27 de maio de 2017

Parece igual esta flor...

Vladimir Volegov
Parece igual esta flor
mas já não é.
De corpo decepado, ainda a cabeça move
todo a graça!
Só amanhã secará.
Aguentasse um dia a nossa esperança,
um dia apenas de cabeça viva
e corpo decepado,
aguentássemos nós a vida em nossos olhos
depois do corpo morto,
e em nós começaria a eternidade.

Mas a seiva que ilude bela flor
é mais forte que o sangue verdadeiro.

Maria Alberta Menéres

26 de maio de 2017

O pássaro da poesia

Lourry Legarde
O pássaro da poesia
O pássaro da poesia
soma de tanta asa
tanta pena
tanta amplidão,
é animal de grande potência
e autonomia,
os poetas, não.

Gotas de sangue eles são
nas veias do Pássaro-Mãe
e têm de cuidar de si
e do ávido bico materno
que se alimenta
dos filhos que gera.

Voa a Poesia
as grandes asas sombreando os caminhos.
O poeta vai a pé
sob olhares e zumbidos
junto a invisíveis muradas.

Sente frio
sob o sol
sente febre
e solidão.
Por onde vai os dedos apontam o vagabundo,
ele prossegue, entretanto.
É seu destino.
E ele não o troca
por nada deste mundo.

Abel Silva

25 de maio de 2017

A Poesia e Seu Sítio

Camille Pissarro
O sítio,
viveiro de signos.

Seres estranhos nascendo,
nomeá-los convinha.
Um outro dicionário então se abria.
Os frutos brilhando, o permanente cio.
Como deter o alarido de imagens?
Palavras novas logo soavam como trinos.
E num córrego nadava a metáfora de cada dia.

Samuel Penido (1934-2006)

24 de maio de 2017

Ode ao Cidadão Anônimo

Jacques Clément Wagrez
Tu, cidadão anônimo, igual a ti próprio e a mim/outro
Que compras tudo o que és capaz de comprar
E deitas para o lixo tudo o que compraste

Que ganhas a tua vida perdendo a tua vida
Vida que é pequena e que só tens uma
Mas finges ignorar

Que pagas as contas que fazes sem saber porquê
Mas esperas descontos nos contos do vigário
que os teus credores te contam

Tu que ainda há pouco alimentavas a ilusão
de que o que fazes é produtivo para o teu país,
vais verificando dia a dia
que o teu trabalho é inútil principalmente para ti
porque um dia te despedem
até ficares despido

porque quem não precisa de ti não quer senão o teu voto
e tu que te lixes no lixo
porque o trabalho que fizeste toda a vida
é muito mais bem feito por qualquer robot
e ninguém dá por isso se não for feito
por isso és despedido
Assim desfruta a tua liberdade de desempregado
o melhor que puderes
porque és livre e por isso descartável

Está é a mais extraordinária descoberta da sociologia neoliberal
cibernetizada e deves ficar feliz com isso!

Mas não digas a ninguém.
Chora essa tua felicidade sozinho.

Se és velho, nunca vás para uma casa de repouso.
Finge que trabalhas.
Finge que te pagam, mesmo sabendo que nada recebes
Porque dá mais gozo não receber um salário venenoso
Que é teu
Mas irá fortalecer o sistema capitalista
E o igualmente selvagem neoliberalismo…
De que tanto gostas
E em que votaste à toa!

E.M. de Melo e Castro

23 de maio de 2017

Cantilena

Vladimir Volegov
Num ocaso de granada
lhe entreguei o coração,
e ao despontar da alvorada
nos deram a bendição.
E do sino a repicada:
Dlim-dlão. Dlim-dão.

Depois rebentou a guerra,
se alistou num batalhão;
quando se perdeu na serra,
levava meu coração.
O sino da minha terra
vibrou: Dlim-dlão.

As cartas que me escrevia
inspiravam compaixão;
em todas elas dizia:
“Te trago no coração.”
A voz do sino se ouvia:
Dlim-dlão. Dlim-dlão.

