21 de fevereiro de 2008

Um poema para refletir

Adam Romanowicz
Toda noite - tem auroras,
raios - toda escuridão.
Moços, creiamos, não tarda
a aurora da redenção.
gemer - é esperar num canto
chorar - é aguardar que o pranto
faça-se estrelas nos céus.
O mundo é o nauta das vagas...
Terá o oceano as plagas
se existirem Justiça e Deus.

Castro Alves (1847-1871)

20 de fevereiro de 2008

Bush e Fidel

Bush se manifestou sobre a renúncia de Fidel: “Os Estados Unidos vão ajudar o povo cubano a conseguir sua liberdade”. Faz-me rir... Bush deveria cuidar mais da parte psicológica dos jovens estadunidenses para pararem de matar pessoas em escolas... Os Eua decepcionaram o mundo com a sua política fundamentalista de Bush.O historiador americano Ralph della Cava, num seminário que organizei no Fórum Social Mundial de janeiro deste ano, apresentou um texto muito bem documentado sobre "a direita cristã e o partido republicano", mostrando a ideologia fundamentalista que está presente no governo Bush, na "cruzada" do bem contra o mal, utilizando o nome de Deus para pregar a guerra, o que, na tradição bíblica é uma blasfêmia. Não se pode usar o nome de Deus para anunciar morte e violência. Absurdamente, uma outra "jihad" (guerra santa) é pregada agora por um líder ocidental que se diz cristão convertido, lê a Bíblia e transforma o Deus da Vida num ídolo de morte e destruição.

18 de fevereiro de 2008

Odilon Nogueira de Matos (1916-2008)

Faleceu hoje, em Campinas, o profº Odilon Nogueira de Matos.
Nascido em Piratininga, no estado de São Paulo, Profº Odilon morava em Campinas há 50 anos.
Foi casado com Nerina Lurdes Ramos (1915-1996).
Membro da Academia Paulista de Letras, ocupava a cadeira nº. 22. Também era membro da Academia Campinense de Letras e Artes de Campinas. Foi professor:
  • na USP,
  • na Escola de Sociologia e Política,
  • Pontifícia Universidade de Campinas e muitas outras instituições de ensino.
Também jornalista foi colaborador de inúmeros órgãos de imprensa. Foi o criador da publicação Notícia Bibliográfica e Histórica e seu editor por quase 40 anos. Amante da música, sobre ela muito escreveu ao longo dos anos.
Foi meu professor na Faculdade. Devo-lhe meu envolvimento com a História e com a música que, por muitas vezes, foi objeto de longas conversas entre nós. Bachiano de quatro costados, ouvia aos domingos a cantata de Bach correspondente àquele dia da semana, na liturgia anglicana. Também era hábito seu ouvir diariamente uma peça de Mozart.

A ele a minha singela homenagem.

15 de fevereiro de 2008

O país de uma nota só

Pedro Bruno
Não pretendo nada,
nem flores, louvores, triunfos.
nada de nada.
Somente um protesto,
uma brecha no muro,
e fazer ecoar,
com voz surda que seja,
e sem outro valor,
o que se esconde no peito,
no fundo da alma
de milhões de sufocados.
Algo por onde possa filtrar o pensamento,
a ideia que puseram no cárcere.

A passagem subiu,
o leite acabou,
a criança morreu,
a carne sumiu,
o IPM prendeu,
o DOPS torturou,
o deputado cedeu,
a linha dura vetou,
a censura proibiu,
o governo entregou,
o desemprego cresceu,
a carestia aumentou,
o Nordeste encolheu,
o país resvalou.

Tudo dó,
tudo dó,
tudo dó...
E em todo o país
repercute o tom
de uma nota só...
de uma nota só...

Carlos Marighella (1911-1969)

12 de fevereiro de 2008

Estado é...

“O Estado é o mais frio de todos os monstros frios. Mente friamente, e esta mentira rasteja de sua boca: Eu, o Estado, sou o povo. É uma mentira. Só onde termina o Estado, começa o homem.
Essa é a mensagem que vos dou: cada povo tem sua própria linguagem do bem e do mal, que o vizinho não compreende. Inventou a sua linguagem própria de costumes e direitos. Mas o estado mente em todas as linguagens, do bem e do mal; e tudo o que diz é mentira e tudo que tem foi roubado”.

