2 de maio de 2016

Onde paira a canção recomeçada

Lord Frederick Leighton
Onde paira a canção recomeçada
No capitel de acanto de teu lar?
Onde prossegue a dança terminada
Nas lajes de meu tempo de chorar?
Rapaz, em minhas mãos cheias de areia
Conto os astros que faltam no horizonte
Da praia soluçante onde passeia
A espuma de teu fim, pranto sem fonte.
Oh juventude, um pálio de inocência
Jamais se estenderá sobre outra aurora
Mais clara que esta clara adolescência
Que o lupanar da noite hoje devora:
Que vale o lenço impuro da elegia
Sobre teu rosto, lúcida alegria?

Mário Faustino (1930-1962)

Sobre Sua Cegueira

Pablo Picasso
Medito: nem chegara ao meio a minha vida,
em vasto e negro mundo a luz tivera fim;
o Talento que é morte não usar, em mim
conservo-o ocioso, embora de alma resolvida

a pôr tal moeda de bons lucros acrescida,
para que Deus não zangue ao retornar enfim.
“Deus quer o labor diurno, e nega a luz assim?”
– tolo indago, e a Paciência logo me revida:

“Deus não precisa nem da obra do homem nem
de Suas dádivas. Melhor O serve quem
melhor Lhe aguenta o suave jugo. O Seu estado

é régio: correm multidões ao Seu mandado
e não têm pouso quer na terra quer no mar:
também O servem os que ficam a esperar.”

John Milton (1608-1674)
Tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos

1 de maio de 2016

Elegias de Duíno

Gustav Klimt
Quarta Elegia
Ó árvores da vida, quando atingireis o inverno?
Ignoramos a unidade. Não somos lúcidos como as aves
migradoras. Precipitados ou vagarosos
nos impomos repentinamente aos ventos
e tornamos a cair num lago indiferente.
Conhecemos igualmente o florescer e o murchar.
No entanto, em alguma parte, vagueiam leões ainda,
alheios ao desamparo enquanto vivem seu esplendor.

Nós, porém, quando pensamos totalmente o Uno,
logo sentimos o lastro do Outro. A hostilidade;
aguarda, muito perto. Os amantes não hesitam, sem cessar,
entre limites – eles que aspiravam refúgio, espaço, busca?
Compõe-se, então, para a fugitiva imagem de um momento
um fundo de oposição, penosamente, para que
a possamos ver; que clareza se nos proporciona,
a nós que ignoramos o contorno da sensação,
aderidos ao exterior de sua forma. – Quem
desconhece a angustiosa espera diante
do palco sombrio do próprio coração?
Olhai: ergue-se o pano sobre o cenário
de um adeus. Fácil de compreender. O jardim habitual
a oscilar ligeiramente. Só então aparece o bailarino.
Ele não. Basta. E enquanto se move com desenvoltura,
muda de aspecto; torna-se um burguês
e entra na casa pela porta da cozinha.
Não quero essas máscaras ocas, prefiro
o boneco de corpo cheio. Susterei
o títere, os cordéis e o rosto
feito de aparência. Estou aqui, à espera.
Ainda que as lâmpadas se apaguem, ainda
que me digam: “acabou-se”, – ainda que do palco
se evole o vácuo na corrente de ar cinzento,
ainda que os antepassados silenciosos
não estejam ao meu lado, nem mulher, nem mesmo
a criança de olhos castanhos e estrábicos, –
ficarei à espera. Sempre há o que ver.