Os vencedores o acharam
tendido ao pé do canhão;
no lugar aonde o enterraram
puseram meu coração.
De novo os sinos dobraram:
Dlim-dlão. Dlim-dlão.

Chorei, num pranto desfeito;
depois perdi a razão,
sinto rasgar-se-me o peito,
onde tive o coração,
quando o sino deste jeito
toca: Dlim-dlão.

Nicolle Garay (1873-1928)
Tradução: Aurélio Buarque de Holanda

22 de maio de 2017

Poema

Renoir
Todo o Ser, na sequência
das transformações, apela
um dia para ser outro.
Em Setembro, na pequena casa
de troncos e dúbio colmo,
apaga-se o alvor da manhã
em janelas, porventura poças.
Da soleira desce-se então
para um berço da caruma,
chão que inebria o olfato.
Depois do sol, as nuvens
insistem uns dias em espelhar-se
nos resíduos de chuva.

Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)

21 de maio de 2017

Balada das contraverdades

Paul Klee
Não há desvelos senão com a fome,
Nem favores que os de inimigos,
Nem mais gosto a quem o feno come,
Nem vigília que o sono amigo,
Nem clemência que a felonia,
Nem firmeza que a dos medrosos,
Nem mais fé que na apostasia,
Nem mais juízo que em amorosos.

Não se gera mais do que nos banhos,
Nem há mais renome que em bandidos,
Nem ri-se mais do que quem apanha
Nem mais honra que negar o devido,
Nem amor que na lisonjeria,
Nem encontro que o de inditosos,
Nem bons laços que na hipocrisia,
Nem mais juízo que em amorosos.

Não há mais paz que a do fadário,
Nem mais louvor que dizer: “Fora!”
Nem vanglória que a do falsário,
Nem saúde que na descora,
Nem audácia que em covardia,
Nem bom senso que em furiosos,
Nem dulçor que em mulher bravia,
Nem mais juízo que em amorosos.

Verdade quereis que vos diga?
Isto: o prazer só na anemia,
Lição veraz só a lenda abriga,
Langor não há mais que em valorosos,
O horrível som que em melodia,
Nem mais juízo que em amorosos.

François Villon (1431-1463)
Tradução: Sebastião Uchoa Leite‎

20 de maio de 2017

O amor e o amante

Luiz Pinto
És mesmo amor? Passa o fogo
Cruza com asas o mar,
Desperta na vida o sonho,
Dá formosura ao real.

Ou és apenas a sombra?
Cobre com teu resplendor
Tua mentira: que a sombra
Vença o forte, o puro amor.

Luis Cernuda (1902-1963)
Tradução: Antonio Cicero

19 de maio de 2017

O Último Poema

John William Godward - An Idle Hour
Não sei quem me manda a poesia
nem se Quem disso a chamaria.

Mas quem quer que seja, quem for
esse Quem (eu mesmo, meu suor?),

seja mulher, paisagem ou o não
de que há que preencher os vãos.

fazer, por exemplo, a muleta
que faz andar minha alma esquerda,

ao Quem que se dá à inglória pena
peço: que meu último poema

mande-o ainda em poema perverso,
de antilira, feito em antiverso.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

18 de maio de 2017

Purgatório

Félix Edouard Vallotton
As dores do mundo não as sofre o mundo.
Embora os matem, torturem, entristeçam,
embora lhes violem quem mais querido,
embora percam tudo o que nem tinham,
os homens sofrem porque sofrer dói menos.

Mas no centro do universo,
do coração que a humanidade ainda não tem,
do âmago das dores que ainda não sente,
da terra a passar toda pela carne,
da carne apenas vida sobre a terra,
uns poucos homens não sofrem nem contemplam:
ardem nas chamas que aos outros faltam.

Jorge de Sena (1919-1978)

17 de maio de 2017

O verão é o êxtase do fogo.

