1 de agosto de 2015

Bela Vista

.................A Leo Lynce
Albert Bierstadt
Manhã cheia de pássaros cantando
na fronde fresca
das jabuticabeiras dadivosas.

À tarde, no ar lúcido da praça,
uma andorinha plaina bem alto
e desce qual uma flecha
para pousar mui tranquila
na torre cinzenta da igreja.
Ninguém aplaudiu!...

José Décio Filho (1918-1976)

Poema Vertical

Otto Henry Schneider
Dei um mergulho em mim mesmo,
num pulo de cabeça a baixo.
Tudo lá no fundo está quieto
como os caminhos abandonados;
a paisagem esfumou-se e confundiu-se
num apaziguamento de cansaço.

Perdi-me nos atalhos sedutores,
gastei linhas retas e curvas,
inquietações e deslumbramentos.
De místicas visões e amargos projetos
fiz um montão de cadáveres.

Quanto trabalho perdido,
quanto tempo dissipado!
Mas de tudo que ajuntei
na mais lírica desordem,
alguma coisa houve de ficar,
alguma coisa que às vezes
se resolve em minha poesia ou em silêncio.

José Décio Filho (1918-1976)

31 de julho de 2015

Hora do meio-dia

Kanayo Ede
- Sozinho no meu quarto retirado -,
Certas horas do dia calorosas,
Quando as flechas do Sol queimam as rosas,
Eu cismo no seu corpo esbelto e amado!
As curvas do seu colo acetinado,
Mais fino que o das rolas amorosas,
Dar-me-iam as noites voluptuosas
De que falam os doutos do Pecado.

Mas, no entanto, lá fora o sol adusto
Queima as campinas e o aldeão robusto;
Voam abelhas a colher o mel.

E eu cheio de tristeza e de ansiedade,
Continuo a cismar—como um abade—
Na Virgindade olímpica e cruel.
António Gomes Leal (1848-1921)

São Paulo

Antônio Parreiras - Fundação de São Paulo
Canto a cidade das neblinas
e dos viadutos
minha cidade
amante de futebol e vendedora de café
Os aventureiros bigodudos
como nas fitas da Paramount
o Friedenreich pé de anjo
e a bolsa de mercadorias
as chaminés parturientes do Brás
os quinze mil automóveis orgulhosos
no barulho ensurdecedor dos klaxons
e a cultura envernizada dos burgueses
os engraxates da Praça Antônio Prado
e o serviço telegráfico do "Estado"
a febre do dinheiro
as falências sírio nacionais
a especulação sobre os terrenos
a politicagem e os politiqueiros
e a negra de pó de arroz
e até os bondes da Light
para o Tietê das regatas e dos bandeirantes
os homens dizem que tu és ingrata
e que devoras os teus próprios filhos...
Mas que linda madrasta tu és
toda vestida de jardins!
Minha cidade
Amo também teus plátanos nostálgicos
imigrantes infelizes
teus crepúsculos de seda japonesa
tuas ruas longas de casas baixas
e teu triângulo provinciano...

Sérgio Milliet (1898-1966)

30 de julho de 2015

Entreacto

Piero di Cosimo
Não acaba aqui a história.
Isto é só
uma pequena pausa para que descansemos.
A tensão é tão grande,
a emoção que a trama desprende é tão
intensa,
que todos,
bailarinos e atores, acrobatas
e o distinto público,
agradecemos
a trégua convencional do entreacto
¹,
e comprovamos
alegremente que tudo era mentira,
enquanto os músicos afinam os violinos.
Até agora, vimos
várias cenas rápidas que preludiavam a morte,
conhecemos o rosto de certos personagens
e sabemos
algo que inclusivamente muitos deles ignoram:
o móbil
da traição e o nome
de quem a praticou.
Não ocorreu ainda nada de definitivo
mas
o desespero e os intérpretes
tentam evitar o rigor do destino
pondo demasiado calor nos seus exuberantes
ademanes
²,
demasiado colorido nos seus sorrisos
falsos,
com que — é evidente — dissimulam
a sua covardia, o terror
que dirige
os seus movimentos no cenário.
Aqueles
ineficazes e tortuosos diálogos
com referências a ontem, a um tempo
ido,
completam, no entanto,
o panorama esfarrapado que ante nós
se depara, e talvez
então expliquem muitas coisas, sejam
a chave que no final justifique
tudo.
Não esqueçamos também
as palavras de amor junto ao tanque
o gesto demudado, a violência
com que alguém disse:
“não”
olhando o céu,
e a surpresa que produz
o torvo jardineiro quando anuncia:
“chove, senhores, chove
ainda”.
Mas talvez seja cedo para conjecturas:
deixemos
que a tramoia se prepare,
que os que hão de morrer recuperem o alento,
e pensemos,
quando o drama prosseguir e a dor
fingida
se torne verdadeira em nossos corações,
que nada se pode fazer, que está próximo
o fim que tememos de antemão,
que a aventura acabará, sem dúvida,
como deve acabar, como está escrito,
como é inevitável que suceda.

