19 de setembro de 2014

Roda da criação

Leonardo da Vinci
“Nesta vasta Roda da criação onde vivem e morrem todas as coisas, vagueia a alma humana como um cisne voando sem sossego, e ela pensa que Deus está longe. Mas quando o amor de Deus desce até ela, então encontra a sua vida imortal”.
Upanishad

Soneto de Fidelidade

Victor Schtember
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinícius de Moraes (1913-1980)

18 de setembro de 2014

Humano

Priscila e Maxwell Palheta - Eros e Psique
“A alma se desespera,
mas o corpo é humilde;
ainda que demore,
mesmo que não coma,
dorme”.

[Adélia Prado]

Sonetilho de verão

Lygia Clarck
Traído pelas palavras.
O mundo não tem conserto.
Meu coração se agonia.
Minha alma se escalavra.
Meu corpo não liga não.
A ideia resiste ao verso,
o verso recusa a rima,
a rima afronta a razão
e a razão desatina.
Desejo manda lembranças.

O poema não deu certo.
A vida não deu em nada.
Não há deus. Não há esperança.
Amanhã deve dar praia.

Paulo Henriques Britto

O que se escuta numa velha caixa de música

Carolus Duran
Nunca roubei um beijo. O beijo dá-se,
ou permuta-se, mas naturalmente.
Em seu sabor seria diferente
se, em vez de ser trocado, se furtasse.

Todo beijo de amor, longo ou fugace,
deve ser um prazer que a ambos contente.
Quando, encantado, o coração consente,
beija-se a boca, não se beija a face.

Não toquemos na flor maravilhosa,
seja qual for a sedução do ensejo,
vendo-a ofertar-se, fácil e formosa.

Como os árabes, loucos de desejo,
amemos a roseira, olhando a rosa,
roubemos a mulher e não o beijo.

Martins Fontes (1884-1937)

17 de setembro de 2014

Cantares de Perdas e Predileção

Que é isto que aperta meu peito?
Minha alma quer sair para o infinito ou
a alma do mundo quer entrar em meu coração?

Tagore
Dmitriy Kalyuzhny
Barcas
Carregando a vida
Descendo as águas.
Passam pesadas
Distantes do poeta e de sua caminhada.

Barcas
Inundadas de afago
Nas águas da meiguice.
O fulgor dos cascos
Ilumina o dorso dos afogados:
Eu soterrada
Em aguaduras escuras da velhice.

Barca é o teu nome.
E passas.
Candente, clara
Navegas tua última viagem
Sobre o meu corpo molhado de palavras.

Hilda Hilst (1930-2004)

Branco

Henri Rousseau
Para um afogado:
esta folha, como se
feita ao mar
em garrafa.

Para que
ainda enquanto o céu embarca
no ver-a-terra, um eco
da terra
possa singrar para ele,
cheio de lembrança da chuva,
e o som da chuva
caindo na água.

Para que
possa aprender,
malgrado a vaga
que ora naufraga do cimo
dos montes, que quarenta dias
e quarenta noites
não nos trouxeram a pomba
de volta.

Paul Auster
Tradução: Caetano W. Galindo

16 de setembro de 2014

Cantiga

Silvestro Lega
Pensamento, pensamento,
mais veloz que um pé de vento
mais sonhador que um detento
mais duro que um sofrimento
mais forte que um juramento
mais feroz e violento
que o pranto de um sentimento.
Pensamento, pensamento,
cadê forças, onde o alento,
para tirar um momento
a amada do pensamento?

Jair Amorim (1915-1993)

Eu sou trezentos

em Quadro de Lasar Segall
Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

Abraço no meu leito as melhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis,
nas camarinhas seus próprios [beijos]!

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.

Mário de Andrade (1892-1945)

15 de setembro de 2014

A fumaça

Maximilian Lenz
A pequena casa entre as árvores no lago.
Do telhado sobe fumaça.
Sem ela
Quão tristes seriam
Casa, árvores e lago.

Bertolt Brecht(1898-1956)
Tradução: Paulo César de Souza

A invenção da solidão

Photography Peter Beck
“Uma coisa é um homem, por engano, dirigir seu carro para a casa antiga, mas é algo bem diferente, eu creio, ele não reparar que as coisas mudaram dentro da casa. Mesmo a mente mais cansada ou distraída preserva um reduto de reações puras, animais, e consegue transmitir ao corpo a sensação do local onde está. Seria preciso estar quase inconsciente para não enxergar, ou pelo menos não sentir, que a casa já não era a mesma de antes. "O hábito", como diz um dos personagens de Beckett, é um grande entorpecente. E se a mente é incapaz de reagir diante de uma evidência física, o que fará ao se confrontar com uma evidência emocional?”.
Paul Auster

14 de setembro de 2014

Não há guarda-chuva ...

Marc Taylor
Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo num canteiro.
Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.
Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.
Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.
Não há guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

A Voz do Silêncio

Lori MacNamara
E então ao ouvido interior
falará a voz do silêncio. E ela dirá:
Se tua alma sorri
ao banhar-se ao sol de tua vida;
se tua alma canta,
dentro da sua crisálida de carne e de matéria;...
se tua alma chora,
dentro do seu castelo de ilusão;
se tua alma se esforça
por quebrar o fio de prata
que a liga ao Mestre;
sabe, ó discípulo,
que a tua alma é da terra.

