29 de março de 2008

Noite

Hermann Hesse
Noite! Faz de mim uma vulgar navegadora
Sem entendimento no seio do teu firmamento.
Noite! A Humanidade repousa...
Há uma doce luz no silêncio.

Súbita, uma angústia...
Uma desolação da alma.
Não sei bem qual o sentimento inexpresso,
Que me aflige.

Um vazio,
Um grande vazio
Cheio de dor,
De inquietação!

Como serenar o turbilhão
Que me sacode por inteira,
Como se minha alma dolorida
Estivesse em convulsão?

MJSpeglich

27 de março de 2008

Espíritos que Vagam

William-Adolphe Bouguereau
Espíritos que vagam
na penumbra noturna a procura de alguém.
Corpos ardendo em uma febril fome e sede de amor,
de paixão, de volúpia e luxúria...

Espíritos que vagam
por infinitos lugares em busca do ardoroso desejo aplacar.
Corpos suados em agonizantes sonhos,
clamando pela presença física do outro ser encontrar.

Espíritos que vagam
sofredores pela ausência,
pela solidão e pela cruel distância.

Espíritos que vagam
até que o objetivo da total entrega seja alcançado.

Maria José Speglich

26 de março de 2008

Tuas palavras, Amor

Willem Haenraets
Como são belas e misteriosas tuas palavras, Amor!
Eu não as tinha pressentido,
eu era como a terra sonolenta e exausta
sob a inclemência do céu carregado de nuvens,
quando, igual a uma chuva torrencial de verão,
tuas palavras caíram da altura em cheio
e se infiltraram nos meus tecidos.

O' a minha pletora de alegria!...
As árvores bracejaram recebendo as bátegas
entre as ramas, as coroas bailaram
numa ostentação de taças repletas,
os frutos amadurecidos rolaram bêbedos no solo,
E eu vivi a minha hora máxima de lucidez e loucura
sob a chuva torrencial de verão!

Como são belas e misteriosas tuas palavras, Amor!...
Minha alma era um rochedo solitário no meio das ondas,
perdido de todas as coisas do mundo,
quando, ao passar dentro da noite na tua caravela fugaz,
tu me enviaste a mensagem suprema da vida.
A tua saudação foi como um bando de alvoroçadas gaivotas
subindo pelas escarpas do rochedo,
contornando-lhe as arestas, aureolando lhe os cumes.

E a minha alma esmoreceu ao luar dessa noite,
- ilha branca da paz, num sonho acordado...

Amor, como são belas e misteriosas as tuas palavras!...
Henriqueta Lisboa (1901-1985)

Clio - Musa da História

Pierre Mignard - Clio (Musa da História)
Da união de Zeus e Mnemósine nasceram as nove musas, personificando as artes e ciências. Clio (ou Arauto) é a musa grega da História.
Clio junto com as irmãs, habita o monte Hélicon. As musas reúnem-se, sob a assistência de Apolo, junto à fonte Hipocrene, presidindo às artes e às ciências, com o dom de inspirar os governantes e restabelecer a paz entre os homens. Clio é a musa da história e da criatividade, aquela que divulga e celebra as realizações. Preside a eloquência, sendo a fiadora das relações políticas entre homens e nações. É representada como uma jovem coroada de louros, trazendo na mão direita uma trombeta e, na esquerda, um livro Intitulado "Thucydide" (Tucídides). Outras representações apresentam-na segurando um rolo de pergaminho e uma pena, atributos que, às vezes, também acompanham Calíope. Clio é considerada a inventora da guitarra. Em algumas de suas estátuas traz esse instrumento em uma das mãos e, na outra, um plectro (palheta). Um dos nove livros de Heródoto leva o nome de Clio em homenagem à deusa.
Metaforicamente, Clio simboliza que o conhecimento é fruto da leitura e do estudo e, nas lendas gregas, a musa é referida como aquela que legou o alfabeto aos homens.
Veja mais sobre as Musas ( Aqui )

Para que serve a História?
“Para que serve a História senão para ajudar os contemporâneos a manter a confiança no futuro e armarem-se melhor para enfrentar as dificuldades com que quotidianamente se deparam?”
Georges Duby (1919-1966)
Mitologia em Os Lusíadas:
Camões, apesar de ser católico, utiliza a mitologia pagã por quatro razões:
  1. obedece a uma regra dos poemas épicos (todas as epopeias a devem utilizar);
  2. assegura a unidade interna da ação da epopeia (colocando em oposição humanos e deuses);
  3. embeleza a intriga (de outra forma seria um mero relato da viagem);
  4. serve para glorificar o povo português, comparando-o aos deuses (valoriza os homens a quem Netuno e Marte obedeceram).
Muitos artistas retrataram Clio. Vejamos alguns:
Giuseppe Fagnani - Clio
Johannes Vermeer - Clio
Giovanni Baglione - Clio History
José Luis Muñoz - Clio
Rafael Sanzio - Apolo e as Musas em Parnassus


25 de março de 2008

Saudade

James Joseph Jacques Tissot
Há algum tempo não te vejo
A distancia nos impede de estarmos juntos
E meu coração apegado está triste.
Quero voltar a ter aqueles momentos
Sentir a serenidade que tua companhia me proporciona.

Assim... Sem você sinto-me cansada!
Não, não é cansaço.
É uma quantidade de desilusão.
É um estar existindo
Com tudo aquilo que o mundo contém.

MJSpeglich

24 de março de 2008

Sentir os instantes

Henry John Yeend King
Amo as manhãs que se anunciam lentas.
É preciso sentir os instantes que,
como o vento, passam.
Assim, depois de intensamente sentidos,
processados e reprocessados pela mente,
voarão ao coração.
E por lá permanecerão. Infindáveis.
Como alguns dias felizes nunca
os são quando deveriam ser... ...

Clarice Lispector (1920-1977)

Globalização

Atelier Sommerland
O homem inventou a roda
E todas as ideias puderam rodar.
A Terra foi girando
E o mundo se fez uma bola
O mundo mudando, mudando...
Giraram as guerras
Rolaram as lágrimas
O mundo mudando, globalizando.
E as balas girando
As balas matando.
E o mundo girando
A pobreza aumentando
Se globalizando.

MJSpeglich

A Propaganda e o seu lado educativo (?)