Não tenho razão? Tu, que por mim provaste
a amargura da vida, pai, penetrando
a minha, tu, que provaste a infusão
turva de meu destino, quando ao teu lado
crescia, e, inquieto pelo ressaibo de futuro
tão estranho, puseste à prova
meu olhar velado ainda; – tu, meu pai,
que desde que morreste, tantas vezes
na esperança que levo em mim, tens medo,
e que por meu destino incerto abandonas
a serenidade dos mortos, reinos
de serenidade, – não tenho razão?
E vós – não tenho razão? – vós que me
amastes pelo tímido início de amor
que vos tinha e do qual me evadia,
pois o espaço que amava em vosso rosto
em espaço cósmico se transformava. – Enquanto
aguardo diante do palco dos títeres, – não,
quando me transformar inteiramente num intenso
olhar, um Anjo surgirá para refazer
o equilíbrio, como o ator que anima os títeres.
Anjo e boneco: haverá por fim espetáculo.
Congrega-se então o que, sem cessar,
nossa existência mesma desagrega. E nasce
das nossas estações o ciclo da transformação
total. Muito acima de nós, o Anjo brincará.
Olhai, os moribundos não mais suspeitariam
que é pretexto e irrealidade tudo o que aqui
fazemos. Oh, dias da infância, em que atrás
das figuras havia mais do que passado e em que
diante de nós não se abria o futuro!
Crescíamos, é certo, aspirando, às vezes,
tornar-nos grandes, talvez por amor
daqueles que nada mais tinham, senão
o “ser grandes”. E lá permanecíamos,
em nossos caminhos solitários,
na alegria do perdurável, nos limites
do mundo e do brinquedo, no espaço que desde
a origem foi criado para um puro evento.

Quem mostra uma criança tal como é? Quem a
situa na constelação com a medida da distância
em suas mãos? Quem faz sua morte
com pão cinzento que endurece, – ou a abandona
dentro da boca redonda, como o coração
de uma bela maçã?... Compreendemos facilmente
os criminosos. Mas isto: conter a morte,
toda a morte, ainda antes da vida,
tão docemente contê-la e não ser perverso,
isto é inefável.

