terça-feira, maio 18, 2021

Retrato

Peter Paul Rubens
Aqui um menino esquisito
Aqui um pássaro
Já não está

Trata-se de encontrá-lo
De procurá-lo
Quando ele está

Trata-se de não lhe fazer medo
Aqui um pássaro
Aqui um caracol.

Ele olha apenas para te beijar
Aliás ele não sabe o que fazer
com seus olhos

Onde pousá-los
Ele os retorce como um caipira seu gorro

Deve ir até você
E quando ele para
E se ele chega
Já não está

Aí então é vê-lo vir
E amá-lo durante a viagem.

Saint-Denys Garneau (1912-1943)
Tradução: Genival Teixeira Vasconcelos Filho

domingo, maio 16, 2021

Telha de Vidro

Frederick Richard Pickersgill
Quando a moça da cidade chegou
veio morar na fazenda,
na casa velha...
Tão velha!
Quem fez aquela casa foi o bisavô...
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha...
A moça não disse nada,
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro...
Queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade...
Agora, o quarto onde ela mora
é o quarto mais alegre da fazenda,
tão claro que, ao meio dia, aparece uma
renda de arabesco de sol nos ladrilhos
vermelhos,
que - coitados - tão velhos
só hoje é que conhecem a luz do dia...
A luz branca e fria
também se mete às vezes pelo clarão
da telha milagrosa...
Ou alguma estrela audaciosa
careteia no espelho onde a moça se penteia.
Que linda camarinha! Era tão feia!
- Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta, fria, sem um luar, sem um clarão...
Por que você não experimenta?
A moça foi tão vem sucedida...
Ponha uma telha de vidro em sua vida!

Rachel de Queiroz (1910-2003)

sábado, maio 15, 2021

Miragem em abismo

Albrecht Dürer
Não sei de que tecido é feito o ser.
meus planos sonhos enganos
se tecem na fábrica da vida
e se destecem na arquitetura do caos.
vou criando edifícios em que me
demoro
e de onde salto em busca de não sei.
meu ser é parte dessa miragem
em abismo
um espelho em que me não vejo
e em me não vendo acendo a chama
que se chama desejo.

talvez do outro lado exista um cais.
sei que sempre existe certa distância
entre mim
e o circo da minha circunstância.

Geraldo Carneiro

sexta-feira, maio 14, 2021

Ajudem-me

Preciso pagar IPTU. Sou professora aposentada de SP e o Doria está tirando (roubando) do salário dos aposentados 460 reais todo mês, desde novembro de 2020.
Portanto estou fazendo das tripas coração e não gostaria de viver na rua.

Não há milagres

Paul Fischer
Chovia desleixadamente.
Dezanove de Outubro, nove da noite.
A Joana chegava assustada à cirurgia
por nós cercada, que ficámos
na sala mal iluminada junto aos elevadores.
Dizem que ela, numa desesperada tentativa
de salvar-se, disse amo-te ao cirurgião.
Esperávamos a fada que nos devolvesse
a Joana tranquila, como sempre,
os seus olhos cintilantes de confiança.
Às onze horas, olhando pela janela,
as gotas da chuva resvalavam
pelo vidro como se fosse pela noite.
A noite era uma lâmina de gadanha.

Joan Margarit
Tradução: Miguel Filipe Mochila

quinta-feira, maio 13, 2021

Medo de escuro

ilustração de Yan Nascimbene
Era uma vez a Lua.
Ela tinha medo do escuro.
Era uma vez o Céu.
Ele também tinha medo do escuro.
A Lua pedia emprestada a luz do Sol.
Ele emprestava, às vezes.
O Céu pedia para a Lua acender.
Ela acendia quando podia.
Se o Sol estivesse de bom humor,
a Lua ganhava luminosidade em trezentos e sessenta graus.
Mas quando o mar não estava para peixes e o Sol não estava para estrelas,
não emprestava nada.
Nadinha.