Ron Di Scenza
Desabrocha francamente a primavera púbere. O esplendor viçoso das formas da juventude aguarda a carícia da asa do estio que aquece e fecunda. Chega então a festa do amor, a orgia do fogo.
Fulge no abrasado zênite o sol, como um troféu de espadas nuas e a natureza enleada pelas serpentes da lascívia estival, debate-se à luz, vencida, - bela amante que sucumbe ao amor carnívoro, pungente de um semideus guerreiro, na própria tenda de campanha, bêbado ainda do furor do reencontro, excitado pelo cheiro cruento da matança.
Ser amada assim! suspirava a selvagem Rute, meiga e aérea criança, no fundo misterioso do sangue.
Raul Pompéia (1863-1895)

16 de maio de 2017

A casa da cortesã

Adrienne Stein
O Fio colhemos dos pés que dançam,
Vagávamos pela rua enluarada
E paramos em baixo da casa da cortesã.

Lá dentro, acima, do rumor e do motim,
Ouvimos os músicos, alto, tocarem
O “Coração amado e fiel” de Strauss.

Como estranhos e mecânicos bonecos,
Traçando fantásticos arabescos,
As sombras corriam além da persiana.

Vamos girar os fantasmais dançantes
Aos acordes da trompa e do violino,
Como folhas secas girando ao vento.

Como bonecos movidos a cordel,
Dos esqueletos a magra silhueta
Desliza ao som lento da quadrilha.

Em cadeia, todos, de mão dada,
Dançavam majestosa sarabanda;
Frios e agudos seus risos ecoavam.

Às vezes boneca mecânica apertava
A seu peito um amado fantasmal,
Tentar cantar às vezes pareciam.

Às vezes uma horrenda marionete
Surgia e fumava seu cigarro
Sobre os degraus, como uma coisa viva.

Então, voltando-se para minha amada, disse:
“Os mortos estão dançando com os mortos,
O pó com o pó girando está”.

Ela, porém...ela ouviu o violino
E deixando-me de lado, ali entrou:
O amor penetrou na casa da luxúria.

Então de súbito soou falso o som,
Cansaram-se de valsar os dançarinos,
As sombras cessaram de revolutear.

E pela rua longa e silenciosa
A aurora de sandálias prateadas
Furtiva deslizou como moça espantada.

Oscar Wilde (1854-1900)
Tradução: Oscar Mendes

15 de maio de 2017

Questão de Pontuação

Cícero Dias
Todo mundo aceita que ao homem
cabe pontuar a própria vida:
que viva em ponto de exclamação
(dizem: tem alma dionisíaca);

viva em ponto de interrogação
(foi filosofia, ora é poesia);
viva equilibrando-se entre vírgulas
e sem pontuação (na política):

o homem só não aceita do homem
que use a só pontuação fatal:
que use, na frase que ele vive
o inevitável ponto final.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

14 de maio de 2017

Apontamentos para uma Ficção Suprema

Stephen Darbishire

IX
O poema oscila entre a algaravia
Do poeta e a do vernáculo. Será
Que vai de um ao outro ou é dos dois

Ao mesmo tempo? É luminoso esvoaçar
Ou é concentração de um dia sem sol?
Há um poema que jamais chega à palavra

E outro tagarela? O poema é ao mesmo tempo
Peculiar e geral? Aqui reside
Uma meditação, talvez até

Uma evasão, algo não apreendido
Ou mal apreendido. O poeta
Nos escapa em meio ao sem-sentido?

Este orador intenso e dependente,
Porta-voz em nossas mais brutas barreiras,
Expoente por um modo de dizer, falante

De uma fala que é da língua só um pouco?
Ele busca é a algaravia do vernáculo,
E com fala peculiar tenta exprimir

A peculiar potência do geral,
Fundir o latim da imaginação
Com a língua franca et jocundissima.

Wallace Stevens (1879-1955)
Tradução: Paulo Henriques Britto

13 de maio de 2017

Adora a flor das árvores...

Vincent van Gogh
Adora a flor das árvores, adora
toda a vaidade que das coisas vem.

Por ela nos traímos e vencemos,
e em cada hora de traição esquecemos
a dor de fruto que esta flor contém.

Maria Alberta Menéres

12 de maio de 2017

Soneto

Pierre Cot
Tenho um mistério na alma e um segredo na vida:
Eterno amor que, num momento, apareceu.
Mal sem remédio, é dor que conservo escondida
E aquela que o inspirou nem sabe quem sou eu.

