6 de dezembro de 2019

A Aeromoça

Frank Hunter -Stewardess
A aeromoça disse para apagarmos todo material de fumar
ela não detalhou, cigarro, charuto ou cachimbo.
Respondi-lhe no meu coração: Tu tens um belo material
de amar,
eu também não detalhei.

Ela disse para eu apertar o cinto e me prender
na poltrona, eu lhe respondi:
Queria que todas as fivelas na minha vida tivessem a forma
da sua boca.

Ela disse: Tu queres café agora ou depois,
ou de modo algum. E passou por mim.
Alta até os céus.

A pequena cicatriz no alto do seu braço
atestava que ela jamais será atingida pela varíola.
Os seus olhos atestavam que ela jamais se apaixonará de novo:
ela pertence ao partido conservador
dos amantes de um só grande amor na vida.

Yehuda Amichai (1924-2000)
Tradução: Moacir Amâncio

5 de dezembro de 2019

Os Quatro Elementos

Brueghel El Viejo Jan Clerck Hendrik

I — O FOGO

O sol, desrespeitoso do equinócio
Cobre o corpo da Amiga de desvelos
Amorena-lhe a tez, doura-lhe os pelos
Enquanto ela, feliz, desfaz-se em ócio.

E ainda, ademais, deixa que a brisa roce
O seu rosto infantil e os seus cabelos
De modo que eu, por fim, vendo o negócio
Não me posso impedir de pôr-me em zelos.

E pego, encaro o Sol com ar de briga
Ao mesmo tempo que, num desafogo
Proibo-a formalmente que prossiga

Com aquele dúbio e perigoso jogo…
E para protegê-la, cubro a Amiga
Com a sombra espessa do meu corpo em fogo.

II — A TERRA

Um dia, estando nós em verdes prados
Eu e a Amada, a vagar, gozando a brisa
Ei-la que me detém nos meus agrados
E abaixa-se, e olha a terra, e a analisa

Com face cauta e olhos dissimulados
E, mais, me esquece; e, mais, se interioriza
Como se os beijos meus fossem mal dados
E a minha mão não fosse mais precisa.

Irritado, me afasto; mas a Amada
À minha zanga, meiga, me entretém
Com essa astúcia que o sexo lhe deu.

Mas eu que não sou bobo, digo nada…
Ah, é assim… (só penso) Muito bem:
Antes que a terra a coma, como eu.

III — O AR

Com mão contente a Amada abre a janela
Sequiosa de vento no seu rosto
E o vento, folgazão, entra disposto
A comprazer-se com a vontade dela.

Mas ao tocá-la e constatar que bela
E que macia, e o corpo que bem posto
O vento, de repente, toma gosto
E por ali põe-se a brincar com ela.

Eu a princípio, não percebo nada…
Mas ao notar depois que a Amada tem
Um ar confuso e uma expressão corada

A cada vez que o velho vento vem
Eu o expulso dali, e levo a Amada:
— Também brinco de vento muito bem!

IV — A ÁGUA

A água banha a Amada com tão claros
Ruídos, morna de banhar a Amada
Que eu, todo ouvidos, ponho-me a sonhar
Os sons como se foram luz vibrada.

Mas são tais os cochichos e descaros
Que, por seu doce peso deslocada
Diz-lhe a água, que eu friamente encaro
Os fatos, e disponho-me à emboscada.

E aguardo a Amada. Quando sai, obrigo-a
A contar-me o que houve entre ela e a água:
— Ela que me confesse! Ela que diga!

E assim arrasto-a à câmara contígua
Confusa de pensar, na sua mágoa
Que não sei como a água é minha amiga.

Vinicius de Moraes (1913-1980)

4 de dezembro de 2019

Os três amores

Paul Bond'
I
Minh'alma é como a fronte sonhadora
Do louco bardo, que Ferrara chora...
Sou Tasso!... a primavera de teus risos
De minha vida as solidões enflora...
Longe de ti eu bebo os teus perfumes,
Sigo na terra de teu passo os lumes...
—Tu és Eleonora...

II
Meu coração desmaia pensativo,
Cismando em tua rosa predileta
Sou teu pálido amante vaporoso,
Sou teu Romeu... Teu lânguido poeta!...
Sonho-te às vezes virgem...seminua...
Roubo-te um casto beijo à luz da lua...
—E tu és Julieta...

