25 de janeiro de 2020

Risos

Rarindra Prakarsa
Ri, criança, a vida é curta,
O sonho dura um instante.
Depois... o cipreste esguio
Mostra a cova ao viandante!

A vida é triste — quem nega?
— Nem vale a pena dizê-lo.
Deus a parte entre seus dedos
Qual um fio de cabelo!

Como o dia, a nossa vida
Na aurora é — toda venturas,
De tarde — doce tristeza,
De noite — sombras escuras!

A velhice tem gemidos,
— A dor das visões passadas —
A mocidade — queixumes,
Só a infância tem risadas!

Ri, criança, a vida é curta,
O sonho dura um instante.
Depois... o cipreste esguio
Mostra a cova ao viandante!


Casimiro de Abreu (1839-1860)

24 de janeiro de 2020

Ai!

Nelleke Pieters Photography
O grito deixa no vento
uma sombra de cipreste.

(Deixai-me neste campo
chorando.)

Tudo se perdeu no mundo.
Não ficou mais que o silêncio.

(Deixai-me neste campo
chorando.)

O horizonte sem luz
está mordido de fogueiras.

(Já vos disse que me deixeis
neste campo
chorando.)

Federico Garcia Lorca (1898-1936)
Tradução: Eugénio de Andrade

23 de janeiro de 2020

Poema

Ylli Haruni - Rome Colosseum

Ah, se eu antes soubera desta sina,
Quando me preparava para a estreia,
Que há morte nestas linhas, – assassinas!
Como um golpe de sangue na traqueia.

Os folguedos desta busca de avessos
Eu deixaria, inúteis, de uma vez.
Já tão remoto o esforço do começo,
Tão temeroso o primeiro interesse.

Mas a velhice é Roma. Não lhe peça
Que venha com estórias de ninar.
Ela exige do ator mais que uma peça,
Uma entrega total, um naufragar.

Quando o verso é um ditado do mais íntimo,
Ele imola um escravo em cena aberta.
E aqui termina a arte, o pano fecha,
Ao respirar da terra e do destino.

Boris Pasternak (1890-1960)
Tradução Boris Schnaiderman e Haroldo de Campos

22 de janeiro de 2020

Saio do sonho quando só da noite

Christy Dawn
Saio do sonho quando só da noite
a cúpula do céu resta indecisa
cobrindo o dia como se precisa
nos espelhos da noite a noite fosse

A noite ainda guarda
o céu do dia
Na noite refletida
é um réptil de luz a madrugada

Gastão Cruz

17 de janeiro de 2020

O Poeta em Dacar

Ilustração feita por Cássio Loredano
Cabral ombreia o grou coroado:
Sumário confronto sobre a grama
Em frente ao palácio oficial.
Alguns toureiros trazem socorro:
Vêm de seus versos. Muito econômicos,
Nenhum ostenta cores ou cheiros;
Nenhum, sensualidade; embora
Aceso tenham o sexo. Nenhum
Senegaliza. Porém a cola
Que não mascam é como se fosse
A fibra mesma, o osso-poeta
Que sustenta o corpo pequenino
Desse homem desembaraçado
Em sua angústia. Expositivo,
Ele apenas informa —e é um coan—
Sobre a particularidade deles,
Os grous, de, macho ou fêmea, terem
Reações opostas à chegada
De outro animal aqui, este homem
Em seu território: a fêmea avança,
O macho, muito tímido, esquiva-se.
Ou será o contrário, pergunta-nos
O poeta sério e buster keaton.
E conclusivo: um ou outro é
O que ataca; um ou outro, o que foge.
Volta à lajota da varanda sem
Olhar para as aves no gramado
Atrás de si. E muda de assunto.

(Caetano Veloso)

16 de janeiro de 2020

Praia

Edward H. Potthast
Os pinheiros gemem quando passa o vento
O sol bate no chão e as pedras ardem.

Longe caminham os deuses fantásticos do mar
Brancos de sal e brilhantes como peixes.

