18 de janeiro de 2018

Discurso na seção de achados e perdidos

Evelyn Pickering De Morgan – Aurora "Deusa do Amanhecer".
Perdi algumas deusas no caminho do sul ao norte,
e também muitos deuses no caminho do oriente ao ocidente.
Extinguiram-se para sempre umas estrelas, abra-se o céu.
Uma ilha, depois outra mergulhou no mar.
Nem sei direito onde deixei minhas garras,
quem veste meu traje de pelo, quem habita minha casca.
Morreram meus irmãos quando rastejei para a terra,
e somente certo ossinho celebra em mim este aniversário.
Eu saía da minha pele, desbaratava vértebras e pernas,
perdia a cabeça muitas e muitas vezes.
Faz muito que fechei meu terceiro olho para isso tudo.
Lavei as barbatanas, encolhi os galhos.

Dividiu-se, desapareceu, aos quatro ventos se espalhou.
Surpreende-me quão pouco de mim ficou:
uma pessoa singular, na espécie humana de passagem.
Wisława Szymborska (1923-2012)
Tradução: Regina Przybycien

16 de janeiro de 2018

Canção

Edvard Munch
Em minha sepultura,
Ó meu amor, não plantes
Nem cipreste nem rosas;
Nem tristemente cantes.
Sê como a erva dos túmulos
Que o orvalho umedece.
E se quiseres, lembra-te;
Se quiseres, esquece.

Eu não verei as sombras
Quando a tarde baixar;
Não ouvirei de noite
O rouxinol cantar.
Sonhando em meu crepúsculo,
Sem sentir, sem sofrer,
Talvez possa lembrar-me,
Talvez possa esquecer.

Christina Rossetti (1830-1894)
Tradução: Manuel Bandeira

13 de janeiro de 2018

Vademecum

Ferdinand Georg Waldmüller
Atraem-te o meu modo e a minha língua?
Segues-me? Vens atrás de mim?
Segue fiel atrás de ti mesmo: –
Assim me seguirás – devagar! devagar!

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900)
Tradução: Paulo Quintela

10 de janeiro de 2018

Quando os dias se movem

John William Waterhouse
Usamos nalgumas coisas uma violência simples
isso é romper os símbolos que envidraçam o resto
mas parte quem amamos quando os dias se movem
se escolheu os limites para a pele aderir

No fundo de nós mesmos omitem-se tais coisas
e criam-se ficções, defesas, crueldades
dos jogos da aparência (à vista nos perdemos)
e movem-se nos dias seus múltiplos contrários

E contudo se movem se quem amamos fere
e o faz de razão fria ou esquecidamente
e a alegria se torna um torpe imaginários
quem muito amamos mata: vai-nos desinventando.

Vasco Graça Moura (1942-2014)

8 de janeiro de 2018

Viajar! Perder países!

William Powell
Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!

Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E da ânsia de o conseguir!

Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.


Fernando Pessoa (1888-1935)

6 de janeiro de 2018

A Adoração dos Magos

Pieter Bruegel - A Adoração dos Reis
Vendo surgir a súbitas, no oriente,
Luz de formosa estrela nunca vista,
Os três Magos convieram: “Para a frente!
A voz enfim cumpriu-se do Salmista!”

Partiram. Dá-lhes rumo o astro, e com a vista
Ao céu voltada, no deserto ardente
Caminham, sem saber onde imprevista
A casa surgirá, do Deus vivente.

Jerusalém! Aos místicos clarões.
Eis Belém de Judá, a humilde gruta,
A Mãe, que o Filho ao colo traz suspenso...

E ali onde o adoraram os pastores.
Agora os Reis: já derredor se escuta
O hino da oferta de ouro e mirra e incenso...

Aloísio de Castro (1881-1959)
Tradução: Jamil Almansur

3 de janeiro de 2018

Chove

Chove uma grossa chuva inesperada
que a tarde não pediu, mas agradece.
Chove na rua, já de si molhada
duma vida que é chuva e não parece.
Chove grossa e constante,
uma paz que há de ser.
Uma gota invisível e distante
na janela, a escorrer.

Miguel Torga (1907-1995)

1 de janeiro de 2018

Dia a dia mudamos

Pablo Picasso
Dia a dia mudamos para quem
Amanhã não veremos. Hora a hora
Nosso diverso e sucessivo alguém
Desce uma vasta escadaria agora.

