16 de agosto de 2019

Fazer fogo

Sirian Heaven
Que sei eu da tua vida feita de milhões de instantes?
Das tuas monstruosidades, tuas taras, teus dramas?
Que sei eu dos teus contrabandos no caminho até agora?
Se nem sei teu nome e as palavras de um pós-guerra
São como pedras que precisamos atritar para dar fogo...
Não é mau que o cenário seja pobre e antes uma questão
De sobrevivência fazer fogo: isso aproxima estranhos, dispensa
Cerimônia, protela a discórdia e nos chama a certos gestos
De linguagem universal, rosto de dor, corpo com sono, sede,
Medo, fome, e então se tocam a tua loucura, a minha sanha,
O meu desejo e o teu desejo, acordados, então queimamos,
E queimamos bem, como se assim fizéssemos juntos a vida toda.

- Mariana Ianelli

15 de agosto de 2019

O que diz a Morte

Max Ernst
Deixai-os vir a mim, os que lidaram;
Deixai-os vir a mim, os que padecem;
E os que cheios de mágoa e tédio encaram
As próprias obras vãs, de que escarnecem...

Em mim, os Sofrimentos que não saram,
Paixão, Dúvida e Mal, se desvanecem.
As torrentes da Dor, que nunca param,
Como num mar, em mim desaparecem. -

Assim a Morte diz. Verbo velado,
Silencioso intérprete sagrado
Das cousas invisíveis, muda e fria,

É, na sua mudez, mais retumbante
Que o clamoroso mar; mais rutilante,
Na sua noite, do que a luz do dia.

Antero de Quental (1842-1891)

14 de agosto de 2019

O jogo que jogamos

Albrecht Dürer
Se me dessem para escolher, eu escolheria
esta saúde de saber que estamos multo enfermos,
esta dita de andar tão infelizes.

Se me dessem para escolher, eu escolheria
esta inocência de não ser um inocente,
esta pureza em que ando por ser impuro.

Se me dessem para escolher, eu escolheria
este amor com o qual odeio,
esta esperança que come pães desesperados.

Acontece, senhores, que aqui
aposto a minha morte.

Juan Gelman (1930-2014)
Tradução: Eric Nepomuceno

13 de agosto de 2019

Fins de Junho

Sandro Botticelli
Sinto-me olhada a furto.
Olham-me,
espiam-me
com modo céptico
e meio terno.
Entra em mim,
toma-me inteira
um estranho retraimento,
desdém,
ou indiferença.
A minha vontade é de fugir,
de me libertar,
de me recuperar…

Depois, fora,
oprimida
e entristecida,
desejo reconstruir,
sem saber bem como,
o fio trémulo da vida…
Desejo sentir-me apreciada,
enobrecida!

Irene Lisboa (1892-1958)

11 de agosto de 2019

Árvores

John Martin
Invejo a pomba que apresa a palha
e a leva ao ninho, e invejo a vós, também,
silentes árvores, a cujas folhas
bem desenhadas redoura o sol; belas
quais jovens belos, ou velhos aos quais
a velhice enriquece. Quem vos olha
– verdes na axila negra onde a folhagem
desponta; alguns ramos estão mortos –
a vossa dura luta subterrânea
não ignora; a vossa paz admira,
ainda mais vasta.
E a vós retorna, amigo;
lagos de sombra em pleno verão.