E o Céu ficava escuro.
Escurinho.
A Lua sentia calafrios.
O Céu sentia solidão.
O medo da Lua era de cair e morrer no mar.
O medo do Céu era de fechar e não voltar a clarear. Um dia, Céu e Lua decidiram:
“Pra acabar com o escuro e a solidão, a gente vai se casar”.
Desde então, os dois passam o dia inteirinho
contando os minutos para o Sol se retirar.

Helena Lima

quarta-feira, maio 12, 2021

Vermeer de Delft

Johannes Vermeer

É a manhã no copo:
Tempo de decifrar o mapa
Com seus amarelos e azuis
De abrir as cortinas (o sol frio nasce
Nos ladrilhos silenciosos),
De ler uma carta perturbadora
Que veio pela galera da China:
Até que a lição do cravo
Através dos seus cristais
Restitui a inocência.

Murilo Mendes (1901-1975)

terça-feira, maio 11, 2021

De um diário de bordo

Patricia Espir
Durante muitos anos viajei.
A minha juventude foi o mar, as ilhas
estrangeiras, a noite, os álcoois
amigos na coberta, as lembranças.
Fugia. E encontrava-me no vaivém
cativo dos dias e dos anos.
Conheço o suor frio nas manhãs
nubladas do outono, no naufrágio
perpétuo do desejo e das palavras.
Mas também aquele outro mais frio
na humildade de um porto, ao chegarem
lentamente os barcos e descobrirem,
ao sol, qual uma chaga na memória,
a pátria quebrada, o coração cansado
de povos milenários que não acabam
nunca de derrotar o implacável
monstro da paixão e da pobreza,
senhor das lendas mais antigas.
Depois este mar – ah, quem poderá esgotá-lo –,
lenta herança de sal, de impuros sonhos,
sempre este mar, o mesmo sempre, o único,
abraçando tudo com suas fábulas
belas de facas, fome e deuses.
Fugia. E encontrava-me sempre em cada porto.
Durante muitos anos viajei
e não saí nunca de mim mesmo.

Vicente Valero
Tradução: Joaquim Manuel Magalhães

segunda-feira, maio 10, 2021

Andorinha

Timothy Easton
A frescura do céu baixou com a tarde calma,
Penetrou pouco a pouco os meus sentidos… Vejo
Em cada boca estuar a volúpia de um beijo,
Arder em cada corpo a chama do desejo
E um frêmito passar vibrando de alma em alma…

Voa, chilreando, louca, uma inquieta andorinha.
Cruza o céu, desce à tona azul da água apressada,
Pousa num fio telegráfico da rua.
— Dá-me um pouco de sol! Eu que não tenho nada,
Preciso de aquecer a minh’alma na tua.
Andorinha! Andorinha!
Tens em meu coração tua melhor morada…
Mas és de outro e afinal bem podias ser minha!

Olegário Mariano (1889-1958)

domingo, maio 09, 2021

Na África

François Dubois
A noite, novamente, reaparece
E sopra pela costa o rijo vento.
O vento abrasador no ocaso,
Soluça o verde mar como um lamento.

Validê tem o olhar no firmamento
Enquanto Allah recebe sua prece…
E nos seus olhos úmidos, parece,
Paira a saudade como o pensamento.

Caminha a caravana no deserto,
Sobre os negros cavalos estafados,
Sem oásis avistar distante ou perto…

E a moça relembrando o amor que sente,
O ardente pranto dos apaixonados,
Triste, derrama sobre a areia ardente!

Manoel Antônio Álvares de Azevedo Sobrinho (1870-1905)

sábado, maio 08, 2021

Relva

Vincent van Gogh - Grass
Empilhem cadáveres em Austerlitz e Waterloo
Minem a terra por baixo e deixem-me trabalhar...
Eu sou a relva; eu cubro tudo.

Ergam montanhas de corpos em Gettysburg
Elevem aos céus altas pilhas em Ypres e Verdun.
Façam a terra ceder e deixem-me trabalhar.
Dois anos, dez anos, e o forasteiro pergunta ao guia:
Que lugar é este?
Onde estamos agora?

Eu sou a relva.
Deixem-me trabalhar.