Para estimular o consumo, a propaganda descobre cada vez mais novas formas para tornar atraentes marcas e produtos. Muitas campanhas associam o cigarro a eventos esportivos, vendem a ideia de que consumir bebida alcoólica é coisa de gente bonita ou de bem com a vida, distribuem brindes em guloseimas para crianças. Nestes casos, a propaganda deixa de lado as preocupações com a saúde dos consumidores e nem sempre alertam de forma eficaz os efeitos negativos desses produtos.
A Rede Brasileira de Combate ao Câncer um anúncio com um alerta às mulheres fumantes: o câncer de pulmão é hoje a segunda doença que mais mata entre as pessoas do sexo feminino. Na peça, criada pela Agnelo Pacheco, aparece a imagem de uma mulher com o corpo nu, envolvido por fumaça, em um fundo negro. Ao lado, também formado de fumaça, está o título: “Toda mulher tem uma parte do corpo que não gosta. No caso das que fumam, o pulmão”. A criação é de Leonardo Bacellar e Vinícius Panvechi, dirigidos por Agnelo Pacheco.

23 de março de 2008

O Historiador

Nikolaos Gysis - Allegory of History
O historiador é um pintor cujo pincel (escrita) desliza suavemente sobre as telas (papel) fabricando representações sobre uma dada cena da história da humanidade no tempo e no espaço. Seus movimentos de retratista buscam inspiração nas fontes documentais para criar, por vezes, uma ilusão de realidade a partir de fragmentos. A escritura de cada página é uma nova tela a ser presenteada aos olhos do leitor. Neste exercício percebemos um profissional que faz uso constantemente da investigação e da imaginação para produzir suas representações sobre o passado a luz de seu presente.
Fernando Bouza Alvarez

21 de março de 2008

Quero

Quero colorir meus pensamentos...
Fiz-me em pedaços,
Juntei-me.
Seguirei...
Fui longe me buscar,
Vi-me num momento de encontro,
Encontrei-me, revelei-me...
Ah! Que emoção!
Eu vivia, revivi.
De minha morte viva,
De minha indiferença,
De minha busca de quem sou
Para que sou: era sobrevivente de mim.

MJSpeglich

15 de março de 2008

Afeto no banco dos Réus

Em decisão inédita, STF deverá dizer se sustentar um filho basta ou se dar amor é obrigação legal
Estão na mesa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes autos que, dependendo do rumo que o magistrado der a eles, poderão representar uma revolução na questão dos direitos e deveres na criação de filhos no Brasil. O STF terá de decidir, pela primeira vez, se um filho que não recebeu afeto do pai tem direito a uma indenização por danos morais. O caso é do analista de sistemas mineiro Alexandre Batista Fortes, 27 anos. Em 2000, depois de anos sem a presença do pai e de infrutíferas tentativas de aproximação, o jovem recorreu à Justiça mineira, que condenou o pai dele, o engenheiro Vicente Ferro de Oliveira, a pagar 200 salários mínimos (R$ 52 mil, na época) por falta de carinho, apoio moral e atenção. Vicente reverteu a decisão no Superior Tribunal de Justiça (STJ), em 2006. No final do ano passado, o caso seguiu para o STF, que, banco dos REUS E segundo a assessoria do órgão, dará o parecer final este mês.
Desde que se separou da mãe de seu filho, o engenheiro honrou o pagamento da pensão alimentícia. Mas faltava a Alexandre alimento para a alma: afeto. Ele reclama que o pai passou a ignorá-lo a partir dos sete anos, após o nascimento de uma filha do segundo casamento. João Kumaira, advogado de Vicente, alega que o afastamento se deu quando seu cliente passou a trabalhar fora do País, em 1995, e que Alexandre complicou a situação ao se opor a um pedido do pai de revisão da pensão alimentícia, há dez anos.
Alexandre ressalta que se formou na faculdade graças ao dinheiro da pensão. “Mas filho não é só dinheiro. O que me chateia é o fato de meu pai só ter me enxergado como uma despesa”, reclama. “Aos 13 anos, fui a São Paulo para encontrá-lo e, no aeroporto, a secretária dele me disse que ele não me receberia.” Para a psicóloga Magdalena Ramos, coordenadora do núcleo de terapia de casal e família da Pontifícia Universidade Católica (PUC), a Justiça não é o meio para conquistar carinho. A psicanalista Tânia Coelho dos Santos concorda: “Afeto não se impõe. A Justiça vai longe demais, já que é uma exorbitância obrigar um homem a amar uma criança que não desejou”, diz a professora de pós-graduação em teoria psicanalítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
O que é abandono afetivo?Pai ou mãe deixa de dar assistência moral e afetiva ao filho, independentemente da questão material. Apesar de não estar previsto expressamente em lei, o artigo 1.634 do Código Civil Brasileiro, no item direitos e obrigações dos pais, prevê que é dever dos pais criar e educar os seus filhos. É este artigo que dá brechas a processo judiciais.
O afeto, porém, sentou de vez no banco dos réus depois do caso de Alexandre. Já há histórias semelhantes no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná e em São Paulo. O advogado Rodrigo da Cunha Pereira, presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM), que defendeu o analista de sistemas, conta que uma centena de pessoas o procurou, interessadas no mesmo encaminhamento. Pereira diz ter recusado todos os pedidos por identificar interesses financeiros nos casos. “É preciso tomar cuidado para que não pensem que se quer monetarizar o afeto”, diz o advogado, para quem a indenização, mais do que punitiva, tem função educativa. Não é possível coagir um pai ou uma mãe a amar um filho, mas, segundo Pereira, à sociedade cumpre o papel solidário de dizer aos pais, de alguma forma, que isso não é correto e pode comprometer a formação e o caráter das pessoas afetivamente abandonadas. “A única sanção é a reparatória”, diz ele.
Alexandre, que passou dez anos em terapia, conta que, depois de acionada a Justiça, o pai se sentiu traído e se afastou mais ainda. O advogado Domingos Sinhorelli Neto, conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Rio Grande do Sul, afirma que alguns dos dez processos por abandono afetivo abertos por ele tiveram final feliz. Cita o caso de uma estudante de enfermagem de 19 anos, que ganhou do pai, na Justiça de Canoas (RS), uma indenização de R$ 18 mil, em 2005. “Os dois se reaproximaram, visitam a casa um do outro e passam finais de semana juntos”, conta Neto.
Já Rosimeri Almeida Josefina, 32 anos, outra cliente do advogado, diz que sua filha, Daniela Josefina Afonso, hoje com 13 anos, não recebeu do pai, Daniel Viriato Afonso, secretário de Finanças de Araranguá, em Santa Catarina, a indenização de R$ 59 mil que a Justiça ordenou. Condenado em 2005 por não acompanhar o crescimento da filha, Daniel, segundo Rosimeri, diz que só se reaproximará de Daniela se o processo for retirado. Ela pensa em ceder, pois sofre ao perceber que a filha a considera culpada pelo afastamento do pai com a abertura do processo. Daniel não retornou as ligações de ISTOÉ.
Professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Isabel Cristina Gomes ressalta que é muito recente para o pai, historicamente vinculado à figura do provedor, assumir o papel que sempre foi da mãe, o do cuidado afetivo. “Se o pai supre as carências materiais do filho e não lhe dá carinho, sinto muito, mas não é o juiz quem vai resolver isso. O filho deve buscar outros caminhos, como um psicólogo ou um psiquiatra”, diz ela. Alexandre não desistiu de sua luta: quer o amor do pai. Em outubro, irá se casar e diz que vai entregar pessoalmente o convite para Vicente. “A vida ainda pode ser diferente para nós dois... ele não me conhece e eu não o conheço”, diz o jovem.