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900)
Do livro "Assim Falou Zaratustra."
Tradução: Rubens Rodrigues Torres Filho.

8 de fevereiro de 2008

JK – O Nosso JFK Que JK (Juscelino Kubitschek) foi o primeiro presidente moderno do Brasil não há dúvida – só que modernidade nem sempre significa algo bom – há muita coisa de ruim na modernidade. Pondere alguns pontos JK é o nosso JFK (John Fitzgerald Kennedy). Ou vice-e-versa. Há muita coisa em comum entre os dois, inclusive são quase contemporâneos. Até as abreviações são parecidas. Tão simpático quanto o JFK, mas não tão bonitão, ambos são considerados por uma vasta porcentagem da população dos seus respectivos países os melhores presidentes que o país teve até hoje. Na realidade foi o presidente que esbanjou a maior quantidade de dinheiro do país até hoje em um projeto não produtivo. O processo de industrialização do Brasil já havia se iniciado com a fundação da CSN e da Belgo Mineira, nos anos 40, não com o JK. E nem mesmo a indústria automobilística foi criada por JK. Todas as leis que propiciaram a formação de uma indústria automobilística com 100% de nacionalização haviam sido promulgadas durante o segundo mandato de Getúlio Vargas, e de fato, a maioria das montadoras supostamente trazidas por JK (GM, Ford, VW, Scania Vabis, Alfa-Romeo via FNM, Vemag, Mercedes Benz, Romi Isetta) já existia no Brasil, algumas inclusive já montando carros com mais de 40% de nacionalização antes de JK iniciar o seu mandato (VW desde 52 e FNM, desde 1950, especificamente). Diversas fábricas de autopeças já existiam antes de JK. E JK abraçou para si os louros que o defunto GV não podia defender como seus, pois já havia se suicidado. A grande“realização” de JK foi Brasília – sem dúvida, um dispêndio faraônico que iniciou o processo de dependência endêmico do Brasil na dívida externa, e que não trouxe benefícios para a grande maioria do povo brasileiro – embora tenha enriquecido um sem número de asseclas de JK, entre os quais o mineiro Sebastião Camargo (Camargo Correia) e diversos reizinhos do mercado imobiliário brasiliense. A aventura candanga foi em grande parte financiada com dinheiro emprestado no exterior, que não deu retorno até hoje. Brasília foi durante tanto tempo tão inútil, que até recentemente (pelo que me consta, fins da década de 80) havia mais servidores públicos federais no Rio de Janeiro do que lá. O mal de Brasília não foi tanto o fato de ter sido construída, mas sim a pressa com que foi concluída. Para um país sem recursos próprios como o Brasil, a sua construção durante um mandato de um único presidente foi loucura. Seria mais sensato construí-la em 10 a 15 anos, mas ego é ego. Óbvio, JK não queria que outro recebesse os louros da sua realização (como ele se usurpou dos louros de GV em relação à indústria automobilística, diga-se de passagem). O que o seu sucessor recebeu foi sim, um mico de $1,35 bilhões, empréstimos de curtíssimo prazo que deveriam ser pagos entre 61 e 62, o equivalente às exportações anuais do Brasil. Para piorar, a má gestão da política cambial fez com que o nível das exportações caísse, ao invés de aumentar, apesar da “pujança”. Aí se iniciou a derrocada mais séria do Brasil no campo externo, inclusive um histórico longo de relacionamento amor/ódio com o FMI. Se JK animou o povo brasileiro com a ideia de progresso, criou no exterior o estereotipo de brasileiro trambiqueiro que perdura até hoje (n’est pas un pais serieux do De Gaulle). Curiosamente, muitos que defendem com unhas e dentes o JK, culpam os militares pela questão da dívida externa e culpam FHC de ter sucateado o patrimônio do povo brasileiro. Situação ambígua e curiosa:consideram patrimônio do povo um sem número de estatais criadas durante o regime militar, assim reconhecendo o caráter de investimento com valor venal razoável. Ou seja, os militares teriam endividado o país, sim, só que fizeram investimentos que valeram realmente alguma coisa: criando empregos no país inteiro, criando empresas que hoje em dia lideram as exportações brasileiras. E o nosso querido JK? Criou o mico que é Brasília, enriqueceu alguns compadres seus, e nem mesmo a indústria automobilística, que supostamente teria criado, foi criada por ele. Não há dúvida também de que a precária situação em que JK deixou o Brasil eventualmente levou à revolução militar, ao criar um clima econômico de impossível administração. Por que o Jânio Quadros fi-lo por que qui-lo? Por que não era bobo, e sabia que a batata estouraria em suas mãos, como realmente estourou nas mãos do Jango. Será que o JK seria um melhor presidente em um segundo mandato? Pode ser que sim, pode ser que não. Já tinha construído a sua obra faraônica, e é bem possível que em um segundo mandato pudesse fazer algo de bom para o país. A verdade dói, mas tem que ser dita.
JK e o FMI
Depois de pedir uma montanha de dinheiro emprestado no exterior para construir a sua Brasília, JK, vendo que não daria para pagar os empréstimos, e procurando acumular dividendos políticos para uma futura reeleição (que nunca ocorreu) deu uma de machão perante os cliques das câmeras e acintosamente mandou o FMI às favas. Com isso foi o primeiro presidente brasileiro a usar a TV como meio de promoção. O povo adorou, só faltou canonizar o JK. Por trás das portas, JK acionou o seu Embaixador em Washington, o banqueiro mineiro Walter Moreira Salles (futuro Unibanco) para pedir desculpas, e costurar um acordozim, ganhar tempo e passar a bola pro coitado do seu sucessor, que acabou sendo Jânio Quadros. Este, um tanto idiossincrásico, mas de burro não tinha nada, caiu fora antes que Brasília explodisse e deixou a batata quentinha na mão do caudilhesco João Goulart. Este se enamorava com a URSS, e achava que poderia efetivar o calotaço sem grandes consequências. Sem dúvida, uma das grandes razões do Golpe de 64.


