21 de setembro de 2017

Epístola para os amados

Louis Marie de Schyrver
Ainda vos amos, porque aqui não há só tempo
e o amor, no tempo, é tão intenso e absoluto,
que transborda do tempo para o não-presente.
Havendo tempo e não-tempo, eu vos confesso agora
que em parques ao poente ainda vos estou a amar.
E não que vos ofereça hoje alucinados versos,
mas porque do meu tempo sois donos, como os poemas
que eu escrevo do tempo para o não-tempo, sempre.

Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)

19 de setembro de 2017

Poema nº 68

Jasper Francis Cropsey
Ouço sussurrar sua flauta,
E já não consigo me conter.
Ainda não chegou a primavera,
E as flores irrompem dos botões,
Chamando as abelhas ao festim.

O relâmpago risca o céu,
O trovão estrondeia e reverbera,
A chuva se traduz em aguaceiro,
As ondas se elevam, batem forte:
Deixo a casa em busca do Senhor.

Onde existe ritmo neste mundo,
Lá já percutiu meu coração.
Onde ocultas bandeiras esvoaçam,
Lá já sopraram meus suspiros.
Estou morto. Todavia sigo vivo.

Kabir (1440-1518)
Tradução: José Tadeu Arantes

17 de setembro de 2017

Melancolia de Jasão, filho de Cleandro; poeta em Comagena

Luigi Crosio
O envelhecimento de meu corpo e de meu rosto
é uma ferida de terrível punhal.
Não tenho resignação alguma.
A ti recorro, Arte da Poesia,
que entendes um pouco de remédios:
tentativas de entorpecimento da dor, na Imaginação e no Verbo.

É uma ferida de terrível punhal .
Traze, Arte da Poesia, teus remédios,
que fazem – por algum tempo – que não se sinta a ferida.

Konstantinos Kaváfis (1863-1933)
Tradução: Ísis Borges da Fonseca

15 de setembro de 2017

Fragmentos

Bryce Liston Cameron
Passa de uma você deve estar na cam
À noite a Via Láctea é um Oká¹ de prata
Não tenho pressa para que acordar-te
com relâmpago de mais um telegrama
como se diz o caso esta encerrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano
Vê como tudo agora emudeceu
Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu
em horas como esta eu me ergo e converso
com os séculos a história o universo

Vladimir Maiakovski (1893-1930)
Tradução: Boris Schnaiderman, Augusto e Haroldo de Campos

14 de setembro de 2017

Divindades Incógnitas

Salvator Rosa - Democritus and Protagoras
Dizem
que de divindades terrestres entre nós
se encontram cada vez menos.
Muitas pessoas duvidam
de sua existência nesta terra.

Dizem
que neste mundo ou no de cima existe uma
só ou nenhuma; creem
que os sábios antigos eram todos uns loucos,
escravos de sortilégios se diziam
que algum deus incógnito
os visitava.

Eu digo
que imortais invisíveis
aos outros e talvez inconscientes
de seus privilégios,
divindades em jeans e com suas mochilas,
sacerdotisas em gabardine e sandálias,
pitonisas de ar absorto à fumaça de um fogo de pinhões,
numinosas visões não irreais, tangíveis,
intocadas,
vi muitas vezes
mas era sempre tarde demais se tentava
desmascará-las.

Dizem que os deuses não descem neste mundo,
que o criador não cai de paraquedas,
que o fundador não funda porque ninguém
jamais o fundou ou fundiu
e que nós não somos mais do que os desastres
de seu nulificante magistério;
contudo
se uma divindade, mesmo de ínfimo grau,
alguma vez me roçou
o arrepio que senti me disse tudo e no entanto
faltava-me reconhecê-la e o não existente
ser se esvanecia.

Eugenio Montale (1896-1981)
Tradução: Geraldo Holanda Cavalcanti

12 de setembro de 2017

Bilhete

William-Adolphe Bouguereau
Não me parecias frágil,
via-te doce.
Talvez fosses mesmo forte,
é preciso ser valente
pra decretar a própria morte.