É uma multidão que desce, sem
Que um saiba de outros. Vejo-os meus e fora.
Ah, que horrorosa semelhança têm!
São um múltiplo mesmo que se ignora.

Olho-os. Nenhum sou eu, a todos sendo.
E a multidão engrossa, alheia a ver-me,
Sem que eu perceba de onde vai crescendo.

Sinto-os a todos dentro em mim mover-me,
E, inúmero, prolixo, vou descendo
Até passar por todos e perder-me.

Fernando Pessoa (1888-1935)

2018

Centenário em 2018
✔ 06 de fevereiro - 100 anos da morte do pintor Gustav Klimt.
✔ 14 de julho -100 anos do nascimento do cineasta Ingmar Bergmann.
✔ 17 de julho - A família do último Czar da Rússia, Nicolau Romanov, é assassinada pelos sovietes.
✔ 18 de julho - 100 anos do nascimento de Nelson Mandela.
✔ 11 de novembro - 100 anos do fim da Primeira Guerra Mundial.
✔ 18 de dezembro - 100 anos da morte de Olavo Bilac.

31 de dezembro de 2017

Para pintar o retrato de um pássaro

Jacob Maris
Pintar primeiro uma gaiola
Com a sua porta aberta
Em seguida pintar
Alguma coisa bonita
Alguma coisa simples
Alguma coisa bela
Alguma coisa útil
Para o pássaro
Pendurar em seguida a tela numa árvore
Num jardim
Num bosque
Ou numa floresta
Se esconder atrás da árvore
Sem falar
Sem se mover...
Às vezes o pássaro chega logo
Mas pode acontecer também que ele demore anos
Para se decidir
Não há que desanimar
Esperar
Esperar durante anos se for o caso
Já que a rapidez ou lentidão da chegada
Do pássaro não tem nenhuma relação
Com o resultado do quadro
Quando o pássaro chega
Se ele chega
Guardar o mais profundo silêncio
Esperar que o pássaro entre na gaiola
E quando estiver dentro
Fechar devagarinho a porta com o pincel
Depois
Apagar uma a uma todas as grades
Tendo o cuidado de não tocar em nenhuma pena do
pássaro
Pintar em seguida a figura da árvore
Escolhendo o galho mais bonito
Para o pássaro
Pintar também o verde das folhas e o frescor do vento
A poeira do sol
E o rumor dos insetos no capim sob o calor do verão
E depois esperar que o pássaro se decida a cantar
Se o pássaro não canta
É mau sinal
Sinal de que o quadro é mau
Mas se ele canta é bom sinal
Sinal de que você pode assinar
Então você arranca delicadamente
Uma pena do pássaro
E escreve seu nome num canto do quadro.

Jacques Prévert (1900-1977)
Tradução: Ferreira Gullar

29 de dezembro de 2017

Calendário

Alphonse Mucha
Juntei as minhas convicções umas às outras e dilatei a tua Presença. Outorguei aos meus dias um novo curso, sustentando-os nessa força imensa. Expulsei a violência que me limitava o ascendente. Agarrei sem ruído o pulso do equinócio. O oráculo deixou de avassalar-me. Penetro: sinto-me ou não em estado de graça.
A ameaça é agora mais polida. A praia que todos os Invernos ficava atravancada de lendas regressivas, de sibilas¹ com os braços pesados de ortigas, apresta-se agora ao socorro das criaturas. Sei que a consciência que se arrisca nada tem que temer da plaina.
René Char (1907-1988)
Tradução: Margarida Vale de Gato
¹ Sibilas são um grupo de personagens da mitologia greco-romana descritas como sendo mulheres que possuem poderes proféticos sob inspiração de Apolo.

27 de dezembro de 2017

Ao rapaz que dorme

Louis-Jean-François Lagrenée
Ao rapaz que dorme
surge o corpo do amor.
O que destrói.
Pedras sem adeus.

Sobre o dia do seu coração
cai a tribo do crepúsculo.
Crescem os braseiros,
os sarros, os saques.

Queres que viva e evite a vida?
Ame e evite amar-te?

Os olhos dizem-lhe que não.
O fatigado alarme do corpo
ergue-se noutra chama.

O mundo vai morrer neste poema.