Ángel González (1925-2008)
Tradução: Egito Gonçalves


¹ Discussão, debate.
² Gestos amaneirados; trejeito.

29 de julho de 2015

Unidade

Sérgio Milliet - Auto retrato
Jamais seremos um mais de um minuto!

Todas as forças se concentram
todos os desejos se enrijam
todos os anseios se sublimam
na urgência de sermos um...

Mas apenas desprende-se a centelha
já se quebram todas as molas,
inexorável dualidade!
Jamais seremos um mais de um minuto!

Sérgio Milliet (1898-1966)

Descoberta

Vincent van Gogh
Andava eu pelo bosque
Inteiramente só,
Ao léu, por nada
Pensar ou querer.

E percebi na sombra
Uma florzinha só,
Clara como as estrelas
Ou dois olhos brilhantes.

Fiz menção de arrancá-la,
Quando a ouvi dizer, suavemente:
Será para que eu morra
Que devo ser quebrada?

E tirei-a do chão
Com todas as raízes
E ao jardim conduzi
Para junto do lar.

E de novo a enterrei
Num tranquilo lugar
Onde ela vive e cresce
E está sempre florindo.

Johann von Goethe (1749-1832)

28 de julho de 2015

Ontem

Frank Millet
Até hoje perplexo
ante o que murchou
e não eram pétalas.

De como este banco
não reteve forma,
cor ou lembrança.

Nem esta árvore
balança o galho
que balançava.

Tudo foi breve
e definitivo.
Eis está gravado

não no ar, em mim,
que por minha vez,
escrevo, dissipo.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

- Mendigo Morto

Sir Lawrence Alma-Tadema - The Blind Beggar
Foram encontrá-lo morto,
Hirto e rijo como um pau;
Toda aquela escura noite
O vento soprava mau,
Caíra neve, e o granizo
Fundia pelo chão liso.

Deitado sobre umas pedras,
Foram encontrá-lo morto
Ao raiar da madrugada
Como os barcos naufragados
Quando partem as amarras…
Na terra, fundo, cravados,
Seus dedos lembravam garras!

Foi sob a mina do Enxidro:
Tinha os olhos muito abertos,
Tristes como os céus desertos…
E, dentre a barba cerrada,
Uma lágrima gelada
Como uma conta de vidro.

Fausto José (1903-1975)

27 de julho de 2015

Soneto II

Pierre Puvis de Chavannes - Homero
Necessito de um ser, um ser humano
Que me envolva de ser
Contra o não ser universal, arcano
Impossível de ler

A luz da lua que ressarce o dano
Cruel de adormecer
A sós, à note, ao pé do desumano
Desejo de morrer.

Necessito de um ser, de seu abraço
Escuro e palpitante
Necessito de um ser dormente e lasso
¹

Contra meu ser arfante:
Necessito de um ser ao meu lado
Um ser profundo e aberto, um ser amado.

- Mário Faustino (1930-1962)

¹Que sente profunda fadiga física.

O Amor não é tudo

William Russell Flint
O amor não é tudo: nem carne nem
bebida, nem é sono, lar da gente,
nem a tábua lançada para quem
se afunda e volta e afunda novamente.

O amor não pode encher o pulmão forte,
pôr osso no lugar, tratar humores,
embora tantos deem a mão à morte
(enquanto o digo) só por desamores.

Bem pode ser, na hora mais doída,
ou da minha franqueza arrependida,
buscando alívio à dor, seja capaz

de vender teu amor por minha paz
ou trocar-te a lembrança pelo pão.
Bem pode ser que o faça. Acho que não.

