23 de dezembro de 2014

Haikai

Eliseu Visconti
“És ou não és
o sonho que esqueci
antes da aurora ?”

Jorge Luis Borges (1899-1986)

A Dança

Paul Gauguin
“A Dança é, na minha opinião, muito mais do que um exercício, um divertimento, um ornamento, um passatempo social; na verdade, é uma coisa até séria e, sob certo aspecto, mesmo, uma coisa sagrada. Cada era que compreendeu a importância do corpo humano, ou que, pelo menos, teve a noção sensorial de sua estrutura, de seus requisitos, de suas limitações e da combinação de genialidade que lhe são inerentes, cultivou, venerou a Dança”.
Paul Valéry (1871-1945)

22 de dezembro de 2014

Libelo

Marc Chagall
Não mais trarei justificações
Aos olhos do mundo.
Serei incluído - pormenor esboçado -
Na grande Bruma.
Não serei batizado,
Não estarei doutorado,
Não serei domesticado
Pelos rebanhos
Da terra.
Morrerei inocente
Sem nunca ter
Descoberto
O que há de bem e mal
De falso ou certo
No que vi.

Roberto Piva

Amor, Felicidade

Oleg Tchoubakov
Infeliz de quem passa pelo mundo
procurando no amor felicidade:
a mais linda ilusão dura um segundo,
e dura a vida inteira uma saudade.

Taça repleta, o amor, no mais profundo
íntimo, esconde a joia da verdade:
só depois de vazia mostra o fundo,
só depois de embriagar a mocidade...

Ah! quanto namorado descontente,
escutando a palavra confidente
que o coração murmura e a voz não diz,

percebe que, afinal, por seu pecado,
tanto lhe falta para ser amado,
quanto lhe basta para ser feliz!

Guilherme de Almeida (1860-1969)

21 de dezembro de 2014

Palavra a um General

Franz Xaver Wolf
O vosso tanque, General, esmaga cem homens
Mas tem um defeito:
- Precisa de um motorista

O vosso bombardeiro, General
É poderoso:
Voa mais depressa que a tempestade
E transporta mais carga que um elefante
Mas tem um defeito:
- Precisa de um piloto.

O homem, General, é muito útil
Sabe voar e sabe matar
Mas tem um defeito:
- Sabe pensar.

Bertolt Brecht(1898-1956)

Como era Bom

Paul Signac (1863-1935)
O tempo em que Marx explicava
que tudo era luta de classes
como era simples

O tempo em que Freud explicava
que édipo tudo explicava
tudo clarinho limpinho explicadinho
tudo muito mais asséptico
do que era quando nasci.

Hoje rodado sambado pirado
descobri que é preciso aprender
a nascer todo dia.

Chacal
(pseudônimo de Ricardo de Carvalho Duarte, poeta do Rio de Janeiro)

20 de dezembro de 2014

Ao Anoitecer

Alfred Gockel
E ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia.

Al Berto (1948-1997)

O Desejo é Fruto de um Conhecimento Insuficiente

Alphonse Mucha
“Não existe nada mais estranho e espinhoso do que a relação entre pessoas que só se conhecem de vista - que diariamente, mesmo hora a hora, se encontram, se observam e que têm assim de manter, sem cumprimentos e sem palavras, a aparência de desconhecimento indiferente, devido ao rigor dos costumes ou a caprichos pessoais. Entre elas existe inquietação e curiosidade exacerbada, a histeria da necessidade insatisfeita, anormalmente recalcada, de conhecimento e comunicação e, sobretudo também uma forma de consideração tensa. Pois o ser humano ama e respeita o outro ser humano enquanto não está em posição de julgá-lo e o desejo é produto de um conhecimento insuficiente”.
Thomas Mann (1875-1955),
in "Morte em Veneza"

19 de dezembro de 2014

Quem eu sou?