Helena Blavatsky (1831-1891)
Tradução - Fernando Pessoa

13 de setembro de 2014

Eu trouxe à Arte

Louis Justin Maurice Perrey
Ponho-me a meditar. ➸ Desejos e sensações.
eu trouxe à Arte - ➸ certas coisas entrevistas,
rostos ou linhas; ➸ de amores incompletos
algumas lembranças indefinidas. ➸ Que eu me entregue à Ela,
que sabe configurar ➸ o Semblante da Beleza.
quase imperceptivelmente ➸ completando a vida,
associando impressões, ➸ associando os dias.

Konstantinos Kaváfis (1863-1933)
Tradução: Ísis Borges da Fonseca

Um azul para o povo

Photography Anthony Dunn
“Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas recordava-lhe sempre o destino dos amores contrariados. O doutor Juvenal Urbino sentiu-o assim que entrou na casa, ainda mergulhada em penumbra, onde fora de urgência para tratar um caso que, para ele, já tinha deixado de ser urgente há muitos anos. O refugiado antilhano, inválido de guerra, fotógrafo de crianças e o seu mais tolerante adversário de xadrez, tinha-se posto a salvo das inquietações da memória com um defumador de cianeto de ouro”.
Gabriel García Márquez (1927-2014)
(O Amor nos Tempos do Cólera)


12 de setembro de 2014

Escuna

Carol Leigh
Doce roteiro
Aquele em que navego
Tripulante
Da escuna leve de teu corpo

A me envolver na espuma
Flutuante
Ondulante
De um prazer sem fim.

Antonio José Giacomazzi (1941-2010)

Atrito

Jean Tatton Jones
Com minha fome de lobo
amaino
meu corpo de cordeiro

Sou como
a barca ínfima
e o libidinoso oceano.

Giuseppe Ungaretti (1888-1970)
Tradução de Ângelo Luis

11 de setembro de 2014

Barulho

Georges Barbier
Todo poema é feito de ar
apenas:
a mão do poeta não rasga a madeira
não fere
o metal
a pedra
não tinge de azul
os dedos
quando escreve manhã
ou brisa
ou blusa
de mulher.
O poema
é sem matéria palpável
tudo
o que há nele
é barulho
quando rumoreja
ao sopro da leitura.

Ferreira Gullar

Primeira Meditação

Karen Koski
És a única árvore no mundo que recusa
crescer em direção à luz. Em vez disso enterras-te
com raízes cada vez mais profundas,
camada de terra após camada, tempo passado,
rumo ao calor, e calculas já estar a meio caminho.
Depressa deixas de sentir as toupeiras, minhocas
ou raízes de outros seres, tetra-cego das cavernas
na sua noite infinita. O frio é cada vez maior.
Não sabes se consegues crescer a distância necessária
para encontrares o magma. Estás só, mas a caminho.

Ingmar Heytze
Tradução: Maria Leonor Raven-Gomes

10 de setembro de 2014

O Gitânjali - (Canto 1)

Phoebe Anna Traquair
Fizeste-me sem fim, pois esse é o teu prazer.
Vives esgotando esta taça frágil e enchendo-a
sempre de vida fresca.
Levaste por montes e vales esta flauta pequena de cana,
e soprando-a atravessaste de melodias sempre novas.
Ao toque imortal de tuas mãos, meu pequeno
coração esquece os limites da alegria e
cria inexprimíveis expressões.
Teus dons infindos vêm a mim apenas
sobre estas minhas tão exíguas mãos.
Passam os tempos, vais vertendo sempre,
e vai havendo sempre o que encher.

Rabindranath Tagore (1861-1941)
Tradução: Guilherme de Almeida

Grão de mostarda

Paul Colangelo
Grão de mostarda é o meu espírito;
Tu, és o sol e atravessa-o com tua Luz.
Que ele cresça assim, em medida semelhante à de Deus,
num arrebatamento pleno de júbilo!

Angelus Silesius (1624-1667)

9 de setembro de 2014

A Noite Bela

Manfred von Pentz
Que canto levantou-se esta noite
que entretece
com o cristalino eco do coração
as estrelas

Que festa vernal
de coração em núpcias

Fui
um charco de trevas

Hoje mordo
como uma criança a teta
o espaço
Hoje estou bêbado
de universo.

Giuseppe Ungaretti (1888-1970)
Tradução: Geraldo Holanda Cavalcanti

Lembra corpo

William-Adolphe Bouguereau
Corpo, lembra não só quanto foste amado,
não somente os leitos em que deitaste,
mas também aqueles desejos que por ti
brilhavam nos olhos claramente,
e que tremiam na voz – e que algum
obstáculo fortuito frustrou.
Agora que tudo já está no passado,
parece, quase, que àqueles desejos também
tu te entregaste – como eles brilhavam,
lembra, nos olhos que te contemplavam;
como tremiam na voz, por ti, lembra, corpo.

Konstantinos Kaváfis (1863-1933)
Tradução: Ísis Borges da Fonseca

8 de setembro de 2014

Solidariedade

Nelly Tsenova
Sou ligado pela herança do espírito e do sangue
Ao mártir, ao assassino, ao anarquista,
Sou ligado
Aos casais na terra e no ar,
Ao vendeiro da esquina,
Ao padre, ao mendigo,
À mulher da vida,
Ao mecânico, ao poeta, ao soldado,
Ao santo e ao demônio,
Construídos à minha imagem e semelhança.

Murilo Mendes (1901-1975)

Coragem

Antoine-Auguste-Ernest Hebert
“É a esta força que mantém sempre
a opinião justa e legítima
sobre o que é necessário temer e não temer,
que chamo e defino coragem”.

Platão (428-348 a.C)

7 de setembro de 2014

Cogito

Evgeny Kouznetsov
Eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

Torquato Neto (1944-1972)