25 de maio de 2016

A Base de Toda Metafísica

Donald Zolan
E agora cavalheiros,
Uma palavra digo para permanecer em vossas mentes e memórias,
Como base e também finale para toda metafísica.

(Assim para os estudantes o velho professor
Ao término de seu curso repleto.)

Tendo estudado o novo e o antigo, os sistemas Grego e Germânico,
Tendo estudado e exposto Kant, Fichte e Schelling e Hegel,
Exposto o saber de Platão, e Sócrates maior do que Platão,
E, maior que Sócrates pesquisado e exposto, Cristo divino havendo
longamente estudado,
Vejo hoje em reminiscência aqueles sistemas Grego e Germânico,
Vejo os filósofos todos, igrejas cristãs e cédulas de dez dólares vejo,
No entanto sob Sócrates claramente vejo, e sob Cristo o divino vejo,
O caro amor do homem pelo seu camarada, a atração de amigo por
amigo,
Dos bem casados marido e mulher, de crianças e pais,
De cidade por cidade e de terra por terra.

Walt Whitman (1819-1892)
Tradução: José Lino Grünewald

Soneto

Christian Schloe
Enquanto, ao competir com teu cabelo,
ouro brunido ao sol deslumbra em vão;
enquanto com desprezo ao rés-do-chão
olha tua alva frente o lírio belo;

enquanto atrás do lábio, por querê-lo,
mais olhos que da rosa agora vão;
e enquanto triunfa com afetação
do luzente cristal teu ser de gelo;

goza gelo, cabelo, lábio e frente,
antes que esta que foi hora dourada
– ouro, lírio, rosal, cristal luzente –

não só em prata ou flor estiolada
se torne, mas tu e tudo juntamente
em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada.

Luis de Góngora (1561-1627)
Tradução: Érico Nogueira

24 de maio de 2016

Liberdade e Igualdade!

Lauren Beisel: Sinos de Santorini
Liberdade e igualdade!, escuta-se ecoar;
O pacato cidadão defende-se,
Enchem-se as ruas, os mercados,
E bandos de estranguladores surgem por toda volta;
Então as mulheres tornam-se hienas
E agem apavorantes, sarcásticas,
E ainda contorcendo-se, com dentes de pantera,
Rasgam o coração do inimigo.
Nada Santo o é mais, desatam-se
Todos os laços do piedoso temor,
O bem cede lugar ao mal,
E todos os vícios reinam livres.
Perigoso é acordar o leão,
Destruidor é o dente do tigre,
No entanto, o mais terrível dos horrores,
É o homem no seu desvario.
Ai daqueles que emprestam ao eterno cego
O facho da luz celestial!
Este não brilha para ele, a luz tão somente queima
E torna em cinzas cidades e países. ?

Friedrich Schiller (1759-1805)
Tradução: Maria Costa

Explicação Necessária

Ferdinand Heilbuth
Há certos versos - às vezes poemas inteiros -
que eu próprio não sei o que querem dizer. O que ignoro
retém-me ainda. E tu, tu tens razão em interrogar. Não interrogues.
Já te disse que não sei.
Duas luzes paralelas
vindo do mesmo centro. O ruído da água
que cai, no inverno, da goteira a transbordar
ou o ruído de uma gota de água caindo
de uma rosa no jardim, regado há pouco,
devagar, devagarinho, uma tarde de primavera,
como o soluço de um pássaro. Não sei que quer dizer este ruído;
contudo aceito-o.
As coisas que sei explico-as,
sem negligência.
Mas as outras também acrescentam a nossa vida.
Eu olhava
o seu joelho dobrado, como ela dormia,
levantando o lençol -
não era apenas amor. Este ângulo
era o cume da ternura, e o cheiro
do lençol, a lavado e a primavera, completava
este inexplicável, que eu procurei,
em vão ainda, explicar-te.

Yiannis Ritsos (1909-1990)
Tradução: Eugénio Andrade

23 de maio de 2016

Com pesos e medidas

Ivan Aivazovsky
Com pesos e medidas
ou com axiomas,
filhos da lógica,
é impossível fixar
o princípio da rotação
desta cuia dourada
que nos cobre
– a máquina cósmica.

Ou prever a deterioração, a ruína
e o fim dos sólidos alicerces
sobre os quais
nos vemos assentados.

Como poderão interpretar –
pesos e medidas,
axiomas e raciocínios,
o tema imenso da criação.
este nosso Universo incomensurável?

Criando lendas?
Bosquejando fantasmas?

