23 de novembro de 2014

O Papel do Historiador

Charles Meynier - Clio
“Os seres humanos (humanoides) vivem na Terra há, pelo menos, 3 milhões de anos. Se comparássemos 3 milhões de anos com um único dia, o tempo seria distribuído assim: Jesus Cristo teria nascido há apenas 57 segundos. A história escrita teria nascido a menos de 3 minutos. E tudo o que se passou antes das 23h57m pertenceria à Pré-História.
O papel do historiador é descobrir o que aconteceu nesse mundo fascinante, antes de começar a história escrita.”
Robert Braidwood (1907-2003)

Crítica da Razão Impura

Nikolay Bogdanov-Belsky
Impura razão a que sustenta os medos
e os torna enleantes e perversos
a invadirem o redil do sono
com as suas sombras bicéfalas

impura razão a que usa o verso regular
para fingir-se operosa e criadora,
a que usa uma cortina negra
para dissimular-se e tomar-se de enganos

impura razão a que se perfuma
de crisântemo ou de jasmim
e se eterniza num livro ou numa lua
e mata de assombro os caminhantes.

José Jorge Letria

22 de novembro de 2014

Passaporte

Agostinho Batista de Freitas
Dava adeus a si mesmo
na ponte sobre o cais.
A cada hora, partia-se
para não voltar mais.

Mauro Mota (1911-1984)

Domingo na Praça

Barbara Rochlitz
Na praça, este domingo
não é de hoje: é antigo.

O banco, o lago, a relva
para onde é que me levam?
Ai, dezembro de acácias,
esta praça não passa.
E essa gente depressa
(a moça e a bicicleta)

passa para deixar-se
um pouco nesta tarde.
Ai, dezembro de acácias,
este cheiro, esta música...

Sou, domingo na praça,
um momento o que fui.

Mauro Mota (1911-1984)

21 de novembro de 2014

Trem da Modernidade

Tarsila do Amaral
“Em 1924, uma caravana formada por Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e o poeta franco-suíço Blaise Cendrars, entre outros, percorreu as cidades históricas mineiras e acabou entrando para os anais do Modernismo.
O movimento deflagrado em 1922 estava se reconfigurando”.
(Ivan Marques. 'Trem da modernidade'. Revista de História
da Biblioteca Nacional, fevereiro de 2012. Adaptado.)
Entre as características da "reconfiguração" do Modernismo, citada no texto, podemos incluir:
► maior nacionalização do movimento,
► o declínio da influência futurista e
► o aumento da preocupação primitivista.

O Azulão e os Tico-Ticos

Do começo ao fim do dia,
um belo azulão cantava,
e o pomar que atento ouvia
os seus trilos de harmonia
cada vez mais se enflorava.

Se um tico-tico e outros bobos
vaiavam sua canção,
mais doce ainda se ouvia
a flauta desse azulão.

Um papagaio, surpreso
de ver o grande desprezo
do azulão, que os desprezava,
um dia em que ele cantava
e um bando de tico-ticos
numa algazarra o vaiava,
lhe perguntou: " Azulão,
olha, diz-me a razão
por que, quando estás cantando
e recebes uma vaia
desses garotos joviais,
tu continuas gorgeando,
e cada vez cantas mais?!"

Numas volatas sonoras,
o azulão lhe respondeu:
"meu amigo, eu prezo muito
esta garganta sublime,
este dom que Deus me deu!

Quando há pouco, eu descantava,
pensando não ser ouvido
nestes matos, por ninguém,
um sabiá
que me escutava,
num capoeirão, escondido,
gritou de lá: "meu colega,
bravo!....Bravo!...Muito bem!"

Queira agora me dizer: -
quem foi um dia aplaudido
por um dos mestres do canto,
um dos cantores mais ricos
que caso pode fazer
das vaias dos tico-ticos?!"
Catulo da Paixão Cearense (1863-1946)

Nota: Simbolicamente, Rui Barbosa está representado neste Sabiá, pois foi a “Águia de Haia” um dos maiores admiradores de Catulo e prefaciador do seu livro Poemas bravios.

20 de novembro de 2014

Dia Mundial da Filosofia

“Mais do que lutar pelas etiquetas
ou pelas aparências,
há que lutar pelo renascimento interior do Homem”.

Jorge Angel Livraga
No dia 20 de Novembro comemora-se o Dia Mundial da Filosofia, instituído pela UNESCO.
O Dia Mundial da Filosofia é o momento propício para se compreender os acontecimentos além de sua simples aparência.
A Filosofia não só faz parte da sua vida, como pode ser o meio de transformá-la e como disse Merlau-Ponty: “A verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo”.