Edmund Dulac
“Não me pergunte quem sou
e não me diga para permanecer o mesmo:
é uma moral de estado civil;
ela rege nossos papéis.
Que ela nos deixe livres
quando se trata de escrever”.

Michel Foucault (1926-1984)

Somos algo e não tudo ...

Frederic Edwin Church
“Somos algo e não tudo; o que temos que ser priva-nos do conhecimento dos primeiros princípios que nascem do nada; e o pouco que somos nos impede a visão do infinito. Nossa inteligência, entre as coisas inteligíveis, ocupa o mesmo lugar que o nosso corpo na magnitude da natureza.
Limitados em tudo, esse termo médio entre dois extremos encontra-se em todas as nossas forças. Nossos sentidos não percebem os extremos: um ruído demasiado forte nos ensurdece, demasiada luz nos deslumbra, demasiada distância ou demasiada proximidade impede-nos de ver, demasiada longitude ou demasiada concisão do discurso o obscurece, demasiada verdade nos assombrosa (sei de alguém que não pode compreender que quem de zero tira quatro fica zero); os primeiros princípios tem demasiada evidência para nós outros, demasiado prazer incomoda, demasiada consonância aborrece na música, e demasiado benefício irrita, pois queremos ter com que pagar a dívida.
Eis o nosso estado verdadeiro; é o que nos torna incapazes de saber com segurança e de ignorar totalmente”.
Blaise Pascal (1623-1662)

18 de dezembro de 2014

Soneto do amor como um rio

Edmund Blair Leighton
Este infinito amor de um ano faz
Que é maior que o tempo e do que tudo
Este amor que é real, e que, contudo
Eu já não cria que existisse mais.

Este amor que surgiu insuspeitado
E que dentro do drama fez-se em paz
Este amor que é o túmulo onde jaz
Meu corpo para sempre sepultado.

Este amor meu é como um rio; um rio
Noturno, interminável e tardio
A deslizar macio pelo ermo

E que em seu curso sideral me leva
Iluminado de paixão na treva
Para o espaço sem fim de um mar sem termo.

Vinícius de Moraes
(1913-1980)

A Fronteira entre a Juventude e a Velhice

Jules Bastien-Lepage
“Creio que se pode traçar uma fronteira muito precisa entre a juventude e a velhice. A juventude acaba quando termina o egoísmo, a velhice começa com a vida para os outros. Ou seja: os jovens têm muito prazer e muita dor com as suas vidas, porque eles a vivem só para eles. Por isso todos os desejos e quedas são importantes, todas as alegrias e dores são vividas plenamente, e alguns, quando não veem os seus desejos cumpridos, desperdiçam toda uma vida. Isso é a juventude. Mas para a maior parte das pessoas vem o tempo em que tudo se modifica, em que vivem mais para os outros, não por virtude, mas porque é assim. A maior parte constitui família. Pensa-se menos em nós próprios e nos nossos desejos quando se tem filhos. Outros perdem o egoísmo num escritório, na política, na arte ou na ciência. A juventude quer brincar, os adultos trabalhar”.
Hermann Hesse (1877-1962)
em "Gertrud"

17 de dezembro de 2014

As Minhas Rosas

Henri Fantin-Latour
Sim! a minha ventura quer dar felicidade;
Não é isso que deseja toda a ventura?
Quereis colher as minhas rosas?
Baixai-vos então, escondei-vos,
Entre as rochas e os espinheiros,
E chupai muitas vezes os dedos.
Porque a minha ventura é maligna,
Porque a minha ventura é pérfida.
Quereis apanhar as minhas rosas?

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900),
in "A Gaia Ciência"

O que é Filosofia?

