30 de janeiro de 2015

Percepção da Realidade

Alphonse Mucha - Zodiac
“O homem, como podemos perceber ao refletirmos um instante, nunca percebe plenamente uma coisa ou a entende por completo. Ele pode ver, ouvir, tocar e provar. Mas a que distância pode ver, quão acuradamente consegue ouvir, o quanto lhe significa aquilo que toca e o que prova, tudo isso depende do numero e da capacidade dos seus sentidos. Os sentidos do homem limitam a percepção que este tem do mundo à sua volta.
Além disso, há aspectos inconscientes na nossa percepção da realidade. O primeiro deles é o fato de que, mesmo quando nossos sentidos reagem à fenômenos reais, a sensação visuais e auditivas, tudo isso, de certo modo, é transposto da esfera da realidade para a da mente”.
Carl Gustav Jung (1875-1961)
O homem e seus Símbolos

Poesia Erótica

Jean-Marc Nattier
Agora está o solo puro, e as mãos de todos nós
e os cálices. Um põe-nos as coroas entretecidas,
e outro oferece-nos numa taça a essência fragrante.
O crater
¹ está repleto de boa disposição.
Está já pronto outro vinho, que garante que jamais
abandona ao barro o cheiro a mel da sua flor.
No meio, uma árvore de incenso desprende um
sacro aroma; a água está fresca, doce e pura.
Aqui temos os fulvos
² pães e a mesa suntuosa,
carregada de queijo e de pingue mel.
Ao meio, o altar está todo coberto de flores.
A música festiva domina o ambiente.
Ao deus devem os homens sensatos entoar primeiro um hino,
com ditos de bom augúrio e palavras puras.
Depois de fazer as libações e preces para procederem
com justiça — pois isso é a primeira lisa —
não é insolente beber até ao ponto de se poder voltara casa
sem ajuda de um escravo, a menos que se seja muito idoso.

Xenófanes de Cólofon (570-475 a.C.)
Tradução: Maria Helena da Rocha Pereira
(Fragmento 1, Ed. Diels-Kranz, versos 1-18)

1. Crater = Taça, ➞ é uma constelação do equador celeste.
2. Fulvos = Cor que fica entre o ruivo e o louro dourado

29 de janeiro de 2015

Saudade

Paul Cézanne
Por que sinto falta de você? Por que esta saudade?
Eu não te vejo, mas imagino suas expressões,
Sua voz, teu cheiro.
Sua amizade me faz sonhar com um carinho,
Um caminhar, a luz da lua, a beira mar.
Saudade este sentimento de vazio que me tira
O sono me fazendo sentir num triste abandono,
É amizade eu sei, será amor talvez...
Só não quero perder sua amizade, esta amizade...
Que me fortalece me enobrece por ter você.

Machado de Assis (1839-1908)

Num vergel mui deleitoso

William-Adolphe Bouguereau
Num vergel¹ mui deleitoso
entrei por minha ventura,
onde achei toda a doçura
e prazer muito gostoso;
a entrada foi escura
e causado por natura,
de morar mui perigoso.

Em muito espessa montanha
este vergel foi plantado,
por toda a parte cercado
por ribeira muito estranha:
quem alguma vez se banha
em sua fonte perenal
²,
pelo curso natural,
tanta doçura o engana.

Maçãs e muitas romãs
o cercam por toda a parte;
não há homem que se farte
de suas frutas temporãs;
mas, amigos, não são sãs
para quem delas muito usa,
pois gozando-as não se escusa
a que não faltem maçãs.

Calhandras
³ e ruisenhores*
nele cantam noite e dia,
fazendo alta melodia
além variações multicolores;
e outras aves melhores
papagaios, filomelas;
cantam sereias serenas
que fazem dormir de amores.

A entrada do vergel
a mim foi sempre defesa,
mas, amigos, não me pesa
por bem saber o que há nele;
é mais doce do que o mel
o orvalho que dele mana,
que toda a tristeza sana
o prazer que mana dele.
Frei Diego de Valência (1350-1412)
Tradução: José Bento

1. Vergel = pomar
2. Perenal = Perpétuo, Eterno.
3. Calhandras = nome comum dado a certas aves europeias.
* Ruisenhores = o mesmo que rouxinol.