Dia da Consciência Negra

A década de 1970, um grupo de quilombolas no Rio Grande do Sul cunhou o dia 20 de novembro como o Dia da Consciência Negra: uma data para lembrar e homenagear o líder do Quilombo dos Palmares, Zumbi, assassinado nesse dia pelas tropas coloniais brasileiras, em 1695. A representação do dia ganhou força a partir de 1978, quando surgiu o Movimento Negro Unificado no País, que transformou a data em comemoração nacional.
Segundo a historiadora da Fundação Cultural Palmares, Martha Rosa Queiroz, a data é uma forma encontrada pela população negra para homenagear o líder na época dos quilombos, fortalecendo assim mitos e referências históricas da cultura e trajetória negra no Brasil e também reforçando as lideranças atuais.
"É o dia de lembrar o triste assassinato de Zumbi, que é considerado herói nacional por lei, e de combate ao racismo", afirma. A lei federal de 2011 (12.519) institui o 20 de novembro como Dia Nacional da Consciência Negra. A adoção dos feriados fica por conta de leis municipais.

19 de novembro de 2014

Trecho do livro - Ensaio Sobre a Cegueira

Paul Klee
“O cego e a cega descansavam agora, já separados, um ao lado do outro, mas continuavam de mãos dadas, eram novos, talvez fossem namorados, tinham ido ao cinema e ali cegaram, ou um acaso milagroso os juntou ali, e, sendo assim, como foi que se reconheceram, ora essa, pelas vozes, claro está. Não é só a voz do sangue que não precisa de olhos, o amor, que dizem ser cego, também tem sua palavra a dizer.”
José Saramago (1922-2010)

Fazenda Abandonada

William H. Johnson
Casa velha
de monjolo antigo,
tranquilo abrigo,
de sapos, rãs e lagartixas,
onde vespas e aranhas tecelãs
penduram teias e enxus.
No córrego que passa,
lépidas libélulas
assustam ariscos guaru-guarus.
A água,
outrora,
espumante,
sonora,
escorre,
agora,
calma,
silenciosa…
Samambaias e avencas solitárias
enfeitam com verdes rendas
limoso nicho.
Gotas de orvalho
lembram pérolas,
contas de rosário
enfiadas em capim.
Aveludados musgos
amaciam a face dura
de rugosas pedras.
Alegres pássaros
cantam afinados duetos
com cigarras estridentes.
Centelhas de ouro em pó,
estilhas de prata laminada,
enchem de raro encanto
a folhagem molhada
daquele ameno recanto
da fazenda abandonada.

Décio Valente

18 de novembro de 2014

Alma Solitária

Gabriel Metsu
O que sentias era o que ninguém sentia:
– O ódio, o amor, a saudade, a revolta tremenda.
Não há ninguém que te ame e te console e entenda.
Ninguém compartilhou tua funda agonia.

A alma que possuir acreditaste, um dia,
Indiferente, vai a trilhar outra senda.
Do infinito deserto ergueste a tua tenda
Em meio à solidão da paisagem vazia...

E ora num voo audaz, ora num voo incerto,
Entre o fogo do céu e a areia do deserto,
A asa da aspiração finalmente cansou...

Mas a tua ansiedade e a tua angústia acalma.
– Sobre o abismo cavado entre as almas, ó alma,
Ninguém, para transpô-lo, uma ponte lançou.

Júlia Cortines (1868-1948)

O menino que fui existe onde não estou

Simon Glücklichevening
O menino que fui não sou eu,
é outro menino, mais antigo,
que veio antes de mim

o menino que fui
nenhum poeta imagina,
nenhuma palavra recria

o menino que fui não foi.

Nicolas Behr

17 de novembro de 2014

Politeísmo

Gustave Doré
“[...]
No politeísmo estava prefigurada a liberdade humana e variedade de pensamento: a força de criar para si olhos novos e seus, sempre novos e cada vez mais seus; de modo que somente para o homem, entre todos os animais, não existem horizontes e perspectivas eternas”.
Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900),
in "A Gaia Ciência".

A Rosa

William Arthur Breakspeare
Eu sou a flor mais formosa
Disse a rosa
Vaidosa!
Sou a musa do poeta.

Por todos sou contemplada
E adorada.
A rainha predileta.

Minhas pétalas aveludadas
São perfumadas
E acariciadas.

Que aroma rescendente:
Para que me serve esta essência,
Se a existência
Não me é concernente...

Quando surgem as rajadas
Sou desfolhada
Espalhada
Minha vida é um segundo.
Transitivo é meu viver
De ser...
A flor rainha do mundo.

Carolina de Jesus (1914-1977)

Conhecer X Conhecido

Josephine Wall
“O conhecido, isto é, aquilo a que estamos habituados, de modo que não mais nos admiramos, nosso cotidiano, alguma regra em que estamos inseridos, toda e qualquer coisa em que nos sentimos em casa: - como? Nossa necessidade de conhecer não é justamente essa necessidade do conhecido, a vontade de, em meio a tudo o que é estranho, inabitual, duvidoso, descobrir algo que não mais nos inquiete? Não seria o instinto do medo que nos faz conhecer? ”
Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900),
in "A Gaia Ciência".