7 de fevereiro de 2008

O poema como ideia da poesia

Angelica Kauffmann - Alegoria Musica e Poesia
Que a finalidade
seja provocar o sentimento
das palavras,
e alcançar
o desafio da expressão,
perseguir propósitos
que se ajustam ao sentimento,
afundar-se em propósitos
até a emoção adequada,
está provado,
e tanto, provado e provado,
como não está
que nesses trânsitos
a pendência mãe seja
por onde vai a inspiração,
“se em desalento ou em entusiasmo”,
e não o está
que haja que seguir Homero
entre as Musas, sua prece para ser assistido
e Platão
saudando belos versos
mais para medíocres embora iluminados
e sagazes e hábeis exclusivamente
graças às suas próprias forças,
e Dante, ao exigir
a intervenção de deuses
talvez sem acreditar neles:
O buono Apollo, all’ultimo lavoro
fammi del tuo valor...

Mas também nenhuma
terminante prova em relação ao contrário,
que o poema
se conduza na mente como um
experimento em uma ciência natural,
e que a aptidão
combinatória da mente seja
a única inspiração reconhecível.

Alberto Girri (1919-1991)
Tradução: Fábio M. Alberti

6 de fevereiro de 2008

Atos é diferente de Sentimentos

Arthur Douet
Pode-se prometer atos, mas não sentimentos; pois estes são involuntários. Quem promete a alguém amá-lo sempre, ou sempre odiá-lo ou ser-lhe sempre fiel, promete algo que não está em seu poder; mas ele pode prometer aqueles atos que são conseqüência do amor, do ódio, da fidelidade, mas também podem nascer de outros motivos: pois caminhos e motivos diversos conduzem a um ato. A promessa de sempre amar alguém significa, portanto: enquanto eu te amar, demonstrarei com atos o meu amor; se eu não mais te amar, continuarei praticando esses mesmos atos, ainda que por outros motivos: de modo que na cabeça de nossos semelhantes permanece a ilusão de que o amor é imutável e sempre o mesmo. Portanto, prometemos a continuidade da aparência do amor quando, sem cegar a nós mesmos, juramos a alguém amor eterno.
Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900)

Jean Léon Gérôme




Jean Léon Gérôme.
Pintor e escultor.
(França, 1824-1904)

