28 de julho de 2014

Ser Longe

Lee Sin Bee
Aconteceram-me dias
nos cabelos
total e agudamente nua
lua na ferida do côncavo
cortado pelo som do soluço roto

Eis a angústia que é
o estado sensual do solo

Medusas na paisagem
do sonho a resolução é cicatriz dos loucos

Desguarneceram-me de paz
e os bosques ansiaram
ter como lábios
a ira dos lagos
nos olhos do homem onde o amor
é uma doença de saudade persistente

Esquinas de ansiedade
voltem e envolvam
as estátuas

Este é o caminho da angústia
a hera do hálito
o ser longe.

Maria Teresa Horta

Sobre amor e justiça

Charles Louis Müller
“Porque é que se sobrestima o amor em detrimento da justiça e se diz dele as coisas mais lindas, como se ele fosse uma entidade muito superior àquela? Pois não é ele visivelmente mais estúpido que aquela? Por certo, mas, precisamente por isso, tanto mais agradável para todos. Ele é estúpido e possui uma rica cornucópia; tira desta os seus presentes e distribui-os a qualquer pessoa, mesmo que esta não os mereça e até nem sequer lhe agradeça por isso. É imparcial como a chuva, a qual, segundo a Bíblia e a experiência, não só encharca o injusto até aos ossos, mas também, em determinadas circunstâncias, o justo”.
Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900)
Humano, Demasiado Humano

27 de julho de 2014

Um pouco de estrela e de arco-íris

“O mundo interior de cada homem é um lugar único,
onde ele pode sentir o amor e pode provar a compaixão”.
George Elgar Hicks
“Se a pessoa der ouvidos às sutis mas constantes sugestões do seu espírito, sem dúvida autênticas, não vê a que extremos, e até loucura, ele pode levá-la; contudo, por aí envereda o seu caminho à medida que cresce em resolução e fé. A mais leve objeção segura que um homem sadio fizer, com o tempo prevalecerá sobre os argumentos e costumes da humanidade. Nenhum homem jamais seguiu a sua índole a ponto de esta o extraviar. Embora o resultado fosse fraqueza física, ainda assim talvez ninguém pudesse dizer que as consequências eram lamentáveis, já que representariam a vida em conformidade com princípios mais elevados. Se o dia e a noite são de tal natureza que vós os saudais com alegria, se a vida emite uma fragrância de flores e ervas aromáticas e se torna mais elástica, mais cintilante e mais imortal - aí está o vosso êxito.
A natureza inteira é a vossa congratulação e tendes motivos terrenos para bendizer-vos. Os maiores lucros e valores estão ainda mais longe de serem apreciados. Chegamos facilmente a duvidar de que existam. Logo os esquecemos. Constituem, entretanto, a realidade mais elevada.
Talvez os fatos mais estarrecedores e verdadeiros nunca sejam comunicados de homem a homem. A verdadeira colheita do meu dia a dia é algo de tão intangível e indescritível como os matizes da aurora e do crepúsculo. O que tenho nas mãos é um pouco de poeira das estrelas e um fragmento do arco-íris.”
Henry David Thoreau (1817-1862)

26 de julho de 2014

Escolhas da Alma

“A vida é breve, a arte é longa,
a ocasião é fugitiva, a experiência é falaz,
o julgamento é difícil.”

Hipócrates
Vladimir Volegov
“Um espírito vivente é um espírito pacífico,
um espírito vivente é um espírito
que não possui um ponto central,
e portanto nem espaço nem tempo
Esse espírito não possui fronteiras e é a realidade única”.

Jiddu Krishnamurti (1895-1986)

Os justos

Emma Alvarez
Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sur jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de certo canto.
O que acaricia um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão salvando o mundo.

Jorge Luis Borges (1899-1986)

25 de julho de 2014

Adolescência

Tela Mónica Fernández
Era uma alameda branca,
atapetada de papel de seda.
Não tinha sombras,
cantos escuros, não tinha muros.
Permanecia.
Até que um dia,
um anjo descuidado
deixou pingar-lhe
uma gota de carmim.
Calou-se o branco
que fora imaculado,
numa aquiescência casta e comovida.
Recolheu-se manso.
... e foi assim que começou a vida.

