23 de julho de 2016

Fome do Absoluto

Joan Miró
A Terra você sabe é redonda mas parece chata.

Você não pode confiar
nos sentidos.

Você pensa que já viu todo tipo de criatura
porém não

esta criatura.

Quando o conheci, sabia que

me havia desmamado de Deus, não
da fome do absoluto. Ó boca

insaciável pronunciando o que é e deve
permanecer inapreensível —

dizendo Você não é finito. Você não é finito.

Frank Bidart
Tradução: Carlos Machado

As Evidências

John William Godward
Desta vergonha de existir ouvindo,
Amordaçado, as vãs palavras belas,
Por repetidas quanto mais traindo
Tornadas vácuas da beleza delas;

Desta vergonha de viver mentindo
Só porque escuto o que dizeis com elas;
Desta vergonha de assistir medindo
Por elas as injúrias por trás delas

Ao mesmo sangue com que foram feitas,
Ao suor e ao sêmen por que são eleitas
E à simples morte de chegar-se ao fim;

Desta vergonha inominável grito
A própria vida com que às coisas fito:
Calai-vos, ímpios, que jurais por mim!

Jorge de Sena (1919-1978)

22 de julho de 2016

Cantiga do Campo

Jean-Francois Millet
Por que andas tu mal comigo
Ó minha doce trigueira?
Quem me dera ser o trigo
Que, andando, pisas na eira!

Quando entre as mais raparigas
Vais cantando entre as searas,
Eu choro ao ouvir-te as cantigas
Que cantas nas noites claras!

Os que andam na descamisa
Gabam a viola tua,
Que, às vezes, ouço na brisa
Pelos serenos da lua.

E falam com tristes vozes
Do teu amor singular
Àquela casa onde cozes,
Com varanda para o mar.

Por isso nada me medra,
Ando curvado e sombrio!
Quem me dera ser a pedra
Em que tu lavas no rio!

E andar contigo, ó meu pomo
Exposto às chuvas e aos sois!
E uma noite morrer como
Se morrem os rouxinóis!

Morrer chorando, num choro
Que mais as magoas consola,
Levando só o tesouro
Da nossa triste viola!

Por que andas tu mal comigo?
Ó minha doce trigueira?
Quem me dera ser o trigo
Que, andando, pisas na eira!
António Gomes Leal (1848-1921)

Fezada

Alexandre Reider
Eu vi a Cristo num país de assombro
onde rapazes proclamam alto Teu nome,
boca alta, sem nenhum atavio,
que os leve a jogar ao esconde-esconde.
Eu vi e fiquei pávido, pasmado,
como ancorado num cais um navio novo
e dei comigo a cantar – Louvo-te Senhor,
neste meu país, Portugal de assombro,
com os três rapazes que Daniel cantou,
afagando ele a boca aos leões.
E agora procuro-os, penso neles,
a coisa mais natural do mundo
e desafio a que me procurem onde
Jesus andou com as criancinhas, os pobres
e os privados do seu Nome.

Ruy Cinatti (1915-1986)

21 de julho de 2016

80 anos de Literatura

Auger Lucas
2016: 80 anos na Literatura
Autor
Título do Livro
Editora
Gilberto Freyre
Sobrados e Mucambos
Cia Editora Nacional
Sérgio Buarque de Holanda
Raízes do Brasil
Editora José Olympio
Érico Veríssimo
Um Lugar ao Sol
Editora Globo
Monteiro Lobato
Dom Quixote das Crianças
Cia Editora Nacional
Monteiro Lobato
Memórias da Emília
Cia Editora Nacional

Que é viver?

Konstantin Razumov
Viver?...é repelir constantemente para longe de nós tudo aquilo que deseja morrer. Viver?...É ser cruel, impiedoso para tudo que envelhece e enfraquece em nós e mesmo além.
Viver...é portanto não ter piedade dos moribundos, dos velhos e dos miseráveis? Contudo, o velho Moisés disse: “Não matarás”.
Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900),
in "A Gaia Ciência"
Tradução: Márcio Pugilesi, Edson Bini e Norberto de Paula Lima

Olha-me!

Gaetano Previati
Olha-me! O teu olhar sereno e brando
Entra-me o peito, como um largo rio
De ondas de ouro e de luz, límpido, entrando
O ermo de um bosque tenebroso e frio.
Fala-me! Em grupos doudejantes, quando
Falas, por noites cálidas de estio,
As estrelas acendem-se, radiando,
Altas, semeadas pelo céu sombrio.
Olha-me assim! Fala-me assim! De pranto
Agora, agora de ternura cheia,
Abre em chispas de fogo essa pupila...
E enquanto eu ardo em sua luz, enquanto
Em seu fulgor me abraso, uma sereia
Soluce e cante nessa voz tranquila!

Olavo Bilac (1865-1918)

20 de julho de 2016

Filosofia do Amor

Francesco Albani
As fontes se unem com o rio,
e esses rios ao Mar caminham,
os ventos pelos Céus, com brio,
uns nos outros se aninham;
nada está no mundo a sós;
num só espírito, dita o Céu,
tudo encontra a foz.
Por que não eu e o teu?