Umberto Saba (1883-1957)
Tradução: Geraldo Holanda Cavalcanti

10 de agosto de 2019

Um boi vê os homens

Edward M. Bannister
Tão delicados (mais que um arbusto) e correm
e correm de um para o outro lado, sempre esquecidos
de alguma coisa. Certamente falta-lhes
não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres
e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,
até sinistros. Coitados, dir-se-ia que não escutam
nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar o que é visível
e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes
e no rasto da tristeza chegam à crueldade.
Toda a expressão deles mora nos olhos – e perde-se
a um simples baixar de cílios, a uma sombra.
Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade,
e como neles há pouca montanha,
e que secura e que reentrâncias e que
impossibilidade de se organizarem em formas calmas,
permanentes e necessárias. Têm, talvez,
certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem
perdoar a agitação incômoda e o translúcido
vazio interior que os torna tão pobres e carecidos
de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme
(que sabemos nós?),
sons que se despedaçam e tombam no campo
como pedras aflitas e queimam a erva e a água,
e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

8 de agosto de 2019

Sem nada de meu

David Martiashvili
Dei-me inteiro. Os outros
fazem o mundo (ou creem
que fazem). Eu sento-me
na cancela, sem nada
de meu e tenho um sorriso
triste e uma gota
de ternura branda no olhar.
Dei-me inteiro. Sobram-me
coração, vísceras e um corpo.
Com isso vou vivendo.

Rui Knopfli (1932-1997)

6 de agosto de 2019

Hino à vida

Steve Hanks
Continuar a primeira palavra escrita,
Continuar a frase, não resigná-la
A temor, imperfeição, náusea,
Continuar com imenso trabalho
(Irreconhecível bosque do abstrato),
Doam os músculos e os cães ofeguem,
Continuar através do fogo e da água,
Em nome do fogo e da água,
Continuar desejando, farejando,
Por despeito e ambição continuar,
Não abrir muito os olhos,
Não cerrá-los demasiado,
Continuar por esta rua sem fé,
Como o cego devassado de um sol morto,
Como um anarquista de sensações,
Místico do prosseguimento,
Advogando a persistência, a engrenagem,
Continuá-las, ideia, sensibilidade, diferenças,
Porque não se pode parar,
Continuar com a paixão e sem ela,
Como um pugilista fatigado,
Com a disciplina da expedição guerreira,
A ferocidade histórica do saque,
Continuar, não desistir, não esmorecer,
Não refletir intensamente,
Acompanhando a órbita essencial da natureza,
Como os depósitos minerais,
A vida imperceptível do cristal,
A desagregação da vontade,
Como o crime caminhando onde, quando,
O explorado por um sentimento,
Um camelo magro,
Continuar, ó máquina palpitante, ó vida,
A comiseração não refreie o nosso hálito,
Continuar como um jogador que perde
E se parar há de faltar-lhe alento e vida,
Continuar continuando,
Como um soldado em guerra,
Um mensageiro de templo evangélico,
Um condenado à morte que-não-pode-morrer-antes-da-morte,
Um navio a fazer água,
Um rato, um gigante,
Porque seria perigoso demorar,
Ceder à tentação de um voo incalculável,
Porque a ideia do não continuar existe em nós,
Símbolo fechado, êmbolo de resoluções imprevistas,
Continuar, reação em cadeia de minutos incoerentes,
Chama que se alastra de momentos opacos,
Como os antecipados continuaram,
As águas míticas, o espírito da treva,
Continuar,
A despeito das humilhações, do medo,
Dos vagares do amor,
Continuar com as unhas, os pulmões, o sexo,
Sem medir a iniciativa e o resultado,
Sem comparar nossos poderes e os alheios,
Continuar como alguém, construindo e desmanchando,
Continuar como todas as ações continuam,
E no tempo se prolongam estranhamente,
Continuar porque não se pode senão continuar,
Emparedado entre dois tempos,
Toda a podridão do remorso,
Toda a vontade de não continuar,
E querer continuar,
Árido deste mundo,
Porque a vida é sempre a vida, a mesma vida.
Porque não se pode,
Porque, se parássemos, ouviríamos um estrondo
E depois, perturbados, o silêncio do que somos.

Paulo Mendes Campos (1922-1991)

4 de agosto de 2019

Em suma

Mekhz
Navalhas doem,
ácido mancha,
o rio molha,
drogas dão cãibra;
arma é ilegal,
laço desfaz-se,
gás cheira mal.
Viva: é mais fácil.