Joaquim Manuel Magalhães

25 de dezembro de 2017

Amanhecer

Paul Gauguin
Amanhecer: o mais antigo
sinal de vida sobre a Terra.
Amanhecer: ainda o mais novo
sinal de vida sobre a Terra.
Amanhecer e vida humana
se entrelaçam na mesma luz.
Mas andemos. Que tal esses ornatos
de rua, a celebrar os velhos ritos?
Eu acho que o Natal ronda por fora
dos signos natalinos: sua rara
contextura de sonho e de esperança
num Deus garoto abriga-se no esconso
particular da alma; esse, o presépio
mais real, mais tocante; esse, o cardápio
da ceia imaterial, sem mesa posta
e sem badalação, sem jingle e cesta.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

24 de dezembro de 2017

Natal

Heidi Malott: Natividade
Também sei de paisagem
onde há carneiros de lã
e árvores cheias de folhas
e muitas estrelas líquidas
e onde a vida não tem nome
nem tem neve, nem crepúsculo.

Também sei de uma paisagem
(além da terra do mundo)
que se abre como uma rosa
– Ali nasceremos todos
noutro cartão de natal.

Gilberto Mendonça Teles

21 de dezembro de 2017

Saudade

Sir Edward Burne-Jones
Vem, ó saudade, toma-me em teu carro,
Em teu regaço leva-me dormindo,
Entre fagueiros sonhos embalado
Por esse espaço infindo.
Leva-me além daquele erguido monte,
Que lá campeia quase que sumido
Nas brumas do horizonte.

Leva-me além - oh! muito além ainda;
Do eterno plaino largo campo fende;
E entre escalvadas serranias broncas
O carro teu suspende.
Aí nas abas de sombrio morro
Abate o voo, e deixa-me nos braços
Daquela por quem morro.

Bernardo Guimarães (1825-1884)

19 de dezembro de 2017

Um estranho no meu túmulo

Christian Schad
Chegamos tarde a nós.
Eu tinha a pele gasta, o coração no fio.
Tu eras um longo muro de cimento areado
em que deixava a carne inteira
a caminho do encontro.

A primavera ficava-nos sempre
à esquerda e tu cada vez mais
dentro de mim até não sentir nada,
até estares já do outro lado.
Para trás, a cova matinal na almofada,
o postal entre a leitura suspensa,
o número a chamar de um fantasma.

Se apagar as marcas de onde pousaste
a cabeça sobre a minha vida,
se ganhar novo espaço para o fôlego,
faz-me só um favor:
nunca mais me reconheças.

Inês Dias

17 de dezembro de 2017

Onde Estás Agora

George Dunlop Leslie
Ó sonho, onde estás agora?
Os longos anos já passaram,
Depois que sobre tua fronte
Eu vi a luz morrer,
E devagar tornar-se em podridão.
Ai de nós! Ai de nós! Ó desgraçada,
Eras loura e bela
E faiscante!
Eu não podia imaginar
Que o único fruto de tua imagem
Seria o desespero.
O raio de luar, a tempestade,
E as noturnais, deusas do verão,
A noite silenciosa,
Na calma solene,
A lua ronda, o céu puro,
Outrora,
Eram a trama do teu ser,
Mas já não são mais do que um manto exausto
De dores e de penas.
Ó tu que desamparaste o meu olhar,
Já é sofrer bastante
Ter visto para sempre se extinguir a tua luz!

Emily Brontë (1818-1848)
Tradução: Lúcio Cardoso

15 de dezembro de 2017

Ignoto Deo

Paolo Veronese
Desisti de saber qual é o Teu nome,
Se tens ou não tens nome que Te demos,
Ou que rosto é que toma, se algum tome,
Teu Sopro tão além de quanto vemos.

Desisti de Te amar, por mais que a fome
Do Teu amor nos seja o mais que temos,
E empenhei-me em domar, nem que os não dome,
Meus, por Ti, passionais e vãos extremos.

Chamar-Te amante ou pai..., grotesco engano
Que por demais tresanda a gosto humano!
Grotesco engano o dar-te forma! E enfim,

Desisti de Te achar no quer que seja,
De Te dar nome, rosto, culto, ou igreja...
– Tu é que não desistirás de mim!

José Régio (1901-1969)

13 de dezembro de 2017

A Imagem Divina

Gustave Doré
A Dó, Piedade, Paz e Amor,
Todos oram em sua aflição;
E a essas virtudes de valor
Retribuem com gratidão.

Pois Dó, Piedade, Paz e Amor
São Deus, nosso pai amado;
E Dó, Piedade, Paz e Amor
São o Homem, seu filho e cuidado.

E humano é o coração da Piedade,
O Dó se mostra em humana face,
O Amor é humana divindade
E a Paz, um humano disfarce.