14 de março de 2008

Stephanie Clair
Só tu sabes os segredos
mais íntimos de mim
e conheces os medos,
mistérios e enredos
que do princípio ao fim
me percorrem os dias.

Mas também as alegrias
que partilho contigo
todas, uma por uma,
sem que subsista o perigo
de te esconder alguma.

Só tu sabes como sou,
embora imperfeito,
alguém que se moldou
à curva do teu peito.

Torquato da Luz

13 de março de 2008

Saramago diz que leitura é para minoria

O escritor português José Saramago, Prêmio Nobel da Literatura, questionou a utilidade do Estado estimular a leitura, afirmando que "voluntarismos" não valem a pena no que "sempre foi e será coisa de uma minoria".
Segundo Saramago, atualmente se confunde a "instrução", ligada ao conhecimento, com a "educação", ligada aos valores. "Onde está a educação na escola em que os professores são agredidos, humilhados, desprezados", questionou, dizendo que eles "são os heróis do nosso tempo". E fez uma recomendação: a leitura em voz alta deve ser encorajada na sala de aula.
“Quem manda no mundo não são os órgãos democráticos que são governados por poderes não democráticos, o poder do dinheiro”. (José Saramago)

E você? Concorda com ele?

Filosofar

¤ Filosofar ¤
Muitos questionam a sua utilidade. Outrora conhecida como “a ciência das ciências”, ocorre que a especialização delas, que recentemente se afunilou estreitando muito a área de atuação do filósofo. Se há alguns séculos atrás este era um ser que buscava a plenitude, o conhecimento amplo sobre tudo e todos, atualmente o filósofo está um tanto atado, já que suas antigas atribuições desovaram em novas ciências (especificação).
O que é filosofar? Quem desdenha, diz que é ficar pensando sobre coisas absurdas, que não levam a lugar algum, e, não poucas vezes, não nos dá respostas concretas. É fato que a filosofia não nos dá respostas absolutas. Se isso acontecesse, não seria filosofia. É uma ciência dinâmica sem respostas definitivas por isso ha espaço para filosofar sobre tudo, desde questões clássicas até contemporâneas.
Filosofar é:
  • praticar a Cidadania.
  • questionar o que está convencionado.
  • um exercício de liberdade de pensamento que não aceita ser tutelado por ideologias, religiões, projetos políticos ou crenças de qualquer espécie.
  • perguntar as razões e os motivos às escolhas humanas para chegar às melhores razões e aos melhores motivos.
  • é conhecer pensamentos alheios que, querendo ou não, ajudam na formação dos seus. Pode haver o recebimento e preservação de pré-conceitos, que corrompem a filosofia plena, mas é um risco que vale a pena correr.
Platão, dizia que “as massas nunca serão filósofas” (SCHELER, 1986:7). A filosofia ocidental permaneceu historicamente influenciada por esse pensamento. Acreditava-se que nem mesmo as mulheres tinham competência para dominar o pensamento filosófico. Santo Agostinho, ao elogiar sua própria mãe, que participava de um diálogo filosófico com ele e outros homens, revela a ideia da época: “… esquecidos inteiramente do seu sexo, pensamos que algum grande homem se encontrava sentado conosco”. (SANTO AGOSTINHO, 1988:41) Moacir Gadotti, citando Gramsci critica o elitismo filosófico, pois é mais importante que os seres humanos aprendam a pensar e a refletir de maneira coerente e filosófica em suas questões existenciais, do que uns poucos intelectuais ficarem especulando sobre conceitos que permanecerão restritos a eles. “Uma filosofia para crianças e jovens não estaria preocupada em formar discípulos para perpetuar certa corrente filosófica, certa visão de mundo, mas para ajudar a pensar e a transformar o mundo. Conceber a filosofia como uma especialidade é derrotá-la antes mesmo de iniciar a batalha por ela.” (GADOTTI, 2000:28).