Dorothy Parker (1893-1967)
Tradução: Nelson Ascher

3 de agosto de 2019

A Hora Marcada

Karen Margulis
Dias piores virão.
A hora marcada em revogação
se mostra no horizonte.
Logo terás de apertar tuas botas
e reunir teus cães de volta ao pátio.
Pois que as tripas dos peixes
esfriaram expostas.
Débil arde a luz dos tremoceiros.
Tua vista peleja na névoa:
a hora marcada em revogação
se mostra no horizonte.

Tua amada afunda ali no areal,
ele envolve o cabelo ondulante,
ele lhe corta a palavra,
ele lhe ordena que cale,
ele a tem por efêmera
e disposta ao adeus
a cada abraço.

Nada procures.
Aperta tuas botas.
Reúne teus cães.
Lança os peixes ao mar.
Extingue os tremoceiros!

Dias piores virão.

Ingeborg Bachmann (1926-1973)
Tradução: Matheus Guménin Barreto

1 de agosto de 2019

Desprende-te, Coração

Laura Knight
Desprende-te, coração, da árvore do tempo,
soltai-vos folhas, dos ramos esfriados,
outrora abraçados pelo sol,
soltai-vos como lágrimas de olhos largos de longes.

Esvoaça ainda a madeixa dias inteiros ao vento
na fronte tisnada do deus do campo,
sob a camisa aperta o punho
já a ferida aberta.

Por isso resiste, quando o dorso macio das nuvens
voltar a curvar-se para ti,
não te iludas se o Himeto te encher
de novo os favos.

De pouco vale ao lavrador uma erva na seca,
de pouco um verão, face à nossa grande estirpe.

E que testemunha afinal o teu coração?
Entre ontem e amanhã balança,
silencioso e estranho
e o seu bater
é já a sua queda para fora do tempo.

Ingeborg Bachmann (1926-1973)
Tradução: Judite Berkemeier e João Barrento

30 de julho de 2019

A Fênix

Laura Iverson
Você está querendo ser extinto, apagado, excluído,
feito nada?
Você está querendo ser feito nada?
Mergulhado em oblívio?

Se não quer, você nunca mudará de verdade?

A fênix renova a sua juventude
somente quando é queimada, queimada viva, queimada
até ser feita
em flóculos de cálida cinza.
Então o leve agitar-se, no ninho, de um mínimo rebento
recoberto de fina penugem, como cinza flutuando,
revela que a fênix começa a renovar a sua juventude,
como a águia –
pássaro imortal.

D. H. Lawrence (1885-1930)
Tradução: Aíla de Oliveira Gomes

29 de julho de 2019

Ode à Amizade

Paul Klee
Se depois do infortúnio de nascermos
Escravos da Doença e dos Pesares
Alvos de Invejas, alvos de Calúnias
Mostrando-nos a campa
A cada passo aberta o Mar e a Terra;
Um raio despedido, fuzilando
Terror e morte, no rasgar das nuvens
O tenebroso seio
A Divina Amizade não viera
Com piedosa mão limpar o pranto,
Embotar com dulcíssono conforto
As lanças da Amargura;
O Sábio espedaçara os nós da vida
Mal que a Razão no espelho da Experiência
Lhe apontasse apinhados inimigos
Com as cruas mãos armadas;
Terna Amizade, em teu altar tranquilo
Ponho — por que hoje, e sempre arda perene
O vago coração, ludíbrio e jogo
Do zombador Tirano.
Amor me deu a vida: a vida enjeito,
Se a Amizade a não doura, a não afaga;
Se com mais fortes nós, que a Natureza,
Lhe não ata os instantes.
Que só ditosos são na aberta liça
Dois mortais, que nos braços da Amizade,
Estreitos se unem, bebem de teu seio
Nectárea valentia.
Tu cerceias o mal, o bem dilatas,
E as almas que cultivas cuidadosa,
Com teu suave alento aformosentam-se
Medradas e viçosas.
Caia a Desgraça, mais que o raio aguda
Rebente sobre a fronte ao mal votada,
Mais lenta é a queda, menos cala o golpe
No manto da Amizade:
E se desce o Prazer, com ledo rosto
A alumiar o peito de Filinto,
A chama sobe, e vai prender seu lume
Na alma do fido Amigo.