Edmund Dulac
“O que é a filosofia senão um modo de refletir, não tanto sobre aquilo que é verdadeiro e aquilo que é falso, mas sobre a nossa relação com a verdade? (...) Não há nenhuma filosofia soberana, é verdade, mas há uma filosofia ou, melhor, há filosofia em atividade. A filosofia é o movimento pelo qual nos libertamos - com esforços, hesitações, sonhos e ilusões - daquilo que passa por verdadeiro, a fim de buscar outras regras do jogo. A filosofia é o deslocamento e a transformação das molduras de pensamento, a modificação dos valores estabelecidos, e todo o trabalho que se faz para pensar diversamente, para fazer diversamente, para tornar-se outro do que se é (...)”.
Michel Foucault (1926-1984)

16 de dezembro de 2014

Casa-Grande e Senzala

“Todo brasileiro traz na alma e no corpo
a sombra do indígena ou do negro”.

Gilberto Freyre (1900-1987)
Cícero Dias - Engenho
Casa Grande e Senzala
Grande livro que fala
Desta nossa leseira
Brasileira.

Mas com aquele forte
Cheiro e sabor do Norte
— Dos engenhos de cana
(Massangana!)

Com fuxicos danados
E chamegos safados
De mulecas fulôs
Com Sinhôs.

A mania ariana
Do Oliveira Viana
Leva aqui a sua lambada
Bem puxada.

Se nos brasis abunda
Jenipapo na bunda,
Se somos todos uns
Octoruns

Que importa? É lá desgraça?
Essa história de raça,
Raças más, raças boas
— Diz o Boas —

É coisa que passou
Com o franciú Gobineau.
Pois o mal do mestiço
Não está nisso.

Está em causas sociais,
De higiene e outras que tais:
Assim pensa, assim fala
Casa Grande e Senzala.

Livro que à ciência alia
A profunda poesia
Que o passado revoca
E nos toca

A alma de brasileiro
Que o portuga femeeiro
Fez e o mau fado quis
Infeliz!

Manuel Bandeira (1886-1968)

Soneto do amor nos *Apeninos

Albert Bierstadt
Devoro-te deliciosamente
Nas noites claras das mantanhas...
fazendo, por certo, minhas manhas
Pra ver-te acordar sorridente!!!

Devoro-te, sem mais nem menos,
Sem muita explicação.
Sobre coisas do coração,
Quanto mais se fala, fala-se menos!!!

Devoro-te com apetite
Como faz um menino
Quando tem o que ele quer...

Devoro-te e aceito o convite
Pra do cume dos *Apeninos
Fazer-te inteira minha mulher!!!

- Orlando Costa Filho

*A Cordilheira dos Apeninos fica na Itália

15 de dezembro de 2014

O Sonho de Sêmea

............(À poetisa Cecilia Meireles)
Camille Pissarro
Ela era das feras, sem dúvida, a fêmea
em eras de harpas e de delicadeza.
Suas mãos em movimento de rara leveza
traziam morangos e pães feitos de sêmea.

Hoje, tarde de abril, em que o sol já não arde
a memória arrebata-me e voo-me inteiro.
Debaixo da copa frondosa do oitizeiro
nossos lábios crepitam suaves, sem alarde.

Ela era das feras, a única: a fêmea
nas eras e rincões em que a tal lucidez
teimava em sinônima ser da cupidez:
adentrar os belos bosques da minha alma gêmea!

Sim, das feras era ela única, a fêmea
despetalava ao vento minha juventude
com suas mãos de harpa, de rara virtude.
E junto com as pétalas... meu sonho em sêmea ...

- Orlando Costa Filho

Quatro Estações

Paul Cézanne - Primavera
Manhã (ver)de azul
a epiderme da flor
é a própria canção
poema, palavras não
meu filho me acena
de cada frescor...
Paul Cézanne - Verão
a bater-me à porta
pra alegria das cores
dos quadros retratos
seus olhos só riso
e neles o caminho
entre a fé e a convicção
o passado se perde
com todas as dores...
Paul Cézanne - Outono
vem com as folhas caindo
bem devagar
enchendo de ternura
seu caminho de volta
o sono vence a saudade
sua fronha mais o vento,
em paz, brincam no varal...
Paul Cézanne - Inverno
do limo do tempo
ressurge
ruge suas ondas e ventos
que envergam palmeiras
que perdem as estribeiras
fustigam-me a alma
atiçam-me a calma
em mais um desenlace...