8 de março de 2008

Padre Antônio Vieira e a escravidão negra no Brasil

Reveja seus conceitos
Comemora-se neste ano o 4° centenário do nascimento do padre Antônio Vieira. Perspicaz conselheiro régio, brilhante escritor, orador sacro e visionário, Vieira era também um homem realista sobre as coisas deste baixo mundo. Grande patriota português (curioso que haja gente insistindo em considerá-lo “brasileiro”, coisa que não existia na época), Vieira propôs a venda de Pernambuco e Angola aos holandeses nos anos 1640, para fazer as pazes com a Holanda e concentrar o esforço militar português na guerra fronteiriça contra a Espanha. Entre outras coisas, Vieira foi também um constante defensor do tráfico negreiro para o Brasil. Aliás, ele é o autor da mais audaciosa justificação do tráfico negreiro do período colonial.
O Padre Antônio Vieira nasceu em Portugal em 1608. É considerado um dos homens mais extraordinários do século XVII, por sua atuação política e religiosa no Brasil e em Portugal, e por sua influência na vida cultural e literária. Vieira veio ao Brasil aos sete anos de idade, e em 1623 entrou para a Companhia de Jesus. Depois de ordenado, trabalhou em vários lugares no Brasil, mas sua atuação mais conhecida desta época se deve a seu trabalho com os escravos e índios do Amazonas, os quais ele defendeu contra os colonizadores portugueses. Sua ardente oposição ao comércio de índios culminou com sua expulsão (e a dos demais Jesuítas) do Amazonas. Com a mudança política em Portugal depois da Restauração em 1640, Vieira foi para a corte, onde se tornou confessor do rei D. João IV, que o enviou como seu representante a Roma e a Amsterdã. Mais tarde, ele também foi confessor da rainha Christina da Suécia. Vieira fez a longa e difícil jornada marítima entre Portugal e o Brasil várias vezes, e se tornou, ainda em vida, uma figura célebre.
Entretanto, apesar de sua proximidade aos poderosos de seu tempo, Vieira não conseguiu escapar de perseguições. Suas declarações e seus sermões em defesa dos “Cristãos Novos” — Judeus forçados a se converterem ao cristianismo — que formavam grande parte da classe mercantil de Portugal, e suas críticas aos excessos da Inquisição, terminaram por angariar a fúria da própria Inquisição. Vieira foi preso, julgado e condenado, ficando na prisão em Portugal por cinco anos. Mais tarde, quando voltou ao Brasil, Vieira preparou seus sermões para publicação e se recolheu à Quinta do Tanque, na Bahia, onde morreu em 1697.
Vieira pregou entre os índios, entre os colonos em vários lugares do Brasil, entre os escravos e seus senhores, e entre os nobres da corte de Portugal.
O “Sermão Décimo Quarto", pregado na Bahia, à Irmandade dos pretos de um engenho no dia de São João Evangelista, no ano de 1633. Nele o Padre Antonio Vieira diz que ser cristão exige certos sacrifícios. “... deviam lembrar-se sempre que a própria mãe de Jesus Cristo os havia escolhido especialmente por filhos, e que isso que “pode parecer desterro, cativeiro, e desgraça... Não é senão milagre, e grande milagre”. E prossegue “Como imitadores do crucificado no Calvário, aos negros só lhes resta o papel de crucificados, torturados, vítimas inocentes, e silenciosas. Aliás, o papel de crucificados não lhes deveria ser pesado, nem difícil, nem doloroso, mas deveriam ser felizes e agradecidos aos donos que lhes propiciavam tal ventura e possibilidade de alcançar a vida eterna”.
É impossível, a esta altura do começo do século XXI, saber se os escravos do específico engenho no qual o sermão foi proferido estavam a par da rede de povoados que abrigavam escravos fugidos. Mesmo que notícias sobre os quilombos fossem de conhecimento corrente e publicadas em jornais, os escravos de fazendas não sabiam ler.
Convém lembrar que neste ponto a indústria açucareira estava se estabelecendo como a força motriz do Brasil, e que o tráfico de escravos era sentido como uma necessidade vital para a continuação do progresso da colônia.
A Obsessão de Napoleão: Egito
León Cogniet - Expedição de Napoleão Bonaparte no Egito
Em 1798, o então jovem general francês Napoleão Bonaparte tomou as cidades de Alexandria e Cairo com o intuito de anexar o Egito ao Império em franca expansão. Após sucessivas batalhas que resultaram em um exército dizimado e desmoralizado, o general decidiu abandonar a campanha e regressar à França.
Apesar da derrota, ele conseguiu o que pode ser considerado, talvez, seu maior legado: a publicação do multivolume Description de L’Egypte, amplamente reconhecido como o mais importante estudo erudito europeu do Egito antigo e moderno.
Este é o foco da exposição O Egito sob o Olhar de Napoleão, que reúne 21 volumes da obra Description de L’Egypte, pertencentes ao acervo do Itaú Unibanco. Os livros contêm estudos de arqueologia, topografia, religião e história natural realizados por uma equipe de 167 especialistas de diversas áreas. Sob curadoria de Vagner Carvalheiro Porto e consultoria científica de Antonio Brancaglion Junior, a mostra exibe ainda objetos egípcios do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro e de coleção particular, além de trazer 14 matrizes de cobre cedidas pelo Museu do Louvre e 13 telas com imagens dos livros, que podem ser manuseadas pelos visitantes.

6 de março de 2008

Sabina Spielrein (1885-1942)

Foi uma das primeiras mulheres psicanalistas do mundo. Russa, de uma família de mercadores judeus, foi assassinada em 1942 por soldados nazistas na mesma cidade onde nasceu. Casou-se com Pavel Scheftel, um médico russo de ascendência judia. Os dois tiveram duas filhas: Renata (1912) e Eva (1924). Ambas morreram junto com a sua mãe em 1942. Scheftel foi morto no Grande Terror (política repressiva orquestrada por Josef Stalin), em 1936.
Entre 1904 e 1905, Spielrein esteve internada no hospital Burghölzli em Zurique, onde trabalhava Carl Gustav Jung. Entre 1904 e 1911, estabeleceu forte relação afetiva com C. G. Jung. Posteriormente, após Spielrein sair do hospital e começar a estudar medicina, teve Jung como seu mentor de dissertação. Até mesmo o próprio trabalho de Jung adquiriu influência de Spielrein.
Graduou-se em 1911, defendendo uma dissertação sobre um caso de esquizofrenia. No mesmo ano, foi aceita como membro da Sociedade de Psicanálise de Viena.
Em 1923, Spielrein retornou para a União Soviética e, junto com Vera Schmidt, criou um jardim de infância em Moscou, sendo todas as paredes e as mobílias de cor branca, o que deu o apelido ao lugar de Enfermaria Branca. A instituição tinha como principal finalidade o rápido amadurecimento crítico e analítico das crianças. A Enfermaria Branca foi fechada três anos depois por autoridades soviéticas sob a justificativa de que o local provia práticas de perversões sexuais para as crianças. Um fato interessante foi que o próprio Stalin matriculou seu filho Vassili neste lugar, mas com um nome falso.
Um documentário chamado Ich hieß Sabina Spielrein (Meu nome era Sabina Spielrein) foi feito em 2002 pela diretora sueca Elisabeth Marton, sendo lançado nos Estados Unidos no final de 2005. Também foi produzido um filme pelo cineasta Roberto Faenza, o Prendimi l’anima, ou Jornada da Alma no Brasil, com Emilia Fox como Spielrein e Iain Glen como Carl Gustav Jung.