Filinto Elísio (1734-1819)

28 de julho de 2019

‘A música da alma’

Sir Edward Coley Burne-Jones
Angelus Silesius (1624-1677), místico que só escrevia poesia, disse o seguinte: “Temos dois olhos. Com um contemplamos as coisas do tempo, efêmeras, que desaparecem. Com o outro contemplamos as coisas da alma, eternas, que permanecem”. Eis aí um bom início para compreender os mistérios do olhar. Para entender os mistérios do ouvir, eu escrevo uma variação: “Temos dois ouvidos. Com um escutamos os ruídos do tempo, passageiros, que desaparecem. Com o outro ouvimos a música da alma, eterna, que permanece”.
A alma nada sabe sobre a história, o encadeamento dos eventos que acontecem uma vez e nunca mais se repetem. Na história, a vida está enterrada no “nunca mais”. A alma, ao contrário, é o lugar onde o que estava morto volta a viver. Os poemas não são seres da história. Se eles pertencessem à história, uma vez lidos nunca mais seriam lidos: ficariam guardados no limbo do “nunca mais”.
Mas a alma não conhece o “nunca mais”. Ela toma o poema, escrito há muito tempo, no tempo da história (escrito no tempo da história, sim, mas sem pertencer à história), ela o lê, e ele fica vivo de novo: apossa-se do seu corpo, faz amor com ele, provoca riso, choro, alegria. A gente quer que os poemas sejam lidos de novo, ainda que os saibamos de cor, tantas foram as vezes que os lemos.
A gente quer que os poemas sejam lidos de novo, ainda que os saibamos de cor: a alma relê o poema, e ele fica vivo novamente, apossa-se do seu corpo, faz amor com ele, provoca riso, choro, alegria.
Como as estórias infantis, irmãs dos poemas. As crianças querem ouvi-las de novo, do mesmo jeito. Se o leitor tenta introduzir variações, a criança logo protesta: “Não é assim”. Nisso se encontra minha briga com os gramáticos que fazem os dicionários: eles mataram a palavra “estória”. Agora só existe a palavra “história”. Frequentemente, os sabedores da anatomia das palavras ignoram a alma das palavras. Guimarães Rosa inicia “Tutaméia” com esta afirmação: “A estória não quer ser história. A estória, em rigor, deve ser contra a História”.
Um revisor responsável, ao se defrontar com esse texto, tendo nas mãos a autoridade do dicionário, se apressaria a corrigir: “A história não quer ser história. A história, em rigor, dever ser contra a História”. Puro nonsense. Mas aconteceu com um texto meu que, pela combinação da diligência do revisor com a minha preguiça (não reli suas correções), ficou arruinado. Escrevi essas palavras à guisa de uma explicação “a posteriori” para uma cena da minha vida acontecida há muitos anos, que vi de novo com meu segundo olho há poucos minutos. Também a ouvi com meu segundo ouvido, porque nela havia música. Veio-me no seu frescor original. Não havia tempo algum entre o seu acontecimento no passado e o seu acontecimento há pouco. As mesmas emoções.
Não. Corrijo-me. A sua beleza estava mais bela ainda, perfumada pela saudade. Entendo melhor o que escreveu Octavio Paz: “Parece que nos recordamos e quereríamos voltar para lá, para esse lugar onde as coisas são sempre assim, banhadas por uma luz antiquíssima e ao mesmo tempo acabada de nascer. Um sopro nos golpeia a fronte. Estamos encantados. Adivinhamos que somos de outro mundo. É a “vida anterior” que retorna”. Sim, algo da minha vida anterior retornou como um sopro a me golpear a fronte.
A cena é assim -quase escrevi “foi assim”, corrigi-me a tempo: as cenas da alma não têm passado, elas acontecem sempre no presente. Eu e o meu filho de três anos estamos na sala de estar da nossa casa. Só nós dois. Havíamos terminado de jantar. No sofá, sua cabeça está deitada no meu colo. É a hora de contar estórias, antes de dormir. Aí ele me diz: “Papai, põe o disco do violão”. Levanto-me e pego o disco. Tomando toda a capa, a figura de um violino. Mozart. Ponho a peça que ele mais ama, “Uma Pequena Serenata”. É impossível não amar a pequena serenata. Quem poderia resistir à tentação de voar que ela produz?
Pode ser que o corpo não voe. Mas a alma voa. Ouvir “Uma Pequena Serenata” é uma felicidade. (Note que a pequena serenata é inútil. Não serve para nada. Ela é uma criatura da “caixa dos brinquedos”, lugar da alegria.)
Quando eu me esforçava por exercer a arte da psicanálise, ouvi de uma paciente: “Estou angustiada. Não tenho tempo para educar minha filha”. Psicanalista heterodoxo que eu era, não fiz o que meu ofício dizia que eu deveria fazer. Não me meti a analisar seus sentimentos de culpa. Apenas disse: “Eu nunca eduquei meus filhos”. Ela ficou perplexa. Desentendeu. Expliquei, então: “Eu nunca eduquei meus filhos. Só vivi com eles”.
Ali, naquela noite, não me passava pela cabeça que estivesse educando meu filho. Eu só estava partilhando com ele um momento de beleza e felicidade. E se Adélia Prado está certa, se “aquilo que a memória amou fica eterno”, sei que aquela cena está eternamente na alma do meu filho, muito embora ele tenha crescido e já esteja com cabelos brancos. Parte da alma dele é “Uma Pequena Serenata”, o disco do violão. E por isso, por causa da pequena serenata, ele ficou mais bonito.
Rubem Alves em sua coluna “Sabor do saber”.
in: Folha de S. Paulo. 22 de fev de 2005