28 de janeiro de 2015

Poema XXXIII

Caesar Boëtius van Everdingen - Nymphs Offering Bacchus Wine and Fruit
A noite passada
à hora em que a Ursa,
mais perto discursa
da mão do Boieiro,
e o sono profundo
no grémio fagueiro
por todo esse mundo
restaura os mortais,
em meio era a noite;
o exemplo dos mais
no leito eu seguia;
sereno dormia…
À porta imprevisto
Cupido me bate!
À pressa me visto;
redobra o rebate;
acudo a correr.
“Sou eu — diz de fora —
não tens que temer;
sou um pequenino
que vaga, a tal hora,
molhado e sem tino,
perdido no escuro,
pois lua não há!”
Ouvi-lo gemendo
de mágoa me corta;
a lâmpada acendo,
franqueio-lhe a porta…
em casa me está!
Descubro (em verdade mentido não tinha)
gentil criancinha
com arco e carcaz.
Remexo nas brasas
da minha lareira;
restauro a fogueira;
as mãos, que são gelo,
lhe aqueço nas minhas,
lhe espremo o cabelo,
lhe enxugo as azinhas;
já frio não faz.
— “Vejamos se a chuva
(dizia e sorria)
a corda do arco
me não danaria!”
Levanta-o do chão;
recurva-o, dispara
no meu coração.
A frecha que o vara
parece um tavão.
Eu, dores danadas,
e o doudo às risadas
de gosto a pular!
— “Meu caro hospedeiro,
(me diz prazenteiro)
agora é folgar.
Permite me ausente;
meu arco está são…
Quem fica doente
é teu coração!”
Anacreonte (563-478 a.C.)
Tradução: António Feliciano de Castilho

A uma Senhora

Abraham Solomon
Já, Marfísia cruel, me não maltrata
Saber que usas comigo de cautelas,
Que inda te espero ver, por causa delas,
Arrependida de ter sido ingrata.

Com o tempo, que tudo desbarata,
Teus olhos deixarão de ser estrelas;
Verás murchar no rosto as faces belas,
E as tranças de ouro converter-se em prata:

Pois se sabes que a tua formosura
Por força há de sofrer da idade os danos,
Por que me negas hoje esta ventura?

Guarda para seu tempo os desenganos,
Gozemo-nos agora, enquanto dura,
Já que dura tão pouco a flor dos anos.

Basílio da Gama (1741-1795)

27 de janeiro de 2015

70º Aniversário da Libertação de Auschwitz: Dia Internacional da Memória do Holocausto

Auschwitz – do filme "O Menino do Pijama Listrado"
Se isto é um Homem
Vós que viveis tranquilos
nas vossas casas aquecidas,
vós que encontrais regressando à noite
comida quente e rostos amigos,
considerai se isto é um homem:
quem trabalha na lama,
quem não conhece a paz,

quem luta por meio pão,

quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher:
sem cabelo e sem nome,
sem mais força para recordar,
vazios os olhos e frio o regaço,
como uma rã no inverno.
Meditai que isto aconteceu.
Recomendo-vos estas palavras,
esculpi-as no vosso coração,
estando em casa, andando pela rua,
ao deitar-vos e ao levantar-vos.
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou que desmorone a vossa casa,
que a doença vos entrave,
que os vossos filhos vos virem a cara.

Primo Levi (1919-1987)
Tradução: Simonetta Cabrita Neto

Amar

Natalia-Artemieva-Nimbypolis
“Amar não é aceitar tudo,
aliás, onde tudo é aceito,
desconfio que há falta de amor.

Amar é rasgar todas as máscaras
para que apareça a verdadeira face humana,
no esplendor de sua verdade”.