Sua arte é belíssima.
Pesquise mais aqui: ⇒ArtMagick

3 de fevereiro de 2008

O Diário de Hélène Berr

Um novo relato sobre a vida e os assassinatos de judeus nos campos de concentração nazistas
Hélène Berr é uma francesa nascida em 1921, filha de Raymond Berr, vice-presidente da empresa química Kuhlmann, dedicada à aplicação industrial de seus produtos, e de Antoinette Rodrigues-Ély. Os três morrerão no campo de concentração porque para o ocupante alemão e para as autoridades francesas colaboracionistas, antes de serem franceses eram judeus. A mãe é assassinada assim que chega a Auschwitz; o pai é morto em setembro de 1944, envenenado pelo médico que o atende na enfermaria de Auschwitz-Monowitz. Sua morte nos foi contada por David Rousset em seu impressionante "Les Jours de Notre Mort" [Os dias de nossa morte].
Hélène morre em abril de 1945 em Bergen-Belsen, depois de ter participado da chamada "marcha da morte" que a transferiu de Auschwitz para o outro campo. Não se sabe se morreu de uma surra ou de tifo. Em todo caso, foi poucos dias antes da chegada das tropas britânicas ao campo de concentração. O livro que lança agora a editora Tallandier -"Hélène Berr Journal"- é o diário que essa jovem francesa manteve entre 7 de abril de 1942 e 15 de fevereiro de 1944. São páginas que ela confiava à sua cozinheira, Andrée, com a promessa de que esta as faria chegar ao seu namorado, Jean Morawiecki, um rapaz que se envolveu na Resistência e que, como soldado, participaria do desembarque na Provence e mais tarde da liberação de campos de concentração na Alemanha.
Ela diz escrever "porque quero que entreguem a Jean estes papéis se eu não estiver aqui quando ele voltar. Não quero desaparecer sem que ele saiba tudo o que pensei durante sua ausência". Escrever adquire sua dimensão mais plena: "A única experiência da imortalidade da alma que podemos ter com segurança é a dessa imortalidade que consiste na persistência da recordação dos mortos entre os vivos". Hélène é uma garota que gosta de se divertir e flertar com os rapazes, uma boa aluna de filosofia e inglês que de repente se descobre "naked to the awaited stroke", uma frase inglesa que utiliza para referir-se à sua "nudez diante dos golpes esperados". E com efeito nada a protege: nem sua inteligência, nem sua cultura, nem sua capacidade para intuir o que se prepara. Antes de que a levem a Drancy, um campo de passagem prévio para os detidos franceses que eram enviados à Alemanha, sabe que a espera o "horror, horror, horror".
Sabe porque lê Shakespeare, porque compreende como ninguém o Joseph Conrad de "O Coração das Trevas", mas também, e principalmente, porque não deixa de falar com os que vão a Drancy, com os que viajaram pela Alemanha nazista, e porque não pode deixar de se indagar sobre o destino das crianças judias, crianças para as quais ela, clandestinamente, procura famílias que as adotem e escondam. "Os operários não-judeus que são enviados para a Alemanha vão sem mulheres nem filhos. A monstruosa impossibilidade de compreensão, a horrível falta de lógica de tudo isso tortura o espírito. Mas não há nada que refletir, pois os alemães não buscam nem razão nem utilidade. Têm um objetivo: exterminar." O diário permaneceu oculto durante muitos anos porque Hélène fala com grande liberdade sobre amigos e familiares. Além disso, nos primeiros anos após o fim da guerra, esse tipo de depoimento não encontrava nenhum eco. O livro de Primo Levi "Se Isto É um Homem" foi recusado primeiro pelas editoras e depois pelos leitores, para 20 anos mais tarde se transformar em referência obrigatória.
Neste caso, as folhas manuscritas por Hélène foram entregues pela cozinheira a seu legítimo destinatário. Este as considerou um tesouro pessoal, como uma prova de amor. Cópias mecanográficas permaneceram entre os sobreviventes da família Berr, e foi sua sobrinha Mariette Job quem entrou em contato com Jean Morawiecki em 1992. Ele vive longe da França devido a seus sucessivos destinos como diplomata profissional. Mariette o convence a lhe entregar os originais para poder restabelecer o texto em sua pureza, "em seu perfeito equilíbrio entre pensamento e emoção". Em 2002, Mariette, com o acordo dos outros membros da família Berr, doou o original ao Memorial da Shoah em Paris. Daí nasce a vontade de fazer uma edição pública do manuscrito.
Sem dúvida a publicação do "Hélène Berr Journal" não é alheia ao grande êxito obtido há três anos por "Suíte Francesa", de Irène Némirovsky, o romance póstumo de uma autora célebre em sua época e que conta, através de um caleidoscópio de personagens, o pânico dos civis diante da invasão alemã. Mas o livro de Némirovsky é uma ficção, inventa a partir do que vê, é um exercício de urgência e desespero de uma profissional da pluma. O diário de Hélène Berr compartilha desespero, época e mundo com o da russo-francesa, mas a emoção que transmite é direta, alheia a qualquer elaboração a partir de convenções literárias, como prova sua evocação do primeiro dia em que deve levar a estrela amarela costurada à roupa: "São dois aspectos da vida atual: a naturalidade, a beleza, a juventude da vida, encarnada nesta manhã transparente; a barbárie e o mal representados por essa estrela amarela".
A imprensa francesa está considerando como o grande sucesso literário de 2008, mas para nos judeus trata-se de mais uma prova dramática e contundente do que foi o horror do nazismo e o Holocausto. Acaba de ser publicado o diário de Helene Berr, uma estudante judia da Universidade parisiense de Sorbonne, que como Anne Frank, também morreu no campo de concentração de Bergen-Belsen. O diário ora publicado, abrange o período de abril de 1942 a marco de 1944, que estava guardado, desde 2002, no Museu Francês do Holocausto. Apesar de conhecido por especialistas, há muitos anos, somente agora, passados mais de 60 anos, a editora Tallandier resolveu publicá-lo.
Helene começa sua historia na Paris ocupada, num linguajar elegante e descritivo de suas caminhadas pelo Quartier Latin, nos jardins de Luxemburgo e pelo campus da Sorbonne. Em junho de 1942, ela enfrenta a primeira fissura em seu coração , quando passa a ser obrigada a usar uma estrela amarela na roupa para identificá-la como judia e obrigada a andar no ultimo vagão do metro, reservado para uso exclusivo dos segregados portadores das estrelas amarelas. Posteriormente seu pai Raymond foi preso pela Gestapo e enviado para um campo de concentração. Este episodio chocou Helene que ingressou num grupo clandestino judaico - francês que fazia a ligação entre os prisioneiros dos campos e suas famílias. Helene foi deportada de Paris em 1944 e enviada para Bergen-Belsen, onde faleceu em abril de 1944, apenas duas semanas antes da libertação do campo pelos Aliados, e um mês após a morte de Anne Frank.

