1 de setembro de 2014

Lamento

Joseph Maxwell
Depois que a colheita reuniu as espigas e molhos,
E que a estação trigueira da festa de S. Miguel
Chegou, começando a roubar às árvores as suas folhas
Que verdes tinham sido e de vigorosa frescura,
E que debruando-se de cor amarela
Morreram e caíram sob os nosso pés,
Tal mudança, enterrada no meu coração, criou raízes.

Thomas Hoccleve (1369-1426)
Tradução: Cecília Rego Pinheiro

Poema da Noite

Marc Chagall
Trouxe o sol à poesia
mas como trazê-lo ao dia?

No papel mineral
qualquer geometria
fecunda a pura flora
que o pensamento cria.

Ora, no rosto que, grave
riso súbito abria,
no andar decidido
que os longes media,

na calma segurança
de quem tudo sabia,
no contacto das coisas
que apenas coisas via,

nova espécie de sol
eu, sem contar, descobria:
não a claridade imóvel
da praia ao meio-dia,

de aérea arquitetura
ou de pura poesia:
mas o oculto calor
que as coisas todas cria.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

31 de agosto de 2014

Orquestra Oculta

John Melhuish Strudwick
Minha alma é uma orquestra oculta;
não sei que instrumentos tange e range,
cordas e harpas, timbales e tambores,
dentro de mim.
só me reconheço como sinfonia.

Bernardo Soares
(heterônimo de Fernando Pessoa)
Livro do Desassossego

Ofício

Nelly Tsenova
A minha luta é banir-me
a partir dos ossos
da ossatura dos sonhos
com seus remorsos, rebanhos
de feras subtonadas.

Banir-me a partir do corpo
onde o ego se ampara
com o porte de um porco
obeso, de banha farta.

Pois havia um destino cego
e uma carta lacrada: o ego
com que me fiz e me nego
porque não rasguei a carta.

Rasgo-a. E quanto mais rasgo
mais ela mesma se escreve.

Roberval Pereyr

30 de agosto de 2014

Ao vento de outono

Edward Dufner
Vento de outono, vento solitário,
vento da noite,
força obscura que se desprende
do infinito e volt ao infinito,
rodopia dentro de mim, conjura
contra meu coração tua força,
arranca de um vez a casca
do fruto que não madura.

Joan Vinyoli (1914-1984)
Tradução: João Cabral de Melo Neto

Rumor

Francisco Rebolo
Escuta o tempo queimando
dia e noite, noite e dia
aquela dor que doía
e agora já não dói tanto.

Escuta o tempo crestando
com sua fogueira fria
aquele jardim que havia
defronte daquele banco.

Escuta o tempo mudando
a pedra, o ar, a agonia,
tudo o que ainda resistia
com seu desespero manso.

Escuta o tempo passando
pela ampulheta vazia,
cinza solta do que havia
de ir apagando e apagando...

Bruno Tolentino (1940-2007)

29 de agosto de 2014

Deixai...

John Constable
Ai!
O grito deixa no vento
uma sombra de cipreste.

(Deixai-me neste campo
chorando.)

Tudo se perdeu no mundo.
Não ficou mais que o silêncio.

(Deixai-me neste campo
chorando.)

O horizonte sem luz
está mordido de fogueiras.

(Já vos disse que me deixeis
neste campo
chorando.)
Federico Garcia Lorca (1898-1936)

O céu, a terra, o vento ...

Manoel Santiago - Ilha do Governador
O céu, a terra, o vento sossegado...
As ondas, que se estendem pela praia...
Os peixes, que no mar o sono enfreia ...
O noturno silêncio repousado...

O pescador Aónio que, deitado
onde co vento a água meneia,
chorando, o nome amado em vão nomeia,
que não pode ser mais que nomeado:

- Ondas - dizia -, antes que Amor me mate,
torna-me a minha Ninfa, que tão cedo
me fizestes à morte estar sujeita.

Ninguém lhe fala; o mar de longe bate,
move-se brandamente o arvoredo;
leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita ...

Luís Vaz de Camões (1524-1589)

28 de agosto de 2014

Sonho

Virgílio Lopes Rodrigues - Vista do Rio
Penso que devo ter adormecido por algum tempo;
Pois quando acordei tinhas vindo e partido.
Apenas algumas flores permaneciam -
Flores que não podiam sequer dizer quem eram...
E uma fragrância vaga e suave no ar.