16 de novembro de 2014

Hinos Órficos

Nicolas Poussin
Os hinos Órficos são um conjunto de composições poéticas pré-clássicas, atribuídas ao culto do herói Orpheu, provavelmente escritos por vários e diferentes poetas.
Os hinos órficos contém uma série de pistas riquíssimas sobre a mitologia pré-histórica europeia, revelando indistintamente misticismo e liturgia.
Em um período indefinido da historiografia, surge Orfeu, o cantor místico, filho, segundo a mitologia grega, da musa Caliope.
Para as Nuvens
Simon Vouet
Nuvens aéreas, através das resplandecentes planícies do céu.
Vagueiam progenitoras de férteis chuvas;
Alimentam os frutos, cujas pinturas de água são lançadas,
Por ventos impetuosos, em redor do mundo poderoso;
Todo-trovejante, rugido de leão, fogo lampejante,
No largo seio do Ar, que carrega medonhos trovões.
Impelidos por toda a tempestade, sonante vendaval,
Em curso rápido, através dos céus, vós tombais.

Com ventos soprando vossas pinturas de água, eu chamo,
Para na mãe Terra com fecundas chuvas caírem.

Fonte: (Nova Acrópole)

Nome

Luis Ricardo Falero
Tu, em tudo presença,
vibrar de asa,

eu, que nem nome tenho,
jamais nua de água,

tu, felicidade do corpo
embasado em brasa,

eu, sequer lembrança,
mero eco na sala,

tu, veneno curare
— e eu é que me chamo naja?

Olga Savary

15 de novembro de 2014

15 de novembro - Proclamação da República

Manuel Lopes Rodrigues - Alegoria da República
A Proclamação da República Brasileira foi um levante político-militar ocorrido em 15 de novembro de 1889 que instaurou a forma republicana federativa presidencialista de governo no Brasil, derrubando a monarquia constitucional parlamentarista do Império do Brasil e, por conseguinte, pondo fim à soberania do imperador dom Pedro II.
No dia 15 de novembro comemoramos a instalação da República no Brasil, uma forma de governo na qual o povo exerce a sua soberania por meio da escolha do chefe da nação. Este foi um capítulo muito importante na História do Brasil, já que hoje vivemos em um regime democrático.

O Poeta

Victor Meirelles
O poeta é um guardador

guarda a diferença
guarda da indiferença

no incerto
guarda a certeza da voz.

Ana Hatherly

14 de novembro de 2014

14 de Novembro - Dia dos Bandeirantes

“Coisa boa ou má não existe:
o pensamento humano é
o que faz as coisas terem
tal ou qual aparência”.

Shakespeare


Henrique Bernadelli - Chefe Bandeirante
O Dia do Bandeirante é comemorado anualmente em 14 de Novembro, no Brasil.
A data homenageia os personagens responsáveis por desbravar e ajudar a conquistar e proteger grande parte do território brasileiro durante o período da colonização portuguesa.
Foram responsáveis pela expansão do território nacional, mas ao mesmo tempo, um dos principais inimigos dos indígenas da época.
Os bandeirantes caçavam os índios e negros e os escravizavam durante as expedições. Foram um dos grandes protagonistas do sistema escravocrata no período do Brasil Colonial.

Tarefa

Aurelio Zingoni
Morder o fruto amargo e não cuspir
mas avisar aos outros quanto é amargo,
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros quanto é injusto,
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar aos outros quanto é falso;
dizer também que são coisas mutáveis...
E quando em muitos a noção pulsar
— do amargo e injusto e falso por mudar —
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano.

Geir Campos (1924-1999)

13 de novembro de 2014

O Porto Sepulto

Claude Monet
Ali chega o poeta
e depois regressa à luz com seus cantos
e os dispersa

Desta poesia
me sobra
aquele nada
de inesgotável segredo.

Giuseppe Ungaretti (1888-1970)
Tradução: Geraldo Holanda Cavalcanti

O Muro

Denis Sarazhin
Movendo os pés doirados, lentamente,
Horas brancas lá vão, de amor e rosas
As impalpáveis formas, no ar, cheirosas.
Sombras, sombras que são da alma doente!

E eu, magro, espio... e um muro, magro, em frente
Abrindo á tarde as órbitas musgosas
— Vazias? Menos do que misteriosas —
Pestaneja, estremece. . . O muro sente!

E que cheiro que sai dos nervos dele,
Embora o caio roído, cor de brasa,
E lhe doa talvez aquela pele!

Mas um prazer ao sofrimento casa.
Pois o ramo em que o vento á dor lhe impele
É onde a volúpia está de urna asa e outra asa. . .

Pedro Kilkerry (1885-1917)