Flora Figueiredo

Estudo de nu

Childe Hassam
Essa linha que nasce nos teus ombros,
Que se prolonga em braço, depois mão,
Esses círculos tangentes, geminados,
Cujo centro em cones se resolve,
Agudamente erguidos para os lábios
Que dos teus se desprenderam, ansiosos.
Essas duas parábolas que te apertam.
No quebrar onduloso da cintura,
As calipígias cicloides sobrepostas
Ao risco das colunas invertidas:
Tépidas coxas de linhas envolventes,
Contornada espiral que não se extingue.
Essa curva quase nada que desenha
No teu ventre um arco repousado,
Esse triângulo de treva cintilante,
Caminho e selo da porta do teu corpo,
Onde o estudo de nu que vou fazendo
Se transforma no quadro terminado.

José Saramago (1922-2010)

24 de julho de 2014

Brinde

Adolphe Philippe Millot
Ergo este respingo de água,
à vossa saúde.
Ergo esta escama de peixe
e bebo-lhe a lágrima.

Marin Sorescu (1936-1996)

Celebração de S. Pedro

Calmon Barreto de Sá Carvalho - Tropeiros
“Nosso local de descanso seria a importante cidade de Campinas …, a mais de cem milhas no interior. Quando nos aproximávamos dessa cidade, fui surpreendido pela beleza e fertilidade da região circundante. As grandes e antigas montanhas haviam sido deixadas muito para trás de nós, e em redor, até onde pude ver, estendiam-se extensas planícies, ou antes, prados ondulosos, com quase todos os acres ocupados. Havia muitas plantações de café superiormente cultivadas, entre cujo verde-escuro podia-se avistar aqui e ali as grandes residências caiadas de branco dos proprietários das terras. Foi na tarde de 28 de junho que chegamos aos arredores de Campinas. A radiosa beleza da noite tropical tornava-se ainda maior pela iluminação da cidade, pelas imensas fogueiras espalhadas pela planície, e brilhantes fogos de artifício lançados de todas as ruas e todas as plantações circundantes. Os clarões e o barulho eram tais, que sem qualquer esforço de imaginação, ter-se-ia acreditado estar perto de alguma cidade sitiada, durante um violento bombardeio. Era a “véspera de S. Pedro”; e todo homem que tinha um Pedro ligado a seu nome, sentia-se na obrigação de acender uma imensa fogueira diante de sua porta, e soltar uma porção de foguetes, além de descarregar inúmeras pistolas, mosquetes, e morteiros. Sob semelhante tormenta, entramos em Campinas.”
Texto de James C. Fletcher e de Daniel P. Kidder, de sua viagem ao Brasil em 1855
James Cooley Fletcher e Daniel Parrish Kidder. foram missionários metodistas estadunidenses que percorreram extensamente o território brasileiro fazendo anotações de viagem para o livro "O Brasil e os Brasileiros".
O livro informa os norte-americanos sobre as riquezas e belezas naturais do Brasil, mostrando-o como um país de grandes oportunidades, no qual poderão comercializar seus produtos e extrair riquezas naturais.

23 de julho de 2014

Eu desvesti todas as diferenças

Charles Edward Perugini
O que pode ser feito, ó irmãos?
Não sei quem sou!
Não sou Cristão, nem Judeu, nem Mago, nem Muçulmano.
Não sou do Ocidente, nem do Oriente, da terra ou do mar.
Não fui formado pela natureza, nem pelas esferas celestes;
Nem pela terra, água, ar ou fogo.
Não sou rei nem mendigo;
Nem feito de substância ou de forma.
Nem sou da Índia, China, nem de um país fronteiriço;
Nem da Pérsia, nem das terras de Korasan.
Não sou deste mundo e nem do próximo;
Nem do céu, nem do inferno.
Não vim de Adão nem de Eva;
Não moro no Éden nem nos jardins do paraíso;
Meu lugar é um não lugar, minhas pegadas não deixam marca.
Nada é meu, nem corpo nem alma -
Tudo pertence ao coração do meu Amado.
Eu desvesti todas as diferenças,
e agora vejo os dois mundos como um..