26 de julho de 2019

Todos os dias

Sir Lawrence Alma-Tadema
A guerra já não é mais declarada,
Apenas prossegue. O insólito
tornou-se cotidiano. O herói
abstém-se das batalhas. O fraco
é movido para as linhas de fogo.
O uniforme do dia é a paciência,
a medalha, o mísero astro
da esperança sobre o coração.

Esse é conferido
quando nada mais acontece,
quando a metralha se cala,
quando o inimigo ficou invisível
e a sombra do eterno armamento
recobre o céu.

É conferido
pela deserção das bandeiras,
pela bravura frente ao amigo,
pela denúncia de segredos indignos
e pelo ato de ignorar
qualquer ordem.

Ingeborg Bachmann (1926-1973)
Tradução: Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger

24 de julho de 2019

Passei o Dia Ouvindo o que o Mar Dizia

Pushkin bids Farewell to the Black Sea
Eu ontem passei o dia
Ouvindo o que o mar dizia.

Choramos, rimos, cantamos.

Falou-me do seu destino,
Do seu fado...

Depois, para se alegrar,
Ergueu-se, e bailando, e rindo,
Pôs-se a cantar
Um canto molhado e lindo.

O seu hálito perfuma,
E o seu perfume faz mal!

Deserto de aguas sem fim.

Ó sepultura da minha raça
Quando me guardas a mim?...

Ele afastou-se calado;
Eu afastei-me mais triste,
Mais doente, mais cansado...

Ao longe o Sol na agonia
De roxo as águas tingia.

