20 de outubro de 2014

Ácidos e Óxidos

Pierre Auguste Renoir
“Nesta altura do ano quando o vento sopra
Sobre os nossos dias, sabes quem gostava de ser?
Não, cargos ou honras não. Um simples gato ao sol,
Talvez uma maneira ou um sentido para as coisas”.

Ruy Belo (1933-1978)

Cala-te...

Egidio Antonaccio
Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não contempla,
sempre o amor procura,
tacteia no escuro,
essa perna é tua? esse braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua,
morreria agora se mo pedisses,
dorme,
nunca o amor foi fácil,
nunca, também a terra morre.

Eugénio de Andrade (1923-2005)

19 de outubro de 2014

De tudo ficaram três coisas

Sir Peter Paul Rubens
De tudo ficaram três coisas:
A certeza de que estamos começando,
A certeza de que é preciso continuar e
A certeza de que podemos ser
interrompidos antes de terminar
Fazer da interrupção um caminho novo,
Fazer da queda um passo de dança,
Do medo uma escola,
Do sonho uma ponte,
Da procura um encontro,
E assim terá valido a pena existir!

Fernando Sabino (1923-2004)
em "Encontro Marcado"

Fragmento

Caspar David Friedrich
É curioso. Vós suspeitais de que nós dois somos a mesma pessoa. Porém, vós recordais muitas coisas da vossa vida e eu pouquíssimas da minha. Pelo contrário, como prova o vosso diário, vós não sabeis nada de mim, enquanto eu me estou a aperceber de que recordo outras coisas, e não poucas, do que vos aconteceu e - nem por acaso - exatamente aquelas de que parece que vós não conseguis recordar-vos. Deverei dizer que, se posso recordar tantas coisas de vós, então eu sou vós?
Talvez não; somos duas pessoas diferentes, envolvidas por qualquer misteriosa razão numa espécie de vida comum, eu sou, no fundo, um eclesiástico, e sei de vós talvez aquilo que me haveis contado sob o segredo da confissão. Ou sou aquele que tomou o lugar do Dr. Froïde e, sem que vos recordeis disso, extraiu do mais profundo do vosso ventre aquilo que tentáveis manter sepultado?
Umberto Eco
"O Cemitério de Praga".

18 de outubro de 2014

Cantiga

John William Waterhouse
Ai! A manhã primorosa
do pensamento...
Minha vida é uma pobre rosa
ao vento.

Passam arroios de cores
sobre a paisagem.
Mas tu eras a flor das flores,
imagem!

Vinde ver asas e ramos,
na luz sonora!
Ninguém sabe para onde vamos
agora.

Os jardins têm vida e morte,
noite e dia...
Quem conhecesse a sua sorte,
morria.

E é nisso que se resume
o sofrimento:
cai a flor, - e deixa o perfume
no vento!

Cecília Meireles (1901-1964)

Análise: A vida é apresentada metaforicamente como uma rosa. O eu lírico cria a analogia a partir da ideia de que os seres humanos se apegam às aparências (à imagem), que estão destinadas a desaparecer com a passagem do tempo. A regularidade dos ciclos da natureza (vida e morte, noite e dia) comprova a transitoriedade da vida. Na última estrofe, revela-se a razão do sofrimento humano: as lembranças do passado (o perfume da rosa) continuam a existir, mesmo depois da destruição da forma que as gerou.
Recorrendo a formas poéticas simples como a cantiga, Cecília Meireles desenvolve temas como o amor, o tempo, a transitoriedade da vida e a fugacidade das coisas. Em sua poesia, a natureza marca os ritmos da vida. Resta-nos aceitá-los com tranquilidade.

Retrato

Dario Villares Barbosa - A moura
Deixei em vagos espelhos
a face múltipla e vária,
mas a que ninguém conhece
essa é a face necessária.

Escuto quando me falam,
de alma longe e rosto liso,
e os lábios vão sustentando
indiferente sorriso.
A força heroica do sonho
me empurra a distantes mares,
e estou sempre navegando
por caminhos singulares.

Inquiri o mundo, as nuvens
o que existe e não existe,
mas, por detrás das mudanças,
permaneço a mesma, e triste.