III
Na volúpia das noites andaluzas
O sangue ardente em minhas veias rola...
Sou D. Juan!... Donzelas amorosas,
Vós conheceis-me os trenos na viola!
Sobre o leito do amor teu seio brilha...
Eu morro, se desfaço-te a mantilha...
Tu és Júlia, a Espanhola!...

Castro Alves (1847-1871)

3 de dezembro de 2019

O mundo é muito cedo

Marc Chagall

Quando eu ficar aqui
só me namore.
Eu caibo no teu olho
eu já medi.
Te peço perdão, moça, se pequei
Pelos teus olhos e neles me rasguei.

A sul e norte, nos ventos que abatem
Sobre cavalos turbinados de suor
Em cândidas razões que me maltratem
Nos campos amargados do Senhor.

Romério Rômulo

2 de dezembro de 2019

Em tempos de oração

Christine Ellger
Um dia nos pátios das casas
hão de acender-se fogueiras
para atrair a chuva
como uma crendice de tempos remotos.
Seremos, passo a passo,
errantes de longínquas viagens
ou peregrinos perseguidos em tempos de oração.

Graça Pires

1 de dezembro de 2019

Infinito

Dan Sproul
Algo que fosse essencial e íntimo,
o âmago, o cerne, a medula:
o sidéreo campo, imenso e ínfimo.
Filósofo que cria e especula
o sentir e os saberes, lídimo
representante do Gênio e da Azêmola.
Uns riem e dançam, acompanham o ritmo
do Teatro do Mundo, onde espetacula
a trupe de anões, sacristãos e cambonos.
Outros leem Nobre e Anjos, Só e Eu,
feitos de ácido amniótico e carbonos.
Infinita ascese, recolhido gineceu,
mantido com drágeas e sonos,
espaço uterino sem o meu e o seu.

Cláudio Murilo Leal

30 de novembro de 2019

O Pensamento

Bob Ross
O pensamento, amo o pensamento.
Não o titubear e retorcer de ideias pré-fabricadas –
Esse jogo de autossuficiência, eu o desprezo.
O pensamento é o manar da vida oculta à tona da mente,
O pensamento é o teste dos conceitos e a pedra de toque da consciência,
O pensamento é fitar a vida de frente e ler o que ali se pode ler,
O pensamento é ponderar a experiência e chegar a uma conclusão.
O pensamento não é um artifício, um exercício, uma esquivança –
O pensamento é um homem em sua inteireza e inteiramente alerta.

D. H. Lawrence (1885-1930)
Tradução: Aíla de Oliveira Gomes

29 de novembro de 2019

A Aranha

Piero di Cosimo
A aranha do meu destino
Faz teias de eu não pensar.
Não soube o que era em menino,
Sou adulto sem o achar.
É que a teia, de espalhada
Apanhou-me o querer ir...
Sou uma vida baloiçada
Na consciência de existir
A aranha da minha sorte
Faz teia de muro a muro...
Sou presa do meu suporte.

Fernando Pessoa (1888-1935)

28 de novembro de 2019

Chegada

Alex de Andreis
Feliz o homem que alcançou o porto,
Que deixa atrás de si mares e tormentas,
Cujos sonhos estão mortos ou jamais nasceram;
E se senta e bebe na taberna de Bremen,
Perto da lareira, e está em paz.
Feliz o homem como uma chama extinta,
Feliz o homem como areia de estuário,
Que depôs a carga e limpou a fronte
E repousa à beira do caminho.
Não teme nem espera nem aguarda,
Mas olha fixo o sol que se põe.

Primo Levi (1919-1987)
Tradução: Maurício Santana Dias.

27 de novembro de 2019

Adolescente romano

Antinous Ecouen Louvre
Eis a bela cabeça de bronze do remoto adolescente:
o cabelo é uma franjada coroa como de folhas de oliveira;
as sobrancelhas arredondam guirlandas serenas;
a narina respira o arcaico dia de vida;
há no lábio uma surpresa de sonho quase com forma de palavra.

E como o artista vazou-lhe a íris, tal pupila desmesurada,
cai-lhe sobre todo o rosto uma sombra densa, grave e profunda:
- redondas janelas por onde penetra a face móvel dos séculos,
redondas janelas por onde assoma esse abismo da eternidade,
silencioso, imenso, extático,
onde as imagens todas se apagam.
Que adolescente viveu com sua carne
o espetáculo de alma que o bronze traz de tão longe?