“Voz do mar, misteriosa;
Voz do amar e da verdade!
- Ó voz moribunda e doce
Da minha grande Saudade!
Voz amarga de quem fica,
Trêmula voz de quem parte...”
. . . . . . . . . . . . . . . .

E os poetas a cantar
São ecos da voz do mar!

António Botto (1897-1959)

22 de julho de 2019

E Vamos À Luta

Winslow Homer
Eu acredito
É na rapaziada
Que segue em frente
E segura o rojão
Eu ponho fé
É na fé da moçada
Que não foge da fera
E enfrenta o leão
Eu vou à luta
É com essa juventude
Que não corre da raia
À troco de nada
Eu vou no bloco
Dessa mocidade
Que não tá na saudade
E constrói
A manhã desejada
Aquele que sabe que é negro
O coro da gente
E segura a batida da vida
O ano inteiro
Aquele que sabe o sufoco
De um jogo tão duro
E apesar dos pesares
Ainda se orgulha
De ser brasileiro
E Vamos à Luta.

Gonzaguinha (1945-1991)

20 de julho de 2019

Dom Quixote

Alexandre-Gabriel Decamps
Viste-o ao longe... Era enorme... E o cavalo suarento
Estugaste, ferindo-o, à vertigem dos passos,
E torres, barbacãs, ponte, golpes, lançaços;
Tudo, a ruir e a sangrar, queimou-te o olhar febrento...

E a armadura fizeste em míseros pedaços,
E a lança despontaste ao remesso violento...
Ah! não era um castelo! Era um moinho de vento,
Doido, torcendo no ar os desvairados braços.

Não mais... E recolheste ao tugúrio deserto,
Das chufas, dos baldões e de sangue coberto,
Mas, hoje, em turbilhão, voava o pó do caminho:

Eras tu, eras tu, galopando, sanhudo,
Com um resquício de lança e um farrapo de escudo,
Pela planície extensa, a arremeter um moinho.

Artur de Sales (1879-1952)

Elucidário:
Barbacãs: muros antepostos às muralhas e o fosso, com o objetivo de proteger as muralhas dos impactos da artilharia;
Lançaços: arremetidas com lanças;
Tugúrio: casebre, choupana;
Chufas: zombarias, caçoadas;
Baldões: desventuras, azares;
Sanhudo: feroz, indômito.

19 de julho de 2019

Nós

Steve Hanks
O pequenino livro, em que me atrevo
a mudar numa trêmula cantiga
todo o nosso romance, ó minha amiga,
será, mais tarde, nosso eterno enlevo.

Tudo o que fui, tudo o que foste eu devo
dizer-te: e tu consentirás que o diga,
que te relembre a nossa vida antiga,
nos dolorosos versos que te escrevo.

Quando, velhos e tristes, na memória
rebuscarmos a triste e velha história
dos nossos pobres corações defuntos,

que estes versos, nas horas de saudade,
prolonguem numa doce eternidade
os poucos meses que vivemos juntos.

Guilherme de Almeida (1860-1969)

17 de julho de 2019

Memória

Albert Lynch
Cala a boca, Memória! Basta, basta!
O que o Tempo te disse não me digas.
Que pareces até minha madrasta
Quando me vens cantar tuas cantigas.

Tua voz me faz mal e me vergasta,
E a chorar, muitas vezes, tu me obrigas.
Piedade, Memória leonoclasta,
Não despertes, assim, dores antigas.

Vai, recolhe-te à tua soledade,
E que o teu braço nunca mais me leve
À sepultura da Felicidade!

Segue um conselho meu, de ora em diante:
Junto a quem está de luto não se deve
Falar de quem morreu, a todo instante...

