4 de setembro de 2015

Deus Humano

Rafael Sanzio
Assusta-me este Deus de barba imensa,
Pai severo e tirano à moda antiga,
Que com o fogo do inferno os maus castiga
Porém, na terra, os bons não recompensa.
Este Deus que a adorá-lo nos obriga,
Mas que só ama a quem o adula e incensa
Nunca há de ser o Deus da minha crença
Que eu venere e entre cânticos bendiga.

O Jeová que no Antigo Testamento
Os profetas nos pintam, truculento,
É um velho Deus, motivo de pavor.

Moço é o meu Deus, de eterna juventude:
Perdoa. Todo o mal muda em virtude.
De tão humano, é quase um pecador.

Bastos Tigre (1882-1957)

Os Desinteressados

James Christensen
“Durante milénios o mundo foi semelhante a essas pinturas italianas da Renascença onde, sobre as lajes frias, são torturados homens enquanto outros olham para outro lado na distração mais perfeita. O número dos «desinteressados» era vertiginoso em comparação com o dos interessados. O que caracterizava a história era a quantidade de pessoas que não se interessavam pela desgraça dos outros. Algumas vezes os desinteressados também se tornavam vítimas. Mas passava-se tudo no meio da distração geral e uma coisa compensava a outra. Hoje toda a gente faz menção de se interessar. Nas salas do palácio as testemunhas voltam-se de súbito para o flagelado”.
Albert Camus (1913-1960)
Tradução: António Ramos Rosa

3 de setembro de 2015

O Medo da Loucura

Jaime Derringer
(…) O medo da loucura. Ver a loucura em todas as emoções que se esforçam sempre para a frente e que nos fazem esquecer de tudo o resto. Que é, então, a não loucura? A não loucura é ficar parado, de pé, como um mendigo à soleira da porta, ficar ao lado da entrada, apodrecer e cair. Mas P. e O. são de fato loucos repugnantes. Deve haver loucuras maiores do que aquela que os imortaliza. O que é repugnante é, talvez, este inchar de pequenos loucos na grande loucura. Mas Cristo não apareceu aos fariseus precisamente a mesma luz? (…)
Franz Kafka (1883-1924)
Tradução: Maria Adélia Silva Melo

Para além dos Signos

Paul Antoine de La Boulaye
Escrever agora é dispersar os reflexos,
abrir as portas de pedra e repousar no ar.
Ajoelhado junto de um barco ou de uma jarra,
um deus respira e é um puro vazio.
Para além dos signos e no início deles
um sorriso, um fulgor das coisas confiantes.
E nos muros e nos dedos, uma areia
que das nuvens descesse e na distância
a forma de um abraço amante, o sonho do outro.

António Ramos Rosa

2 de setembro de 2015

A Outra Cidade

Joseph William Turner
Há muitas solidões cruzadas - diz - em cima e em baixo
e outras no meio; diferentes e semelhantes, forçadas e
impostas
ou como que escolhidas, como que livres - mas sempre
cruzadas.
Mas no fundo, no centro, há apenas uma solidão - diz;
uma cidade vazia, quase esférica, sem quaisquer
anúncios luminosos multicores, sem lojas, sem motocicletas,
com uma luz branca, vazia, brumosa, interrompida
por centelhas de desconhecidos semáforos. Nesta cidade
habitam desde há anos os poetas. Caminham silenciosos de
braços cruzados,
recordam factos imprecisos, esquecidos, palavras,
paisagens,
estes consoladores do mundo, sempre inconsolados,
perseguidos
pelos cães, pelos homens, pelos vermes, pelos ratos, pelas
estrelas,
perseguidos até pelas suas próprias palavras, ditas ou não
ditas.

Yiannis Ritsos (1909-1990)
Tradução: Custódio Magueijo

Estou e não me respondo

Carl Spitzweg
Estou e não me respondo.
Assisto. Em mim se decide
um inútil afã e se some
a vida que me preside.

E passo, ainda... Meu nome
há muito não coincide
comigo se estar se consome
e tantas vezes me elide.

Me move o tempo mais frio
de tanto pranto afogado
num quase mito de mim.

Vou morando em desvario
quase em sonho inaugurado
para um começo, meu fim.