Tinha-te por calmo.
Que rio obscuro e discreto
te puxava para o fundo,
sem saber nadar,
sem ninguém saber de nada?

Não deixaste uma carta,
um poema, um bilhete de suicida.
Como se quisesses dizer
que a morte
não deve explicações à vida.

Ricardo Silvestrin

10 de setembro de 2017

Em mim não habita o deserto que há em ti

Melozza Da Forli
Em mim não habita o deserto que há em ti
minha alma é um oásis luminoso
você constrói sua jaula, e nela quer ficar
cuidado
eu faço o que acho que deve ser feito na hora certa
existe diferença entre paixão e projeção?
será que terei de me tornar um insensível
só pra suprir a demanda do mercado atual?
quanto mais eu me acho mais eu me perco
que os tambores batam
e que tudo se acenda forte!

Jorge Salomão

8 de setembro de 2017

Tartária

Arthur Rackham
Quando ao meu estéril coração eu volto,
pelas eternas dúvidas assolado,
penso em Tartária, em gélidos desertos,
e uma sombra começa a tomar forma
e uma forma se encarna lentamente,
enquanto me conquista a débil vontade.
Desejo então que o cavaleiro eterno,
a quem perturbam as imensas distâncias,
cheio de sobressalto, se ponha em marcha.

Julio Martínez Mesanza
Tradução: Joaquim Manuel Magalhães

6 de setembro de 2017

A Última Canção do Homem

Dorina Costras
Rei da Criação, por mim mesmo aclamado.
Quis, vencendo o Destino, ser o Rei
De todo esse Universo ilimitado
Das ideias que nunca alcançarei...

Inteligência... esse anjo rebelado
Tombou sem ter sabido a eterna lei:
Pensei demais e, agora, apenas sei
Que tudo que eu pensei estava errado...

De tudo, então, ficou somente em mim
O pavor tenebroso de pensar.
Porque as ideias nunca tinham fim...

Que mais resta da fúria malograda?
Um bailado de frases a cantar...
A vaidade das formas... e mais nada...

Raul de Leoni (1895-1926)

4 de setembro de 2017

Caixa mágica de surpresa

Edward Hopper
Um livro
é uma beleza,
é caixa mágica
só de surpresa.

Um livro
parece mudo,
Mas nele a gente
descobre tudo.

Um livro
tem asas
longas e leves
que, de repente,
levam a gente
longe, longe

Um livro é parque de diversões
cheio de sonhos coloridos,
cheio de doces sortidos,
cheio de luzes e balões.

Um livro é uma floresta
com folhas e flores
e bichos e cores.
É mesmo uma festa,
um baú de feiticeiro,
um navio pirata do mar,
um foguete perdido no ar,
É amigo e companheiro.

Elias José

2 de setembro de 2017

Confissão

Jack Vettriano
É certo que me repito,
é certo que me refuto
e que, decidido, hesito
no entra-e-sai de um minuto.

É certo que irresoluto
entre o velho e o novo rito,
atiro à cesta o absoluto
como inútil papelito.

É tão certo que me aperto
numa tenaz de mosquito
como é trinta vezes certo
que me oculto no meu grito.

Certo, certo, certo, certo
que mais sinto que reflito
as fábulas do deserto
do raciocínio infinito.

É tudo certo e prescrito
em nebuloso estatuto.
O homem, chamar-lhe mito
não passa de anacoluto.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

30 de agosto de 2017

Lugar algum

Claude Monet
Não há
lugar algum
aqui
nem alhures.

Aqui não existe.
Alhures não é.
Nós não temos nada a buscar.

Esperar é vão.
Preciso é habitar o tempo
multíplice,
ser o seu símil.

Com ele como ele
sem ter parada
eu passo
dizendo adeus
dia após dia
às figuras
que a noite
vertiginosa
carrega.