2 de fevereiro de 2008

O Livro dos Abraços - Eduardo Galeano

A beleza e a emoção dos "pequenos momentos".
Tratar a memória como coisa viva, bicho inquieto: assim faz Eduardo Galeano quando escreve. Sua memória pessoal e a nossa memória coletiva, da América. Quando escreve, ele mostra que a história pode – e deve – ser contada a partir de pequenos momentos, aqueles que sacodem a alma da gente sem a grandiloquência dos heroísmos de gelo, mas com a grandeza da vida.
Assim é este "Livro dos Abraços". Em suas andanças incessantes de caçador de histórias. Galeano vai ouvindo de tudo. O que de melhor ouviu ele transforma em livros como este, onde lembra como são grandes os pequenos momentos e como eles vão se abraçando, traçando a vida.
A memória viva, diz Galeano, nasce a cada dia. Ele diz e demonstra, em livros como "As Veias Abertas da América Latina", "Dias e Noites de Amor e de Guerra", "Os Nascimentos", "As Caras e as Máscaras", "O Século do Vento" e, agora, neste "Livro dos Abraços". Nada que possa ser dito numa apresentação é capaz de chegar perto da beleza e da emoção que estas páginas contêm. Abra este livro com cuidado: ele é delicado e afiado como a própria vida. Pode afagar, pode cortar. Mas seja como for, como a própria vida, vale a pena.


Recordar é passar pelo coração.

O Livro dos Abraços de Eduardo Galeano é um livro pra nunca acabar de ler. Tenho encontrado histórias, significados e sentimentos incríveis nessas leituras.
É um livro que me acompanha nas intermináveis esperas na lavanderia (bendita lavanderia que me deixa tanto tempo para ler), no metrô, no sofá… Não consigo sair de casa sem ele. Um instante que seja é o suficiente para que seja folheado e experimentado. É uma leitura que instiga, que faz refletir, que trata da América Latina sem máscaras, que trata de histórias reais e de histórias magníficas.
É um livro construído com pequenas passagens, reflexões, histórias de viagem e de vida. É um livro que entrelaça quem lê.
E não acaba nunca porque sempre dá vontade de reler aquela parte, ou a outra, e de procurar aquela frase memorável…