Maria Ângela Alvim (1926-1959)

1 de setembro de 2015

A Poesia

Sir Edward John Poynter
Houve um tempo
em que Schmidt e Vinicius
dividiam as preferências
como maior poeta do Brasil.
Quando, por unanimidade ou quase,
nesse jogo tolo
de se querer medir tudo,
Drummond foi o escolhido,
ele comentou:
alguém já me mediu
com fita métrica
para saber se de fato sou
o maior poeta?

Estava certo.
Pois a poesia
quando ocorre
tem mesmo a perfeição
do metro –
nem o mais
nem o menos
– só que de um metro nenhum
um metro de nadas.

Francisco Alvim

Os Velhos Admirando-se na Água

Jean Ranc
Ouvi os velhos, velhos, murmurando:
"Tudo se altera,
E um por um vamos passando."
Tinham mãos como garras, e seus joelhos
Eram torcidos como os espinheiros velhos
Junto da água.
Ouvi os velhos, velhos, murmurando:
"Tudo o que é belo foge, deslizando
como as águas"

William Butler Yeats (1865 -1939)
Tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos

31 de agosto de 2015

Política

“Em nosso tempo, o destino do homem
encontra seu significado em termos políticos”.

(Thomas Mann)
Steven J. Levin
Como posso eu, com aquela moça ali parada,
Fixar minha atenção
Na política Romana,
Russa ou Espanhola?
No entanto, há aqui um homem viajado que sabe
Do que fala,
E ali há um político
Que tem lido e pensado,
E talvez o que eles dizem seja verdade
Sobre a guerra e seus alarmes,
Mas, oh, fosse eu jovem novamente
E a tomaria em meus braços!

William Butler Yeats (1865 -1939)
Tradução: J. A. Rodrigues

A Clemência

Giovanni Antonio Pellegrini
A qualidade da clemência é que ela não seja forçada;
Cai como a doce chuva do céu sobre o chão que está debaixo dele;
É duas vezes bendita; bendiz ao que a concede e ao que a recebe.
É o que há de mais poderoso naquele que é todo-poderoso;
Assenta-se melhor do que a coroa no monarca sentado ao trono;
O cetro bem pode mostrar a força do poder temporal;
O atributo da majestade e do respeito que faz os reis temerem e tremerem.
Porém, a clemência está acima da autoridade;
Tem seu trono nos corações dos reis,
É um atributo do próprio Deus
E o poder terrestre se aproxima tanto quanto possível do poder de Deus,
Quando a clemência tempera a justiça... Rogamos para solicitar clemência
A este mesmo rogo, mediante o qual a solicitamos,
A todos ensina que devemos mostrar-nos clementes para com nós mesmos.
William Shakespeare (1564-1616)
em " O Mercador de Veneza".

30 de agosto de 2015

Da Mesma Massa

Sir John Everett Millais
“Seja qual for a forma que a vida humana assuma, os seus elementos são sempre os mesmos. Portanto, naquilo que é essencial, ela é a mesma em toda a parte, seja numa cabana, na corte, no mosteiro ou no exército. Por mais variados que sejam os seus eventos, as suas aventuras, as suas felicidades e as suas desgraças, dá-se com a vida, no entanto, o mesmo que com os produtos do pasteleiro. As figuras são numerosas e variam quanto à forma e cor; todavia, tudo é feito da mesma massa, e aquilo que acontece a um é muito mais parecido com aquilo que ocorreu a outro do que este possa pensar ao ouvir a narrativa. Os acontecimentos da vida assemelham-se às imagens do caleidoscópio, no qual a cada volta vemos algo diferente, mas em verdade temos sempre o mesmo diante dos olhos.”
Arthur Schopenhauer (1788-1860)
Aforismos para a Sabedoria de Vida.

Para um Livro de Leituras Escolares

Sir Edward John Poynter
Não leias odes, meu filho, lê antes horários:
são mais exatos. desenrola as cartas marítimas
antes que seja tarde, toma cuidado, não cantes.
o dia vem vindo em que hão de outra vez pregar as listas
nas portas e marcar a fogo no peito os que digam
não. aprende a passar despercebido, aprende mais do que eu:
a mudar de bairro, de bilhete de identidade, de cara.
treina-te nas pequenas traições, na mesquinha
fuga quotidiana, úteis as encíclicas
mas para acender o lume, e os manifestos
são bons para embrulhar a manteiga e o sal
dos indefesos, a cólera e a paciência são precisas
para assoprar-se nos pulmões do poder
o pó fino e mortal, moído por
aqueles que aprenderam muito

e são meticulosos por ti.