Jean Tardieu (1903-1995)
Tradução: Mário Laranjeira

28 de agosto de 2017

A fome é curável

Joel Rea
O homem entrou no hospital
e disse: “Não me sinto bem”.
Então, extraem-lhe o apêndice
e lavam-no com formol.

“Sente-se melhor?” Responde: “Não”.
Mas os médicos dão-lhe coragem
e cortam-lhe a perna esquerda,
garantindo: “Agora vai ficar bom”.

Continua a sofrer, no entanto,

e enche de gritos o hospital.
Para descobrir o que pode ser,
praticam-lhe uma cesariana.

Embora doutíssimos no ramo,
os cirurgiões fazem caretas.
Mudo, sem forças para gritar,
ele morrer, não morre não.

Esvai-se-lhe pouco a pouco o sangue,
o ar já lhe vai faltando?
Serram-lhe três costelas,
e finalmente expira.

O cirurgião-chefe contempla o cadáver.
Aí pergunta-lhe um estudante:
“Que coisa tinha esse pobre diabo?”.
O doutor, engasgado, murmura:
“Acho que era apenas fome”.

Erich Kästner (1899-1974)
Tradução: Carlos Drummond de Andrade.

27 de agosto de 2017

Memória

Oleg I. Shuplyak
Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.

Há um nascer do sol no sítio exato,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tato,
Um ansiar de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.

José Saramago (1922-2010)

25 de agosto de 2017

O Farol

Claude Monet
Na amplidão do mar alto entre as vagas se apruma
O vulto do farol como uma sentinela;
Estardalhaça o vento, e a rugir se encapela
A água negra do mar em turbilhões de espuma.

Enche a trágica noite, atroa e se avoluma
Um insano clamor nas asas da procela:
É a morte! E ao temporal que as vagas atropela
Rodopiam as naus na escuridão da bruma.

Mas, súbito um clarão a espessa treva inflama,
Acende o mar bravio, ilumina os escolhos,
E guia o rumo às naus contra os parcéis da morte...

É a vida! É o farol que escancarando os olhos,
Vira e revira em torno as órbitas de chama,
Ora ao Norte, ora ao Sul, ora ao Sul, ora ao Norte...

Victor Silva (1865-1922)

23 de agosto de 2017

Um só amor

Elisbeth Sonrel
Amores? Não. Cantei um só amor.
Não me arrependo da monotonia
nem de cantar a posse e o possuidor.
Se abelhas mansas dentro em mim havia

por que negar o voo para a flor?
Até na momentânea nostalgia
nossa pátria era a mesma. A própria dor
uniu mais do que junta uma alegria.

Chegou a noite e seu silêncio mas
para aclarar o mundo a luz secreta
em teu cabelo pôs manchas de prata.

E teço versos como que refaz
a vida. Todo o meu mister de poeta
é de amor: madrigal e serenata.
Odylo Costa Filho (1914-1979)

21 de agosto de 2017

Tédio

Romero Torres
Também esta noite passará

Esta solidão em volta
a titubeante sombra dos fios do bonde
sobre o asfalto úmido

Olho as cabeças dos cocheiros
cochilando
balançar.

Giuseppe Ungaretti (1888-1970)
Tradução: Geraldo Holanda Cavalcanti

19 de agosto de 2017

Meu Sonho

William-Adolphe Bouguereau
Eu
Cavaleiro das armas escuras,
Onde vais pelas trevas impuras
Com a espada sanguenta na mão?
Por que brilham teus olhos ardentes
E gemidos nos lábios frementes
Vertem fogo do teu coração?
Cavaleiro, quem és? — O remorso?
Do corcel te debruças no dorso…
E galopas do vale através…
Oh! da estrada acordando as poeiras
Não escutas gritar as caveiras
E morder-te o fantasma nos pés?
Onde vais pelas trevas impuras,
Cavaleiro das armas escuras,
Macilento qual morto na tumba?…
Tu escutas… Na longa montanha
Um tropel teu galope acompanha?
E um clamor de vingança retumba?
Cavaleiro, quem és? que mistério…
Quem te força da morte no império
Pela noite assombrada a vagar?
O Fantasma
Sou o sonho de tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar!…