Edna St. Vincent Millay (1892-1950)
Tradução: Paulo Mendes Campos

26 de julho de 2015

O Banquete

Platão e Xenofonte

Xenofonte (430-355 a.C.) Historiador, Soldado e discípulo de Sócrates.
Platão (428-347 a.C.) O mais famoso discípulo de Sócrates.

1 – O Banquete de Platão:
Anton Petter - Sócrates e Alcibíades
O Banquete está entre os diálogos mais lidos de Platão e foi escrito aproximadamente antes de 384 a.C. É constituído por sete discursos em louvor a Eros, antecedidos pela apresentação dos personagens e finalizados pelo discurso de Sócrates, que conclui o simpósio.
Platão narra, através de uma conversa entre Apolodoro e um companheiro, um banquete ocorrido na casa de Agatão, poeta ateniense. Tal jantar ocorrera muitos anos antes da narração de Apolodoro, que tomou conhecimento de tal fato através de Aristodemo, um dos presentes. Em O Banquete Platão expõe o que para si era o Amor, quais eram suas benevolências na vida de um homem e quais os cuidados deviam ser tomados quando se fosse atingido por uma das “flechas de Eros”. Embora o filósofo utilize-se de diversos personagens componentes do circuito social de Atenas, como o médico Erixímaco, o comediógrafo Aristófanes e o poeta Agatão, é somente no final da obra que Platão, através de Sócrates, elucida seu pensamento sobre a temática amorosa.
Mas isso não se faz de forma direta: ainda que Sócrates tome a palavra, não discursa atribuindo a si a melhor definição sobre Eros, mas fazendo uso da fala da sacerdotisa Diotima de Mantinéia. Esse método garante ao diálogo um caráter pedagógico, pois sendo Sócrates um filósofo, de acordo com a doutrina platônica, tinha como papel resgatar a verdade na alma dos homens.
A finalização do diálogo ocorre quando Alcibíades, general de Atenas, adentra o recinto fingindo estar embriagado e faz uma declaração de amor a Sócrates.
1 – O Banquete de Xenofonte:
O Banquete de Xenofonte, escrito aproximadamente em 380 a.C, relata um jantar ocorrido anos antes que fora oferecido por Cálias em honra ao jovem Autólico, seu eromeno˚ , por sua vitória no pancrácio no ano de 422 a.C em ocasião das Grandes Panatenéias˚ . Cálias, em companhia de Nicerato, convida Sócrates e seus amigos, Critóbulo, Hermógenes, Antístenes, Cármides para participarem deste evento.
A obra é composta por nove livros e está dividida em três partes principais:
1. Na primeira há a apresentação dos personagens;
2. na segunda versa-se sobre variados temas, dentre os quais estão a natureza feminina, a dança, o vinho e a bebedeira, a Filosofia e os esportes, sempre pautados na importância do equilíbrio e da temperança;
3. na terceira e última parte, especificamente no livro VIII, Sócrates assinala suas principais ideias acerca do Amor, sobretudo do amor pederástico
˚ .
O mestre aponta os diversos tipos de amor existentes, expressando sua dúvida acerca da existência de duas deusas Afrodite - a Pandemia e a Urânia, como também aparece no diálogo platônico. Para Sócrates em Xenofonte, é possível que a deusa seja apenas uma e que se manifeste de formas distintas, ora amor como sensual, ora como amor da alma.

(XENOFONTE, O Banquete, VIII, 10).
Sócrates segue afirmando que o amor da alma é superior àquele amor que visa apenas o corpo. Para o mestre, a amizade (philia) deve ser a base de qualquer relação digna de consideração e, enquanto a beleza do corpo não dura, a da alma vai aumentando à medida em que o tempo passa.

(XENOFONTE, O Banquete, VIII, 13-14).
Terminado o discurso de Sócrates, Autólico levanta-se para dar um passeio. Os demais permanecem para contemplar uma representação de Dioniso e Ariadne e ao vê-los um nos braços do outro, decidem os solteiros fazer promessas de casamento e os casados conduzir-se em direção às suas esposas. Sócrates e os que ficaram saem com Cálias para passear cm Lícon e seu filho.