A seu lado serei sempre a sombra esquecida
De um pobre homem de quem ninguém se apercebeu.
E hei de esse amor levar ao fim da humana lida,
Certo de que dei tudo e ele nada me deu.

E ela que Deus formou terna, pura e distante,
Passa sem perceber o murmúrio constante
Do amor que, a acompanhar-lhe os passos, seguirá.

Fiel ao dever que a fez tão fria quanto bela,
Perguntará, lendo estes versos cheios dela:
"Que mulher será esta?" E não compreenderá.

Félix Arvers (1896-1850)
Tradução: Olegário Mariano

11 de maio de 2017

Fausto (sozinho), versos 602 a 639

Félix Edouard Vallotton
Que espera ainda a cabeça que se crava
Só na matéria estéril, rasa e fria,
Que por tesouros com as mão cobiçosa cava
E ao encontrar minhocas se extasia?

Pode soar de tal voz humana o desconcerto
Onde reinaste vós, gênios incorporais?
Mas, devo hoje ainda agradecer-te,
Mais reles, tu, de todos os mortais!

Vieste arrancar-me a tão negra aflição,
Que em breve destruiria o juízo meu.
Ah! foi tão gigantesca a aparição,
Que mais devo sentir-me anão, mero pigmeu.

Retrato, eu, da Deidade, eu, que me julguei ver
Perto do espelho já, da perene verdade,
Gozando o Eu próprio em luz celeste e claridade,
Já despejado o térreo ser;
Eu, mais que Querubim, cuja força arrogante
Da natureza ousou, já, penetrar a fio
As veias, e auferir, criando, com alto brio!
Vida de deuses, como agora o expio!
Aniquilou-me o teu ditado troante.

A ser-te igual não me devo atrever!
Se fui, para atrair-te, assaz possante,
De segurar-te eu não tive o poder.
Naquele instante, ah! que abençoado!
Tão grande me senti. E tão pequeno!
Teu golpe repeliu-me, em pleno,
Ao indeciso, humano fado.
Que evito? hei de acatar que ensinamentos?
Aquela aspiração, dar-lhe-ei seguida?
Nossas ações, bem como os nossos sofrimentos
O curso nos obstruem da vida.

Matéria estranha, sempre, ao máximo se aferra
Ao que já alcançou o pensamento humano;
Quando o que é bom se atinge sobre a terra,
O que é melhor se chama de erro, engano.
Os que nos deram vida, altíssimos sentidos,
Na térrea agitação quedam-se entorpecidos.

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)
Tradução: Jenny Klabin Segall.

10 de maio de 2017

Assim a pintaram…

Pietro Cavallini
Assim a pintaram; sobretudo alguém,
que do sol a saudade trazia.
Nele de todos os enigmas mais pura amadurecia,
mas do sofrimento cada vez mais se fez refém:
toda a sua vida foi como alguém que lágrimas vertia,
a quem o choro às mãos parar ia.

Ele é o mais belo véu do seu penar,
que se ajusta a seus lábios de cores magoadas,
e sobre eles quase em sorriso se vem a transformar…
e pela luz de sete velas por Anjos levadas
o seu segredo não se deixa desvendar.

Rainer Maria Rilke (1875-1926)
Tradução: Maria Teresa Dias Furtado

9 de maio de 2017

O perguntador

Jan Brueghel, o Velho
Longe, bem dentro lá da minha casa quente,
na negra confusão das veias e do sangue,
roda o perguntador, roda e ronda em sua mente:
busca saber por que tanta gente passando?

O morto que eu serei pasma de estar em vida,
do gato no seu colo a ronronar por nada,
do céu tão grande em vão, da estulta ventania
que sacode o olmeiro e acalma-se por nada.

Por que um cavalo baio? E por que verde o abeto?
Por que aquele senhor a fazer adições,
a fazer conta: um sol, dois cães, três pássaros pretos,
conta nos dedos cheios de suposições?