Alvares de Azevedo (1831-1852)

Subjetivismo: debate interior – ele próprio, dividindo-se em dois. – vocativo e interrogações; prossegue, contando o sonho no momento em que este está acontecendo. O sonho é um espaço de fuga. O sonho que eu sonho, sou eu.

Segundo Antonio Cândido: o medo de amar; relação sexual; transgressão de uma norma (culpa) (masturbação).

Espada: símbolo do pênis.

Vale: vagina.

18 de agosto de 2017

Conformidade

James Jacques Joseph Tissot
Não são as grandes alegrias as mais belas,
As que mais nos contentam o coração,
São, por vezes – divinas bagatelas!... –
Aquelas
Que a gente não espera e que as cousas nos dão.

Um galho que floriu numa varanda,
Um incêndio de sol num vidro multicor,
O aroma que o jardim, como um presente, manda,
Uma carta encontrada,
E essa palavra branda
Que talvez não quisesse dizer nada,
Onde julgaste ver uma sombra de amor...

Maria Eugênia Celso (1886-1963)

16 de agosto de 2017

A Arte Moderna

Sir John Lavery
A arte moderna é – na medida em que vale qualquer coisa – um regresso à infância. O seu tema eterno é a descoberta das coisas, descoberta eu apenas pode acontecer, na sua forma mais pura, na recordação da infância. Isto é o efeito da all-pervading consciência do artista moderno (historicismo, noção da arte como atividade autossuficiente, individualismo), que o faz viver, a partir dos dezesseis anos, num estado de tensão – quer dizer, num estado que não é próprio à absorção, que não é ingénuo. Em arte, só se exprime bem aquilo que foi absorvido ingenuamente. Só resta aos artistas fazerem meia-volta e inspirarem-se na época em que ainda não eram artistas, ou seja, a infância.
Cesare Pavese (1908-1950)
Tradução: Alfredo Amorim

14 de agosto de 2017

Lira do Reacionário

John George Brown
Que quer afinal o vendedor de amendoim,
além de vender o seu amendoim?

Será que ele deseja ir à Disneylândia,
em viagem paga à vista,
com direito a carro no aeroporto,
hotel de cinco estrelas,
e uma loura divina
na recepção?

Que deseja o vendedor de balas,
além de melhorar a féria do dia?

Será que ele pretende
viajar num Concorde
acompanhado daquela assistente social
que frequentou seus sonhos,
no dormitório do internato?

Que diabo imagina o engraxate,
além de meter um brilho
no pisante do freguês?

Será que ele espera
passar fim de semana em Cabo Frio,
dar uma olhada nas coxas das gatinhas,
(de perto, é claro)
e transformar a caixa de engraxate
num conversível vermelho,
para encantar a fantasia das garotas?

Wagner Teixeira

12 de agosto de 2017

O Banho de Xampu

Cena do filme “Flores Raras”
Os liquens – silenciosas explosões
nas pedras – crescem e engordam,
concêntricas, cinzentas concussões.
Têm um encontro marcado
com os halos ao redor da lua, embora
até o momento nada tenha mudado.

E como o céu há de nos dar guarida
enquanto isso não se der,
você há de convir, amiga,
que se precipitou;
e eis no que dá. Porque o Tempo é,
mais que tudo, contemporizador.

No teu cabelo negro brilham estrelas
cadentes, arredias.
Para onde irão elas
tão cedo, resolutas?
– Vem, deixa eu lavá-lo, aqui nesta bacia
amassada e brilhante como a lua.

