19 de julho de 2017

Fantasia do Crepúsculo

Jean-Léon Gérôme
Descansa o lavrador sua porta
E vê o fumo do lar subir, contente.
Hospitaleiramente ao caminhante
Acolhem os sinos da aldeia.

Voltam os marinheiros para o porto.
Em longínquas cidades amortece
O ruído dos mercados; na latada
Brilha a mesa para os amigos.

Ai de mim! de trabalho e recompensa
Vivem os homens, alternando alegres
Lazer e esforço: por que só em meu peito
Então nunca dorme este espinho?

No céu da tarde cheira a primavera;
Rosas florescem; sossegado fulge
O mundo das estrelas. Oh! levai-me,
Purpúreas nuvens, e lá em cima

Em luz e ar se me esvaia amor e mágoa!
Mas, do insensato voto afugentado,
Vai-se o encanto; escurece, e, solitário
Como sempre, fico ao relento.

Vem suave sono! Por demais anseia
O coração; um dia enfim te apagas,
Ó mocidade inquieta e sonhadora!
E chega serena a velhice.

Friedrich Hölderlin (1770-1843)
Tradução: Manuel Bandeira.

18 de julho de 2017

Censo Industrial

Antoine Wiertz - Os órfãos
Que fabricas tu?
Fabrico chapéu
feito de indaiá.
Que fabricas tu?
Queijo, requeijão.
Que fabricas tu?
Faço pão-de-queijo.
Que fabricas tu?
Bolo de feijão.
Que fabricas tu?
Geleia da branca
e também da preta.
Que fabricas tu?
Curtidor de couro.
Que fabricas tu?
Fabrico selim,
fabrico silhão
só de sola d’anta.
Que fabricas tu?
Eu faço cabresto,
barbicacho e loro.
Que fabricas tu?
Toco uma olaria.
Que fabricas tu?
Santinho de barro.
Que fabricas tu?
Fabrico melado.
Que fabricas tu?
Eu faço garapa.
Que fabricas tu?
Fabrico restilo.
Que fabricas tu?
Sou da rapadura.
Que fabricas tu?
Fabrico purgante.
Que fabricas tu?
Eu torro café.
Que fabricas tu?
Ferradura e cravo.
Que fabricas tu?
Panela de barro.
Que fabricas tu?
Eu fabrico lenha
furtada no pasto.
Que fabricas tu?
Gaiola de arame.
Que fabricas tu?
Fabrico mundéu.
Que fabricas tu?
Bola envenenada
de matar cachorro.
Que fabricas tu?
Faço pau-de-fogo.
Que fabricas tu?
Facão e punhal
de sangrar capado.
Que fabricas tu?
Caixão de defunto.
Que fabricas tu?
Fabrico defunto
na dobra do morro.
Que fabricas tu?
Não fabrico. Assisto
às fabricações.
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

17 de julho de 2017

Soneto

Chuck Pinson
Deus é a luz celestial que os astros unge e veste,
E dessa eterna luz nós todos fomos feitos.
Um fulgor de orações brilha nos nossos peitos:
É o reflexo estelar dessa origem celeste.

O homem mais louco e vil, cuja alma ímpia se creste
Aos fogos infernais dos mais torpes defeitos,
De vez em quando sente esplendores eleitos,
Que tombam nele como o luar sobre um cipreste.

Quem não sentiu no peito a carícia divina,
A enchê-lo de clarões na transparência hialina
De um astro que cintila em pleno azul sem véus?

Tudo é luz na nossa alma, e o mais vil, o mais louco,
Bem sabe que esta vida é um sol que dura pouco
E que Deus vive em nós como dentro dos céus...

Alphonsus de Guimaraens (1870-1921)

16 de julho de 2017

Cidade

↦ ↦ ↦ Para Arthur Nestrovsky
Chuck Pinson
Lembro que o futuro era uma cidade
nebulosa da qual eu esperava
tudo e que, sendo uma cidade, nada
esperava de ninguém. Ah, cidade
sonhada de avenidas macadâmicas,
turbas febris e prédios de granito:
o que era que eu perdera e que, perdido
e em cacos, buscava nas tuas áridas
calçadas e esquinas? Hoje constato
que a névoa do futuro do passado
adensa-se dia a dia. De longe
teus contornos são mais arredondados.
Tu, cidade irreal, aos poucos somes:
já anseio te rever e já te escondes.

