26 de dezembro de 2008

Joan Miró

Joan Miró
Ontem fez 25 anos que morreu Joan Miró (Barcelona, 20 de abril de 1893 - Palma de Maiorca, 25 de dezembro de 1983).
O estilo de Miró refletia influências encontradas na pintura catalã romântica. A originalidade e força do trabalho foram suficientes para convencer os amigos e especialistas de seu talento, porém, a apatia do grande público o levou a seguir para Paris.
Miró é guiado pelo olho da imaginação, que lhe proporciona uma inesgotável abundância de imagens. O artista foi bem além da pintura. Miró imprimiu sua marca também na gravura. Parte das obras de Miro são uma espécie de parceria do mestre com outros autores. Muitos de seus trabalhos são interpretações do artista para textos poéticos de autores como Jacques Prévert e René Char. Nas palavras de Magalhães, Miró era um ilustrador diferenciado, que se articulava com os poetas a relação entre a palavra e a pintura. Não fazia ilustrações literais, mas criava o clima poético dos textos.
A relação do autor com a literatura é, aliás, uma das marcas de sua produção como gravurista. Há ilustrações criadas para um texto do poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto (1920-1999). Apesar de não ser um intelectual, Joan Miró sempre teve uma relação muito grande com os poetas e escritores. Sua relação com João Cabral de Mello Neto vêm da época em que o poeta foi cônsul do Brasil na Espanha. No período franquista, em meio ao clima de censura, o consulado brasileiro era uma ilha de liberdade. João Cabral servia como uma espécie de ponte para os artistas, trazendo livros que eram proibidos na Espanha. O poeta brasileiro estabeleceu uma relação estreita de amizade com Miró. Fez um artigo crítico sobre a obra do artista muito interessante. Esse artigo foi editado em forma de livro, contendo ilustrações do próprio Miró.

Miró segundo João Cabral
O sim contra o sim
Joan Miró - A Courtyard Scene
Miró sentia a mão direita
demasiado sábia
e que de saber tanto
já não podia inventar nada.

Quis então que desaprendesse
o muito que aprendera,
a fim de reencontrar
a linha ainda fresca da esquerda.

Pois que ela não pôde, ele pôs-se
a desenhar com esta

até que, se operando,
no braço direito ele a enxerta.
A esquerda (se não se é canhoto)
é mão sem habilidade;
reaprende a cada linha,
cada instante, a recomeçar-se.

João Cabral de Mello Neto (1888-1935)
Poesia Completa. 1940-1980
Imprensa Nacional/ Casa da Moeda, 1996.

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