Jalaludin Rumi (1207-1273)

Falar

Essud Fungcap
A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.

A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.

Ferreira Gullar

22 de julho de 2014

O que é a felicidade?

Goyo Dominguez
“Procuremos compreender agora – uma vez que todo o saber e toda a intenção têm um bem por que anseiam – (...) qual será o mais extremo dos bens susceptível de ser obtido pela ação humana. Quanto ao nome desse bem, parece haver acordo entre a maioria dos homens. Tanto emagrecer a maioria como os mais sofisticados dizem ser a felicidade, porque supõem que ser feliz é o mesmo que viver bem e passar bem. Contudo, acerca do que possa ser a felicidade estão em desacordo e a maioria não compreende o seu sentido do mesmo modo que o compreendem os sábios.”
Aristóteles (384-322 a.C.)

21 de julho de 2014

Ciúmes...um desvario

Chaim Goldberg
“Como ciumento sofro quatro vezes:
porque sou ciumento, porque me reprovo de sê-lo,
porque temo que meu ciúme machuque o outro,
porque me deixo dominar por uma banalidade:
sofro por ser excluído,
por ser agressivo,
por ser louco e
por ser comum”.
Roland Barthes (1915-1980)

20 de julho de 2014

Coração

Hazel Soan
No lugar secreto do coração
é onde verdadeiramente está o grande sustentáculo.
Nele está centrado tudo que se move,
que respira, que abre e fecha os olhos.
Conhece-o como ser, como não ser,
como o supremo objetivo a ser atingido,
o mais elevado, além do alcance do entendimento humano.

Upanishad

Especulações em torno da palavra homem

Thomas Cole
Mas que coisa é homem,
que há sob o nome:
uma geografia?
um ser metafísico?
uma fábula sem
signo que a desmonte?
Como pode o homem
sentir-se a si mesmo,
quando o mundo some?

Como se fazer
a si mesmo, antes
de fazer o homem?
Fabricar o pai
e o pai e outro pai
e um pai mais remoto
que o primeiro homem?

Há alma no homem?
E quem pôs na alma
algo que a destrói?
Como sabe o homem
o que é sua alma
e o que é alma anônima?

Que milagre é o homem?
Que sonho, que sombra?
Mas existe o homem?

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

19 de julho de 2014

Soneto 91

Ikahl Beckford
A uns, o berço dá a glória, a outros, o talento,
A uns, a riqueza, a outros, a força,
A uns, as vestes, mesmo espaventosas,
A uns, suas águias e cães, a outros, seus cavalos,
E todo humor provê o seu próprio prazer,
Vendo alegria acima de tudo o mais;
Mas essas questões de nada me servem;
Supero tudo isso com um único trunfo.
Teu amor é mais que um berço de ouro,
Mais rico que a riqueza, mais caro do que roupas,
Mais prazeroso que águias e cavalos;
E tendo a ti, desdenho de todo o humano orgulho –
Apenas triste por um motivo: que possas privar-me
De tudo, tornando-me o mais infeliz.

William Shakespeare (1564-1616)
Tradução: Thereza Christina Motta

Liberdade? Sofisma dos saudáveis

Tristram Paul Hillier
“Mesmo que possa lutar contra um ataque de depressão, em nome de que vitalidade me obstinaria contra uma obsessão que me pertence, que me precede? Quando estou bem de saúde, escolho o caminho que me agrada; ‘doente’, já não sou eu quem decide: é meu mal. Para os obcecados não existe opção: sua obsessão já optou por eles. Uma pessoa se escolhe quando dispõe de virtudes indiferentes; mas a nitidez de um mal é superior à diversidade dos caminhos a escolher. Perguntar-se se se é livre ou não: futilidade aos olhos de um espírito a quem arrastam as calorias de seus delírios. Para ele, exaltar a liberdade é dar provas de uma saúde indecente.
A liberdade? Sofisma dos saudáveis.”
Emil Michel Cioran (1911-1995),
in Silogismos da amargura