Um método muito perigoso: Jung, Freud e Sabina Spielrein
A história ignorada dos primeiros anos de psicanálise.

“Kerr produziu um livro soberbo. De ritmo rápido e envolvente, Um método muito perigoso apresenta Carl Jung como a figura central no surgimento da psicanálise como movimento internacional. Kerr nos oferece uma reavaliação sensível de um triunvirato problemático – Jung, Freud e Sabina Spielrein. Neste processo, ele demonstra convincentemente que as ideias psicanalíticas de Jung, que viriam a precipitar seu rompimento com Freud, estavam intimamente ligadas as de sua ex-paciente e amante. E Sabina Spielrein emerge das sombras da história para se tornar uma figura central nesse cativante drama psicanalítico. Trata-se de importante contribuição para o entendimento histórico da psicanálise.”
Fascinante e informativo além da expectativa, constitui um tesouro de novas informações sobre os primórdios da psicanálise, integradas e comentadas com maestria. Mas isto é só o começo: o empolgante livro de Kerr cria um gênero próprio. Ele conta história íntima do nascimento do significado original de algumas das ideias que mais influenciaram o século XX, ao mesmo tempo em que perscruta a curiosa batalha entre dois homens de importância quase mítica para nós e uma obscura jovem que, com sua assistência intelectual e paixão impulsionadora (e domínio intelectual dessa paixão), se envolveu com os dois e desempenhou um papel surpreendente na busca de ambos pela imortalidade científica.
Na reconstituição detalhada que o autor faz daqueles primeiros tempos, os analistas encontrarão muitos novos tons e matizes para seus conceitos conhecidos, os amantes de biografias encontrarão personagens cujas inclinações nunca teriam imaginado, e historiadores eruditos – na verdade, qualquer pessoa de bom senso – descobrirá algo que não haviam percebido sobre a vida da mente.
A fecunda e tumultuada amizade entre Freud e Jung, nas palavras de Paul Roazen, é um dos marcos da história do pensamento e da cultura ocidental.
O rompimento dessa amizade entre os dois maiores psicanalistas do século XX impediu a continuação de uma parceria que poderia ter contribuído para um desenvolvimento ainda maior da ciência da psique e para o alargamento dos horizontes de conhecimento da interioridade do homem.
Muito já se disse e se escreveu sobre o assunto. Mas não há conclusão que se imponha de modo a silenciar a polêmica que se arrasta e prossegue entre os discípulos menos avisados de cada um dos mestres.
De qualquer sorte, talvez seja necessário àqueles que se propõem seguir as orientações teóricas de Freud ou de Jung, mergulhar na história dessa turbulenta amizade e extrair as suas próprias conclusões. É possível que esse mergulho termine por ser um encontro pessoal de cada um com a sua própria verdade. Um confronto rico e saudável com o seu inconsciente. Então, quem sabe, talvez tenhamos aprendido a lição maior desses mestres segundo a qual pessoa alguma pode acompanhar ou orientar uma jornada que ela mesma não a tenha feito.
O confrontar-se com o inconsciente e o defrontar-se com a própria sombra parece ser o exemplo maior de coragem pessoal e honestidade intelectual que Freud e Jung legaram às gerações de estudiosos da alma humana que os sucederam.
E, parafraseando o bardo inglês, o resto é silêncio!

Senhora, senhora, me diga novamente
O que pode crescer, crescer sem a chuva?
O que pode incendiar durante muitos anos?
Quem pode ansiar e chorar, sem lágrimas?

Tolo rapaz, por que ainda pergunta?
É a pedra que cresce, que cresce sem chuva.
É o amor que pode incendiar por anos.
É o coração que pode chorar sem lágrimas.

Tradução de versos da música "Tumbalalaika",
tema de Sabina Spielrein no filme “Jornada da Alma”
Ouça a Música

5 de março de 2008

Camille Claudel (1864-1943)

Amor da perdição
A artista, nascida em 1864, é mais conhecida por sua vida atribulada que por seu trabalho. Aos 19 anos, conhece Auguste Rodin, 24 anos mais velho que ela, escultor já consagrado, que se torna seu mestre e amante.
Um amor ardente e secreto se prolongará por dez anos, muito embora Rodin nunca abandonará sua primeira amante, Rose Beuret, com a qual finalmente se casará em 1917.
Camille vive certa efêmera fama, graças ao apoio de Rodin, expondo em salões e participando de tertúlias em casa de Mallarmé e de Jules Renard, admiradores de seu trabalho.
Quando Rodin retorna em definitivo e totalmente ao seu antigo amor, começa a tragédia de Camille, que se fecha em seu estúdio e se entrega a uma solidão obsessiva, caracterizada pela pobreza e pela ruína física e mental. Só sai às noites.
A dor do abandono
Sua vida está relacionada à de Rodin até 1898, ano em que se separaram. A partir de 1906, arremete contra sua obra, destruindo grande parte de sua produção, numa espécie de exorcismo, como uma forma de livrar-se daquilo que ainda a vinculava ao homem amado e com a obsessiva dor do abandono, gravado em uma de suas esculturas.
Em 10 de março de 1913, por ordem de sua mãe (que mãe hein!, conheci uma parecida) e de seu irmão (que irmão!), ela é internada em um asilo de loucos em Ville-Evrard e, um ano depois, transferida para o hospital psiquiátrico de Montdevergues, que lhe dará abrigo até sua morte, trinta anos depois.
O Desprezo da Família
Não se encerra aí a desdita de Camille. Sua mãe jamais irá visitá-la e rechaça, firmemente, o conselho dos médicos para levá-la de volta ao lar. * depois dizem que família é tudo...
Seu irmão, Paul Claudel, além de próspero, fortalece-se politicamente, ao tornar-se embaixador da França. Não obstante, se nega, em 1933, a pagar-lhe uma pensão hospitalar. Nos 30 anos de internação, Paul a visita umas poucas vezes e nada faz para amenizar o sofrimento de Camille, apesar das cartas suplicantes que esta lhe envia, narrando as condições sub-humanas em que vive.
O Fim sem Glória
Rodin, por sua parte, envia-lhe algum dinheiro, expõe algumas das esculturas de Camille que sobreviveram à destruição, mas nada faz para liberá-la do hospital. De toda maneira, qualquer iniciativa sua seria obstada pela mãe de Camille, que o considera culpado pela ruína e loucura de sua filha.
Camille Claudel morre em sua prisão psiquiátrica em 1943, com a idade de 78 anos. Esquecida do mundo, morre sem glória, sendo enterrada, anonimamente, em uma vala comum.