Omar Khayyám (1048-1131)
Tradução: Christovam de Camargo

Partiu-se o Sol

Christian Schloe
Partiu-se o sol
entre nuvens de cobre.
Dos montes azuis chega um ar sonoro.
No prado do céu,
entre flores de estrelas,
a lua vai em crescente
como um garfo de ouro.

Pelo campo (que espera os tropéis de almas),
vou carregado de pena,
pelo caminho só;
porém o meu coração
um raro sonho canta
de uma paixão oculta
a distância sem fundo.

Ecos de mãos brancas
sobre a minha fronte fria,
paixão que se madurou
com pranto de meus olhos!

Federico Garcia Lorca (1898-1936)
Tradução: William Agel de Melo

22 de maio de 2016

Ofertório

Edoardo Ettore Forti
Foi por vós, catecúmenos* sombrios
Da excelsa religião do sentimento,
Que de tudo num vago esquecimento
Vaguei da morte pelos reinos frios;

Buscando a essência em flor do sentimento
Oculta nesses báratros* sombrios,
Onde a voz tumular de ventos frios
Geme o salmo de eterno esquecimento.

Foi por vós que eu vivi nas outras vidas
As sensações secretas, doloridas,
Que sufocam os gritos na garganta,

E é por vós que minh'alma aniquilada,
Nos sudários do sonho amortalhada,
Das próprias ruínas ressurgindo, canta.

Carlos Fernandes (1874-1942)

* Catecúmeno - Aquele que se instrui e se prepara para receber o batismo; noviço.
* Báratro - Precipício onde se jogavam os criminosos em Atenas, abismo, inferno.

Inferno - Canto I (Excerto)

Gustave Doré
No meio do caminho de nossa vida,
encontrei-me numa selva escura,
de tal modo que a via certa desaparecera.
Ah! Descrever como realmente era difícil
essa selva selvagem, áspera e densa
que no pensamento renova o medo!
Tanto é terrífica, que pouco mais é morte,
mas para descrever a boa ajuda que ali encontrei
falarei sobre outras coisas que ali divisei.
Não sei na verdade dizer como nela entrei,
pois estava de tal modo dominado pelo sono nesse momento
que a verdadeira via abandonei.

Dante Alighieri (1265-1321)
Tradução: Carlos E. Zampognaro

21 de maio de 2016

Aspecto

Sir Edward John Poynter
Vivo dentro de quatro paredes matemáticas
Alinhadas metricamente. Rodeiam-me apáticas
almazinhas que não sabem um pingo sequer
Desta febre azulada que nutre minha quimera.

Uso uma pele falsa que listro de gris
(corvo que sob a asa guarda uma flor-de-lis
Provoca-me certo riso o bico feroz e raivoso,
Que eu mesma crio para farsa e estorvo.)

Alfonsina Storni (1892-1938)
Tradução: Vássia Silveira

O Andarilho e sua Sombra

Childe Hassam
O pão neutraliza o sabor de outros alimentos, apaga-o; por isso faz parte de toda refeição maior.
Em toda obra de arte tem de haver algo como o pão, para que nela possa haver diferentes efeitos: que, seguindo-se imediatamente um ao outro, sem uma pausa e descanso assim, esgotariam e despertariam aversão rapidamente, de modo que uma refeição maior seria impossível.
Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900),
Tradução: Paulo César de Souza

20 de maio de 2016

Correm Turvas as Águas deste Rio

Ettore Forti
Correm turvas as águas deste rio,
que as do Céu e as do monte as enturvaram;
os campos florescidos se secaram,
intratável se fez o vale, e frio.

Passou o verão, passou o ardente estio,
umas coisas por outras se trocaram;
os fementidos Fados já deixaram
do mundo o regimento, ou desvario.

Tem o tempo sua ordem já sabida;
o mundo, não; mas anda tão confuso,
que parece que dele Deus se esquece.

Casos, opiniões, natura e uso
fazem que nos pareça desta vida
que não há nela mais que o que parece.

Luís Vaz de Camões (1524-1589)

É o Silêncio...

Edward Robert Hughes
É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
Olha-me a estante em cada livro que olha.
E a luz nalgum volume sobre a mesa...
Mas o sangue da luz em cada folha.

Não sei se é mesmo a minha mão que molha
A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.
Penso um presente, num passado. E enfolha
A natureza tua natureza.
Mas é um bulir das cousas... Comovido
Pego da pena, iludo-me que traço
A ilusão de um sentido e outro sentido.
Tão longe cai!
Tão longe se aveluda esse teu passo,
Asa que o ouvido anima...
E a câmara muda. E a sala muda, muda...
Afonamente rufa. A asa da rima
Paira-me no ar. Quedo-me como um Buda
Novo, um fantasma ao som que se aproxima.
Cresce-me a estante como quem sacuda
Um pesadelo de papéis acima
.................................................
E abro a janela. Ainda a lua esfia
Últimas notas trêmulas... O dia
Tarde florescerá pela montanha.