Pássaros selvagens de repente,
Atirados contra a luz como pedradas,
Sobem e morrem no céu verticalmente
E o seu corpo é tomado nos espaços.

As ondas marram quebrando contra a luz
A sua fronte ornada de colunas.

E uma antiquíssima nostalgia de ser mastro
Baloiça nos pinheiros.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

15 de janeiro de 2020

Navegante

Lord Frederick Leighton
O mar virá escavar
mas as rochas – arestas denteadas
a cavaleiro da toalha de espuma
ou uma corcova ou então pináculos
com mergulhões –
são o homem pertinaz.

Ele provoca a tempestade, ele
vive por ela! repassado
de temores que não são temores
mas aguilhões de êxtase,
um álcool secreto, um fogo
que lhe inflama o sangue até
a frieza pelo que as rochas
mais parecem lançar-se
sobre o mar do que o mar
envolvê-las. Estiram-se
no esforço de agarrar navios
ou até o próprio céu que
se debruça para ser despedaçado
sobre elas. Ao que ele diz,
Sou eu! Eu é que sou as rochas!
Sem mim nada se ri.

William Carlos Williams (1883-1963)
Tradução: José Paulo Paes

14 de janeiro de 2020

Alguns gostam de poesia

Michael James Smith
Alguns –
ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.

Gostam –
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade
gosta-se de afagar um cão.

De poesia –
mas o que é isso, poesia.
Muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
como a uma tábua de salvação.

Wisława Szymborska (1923-2012)
Tradução: Regina Przybycien

13 de janeiro de 2020

Michelangelo

Michelangelo - Sibyls Libyan (Sistine Chapel)
De todos os viventes, sou o mais inclinado a amar pessoas. Onde quer que encontre alguém com certo talento ou mostras de agilidade mental, capaz de fazer ou dizer algo mais expressivamente que o resto da humanidade, vejo-me compelido a me apaixonar e me dedico de forma tão intensa que já não me pertenço mais, mas a ele, e totalmente.
Michelangelo Buonarroti (1475-1564)
Tradução: Hélio Pólvora.
Theodore Zeldin. Uma história íntima da humanidade.

12 de janeiro de 2020

Breve história do poder

Évariste-Vital Luminais - Gaulois en vue de Rome
Na aurora da humanidade todos os homens viviam como caçadores-coletores. Todos eram iguais. Não havia poder. Mas os homens temiam as águas oriundas das cheias, os eclipses, a lava que escorria do vulcão, os raios, os tigres dentes de sabre... O homem teme a morte e assim nascem os primeiros deuses e a casta privilegiada de sacerdotes: o poder religioso. Todavia, os deuses eram inúmeros e os sacerdotes inventaram o poder teocrático, ou seja, os deuses escolhiam um chefe para governar todos. Nascem as dinastias no mundo antigo. Os reis-deuses de seus palácios ditam as ordens para os súditos: escravos erguem templos e tumbas, camponeses aram as terras e pagam tributos.
Com o aparecimento da escrita o conhecimento é manipulado pelas castas (sacerdotes, escribas, guerreiros). O povo continua iletrado. Sacerdotes criam então o Deus único – fálico infalível. Nasce o monoteísmo e o poder se concentra numa corte luxuosa: primeiro os judeus, depois os cristãos e, em seguida, os muçulmanos. Quem não acreditasse no Deus fálico infalível era exterminado. E assim tem ‘sobrevivido’ a humanidade nessas três caixinhas por três mil anos: pensar diferente é motivo para ser perseguido, humilhado, torturado, morto. Um banho de sangue em nome do Deus único.
As guerras de conquista fizeram as riquezas dos donos do poder. Os que falavam da misericórdia do Deus fálico infalível são os que mantinham nas frias masmorras milhares de homens, mulheres e crianças e os torturavam e matavam. E dessa forma aumentava o poder e a riqueza da dupla Estado-Igreja através da Inquisição medieval, da invasão da América, da escravidão africana, do holocausto nazista, das bombas de Hiroshima e Nagasaki, do apartheid e dos incontáveis genocídios ocorridos no primeiro quartel do século XXI.
O próximo passo para a concentração de poder foi a tecnologia. As máquinas substituem os homens. Os tributos pagos pelos trabalhadores alimentam o luxo das ‘elites’ político-religiosas. Para o povo sobram escolas sucateadas, hospitais em ruínas, ruas esburacadas, esgotos a céu aberto... e quando ocorrem manifestações reivindicando melhores condições de vida e trabalho, o poder responde com a truculência das forças repressivas: polícias e exércitos. Cidadanias negadas para favelados, pobres, negros, gays, lésbicas...
As insanidades continuam. A arrogância fez com que os cientistas modificassem milhares de espécies vegetais e animais: tudo é geneticamente manipulado. Como resultado temos mais doenças e uma alimentação de péssima qualidade. A água? Comprada. O ar? Envenenado. A natureza? Destruída para dar lugar a shoppings centers, condomínios luxuosos, fábricas, resorts... E o homem? Continua a guerrear, escravizar, saquear, aterrorizar os outros homens.