Cecília Meireles (1901-1964)
in [Em Poemas Italianos]

26 de novembro de 2019

Os Velhos e os Jovens

Jacob Jordaens
“Incompreensíveis nos são os jovens”
É constantemente cantado pelos velhos;
Da minha parte quero o seguinte colocar:
“Incompreensíveis me são os velhos”.
Esse querer ficar no comando
Em todas as peças e todos os papéis,
Esse se considerar imprescindível
Juntamente com o “chorar silencioso de seus olhos”,
Como se tivesse sido feito um agravo ao mundo –
Ah, eu não consigo entender.
Se nossos jovens, em seu atrevimento,
Realmente criam e contribuem com algo melhor,
Se chegaram mais perto do Parnaso
Ou se somente escalaram um monte de toupeiras,
Se eles, com outros defensores de novos costumes,
Melhoram ou pioram a humanidade,
Se eles semeiam paz ou desencadeiam tempestades,
Se fazem céu ou inferno –
U M A coisa os deixa estar sobre base vitoriosa:
Eles têm o dia, eles têm a hora;
O mouro pode ir, nova peça começa,
Eles dominam a cena, eles estão na vez.

Theodor Fontane (1819-1898)
Tradução: Dionei Mathias.

25 de novembro de 2019

Cantares de perda e predileção

Emma Sandys
Vida da minha alma:
Recaminhei casas e paisagens
Buscando-me a mim, minha tua cara.
Recaminhei os escombros da tarde
Folhas enegrecidas, gomos, cascas
Papéis de terra e tinta sob as árvores
Nichos onde nos confessamos, praças

Revi os cães. Não os mesmos. Outros
De igual destino, loucos, tristes,
Nós dois, meu ódio-amor, atravessando
Cinzas e paredões, o percurso da vida.

Busquei a luz e o amor. Humana, atenta
Como quem busca a boca nos confins da sede.
Recaminhei as nossas construções, tijolos
Pás, a areia dos dias

E tudo que encontrei te digo agora:
Um outro alguém sem cara. Tosco. Cego.
O arquiteto dessas armadilhas.

Hilda Hilst (1930-2004)

24 de novembro de 2019

Soneto VII

Richard Kretchmer
Onde estou? Este sítio desconheço:
Quem fez tão diferente aquele prado?
Tudo outra natureza tem tomado;
E em contemplá-lo tímido esmoreço.
Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço
De estar a ela um dia reclinado:
Ali em vale um monte está mudado:
Quando pode dos anos o progresso!
Árvores aqui vi tão florescentes
Que faziam perpétua a primavera:
Nem troncos vejo agora decadentes.
Eu me engano: a região esta não era;
Mas que venho a estranhar, se estão presentes
Meus males, com que tudo degenera.
COSTA, C.M. Poemas. (1729-1789)

No soneto de Claudio Manuel da Costa, a angústia provocada pela sensação de solidão contemplação da paisagem permite ao eu lírico uma reflexão em que transparece uma empatia entre os sofrimentos do eu e a agonia da terra.

23 de novembro de 2019

O Espinho

Pierre-Joseph Redouté
Caluniado espinho na haste da rosa,
a ninguém ferirás nesta manhã
em que a rosa vermelha, a rosa airosa
oferta a sua vida à vida vã.

Neste dia de sol tudo é passagem.
E mesmo a eternidade é um caminho,
coito de luz e sombra, na viagem
entre o dia e a noite, a rosa e o espinho.

Lêdo Ivo

22 de novembro de 2019

O meu amado tinha tantas manias

John Watkins Chapman
O meu amado tinha tantas manias:
perdia canetas, lápis, chaves.
Houve um livro que comprou três vezes em um mês:
depois encontramos todos e mais um sob velhos jornais.
Mandei fazer uma estante nova para organizar seus
livros:
mas quando ele se foi, mais que livros havia ali de novo
jornais.
Nunca sabia bem por que os guardara. Eram parte do
seu ninho,
como nossos lençóis e os móveis da sala.
Não conseguia sentar-se mais que meia hora para escrever:
vinha ao meu escritório, usava de pretextos para me
distrair,
dava um beijo, fazia confidências, comentava assuntos
do dia.
Quando me via triste, dizia entre compassivo e magoado:
“Você hoje está numa melancolia profunda?”
Certa vez discutimos, e ele deixou sobre minha máquina
de escrever
um bilhete de amor.

Nunca tivemos mais que vinte anos.

Lya Luft

21 de novembro de 2019

Outrora

David Hockney
Outrora, num tempo distante,
fui eu tão feliz, não agora:
mas quanta doçura no instante
por tanta doçura de outrora!