Os montes beijam nuvens sem chão,
e cingem-se as ondas também;
condena-se a flor-irmã que, do irmão,
vier a ter desdém;
e o raio de sol cinge o vale,
e o luar vem beijar os mares:
de que tudo então me vale
se não me beijares?

Percy Bysshe Shelley (1792-1822)
Tradução: Adriano Scandolara

A Piaf

Edit Piaf (1915-1963)
Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do “Ça irá”,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exatamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram, mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.

Jorge de Sena (1919-1978)

19 de julho de 2016

Getirana

Edmund Dulac
Por conselhos de um cônego abade
Dous maridos na cova soquei;
E depois por amores de um frade
Ao suplício o abade arrastei.

Os amantes, a quem despojei,
Conduzi das desgraças ao cúmulo,
E alguns filhos, por artes que sei,
Me caíram do ventre no túmulo.

Bernardo Guimarães (1825-1884)

Afterglow

Charles West Cope
O ocaso é sempre comovente
por mais pobre ou berrante que seja,
porém mais comovente ainda
é o fulgor desesperado e final
que enferruja a planície
quando o último sol mergulhou.
É doloroso manter essa luz tensa e diversa,
essa alucinação que impõe ao espaço
o medo unânime da sombra
e cessa de repente
quando notamos sua falsidade,
como cessam os sonhos
quando sabemos que sonhamos.

Jorge Luis Borges (1899-1986)

18 de julho de 2016

Retrato Proletário

Giuseppe Pellizza
Mulher jovem corpulenta sem chapéu
de avental.

Cabelo puxado para trás parada
na rua.

A ponta do pé descalço
tocando a calçada.

Sapato na mão. Olhando-
o atentamente.

Retira a palmilha de cartão
para achar o prego.

Que a estava machucando.

William Carlos Williams (1883-1963)
Tradução: José Paulo Paes

Uma espécie de Canção

Mysterious Park
Que a cobra fique à espera sob
suas ervas daninhas
e que a escrita se faça
de palavras, lentas e prontas, rápidas
no ataque, quietas na tocaia,
sem jamais dormir.

– pela metáfora reconciliar
as pessoas e as pedras.
Compor (Ideias só nas coisas)
Inventar! Saxífraga é a minha flor que fende
as rochas.

William Carlos Williams (1883-1963)
Tradução: José Paulo Paes

17 de julho de 2016

Madrugada

Elissa Gore
Rápidas mãos frias
retiram uma a uma
as vendas da sombra
Abro os olhos
Ainda
estou vivo
No centro
de uma ferida ainda fresca.

Octavio Paz (1914-1998)
Tradução: José Bento

Quantas noites

Vincent Van Gogh
Ó espírito Criador, que fizeste
o sol e as estrelas,
quantas noites o terror
não me prostrou na cama

e na manhã seguinte
caminhei pelo mundo gelado
ouvindo respirações calmas
sob o crepitar da neve...
serpente,
urso, minhoca, formiga...
e sobre mim
o crocitar de um corvo
pousado no galho antes silente
de toda a minha vida.

Galway Kinnel (1927-2014)
Tradução: Lêdo Ivo

16 de julho de 2016

Acalanto para Deus Menino

Drazenka Kimpel
Pois meu Deus nasceu para penar,
Deixem-no velar.
Pois está desvelado por mim,
Deixem-no dormir.
Deixem-no velar:
Não há pena em quem ama,
Como não penar.
Deixem-no dormir:
Sono é ensaio da morte
Que um dia há de vir.
Silêncio, que dorme.
Cuidado, que vela.
Não o despertem, não.
Sim, despertem-no, sim.
Deixem-no velar.
Deixem-no dormir.

Sóror Juana Inés de la Cruz (1648-1695)
Tradução: Manuel Bandeira

Doce Tormento

Lord Frederick Leighton
O mal que venho sofrendo
E que em meu peito se lê,
Sei que o sinto, mas porque
O sinto é que não entendo.
Sinto uma grave agonia
No sonhar em que me vejo:
Sonho que nasce em desejo
E acaba em melancolia.

Quando com maior fraqueza
O meu estado deploro,
Sei que estou bem triste, e ignoro
A causa de tal tristeza.

Sinto um desejo nefasto
Pelo objeto ao qual aspiro;
Mas quando de perto o miro,
Eu mesma é que a mão afasto.

Penso mal do mesmo bem
Com receoso temor
E às vezes o mesmo amor
Me obriga a mostrar desdém.

Com pouca causa ofendida,
Costumo, com meio amor,
Negar um leve favor
A quem eu daria a vida.

Já paciente, já irritada,
Vacilo em penar agudo:
Por ele sofrerei tudo,
Tudo; mas com ele, nada.

Ao que pelo objeto amado
Meu coração não se atreve?
Por ele, o pesado é leve;
Sem ele, o leve é pesado.

Quando o desengano toco,
Luto com o mesmo quebranto
De ver que padeço tanto,
Padecendo por tão pouco.