Antonio Cicero

15 de julho de 2017

Violeta

Frank Dicksee
Sempre teu lábio severo
Me chama de borboleta!
_ Se eu deixo as rosas do prado
É só por ti – violeta!

Tu és formosa e modesta,
As outras são tão vaidosas!
Embora vivas na sombra
Amo-te mais do que às rosas.

A borboleta travessa
Vive de sol e de flores...
_ Eu quero o sol de teus olhos,
O néctar dos teus amores!

Cativo de teu perfume
Não mais serei borboleta;
_ Deixa eu dormir no teu seio,
Dá-me o teu mel – violeta!

Casimiro de Abreu (1839-1860)

13 de julho de 2017

Adormecida

Jean Simon Barthelemy
Ela dormia… Sobre o alvor do leito
Desenhava-se, esplêndida miragem,
Seu lindo corpo, escultural, perfeito.

Encrespado das rendas da roupagem,
Seu seio brandamente palpitava
Como a lagoa no tremor da aragem.

Solto, o cabelo se desenrolava
Sobre os lençóis, em plena rebeldia,
Como um revolto mar que os alagava.

Como no céu, quando desponta o dia,
A aurora raia, de um sorriso a aurora
Pelo seu meigo rosto se expandia.

E ela dormia descuidada… Fora,
O mar gemia um cântico plangente
Como uma alma perdida que erra e chora.

Um raio de luar, branco e tremente,
Pela janela mal cerrada veio
Entrando, surda, sorrateiramente…

Ia beijá-la em voluptuoso anseio;
Mas, ao vê-la dormindo entre as serenas
Ondas daquele sono sem receio,

Hesitou em beijar-lhe as mãos pequenas,
E humildemente, e como ajoelhando,
Beijou-lhe a fímbria do vestido apenas…

E o lindo quadro, estático, fitando,
Senti não sei que mística ternura
Por toda a alma se me derramando

Porque acima daquela formosura
Do corpo, os seus quinze anos virginais
Envolviam-lhe a angélica figura
Na sombra de umas asas ideais.
Vicente de Carvalho (1866-1924)

12 de julho de 2017

Gênese II

Anne-François-Louis Janmot
No princípio era o verbo
uma vaga voz sem dono
vagando pela via láctea.

Depois veio o sujeito
e junto com ele todos
os erros de concordância.

Gregorio Duvivier

10 de julho de 2017

Sozinho com todo mundo

Apoloniusz Kedzierski
A carne sobre os ossos
e colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homens bebem
demais
e ninguém encontra o
par ideal
mas seguem na
procura
rastejando para dentro e para fora
dos leitos.
a carne cobre
os ossos e a
carne busca
muito mais do que mera
carne.

de fato, não há qualquer
chance:
estamos todos presos
a um destino
singular.

ninguém nunca encontra
o par ideal.

as lixeiras da cidade se completam
os ferros-velhos se completam
os hospícios se completam
as sepulturas se completam

nada mais
se completa.

Charles Bukowski (1920-1994)
Tradução: Pedro Gonzaga

8 de julho de 2017

Jardim de Inverno

Gustav Klimt
No mais escuro deste jardim há alguém
com uma das mãos sobre os lábios que invoca
ou pelo menos aspira nomear este silêncio
atrás do qual passam nuvens e pó e pássaros

invisíveis ao olhar daquele que escuta,
inaudíveis como inaudível é, se escuto,
a passagem do vento entre os ramos de zimbro,
o ar que filtra o pouco ar de inverno.

Luz mínima. Sombras, silhuetas que se abraçam.
Faz como o frio. Regressa ao teu corpo.
Escuta lento o derivar do mundo.
Escuta como cresce o gelo e se interroga,

como tudo é espelho e a quietude do espelho.