Esse ano! por anos que após
fugiram e que fugirão,
não podes, ideia, não podes
levá-lo contigo, na mão…

Um dia ele foi… só uma essência
sem retorno e sem outro igual.
E a vida foi vã aparência
antes e após um dia tal.

Um instante… aí tão passageiro,
que menos passou que se diz;
mas tão belo assim, mas tão belo,
e eu nele tão feliz, tão feliz!

Giovanni Pascoli (1855-1912)
Tradução: Jorge de Sena

20 de novembro de 2019

Por si

Manoel Santiago - Alto Teresópolis
Quem quiser passar pela vida,
que aprenda com o sol:
ele é fogo: por força de si, se impõe.
Mas nasce e morre todos os dias,
ilumina o que vinga e depois esquece
e, a um só tempo, sabe sumir e se pôr.

Sandra Niskier Flanzer

19 de novembro de 2019

A foca

Ilustração Stacy Curtis
Quer ver a foca
Ficar feliz?
É por uma bola No seu nariz.
Quer ver a foca
Bater palminha?
É dar a ela
Uma sardinha.

Quer ver a foca
Fazer uma briga?
É espetar ela
Bem na barriga!

Vinicius de Moraes (1913-1980)

18 de novembro de 2019

(Unicamp 2020 - 1ª fase)

Que dizer das personagens? Creio que têm a força e ao mesmo tempo a fraqueza da caricatura. Mas, pensando melhor, não poderemos também alegar em defesa do romancista que a caricatura é uma tendência reconhecida e aceita da arte moderna, principalmente da pintura? Não haverá muito de deformação na obra de grandes pintores como Portinari, Di Cavalcante e Segall – todos eles inconformados com a sociedade em que vivem?
(Adaptado de Erico Verissimo, Prefácio, em Caminhos Cruzados.
São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 20-21.)



Tarsila do Amaral, A negra, 1923. Coleção Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo.







A ideia de deformação aplica-se ao quadro de Tarsila e ao romance Caminhos cruzados, de Érico Veríssimo, porque tal procedimento artístico acentua:
a crítica do modernismo à violência da escravidão e às desigualdades sociais, presentes no quadro e nas personagens do romance, respectivamente.
o imaginário da burguesia nacional, pois tanto as protagonistas do romance quanto a imagem da mulher negra retratam os traços característicos das reformas sociais do Estado Novo.
os princípios estéticos do movimento modernista, pois as duas expressões artísticas apresentam-se como reflexo dos valores da elite cafeeira paulista.
a moral implícita da modernidade, pois o narrador do livro e a representação do corpo negro criticam o comportamento social das personagens femininas no século XX.

O Poeta e seu Mestre

Charlie Chaplin by Paul Meijering
Tiro da sua cartola
repleta de astros,
mil sobrenaturais
paisagens de infância.

Sua bengalinha
queima os ditadores,
destrói as muralhas
libertando os anjos.

Calço seu sapato
e eis que percorro
a branca anatomia
de pássaros e flores

Repito seus gestos
de amor e renúncia,
de música ou luta,
de solidariedade.

Carlitos!

Teu bigode é a ponte
que nos liga ao sonho
e ao jardim tão perto.

José Paulo Paes (1926-1998)

17 de novembro de 2019

Perspectiva

Perspectiva. Técnica de representação, numa superfície plana, do espaço tridimensional, baseado no uso de certos fenômenos ópticos, como a diminuição aparente no tamanho dos objetos e a convergência das linhas paralelas à medida que se distanciam do observador.
(Ian Chilvers (org.). Dicionário Oxford de arte, 2007.)
Verificam-se distorções e ambiguidades em relação à técnica da perspectiva na seguinte obra:
a) René Magritte. "A Clarividência" (1936)
b) Maurits Cornelis Escher “Mirante" (1958)
c) Edward Hopper."Escritório de uma cidade pequena" (1953)
d) Käthe Kollwitz. "A marcha dos tecelões" (1897)
e) René Magritte. "O império da luz" (1954)
A resposta correta é b Maurits Cornelis Escher.

16 de novembro de 2019

Tempo das chuvas

Stanislav Sidorov
Antes que venham as primeiras chuvas
acender
Amarelas flores entre os rochedos
E o céu se torne móvel de compridos pássaros
E todo o chão se cubra do verde novo
Do capim
Saberás pelo vento que chegaste ao fim.

José Eduardo Agualusa