18 de julho de 2014

Há em toda a beleza uma amargura

Amedeo Modigliani
Há em toda a beleza uma amargura
secreta e confundida que é latente
ambígua indecifrável duplamente
oculta a si e a quem na olhar obscura

Não fica igual aos vivos no que dura
e a não pode entender qualquer vivente
qual no cabelo orvalho ou brisa rente
quanto mais perto mais se desfigura

Ficando como Helena à luz do ocaso
a língua dos dois reinos não lhe é az
senão de apartar tranças ofuscante

Mas à tua beleza não foi dado
qual morte a abrir teu juvenil estado
crescer e nomear-se em cada instante?

Walter Benjamin (1892-1940)
Tradução: Vasco Graça Moura

Sobre Pranto e Riso

Franz Marc
“Se o Pranto e o Riso aparecessem neste grande teatro no traje da verdade (sempre nua), sem dúvida seria a vitória do Pranto. Mas vestido, ornado e armado de uma tão superior eloquência, que o Riso se ria do Pranto, não é merecimento, foi sorte. De tudo quanto ri saiu vestido, ornado e armado o Riso: riem-se os prados e saiu vestido de flores: ri-se a Aurora, e saiu ornado de luzes; e se aos relâmpagos e raios chamou a Antiguidade Risus Vestae, et Vulcani, entre tantos relâmpagos, trovões e raios de eloquência, quem não julgará ao miserável Pranto cego, atónito e fulminado? Tal é a fortuna, ou a natureza, destes dois contrários. Por isso nasce o Riso na boca, como eloquente, e o Pranto nos olhos, como mudo.”
Padre Antônio Vieira (1608-1697)

17 de julho de 2014

Os iluminados e os tenebrosos

Louis Marie de Schryver
“Sois vós um daqueles a quem se chama feliz? Pois bem, vós estais tristes todos os dias. Cada dia tem uma grande amargura e um pequeno cuidado. Ontem tremíeis pela saúde de alguém que vos é caro, hoje receais pela vossa; amanhã será uma inquietação de dinheiro, depois a diatribe de um caluniador ou a infelicidade de um amigo, mais tarde o mau tempo que faz, qualquer coisa que se quebrou ou se perdeu, uma vez um prazer que a vossa consciência e a coluna vertebral reprovam, outra vez a marcha dos negócios públicos. Isto sem contar as penas de coração. E assim sucessivamente. Uma nuvem que se dissipa e outra que se forma logo. Apenas um dia em cem de plena felicidade e cheio de sol. E sois desse pequeno número que é feliz! Quanto aos outros homens, envolve-os a noite estagnante.
Os espíritos refletidos usam pouco desta locução: os felizes e os infelizes. Neste mundo, evidentemente vestíbulo de outro, não há felizes. A verdadeira divisão humana é esta: os iluminados e os tenebrosos.
Diminuir o número dos tenebrosos e aumentar o dos iluminados, eis o fim. É por isso que nós gritamos: ensino, ciência! Aprender a ler, é alumiar com fogo; toda a sílaba soletrada cintila. De resto, quem diz luz não diz, necessariamente, alegria. Também se sofre com a luz; em demasia queima. A chama é inimiga da asa. Queimar-se sem deixar de voar, é o prodígio do gênio.
Quando conhecerdes e quando amardes, sofrereis ainda. O dia nasce em lágrimas. Os iluminados choram quando mais não seja sobre os tenebrosos”.
Victor Hugo (1802-1885), in 'Os Miseráveis'

