de circular, cai no esquecimento, a sociedade não tira o seu proveito", completa.
No fim do ano passado, Episódio Humano (editoras Batel e Desiderata) chegou às livrarias. Ele reúne crônicas de Cecília Meireles, primeira obra inédita publicada após a decisão do TJ e a cessão de direitos por Maria Mathilde. Maria Fernanda entrou com uma notificação extrajudicial contra a Batel, dirigida por Carlos Barbosa, que foi editor da Nova Fronteira durante 25 anos até sair da empresa no ano passado. Ela alegava não saber qual o conteúdo do contrato de edição de Episódio Humano. Maria Fernanda tem o direito de contestar judicialmente o repasse do que lhe cabe nos contratos, se julgar que a quantia repassada é indevida.
O diretor-superintendente da Nova Fronteira, Mauro Palermo, diz que "tudo o que se faz respaldado legalmente é com mais certeza, mais investimentos e até tiragens maiores". Palermo afirma existir mais "conforto" na negociação dos contratos quando se lida diretamente com uma maioria. A editora tem 32 obras da Cecília em catálogo. "Alguns projetos já deixaram de ser feitos por falta de consenso", ele diz. Segundo Palermo, a editora tem em vista planos relacionados à autora.
Organizador da produção em prosa da escritora, editada pela Nova Fronteira, o professor da UFRJ Leodegário A. de Azevedo Filho diz que a editora carioca tem material para aproximadamente quatro volumes em prosa inéditos. A previsão inicial era de 25 ao todo. Carlos Barbosa confirma que as conferências e os artigos de Cecília não saíram ainda, apesar dos volumes já editados sobre viagem, educação e crônicas em geral.
A oportunidade para reeditar obras fora de catálogo está dada pela decisão do TJ. Já o material inédito, que contém anotações, cadernos de estudo, traduções, cartas e obras de Cecília Meireles, tem o destino ligado à reforma da casa do Cosme Velho e à preservação do acervo, medidas pelas quais Alexandre Carlos Teixeira é o atual responsável.