Marly de Oliveira (1935-2007)

17 de outubro de 2014

Livro do Desassossego

Pierre Puvis de Chavannes
Há uma erudição do conhecimento, que é propriamente o que se chama erudição, e há uma erudição do entendimento, que é o que se chama cultura. Mas há também uma erudição da sensibilidade.
Étienne Bonnot de Condillac (1715-1780) começa o seu livro célebre,
Por mais alto que subamos e mais baixo que desçamos, nunca saímos das nossas sensações. Nunca desembarcamos de nós. Nunca chegamos a outrem, senão outrando-nos pela imaginação sensível de nós mesmos. As verdadeiras paisagens são as que nós mesmos criamos, porque assim, sendo deuses delas, as vemos como elas verdadeiramente são, que é como foram criadas. Não é nenhuma das sete partidas do mundo aquela que me interessa e posso verdadeiramente ver; a oitava é a que percorro e é a minha ”.
Bernardo Soares
(heterônimo de Fernando Pessoa)
Livro do Desassossego, Fragmentos 138

Os Dias de Vinho e Rosas

Christopher and Amanda Elwell
Não são longos, o riso e o choro,
o amor, o desejo e o ódio;
Porção nenhuma em nós terão,
imagino,
após o portal cruzarmos.

Não são longos, os dias de vinho e rosas:
De um sonho em névoa
nosso caminho por um instante desperta
depois dentro de um sonho
se encerra.

Ernest Dowson (1867-1900)
Tradução: Fernando Campanella

16 de outubro de 2014

Há Dias

Joachim Faber
Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-me comigo
quero eu dizer:
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça ou da alegria
um sorriso abre-se então num verão antigo
e dura... dura ainda.

Eugénio de Andrade (1923-2005)

Porque viajas Marco Polo?

Uma parte do Atlas Catalão que foi criado pelo cartógrafo de Maiorca Abraham Cresques
Em uma das várias conversas entre o viajante Marco Polo e o imperador Kublai Khan, Khan questiona qual o propósito de viajar.
"Marco entra numa cidade; vê alguém numa praça que
vive uma vida ou um instante que poderiam ser seus; ele podia estar no lugar daquele homem se tivesse parado no tempo tanto tempo atrás, ou então se tanto tempo atrás numa encruzilhada tivesse tomado uma estrada em vez de outra e depois de uma longa viagem se encontrasse no lugar daquele homem e naquela praça.
Agora, desse passado real ou hipotético, ele está excluído; não pode parar; deve prosseguir até uma outra cidade em que outro passado aguarda por ele, ou algo que talvez fosse um possível futuro e que agora é o presente de outra pessoa. Os
futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos.
- Você
viaja para reviver o seu passado? - era, a esta altura, a pergunta do Khan, que também podia ser formulada da seguinte maneira - Você viaja para reencontrar o seu futuro?
E a resposta de Marco:
- Os outros lugares são espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu ao descobrir o muito que não teve e não terá.
Italo Calvino (1923-1985)
(As Cidades Invisíveis)

15 de outubro de 2014

Aos nossos filhos

Patrick William Adam
Meu filho, se acaso chegares, como eu cheguei a uma campina de horizontes arqueados, não te intimidem o uivo do lobo, o bramido do tigre; enfrenta-os nas esquinas da selva, olhos nos olhos, dedo firme no gatilho.
Meu filho, se acaso chegares a um mundo injusto e triste como este em que vivo, faze um filho; para que ele alcance um tempo mais longe e mais puro, e ajude a redimi-lo.
Paulo Mendes Campos (1922-1991)

Dia dos Professores

“A educação tem raízes amargas,
mas os frutos são doces”.

Aristóteles
Winslow Homer - The Country School
Professor é uma pessoa que ensina uma ciência, arte, técnica para outros (alunos). É uma das profissões mais antigas e mais importantes, tendo em vista que as demais, na sua maioria, dependem dela.
Já Platão, na sua obra A República, alertava para a importância do papel do professor na formação do cidadão.
Platão acreditava que, por meio do conhecimento, seria possível controlar os instintos, a ganância e a violência. O acesso aos valores da civilização, portanto, funcionaria como antídoto para todo o mal cometido pelos seres humanos contra seus semelhantes.
↬↬ O Dia Mundial dos Professores celebra-se a 5 de Outubro. ↠ No Brasil, o Dia do Professor é dez dias depois, em 15 de Outubro.
A sala de aula é o espaço privilegiado de negociações e de produção de novos sentidos e isso acontece em uma rede interativa em que se tornam presentes e se atualizam a história de vida.
Do professor espera-se que conduza o seu grupo de alunos, buscando compreender e negociar os diferentes processos de significação que envolvem as situações de aprendizagem que planejou. Tem sido comum identificar o professor nesse papel de mediador, atribuindo a ideia à abordagem histórico-cultural.