Hans Magnus Enzensberger
Tradução: Jorge de Sena

29 de agosto de 2015

Aviso de Mobilização

Edward Killingworth Johnson
Passaram pelo meu nome e eu era um número
- menos que a folha seca de um herbário.
Colheram-no com mãos de zelo e gelo;
escreveram-no, sem mágoa, num postal.

Convite a que morresse. .. mas por quê?
Convite a que matasse. .. mas por quem?
Ó vago amanuense, ó apressado
e súbito verdugo, que te ocultas
numa rubrica rápida, ilegível,
que dirás tu do meu e de outros nomes,
que dirás tu de mim e de outros mais,
no Dia do Juízo já tão próximo
- que dirás tu de nós, se nem tremeu,
na rápida rubrica, a tua mão?

Bem sei que a tua mão só executa;
mas para além do ombro a ti pertences.
Bem puderas chorar, ter hesitado. . .
- A mancha de uma lágrima bastara
para dar um sentido a esta morte
a que a tua indiferença nos convoca!

David Mourão Ferreira (1927-1996)

À Noite Acostumado

Michele Catti
Já fui à noite inteiramente acostumado.
Eu já saí na chuva – e regressei na chuva.
Já segui tendo as luzes da cidade ao largo.

Eu já contemplei a mais triste dentre as ruas.
Já deixei para trás as rondas do vigia
E baixei o olhar, sem declaração alguma.

Parei, calei o som que ao caminhar fazia
Quando na distância de repente irrompeu
Um grito surdo que por sobre as casas vinha,

Mas não a me chamar ou me dizer adeus;
Ainda mais imóvel e mal-assombrado,
Dizia um luminar relógio contra os céus

Que o tempo nem estava certo nem errado.
Já fui à noite inteiramente acostumado.

Robert Frost (1874-1963)
Tradução: Rodrigo Madeira

28 de agosto de 2015

A Curva dos teus Olhos

Pablo Picasso
A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito
É uma dança de roda e de doçura.
Berço noturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.

Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.

Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.

Paul Éluard (1895-1952)
Tradução: Antonio Ramos Rosa

Digam

Ton Schulten
Digam !
Lá porque estão acesas as estrelas,
será porque elas são necessárias a alguém?
Será porque alguém há a desejar que existam?
Será porque alguém chama a esses escarros, pérolas?
E, vencendo
a poeirenta borrasca do meio-dia,
alguém corre p'ra Deus,
temendo chegar tarde,
chora,
beija-lhe a mão nodosa,
implora -
que lhe falta uma estrela! -
jura
que, sem estrelas, não pode suportar este martírio.
E depois,
lá vai com a sua angústia,
mostrando paz na cara.
Perguntando a qualquer:
"Agora, estás melhor, não é assim?
Já não tens medo?
Não?"
Digam !
Lá porque estão acesas
as estrelas -
será porque elas são necessárias a alguém?
será porque é - indispensável,
que cada noite
por cima dos telhados
uma só estrela, ao menos, se ponha a reluzir?

Vladimir Maiakovski (1893-1930)
Tradução: Carlos Grifo

27 de agosto de 2015

Companheira do Cesteiro

Marc Chagall
Amava-te.
Amava o teu rosto de nascente sulcado pela tempestade
e o emblema do teu domínio cingindo o meu beijo.
Há quem se entregue
a uma imaginação completamente redonda.
A mim basta-me ir.

Do desespero, meu amor,
trouxe o cestinho mais pequeno
que se pôde entrelaçar em vime.

René Char (1907-1988)
Tradução: Margarida Vale de Gato

O Corpo Canta

Jelnov Nikolay
O corpo canta;
o sangue ulula;
a terra fala;
o mar murmura;
o céu se cala
e o homem escuta.

Miguel de Unamuno (1864-1936)
Tradução: Antonio Cicero

26 de agosto de 2015

Porlamar

Albert Bierstadt
Baixo às profundas
abissais da palavra:
colho-a como um ovo
entre as algas, como
uma pera na geladeira,
como um peixe roubado
à voracidade de outro,
como um pato abatido
no pântano, como areia
fina, na barra, a fugir
entre meus dedos.
Como-a
com uma pitada de sal.
Se de veias, sangro-a;
pétrea, sob o cinzel,
dirá o que direi, nua,
gelada e engalanada,
confiante e confidente.

Busco-a a madrugar,
mastim, de tocaia,
como se colhesse amoras
temendo as silvas.