Vladimir Maiakovski (1893-1930)

Tempo e Olfato

Rudolf Ernst
Que me quer este perfume?
Nem sequer lhe sei o nome.
Sei que me invade a narina
como incenso de novena.
Que me passeia no corpo
como os dedos tangem harpa.

E me devolve ao pretérito
e a um ser de lava, quimérico,
ser que todo se esvaía
pela porta dos sentidos,
e do mundo em que saltava,
qual dum espelho lascivo,
retirava a própria imagem
na pura graça da origem...

Cheiro de boca? de casa?
de maresia? de rosa?
Todo o universo: hipocampo
no mar celeste do Tempo.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

26 de janeiro de 2015

Música brasileira

Di Cavalcanti
Tens, às vezes, o fogo soberano
Do amor: encerras na cadência, acesa
Em requebros e encantos de impureza,
Todo o feitiço do pecado humano.

Mas, sobre essa volúpia, erra a tristeza
Dos desertos, das matas e do oceano:
Bárbara poracé, banzo africano,
E soluços de trova portuguesa.

És samba e jongo, chiba e fado, cujos
Acordes são desejos e orfandades
De selvagens, cativos e marujos:

E em nostalgias e paixões consistes,
Lasciva dor, beijo de três saudades,
Flor amorosa de três raças tristes.

Olavo Bilac (1865-1918)
░ ░ ░ ░ ░ ░ ░ ░ ░ ░ ░ ░

A Escravidão

Amalia Traini – Africanos
Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,
Junto ao braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão...

De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar...
E a meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez para não escutar!
[...]
O escravo então foi deitar-se,
Pois tinha de levantar-se
Bem antes do sol nascer,
E se tardasse, coitado,
Teria de ser surrado,
Pois bastava escravo ser.

E a cativa desgraçada
Deita seu filho, calada,
E põe-se triste a beijá-lo,
Talvez temendo que o dono
Não viesse, em meio do sono,
De seus braços arrancá-lo!

Castro Alves (1847-1871)

25 de janeiro de 2015

Fase

Edouard Bisson
Anda que anda
reencontrei
o poço de amor

No olho
de mil e uma noites
descansei

Aos abandonados jardins
ela aportava
como uma pomba

Entre o ar
de meio-dia
que era um desmaio
apanhei-lhe
laranjas e jasmins.

Giuseppe Ungaretti (1888-1970)
Tradução: Sérgio Wax

461 anos da Cidade de São Paulo

São Paulo ontem e hoje
Em 24 de dezembro de 1553, junto com um novo grupo de jesuítas solicitado por Manoel da Nóbrega, chega o "irmão" José de Anchieta, com 19 anos de idade. Mais tarde, este religioso viria a ser cognominado "Apóstolo do Brasil" e primeiro poeta da literatura luso-brasileira.
Logo depois do dia de Reis, o grupo sobe a serra de Paranapiacaba, em direção à Santo André da Borda do Campo, diretamente para a casa do João Ramalho, após 18 dias de jornada. No dia seguinte, tomam o caminho de Piratininga, na busca de um local para a fundação do Colégio dos Jesuítas. Escolhem uma colina chamada Inhapuambuçu, sobre o vale do Anhangabaú, e constroem um barracão que viria a funcionar como escola de catequese. Ainda na manhã de 25 de janeiro de 1554, Manoel de Paiva, que viria a ser o primeiro diretor do colégio, celebra, assistido por José de Anchieta, a missa campal que marca o início do funcionamento do Real Colégio de Piratininga.
Antônio Parreiras - Pátio do Colégio onde foi fundado São Paulo
O nome São Paulo foi escolhido porque no dia da fundação do colégio era o dia 25 de janeiro que a Igreja Católica celebra a conversão do apóstolo Paulo de Tarso, conforme informa o padre José de Anchieta em carta aos seus superiores da Companhia de Jesus:
- “A 25 de Janeiro do Ano do Senhor de 1554 celebramos, em paupérrima e estreitíssima casinha, a primeira missa, no dia da conversão do Apóstolo São Paulo e, por isso, a ele dedicamos nossa casa”.