Orides Maurer Jr
Do blog "História e Sociedade". [Referência]

11 de janeiro de 2020

A história de um dia

Foto de Sky-Genta
A abóbada da tarde mais uma vez acaba
O sol de a fechar sobre a minha diária aventura
Viram-no partir pontualmente à mesma hora
quando num pouco de dia a um canto sempre a um canto
já eu tinha conseguido arredondar
uma íntima ampola de som para a palavra definitiva
Ia mesmo soltá-la eu que todo o dia fui para ela quando
ele me deixou e foi abrir outras portas
erguer verticalmente caídas esperanças
e passar novas mãos por tantas faces mortas
Só me resta recolher o meu rebanho de pensamentos
com um vago rumor de guizos
enquanto à beira-mar os camponeses deixam
palavras não aladas cair na água morta
Morro irremediavelmente nesses pensamentos
que ainda agora o sol iluminava
enquanto eu os estendia e os recolhia
e os orientava numa direção que convinha
e os precipitava sobre o fumo de uma casa
sobre um buraco de luz ou uma coluna de fumo
mais volúveis que um bando de pássaros
Morro mais uma vez criticamente completo
Todos os gestos
carregados com vinte e quatro horas de história
de ventre ferido na aventura do restolho
petrificaram inevitavelmente
na face orientada de uma estátua
aqui ou noutro jardim
Todo o caminho é de regresso
Amanhã serei outro:
lavarei os dentes com toda a solenidade
como antigamente meu pai antes das grandes viagens
enquanto alguém no espelho
se encarregará de olhar pelos meus olhos
Assim sou passado de dia em dia
confiado pelo dia que parte ao dia que chega
não venha o sino que ao longe toca perturbar
as linhas de um rosto que recompus
e pus de pé na atmosfera doméstica
Fechar um postigo pode ser um gesto cheio de significado quando
na arrumada paisagem quotidiana
a expectativa marcada pela funda inspiração
nos revela duas ou três mãos
postas sobre a colina
Amanhã serei outro.

Ruy Belo (1933-1978)

10 de janeiro de 2020

Glosa

Joan Miró
A tudo quanto desejo
Acho atalhadas as vias;
Em tentos e fantasias
Mui mau caminho me vejo.
Se do passado e presente
O porvir se pode crer,
Já não há que pretender:
Já não posso ser contente.

Que de tudo quanto quero
Chego a tara triste estremo
Que vejo tudo o que temo
E nem sombra do que espero,
Desengano-me da vida
E fiz nela tal mudança
Que até de ter esperança
Tenho a esperança perdida.

Cuidei um tempo que havia
Na fortuna o que buscava,
E posto que o não dava,
O mesmo tempo o daria.
Achei tudo diferente,
Fiquei desencaminhado,
E como em despovoado,
Ando perdido entre a gente.