Elizabeth Bishop (1911-1979)
Tradução: Paulo Henriques Brito

11 de agosto de 2017

Povoado

Albert Bierstadt
Sobre o monte pelado
um calvário.
Água clara
e oliveiras centenária.
Pelas ruelas
homens embuçados,
e nas torres
veletas girando.
Eternamente
girando.
Oh! povoado perdido,
na Andaluzia do pranto!

Federico Garcia Lorca (1898-1936)
Tradução: William Agel de Melo

10 de agosto de 2017

O Único Livro

Thomas Moran
Vi que os negros Vedas,
o Evangelho e o Alcorão,
mais os livros dos mongóis
em suas tábuas de seda
– como as mulheres calmucas todas as manhãs –
ergueram juntos uma pira
de poeira da estepe
e odoroso estrume seco
e sobre ela pousaram.
Viúvas brancas veladas numa nuvem de fumo,
apressavam o advento
do livro único,
cujas páginas maiores que o mar
tremem como asas de borboletas safira,
e há um marcador de seda
no ponto onde o leitor parou os olhos.
Os grandes rios com sua torrente azul:
– o Volga, onde à noite celebram Rázin;
– o Nilo amarelo, onde imprecam ao Sol;
– o Yang-tze-kiang, onde há um denso lodo humano;
– e tu, Mississípi, onde os ianques
trajam calças de céu estrelado,
enrolando as pernas nas estrelas;
– e o Ganges, onde a gente escura são árvores de ciência;
– e o Danúbio, onde em branco homens brancos
de camisa branca pairam sobre a água;
– e o Zambeze, onde a gente é mais negra que uma bota;
– e o fogoso Obi, onde espancam o deus
e o voltam de olhos para a parede
quando comem iguarias gordurosas;
– e o Tâmisa, no seu tédio cinza.
O gênero humano é o leitor do livro.
Na capa, o timbre do artífice –
meu nome, em caracteres azuis.
Porém tu lês levianamente;
presta mais atenção:
és por demais aéreo, nada levas a sério.
Logo estarás lendo com fluência
– lições de uma lei divina –
estas cadeias de montanhas, estes mares imensos,
este livro único,
em cujas folhas salta a baleia
quando a águia dobrando a página no canto
desce sobre as ondas, mamas do mar,
e repousa no leito do falcão marinho.

Vielimir Khlébnikov (1885-1922)
Tradução: Haroldo de Campos

9 de agosto de 2017

Soneto

Nina Reznichenko
"Ontem, quanto, soberba, escarnecias
Dessa minha paixão, louca, suprema,
E no teu lábio, essa rosa da algema,
A minha vida, gélida prendias...

Eu meditava em loucas utopias,
Tentava resolver grave problema...
_ Como engastar tua alma num poema?
E eu não chorava quando tu te rias...

Hoje, que vives desse amor ansioso
E és minha, só minha, extraordinária sorte,
Hoje eu sou triste, sendo tão ditoso!

E tremo e choro, pressentindo, forte
Vibrar, dentro em meu peito, fervoroso,
Esse excesso de vida, que é a morte..."

Euclides da Cunha (1866-1909)

8 de agosto de 2017

Soneto 64

Paul Delvaux
Ao ver a cruel mão do tempo apagar
Dos ricos o orgulho graças à decadência da idade;
Quando, por vezes, as altas torres são destruídas,
E o eterno escravo do metal entregue à mortal ira;
Ao ver o oceano faminto ganhar
Vantagem sobre os domínios das encostas;
E a terra firme avançar sobre o braço de água,
Equilibrando-se entre perdas e ganhos;
Ao ver tal mudança de condição,
Ou a própria condição confundida, a decair,
Assim ensinou-me a pensar a ruína:
Que o tempo virá e levará o meu amor.
Esse pensamento é mortal, sem outra escolha
Senão a lamentar ter o que se teme perder.

William Shakespeare (1564-1616)
Tradução: Thereza Christina Motta