Sermões - Padre Antonio Vieira

Pieter Brueghel, o Jovem
Trechos de Sermões do Pe. Antonio Vieira.
Os grandes comem os pequenos.
(…) A primeira coisa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros। Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior। Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. (…)
Pe. Antonio Vieira
(…)Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá: para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão de comer e como se hão de comer.
(…) Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos ou acusados de crimes, e olhai quantos os estão comendo. Come-o meirinho, come-o o carcereiro, come-o o escrivão, come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o inquiridor, come-o a testemunha, come-o o julgador, e ainda não está sentenciado, já está comido. São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado nem sentenciado, e já está comido.
(…) A diferença que há entre o pão e os outros comeres, é que para a carne há dias de carne, e para o peixe dias de peixe, e para as frutas diferentes meses no ano; porém o pão é comer de todos os dias, que sempre e continuadamente se come: e isto é o que padecem os pequenos. São o pão quotidiano dos grandes.

Padre Antonio Vieira em Sermão de Santo Antonio aos Peixes, pregado na cidade de São Luís do Maranhão em 1654.
As ações são as que dão o ser
(…) A definição do pregador é a vida e o exemplo. Por isso Cristo no Evangelho não o comparou ao semeador, senão ao que semeia. Reparai. Não diz Cristo: Saiu a semear o semeador, senão, saiu a semear o que semeia… Entre o semeador e o que semeia há muita diferença: uma coisa é o soldado e outra cousa o que peleja, uma coisa é o governador e outra o que governa. Da mesma maneira, uma coisa é o semeador e outra o que semeia; uma coisa é o pregador e outra o que prega. O semeador e o pregador é nome; o que semeia e o que prega é ação; e as ações são as que dão o ser ao pregador.
Trechos do Sermão da Sexagésima, pregado na Capela Real em 1655.
“Os que andastes pelo mundo, e entrastes em casas de prazer de príncipes, veríeis naqueles quadros e naquelas ruas dos jardins dois gêneros de estátuas muito diferentes, umas de mármore, outras de murta. A estátua de mármore custa muito a fazer, pela dureza e resistência da matéria; mas, depois de feita uma vez, não é necessário que lhe ponham mais a mão: sempre conserva e sustenta a mesma figura; a estátua de murta é mais fácil de formar, pela facilidade com que se dobram os ramos, mas é necessário andar sempre reformando e trabalhando nela, para que se conserve. Se deixa o jardineiro de assistir, em quatro dias sai um ramo que lhe atravessa os olhos, sai outro que lhe descompõe as orelhas, saem dois que de cinco dedos lhe fazem sete, e o que pouco antes era homem, já é uma confusão verde de murtas. Eis aqui a diferença que há entre umas nações e outras na doutrina da fé. Há umas nações naturalmente duras, tenazes e constantes, as quais dificultosamente recebem a fé e deixam os erros de seus antepassados; resistem com as armas, duvidam com o entendimento, repugnam com a vontade, cerram-se, teimam, argumentam, replicam, dão grande trabalho até se renderem; mas, uma vez rendidos, uma vez que receberam a fé, ficam nela firmes e constantes, como estátuas de mármore: não é necessário trabalhar mais com elas. Há outras nações, pelo contrário — e estas são as do Brasil —, que recebem tudo o que lhes ensinam, com grande docilidade e facilidade, sem argumentar, sem replicar, sem duvidar, sem resistir; mas são estátuas de murta que, em levantando a mão e a tesoura o jardineiro, logo perdem a nova figura, e tornam à bruteza antiga e natural, e a ser mato como dantes eram. É necessário que assista sempre a estas estátuas o mestre delas: uma vez, que lhes corte o que vicejam os olhos, para que creiam o que não veem; outra vez, que lhes cerceie o que vicejam as orelhas, para que não deem ouvidos às fábulas de seus antepassados; outra vez, que lhes decepe o que vicejam as mãos e os pés, para que se abstenham das ações e costumes bárbaros da gentilidade. E só desta maneira, trabalhando sempre contra a natureza do tronco e humor das raízes, se pode conservar nestas plantas rudes a forma não natural, e compostura dos ramos”.

Padre António Vieira (1608-1697)
Extraído do Sermão do Espírito Santo
capítulo III (1657).