De que farei fundamento
Pois em nada acho firmeza
E pago sempre em tristeza
Os sonhos do pensamento?
Abrande esta dor crescida
Vivendo em pena de morte,
E eu, por não mudar a sorte,
Nem morro nem tenho vida.

D. Francisco de Sá e Meneses (1515-1584)

9 de janeiro de 2020

Epigrama

Peter Geiger
Na cama, um gordo abade entregue
A mãos de freira o membro tinha,
Mas tal engenho inerte segue:
Tal qual um morto se mantinha.
A freira trabalhava até ao fundo
E da verga vendo o tenaz pendor,
Ao abade sugere: — Diga Magnificat, Senhor,
Dizê-lo faz levantar o que há no mundo.

Théophile de Viau (1590-1626)
Tradução: Carlos Mendonça Lopes

8 de janeiro de 2020

Soneto

Tom Wesselmann
A sábia mão a cujo tato ardente
Estremece a carne como um instrumento
Prolongou a agonia do momento
Em uma languidez intermitente…

Oh, cálido contato da tua frente!
Oh, o teu dorso nu e opulento!
Deitado sobre mim, qual um sedento
Avidamente bebe de uma fonte!

Meus beijos perfumaram o vazio,
Húmida morte suou em calafrio…
E sob a tua melena estremecida.

Num glorioso abraço de serpentes
Senti sangrar e sucumbir a vida,
Entre o canibalismo dos teus dentes!

Francisco Villaespesa (1877-1936)
Tradução: Carlos Mendonça Lopes

7 de janeiro de 2020

Fuvest 2020 - segunda fase

Texto 1
Desde que a febre de possuir se apoderou dele totalmente, todos os seus atos, todos, fosse o mais simples, visavam um interesse pecuniário. Só tinha uma preocupação: aumentar os bens. Das suas hortas recolhia para si e para a companheira os piores legumes, aqueles que, por maus, ninguém compraria; as suas galinhas produziam muito e ele não comia um ovo, do que, no entanto gostava imenso; vendia-os todos e contentava-se com os restos da comida dos trabalhadores. Aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular, de reduzir tudo a moeda. E seu tipo baixote, socado, de cabelos à escovinha, a barba sempre por fazer, ia e vinha da pedreira para a venda, da venda às hortas e ao capinzal, sempre em mangas de camisa, de tamancos, sem meias, olhando para todos os lados, com o seu eterno ar de cobiça, apoderando-se, com os olhos, de tudo aquilo de que ele não podia apoderar-se logo com as unhas.
Aluísio Azevedo, O Cortiço.
Texto 2
(...) Rubião é sócio do marido de Sofia, em uma casa de importação, à Rua da Alfândega, sob a firma Palha & Cia. Era o negócio que este ia propor-lhe, naquela noite, em que achou o Dr. Camacho na casa de Botafogo. Apesar de fácil, Rubião recuou algum tempo. Pediam-lhe uns bons pares de contos de réis, não entendia de comércio, não lhe tinha inclinação. Demais, os gastos particulares eram já grandes; o capital precisava do regime do bom juro e alguma poupança, a ver se recobrava as cores e as carnes primitivas. O regime que lhe indicavam não era claro; Rubião não podia compreender os algarismos do Palha, cálculos de lucros, tabelas de preço, direitos da alfândega, nada; mas, a linguagem falada supria a escrita. Palha dizia coisas extraordinárias, aconselhava o amigo que aproveitasse a ocasião para pôr o dinheiro a caminho, multiplicá-lo.
Machado de Assis, Quincas Borba.

a) Como o contraste entre os trechos “já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular” e “não entendia de comércio, não lhe tinha inclinação”, respectivamente sobre as personagens João Romão e Rubião, reflete distintas linhas estéticas na prosa brasileira do fim do século XIX?