E oh! minha amada, o sentimento é cego...
Vês? Colaboram na saudade a aranha,
Patas de um gato e as asas de um morcego.

Pedro Kilkerry (1885-1917)
Tradução: Frederico Barbosa

19 de maio de 2016

Vinho, aguardente e amores proibidos

Edward Ladell
Se até o século XVIII foi considerado saudável remédio contra vermes, mal da vista e erisipela, a aguardente passou ao index dos médicos. Só bebida com moderação era útil, sobretudo para os velhos cujos órgãos aquecia. Em excesso, fazia perder a razão e os sentidos: “Que fraqueza! Que tristeza! Que palidez! ” – Pontuava o médico mineiro Francisco de Mello Franco, vituperando contra a bebedice. Beber em demasia passou a ser problema moral. A embriaguez fora de controle era capaz de gerar “furores e ímpetos perniciosos”, levando seu adepto a homicídios, adultérios e ladroagens. Tornada “vício”, a cachaça teve, porém, seu consumo embalado pelo comércio transatlântico de destilados e a modernização das garrafas. Antes em forma de cebola, agora, tinham formato de bastão podendo ser empilhadas umas sobre as outras, para a alegria dos comerciantes e dos “viciosos” consumidores!
Na defesa dos comportamentos moderados, os médicos davam largas à imaginação. Um remédio eficaz, por exemplo? A cabeça de um cordeiro lanudo, uma mancheia de cabelos humanos, uma enguia com seu fel, tudo levado ao forno até torrar. O pó resultante devia ser misturado à bebida. “Tiro e queda!”
O vinho português reinou absoluto por século. Era solicitado à mesa dos engenhos ricos e constava da hospitalidade dos conventos. Em recepções, as autoridades não economizavam o conteúdo das preciosas pipas vindas da terrinha. Vindos do Porto ou da Madeira eram oferecidos em festas de Natal e Páscoa enchendo com sua cor dourada e quente os cálices erguidos em brindes. Debret e Saint-Hilaire provaram deles. Antes dos franceses, porém, os fundadores da Austrália, de passagem pelo Rio, em 1787, estiveram a sua procura: “O vinho durante a estação em que permanecemos na cidade só era encontrado nos mercados de retalhos. […] Entre os produtos aqui disponíveis encontram-se: o açúcar, o café, o rum, o vinho do Porto…”.
Referindo-se aos costumes paulistas, Vilhena assim os descreveu:
“Tomam muito pouco vinho às refeições. A bebida usual é água. Em ocasiões públicas ou quando se oferece uma festa a muitos convidados, ornamenta-se a mesa suntuosamente […] O vinho circula copiosamente, repetindo-se os brindes durante o banquete que dura em geral de duas a três horas seguido de doces, o orgulho da mesa”.
Na documentação do Santo Ofício, o capitoso vinho surge como coadjuvante nos prelúdios amorosos. Sobretudo os proibidos, aqueles praticados por sodomitas. João Freire, um jovem criado morador de Olinda, em 1595, confessou na mesa do santo Ofício, quando da Primeira Visitação em Pernambuco que indo algumas vezes à casa do sapateiro André Lessa, “por importunação e instigação do dito que o provocava, lhe mostrou seu membro viril contra sua vontade, deixando o sapateiro tomá-lo na mão e, certa vez convidou-o para jantar e comeram pão, pacovas e beberam vinho”. Em 1652, durante uma travessia transatlântica, o barbeiro André Mendes, não fez por menos: “estava cheio de vinho querendo beijar e convidando a muitos soldados para dormir junto”. E explicava sua receita infalível de sedução: “com uma peroleira de vinho e uma botija de aguardente fazia nos rapazes o que quisesse, porque o vinho e a aguardente fazem perder o juízo”.
Mary del Priore.
“História da Gente Brasileira: Colônia”, Editora LeYa, 2016.

18 de maio de 2016

Ofício 2

William Hemmerling
Página em branco
lida em voz alta.
O poema é, no entanto
invisível esmeralda.

Sem escada de incêndio
que lhe indique a saída
o poeta solfeja o silêncio.
Cantar é urgente como a vida.