Rainer Maria Rilke (1875-1926)
Tradução: Dora Ferreira da Silva

30 de abril de 2016

Os Três Astronautas

Mahmoud Feteih
Era uma vez a Terra.
E era uma vez Marte.
Ficavam muito longe um do outro, no meio do céu, e à volta havia milhões de planetas e de galáxias.
Os homens que estavam na Terra queriam ir a Marte e aos outros planetas: mas estavam tão longe!
Porém não descansaram. Primeiro lançaram satélites que andavam à roda da terra por dois dias e depois vinham de novo.
Depois lançaram foguetões que davam algumas voltas à Terra, mas, em vez de regressarem, acabavam por escapar à atração terrestre e seguiam para o espaço.
Primeiro, puseram cães nos foguetões: mas os cães não sabiam falar, e pela rádio só transmitiam “béu béu”. E os homens não percebiam o que eles tinham visto e até onde chegavam.
Por fim arranjaram homens corajosos que quiseram ser cosmonautas. Os cosmonautas tinham este nome porque iam explorar o cosmos, que é o espaço infinito com os planetas, as galáxias e tudo o que têm à sua volta.
Os cosmonautas partiam e não sabiam se voltariam ou não. Queriam conquistar as estrelas para que um dia todos pudessem viajar de um planeta para outro, porque a Terra se tornara demasiado apertada e os homens aumentavam de dia para dia.
Numa bela manhã, partiram da Terra três foguetões de três pontos diferentes.
No primeiro ia um americano, que, todo alegre, assobiava uma ária de jazz.
No segundo ia um russo que cantava com voz profunda Volga, Volga.
No terceiro ia um chinês, que cantava uma belíssima canção, que os outros dois achavam desafinada.
Cada um queria ser o primeiro a chegar a Marte, para mostrar que era o mais valente.
Na verdade, o americano não gostava do russo e o russo não gostava do americano, e o chinês desconfiava dos dois.
E isto, porque o americano, para dizer bom dia, dizia: how do you do, o russo dizia 3дpacтвyйte e o chinês dizia bom dia em chinês. Não se percebiam e julgavam-se diferentes.
Como os três eram todos valentes, chegaram a Marte quase no mesmo instante. Desceram das suas astronaves, de capacete e fato espacial... E descobriram uma paisagem maravilhosa e inquietante: o terreno era sulcado por longos canais cheios de uma água de cor verde-esmeralda. Havia estranhas árvores azuis com aves nunca vistas, de penas de cores estranhíssimas. Lá no horizonte viam-se montanhas vermelhas que emitiam estranhos brilhos.
Os cosmonautas olhavam a paisagem, olhavam uns para os outros, e mantinham-se afastados, cada um desconfiado dos outros. Depois veio a noite.
Havia à roda um estranho silêncio, e a Terra brilhava no céu como se fosse uma longínqua estrela.
Os cosmonautas sentiam-se tristes e perdidos e o americano, na escuridão, chamou pela mãe. Disse Mommy...
E o russo disse: Mama.
E o chinês disse: Ma-ma.
Mas compreenderam logo que estavam a dizer a mesma coisa e tinham os mesmos sentimentos. E sorriram, aproximaram-se, acenderam juntos uma bela fogueira, e cada um cantou canções do seu país.
Então encheram-se de coragem e, à espera da manhã, aprenderam a conhecer-se.
Por fim, veio a manhã e fazia muito frio. E, de repente, de um tufo de árvores saiu um marciano. Tinha um aspecto horrível! Era todo verde, tinha duas antenas no sítio das orelhas, uma tromba, e seis braços. Olhou para eles e disse: Grrr!
Na sua língua queria dizer: “Mãezinha, o que são estes seres horríveis?” Mas os terrestres não o compreenderam e julgaram que era um rugido de guerra. Era tão diferente deles que não foram capazes de o compreender e de o amar. Os três sentiram-se logo iguais e uniram-se contra ele.
Perante aquele monstro, as suas pequenas diferenças desapareciam. Que importava se falavam uma linguagem diferente?
Compreenderam que eram os três seres humanos. O outro não. Era demasiado feio, e os terrestres pensavam que quem é feio também é mau. Por isso resolveram matá-lo com os seus desintegradores atômicos. Mas, de repente, na grande geada da manhã, um passarinho marciano, que, evidentemente, fugira do ninho, caiu no chão, tremendo de frio e de medo. Piava desesperadamente, mais ou menos como um passarinho terrestre. Fazia mesmo pena. O americano, o russo e o chinês olharam-no e não conseguiram reter uma lágrima de compaixão.
E então aconteceu uma coisa estranha. Também o marciano se aproximou do passarinho, olhou para ele, e deixou escapar da tromba dois fios de fumo.
E os terrestres, de repente, compreenderam que o marciano estava a chorar à sua maneira, como fazem os marcianos.
Depois viram-no baixar-se para o passarinho e segurá-lo nos seus seis braços, tentando aquecê-lo.
O chinês voltou-se então para os dois amigos terrestres.
— Compreenderam? — disse. — Nós julgávamos que este monstro era diferente de nós, e afinal ele também ama os animais, pode comover-se, tem um coração e certamente um cérebro! Ainda acham que devemos matá-lo?
Nem era pergunta que se fizesse.
Os terrestres agora tinham compreendido a lição: não basta que duas criaturas sejam diferentes para que tenham de ser inimigas.
Por isso aproximaram-se do marciano e estenderam-lhe as mãos. E ele, que tinha seis, apertou de uma vez só a mão aos três, enquanto com as mãos livres fazia gestos de saudação.
E, apontando para a Terra, lá em cima no céu, deu a entender que desejava fazer uma viagem para conhecer os outros habitantes e estudar com eles a maneira de fundar uma grande república espacial, em que todos vivessem com amor e concórdia.
Os terrestres disseram que sim, todos contentes. E para festejar o acontecimento, ofereceram-lhe uma garrafinha de água fresquíssima trazida da terra. O marciano, muito feliz, meteu o nariz na garrafa, aspirou e disse que gostara muito daquela bebida, se bem que lhe fizesse andar a cabeça à roda. Mas agora os terrestres já não se espantavam. Tinham concluído que na Terra, tal como nos outros planetas, cada um tem os seus gostos, e é só questão de se compreenderem uns aos outros.
Umberto Eco (1932-2016)

29 de abril de 2016

A Filosofia do Amor

Max Hayslette

I

As fontes mesclam-se com o rio
E os rios com o Mar,
Ventos do Céu em mútuo rodopio
Em doce emocionar;
Nada no mundo é singular;
Tudo, da lei divina sob abrigo,
Num espírito se acha no mesclar,
Por que não eu contigo?

II

Mirem montanhas a beijar o Céu
E as ondas a se abraçar;
Qualquer flor-irmã estaria ao léu
Se seu irmão fosse desprezar,
E a luz do sol vem a terra abraçar
E os raios de luar osculam o mar
De que vale esse puro laborar
Se você não me beijar?