b) A partir das diferentes esferas sociais e práticas econômicas referidas nos fragmentos, trace um breve paralelo entre as trajetórias dos protagonistas nos dói.
Respostas:
a) Os trechos transcritos dos romances são exemplos das duas principais estéticas da prosa brasileira do final do século XIX: o Realismo e o Naturalismo. O Cortiço é obra do movimento naturalista, escola literária em que o cientificismo e o retrato de patologias individuais e sociais norteiam o desenvolvimento dos romances. No trecho citado, João Romão é apresentado de maneira caricatural, com destaque para sua “febre de possuir” e a “loucura” de que é tomado em nome do enriquecimento. Quincas Borba, por sua vez, é um romance realista da fase mais madura de Machado de Assis. Dentre as suas principais características, nota-se a ênfase no caráter psicológico na construção dos personagens e a crítica social, sobretudo no que diz respeito aos valores burgueses, marcados pela hipocrisia e pela exploração. Isso se nota por meio da sutileza com que o autor sugere a ingenuidade de Rubião diante da exploração de Cristiano Palha, como se nota em “não entendia de comércio, não lhe tinha inclinação”.

b) Rubião e João Romão são homens pobres que enriquecem ao longo da narrativa. Rubião enriquece pela sorte, ao receber a herança de Quincas Borba, e passa a viver no bairro do Botafogo, mesmo bairro em que a história do romance O Cortiço se desenvolve. João Romão, por sua vez, enriquece explorando trabalhadores braçais, ao utilizar-se de práticas ilícitas e ao explorar sua companheira, Bertoleza. Ambos os personagens terminam evidenciando algum tipo de decadência: Rubião perde o dinheiro, ao ser roubado e explorado por Cristiano Palha, enlouquece e morre sozinho, sem os bajuladores que o cercavam nas cortes. Seu fim no romance é, portanto, decadente. João Romão termina o romance ascendendo socialmente, mas à custa de um alto preço moral, o suicídio de Bertoleza. Trata-se, portanto, de uma decadência moral e ética.

6 de janeiro de 2020

Janeiras

Bicci di Neri
Ó de casa, alta nobreza Lisboa
Mandai-nos abrir a porta,
Ponde a toalha na mesa
Com caldo quente da horta!

Tendi, ferrinhos de prata,
Ao toque desta sanfona!
Trazemos ovos de pata
Fresquinhos, pra vossa dona.

Senhora dona da casa,
À ilharga do seu Joaquim,
Vermelha como uma brasa
E alva com um jasmim!

Vimos honrar a Jesus
Numas palhinhas deitado:
O candeio está sem luz
Numa arribana de gado.

Mas uma estrela dianteira
Arde no céu, que regala!
A palha ficou trigueira,
Os pastorinhos sem fala.

Dá-lhe calorzinho a vaca,
O carvoeiro uma murra,
A velha o que trás na saca,
Seus olhos mansos a burra.

Já as janeiras vieram
Os reis estão a chegar,
Os anos amadureceram:
Estamos para durar!

Já lá vem Dom Melchior
Sentado no seu camelo
Cantar as loas de cor
Ao cair do caramelo.

Ó incenso, mirra e oiro,
Que cheirais e luzis tanto,
Não valeis aquele tesoiro
Do nosso Menino santo!

Abride a porta ao peregrino,
Que vem de muito longe à neve,
De ver nascer o Menino
Nas palhinhas do preserve.

Acabou-se esta cantiga,
Vamos agora à chacota:
Já enchemos a barroga
Sigamos nossa derrota!

Rico vinho, santa broa
Calça o fraco, veste os nus!
Voltaremos a Lisboa
Pró ano, querendo Jesus.

Vitorino Nemésio (1901-1978)

5 de janeiro de 2020

Poema

Bryan Adam Castillo
Agora que o tempo parece todo meu
e ninguém me chama para o almoço ou jantar,
agora que posso ficar olhando
como uma nuvem se desvanece e desaparece,
como um gato caminha pelo telhado
no luxo imenso de uma exploração, agora
que em cada dia me espera
a ilimitada duração de uma noite
onde nada me chama e não há mais razão
para me despir com pressa e descansar dentro
da ofuscante doçura de um corpo que me espera,
agora que a manhã nunca começa
e silenciosa me deixa com os meus projetos
em todas as cadências da minha voz, agora
subitamente, gostaria da prisão.