Cada homem, de cada clima,
Que prece em desespero faz,
Reza à forma humano-divina:
Amor, Piedade, Dó e Paz.

E devem amar ao aspecto humano
Pagão, judeus e muçulmanos.
Onde há Amor, Dó e Piedade,
Também reside a Divindade.

William Blake (1757-1827)
Tradução: Gilberto Sorbini e Weimar de Carvalho

10 de dezembro de 2017

A Um Jovem Poeta

Salvador Dalí
Não escrevas um poema enquanto teu coração
arde. Deixa que a emoção arrefeça.
Depois, em silêncio, com ajuda da cabeça,
põe um tijolo sobre outro tijolo.
Tijolo? Tão frio o barro cozido...
Mas é dentro desse barro que acontecem as cópulas,
e as crianças choram pedindo leite.
Imagina um fruto amadurecido,
que pende de uma árvore: o vento o balança,
e o sol continua a aquecê-lo. Esta dança,
que não se vê,
é a poesia.

Armindo Trevisan

8 de dezembro de 2017

Centauro

Jean Baptiste Regnault
A moça de bicicleta
parece estar correndo
sobre um chão de nuvens.

A mecânica ardilosa
dos pedais multiplica
suas pernas de bronze.

O guidão lhe reúne
num só gesto redondo
quatro braços.

O selim trava com ela
um íntimo diálogo
de côncavos e convexos.

Em revide aos dois seios
em riste, o vento desfaz
os cabelos da moça

numa esteira de barco
– um barco chamado
Desejo onde, passageiros

de impossível viagem,
vão todos os olhos
das ruas por que passa.

José Paulo Paes (1926-1998)

6 de dezembro de 2017

Para o Livro de Literatura de Segundo Grau

Rick Beerhorst
Não leias odes, meu filho, lê os horários
(dos trens, dos ônibus, dos aviões):
são mais exatos. Abre os mapas náuticos
antes que seja tarde demais. Sê vigilante, não cantes.
Chegará o dia em que eles, de novo, pregarão listas
no portão e desenharão marcas no peito daqueles que dizem
não. Aprende a ir incógnito, aprende mais do que eu:
a mudar de bairro, de passaporte, de rosto.
Entende da pequena traição,
da salvação suja de todos os dias. Úteis
são as encíclicas para se fazer fogo,
e os manifestos: para a manteiga e sal
dos indefesos. É preciso raiva e paciência
para se soprar nos pulmões do poder
o fino pó mortal, moído
por aqueles, que aprenderam muito,
que são exatos, por ti.

Hans Magnus Enzensberger
Tradução: Kurt Scharf e Armindo Trevisan

4 de dezembro de 2017

O bonde do silêncio

Claude Monet
Já é noite e o bonde do silêncio
permanece intacto.

Nas ruas as pessoas observam os
pássaros a sobrevoarem as
correntezas.

E tudo permanece intacto.

Os amantes, os Deuses, as estátuas.

Só a poesia perambula.

Acaso os versos caminham ágeis e
desapercebidos.

E tudo permanece intacto.

Carlos Cardoso (1951-2000)

2 de dezembro de 2017

Confissão

Guido Reni
Não quero ser Deus por orgulho.
Eu tenho esta grande diferença de Satã.
Quero ser Deus por necessidade, por vocação.
Não me conformo nem com o espaço nem
com o tempo,
Nem com o limite de coisa alguma.
Tenho fome e sede de tudo,
Implacável,
Crescente,
Eterna,
– De mim que me desprezo e me acredito um nada.

Ismael Nery (1900-1934)

30 de novembro de 2017

Homem carregando coisa

Ferdinand Georg Waldmüller
O poema tem que resistir à inteligência
Até quase conseguir. Exemplo:

Vulto pardo em tarde de inverno resiste
À identidade. O que ele carrega resiste

Ao sentido mais premente. Aceite-os, pois,
Como secundários (partes semipercebidas

Do todo óbvio, partículas incertas
Do sólido certo, primário indubitável,

Coisas a flutuar como os cem primeiros flocos
Da nevasca que há que suportar a noite inteira,

De uma tormenta de coisas secundárias),
Horror de pensamentos súbito reais.

Temos que suportá-los a noite inteira, até
Que o claro óbvio se mostre, imóvel, no frio.

Wallace Stevens (1879-1955)
Tradução: Paulo Henriques Britto