Jordi Doce
Tradução: Joaquim Manuel Magalhães

6 de julho de 2017

Autobiografia de um só dia

✈ ✈ A Maria Dulce e Luiz Tavares
Robert Hagan
No Engenho Poço não nasci:
minha mãe, na véspera de mim,

veio de lá para a Jaqueira,
que era onde, queiram ou não queiram,

os netos tinham de nascer,
no quarto-avós, frente à maré

Ou porque chegássemos tarde
(não porque quisesse apressar-me,

e se soubesse o que teria
de tédio à frente, abortaria)

ou porque o doutor deu-me quandos,
minha mãe no quarto-dos-santos,

misto de santuário e capela,
lá dormiria, até que para ela,

fizessem cedo no outro dia
o quarto onde os netos nasciam.

Porém em pleno Céu de gesso,
naquela madrugada mesmo,

nascemos eu e minha morte,
contra o ritual daquela Corte

que nada de um homem sabia:
que ao nascer esperneia, grita.

Parido no quarto-dos-santos,
sem querer, nasci blasfemando,

pois são blasfêmias sangue e grito
em meio à freirice de lírios,

mesmo se explodem (gritos, sangue),
de chácara entre marés, mangues.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

5 de julho de 2017

Autobiografia literária

Vladimir Volegov
Quando era menino eu
brincava sozinho num
canto do pátio da escola
sem ninguém.

Odiava bonecas e
odiava jogos, os bichos eram
hostis e os pássaros
fugiam.

Se alguém me procurava
eu me escondia atrás de uma
árvore e gritava "Sou
um órfão."

E olha eu aqui, o
centro de toda beleza!
escrevendo estes versos!
Imagina!

Frank O'Hara (1926-1966)
Tradução: Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto

2 de julho de 2017

Asilo

Vincent van Gogh
Se o sonho,
fraturada primavera,
não retorna
O que fazer do inverno?

Ressonhar o verão,
talvez o outono,
saciar-se com o gosto
de alguma brisa
carícia na face rude
do tempo.

Domício Proença Filho

1 de julho de 2017

Orfeu

Lord Frederick Leighton
Não é bastante
que eu reconheça a minha solidão
e a queira como início dum caminho.
Não é bastante
ser livremente tudo quanto sei
e estar aberto a tudo o que serei.
Tudo o que fui e o que sou e o que serei
já são iguais
no tempo do meu todo ignorado.
Quero abrir o que as palavras não descrevem
para já não responder ao sim e ao não
do meu espelho conhecível.
Já não me basta apenas dar um nome
à morte que me cabe enquanto vivo
porque morrer é ter perdido a morte
para sempre
tornando sem sentido o sim e o não
com que me circundei e defini-me.
Conheço-me as fronteiras.
Quero o resto.

Helder Macedo

29 de junho de 2017

Tisana ↦ ↦ (chá de ervas)

Claude Monet
Convém cultivar com coragem a intrepidez na raiz do pensamento: que cada um se coloque diante de si energicamente como diante dum estrangeiro e quando atingir o limite do suportável, o momento em que é preciso tomar uma decisão total, então compreenderá que a situação limite que conduz ao crime é a insuportabilidade da traição. Dormitam em todo o homem estas faculdades.
Ana Hatherly (1929-2015)

28 de junho de 2017

Declaração de amor (O poeta é apanhado na armadilha)

Frederic Soulacroix
Maravilha! Voará ainda?
Sobe e suas asas estão imóveis?!
Quem o leva e faz subir?
Que fim, caminho ou rédea?

Como a estrela e a eternidade,
vive nas alturas, donde se afasta a vida,
Compassivo mesmo para a inveja,
Subiu muito quem o vê planar!

Albatroz! Minha ave!
Desejo eterno me impele às alturas.
Pensei em ti e chorei,
sim, eu te amo!
Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900),
Tradução: Márcio Puliesi, Edson Bini e Norberto de Paula Lima

27 de junho de 2017

Balada do Efêmero

Eduard Von Grutzner
O vento da Primavera, repentino, de leste,
o vinho claro estremece em taças de ouro.
Uma chuva de pétalas, dispersas ao acaso,
embriaga-se a beldade, afogueado o rosto.
Flores de pessegueiro, de ameixeira, tão breves!
Esvaem-se os dias, o homem mal se apercebe.
Levantais-vos para dançar,
mas anoitece.
Vencidos pelo corroer dos anos?
Inútil suspirar, tantos cabelos brancos!