Percy Bysshe Shelley (1792-1822)
Tradução: José Lino Grünewald

Excerto de 'Elogio da Loucura' (1509)

Edvard Munch
"Para dizer a verdade, não nutro nenhuma simpatia pelos sábios que consideram tolo e impudente o autoelogio. Poderão julgar que seja isso uma insensatez, mas deverão concordar que uma coisa muito decorosa é zelar pelo próprio nome.
De fato, que mais poderia convir à Loucura do que ser o arauto do próprio mérito e fazer ecoar por toda parte os seus próprios louvores? Quem poderá pintar-me com mais fidelidade do que eu mesma? Haverá, talvez, quem reconheça melhor em mim o que eu mesma não reconheço? De resto, esta minha conduta me parece muito mais modesta do que a que costuma ter a maior parte dos grandes e dos sábios do mundo. É que estes, calcando o pudor aos pés, subornam qualquer panegirista adulador, ou um poetastro tagarela, que, à custa do ouro, recita os seus elogios, que não passam, afinal, de uma rede de mentiras. E, enquanto o modestíssimo homem fica a escutá-lo, o adulador ostenta penas de pavão, levanta a crista, modula uma voz de timbre descarado comparando aos deuses o homenzinho de nada, apresentando-o como modelo absoluto de todas as virtudes, muito embora saiba estar ele muito longe disso, enfeitando com penas não suas a desprezível gralha, esforçando-se por alvejar as peles da Etiópia, e, finalmente, fazendo de uma mosca um elefante. Assim, pois, sigo aquele conhecido provérbio que diz: Não tens quem te elogie? Elogia-te a ti mesmo.
Sou eu mesma, como vedes; sim, sou eu aquela verdadeira despenseira de bens, a que os italianos chamam Pazzia e os gregos Mória. E que necessidade havia de vo-lo dizer? O meu rosto já não o diz bastante? Se há alguém que desastradamente se tenha iludido, tomando-me por Minerva ou pela Sabedoria, bastará olhar-me de frente, para logo me conhecer a fundo, sem que eu me sirva das palavras que são a imagem sincera do pensamento. Não existe em mim simulação alguma, mostrando-me eu por fora o que sou no coração. Sou sempre igual a mim mesma, de tal forma que, se alguns dos meus sequazes presumem não passar por tais, disfarçando-se sob a máscara e o nome de sábios, não serão eles mais do que macacos vestidos de púrpura, do que burros vestidos com pele de leão. Qualquer, pois, que seja o raciocínio feito para se mostrarem diferentes do que são, dois compridos orelhões descobrirão sempre o seu Midas.br> Para dizer a verdade, não estou nada satisfeita com essa gente ingrata, com esses perversos velhacos, porque, embora pertençam mais do que os outros ao nosso império, não só publicamente se envergonham de usar o meu nome, como muitas vezes chegam a aplicá-lo aos outros como título oprobrioso ".
Erasmo de Rotterdam (1466-1536), in “Elogio da Loucura”.

28 de abril de 2016

Noite e Dia

John Duncan
Não me agradam
essas coisas que despertam
barulho, susto, água fria
tudo na minha cara
mas nenhum sonho por perto

Não me agradam
essas coisas que adormecem
vazio, escuro, calmaria
tudo que lembra morte
quando nada mais dá certo

Não me agradam
essas coisas sem poesia
uma noite só noite
um dia só dia.

Alice Ruiz

A Anarquia

Sandro Botticelli
Para a anarquia vai a humanidade
Que da anarquia a humanidade vem!
Vide como esse ideal do acordo invade
As classes todas pelo mundo além!

Que importa que a fração dos ricos brade
Vendo que a antiga lei não se mantém?
Hão de ruir as muralhas da Cidade,
Que não há fortalezas contra o bem

Façam da ação dos subversivos crime,
Persigam, matem, zombem... Tudo em vão...
A ideia, perseguida, é mais sublime,

Pois nos rude ataques à opressão,
A cada herói que morra ou desanime
Dezenas de outros bravos surgirão.

José Oiticica (1882-1957)

27 de abril de 2016

Para Além

Jean Baptiste Regnault
É para além de tudo o que alcançamos
Que se advinha enfim esse horizonte,
Onde dormem os sonhos que beijamos
E a nossa sede tem a única fonte.

Há para além do céu ainda mais céu
Se houver ânsia no olhar que o refletir:
O céu mais vago e fundo é só um véu
Que a alma rasga para poder seguir...

É para além do amor que me adormece
Nesta loucura doce de te olhar
Que o coração pressente o que é amar.