Camille Claudel passou a ser mais conhecida do grande público quando a bela Isabelle Adjani a interpretou no filme "Camille Claudel", do diretor Bruno Nuytten. O longa mostrou ao mundo o drama de uma mulher que, pouco compreendida em seu tempo, foi condenada ao isolamento e, castigo pior, ao esquecimento. Aprendiz, amante e rival de um ícone da arte, Auguste Rodin, Camille durante décadas ou foi ignorada ou existiu somente à margem de seu grande mentor.
Nem mesmo uma retrospectiva de sua obra, realizada em 1951, no Museu Rodin teve sucesso. Somente em 1984, na mesma instituição, outra exposição finalmente revelou ao público o gênio da artista. Desde então, Camille Claudel tem sido reverenciada como uma das grandes escultoras do século XX. E ainda que seja impossível dissociar seu nome do de Rodin (e vice-versa) a beleza e a força de sua obra se impõem por mérito próprio. São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais puderam comprovar o talento da artista na grande retrospectiva "Camille Claudel" que esteve nessas cidades entre 1997 e 1998.
Oito anos depois, uma parcela significativa das obras da artista volta ao solo nacional, dessa vez para percorrer um circuito incomum para exposições deste tipo, geralmente realizadas no eixo Rio-São Paulo. Palmas, capital de Tocantins, é a primeira capital deste circuito que inclui, por ora, Curitiba, Belém, Manaus, Recife, Vitória e Belo Horizonte.
Camille ficou só. O irmão Paul Claudel, poeta, viajara para os Estados Unidos e lhe faltava mais esse amparo. Passou a criar obsessivamente; percebia-se, contudo, que perdia a sanidade. O golpe final veio quando, durante uma exposição, não conseguiu vender nenhuma escultura. O fracasso, o álcool, e agora o descrédito, somados às suas muitas decepções, fizeram-na indignar-se a tal ponto que, em dado momento, destrói as peças que havia criado.
Espírito livre, Camille ousou tornar-se amante de Rodin, que a tomara como aluna, aos 19 anos. Vivem momentos felizes, revelados em obras como "A Valsa", por exemplo. Ela não resiste, porém, à separação de ambos após 15 anos de relacionamento. Só e infeliz, a partir de 1898, começa a ter seus primeiros delírios. Oito anos depois, boicotada por Rodin e com problemas financeiros, piora e acaba por ser internada em um hospital para doentes mentais. Ali, sem nunca ter recebido a visita da mãe, permanece por 30 anos, até sua morte, em 1943, aos 79 anos.

4 de março de 2008

Semana da Mulher

Vamos destacar algumas, talvez não as mais evidentes mas que merecem ser lembradas:
Sophie Scholl (9 de Maio de 1921, Forchtenberg - 22 de Fevereiro de 1943, Munique)
Era membro da Rosa Branca, movimento de resistência antinazista. Foi condenada por traição e executada na guilhotina. É conhecida como uma das poucas alemãs que se opuseram ativamente ao terceiro reich durante a Segunda Guerra Mundial.
A Rosa Branca
No início do Verão de 1942, Sophie participou da produção e distribuição de panfletos da Rosa Branca. Foi presa em 18 de Fevereiro de 1943 enquanto distribuía o 6º panfleto, na Universidade de Munique. Os panfletos eram redigidos e depois copiados, sendo depois entregues em caixas de correio nas casas de grandes cidades da Baviera (berço do movimento nazista). Esses planfetos continham trechos apocalípticos da Bíblia, para causar mais expressionismo. Sophie e seu irmão Hans School, e mais um universitário, Christoph Probst, foram presos em 22 de fevereiro de 1943, depois que o reitor da universidade de Munique os surpreendeu distribuindo esses panfletos no pátio da universidade. A Gestapo prendeu os três e os julgaram em menos de quatro horas e foram decapitados.
Desobedecendo ordens superiores, os carcereiros ainda deixaram os jovens reencontrar seus pais antes de encontrarem o trágico destino dos opositores ao nacional-socialismo, a morte. Os três são tidos hoje como heróis nacionais alemães. Entre fevereiro e outubro de 1943 foram mortos ainda mais 50 integrantes do movimento Rosa Branca.
Filme
Em Fevereiro de 2005 foi lançado um filme sobre Sophie Scholl.
Sophie Scholl – Die letzten Tage Sophie Scholl - Os Últimos Dias ou Uma Mulher Contra Hitler com a atriz Julia Jentsch como Sophie.

3 de março de 2008

Tânia Nijmeijer

A confiança para com a direção das FARC caiu muito depois de publicado em Bogotá o diário da estudante holandesa Tânia Nijmeijer, cujo codinome é Ellen. Há cinco anos ela, entrou voluntariamente nas fileiras dos guerrilheiros, ingenuamente acreditando que iria lutar contra a pobreza de milhões de colombianos, pela liberdade deles e igualdade. Entretanto na selva Tânia se deparou com a crueldade, barbaridade, arbitrariedades dos “chefes” das FARC. Eles vivem vida especial, se ocupam dos roubos, desprezam os subordinados, lançando-os nas partes mais perigosas dos combates. E hoje as duvidas são muitas depois de conhecer o conteúdo do diário e do computador encontrado junto e que pertencia ao chefe dos rebeldes. Tem algum sentido fazer contato com pessoas como essas? De forma que ainda está muito distante a solução do destino dos reféns nas mãos desses guerrilheiros.