Fernando Ferreira de Loanda (1924-2002)

Unidade

Ismael Nery
Deitando os olhos sobre a perspectiva
das coisas, surpreendo em cada qual
uma simples imagem fugitiva
da infinita harmonia universal.

Uma revelação vaga e parcial
de tudo existe em cada coisa viva:
na corrente do bem ou na do mal
tudo tem uma vida evocativa.

Nada é inútil; dos homens aos insetos
vão-se estendendo todos os aspectos
que a ideia da existência pode ter;

e o que deslumbra o olhar é perceber
em todos esses seres incompletos
a completa noção de um mesmo ser...

Raul de Leoni (1895-1926)

25 de agosto de 2015

Línguas

Marten van Valckenborch
Não há arreios em uma língua
Por onde os homens possam segurá-la
E marcá-la com sinais para sua recordação.
É um rio, essa língua,
A cada mil anos
Abrindo um novo rumo
Mudando seu caminho para o oceano.
São eflúvios de uma montanha
Descendo para os vales
E de nação em nação
Cruzando fronteiras e se misturando.
As línguas morrem como os rios.
As palavras que hoje envolvem sua boca
E são partidas em forma de pensamento
Entre seus dentes e lábios que falam
Agora e hoje
Serão hieróglifos desbotados
Daqui a dez mil anos.
Cante – e cantando – lembre-se
Sua canção morre e se transforma
E não estará mais aqui amanhã
Não mais que o vento
Soprando há dez mil anos atrás.

Carl Sandburg (1878-1967)
Tradução: Bruno Piffardini

O Espaço e o Tempo

Alayna Borowy
Espaço e tempo se desavieram
num dos grotões do cosmos.

“Estou cansado de viver jungindo ao tempo,
proclama arrogante o espaço,
como irmãos gêmeos siameses,
o momento confundido com o traço.
Com absoluta independência
quero imergir-me nas micropartículas do átomo
ou sublimar-me no infinito campo de forças
estelares!”

E sereno o tempo respondeu:
“Como te enganas!
Há muito tempo, enquanto te encurvavas
para ajustar-te às coisas grandes ou pequenas,
eu fugia delas
buscando a duração intrínseca do ser
ou me arriscando em sonhos transcendentes!”

E o eco repetiu o diálogo
no espaço e no tempo.

Miguel Reale (1910-2006)

23 de agosto de 2015

O Poço dos Medeiros

Paul Signac
Não quero a poesia, o capricho
do poema: quero
reaver a manhã que virou lixo
................. quero a voz
a tua a minha
aberta no ar como fruta na casa
fora da casa
................. ......... a voz dizendo coisas banais
entre risos e ralhos
na vertigem do dia;
................................. não a poesia
o poema o discurso limpo
onde a morte não grita
............................................ A mentira
não me alimenta:
...................alimentam-me
as águas
............. ainda que sujas rasas
afogadas
................... do velho poço
......................... hoje entulhado
................................onde outrora sorrimos.
Ferreira Gullar

Emiliano Monae, Alexandrino, 628-655 d.C.

Peter Paul Rubens
Com palavras, com feições do rosto, e com maneiras
uma excelente armadura me farei,
e, assim, enfrentarei os homens maus,
sem ter medo ou fraqueza.

Vão querer prejudicar-me. Mas, de todos os que
se aproximarem de mim, ninguém saberá
onde estão minhas feridas, meus pontos vulneráveis,
sob as mentiras que me encobrirão.

Palavras de presunção de Emiliano Monae.
Porventura pode um dia fazer essa armadura?
Em todo caso, não se serviu dela por muito tempo.
Aos vinte e sete anos morreu na Sicília.

Konstantinos Kaváfis (1863-1933)
Tradução: Isis Borges da Fonseca

Dirigindo e Bebendo

Meir Pichhadze
Já é agosto e eu não
leio um livro há seis meses
a não ser por um troço chamado A Retirada de Moscou
de Caulaincourt.
Ainda assim, estou feliz
andando de carro com meu irmão
e bebendo um pint de Old Crow.
Não estamos indo a lugar nenhum,
só estamos indo.
Se eu fechasse os olhos por um minuto
estaria perdido, contudo
eu poderia facilmente deitar e dormir pra sempre
na beira desta estrada.
Meu irmão me cutuca.
Para que algo aconteça, está por um triz
.

Raymond Carver (1938-1988)
Tradução: Cide Piquet