Raul de Leoni (1895-1926)

15 de julho de 2019

A Profecia de Dante

Otto Greiner: Prometheus
O Poeta

Muitos são poetas que jamais a inspiração
Puseram por escrito – e os melhores, talvez;
Sentiram e viveram, mas sem concessão
Dos pensamentos seus a nenhum ser mais soez;
Comprimiram o deus em seu interior
E juntaram-se aos astros, sem lauréis na terra,
Mais felizes porém que aqueles que o estridor
Da paixão degenera, e cuja fama encerra
Suas fragilidades, os conquistadores

De alto renome, mas cheios de cicatrizes.
Muitos são poetas, mas do nome são senhores,
Pois que é a poesia mais do que buscar raízes
No bem ou mal ultraemotivos e querer
Uma vida exterior além de nosso fado?
E novo Prometeu do novo homem ser,
Dando o fogo do céu e, tudo consumado,
Vendo o prazer da oferta pago, mas com dor,
E abutres roendo o coração do benfeitor,
Que, tendo dissipado dádiva sem par,
Jaz encadeado num rochedo junto ao mar?

- George Gordon Byron – (1788-1824)
Tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos

13 de julho de 2019

Do Jardim

Jeffrey T. Larson
Vem, meu amado.
olha os lírios.
Temos tão pouca fé.
Falamos demais.
Joga fora teu punhado de palavras
e vem comigo observar
os lírios se abrindo em campo tão vasto,
ali crescendo como iates,
guiando devagarinho as pétalas
sem enfermeiras nem relógios.
Olhemos a paisagem:
uma casa cujos salões enlameados
são adornados por nuvens brancas.
Oh, joga fora tuas palavras, as boas
e as ruins. Cospe
tuas palavras como pedras!
Vem cá! Vem cá!
Vem comer minhas frutas deliciosas.

Anne Sexton [1928–1974]
Tradução: Renato Marques de Oliveira

11 de julho de 2019

São Paulo

Durval Pereira - Largo de Santa Cecília

São Paulo da garoa intermitente,
Da penumbra que às vezes coadjuva
A nostalgia… — Quem, meu Deus, não sente
Um pouco desse ambiente… desta “Chuva”…

A chuva fina molha a paisagem lá fora,
O dia está cinzento e longo… um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora…
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.

Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta…
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
Se um de nós vai falar e recua depois.

Dentro de nós existe uma tarde mais fria…
Ah! para que falar? Como é suave, brando
O tormento de adivinhar — quem o faria?
As palavras que estão dentro de nós chorando…

Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando,
Chove dentro de nós… Chove melancolia…

Ribeiro Couto (1898-1963)

9 de julho de 2019

Rosa imutável

Daniel Gerhartz
Ao abrir pela manhã
rubra como sangue está.
O orvalho não a toca
com medo de se queimar.
Aberta à luz do meio-dia
é dura como um coral.
O sol assoma nos vidros
só para a ver fulgurar.
Quando nos ramos começam
os pássaros a cantar
e quando a tarde desmaia
nas violetas do mar,
torna-se branca, tão branca
como uma face de sal.
E logo que a noite toca
brando corno de metal
e as estrelas avançam
enquanto se esconde o ar,
no risco fino da sombra
começa-se a desfolhar.
Federico Garcia Lorca (1898-1936)
Tradução: Eugénio de Andrade

7 de julho de 2019

O homem é como a flor...

Dorothy Siclare
O homem é como a flor do campo, como o arbusto.
Por que vieste à luz? E para quê?
Se tenro e alegre de manhã floresces
eis que de tarde
cortam-te a flor e já não te conhecem.
A morte pasce em ti, como um rebanho.
É possível que acedas à alegria,
se tens sob teus pés escondida a armadilha?
Por que, homem, gozar o mel com a boca
se a tua língua deve estar disposta
a degustar o amargo pó da morte?
Ó morte! Quanto tempo ainda terás, soberba,
para zombar do nosso sofrimento?
Sobre a criança e sobre o velho desces
fulminante tua lâmina de espada
para ceifar, qual trigo, teus rebanhos.

Mosché Haim Luzzatto (1707-1746)
Tradução: Renata Pallotini