Guillermo Enrique Torres - "Julian Conrado" (1954 - 2008)

Morreu em combate no dia 1º de março entre as forças colombianas e os guerrilheiros das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) o compositor e músico Guillermo Henrique Torres, conhecido como Julian Conrado, desde que se juntou às FARC em 1983. Ele compôs e gravou com outros guerrilheiros mais de uma centena de canções sobre a luta e a realidade social na Colômbia. Entre 1998 e 2002, durante o diálogo entre as FARC e o Governo de Andrés Pastrana, ele foi o responsável para as reivindicações em temas culturais, mas as negociações falharam. Foi neste período que ele compôs a música "Arando la paz", que está no You Tube, mostrando uma passagem rápida pelas últimas décadas da história colombiana para justificar as razões que levaram as FARC à luta armada em 1964.
Nos Estados Unidos "Julian Conrado" era procurado por envolvimento, através das FARC, em narcotráfico:http://www.state.gov/p/inl/narc/rewards/63851.htm.
Depois do referido combate em solo equatoriano no fim de semana passado a situação na região é tensa: movimentos de tropas equatorianas e venezolanas para as fronteiras com a Colômbia, acusações do governo colombiano aos governos vizinhos de manter contactos com as FARC.
Presidente Álvaro Uribe de Colômbia é pró-americano, ao contrário dos seus vizinhos. Hugo Chavez chamou "Satanás" ao George W. Bush, o presidente do Equador Rafael Correa, um católico de esquerda, considerou esta comparação "uma injustiça perante o Diabo". Agora o Equador já manda refinar o seu petróleo na Venezuela (era antes nos Estados Unidos).
Entretanto as FARC afastaram-se muito dos seus objetivos originais: a luta a favor do povo colombiano e contra os interesses das empresas multinacionais. Não há justificação possível para seqüestros, torturas e (possível?, provável?) narcotráfico. Parece-me que o movimento está num beco sem saída. Na Holanda é notícia o diário de uma estudante holandesa que em 2002 aderiu voluntariamente às FARC, mas agora quer sair, pois "já nada disto faz sentido".
Do outro lado também acho super-hipócrita a atitude dos norte-americanos, alegadamente só preocupados com o narcotráfico, sem falar sobre os seus interesses no petróleo, mas isto já é hábito.

2 de março de 2008

Albert Camus e o nada

Albert Camus! O grande escritor da obra - O Estrangeiro -, é para mim, um dos mais importantes livros do século XX, volta à baila com trechos de uma peça teatral intitulada "O improviso dos filósofos", na qual constrói uma crítica voraz ao pai do existencialismo Jean Paul Sartre. Leia o trecho abaixo publicado no caderno Mais! da Folha de S. Paulo de 2 de Março de 2008:
O mercador da nova doutrina
SR. NÉANT - A bem dizer, não tenho exatamente uma profissão, tendo consagrado minha vida às coisas do espírito e nada sabendo fazer com as mãos. Mas há algum tempo, e por pura vocação, quis arrumar um ofício. Tornei-me mercador da nova doutrina.
SR. VIGNE - Isso é muito bom, meu senhor, e eu o felicito. Mas, suplico-lhe, o que é isso?
SR. NÉANT - Isso o quê?
SR. VIGNE - Um mercador da nova doutrina?
SR. NÉANT - É o ofício que me traz até aqui.
SR. VIGNE - Nesse caso, senhor, é o melhor dos ofícios e merece meus aplausos.
SR. NÉANT - Nunca duvidei de sua aprovação e por isso vim vê-lo. Pois aquilo que tenho a dizer não posso dizê-lo a todo mundo e escolhi, para expor as finas mercadorias de que disponho, homens como o senhor, que devem sua primazia ao caráter, aos costumes e ao gênio.
SR. VIGNE - É verdade que tenho verniz mundano e algumas conjecturas sobre as coisas do espírito, mas não sabia que minha modesta reputação tivesse chegado até o senhor.
SR. NÉANT - O fato é que chegou até Paris e seus trabalhos são conhecidos por lá.
SR. VIGNE - Meus trabalhos! Mas não me recordo de tê-los publicado.
SR. NÉANT - É verdade; entretanto, nós o conhecemos, e a melhor prova é que aqui estou.
SR. VIGNE - É preciso crer no que diz, com efeito, pois essa prova é irrefutável. Mas continue, sou todo ouvidos e já começo a sentir certa afeição pelo senhor.
SR. NÉANT - Então estamos de acordo. Para falar brevemente, eis o caso: trago-lhe o que se faz de melhor em Paris em matéria de filosofia e pretendo lhe mostrar todas as vantagens dela.
SR. VIGNE (espantado e gaguejando de satisfação) - Uma honraria dessa, meu senhor, uma honraria dessa me faz sonhar. Acho que vou perder a fala.
SR. NÉANT - Não se inquiete. Posso muito bem falar sozinho. Entretanto, se o seu fôlego voltar, gostaria de começar por duas questões, e a primeira consiste em saber se o senhor é religioso.
SR. VIGNE - Tenho alguma noção, senhor, das verdades da fé católica, na qual meus pais me criaram.
SR. NÉANT - Isso significa que o senhor vive no erro, pela razão de que essa verdade se encontra hoje desmentida.
SR. VIGNE - E por quem?
SR. NÉANT - Por este livro aqui.
SR. VIGNE - E que livro é esse?
SR. NÉANT - O novo evangelho do qual eu sou apóstolo.
SR. VIGNE - O senhor me deixa espantado; não ouvi dizer que o mundo havia recebido a visita de um novo messias.
SR. NÉANT - Mas assim é. E, para a graça de todos nós, vários messias estão agora em Paris.
SR. VIGNE - Vários? Isso não é demais?
SR. NÉANT (severamente) - Nos tempos atuais, não poderíamos ter messias em excesso.
SR. VIGNE (afobado) - Sem dúvida, sem dúvida, o senhor tem razão. Mas confesso que sinto alguma dificuldade em pensar que a religião em que vivi até agora...
SR. NÉANT - Essa religião, em todo caso, não cabe mais para as pessoas que estão na moda em Paris.
SR. VIGNE - Ah! Senhor, o que está me dizendo! A gente de Paris é racional demais para pensar nisso tudo em vão. E sua conversa me abre tantos horizontes que eu quero logo responder a sua segunda questão.
SR. NÉANT - O senhor acredita que tudo nesse mundo tem uma causa?
SR. VIGNE - É isso que aprendemos no colégio em que fiz meus estudos.
SR. NÉANT - Eia! Isso reforça minha opinião de que seria preciso, para dar exemplo, esfolar vivos duas ou três dúzias de professores, pois os seus o fizeram viver até hoje na mentira.
SR. VIGNE - Espere aí! O que quer dizer?
SR. NÉANT - Quero dizer, senhor, que nada tem causa e que tudo é acaso.
SR. VIGNE - Então eu estou aqui, diante do senhor, prefeito desta cidade, farmacêutico oficial, pai de uma bela filha e tudo isso, em suma, sem uma razão?
Como pode ser assim?
SR. NÉANT - É que este mundo é absurdo.
SR. VIGNE - E por que este mundo é absurdo?
SR. NÉANT - Pela simples razão de que ele não se explica.
SR. VIGNE - E como não?
SR. NÉANT - Porque é absurdo.
SR. VIGNE - Caramba, agora eu vejo as coisas claras e me explico claramente porque esse mundo não se explica.
SR. NÉANT - É a sua inteligência que merece todas as honras.
SR. VIGNE - Meu Deus, como essa filosofia me dá prazer! Sinto que vou adotá-la sem demora.
O pernil e o nada
[Em diálogo com a mulher, o sr. Vigne justifica seu abandono da religião e diz que tudo equivale a nada.
Diante da ameaça de ficar sem jantar, faz pastiche da filosofia existencialista sobre a constituição da subjetividade a partir do olhar do outro, após afirmar que sua mulher não é um "ser-aí" -tradução de "dasein", de Heidegger, incorporado por Sartre]
SRA. VIGNE (distraída) - Quais são, senhor Vigne, as ridículas superstições que diz abandonar?
SR. VIGNE - A religião, minha mulher.
SRA. VIGNE - Ah, é! (sobressaltando-se) Então é a religião?
SR. VIGNE - Sim, minha mulher, tenho o prazer de lhe informar que até o presente momento vivemos na ignorância e no erro. Agora, ao contrário, acabo de aprender a verdade: que não há verdade superior e que não existe mesmo verdade alguma, que tudo é acaso, que pode haver fumaça sem fogo e que, enfim, tudo é nada vezes nada.
SRA. VIGNE - Ufa, se não sou eu quem está ouvindo errado, é você que está ensandecido. E, no lugar de dissertar como um arcebispo, seria melhor tomar conta de seu pequeno caixeiro, que está a um passo de explodir após ter se entupido com seus bombons de marshmallow.
SR. VIGNE - Isso vai lhe ensinar, minha mulher. É totalmente indiferente que ele coma marshmallows, que exploda ou que não exploda.
SRA. VIGNE - Agora entendi! É mais um de seus ataques de mau humor. Você terá febre de noite e vai tomar um purgante amanhã, como de hábito.
SR. VIGNE - Pare de ser vulgar, senhora, e não atribua ao mau humor aquilo que advém do puro e nobre conhecimento.
SRA. VIGNE - Eis, com efeito, uma nova ciência, que o levará longe. Bem, seja como quiser, e, já que nada serve para nada, você não vai jantar hoje, ao passo que eu continuarei a chafurdar na ignorância e no erro enquanto como sozinha aquele gordo pernil que Deus -sim, Deus, ele mesmo- nos enviou nessa manhã.
SR. VIGNE - Acontece, minha querida, que você não é um "ser-aí" e por isso é necessário que eu jante bem ainda que nada faça sentido.
SRA. VIGNE - Isso está ficando divertido, meu tresloucado marido, e terei prazer se me explicar essa nova maravilha.
SR. VIGNE - Quer dizer, eu... Enfim, é pelo seu bem que eu devo jantar.
SRA. VIGNE - Pelo meu bem?
SR. VIGNE - Sem dúvida, pois... (ele hesita, depois fala rápido, como um iluminado) ...A partir daquilo que acabo de aprender, eu não sou nada sem você e devo me tornar aquilo que sou ajudando-a a ser aquilo que você é, donde se conclui que, sendo aquilo que sou, devo fazer aquilo que você faz e que, sendo aquilo que você é, você deve me deixar fazer aquilo que é preciso fazer para que você e eu sejamos aquilo que nós somos. Eis a razão pela qual eu devo jantar. Está claro?
SRA. VIGNE - Tão claro que vou agora mesmo ao hospício pedir socorro urgente.