Carl Sandburg (1878-1967)
Tradução: Carlos Machado

sexta-feira, maio 07, 2021

Mal sem mudança

Winslow Homer
Da América infeliz porção mais doente,
Brasil, ao te deixar, entre a alvadia
Crepuscular espuma, eu não sabia
Dizer se ia contente ou descontente.

Já não me entendo mais. Meu subconsciente
Me serve angústia em vez de fantasia,
Medos em vez de imagens. E em sombria
Pena se faz passado o meu presente.

Ah, se me desse Deus a força antiga,
Quando eu sorria ao mal sem esperança
E mudava os soluços em cantiga!

Bem não é que a alma pede e não alcança.
Mal sem motivo é o que ora me castiga,
E ainda que dor menor, mal sem mudança.

Manuel Bandeira (1886-1968)

quinta-feira, maio 06, 2021

Pobreza

(Jean-Baptiste C. Corot)
Não descera de coluna ou pórtico,
apesar de tão velho;
nem era de pedra,
assim áspero de rugas;
nem de ferro,
embora tão negro.

Não era uma escultura,
ainda que tão nítido,
seco,
modelado em fundas pregas de pó.

Não era inventado, sonhado,
mas vivo, existente,
imóvel testemunha.

Sua voz quase imperceptível
parecia cantar – parecia rezar
e apenas suplicava.
E tinha o mundo em seus olhos de opala.

Ninguém lhe dava nada.
Não o viam? Não podiam?
Passavam. Passávamos.
Ele estava de mãos postas
e, ao pedir, abençoava.

Era um homem tão antigo
que parecia imortal.
Tão pobre
que parecia divino.font>
Cecília Meireles (1901-1964)

quarta-feira, maio 05, 2021

O Novo Coração

Michael Peter Ancher

Ando ocupado!
Ando a construir
um modelo de um coração
inteiramente
novo!

Um coração
para o futuro: com o qual sinta
e ame. Um coração
com o qual compreenda os homens:

E que me diga também quem
devo livremente
cumprimentar com a minha mão -

e a quem
nunca deverei
estendê-la.

Semyon Kirsanov (1906-1972)
Tradução: Luís Filipe Parrado

terça-feira, maio 04, 2021

A Música Suave

Eustache Le Sueur

A mísica suave
vence o amor porque nela não há
feridas: pela manhã
a mulher liga o rádio, Brahms ou Ives
ou Stravinsky ou Mozart. ferve os
ovos contando em voz alta os segundos: 56,
57, 58... descansa os ovos, os traz
para mim na cama. depois do café da manhã é
a mesma cadeira e ouvir a música
clássica. A mulher está no seu primeiro copo de
scotch e no seu terceiro cigarro. digo-lhe
que preciso ir ao hipódromo. ela
está aqui há 2 noites e 2 dias. “quando
voltarei a vê-la?” pergunto. ela
sugere que fique a meu critério.
aceno com a cabeça e Mozart toca.

Charles Bukowski (1920-1994)
Tradução: Pedro Gonzaga

segunda-feira, maio 03, 2021

Passo triste no mundo, alheio ao mundo

Patricia K. Bollinger
Passo triste no mundo, alheio ao mundo.
Passo no mundo alheio, sem o ver,
E místico, ideal e vagabundo,
Sinto erguer-se minh’Alma do profundo
Abismo do seu Ser.

Vivo de Mim, em Mim, e para Mim,
E para Deus em Mim ressuscitado,
Sou Saudade do Longe donde vim,
E sou Ânsia do Longe, em que por fim
Serei transfigurado.

Vivo de Deus, em Deus, e para Deus,
E minh’alma, sonâmbula, esquecida,
Nele fitando os tristes olhos seus,
Passa triste e sozinha, olhando os céus,
No caminho da Vida.

Fui Outro, e, Outro sendo, Outro serei;
Outro vivendo a mística beleza,
Por esta humana forma que encarnei,
Por lágrimas de sangue que chorei
Na terra da tristeza.

