23 de outubro de 2017

O poeta começa o dia

Damião Martins
O poeta começa o dia
Pela janela atiro meus sapatos, meu ouro, minha
[alma ao meio da rua.
Como Harum-al-Raschid, eu saio incógnito, feliz
[de desperdício... Me espera o ônibus, o horário, a morte — que
[importa?
Eu sei me teleportar: estou agora
Em um Mercado Estelar... e olha!
Acabo de trocar
— em meio aos ruídos da rua
alheio aos risos da rua —
todas as jubas do Sol
por uma trança da Lua!

— Mario Quintana (1906-1994)

20 de outubro de 2017

A árvore sem folhas

Andrew Wyeth
A cerejeira sem folhas
mais alta que o teto
deu ano passado
muita fruta. Como
falar porém de fruta diante
desse esqueleto?
Embora possa estar vivo
não há fruta nele.
Por isso derrubem-no
e usem a lenha contra
este frio cortante.

William Carlos Williams (1883-1963)
Tradução: José Paulo Paes

18 de outubro de 2017

O outro

Monica Barengo
só quero
o que não
o que nunca
o inviável
o impossível

não quero
o que já
o que foi
o vencido
o plausível

só quero
o que ainda
o que atiça
o impraticável
o incrível

não quero
o que sim
o que sempre
o sabido
o cabível

eu quero o outro.

Chacal
(pseudônimo de Ricardo de Carvalho Duarte, poeta do Rio de Janeiro)

16 de outubro de 2017

Perfume exótico

Frederick Carl Frieseke
Quando, cerrando os olhos, numa noite ardente,
Respiro a fundo o odor dos teus seios fogosos,
Percebo abrir-se ao longe litorais radiosos
Tingidos por um sol monótono e dolente.

Uma ilha preguiçosa que nos traz à mente
Estranhas árvores e frutos saborosos;
Homens de corpos nus, esguios, vigorosos,
Mulheres cujo olhar faísca à nossa frente.

Guiado por teu perfume a tais paisagens belas,
Vejo um porto a ondular de mastros e de velas
Talvez exaustos de afrontar os vagalhões,

Enquanto o verde aroma dos tamarineiros,
Que á beira-mar circula e inunda-me os pulmões,
Confunde-se em minha alma à voz dos marinheiros.

Charles Baudelaire (1821-1867)
Tradução: Ivan Junqueira

14 de outubro de 2017

Versos do Prisioneiro

Carl Spitzweg
Não é de amor que careço.

Sofro apenas
da memória de ter amado.

O que mais me dói,
porém,
é a condenação
de um verbo sem futuro.

Amar!

Mia Couto

12 de outubro de 2017

Sinal de ti

Wilhelm Gallhof
Não darei o Teu nome à minha sede
De possuir os céus azuis sem fim,
Nem à vertigem súbita em que morro
Quando o vento da noite me atravessa.

Não darei o Teu nome à limpidez
De certas horas puras que perdi,
Nem às imagens de oiro que imagino
Nem a nenhuma coisa que sonhei.

Pois tudo isso é só a minha vida,
Exalação da terra, flor da terra,
Fruto pesado, leite e sabor.

Mesmo no azul extremo da distância,
Lá onde as cores todas se dissolvem,
O que me chama é só a minha vida.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

10 de outubro de 2017

Adonais

Alfred Augustus Glendening
A dor perturbou a jovem Primavera, que desprendeu
os rubros botões, como se fosse Outono
e eles folhas mortas; perdida a alegria,
para quem virá ela despertar o tempo doloroso?
Não, nem Jacinto a Febo tanto amou,
nem Narciso a si mesmo, como ambos
te amaram, Adonais. Ei-los pálidos e tristes
entre os desfalecidos companheiros da sua juventude:
era o orvalho lágrimas, e suspiros ou tristeza os aromas.

Percy Bysshe Shelley (1792-1822)
Tradução: Fernando Guimarães

8 de outubro de 2017

Todas as Vidas

John Singer Sargent - The old Chair
Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo..,

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho,
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.

Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.

Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.

Cora Coralina (1889-1985)

6 de outubro de 2017

Escrito com tinta verde

Daniel Gerhartz
A tinta verde cria jardins, selvas, prados,
folhagens onde cantam as letras,
palavras que são árvores,
frases que são verdes constelações.

Deixa que minhas palavras, ó branca, desçam
e te cubram
como uma chuva de folhas a um campo de
neve,
como a hera à estátua.
como a tinta a esta página.

Braços, cintura, pescoço, seios,
a fronte pura como o mar,
a nuca de bosque no outono,
os dentes que mordem um fio de erva.

Teu corpo constela-se de signos verdes
como o corpo da árvore de rebentos.
Não te afronte tanta pequena cicatriz
luminosa:
olha o céu e sua verde tatuagem de estrelas.