No tormento em que me vejo,
Levada de meu engano,
Busco sempre o desengano,
E não acha-lo desejo.

Se a alguém meu queixume exalo,
Mais a dizê-lo me obriga
Para que mo contradiga
Do que para reforçá-lo.

Pois e, com minha paixão,
Daquele que amo maldigo,
É meu maior inimigo
Quem nisso me dá razão.

Se acaso me contradigo
Neste meu arrazoado,
Vós que tiverdes amado
Entendereis o que digo.

Sóror Juana Inés de la Cruz (1648-1695)
Tradução: Manuel Bandeira

15 de julho de 2016

Pássaros ao sol

Jon Barker
Passam revoando, como flores, sombras
Indizíveis. Um astro amante faz
Tão loura a minha mão! Oh sangue rico
Como o mel! Eis de súbito uma delas
Em direção à terra, a uma menina,
Dobra com doce curva... Um improviso
Grito, e infantil, ergue-se não sei donde,
E a alma convida a tranquila frescura.

Aldo Capasso (1909-1997)
Tradução: Manuel Bandeira

Chartres

Jean Baptiste Camille Corot - Chartres Cathedral
Pedras, o que me espanta
Não é que tenhais resistido
Por tanto tempo a tanto vento e a neve tanta:
Pois não vos tinham construído
Para arrostar nesta colina
O inverno e o vento desabrido?

Meu espanto é que suportais,
Sem vos gastardes, nossos olhos,
Nossos olhos mortais.

Archibald MacLeish (1892-1982)
Tradução: Manuel Bandeira

14 de julho de 2016

Janela

Georg Friedrich Kersting
Não és tu nossa geometria,
janela, tão simples forma
que sem esforço delimita
nossa vida enorme?

Aquela a quem se ama nunca é tão bela
como quando a vemos surgir
enquadrada por ti; é que, ó janela,
tu a tornas quase eterna.

Todos os acasos são abolidos. O ser
permanece no meio do amor,
com este pouco espaço ao redor
do qual se é senhor.

Rainer Maria Rilke (1875-1926)
Tradução: Carlos R. Monteiro de Andrade

Soneto XXV

Paul Sérusier
Pisei o pó de todas as estradas,
— Olhos rasos de sonho e imensidade, —
Em busca dessa esplêndida Verdade,
Que descansa em paragens ignoradas.

Mas do fulgor das místicas jornadas,
Em que pus minha fé, minha ansiedade,
Restam apenas fumos de saudade
E um turbilhão de sombras espantadas!

E, agora, neste cerro, onde Jesus
Me vem falar do Céu e onde eu quisera
Dormir, enfim, o sono perenal;

Vejo, na espuma alvíssima da Luz,
Reaparecer, ao longe, uma quimera,
Que ressuscita ainda por meu mal!

Mário Beirão (1892-1965)

13 de julho de 2016

Estou muito cansada

Rupert Bunny
Na noite, ao longe, minha janela se inclina.
Sobre os telhados, as nuvens, ramos de flor fina;
a brisa me afaga, bondosa e delicada.
Eu, porém, mantenho as mãos fechadas,
pois estou cansada
e escuto, admirada, alados sons de passos,
das pessoas, na rua, a passar. Seus braços
e pés, parecem-lhe tão leves. Somente eu
me deito, em meu grande cansaço acamada.
Às vezes ouço o som de um passo como o teu,
e então, amado, como a música dos passos, leve fico eu,
como as nuvens sobre os telhados – ramo de flor prateada.

Maria Luise Weissmann (1899-1929)
Tradução: Gabriel Rübinger-Betti

Percursos

George Henry Boughton
Devo seguir, todo o dia, a te procurar,
que o presságio de te circundar me sustenta
com tua segurança, que a luzir me alenta:
um cacto, fulgor de ouro, ave a cantar,

violino e neve, que uma vez te miraram,
bandeiras de brilhantes cidades e o vento.
Acaso morres quando o sol se extingue lento?
É teu o grito dessas crianças que brincaram?

Vagueio nos tufões, pelo cristal do mar,
– um perfume, talvez, traz a tua lembrança –
nas aleias escuras, e a tanto lugar.

Maria Luise Weissmann (1899-1929)
Tradução: Gabriel Rübinger-Betti

10 de julho de 2016

Incerto

Emile Bernard
Choro, choro por mim! Uma saudade
E um longo adeus abraçam-se comigo;
Triste espectro da Ausência, eu não consigo
Volver à minha torva humanidade!

Creio ser luz no sonho que me invade:
Acordo em sombras e, entre sombras, sigo…
Oh duro, crudelíssimo castigo
De quem busca nos sonhos a verdade!

Em certa hora triste, a Noite veio,
E, doida, me levou; ainda sinto
O seu beijo de treva e o meu enleio!

Desfeito em sombra, evoco o sol extinto:
Mas — ai de mim! — escuridões tateio,
Perdido no meu próprio labirinto!

Mário Beirão (1892-1965)