Além da vida há vida, além é o norte:
E quando mortos, ainda a nossa prece
Levantará as mãos além da morte.

António Patrício (1878-1930)

Alojei-me no Inferno

Cornelis Saftleven - Os Portões do Inferno
Alojei-me no Inferno sobre a terra para redigir esta rima,
Vivo agora em silêncio, em animada chama;
Dou testemunho do Céu neste tempo profano,
Ocupo um aposento em cidade de renome, sou
Desconhecido. Não é minha a fama de onde resido,
Eu não a teria. Anjos no ar
Cantarolam meus sentidos em deleite.
A inteligência dos poetas, santos e pessoas
Corretas conversam comigo noite adentro.
Mas todas as ruas estão ardendo onde quer que seja.
A cidade está abrasando essas multidões que escalam os
Seus edifícios. Seu inferno é o mesmo
Que escalei por meio de uma estupenda escada em chamas.
Elas desaparecem assim que diviso a luz.

Allen Ginsberg (1926-1997)
Tradução: Reuben da Cunha Rocha

26 de abril de 2016

Dizer, até onde [...]

Odilon Redon
Dizer, até onde as palavras podem
levar em direção ao que as
excede, o que não está em sua ordem dizer.
As palavras indefinidamente abertas:
nó dado por ninguém, cujo
limite se desvanece com o
movimento de se fechar.

Serge Nû̃nez Tolin
Tradução: Júlio Castañon Guimarães

Presenças

Antoon van Welie
Eles estão por dentro. Nas
palavras
e nos atos.

Nas cadeiras
nas gavetas
nos cabides e nos fatos.

Quando menos se espera
fogem
dos retratos.

Tem cuidado quando te calças
eles podem esconder-se
nos sapatos.

Na sopa e na maçã
quem sabe se
no vinho.

Vê bem por onde vais
eles gostam das curvas
do caminho.

Na cama onde te deitas
nas camisas
e nas meias

no lençol com que te enxugas
no remédio que tomas para
desentupir as veias

no garfo sobre a mesa
nos copos
e nos pratos

eles estão por dentro e estão por fora.
Podes crer que nunca ficam
nos retratos.

Manuel Alegre

25 de abril de 2016

Flor Sangrenta

Shawna Erback
O amor
talismã vulnerável
desespero alegre dos amantes
busca eterna do que é
perecível.

Ramon Nunes Mello

As Setas

Richard S. Johnson
Uma jovem num jardim
Duas mulheres num vaso
Três moças em meu coração
Sem horas nem limites.
Uma palma na vidraça
Uma palma sobre o peito
Um botão fora da casa
Um seio que se desvela
Enquanto o arqueiro com as setas
Brilha alto no céu
Sem horas nem limites.

A̓ndréas Empeirîkos (1901-1975)
Tradução: José Paulo Paes

24 de abril de 2016

Fila Indiana

Steve Hanks
Um atrás do outro, atrás um do outro,
ano após ano, ano após outros,
minuto após minuto, século
após séculos, continuam

(a conduzir seus madeiros
na perícia dos próprios dramas)

um atrás do outro, atrás um do outro,
ano após ano, ano após outros,
minuto após minuto, século
após séculos, e de novo

um atrás do outro, atrás um do outro,
até a surdez final do pó.

Nauro Machado (1935-2015)

Não deites fora as cartas de amor

Cícero Dias
Elas não te abandonarão.
Passará o tempo, apagar-se-á o desejo
— essa flecha de sombra —
e os rostos sensuais, inteligentes, belíssimos
ocultar-se-ão em ti, no fundo de um espelho.
Cairão os anos. Cansar-te-ão os livros.
Decairás ainda mais
e perderás até a poesia.
O ruído frio da cidade nos vidros
acabará por ser a tua única música,
e as cartas de amor que tiveres guardado
serão a tua última literatura.

Joan Margarit
Tradução: Miguel Filipe Mochila

23 de abril de 2016

Aventura doméstica

Anita Malfatti
Sozinho em casa procuro nos armários.
Encontro antigos mapas de estradas,
contratos que venceram, esferográficas
que não escreverão mais cartas, velhas calculadoras
sem pilhas, relógios que o tempo derrotou.
O passado aninha-se no fundo das gavetas
como um rato triste. Vazios, os vestidos pendem
como velhas personagens que nos interpretaram.
Mas de súbito encontro a tua lingerie,
da cor da noite, da areia; fina, com pequenos bordados.
Cuecas, soutiens e meias que desdobro
e que me fazem regressar ao brilhante, embora misterioso,
fundo de amor e sexo: é ele que, de fato,
dá vida às casas, como os faróis e as luzes
de barcos e cafés a um porto ignorado.