Patrizia Cavalli
Tradução: Carlos Mendonça Lopes

4 de janeiro de 2020

Te dou de mim o que couber tua mão

Gustav Klimt
Te vendo um corpo gasto
e uma canção que tortura.
De vastos tenho meu sangue
e minha guerra.

Sou pouco
e vendo um corpo com tantos anos
de uso e uma sombra
que não me cabe.

Quando virá tua mão
que sempre salva?

Romério Rômulo

3 de janeiro de 2020

A casa do meu silêncio

Arthur Claude Strachan
A casa virá
em água barrenta
com teto e tormenta
a casa virá
No piso mais duro
no fio do espinho
no olho do escuro
no amargo do vinho.

A minha casa de magma
é toda ela de noite
e num pedaço de açoite
me vinga a força da légua.
Na casa que não me aguenta
eu sou um véu de tormenta
certeiro, visgo, placenta
de um dia que não virá.
A casa nem corre mais
na minha lágrima surda.
A casa só anda agora
numa estrada que me cerca.

É nela que encontro sempre
a minha água mais limpa
É nela que enterro sempre
o meu poema mais sujo.
Véus escuros e soberbos
que bebem a minha calma:
Esta casa é minha alma:
a casa do meu silêncio.

Romério Rômulo

2 de janeiro de 2020

Fogo

David P Lawrence Photography
Falo o que falo
minha voz não treme
nem tremula o ímpeto que nela há
ela é límpida
como o sol
sobre o varal de roupas penduradas
é certa, afiada
não carrega mentiras
essa é sua estrada
não camufla verdades
nem esconde emoções
é linguagem.

Jorge Salomão

1 de janeiro de 2020

Ano Novo

Pablo Picasso
Prepara-se o jardim.
Há um movimento do botão à flor
em câmera lenta.
O rosto pequeno das violetas
esconde seu perfume nas folhas
sussurrando segredos.
Salta o sabiá na aragem
e suplica à rosa de ontem
que não desfolhe seu rubor.

Promete a nova noite
a estrela que quisermos.
O CISNE – constelação que amamos –
cintila noutro céu.
Entre ar e folhagem
o pedido calado alcança
um pássaro estelar.

Dora Ferreira da Silva (1918-2006)

31 de dezembro de 2019

Último dia de um ano qualquer

Edward de Gale
Eis a chuva do último dia.
Levados são todos os outros
neste ar de chuva,
mais que o sol, dissipador de imagens.
Mas quem é que tange as cordas de um instrumento
delicadamente desafinado,
sobressaltando objetos sobre a mesa
e a madeira polida?
Há uma nota imprevista: leve pisar de outrora.

A chuva cessa. O ano findou
com seu vestido sóbrio, quase elegante.

Dora Ferreira da Silva (1918-2006)

30 de dezembro de 2019

Soneto

Barbara Olga Biglieri
Com os belos olhos teus vejo a luz clara
que com os meus, cegos, já não posso olhar;
com teus pés posso um peso carregar,
o que pra mim, manco, é coisa rara.
Com tuas asas pra sempre eu voara;
com teu engenho ao céu posso chegar;
fazes-me empalidecer ou corar,
gelado ao sol, na neve, um Saara.
O teu querer é só o querer meu,
meu sentimento nasce no teu peito,
no teu alento a minha voz busquei.
Como lua solitária sou eu,
que no céu não se pode ver direito
a não ser que reflita o astro-rei.

Michelangelo Buonarroti (1475-1564)
Tradução: Jorge Pontual

29 de dezembro de 2019

Caindo no sono

photograph by Kaye Menner
Pingos de chuva no teto de zinco.
O que eles dizem?
Nós todos já
Estivemos aqui.

Wendell Berry
Tradução: André Caramuru Aubert