- Orlando Costa Filho

14 de dezembro de 2014

A Guerra do Paraguai

Guerra do Paraguai (1864-1870)
Desenho dos uniformes utilizados pelos soldados
durante a Guerra do Paraguai
(Foto: Fundação Biblioteca Nacional)
Conflito na América do Sul faz 150 anos e estopim da Guerra do Paraguai ainda gera controvérsia. Historiadores divergem sobre a verdadeira razão para o início do conflito. Mas há consenso em dizer que ditador paraguaio errou ao declarar guerra.
Já se passaram 150 anos do início da Guerra do Paraguai (1864-1870) e ainda há controvérsia entre historiadores sobre os motivos que levaram o ditador paraguaio Francisco Solano López a dar início ao maior conflito armado da América Latina. O Paraguai lutou contra a Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) e acabou derrotado. Até hoje o país não se recuperou plenamente das consequências da guerra.
Alguns especialistas entendem que o conflito era parte da política expansionista de Solano López, outros afirmam que foi uma reação "desproporcional" do ditador à Solano López declarou guerra ao Brasil em 13 de dezembro de 1864 e, em seguida, invadiu a região que hoje corresponde a Mato Grosso do Sul. No mesmo ano, o Brasil havia invadido o Uruguai e destituído o presidente.
Para o cientista social e doutor em história das relações internacionais Francisco Doratioto, Solano López tinha um plano: ele teria declarado a guerra em busca de novos territórios e de uma saída para o mar através do domínio do Rio Prata – libertando-se, assim, das tarifas alfandegárias cobradas pelo porto de Buenos Aires.
Estudioso autodidata do conflito, o brasileiro Júlio José Chiavenato vê em Solano López apenas uma atitude de defesa dos interesses paraguaios, após o Brasil invadir o Uruguai sob alegação de que brasileiros estavam sofrendo ataques em meio à guerra civil que acontecia no país. Para Chiavenato, López entendeu como um ato de guerra a invasão ao país com o qual tinha acordos de defesa mútua.
Autor do livro "Genocídio americano: A Guerra do Paraguai", publicado em 1979, Chiavenato entende que Solano López se sentiu ameaçado por pensar que seria o próximo alvo do Império brasileiro.
O historiador Ricardo Henrique Salles, autor do livro "Guerra do Paraguai: escravidão e cidadania na formação do Exército", enxerga no Brasil a culpa pelo conflito. "O Paraguai avisou que, se o Brasil invadisse o Uruguai, declararia guerra. López só declarou guerra porque achou a invasão uma ameaça fatal a ele."
Segundo Salles, a História oficial brasileira trata a invasão ao Uruguai e a Guerra do Paraguai como conflitos diferentes quando, na verdade, trata-se de um só. A invasão ao Uruguai foi um "ato agressivo" do Império brasileiro que desencadeou a guerra, afirma.
Outro ponto controverso que envolve a Guerra do Paraguai é a situação do país na época que começou o conflito.
Com base em dados demográficos, Júlio José Chiavenato diz que é possível apontar a população paraguaia em "mais ou menos 800 mil pessoas", e que "a guerra provocou uma matança absurda" deixando o Paraguai em uma situação "que até hoje não se recuperou". Segundo ele, morreu na guerra cerca de 90% da sua população masculina maior de 20 anos.
"Esta guerra foi uma coisa tão indecente e vergonhosa que só durante o conflito que se soube que, no pacto da Tríplice Aliança, havia uma cláusula que previa que ela só terminaria com a morte de López e a troca de poder no Paraguai, não se poderia assinar armistício", afirma o escritor, acrescentando que o conflito produziu um trauma no continente.
Outra polêmica do conflito foi o fato de o Brasil ter enviado escravos como soldados. "A maioria dos soldados era negra, mulata, mestiça, mas o Exército não aceitava escravos. Há uma confusão entre a população negra que era livre e a população que era escrava. Cerca de 10% da tropa era de escravos, que foram libertos para lutar. Isso pegou mal para o Brasil na ordem moral e social, um país escravagista ter que recorrer a escravos para se defender", afirma Salles.
Salles e Doratioto também dizem acreditar nisso: “O paraguaio lutou bravamente. O povo viu a guerra como uma ameaça e uma agressão à sua terra. Claro que, por ser uma ditadura, o governo de López tinha poder coercitivo. Mas isso não explica o povo paraguaio lutar como lutou”, afirma Salles.

