30 de setembro de 2008

Sandro Botticelli (1445-1510)
Botticelli chegou à pintura por vias indiretas, dedicando-se primeiramente à ourivesaria, profissão muito estimada nos meados do séc. XV, e pela qual muitos artistas do Renascimento haviam começado sua formação. Ao longo de seu aprendizado, se distinguiu por um sentido particular das formas decorativas, um traço que é evidente em suas pinturas.
No fim da aprendizagem, mudou de planos, e com dezoito anos de idade, iniciou sua formação de pintor com Fra Filippo Lippi, um dos pintores mais célebres de Florença, e teve forte influência sobre Botticelli, que estudou cinco anos com seu mestre.
Um retratista primoroso, Botticelli frequentemente incluía em suas pinturas pessoas famosas, patronos e contemporâneos, entre figuras de santos e anjos. Ele trabalhou em Florença e Roma, onde decorou paredes da capela sistina.
Em 1482, após retornar de Roma, Botticelli entra em uma nova fase de sua carreira. Como outros artistas do círculo da academia dos Médici, trabalhava modelos clássicos para seus patronos. Para os próprios Médici, Botticelli realizou trabalhos mitológicos, inspirados na antiguidade, mas também influenciados por pensamentos neoplatônicos, incluindo suas famosas obras “A Primavera” e “O nascimento de Vênus”.
Os últimos anos de sua carreira foram afetados por uma profunda crise espiritual. Enquanto Botticelli criava suas obras mitológicas, um monge, conhecido como frei Savonarola, começava a entoar fervorosos sermões denunciando o paganismo de Florença. Muitos florentinos o apoiaram e fizeram passeatas pelas ruas, recriminando o uso de temas mitológicos. Nos anos 90, Botticelli também, em crise, renuncia seus próprios trabalhos, e num gesto dramático, queima muitas de suas telas em praça pública. Começa então, a produzir apenas pinturas religiosas, muito emocionais.
Numa estranha reviravolta do destino, Savonarola foi julgado e acusado de heresia, queimado em praça pública. Confuso, Botticelli desiste da pintura no fim de sua vida.
Quadro - A Primavera
De acordo com estudos mais recentes, esta pintura foi encontrada em 1499 no palácio citadino que Lorenzo di Pierfrancesco, um membro colateral dos Médicis, ocupava em Florença. É possível que Pierfrancesco tenha conhecido Botticelli pessoalmente, e que este tenha sido seu presente de casamento. A Primavera encontrava-se na antecâmara do quarto de Pierfrancesco, envolvida por uma moldura branca, colocada por cima de um divã, o que explica não só a exposição do tema, mas também a perspectiva muito inclinada do prado em que surgem as oito personagens da composição.
Nota-se no quadro um forte caráter decorativo, que lembra uma tapeçaria flamenca, por seus incríveis e intricados detalhes. Isso se dá por Botticelli ter tido uma formação de ourives, e suas habilidades decorativas e ornamentais foram acentuadas e trazidas para seu trabalho como pintor. Nota-se também que a figura central prende primeiramente nossa atenção, e a partir dela e ao seu redor, surgem outras figuras, aparentemente entretidas em suas próprias e independentes ações. A figura central parece controlar toda a situação, apesar de ao mesmo tempo, possuir um ar despreocupado e distante, próprio de uma deusa, que tudo sabe, porém com nada se preocupa. Sua mão está estendida num gesto de benção, como muitas vezes visto nas representações da virgem Maria ou do próprio Cristo, como na pintura “A virgem e o Menino com Seis anjos” do próprio Botticelli, na qual o menino Jesus Mostra a mão em gesto de benção.

A Mitologia
O título “A Primavera”, corresponde a uma pintura que representa e festeja a chegada da primavera. No meio de um bosque de laranjeiras, surge sobre um prado Vênus, deusa do amor e da beleza, na mitologia romana.(tida como Afrodite para os gregos, Ísis para os egípcios, e Ishtar para os babilônios, entre outros.)
Essa cena misteriosa é proveniente de um texto da antiguidade, provavelmente o dos “fastos”, que se encontra no calendário romano dos festivais, o qual devemos a Ovídeo. O poeta descreve neste texto o principio da primavera como o momento em que a ninfa Clóris se transforma em Flora, a deusa das flores: “Eu era Clóris, a quem chamam Flora” – é assim que a ninfa começa sua narrativa, enquanto algumas flores escapam de sua boca. Zéfiro, lamenta-se ela, foi arrebatado por uma paixão selvagem ao vê-la. Assim, perseguiu-a e tomou-a à força para sua mulher. Porém, se dando conta de seus atos brutais, arrependeu-se, e para recompensá-la transforma-a na deusa das flores, rainha da primavera.
O tema expresso por esses três personagens, então, simboliza a chegada da primavera, tal como descrito por Ovídeo em seu calendário. Isso explica também o porquê das roupas das duas mulheres tomarem direções diferentes; pois elas pertencem a dois momentos completamente distintos na narrativa de Ovídeo.

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