Esta noite tenho de sonhar um sonho mais longo
Para que as flores falem
E a sua fragrância estenda um trêmula ponte
Ente nós.
Purushottam Shivaram Rege (1910–1978)
Tradução: Cecília Rego Pinheiro

Momento

Di Cavalcanti
Na sala
mãos muito brancas
passam e repassam páginas
do livro inconsolável.
Na cabeça
o vento enorme
de todos os poemas
cristalizando-se em nada.
No tempo
a percepção da eterna
derrota
sob ressurreições infinitas.
De repente a borboleta seca
voando
voando na sala.
Oh dai-nos ao menos
esse momento úmido
de nossas mãos no vazio.
Afonso Henriques Neto

27 de agosto de 2014

Poesia 1948

Dario Mecatti - A porta de Bab el-Mansour
Este tempo
de discórdia civil
não é tempo
para poesia
e coisas assim:
escrever
algo
é como se
fosse escrito
do outro lado
dos necrológios

é por isso que
os meus poemas
são tão amargos
(e quando - de resto - não o foram?)
por isso
é que são
- sobretudo -
tão
poucos

Níkos Eggonópoulos (1910-1985)
Tradução: José Paulo Paes

Mormaço

Albert Bierstadt
Calor. E as ventarolas das palmeiras
e os leques das bananeiras
abanam devagar
inutilmente
na luz perpendicular.
Todas as coisas são mais reais, são mais humanas:
não há borboletas azuis nem rolas líricas.
Apenas as taturanas
escorrem quase líquidas
na relva que estala como um esmalte.
E longe uma última romântica
- uma araponga metálica - bate
o bico de bronze na atmosfera timpânica.

Guilherme de Almeida (1860-1969)

Chartres

Jean-Baptiste Camille Corot
Pedras, o que me espanta
Não é que tenhais resistido
Por tanto tempo a tanto vento e a neve tanta:
Pois não vos tinham construído
Para arrostar nesta colina
O inverno e o vento desabrido?

Meu espanto é que suportais,
Sem vos gastardes, nossos olhos,
Nossos olhos mortais.

Archibald Mcleish (1892-1982)
Tradução: Manuel Bandeira

O poema refere-se à Catedral de Nossa Senhora de Chartres, na França,
cujo prédio (com a forma atual) existe desde o século XIII.

26 de agosto de 2014

Espera


* 100 anos de Julio Cortázar

Lucia Sarto
Espera um dia melhorar.
Espera um dia abafar.
Estas malditas memórias.

Espera as pessoas sinceras.
Espera uma boa atmosfera.
Espera que esta quimera
Seja nesta esfera tão bela

Espera pela fêvera
Esmera suas veias
Para que brote delas
Sangue, suor, lágrimas e muita cerveja.

Julio Cortázar (1914-1984)

Madrigal

Cícero Dias
Meu amor é simples, Dora,
Como a água e o pão.

Como o céu refletido
Nas pupilas de um cão.

José Paulo Paes (1926-1998)

A canoa fantástica

Duy Huynh
Pelas sombras temerosas
Onde vai esta canoa?
Vai tripulada ou perdida?
Vai ao certo ou vai à toa?

Semelha um tronco gigante
De palmeira, que s’escoa…
No dorso da correnteza,
Como boia esta canoa!…

Mas não branqueja-lhe a vela!
N’água o remo não ressoa!
Serão fantasmas que descem
Na solitária canoa?

Que vulto é este sombrio
Gelado, imóvel, na proa?
Dir-se-ia o gênio das sombras
Do inferno sobre a canoa!…

Foi visão? Pobre criança!
À luz, que dos astros coa,
É teu, Maria, o cadáver,
Que desce nesta canoa?

Caída, pálida, branca!…
Não há quem dela se doa?!…
Vão-lhe os cabelos a rastos
Pela esteira da canoa!…

E as flores róseas dos golfos,
— Pobres flores da lagoa,
Enrolam-se em seus cabelos
E vão seguindo a canoa!…

Castro Alves (1847-1871)

25 de agosto de 2014

O preço

Di Cavalcanti
Paguei todos os preços
que pediram: para começar
nasci.