Fonte:
Site G1: ( 150 anos da Guerra do Paraguai )

A República - Platão

Lucas Cranach the Elder
Platão, em A República, tem como objetivo principal investigar a natureza da justiça, inerente à alma, que, por sua vez, manifesta-se como protótipo do Estado ideal. Os fundamentos do pensamento ético-político de Platão decorrem de uma correlação estrutural com constituição tripartite da alma humana. Assim, concebe uma organização social ideal que permite assegurar a justiça. Com base neste contexto, o foco da crítica às narrativas poéticas, nos livros II e III, recai sobre a cidade e o tema fundamental da educação dos governantes.
No Livro X, na perspectiva da defesa de seu projeto ético-político para a cidade fundamentada em um logos crítico e reflexivo que redimensiona o papel da poesia, o foco desta crítica se desloca para o indivíduo ressaltando a relação com a alma, compreendida em três partes separadas, segundo Platão: a racional, a apetitiva e a irascível.
Com base no texto é correto afirmar que: O elemento mimético cultivado pela poesia é justamente aquele que estimula, na alma humana, os elementos irracionais: os instintos e as paixões.

O Cão Sem Plumas

Jean Béraud
A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.

Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

13 de dezembro de 2014

Anelo

John William Waterhouse
Só aos sábios o reveles,
Pois o vulgo zomba logo:
Quero louvar o vivente
Que aspira à morte no fogo.

Na noite – em que te geraram,
Na noite que geraste – sentiste,
Se calma a luz que alumiava,
Um desconforto bem triste.

Não sofres ficar nas trevas
Onde a sombra se condensa.
E te fascina o desejo
De comunhão mais intensa.

Não te detêm as distâncias,
Ó mariposa! e nas tardes,
Ávida de luz e chama,
Voas para a luz em que ardes.

"Morre e transmuda-te": enquanto
Não cumpres esse destino,
És sobre a terra sombria
Qual sombrio peregrino.

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)
Tradução: Manuel Bandeira

Oração

Paul Cézanne
Senhor! Eu sei que tenho pecado
eu sei que sou indigno
e não mereço perdão.

Mas quero pagar por tudo
Quero sofrer por tudo
arrepender-me de tudo.

Quero ser humilhado
e sofrer no meu corpo
todas as penas eternas.

Estou por tudo e me conformo com tudo
contanto que ... Senhor! ... o telefone me chame.
Hoje e todos os sábados, esses dias sem explicação.

Pedro Dantas (1904-1977)
Pseudônimo literário que Francisco de Paula Prudente de Morais, Neto.

12 de dezembro de 2014

Ingenuidade

Frederick William Burton
Brincam alegres, faceiros,
Pelos jardins, descuidosos,
Os dois priminhos formosos,
Trocando ditos brejeiros.

Depois estacam ligeiros
A contemplar desejosos
Os belos frutos cheirosos
Dos pendentes cajueiros.

Diz ele maliciosamente,
Por entre um riso de gozo:
Trepa, priminha… e os colhe…

– E ela, ingênua, as faces ternas,
Prende o vestido entre as pernas
E diz, subindo: – Não olhe…

Olavo Nunes (1871-1942)