14 de outubro de 2014

Entendimento Perfeito

Foto de Jessica Jenney
Sentaram-se no banco e se calaram,
tentando entender o silêncio.
As palavras tinham um sentido além
delas mesmas. O silêncio seria,
sempre, o único meio de
entendimento perfeito.

Fernando Sabino (1923-2004)
In "O Encontro Marcado"

Uma Cena

Antoine Auguste Ernest Herbert
Vês acordada como em sonho
o sonho mau tal fosse belo
— o belo horror do real
ou lúcida, clara, exata,
não como é visto sol a pino
ou através da água,
como quem vê dentro do mar
ou através de um vidro fosco,
mais, no fundo de um espelho,
não o que mostra a imagem
mas aquele que a deforma
inteiro fora de foco.
Olga Savary

13 de outubro de 2014

Serenata

Jakub Schikaneder
Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.

Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.

Cecília Meireles (1901-1964)

Flor na muralha fendida

John William Waterhouse
“Flor na muralha fendida,
eu colho-te das fendas,
seguro-te aqui, raiz e tudo, na minha mão,
pequena flor… mas se eu pudesse compreender
o que tu és, raiz e tudo, e tudo em tudo,
eu deveria saber o que Deus e o homem é.”

Alfred Lord Tennyson (1809-1892)
Tradução: Octávio Santos

12 de outubro de 2014

A criança é o que fazemos com ela

Dia da Criança
Victor Gabriel Gilbert
Oscar Wilde dizia que “a melhor maneira de tornar as crianças boas, é torná-las felizes.” E assim outros grandes pensadores já nos ensinam que uma criança é exatamente o reflexo daquilo que recebe. Embora sem qualquer conhecimento científico, pais e mães que amam seus filhos reconhecem que eles retribuem exatamente com aquilo que é oferecido a eles e percebem que no dia-a-dia de suas vidas seus filhos tiveram problemas de relacionamento, em casa, na escola ou com amigos exatamente em momentos de crise dos pais.
As crianças são fontes de inspiração para as mais belas poesias, os mais belos contos da literatura, mas muitas vezes, não são aceitas, compreendidas ou amadas por seus pais. Para os profissionais da área saúde, educação ou assistência social constatarem as mazelas vividas por crianças desde a sua gestação são fontes inspiradoras para programas sociais que vem de encontro ao despertar de pais, mães ou responsáveis não só do dever com cuidados como de trabalharem estas famílias para amarem estas crianças para que tenham um desenvolvimento saudável. Pode parecer utópico dizer que se ensina a amar, mas há necessidade de ensinar as famílias amarem seus filhos, isto é uma constatação, é uma verdade.
Dizer frases bonitas, escrever belos poemas só terão efeito se experimentarmos este amor. Não basta frases bonitas se apenas demonstrado especialmente pela mídia no dia da criança para estimular o comércio ou a venda de algumas propostas publicitárias.

11 de outubro de 2014

Voo

Pierre Carrier-Belleuse
Alheias e nossas as palavras voam.
Bando de borboletas multicores,
as palavras voam
Bando azul de andorinhas,
bando de gaivotas brancas,
as palavras voam.
Viam as palavras como águias imensas.
Como escuros morcegos como negros abutres,
as palavras voam.
Oh! alto e baixo em círculos e retas acima de nós,
em redor de nós as palavras voam.

E às vezes pousam.

Cecília Meireles (1901-1964)

O Poeta e o Tempo

Gustave Moreau
São sempre iguais na idade os deuses e as quimeras.
O poeta é um deus também. Pertence-lhe o infinito.
Perdido na amplidão sempiterna do mito,
Fica de todo alheio ao desfilar das eras.

Sucumbam gerações no círculo restrito
E passem, no vaivém sem fim, as primaveras.
O poeta há de viver, para além das esferas,
Esquecido e imortal, todo entregue ao seu rito.

Eclíticas de sóis, movimentos dos astros,
Outonos e verões correndo atrás de invernos,
Tudo isso diz que o mundo anda também de rastros.