Depois fui tropeçando
sabendo e não sabendo,
vendo e não vendo,

mas o tempo todo
pagando todos os preços sobrepostos.

- E a solidão?

Acho
que paguei muito mais do que cobraram.

Álvaro Pacheco

Infidelidade

Percy Lau
Outrora ficávamos na cama
Imersos nas delícias do prazer
E jurávamos eterna fidelidade.

De repente
Tu me abandonaste.
Desde que o mundo é mundo,
Malditos sejam os homens infiéis!

Liu Yange (Séc. XIII) cantora e dançarina.

24 de agosto de 2014

Lavoisier

Di Cavalcanti - Paquetá
Na poesia,
natureza variável
das palavras,
nada se perde
ou cria,
tudo se transforma:
cada poema,
no seu perfil
incerto
e caligráfico,
já sonha
outra forma.

Carlos de Oliveira

Dasimaia

Nataraja The Cosmic dancer
Com corpo
a gente tem fome

Com corpo
a gente mente

Não zombe
não censure

de novo
por eu ter um corpo.

Tenha um corpo
você mesmo
uma vez
como eu
e veja o que acontece.

Ó Senhor.

Poetas-Santos de Xiva (Séculos X - XII)
Tradução: Décio Pignatari

23 de agosto de 2014

Sonhei Tanto a sua Figura

Raffaello Santi
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura.

Mário Cesariny (1923-2006)

O que a Musa Eterna Canta

Di Cavalcanti-Rio de Janeiro Noturno
Cesse de uma vez meu vão desejo
de que o poema sirva a todas as fomes.
Um jogador de futebol chegou mesmo a declarar:
"Tenho birra de que me chamem de intelectual,
sou um homem como todos os outros".
Ah, que sabedoria, como todos os outros,
a quem bastou descobrir:
letras eu quero é pra pedir emprego,
agradecer favores,
escrever meu nome completo.
O mais são as mal traçadas linhas.

Adélia Prado

22 de agosto de 2014

Eros, de novo, sob pálpebras sombrias

Lygia Clarck
Eros, de novo, sob pálpebras sombrias
lança-me olhares molhados
de manhas mil.
E me enreda nas malhas cerradas
da deusa da beleza.
À sua aproximação,
tremo
como um cavalo atrelado,
antes pronto a vencer,
agora hesitante
ante carros mais rápidos.


Íbico (viveu no século IV a.C.)
Tradução: Décio Pignatari

Dois em um

Raul Colon
Tem os que passam
e tudo se passa
com passos já passados

tem os que partem
de pedra ao vidro
deixam tudo partido

e tem, ainda bem,
os que deixam
a vaga impressão
de ter ficado.
Alice Ruiz

21 de agosto de 2014

Caminhando ...

Cícero Dias
Caminhando na praia
olho para trás –
nem uma só pegada.

Hosai Ozaki (1885-1926)

A estrela chorou rosa

William-Adolphe Bouguereau - Flora and Zephyr
A estrela chorou rosa ao céu de tua orelha.
O infinito rolou branco, da nuca aos rins.
O mar perolou ruivo em tua teta vermelha.
E o Homem sangrou negro o altar dos teus quadris.

Arthur Rimbaud (1854-1891)
Tradução: - Augusto de Campos

20 de agosto de 2014

Versos áureos

Anne-François-Louis Janmot
Mas como! Tudo é sensível!
Pitágoras
Oh! homem pensador, julgas que é em ti somente
Que há a razão neste mundo onde em tudo arfa a vida?
Das forças que tu tens tua vontade é servida,
Mas dos conselhos teus o universo está ausente.

Respeita no animal um espírito agente:
Cada flor é uma alma à natureza erguida;
Um mistério de amor no metal tem guarida;
"Tudo é sensível!" Tudo em teu ser é potente.

Teme, no muro cego, um olho que te espia:
Pois mesmo na matéria um verbo está sepulto...
Não a faças servir a alguma função ímpia!

No ser obscuro às vezes mora um Deus oculto,
E, como olho a nascer por pálpebras coberto,
Nas pedras cresce um puro espírito desperto!

Gérard de Nerval (1808-1855)
Tradução: Alexei Bueno