(XENOFONTE, O Banquete, IX, 1-7).
A Pederastia no Banquete de Platão e Xenofonte.
Notamos nos dois Banquetes muitas semelhanças, a começar pela presença de Sócrates. Além do tipo de escrita, a temática amorosa e as reflexões acerca das consequências do Amor na vida dos seres humanos são comuns às duas obras. Em ambas a relação entre erastas˚ e eromenos aparece pautada na temperança e no amor voltado mais para a beleza da alma que da beleza física. Embora os atenienses valorizassem muito o corpo, também prezavam a beleza da alma, conforme descrevem Platão e Xenofonte.
“E é mau aquele amante popular, que ama o corpo mais que a alma; pois não é ele constante, por amar um objeto que também não é constante. (...) Ao contrário, o amante do caráter, que é bom, é constante por toda a vida, porque se fundiu com o que constante” (PLATÃO, O Banquete, 183 d – e).
“Mostrarei agora o quanto é indigno de um homem livre ter relações com aquele que prefere os corpos ao invés da alma. Aquele que ensina a seu amigo a falar e agir como convém, poderia ser honrado por Aquiles, como Quíron e Fênix; mas aquele cujo desejo dirige-se aos corpos, merece ser tratado como mendigo (XENOFONTE, O Banquete, VIII, 23).
Ao analisarmos os trechos acima percebemos que embora valorizada, a beleza do corpo era preterida em relação à beleza da alma, pois é inconstante e passageira, enquanto a beleza da alma é estável. Um homem virtuoso seria aquele que conseguisse unir a beleza do corpo, adquirida através de atividades físicas, à beleza da alma, por intermédio de sua conduta e reflexões filosófica. Sócrates, no livro II do Banquete de Xenofonte, mostra-se imensamente interessado pela prática da dança, e afirma que o jovem bailarino presente no encontro torna-se ainda mais belo enquanto movimenta-se. Discursando positivamente sobre os benefícios que a dança e as atividades físicas em geral trariam àqueles que a praticavam, Sócrates consegue convencer Cálias, que pede para ser convidado pelo mestre quando este fosse aprender a dançar para que pudessem aprender juntos (XENOFONTE, O Banquete, II, 15 - 20). Nesta passagem, Sócrates age como um bom exemplo de erasta e influencia positivamente Cálias, mesmo este já sendo homem formado e não participante do processo destinado à sua formação social.
Nos dois diálogos existem vários “conselhos” de como deveriam agir os praticantes da pederastia. Durante o século V a.C, Atenas enfrentava uma crise política, sobretudo em consequência de seu envolvimento na Guerra do Peloponeso. Na cidade surgiam vários hetairiai, que segundo Donald Kagan eram “clubes” de eupátridas que se consideravam inimigos da Democracia (KAGAN, 2006: 414). Além do campo político, a Guerra do Peloponeso atingia também o equilíbrio moral da sociedade ateniense, e diante do caos proveniente da guerra, parte da juventude descontrolou-se em relação a seus desejos sexuais.
Sabemos que a opinião de Platão não pode ser estendida a toda sociedade, já este era um filósofo e que possuía uma visão idealizada da pederastia. Se em o Banquete há tanta preocupação no que diz respeito ao autocontrole de erastas e erômenos é por que certamente havia aqueles que transgrediam as normas. Platão era um sábio e diante da corrosão dos valores morais em que a juventude estava submetida, sente-se no papel de orientá-los, seguindo o exemplo de seu mestre Sócrates, o “Parteiro das Almas”. Xenofonte compartilha das preocupações de Platão. Em todo seu diálogo existem noções morais que para ele deveriam ser respeitadas no relacionamento pederasta. Na passagem a seguir, Sócrates elogia Cálias por estar enamorado de Autólico, um jovem cheio de virtudes:
“Quanto a ti, Cálias, toda a cidade sabe que tu estás enamorado de Autólico, e muitos estrangeiros também, imagino. A razão disso, de ambos serem pais célebres, tu mostrarás a eles. De minha parte, sempre admirei sua natural felicidade, mas agora muito mais, por que vejo que tu amas um rapaz que não se prostitui por causa da elegância, nem se torna efeminado por causa da delicadeza, mas que faz brilhar no entender de toda sua força, sua resistência, sua coragem e sua temperança. Estar apaixonado por qualidades parecidas demonstra a excelente natureza do amante”.