24 de janeiro de 2015

A Geopolítica da América Latina

Salvador Dali – Criança geopolítica
Nossos soldados no ultramar rechaçam o universalismo metropolitano, aplicam ao gênero humano o "numerus clausos"¹; uma vez que ninguém pode sem crime espoliar seu semelhante, escravizá-lo ou matá-lo, eles dão por assente que o colonizado não é semelhante do homem. Nossa tropa de choque recebeu a missão de transformar essa certeza abstrata em realidade: a ordem é rebaixar os habitantes do território anexado ao nível do macaco superior para justificar que o colono os trate como bestas de carga. A violência colonial não tem somente o objetivo de garantir o respeito desses homens subjugados; procura desumanizá-los. Nada deve ser poupado para liquidar as suas tradições, para substituir a língua deles pela nossa, para destruir sua cultura sem lhes dar a nossa; é preciso embrutecê-los pela fadiga. Desnutridos, enfermos, se ainda resistem, o medo concluirá o trabalho: assentam-se os fuzis sobre o camponês; vêm civis que se instalam na terra e o obrigam a cultivá-la para eles. Se resiste, os soldados atiram, é um homem morto; se cede, degrada-se, não é mais um homem; a vergonha e o temor vão fender-lhe o caráter, desintegrar-lhe a personalidade. A coisa é conduzida a toque de caixa, por peritos: não é de hoje que datam os "serviços psicológicos". Nem a lavagem cerebral [...] E não afirmo que seja impossível converter um homem em animal; digo que não se chega a tanto sem o enfraquecer consideravelmente; as bordoadas não bastam, é necessário recorrer à desnutrição. É o tédio com a servidão. Quando domesticamos um membro da nossa espécie, diminuímos o seu rendimento e, por pouco que lhe damos, um homem reduzido à condição de animal doméstico acaba por custar mais do que produz. Por esse motivo os colonos veem-se obrigados a parar a domesticação no meio do caminho: o resultado, nem homem, nem animal, é o indígena. Derrotado, subalimentado, doente, amedrontado, mas só até certo ponto, tem ele, seja amarelo, negro ou branco, sempre os mesmos traços de caráter: é um preguiçoso, sonso e ladrão, que vive de nada e só reconhece a força.
Extraído do Prefácio de Jean-Paul Sartre à obra:
FANON, Frantz. Os Condenados da Terra.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p. 9-10.

¹ numerus clausos = número fechado.
Número fixo que determina a quantidade de pessoas que podem ser aceitas em determinado grupo.

Soneto

Julien Dupre
Num fértil campo de soberbo Douro,
Dormindo sobre a relva, descansava,
Quando vi que a Fortuna me mostrava
Com alegre semblante o seu tesouro.

De uma parte, um montão de prata e ouro
Com pedras de valor o chão curvava;
Aqui um cetro, ali um trono estava,
Pendiam coroas mil de grama e louro.

– Acabou – diz-me então – a desventura:
De quantos bens te exponho qual te agrada,
Pois benigna os concedo, vai, procura.

Escolhi, acordei, e não vi nada:
Comigo assentei logo que a ventura
Nunca chega a passar de ser sonhada.

Tomás Antonio Gonzaga (1744-1810)

23 de janeiro de 2015

Outra noite

Caspar David Friedrich
Neste escuro
com as mãos
geladas
distingo
o meu rosto

Vejo-me
abandonado no infinito.

Giuseppe Ungaretti (1888-1970)
Sérgio Wax

Que me quereis, perpétuas saudades?

Jean-Baptiste Greuze
Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança ainda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais
E, se torna, não tornam as idades.

Razão é já, ó anos, que vos vades,
Porque estes tão ligeiros que passais,
Nem todos pera um gosto são iguais,
Nem sempre são conforme as vontades.

Aquilo a que já quis é tão mudado
Que quase é outra cousa; porque os dias
Têm o primeiro gosto já danado.

Esperanças de novas alegrias
Não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
Que do contentamento são espias.