16 de julho de 2014

Os povos primitivos não conheciam a necessidade de dividir o tempo

Paul Gauguin
“Os povos primitivos não conheciam a necessidade de dividir o tempo em filigranas. Para os antigos não existiam minutos ou segundos. Artistas como Stevenson ou Gauguin fugiram da Europa e aportaram em ilhas onde não havia relógios.
Nem o carteiro nem o telefone apoquentavam Platão. Virgílio nunca precisou de correr para apanhar um comboio. Descartes perdeu-se em pensamentos nos canais de Amsterdam. Hoje, porém, os nossos movimentos são regidos por frações exatas de tempo. Até mesmo a vigésima parte de um segundo começa a não mais ser irrelevante em certas áreas técnicas.”
Paul Valéry (1871-1945)
A Busca da Inteligência

A fonte da felicidade reside dentro de nós

Katerina Belkina
“O hábito de me recolher a mim mesmo acabou por me tornar imune aos males que me acossam, e quase me fez perder a memória deles. Desse modo, aprendi com base na minha própria experiência que a fonte da felicidade reside dentro de nós e que não está no poder dos homens fazer com que fique realmente desgostosa uma pessoa determinada a ser feliz. Por quatro ou cinco anos desfrutei regularmente de alegrias interiores que almas gentis e afetuosas encontram numa vida de contemplação”.
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)

15 de julho de 2014

Tao Te King, cap. 47

Scott Stulberg
Sem sair pela porta da frente de casa,
pode-se conhecer o mundo.
Sem olhar para fora,
pode-se conhecer o caminho para o céu.
Quanto mais se viaja, menos se sabe.
O sábio conhece sem viajar,
vê sem olhar,
e age mediante o não fazer.

Lao-Tsé (1324 a.C. - 1408 a.C.)

Não se pode perder o que não se tem

Paul Hedley
“Fosse a tua vida três mil anos e até mesmo dez mil, lembra-te sempre que ninguém perde outra vida que aquela que lhe tocou viver e que só se vive aquela que se perde. Assim a mais longa e a mais curta vida se equivalem. O presente é igual para todos, e o que se perde é, por isso mesmo, igual, e o que se perde surge como a perda de um segundo. Com efeito, não é o passado ou o futuro que perdemos; como poderia alguém arrebatar-nos o que não temos?
Por isso toma sentido, a toda a hora, nestas duas coisas: primeiramente, que tudo, desde toda a eternidade, apresenta aspecto idêntico e passa pelos mesmos ciclos, e pouco importa assistir ao mesmo espetáculo em duzentos anos ou toda a eternidade; depois, que tanto perde o homem que morre carregado de anos como o que conta breves dias, consistindo a perda no momento presente; não se pode perder o que não se tem.”
Marco Aurélio (121-180)
Imperador Romano

14 de julho de 2014

As baixas paixões que o futebol alimenta

Norman Rockwell
“Ao espectador não lhe importa nada o futebol, embora sustente freneticamente o contrário. Nem lhe interessa que exista uma humanidade vigorosa, nem que tal ou qual indivíduo tenha desenvolvidos ao máximo seus bíceps ou seus músculos gêmeos. Tampouco lhe importa que a equipe mais ligeira, mais enérgica ou mais preparada triunfe. O que lhe interessa, o que persegue com intransigência permanente, com avidez doentia, é o êxito de um certo grupo, ao qual atribui suas simpatias por razões de vizinhança, de amizade ou de uma difusa preferência enraizada às vezes nas causas mais incongruentes. O homem enamorado quer porque quer. O fanático de uma equipe procede pela mesma razão.”
Wenceslao Fernández Flórez (1885-1964)

Simpatia

Mark Arian
Numa tarde longa e mansa,
os dois pela estrafa vão: o cão estima a criança, e a criança estima o cão.
Que delicada aliança dos seres da criação: uma risonha criança, um robustíssimo cão.
Deus percebeu a lembrança e sorriu lá na amplidão: ele gosta da criança, que trata bem o seu cão.
Por isso, na tarde mansa,
os dois felizes lá vão:
a delicada criança
e o robustíssimo cão.

Augusto Frederico Schmidt (1906-1965)