Espírito na Dor purificado,
Ser que passa no mundo, sem o ver,
Em esta pobre terra de pecado,
Amor divino em Deus extasiado,
O meu Ser é Não-Ser em Outro-Ser.

Armando Côrtes-Rodrigues (1891-1971)

domingo, maio 02, 2021

Solidão

Constance Marie Charpentier
Não sei porque vivo ainda
sob a razão duma vida
bem solitária e que não finda
senão comigo.

Havia, a um canto daquela sala,
uma teimosa esperança de calor.
Acabo de chegar morto de frio,
passei dias e noites sem a carícia duma fala,
sem o aroma duma flor.

E entro... mas, a velha criança que sou, já devia saber
que viria encontrar um bom fogão vazio,
no ar, aberta, a vaga sepultura dum rumor,
e no chão, uma rosa pisada a apodrecer.

Agora soam balada
que me seriam
gratas
se eu não estivesse longe e até de mim distante.
Ou se já não me esperasse,
toda a ternura lânguida
do beijo nu e mais histérico
de certa minha amante.

(É uma onda a quebrar e que eu furo,
o eco do egoísmo – até o das pedras...)

Ando agora a pensar,
em hora continuada,
que, se pensasse mais em Deus,
talvez tivesse, um dia,
a minha vida explicada!
Mas se eu mais pensar em Deus
terei de explicá-lo.

Quem nele há pouco me falou,
tentando estar com ele,
sem querer tentava revelá-lo,
e apenas para mim subia...
...talvez levado pela ave noturna
dum bem remoto velho sonho de hierarquia.

Parto amanhã de madrugada!
Minha intenção,
viva através do sono, me desperta.
Um sonho de justiça deixa-me só.
Porém, até
da tentação da glória me liberta!

Edmundo de Bettencourt (1889-1973)

sábado, maio 01, 2021

Os poetas te têm disseminado

Geraldine Arata
Os poetas te têm disseminado
(tempestade através das linhagens de todos),
mas eu quero de novo interpelar-te
no vaso que te dá tanta alegria.

Andei errante por diversos ventos;
mil vezes eras tu que me empurravas.
Tudo que encontro, eu trago;
como taça, de ti faz uso o cego;
bem fundo te escondera a criadagem
mas o mendigo te mantém na altura,
e muitas vezes junto a uma criança
boa parte de teu sentido estava...

Bem vês que eu sou alguém que anda à procura.

Alguém que atrás das mãos
anda escondido e assim feito um pastor.
(Tu podes esse olhar, que o enraivece
– o olhar dos outros – dele desviar.)
Há um que sonha coroar-te a ti
e acabará coroando a si mesmo.

Rainer Maria Rilke (1875-1926)
Tradução: Geir Campos

sexta-feira, abril 30, 2021

Valha

Giacomo Jaquerio
valha o que amo
não porque amo
mas pelo que me faz
amar

valha por si
não por mim

pelo que si
lencia

não
por meu sim.

Arnaldo Antunes

quinta-feira, abril 29, 2021

Solitude

Wassily Kandinsky
Está muito escuro, hoje; através da chuva,
a montanha deixa de ser visível. O único som
é o da chuva, arrastando a vida para debaixo da terra.
E a chuva vem com o frio.
Esta noite não haverá Lua, não haverá estrelas.

O vento levantou-se durante a noite;
fustigou o trigo toda a manhã -
parou ao meio-dia. Mas a tempestade continuou,
encharcando os campos secos, inundando-os a seguir -

A terra desapareceu.
Não há nada para ver, só a chuva
a reluzir no escuro das vidraças.
Este é o lugar de repouso, onde nada mexe -

Agora voltamos ao que éramos -
animais a viver na escuridão,
desprovidos de linguagem ou de visão -

Nada prova que estou viva.
Há apenas chuva, a chuva é infindável.

Louise Glück
Tradução: Frederico Pedreira

quarta-feira, fevereiro 17, 2021

Vero nome

Gustav
Chamarei deserto a este castelo que tu foste,
Noite à tua voz, ausência à tua face,
E quando caíres sobre a terra estéril,
Chamarei nada ao raio que te trouxe.