Conta nos dedos, mas nos seus cálculos perde
a razão de contar, razão de ter sonhado,
razão de estar ali, de escrúpulos inerte,
e de ser homem, vivo sem ser convidado.

Claude Roy (1915-1997)
Tradução: Mário Laranjeira.

8 de maio de 2017

Soneto em Busca de um Autor

Leonid Afremov
Corpos nus como troncos descascados
exalam por vezes um aroma dos mais
doces, homem e mulher

sob as árvores em pleno desregramento
condizente com a alfombra de

perfumosas folhas de pinheiro
bordada de madressilvas rasteiras
um soneto podia ser feito disso

Podia ser feito disso! aroma de desregramento
aroma de agulhas de pinheiro, aroma de
troncos descascados, aroma de aroma algum
salvo o de madressilvas rasteiras que

não têm aroma, aroma de mulher nua
por vezes, aroma de homem.

William Carlos Williams (1883-1963)
Tradução: José Paulo Paes

7 de maio de 2017

Que isto seja esquecido

Nikolai Petrovich Bogdanov-Belsky
Que isto seja esquecido como uma flor, ou como
fogo de áureo gorgeio que ninguém já relembre...
É bom amigo, o tempo, que nos traz a velhice.
Que isto seja esquecido e para todo o sempre.

E se alguém perguntar, dize _ foi esquecido
há muito, muito tempo,
como uma flor, um fogo, uma surda pegada
numa neve esquecida há um tempo imenso...

Sara Teasdale (1884-1933)
Tradução: Cecília Meireles

6 de maio de 2017

À poesia entendida como uma maneira de organizar a realidade, não ‎de representá-la.

Vladimir Kush
O que nela apraz,
apraz à índole das coisas,
inicialmente sem ir dirigidas a ninguém,
e em essência visões,
e a reflexão
determinando que impulsos, ideias obscuras,
alcancem análogo peso, homologadas
em sentenças que outras
sentenças transformam,
compelidas
pelo que a poesia exige,
o que o poema
há de oferecer à vista,
afetar os sentidos,
o que terá
de oferenda móvel,
em um mundo estático,
e o que a paisagem, os milhões
de gestos universais pedem,
ser formulados
em tecidos de duração perene, claros
de desenho, vozes modificando
hábitos de conceitos e categorias,
e observando
que mais além da verdade
está o estilo
aperfeiçoador da verdade
porque leva em si
a prova de sua existência.

Escreve-a,
extrai dessa ordem
teus reais propósitos,
maior miséria
que a morte ou o nada
é o irreal, o real sem propósitos.

Alberto Girri (1919-1991)
Tradução: Bella Jozef

5 de maio de 2017

A Exaltação dos Sentidos

Vincent van Gogh
O outono despe os plátanos, tecendo,
ao longo da alameda,
uma complicação de talagarça...
Maquinalmente estendo
o olhar vadio: um turbilhão de seda
foge, num passo elástico de garça.

Sigo a silhueta: a curva ágil do salto
toca, leve, o betume.
Sigo-a... e, seguindo a sedução fugace
daquela flor do asfalto,
embriaga-me um anônimo perfume
que é como um beijo que se evaporasse...

Alcanço-a, falo. E ela responde, a esmo,
qualquer coisa que tange
no bojo azul da tarde de opala...
E eu não distingo mesmo
se é sua voz de tafetá que range,
seco ranger do vestido que me fala,

Toco-a de levo e com unção tamanha
– a unção que o outono evoca –
que sinto apenas que por mim perpassa
a sensação estranha
que acaricia os dedos de quem toca
um pensamento, um sonho, uma fumaça...

Beijo-a: sinto um sabor inédito e acre.
E beijando-a, parece
que a não beijei, mas que a provei... É como
se uma flor cor de lacre
houvesse haurido o pólen ou tivesse
mordido a polpa histérica de um pomo.

Deixo-a... Eu nunca supus que, eternamente,
meus olhos, meu olfato,
meu paladar, meu tato e meus ouvidos
sentiriam somente
essa que hoje e o meu êxtase insensato
e a eterna exaltação dos meus sentidos!

Guilherme de Almeida (1860-1969)