Joan Margarit
Tradução: Miguel Filipe Mochila

Chegas tarde ao teu tempo

Daniel F. Gerhartz
Chegas tarde ao teu tempo. Palavras duras
que escuto agora como uma derrota.
Mas já não sei de nenhum combate,
nem que tempo era o meu. É uma pena
não se ser ninguém, ter errado
o comboio, ter ficado sem malas,
adormecido no banco, passar ao largo,
e achar-se agora sem roupa limpa,
cansado, num hotel reles de uma só
e má estrela, que deve ser a minha.
Prescindirei de tudo menos do poeta
que fica do desastre. Fingirei ver
que no final de contas errei o século:
isto será Paris e eu Verlaine.

Joan Margarit
Tradução: Miguel Filipe Mochila

22 de abril de 2016

Relato sentimental da memória

Alexander Averin
Amor e tempo é um conflito
que se resolve sempre com dor e esquecimento.
Porque compreender não quer dizer amar,
mas afastar-se mais: já o suspeitava
há muitos anos, quando ainda exercia arquitetura.
Aprendo tudo de novo.
Agora preciso apenas de lealdade
a alguma coisa vaga e solitária,
dura como uma rocha no meio do mar.
Às vezes a mente dos velhos
engrena com fúria a sua lógica.
Vejam-na deambular pelas suas memórias:
percorre uma costa desolada,
porque compreender não quer dizer amar,
mas afastar-se mais. Aprendo tudo de novo.

Joan Margarit
Tradução: Miguel Filipe Mochila

Bosque de Música

Edward Hornel: Música do Bosque
Meu ser flui em tua música, bosque adormecido no tempo,
rendido à nostalgia dos lagos do céu.
Como esquecer que sou oculta melodia
e tua adusta penumbra, voz dos mistérios?
Tenho interrogado os ares que beijam a sombra,
tenho ouvido no silêncio tristes fontes perdidas,
e tudo eleva meus sonhos a músicas celestes.
Vou com as prímulas que te visitam de noite,
que dão vida às flores em tuas sombras azuis
e me revelam o vago sofrer de teus segredos.
Teu letargo de pirilampo é lenta astronomia
que gira em meu sussurro de folhagem no vento
e dá asas aos suspiros das almas que escondes.
Morreu aqui o caçador, ao pé das orquídeas,
o caçador nostálgico por tua magia embriagado?
Oh, bosque! tu que sabes viver de solidões,
para onde vai na noite o profundo suspirar?
O sopro da morte enluta tuas ramagens
e no pranto do mundo as lâmpadas se apagam.
Mas tua paz é vigília. Redimes a vida
extasiada nos cantos, em claros mananciais.
Em tua vigília aprendo a ver o infinito,
em tuas horas ascendo ao âmbito de Deus.
Este vale tranquilo, nas idades amado,
que em sua tristeza ouve o ar de tuas harpas,
fornece seus lírios ao céu em mística esperança.
O céu e mim é angústia e eu, rumor do céu,
como és tu, na noite, sombra de sinfonias,
como és, até a alvorada, eco suave de luz.

Vicente Gerbasi (1913-1992)
Tradução: J. A. Rodrigues

21 de abril de 2016

Colóquio Sentimental

Louis Buisseret
No velho parque frio e abandonado,
Duas formas passaram, lado a lado.

Olhos sem vida já, lábios tremendo,
Apenas se ouve o que elas vão dizendo.

No velho parque frio e abandonado,
Dois vultos evocaram o passado.

_ Lembra-te bem do nosso amor de outrora?
_ Porque que é que hei de lembrar-me disso agora?

_ Bate sempre por mim teu coração?
Vês sempre em sonho minha sombra?_ Não.

_ Ah! aqueles dias de êxtase indizível
Em que as bocas se uniam!_ É possível.

_ Como era azul o céu, e grande, o sonho!
_ Esse sonho sumiu no céu tristonho.