A própria formosura é vã nesses infernos:
O sepulcro dispersa em pó os alabastros.
Unicamente Deus e o Poeta são eternos.

Félix Pacheco (1879- 1935)

10 de outubro de 2014

À Melancolia

Roy Hodrien
No vinho ou entre amigos, de ti eu fugia,
pois do teu olho escuro eu sentia pavor:
ingrato filho teu, assim eu te esquecia
ao toque do alaúde e nos braços do amor.

Com toda a discrição, no entanto, me seguias:
sempre estavas no vinho que eu tonto bebia
e no mormaço das minhas noites de amor
e no desdém com que eu a ti me referia.

Agora me refrescas os membros cansados
e tens minha cabeça em teu colo macio,
para o regresso das minhas longas viagens
- pois a ti me traziam todos os meus desvios.

Hermann Hesse (1877-1962)
Tradução: Geir Campos

Do cimo da montanha

Pierre Puvis de Chavannes
Musa, para um momento aqui, musa severa!
Olha deste alto cimo a Pátria, o Sonho, a Vida...
Mede toda a extensão imensa percorrida,
E o presente, e o porvir esmiúça, e considera!

Interpreta, na estrofe, a saudade sincera,
E realça, firme, o traço à página esquecida!
Canta a luz que te doura, e estende-a, refletida,
Sobre os rincões natais, que tua alma venera!

Mas grava tudo lenta, unindo, com orgulho,
O esto dos palmeirais, e a harmonia dos trenos,
Como na relação do efeito para as causas...

Junta o carme à epopeia, enlaça o grito e o arrulho,
E os quarenta anos teus se fixarão, serenos,
Num longo beijo quente, ampliado em sóis e em pausas...

Félix Pacheco (1879- 1935)

9 de outubro de 2014

Sinto

Eugène Delacroix - Ophelia
Sinto
que em minhas veias arde
sangue,
chama vermelha que vai cozendo
minhas paixões no coração.

Mulheres, por favor,
derramai água:
quando tudo se queima,
só as fagulhas voam
ao vento.

Federico Garcia Lorca (1898-1936)
Tradução: Oscar Mendes

Minha aldeia

Walter Bibikow
Minha aldeia é todo o mundo.
Todo o mundo me pertence.
Aqui me encontro e confundo
com gente de todo o mundo
que a todo o mundo pertence.

Bate o sol na minha aldeia
com várias inclinações.
Ângulo novo, nova ideia;
outros graus, outras razões.
Que os homens da minha aldeia
são centenas de milhões.

Os homens da minha aldeia
divergem por natureza.
O mesmo sonho os separa,
a mesma fria certeza
os afasta e desempara,
rumorejante seara
onde se odeia em beleza.

Os homens da minha aldeia
formigam raivosamente
com os pés colados ao chão.
Nessa prisão permanente
cada qual é seu irmão.
Valências de fora e dentro
ligam tudo ao mesmo centro
numa inquebrável cadeia.
Longas raízes que imergem,
todos os homens convergem
no centro da minha aldeia.

António Gedeão (1906-1997)

8 de outubro de 2014

Sê Rei de Ti Próprio

Átropos cortando o fio da vida
Não tenhas nada nas mãos
Nem uma memória na alma,
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último,...
Ao abrirem-te as mãos
Nada te cairá.

Que trono te querem dar
Que Átropos to não tire?
Que louros que não fanem
Nos arbítrios de Minos?

Que horas que te não tornem
Da estatura da sombra
Que serás quando fores
Na noite e ao fim da estrada.

Colhe as flores mas larga-as,
Das mãos mal as olhaste.
Senta-te ao sol. Abdica
E sê rei de ti próprio.

Ricardo Reis
Fernando Pessoa (1888-1935)

O Branco e o Timbira

(Indígena Brasileiro)
Johann Moritz Rugendas
O branco disse ao timbira:
– Não me inspiram, sertanejo,
Estes bosques, estas matas;
– Nem eu vejo
De que te ufanes aqui:
Vem comigo — minha terras
Tem mais lindas variedades
Vida, amor, ouro, prazeres,
Nas cidades
Tudo enfim, terás — ali.

O timbira disse ao branco:
– Cariúra, deixa a cidade,
– Vem viver com o sertanejo,
– Aqui tens a liberdade. –
Bruno Seabra (1837-1876)