(XENOFONTE, O Banquete, VIII, 7–8).
Através do discurso de Sócrates apresentado no trecho acima, compreendemos o que para Xenofonte eram atributos de um bom eromeno: um jovem másculo, incorruptível, corajoso e temperante. Em outra passagem, Sócrates enumera as qualidades do bom erasta:
“Uma alma ama fazendo o amado crescer em sua beleza, digna de um homem livre; em sua modéstia e sua generosidade, e ao mesmo tempo, uma alma que imediatamente, se mostra autoritária e benevolente entre os jovens, não tem necessidade de discurso, por que é natural que tal apaixonado seja correspondido em seu amor pelo jovem, e eu demonstrarei isso.”

(XENOFONTE, O Banquete, VIII, 15-17 ).
Outro aspecto que favorece a figura de Cálias enquanto bom erasta é o fato de convidar Líncon, o pai de Autólico, para as reuniões (XENOFONTE, O Banquete, VIII, 11).
Compreendemos que para Xenofonte, se a relação entre erastas e eromenos era realizada dentro dos limites moralmente aceitos, não teria motivo para que fosse escondida do pai do jovem, muito pelo contrário: deveria servir de modelo para outros jovens e seus mestres.
Platão também aponta em seu diálogo os modelos que erastas e eromenos deveriam seguir. De acordo com as regras da pederastia, Alcibíades aparece em O Banquete como um mau exemplo. Embora em sua juventude tenha recebido a mais refinada educação de Atenas, ao atingir a idade adulta, rendeu-se ao descontrole sexual, a bebedeira e aos mais diversos tipos de escândalos. Werner Jaeger ratifica que Alcibíades é o tipo que Platão melhor utiliza para ilustrar o que segundo ele seria um bom eromeno: jovem de aspirações geniais, que tomava para si os assuntos políticos de Atenas. Contudo, Alcibíades peca no fato de trabalhar para a Edificação do Estado antes ainda de edificar o “Estado em si mesmo”.

(JAEGER, 1986: 515)
e torna-se exemplo do modelo a não ser seguido por não possuir autocontrole.
Dois papéis fundamentais eram pré-determinados na relação pederástica: erastas– que tinham como função ensinar ao amado a maneira pela qual triunfar sobre seu desejo e tornar-se um bom eupátrida; e erômenos– aceitar os ensinamentos de seu erasta, reconhecer sua grandeza, não ceder facilmente a seu cortejo e prestar-lhe favores. Entretanto, Michel Foucault afirma que Platão em O Banquete modifica a ordem na relação pederástica através da figura de Sócrates: o mestre é aquele que transforma os papéis, modifica o sentido do jogo, renuncia os afrodisia e passa a ser dos jovens objeto de desejo.

(FOUCAULT, 2003: 211). Não é de fácil percepção que nas últimas páginas de O Banquete os papéis entre amante e amado desempenhados por Sócrates e Alcibíades estão invertidos; todavia, assim como deveriam se comportar os eromenos dignos de sua futura cidadania, Sócrates renuncia às tentações, e por isso mesmo, torna-se mais amado pelos jovens.
Platão utiliza-se do exemplo de Alcibíades para apresentar a seus leitores o modo como um eromeno não deveria se comportar. No entanto, Sócrates aparece como exemplo, ora de um hábil erasta, ora de um bom eromeno.
Ao final da análise desses dois diálogos, infere-se que Platão e Xenofonte tinha grande preocupação em delimitar que relações eram dignas de serem denominadas “amorosas” e qual a conduta daqueles que se diziam amantes e amados. A relação entre Eros e Logos– Amor e Sabedoria – é amplamente compreendida, contribuindo para o esclarecimento de como se davam o convívio amoroso e a pedagogia entre erastas e eromenos. Apesar de se tratar de escritos filosóficos, O Banquete de Platão e Xenofonte servem de base para a compreensão do imaginário aristocrático do período abrangido, e complementam outras fontes, sejam literárias ou artísticas, acerca da pederastia em Atenas, nos período clássico.

Vocabulário:
Eromeno = Era um adolescente do sexo masculino envolvido em uma relação amorosa com um homem adulto.
Erastes = Era um homem aristocrata envolvido em um relacionamento com um adolescente do sexo masculino denominado eromenos.
Panateneias = Eram festas realizadas em homenagem à deusa grega Atena.
Alcibíades = Foi um general e político ateniense. Tendo ficado órfão, foi educado por Péricles, de quem era sobrinho e tornou-se amante de Sócrates.
Pederastia = Prática sexual entre um homem e um rapaz mais jovem.