Luís Vaz de Camões (1524-1589)

22 de janeiro de 2015

Tarde Chuvosa

Eugene Galien-Laloue
A tarde é triste e branca;
é branca e triste porque chove
e chove muito.
e o vento passa bramindo,
lá fora.
é forte, é muito forte
o vento… rodopiam
as folhas dos eucaliptos
e caem por terra.

chora a natura,
e Minh’ alma, também
chora,
agora,
por lembrar do nosso amor passado…
tudo acabado!
e Minh’ alma chora de dor,
ao lembrar o nosso amor…
foi num dia
assim, de chuva assim,
que te beijei
primeira vez, meu amor…

chovia,
era uma tarde triste,
muito triste e fria…

- Rubens de Mendonça (1915 -1983)

Horas de Saudade

William Bradford
Vou de luar em rosto, descontente:
Meus olhos choram lágrimas de sal.
— Adeus, terras e moças do casal,
— Adeus, ó coração da minha gente.

A hora da saudade é uma serpente:
Quero falar, não posso, e antes que fale
Ela enlaça-me a voz tão cordial
Que as coisas mais me lembram fielmente.

Olhos de amora, e uma ave na garganta
Para enfeitiçar a alma quando canta,
Moças com sua parra de avental;

Graça, Beleza, um verso sem medida,
A Saudade desterrou-me a vida ...
Sou um eco perdido noutro vale.

Afonso Duarte (1884-1958)

21 de janeiro de 2015

A Dança

Jean Antoine Watteau
Leve-me para os lugares do planeta
que ensinam você a dançar,
os lugares onde você pode correr o risco de
deixar o mundo partir seu coração,
e eu conduzirei você aos lugares onde
a terra debaixo dos meus pés
e as estrelas no céu fazem meu coração
[...]
E quando o som de todas as declarações das
nossas mais sinceras intenções tiver desaparecido no vento,
dance comigo na pausa infinita antes da grande
inalação seguinte do alento que nos sopra
a todos na existência,
sem encher o vazio a partir de dentro ou de fora.

Não diga "Sim"!
Pegue minha mão e dance comigo.

Oriah Mountain Dreamer (escritora canadense)
"Fragmento"

A Pérola e a Pimenta

Georgia O'Keeffe
Companheira de jornada,
Duas donzelas havia,
Uma formosa e fria,
Outra feia e engraçada.
Uma tão negra se oferece,
Que até carapinha tem,
A outra tão clara vem
Que filha da alva parce.
E olhando com desafogo
Nos efeitos que produz,
Uma tem cara de luz,
A outra entranhas de fogos.

Já acabada a carreira,
Ali onde a sorte as chama,
A branca ficou por dama,
A negra por cozinheira.
Uma e outra foi notada
Nesta jornada ou empresa,
Porque a dama ficou presa,
E a negra escalavrada.

Todos sabemos quem são
E as conhecemos bem,
Ainda que uma só tem
Árvore de geração.
E da outra não duvido
Venhais em conhecimento,
Porque é o seu nascimento
Claro, posto que escondido.

Soror Maria do Céu (1658-1753)

A pérola e a pimenta, retrata o destino de duas donzelas, uma branca e uma preta, provavelmente meio-irmãs, filhas do mesmo pai como parece intuir-se do final do poema, em que a branca ficou por dama e a negra por cozinheira.

20 de janeiro de 2015

Véu

Antonino Barbagallo
Nenhum véu é capaz de cobrir sua pureza.
Apenas tira a nitidez de seus traços,
Seu sorriso, seu olhar.
Nenhum véu é capaz!
Nem nos seus mais íntimos prazeres
Cobrir a doçura de sua entrega.
Não!
Sua pureza é mágica e escondida.
Guardada em lugar seguro,
Que só se abre com segredos do coração.

Jaak Bosmans

Cidra, Ciúme

Anthony Frederick Augustus Sandys
É ciúmes a Cidra,
E indo a dizer ciúmes disse Hidra,
Que o ciúme é serpente,
Que espedaça a seu louco padecente,
Dá-lhe um cento de amor o apelido,
Que o ciúme é amor, mas mal sofrido,
Vê-se cheia de espinhos e amarela,
Que piques e desvelos vão por ela,
Já do forno no lume,
Cidra que foi zelo, se não foi ciúme,
Troquem, pois, os amantes e haja poucos,
Pelo zelo de Deus, ciúmes loucos.