Assim por entre as moitas eles iam,
E só a noite escutou o que diziam.

Paul Verlaine (1844-1896)
Tradução: Guilherme de Almeida

A Caaba

Photograph by Everett Sufti Abdullah século 16
Vigia atentamente o estado de tua própria mente.
O amor a Deus começa na inocência.
Saibas que o profeta construiu uma Caaba externa de barro e água,
e uma Caaba interna na vida e no coração.
A Caaba externa foi construída por Abraão, o Santo;
a interna é santificada pela glória de Deus mesmo.
No caminho de Deus dois locais de adoração marcam as etapas.
O templo material e o templo do coração.
Empenhe-se para adorar no templo do coração.
Oh! Mendicante, o paraíso é apenas uma tentação;
o objetivo real é a própria casa de Deus.

Abdullah Ansari (1005-1090)

20 de abril de 2016

A tarefa mais difícil...

Winslow Hommer
A tarefa mais difícil ao caçar-te, Deus,
É usar aquele arco e aquelas flechas que deste ao meu coração.
Eles são feitos de simples água.
Eu miro a uma longa distância para o Sol.
Hafiz, quem pode entender o profundo absurdo
de todo o esforço neste caminho.
Porque não colocar esse antigo dilema do outra maneira.
Escute: Não foi apenas uma vez em nossa história
que uma formiga saiu e capturou um elefante com apenas
uma mão.
Isso não te diz alguma coisa nova?
Talvez não
Este trabalho de ensinar não é fácil.

Al-Din Muhammad Hafiz (1325-1390)

Sede de Beleza

Alexandros de Antioquia - Vênus de Milo
Só, estou só: vem o verso amigo,
Como o esposo diligente ele acode
Ao reclamo da eriçada rola.
Tal como as neves desatadas que,
Em degelo, baixam em copiosos fios
Dos altos montes por selvas e vales –
Assim, também, por minhas oprimidas
Entranhas, um amor balsâmico e uma
Avidez celeste se derramam de formosura.
As estrelas – esposas do silêncio! –
Por igual, desde o vasto azul, vertem
Sobre a terra a sua luz benigna, como
Se perfumassem de uma alma virgem
A sombria e sangrenta humanidade,
E tal vago aroma das flores se levanta.

Dá-me o sublime e o perfeito! Dá-me
Um desenho de Ângelo; uma espada
Com punho de Cellini, mais formosa
Que os tetos de marfim ornado com
Que se apraz em lavrar a Natureza.
Dá-me o crânio augusto no qual arderam
O universo de Hamlet e a fúria
Tempestuosa do moro; a índia
Cortesã que às margens do ameno rio
Que banha os muros do velho Chichén
Enxugava o esbelto corpo lustroso e limpo
Assim como os seus próprios cabelos
À sombra de um plátano pomposo.
Dá-me meu céu azul..., dá-me a pura,
A inefável, a plácida, a eterna alma
De mármore que a famosa Milo deu
Ao soberbo Louvre, como sua nata e flor.

José Martí (1853-1895)
Eluciário:
Balsâmico: aromático, como o bálsamo;
Ângelo: Fra Angelico, pintor italiano (1400-1455);
Hamlet: protagonista de um dos principais dramas de Shakespeare;
Moro: alusão a Otelo, personagem da peça homônima de Shakespeare;
Chichén: antiga cidade maia localizada na Península de Yucatán;
Louvre: referência ao renomado museu francês;
Milo: a Vênus de Milo, famosa escultura grega.

19 de abril de 2016

Desterro

Antoon Van Welie
Já me não amas? Basta! Irei, triste, e exilado
Do meu primeiro amor para outro amor, sozinho...
Adeus, carne cheirosa! Adeus, primeiro ninho
Do meu delírio! Adeus, belo corpo adorado!

Em ti, como num vale, adormeci deitado,
No meu sonho de amor, em meio do caminho...
Beijo-te inda uma vez, num último carinho,
Como quem vai sair da pátria desterrado...

Adeus, corpo gentil, pátria do meu desejo!
Berço em que se emplumou o meu primeiro idílio,
Terra em que floresceu o meu primeiro beijo!

Adeus! Esse outro amor há de amargar-me tanto
Como o pão que se come entre estranhos, no exílio,
Amassado com fel e embebido de pranto...

Olavo Bilac (1865-1918)