25 de julho de 2015

Chegada

Charles Amable Lenoir
Parece-me irreal que tenhas vindo,
quase irreconhecível: onde estava
o impossível
eco de vida, íngreme, o passado
tornado mais passado?

Parece-me real que tenhas ido
ser outro ser, distante desta praia
Reconheci-te?
A lua minguante
de agosto iluminou tua chegada.

Gastão Cruz

Atento

Hermann Seeger
Todos os dias,
batalho silenciosamente.

Ao respirar, busco ser o vento.
Ao caminhar, sou o caminho.
Ao sonhar, engendro o sonho do sonho,
delirante e consciente.
Ao pensar, penso o pensamento
e devagar o componho.
Ao realizá-lo, sou a realidade,
simplesmente.

Não há outra verdade
senão a que invento.

Adriano Espínola

24 de julho de 2015

A Luís de Camões

Anna Ancher
Sem pena ou ira o tempo menoscaba¹
As heroicas espadas. Pobre e triste
À nostálgica pátria retornaste,
Ó capitão, para morreres nela
E com ela. No mágico deserto
A flor de Portugal fora perdida
E o áspero espanhol, antes vencido,
Ameaçava seu costado aberto.

Quero saber se aquém desta ribeira
Última compreendeste humildemente
que quando foi perdido o Ocidente
E o oriente, a têmpera e a bandeira,
Perduraria (alheio a toda humana
Mudança) em tua Eneida lusitana.
Jorge Luís Borges (1899-1986)
Tradução: Rolando Roque da Silva

¹ Tornar imperfeito; deixar incompleto.

Um amor infinito enquanto incomensurável!

Koho Shoda
Uma vez que o sentimento é o primeiro
a prestar alguma atenção
à sintaxe das coisas
nunca virá a beijar-te por inteiro;

em ser um completo insano
enquanto no mundo houver Primavera

meu sangue consente
e beijos são um melhor destino
que a sabedoria

senhora, juro por todas as flores. Não chores
– o melhor gesto do meu cérebro vale menos que
a vibração de tuas pálpebras a dizer

que somos um para o outro: então
ri, recostando-te em meus braços
já que a vida não é um parágrafo

E penso que a morte não seja nenhum parêntesis.

E.E.Cummings(1894-1962)
Tradução: J. A. Rodrigues

23 de julho de 2015

Senhor Imperador

.................. (inspirado em Boris Vian)
Yoshitaka Amano
Senhor Imperador:
escrevo-lhe estas linhas
em nome das mulheres
— as pobres e as rainhas.

Em nome das manhãs
que nascerão sem paz;
em nome das crianças
que nascerão sem pais.

Senhor Imperador:
se é bom fazer a guerra
por que não vai você
o homem que não erra?

Se a pátria pede sangue
por que não dá o seu?
Por que matar o moço
que ainda não viveu?

Um Deus que não o seu
louvando a vida humana
virá pra nos salvar
da garra dos tiranos

dos amantes da morte,
dos senhores da Dor.
Terá fim o seu crime,
Senhor Imperador!

Renata Pallottini

As Duas Fontes da Moral e da Religião

Edouard Vuillard
“A humanidade geme, meio esmagada sob o peso do progresso que conseguiu. Ela não sabe o suficiente que seu futuro depende dela. Cabe-lhe primeiro ver se quer continuar a viver. Cabe-lhe indagar depois se quer viver apenas, ou fazer um esforço a mais para que se realize, em nosso planeta refratário, a função essencial do universo, que é uma máquina de fazer deuses”.
Henri-Louis Bergson (1859-1941)

22 de julho de 2015

Vagamundo

Donald Zolan
Em nenhuma
parte
da terra
posso
alojar-me

A cada
novo
clima
que se me depara
sinto-me languescer
uma vez
que
a ele já me havia estado
afeito

E me afasto sempre
estrangeiro

Nascendo
de volta a épocas demasiado
vívidas

Gozar um só
minuto de vida
inicial

Busco um país
Inocente.