Morrer é um país que tu amavas. E eu venho
Eternamente por teus sombrios caminhos.
Destruo teu desejo, tua forma, tua memória,
Sou teu inimigo que não terá piedade.

Chamar-te-ei guerra e sobre ti
Tomarei as liberdades da guerra. Terei então
Em minhas mãos o teu rosto, obscuro e traspassado,
E em meu coração o país que acende a tempestade.

Da crepitação noturna de uma terra supliciada,
Necessita a luz para surgir
E é de bosques tenebrosos que a flama salta.
O próprio verbo sonha a essência,
Uma plácida margem além do canto.

Para que vivas, precisarás transpor a morte.
A mais imácula presença é um sangue entornado.
Yves Bonnefoy (1923-2016)
Tradução: Lenilde Freitas

terça-feira, fevereiro 16, 2021

XXIV

Tan Tolga Demirci
Quem se levanta na ponta dos pés
não tem firmeza.
Quem anda com as pernas abertas
não pode avançar.
Quem quer aparecer
não será iluminado.
Quem quer ser famoso
não será magnífico.
Quem se enaltece
não realizará obras.
Quem se vangloria de si mesmo
não será exaltado.
Para o Tao, ele será como restos de comida
e tumor purulento.
E todas as criaturas igualmente o detestam.
Por isso quem tiver o Tao
afasta-se desses caminhos.

Lao-Tzu (604-531 a.C.)
Tradução: Margit Martincic

segunda-feira, fevereiro 15, 2021

Coro final

Paula Rego
Não persigais de mais a injustiça.
Que em breve, por si só, ela se escoa.
Pensai na escuridão, no grande frio
Deste vale que de lágrimas ecoa.

Bertolt Brecht (1898-1956)
Tradução: Paulo Quintela

sexta-feira, fevereiro 12, 2021

Sintaxe

Olumide Egunlae
Aonde a planície já não tiver um sentido
e os campos forem já só o horizonte
aí o teu vestido há-de ser cor esmaecido
e sobre ti a minha fronte.
Por te sobre os joelhos uma flor rubra
por te no lugar das pernas o mais amor que me houver
aí onde a flor deixa o pólen
aí o sémen mulher.
Por te sobre o sémen o gemido do teu ato
por te sobre o gemido
a planície sem sentido
aí o teu vestido há-de ser cor esmaecido
por te sobre as pernas me dilato.

António Gancho (1940-2005)

quinta-feira, fevereiro 11, 2021

Viajar

William Powell Frith
Ia viajar!… Viajei. Trinta e quatro vezes, à, pressa, bufando, com todo o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia, num vagão, envolto em poeirada e fumo, sufocado, a arquejar, a escorrer de suor, saltando em cada estação para sorver desesperadamente limonadas mornas que me escangalhavam a entranha. Catorze vezes subi derreadamente, atrás de um criado, a escadaria desconhecida de um hotel; e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma cama desconhecida, donde me erguia, estremunhado, para pedir em línguas desconhecidas um café com leite que me sabia a fava, um banho de tina que me cheirava a lodo. Oito vezes travei bulhas abomináveis na rua com cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapeleira, quinze lenços, três ceroulas, e duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do pé direito. Em mais de trinta mesas redondas esperei tristonhamente que me chegasse o boeuf-à-la-mode, já frio, com molho coalhado – e que o copeiro me trouxesse a garrafa de Bordéus que eu provava e repelia com desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos mármores, com pé respeitoso e abafado, vinte e nove catedrais. Trilhei molemente, com uma dor surda na nuca, em catorze museus, cento e quarenta salas revestidas até aos tetos de Cristos, heróis, santos, ninfas, princesas, batalhas, arquiteturas, verduras, nudezas, sombrias manchas de betume, tristezas das formas imóveis! E o dia mais doce foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, encontrei um velho inglês de penca flamejante que habitara o Porto… Gastei seis mil francos Tinha viajado.
Eça de Queirós (1845-1900)