Christovam de Chevalier

Um Fado

Toni Frissell
A sala escurece
A rua amanhece
Tu cantas a emoção
Entras dentro do coração
De quem fecha os olhos
Para ouvir a tua luz
Para ouvir o bater
(um quase truz-truz)
Do teu coração
que entregas
de uma forma desalmada
ao fado-canção
que enche a madrugada.

Luís Milheiro

17 de maio de 2016

E consentirias tu, tão soberbo...

Anita Burnaz
E consentirias tu, tão soberbo,
quando a noite assim te convida,
abrindo as janelas sobre as ruas
e soprando ao teu ouvido
a triste voz do esquecimento?

Morta é a tua ilusão.
No mundo em que te fizeres soberano,
sê como a árvore sem cuidado,
nua contra a chuva e o sonho,
só na sua estranha primavera!

Lúcio Cardoso (1912-1968)

Manifesto

Lucio Amitrano
Sim ao prazer sem custo.
Acatar, beber, dividir o bom
que venha feito o sol, gratuito.

Quem sabe se o dom, o sem-razão
e o sem-motivos possam mais
do que exigimos. Nem se duvide

do que é capaz a coincidência
entre coisas. Nesse mundo
em que gênios são servos de si mesmos,

pratique-se o descanso, para
que o fogo nunca esteja frio
e o coração passeie seus cavalos.

Eucanaã Ferraz

16 de maio de 2016

Você e Eu

Leticia Banegas
Eu digo
você e eu
somos nosso mundo

ele é um eu
como eu e você

floresce como nós
morrerá como nós

e dará lugar
a outros mundos.

Rose Ausländer (1901-1988)
Tradução: Arthur Nogueira

Os Passos

Ford Madox Brown
Filhos do meu silêncio amante,
Teus passos santos e pausados,
Para o meu leito vigilante Caminham mudos e gelados.
Que bons que são, vulto divino, Puro ser, teus passos contidos! Deuses! os bens do meu destino Me vêm sobre esses pés despidos.
Se trazes, nos lábios risonhos, Para saciar o seu desejo, Ao habitante dos meus sonhos O alimento feliz de um beijo,
Retarda essa atitude terna, Ser e não ser, dom com que faço
Da vida a tua espera eterna,
E do coração o teu passo.

Paul Valéry (1871-1945)
Tradução: Guilherme de Almeida

15 de maio de 2016

Trinta e Três nomes de Deus

Tentativa de um diário sem datas e pronomes pessoais.
Louis Jean Francois Lagrenee
1
Mar pela manhã

2
Murmúrio da
nascente nas
rochas
sobre os muros de pedra

3
Vento de mar
a noite,
sobre uma ilha

4
Abelha

5
Voo triangular
dos cisnes

6
Cordeiro recém-nascido
formoso ariete
ovelha

7
O terno focinho
da vaca
o focinho selvagem
do touro

8
O focinho
paciente do
boi

9
O rubro fogo
na lareira

10
O camelo
coxo
que atravessa a
grande cidade atravancada
a caminho da morte

11
A erva
O odor da erva

12
‘ ‘’’ ‘‘’’’

13
A boa terra
A areia
e a cinza

14
A garça real que
esperou toda a
noite, quase gelada,
e pela aurora encontra
com que aplacar sua
fome

15
O pequeno peixe
que agoniza
nas goelas da
garça real

16 A mão,
que entra em
contato
com as coisas

17
A pele —
toda a superfície
do corpo

18
O olhar
e o que ele vê

19
As nove portas
da
percepção

20
O torso
humano

21
O som de uma
viola ou de uma
flauta indígena

22
Um trago
de bebida
fresca ou
cálida

23
O pão

24
As flores
que despontam
da terra
na primavera

25
Sono
em um leito

26
Um cego
que canta
e uma criança
enferma

27
Cavalo que
corre
em liberdade

28
A mulher —
os — cães

29
Os camelos
que se banham
com seus filhotes
no difícil oued

30
Sol nascente
sobre um lago
ainda meio
gelado

31
O relâmpago
silencioso
O trovão
fragoso

32
O silêncio
entre dois amigos

33
A voz que vem
de levante,
entra pelo ouvido
direito
e ensina um canto.

Marguerite Yourcenar (1903-1987)
Tradução: Mario Rui de Oliveira

14 de maio de 2016

A Tentação do Olhar

Lord Frederick Leighton
“Os olhos amam a beleza e a variedade das formas, o brilho e a luminosidade das cores. Oxalá tais atrativos não me acorrentem a alma. Que ela somente seja possuída por aquele Deus que criou essas coisas “tão boas”. Somente ele é o meu sumo bem, não elas. Todos os dias, enquanto estou acordado, elas me importunam sem dar-me descanso, como dão as vozes que cantam, e outros sons, quando silenciam. Apropria rainha das cores, a luz que inunda tudo o que vemos, me alcança de mil maneiras, onde quer que eu esteja, durante o dia, e acaricia-me até mesmo quando me ocupo de outra coisa e dela me abstraio. Insinua-se com tal vigor que, se de repente me falta, a procuro com ansiedade, e se permanece ausente por muito tempo, minha alma se entristece”.
Agostinho de Hipona (354-430)
Tradução: Maria Luiza Jardim Amarante.