Li Bai (701-762)
Tradução: António Graça de Abreu

25 de junho de 2017

O menos vendido

Ludwig Deutsch
Custa muito
pra se fazer um poeta.
Palavra por palavra,
fonema por fonema.
Às vezes passa um século
e nenhum fica pronto.
Enquanto isso,
quem paga as contas,
vai ao supermercado,
compra sapato pras crianças?
Ler seu poema não custa nada.
Um poeta se faz com sacrifício.
É uma afronta à relação custo-benefício.

Ricardo Silvestrin

24 de junho de 2017

Romance das matas no Rio de Janeiro

Armando Vianna - Morro do Borel em 1971
Navios vão-se atracando,
chegam noturnos mineiros,
andarilhos vêm andando
e em cavalos, cavaleiros
trocando o sul e os cavalos,
as colheitas e o dinheiro
por uma braça de um rio
de inexistente janeiro.

As casas vertiniginosas
na floresta de cimento
sobem doidas, caprichosas,
arranhando o firmamento.
As ruas crescem, comprimem
o corpo azul do gigante
que se levanta irrascível,
touro raivoso e espumante.

Medrosos troncos se abraçam
na floresta verdadeira.
Cipós covardes se enlaçam
pelo corpo das palmeiras.
Tudo debalde. O homem lança
um olhar de certeira flecha,
dardo de fogo que alcança
o coração da floresta.

Ai soluço ressequido,
pranto escuro de carvão!
Ai fundo e negro suspiro
que se eleva na amplidão!
Línguas de um fogo faminto
estralam gula e paixão.
Ai! Das matas sobe um grito,
descem lavas de um vulcão.

Os homens plantam sementes
de fogo e míseras casas,
crivam duros alfinetes
na renda verde das matas.
Nas grimpas nuas, as chagas,
ontem, rubras de clarão,
hoje são tendas plantadas
entre reboco e carvão.
E a miséria fecundada
no gineceu das taperas
rebenta nas densas matas
uma estranha primavera.

Celina Ferreira

23 de junho de 2017

Mar de ninguém

Gaston La Touche
No mar de ninguém
o navio fantasma e a sua hélice de sangue
à distância de um tiro
onde é a entrada abrupta dando para o torso adolescente
o de sempre quando é preciso procurar uma passagem
entre fios esticados de garganta a garganta
e um tambor estilhaçado à altura do peito.

António José Forte (1931-1988)

21 de junho de 2017

Se te chamasses...

Martin Johnson Heade
Se te chamasses Maria
a manhã que se prepara
em ti talvez moraria

ou, se te chamasses Clara
o teu nome despertasse
as luzes do fim do dia
para pintar tua face

mas quis chamar-te Alegria
o mistério de que és filha
e o teu nome apenas brilha
dentro da noite vazia.

Jayme Kopke

19 de junho de 2017

Colóquio sentimental

Briton Riviere - Jardim do Éden
No velho parque sozinho e gelado
Duas formas passaram, lado a lado...

De lábios moles e de olheiras cavas,
Mal se podendo ouvir suas palavras.

No velho parque sozinho e gelado
Dois espectros falaram do passado.

De nosso êxtase antigo tu te lembras sempre?
– Dize: Por que desejas que agora eu me lembre?

– Meu nome faz bater teu coração
Ainda e vês minha alma em sonhos? – Não.

— Ah! belos dias de glória indizível,
Sonorosos de beijos! – É possível.

– Como era azul o céu, como era grande a espera!
– Ah, como esta fugiu para negra atmosfera!

Iam assim entre as aveias alvas,
Só a noite escutou suas palavras.

Paul Verlaine (1844-1896)
Tradução: Jamil Almansur Haddad

17 de junho de 2017

Amor e seu tempo

Wesley Dallas Merritt
Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

16 de junho de 2017

Poesia Erótica

Andreas Heumann
Teu corpo seja brasa
e o meu a casa que se consome no fogo,
um incêndio basta pra consumar esse jogo,
uma fogueira chega pra eu brincar de novo.

- Alice Ruiz -