Octavio Paz (1914-1998)
Tradução: Luis Pignatelli

4 de outubro de 2017

Canção

Ettore Tito
O céu azul sobre o telhado
repousa em calma.
Uma árvore sobre o telhado
balança a palma.

A voz de um sino mansamente
ressoa no ar.
Um passarinho mansamente
põe-se a cantar.

Meu Deus, meu Deus, esta é que é a vida,
simples, tranquila,
como o rumor suave de vida
que vem da vila.

– Tu que aí choras, que é que fizeste,
dize, em verdade,
tu que aí choras, que é que fizeste
da mocidade?

Paul Verlaine (1844-1896)
Tradução: Onestaldo de Pennafort

1 de outubro de 2017

Céu claro

J. Fernando
Depois de tanta
névoa
uma
a uma
se desvelam
as estrelas

Respiro
o frescor
que me deixa
a cor do céu

Me reconheço
imagem
passageira

Presa de um ciclo
imortal.

Giuseppe Ungaretti (1888-1970)
Tradução: Geraldo Holanda Cavalcanti

29 de setembro de 2017

Um pouco antes

René Magritte
Quando já não for possível encontrar-me
em nenhum ponto da cidade
ou do planeta
pensa
ao veres no horizonte
sobre o mar de Copacabana
uma nesga azul de céu
pensa que resta alguma coisa de mim
por aqui
Não te custará nada imaginar
que estou sorrindo ainda naquela nesga
azul celeste
pouco antes de dissipar-me para
sempre.

Ferreira Gullar (1930-2016)

27 de setembro de 2017

O Grito dos Que Estão Sendo Comidos pela América

Thomas Moran
O grito dos que estão sendo comidos pela América,
Outros pálidos e macios estão sendo armazenados para mais tarde

E Jefferson
Que viu a esperança em novas aveias

As casas selvagens continuarão
Com seus longos cabelos crescendo entre os dedos dos pés
Que à noite se levantam
E descem correndo as longas estradas brancas
As barragens trocam o rio pela solidão do deserto

Ministros que mergulham de cabeça na terra
A carne pálida
Que se espalha culposa em novas literaturas

Isto é porque estes poemas são tão tristes
Antigos mortos correndo pelos campos

A massa afundando aos poucos
A luz no rosto das crianças se apagando aos seis ou sete anos

Cedo o mundo se dissolverá nas pequenas colônias dos que forem salvos.

Robert Bly
Tradução:Lêdo Ivo

25 de setembro de 2017

Memória

Albert Lynch
A água clara; como o sal das lágrimas da infância,
O assalto ao sol do alvor dos corpos de mulher;
a seda, em massa e lírio puro, de auriflamas
sob muros de que outrora uma donzela defendeu;

o embate de anjos; - Não... a corrente de ouro em marcha,
move seus braços, densos e baços, porém frescos de erva. Ela
se aprofunda e, tendo por dossel o Céu azul, toma
por cortinado a sombra da colina e do arco.

Arthur Rimbaud (1854-1891)
Tradução: Ivo Barroso

23 de setembro de 2017

Cidade

Joseph Mallord William Turner
Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

21 de setembro de 2017

Epístola para os amados

Louis Marie de Schyrver
Ainda vos amos, porque aqui não há só tempo
e o amor, no tempo, é tão intenso e absoluto,
que transborda do tempo para o não-presente.
Havendo tempo e não-tempo, eu vos confesso agora
que em parques ao poente ainda vos estou a amar.
E não que vos ofereça hoje alucinados versos,
mas porque do meu tempo sois donos, como os poemas
que eu escrevo do tempo para o não-tempo, sempre.

Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)

19 de setembro de 2017

Poema nº 68

Jasper Francis Cropsey
Ouço sussurrar sua flauta,
E já não consigo me conter.
Ainda não chegou a primavera,
E as flores irrompem dos botões,
Chamando as abelhas ao festim.

O relâmpago risca o céu,
O trovão estrondeia e reverbera,
A chuva se traduz em aguaceiro,
As ondas se elevam, batem forte:
Deixo a casa em busca do Senhor.

Onde existe ritmo neste mundo,
Lá já percutiu meu coração.
Onde ocultas bandeiras esvoaçam,
Lá já sopraram meus suspiros.
Estou morto. Todavia sigo vivo.

Kabir (1440-1518)
Tradução: José Tadeu Arantes

17 de setembro de 2017

Melancolia de Jasão, filho de Cleandro; poeta em Comagena

Luigi Crosio
O envelhecimento de meu corpo e de meu rosto
é uma ferida de terrível punhal.
Não tenho resignação alguma.
A ti recorro, Arte da Poesia,
que entendes um pouco de remédios:
tentativas de entorpecimento da dor, na Imaginação e no Verbo.

É uma ferida de terrível punhal .
Traze, Arte da Poesia, teus remédios,
que fazem – por algum tempo – que não se sinta a ferida.