Onde jamais viajei

Dorina Costras
Onde jamais viajei, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o silêncio deles;
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram
ou que não posso por perto demais tocar...

o teu mais leve olhar facilmente me descerra
embora como os dedos eu me tenha cerrado,
sempre me abres pétala por pétala como a primavera
abre (tocando-a jeitosa, misteriosamente) sua primeira rosa

ou, se te aprouvesse encerrar-me, eu
e minha vida nos fecharíamos em beleza, subitamente,
como quando o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente por todo lado a tombar;

nada do que nos é dado a perceber neste mundo se iguala
ao poder da tua imensa fragilidade: cuja textura
me compele com a cor das suas pátrias,
que me cedem a morte e o sem fim a cada alento

(não sei o que vai em ti que se fecha
e se entreabre; apenas alguma coisa em mim entende
que a voz dos teus olhos é mais funda que as rosas todas)
e ninguém, nem mesmo a chuva, tem as mãos assim tão pequenas

E.E.Cummings(1894-1962)
Tradução: Paulo Mendes Campos

13 de maio de 2016

O Ter e o Dar

Vladimir Volegov
Não me peças, ó vida, o que não dás.
Se o que sempre pedi nunca me deste,
e ao que não me atrevera tu trouxeste
às minhas mãos sem jeito de o conter,

para que pedes o que não me dás?
Se nada tenho do que desejara
e tendo tanto por que não esperara,
como hei de dar-te, sem jamais saber

que meu foi teu, que teu foi meu, que nosso
foi só de empréstimo, como hei de ou posso,
entre o que tenho, decidir e dar?

E como ao que não tenho hei de perder,
pelo que me darias a escolher
como se fora tempo de acabar?

Jorge de Sena (1919-1978)

Canção de Ariel

Johann Heinrich Füssli: Ariel
Em nuvem leve, ainda mais leve
Que o fugitivo floco
De espuma ou neve,
Passa Ariel a cantar: – “Gênios, eu vos invoco!
Vinde do bosque ou das colinas,
Com festões ou grinaldas
De alvas boninas;
Deixai do alpestre monte as verdejantes fadas
E as vertentes silenciosas!
Os vossos instrumentos,
– Almas maviosas,
Liras e harpas trazei, gênios que errais aos ventos!

A ilha ideal que se recame
Toda de rosas! Eia,
Pistilo e estame
Deixai, abelhas de ouro, e de canções enchei-a!
Vinde, libélulas de prata,
Que ides banhar-vos lestas
Lá na cascata,
E sais a bailar por campos e florestas!
Vinde, vós todos, e cercai-a,
A bela, que a cabeça
Pende e desmaia;
Vinde! é a voz afinar e uma canção depressa!

Vinde! e do sono entre os vapores,
Como pela espessura
A alma das flores,
Divague a alma gentil que esta solidão procura.
Vinde! Porém, que vos não veja
Aquele gênio alado
Que leve adeja
E às vezes passa aqui com a aljava de ouro ao lado!
Que vos não veja e vos não siga
Ele, que á fina e clara
Mão inimiga
O arco tem sempre e é morte a flecha que dispara.

Guardai-a bem, ficai-me a postos,
Gênios! E arda a alegria
Nos vossos rostos,
E um bailado dançai, antes que rompa o dia!”
Emma, assim, no ar ouvindo
Este canto, adormece,
Entressorrindo
E sonhando, à manhã que pálida aparece;
Assim, a lira de ouro e neve
Presa do leve braço,
Em nuvem leve
Passa Ariel a cantar, embalado no espaço.

Alberto de Oliveira (1857-1937)

12 de maio de 2016

Melancolia

Daniel Maclise
Andar aspirar
Vida anseia
Estremecer estar
Olhares procuram
Morrer cresce
O chegar
Grita!
Profundamente
Emudecemos
Nós.

August Stramm (1874-1915)
Tradução: João Barrento