Soror Maria do Céu (1658-1753)

Rima 183

Sandro Botticelli - Simonetta Vespucci
Se dela o doce olhar me mata aqui,
e as palavrinhas brandas de tal sorte,
e se Amor sobre mim a faz tão forte,
só quando fala ou só quando sorri,

ah! que será, se acaso ela por si,
por minha culpa ou por malvada sorte,
separa os olhos da mercê, e à morte,
lá onde me protege, então me fie?

Porém se tremo, e em coração gelado
vejo às vezes mudar sua figura,
medo é de antigas provas derivado.

Mulher é coisa móvel por natura;
onde eu sei bem que um amoroso estado
no peito dela pouco tempo dura.
Francesco Petrarca (1304-1374)
Tradução: Vasco Graça Moura

19 de janeiro de 2015

Peça Final

Camille Pissarro
“A morte é grande.
Dela somos
a boca ridente.
Quando cremos em plena vida estar,
ela ousa chorar,
em nós,
de repente”.

Rainer Maria Rilke (1875-1926)
Tradução: Karlos Rischbieter

Velha Canção

Sir Lawrence Alma-Tadema
Não penses que não te espero
na aparente indiferença.
Esta fingida descrença
só disfarça desespero.

Se a falsa máscara fria
pudesse quebrar esta ânsia
saberias que a constância
é meu pão de cada dia.

Um pudor duro e severo
esperar desesperado
é o que nutre este pecado
de querer como te quero.

Destarte - tímido louco -
não ouso sondar tua alma
e nesta insofrida calma
dia a dia morro um pouco.

Menotti del Picchia (1892-1988)

18 de janeiro de 2015

Mitologia

Um pouco de Mitologia
Sir Edward Burne-Jones – O Dia da Criação
Primeira esposa de Zeus ➡ Métis
Heróis que Conseguiram sair ilesos do canto das sereias ➡ Ulisses e Orfeu
Nome da Mãe Terra: ➡ Gaia
Desafiou a Zeus roubando o fogo dos Deuses e levando para os homens ➡ Prometeu
Quais foram os presentes que Zeus deu a Apolo? Uma lira e um carro
Qual era o nome da esposa de Posêidon? ➡ Anfitrite
Afrodite era a deusa da ... ➡ Do amor, beleza e sexo
Nasceu da coxa de Zeus: ➡ Dioniso
Cumpriu 12 trabalhos: ➡ Hércules
Deuses Romanos e seus correspondentes Gregos:
Roma
Grécia
Representação Artística
Júpiter
Zeus
Júpiter - Jean Auguste Ingres
Juno
Hera
Juno - Joseph Paelinck
Netuno
Poseidon
Neptune - Werner Jacobsz
Minerva
Atena
Minerva - Gustav Klimt
Marte
Ares
Ares- karen H
Ceres
Deméter
Ceres - Emily Balivet
Apollo
Apollo
Rosalba Carriera - Apollo
Diana
Artêmis
Jean-Marc Nattier - Diana
Mercúrio
Hermes
Evelyn De Morgan - Mercury
Vulcano
Hefesto
Andrea Mantegna - Vulcan
Vênus
Afrodite
Giorgione - Vênus
Baco
Dionísio
Caravaggio – Baco
Saturno
Cronos
Peter Paul Rubens - Saturn
Plutão
Hades
Francois Perrier - Pluto
Vesta
Héstia
Francois Lemoyne - Vesta
Hércules
Héracles
Peter Paul Rubens - Hércules
Fauno
Sátiro
Annibale Carracci – Satyr
Cupido
Eros
Caravaggio - Cupid
Latona
Leto
David Teniers - Latone
Áquilo
Bóreas
John W Waterhouse - Bóreas