Virtudes da angústia
[Enquanto devora sua ceia, o sr. Néant sacia o apetite do sr. Vigne pela sensibilidade existencialista, numa paródia dos encontros filosóficos em Paris]
SR. VIGNE - Meu caro senhor Néant, antes de ir dormir, talvez consinta em me esclarecer um ou dois pontos que ainda não são evidentes para mim.
SR. NÉANT - Certamente, meu bom amigo. Não há nada que não queira fazer por você. Entretanto creio que, se eu tivesse o estômago menos vazio, teria as ideias ainda mais claras.
SR. VIGNE - Ah, bem pensado, como é digno ter fome quando se sabe exprimir tão bem! Sente-se, senhor Néant, e aproveite esse pernil que Deus... hum... quer dizer, o acaso nos enviou nesta manhã. (o sr. Néant se ocupa com o pernil. O senhor Vigne o contempla enternecido e, em seguida, com expressão convulsa)
SR. VIGNE - Senhor Néant! Preciso entender a angústia da qual me falou tão belamente e que não pratico com muita frequência.
SR. NÉANT (comendo) - De fato, senhor Vigne, a angústia é a melhor coisa do mundo.
SR. VIGNE - Mas o que é preciso entender por esse termo, meu caríssimo senhor Néant?
SR. NÉANT (comendo) - Bem... Enfim, trata-se de uma apreensão geral dos infortúnios que não podemos definir e que, de resto, não precisam necessariamente acontecer.
SR. VIGNE - Ah! Isso está muito claro, e vou me dedicar a experimentá-la todas as manhãs para atingir o tipo de perfeição da qual me fala.
SR. NÉANT (comendo) - Muito bem, senhor Vigne, estou certo de que está aliviado.
SR. VIGNE - Mas essa angústia não acaba fazendo mal?
SR. NÉANT (devorando) - Ah! Senhor, nada é mais consolador do que a angústia e nada é pior do que uma vida privada dessa virtude. Na verdade, é impossível viver sem angústia e é ela que faz viver sem que provoque o menor dos males. Prova disso é que os mortos não a provam.
SR. VIGNE - Bravo! Essa prova é irrefutável.
SR. NÉANT (comendo selvagemente) - Angústia e mais angústia, angústia sempre, senhor Vigne, e estaremos todos salvos.
Trechos traduzidos por Manuel da Costa Pinto.