Konstantinos Kaváfis (1863-1933)
Tradução: Ísis Borges da Fonseca

15 de setembro de 2017

Fragmentos

Bryce Liston Cameron
Passa de uma você deve estar na cam
À noite a Via Láctea é um Oká¹ de prata
Não tenho pressa para que acordar-te
com relâmpago de mais um telegrama
como se diz o caso esta encerrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano
Vê como tudo agora emudeceu
Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu
em horas como esta eu me ergo e converso
com os séculos a história o universo

Vladimir Maiakovski (1893-1930)
Tradução: Boris Schnaiderman, Augusto e Haroldo de Campos

14 de setembro de 2017

Divindades Incógnitas

Salvator Rosa - Democritus and Protagoras
Dizem
que de divindades terrestres entre nós
se encontram cada vez menos.
Muitas pessoas duvidam
de sua existência nesta terra.

Dizem
que neste mundo ou no de cima existe uma
só ou nenhuma; creem
que os sábios antigos eram todos uns loucos,
escravos de sortilégios se diziam
que algum deus incógnito
os visitava.

Eu digo
que imortais invisíveis
aos outros e talvez inconscientes
de seus privilégios,
divindades em jeans e com suas mochilas,
sacerdotisas em gabardine e sandálias,
pitonisas de ar absorto à fumaça de um fogo de pinhões,
numinosas visões não irreais, tangíveis,
intocadas,
vi muitas vezes
mas era sempre tarde demais se tentava
desmascará-las.

Dizem que os deuses não descem neste mundo,
que o criador não cai de paraquedas,
que o fundador não funda porque ninguém
jamais o fundou ou fundiu
e que nós não somos mais do que os desastres
de seu nulificante magistério;
contudo
se uma divindade, mesmo de ínfimo grau,
alguma vez me roçou
o arrepio que senti me disse tudo e no entanto
faltava-me reconhecê-la e o não existente
ser se esvanecia.

Eugenio Montale (1896-1981)
Tradução: Geraldo Holanda Cavalcanti

12 de setembro de 2017

Bilhete

William-Adolphe Bouguereau
Não me parecias frágil,
via-te doce.
Talvez fosses mesmo forte,
é preciso ser valente
pra decretar a própria morte.

Tinha-te por calmo.
Que rio obscuro e discreto
te puxava para o fundo,
sem saber nadar,
sem ninguém saber de nada?

Não deixaste uma carta,
um poema, um bilhete de suicida.
Como se quisesses dizer
que a morte
não deve explicações à vida.

Ricardo Silvestrin

10 de setembro de 2017

Em mim não habita o deserto que há em ti

Melozza Da Forli
Em mim não habita o deserto que há em ti
minha alma é um oásis luminoso
você constrói sua jaula, e nela quer ficar
cuidado
eu faço o que acho que deve ser feito na hora certa
existe diferença entre paixão e projeção?
será que terei de me tornar um insensível
só pra suprir a demanda do mercado atual?
quanto mais eu me acho mais eu me perco
que os tambores batam
e que tudo se acenda forte!

Jorge Salomão

8 de setembro de 2017

Tartária

Arthur Rackham
Quando ao meu estéril coração eu volto,
pelas eternas dúvidas assolado,
penso em Tartária, em gélidos desertos,
e uma sombra começa a tomar forma
e uma forma se encarna lentamente,
enquanto me conquista a débil vontade.
Desejo então que o cavaleiro eterno,
a quem perturbam as imensas distâncias,
cheio de sobressalto, se ponha em marcha.

Julio Martínez Mesanza
Tradução: Joaquim Manuel Magalhães

6 de setembro de 2017

A Última Canção do Homem

Dorina Costras
Rei da Criação, por mim mesmo aclamado.
Quis, vencendo o Destino, ser o Rei
De todo esse Universo ilimitado
Das ideias que nunca alcançarei...

Inteligência... esse anjo rebelado
Tombou sem ter sabido a eterna lei:
Pensei demais e, agora, apenas sei
Que tudo que eu pensei estava errado...

De tudo, então, ficou somente em mim
O pavor tenebroso de pensar.
Porque as ideias nunca tinham fim...

Que mais resta da fúria malograda?
Um bailado de frases a cantar...
A vaidade das formas... e mais nada...

Raul de Leoni (1895-1926)

4 de setembro de 2017

Caixa mágica de surpresa

Edward Hopper
Um livro
é uma beleza,
é caixa mágica
só de surpresa.

Um livro
parece mudo,
Mas nele a gente
descobre tudo.

Um livro
tem asas
longas e leves
que, de repente,
levam a gente
longe, longe

Um livro é parque de diversões
cheio de sonhos coloridos,
cheio de doces sortidos,
cheio de luzes e balões.

Um livro é uma floresta
com folhas e flores
e bichos e cores.
É mesmo uma festa,
um baú de feiticeiro,
um navio pirata do mar,
um foguete perdido no ar,
É amigo e companheiro.

Elias José