Giuseppe Ungaretti (1888-1970)
Tradução: J. A. Rodrigues

Princípio do Uno

Caspar David Friedrich - Moonlit Landscape
“Há entre o homem e tudo o mais uma harmonia, uma relação, um princípio comum. Esse princípio lhe é dado pelo Uno, juntamente com a sua essência e sua inteligibilidade. Mas, como se aproximar do ser inapreensível? Alguém já viu o senhor do tempo, a alma dos sóis, a fonte das inteligências? Não? Somente confundindo-se com ele é que se penetra em sua essência. É semelhante a um fogo invisível, no centro do universo, com a chama ágil a circular em todos os mundos e movendo a circunferência. Vosso próprio ser, vossa alma não é um microcosmo, um pequeno universo? Mas ela está cheia de tempestades, de discórdias. Trata de realizar a unidade na harmonia. Então, somente, Deus descerá em vossa consciência. Então, participareis do seu poder, fareis da vossa vontade de ferro a pedra do lar, o altar de Héstia, o trono de Júpiter”.
Filolau de Crotona (470 - 385 a.C.)
Filósofo Pitagórico.

21 de julho de 2015

A Conferência dos Pássaros (Excerto)

Sir John Everett Millais - O Vale do descanso
“Uma jovem caiu no rio e seu amante atirou-se à água com a intenção de salvá-la. Quando ele se avizinhou, a moça perguntou; "Por que arriscas a vida por minha causa?" E ele respondeu: "Para mim não existe outra pessoa senão tu. Quando estamos juntos eu realmente sou tu e tu és eu. Nós dois somos um. Nossos corpos são um só, e isso é tudo". Quando desaparece a dualidade, encontra-se a Unidade”.
- Farid Ud Din Attar (1145-1220)

A Imagem Oposta

Peter Paul Rubens
Espelho, sub-reptício espelho,
meu professor de disfarce.
Quem poderá disfarçar-se
sem recorrer ao seu conselho?

É diante dele que componho
não só a gravata, meu enfeite,
mas o meu jeito de rir, tristonho,
para que o mundo me aceite.

Suspenso defronte à janela,
falador, não obstante mudo,
ele é o meu jornal tagarela
que em segredo me conta tudo.

Graças ao seu préstimo avisto
tudo o que se passa lá fora.
E vejo, sem jamais ser visto,
a vida que se vai embora...

Veja o amigo... (ah, eu o compreendo)
o amigo que mais considero.
Aquele que só é sincero
por não saber que o estou vendo.
Cassiano Ricardo (1895-1974)

20 de julho de 2015

A Escolha

Annibale Carracci
O intelecto do homem é forçado a escolher
A perfeição da vida, ou do trabalho
E se escolhe a segunda tem de recusar
Uma mansão celeste, enfurecendo-se em segredo.

Quando tudo acabar, o que haverá de novo?
Com sorte ou sem ela a labuta deixou as suas marcas:
Essa velha perplexidade é a bolsa vazia,
Ou a vaidade do dia, o remorso da noite.

William Butler Yeats (1865 -1939)
Tradução: Maria de Lourdes Guimarães e Laureano Silveira

Soneto dos cinquent'anos

Georgina de Albuquerque
Não sinto como o herói do mestre egrégio:
estou com os homens e com deus contente.
Revejo-me dos tempos de colégio,
aceito o meu passado e o meu presente.

A dor que deus me deu, aceito-a. Ponho
máscaras mansas no meu sofrimento.
Não quero mais que tenho, nem proponho
mesmo esse pouco dissipar no vento.

Tudo se foi, mas tudo está presente:
o rio, os bois, as árvores da infância,
meu Pai, severo, minha Mãe, paciente.

Faltam-me o olhar e a voz desse menino,
mas desce do seu gesto, na distância,
a força que enfrento o meu destino.
Odylo Costa Filho (1914-1979)

19 de julho de 2015

De cigarras e pedras ...

John Sutcliffe
De cigarras e pedras, querem nascer palavras.
Mas o poeta mora
A sós num corredor de luas, uma casa de águas.
De mapas-múndi, de atalhos, querem nascer viagens.
Mas o poeta habita
O campo de estalagens da loucura.

Da carne de mulheres, querem nascer os homens.
E o porta preexiste, entre a luz e o sem nome.

Hilda Hilst (1930-2004)

A Roda

Paul Cézanne
No inverno clamamos pela primavera,
E na primavera invocamos o verão,
E quando as sebes se tornam abundantes
Declaramos que o inverno é a melhor das estações;
Mas logo depois afirmarmos que nada há de bom
Porque a primavera ainda não chegou –
Mal sabemos que o que perturba o nosso sangue
É somente o seu vívido anelo fúnebre.

William Butler Yeats (1865 -1939)
Tradução: J. A. Rodrigues