10 de fevereiro de 2016

A Frivolidade dos Nossos Anseios de Felicidade

Christian Schloe
Quando refletimos sobre a brevidade e a incerteza da vida, quão desprezíveis parecem todos os nossos anseios de felicidade?
E, mesmo que estendêssemos a nossa atenção para além da nossa própria vida, quão frívolos parecem os nossos projetos mais vastos e generosos quando consideramos as mudanças e revoluções incessantes nos assuntos humanos, por meio das quais as leis e a cultura, os livros e os governos são postos de lado apressadamente pelo tempo, como por uma correnteza ligeira, e se perdem no imenso oceano da matéria?
Tal reflexão seguramente tende a mortificar todas as nossas paixões. Não ajuda ela, porém, a desse modo contrabalançar o artifício da natureza que felizmente nos leva ao engano de acreditar que a vida humana tem alguma importância?
E não poderia tal reflexão ser empregada com sucesso por pensadores voluptuosos, com o intuito de nos afastar dos caminhos da ação e da virtude rumo aos campos floridos da indolência e do prazer?
David Hume (1711-1776)

Vestibular

Charles Laplante
O filósofo Aristóteles (384-322 a.C.) definiu a cidadania em Atenas da seguinte forma: A cidadania não resulta do fato de alguém ter o domicílio em certo lugar, pois os estrangeiros residentes e os escravos também são domiciliados nesse lugar e não são cidadãos. Nem são cidadãos todos aqueles que participam de um mesmo sistema judiciário. Um cidadão integral pode ser definido pelo direito de administrar justiça e exercer funções públicas.
(Adaptado de Aristóteles, Política. Brasília: Editora UnB, 1985, p. 77-78.)
a) Indique duas condições para que um ateniense fosse considerado cidadão na Grécia clássica no apogeu da democracia.
b) Os estrangeiros, também chamados de metecos, não tinham direitos integrais, mas tinham alguns deveres e direitos. Identifique um dever e um direito dos metecos.
Resolução:
a) Ser homem, maior de 21 anos, nascido em Atenas, filho e pais atenienses; essas condições, em conjunto, garantiam que o cidadão deveria participar da vida publica da cidade – sendo assim considerado cidadão político.

b) Em relação aos deveres, o candidato poderia mencionar o pagamento de impostos -sobretudo o de residência –obrigatório para a permanência de um estrangeiro em Atenas.
Vale lembrar que, apesar de ter alguns direitos, os metecos não tinham direito à participação política e à vida publica, conforme indica Aristóteles no fragmento.

9 de fevereiro de 2016

Não me Basta Ser

Alexander Averin
Não me basta ser:
eu quero o transbordar de tudo,
o desassombro
que toda margem desconhece.

Não me basta morar:
quero ser habitado
por quem ao destino desobedece.

Não me basta viver:
quero a vida como febre,
o amor como lume e água.

No final, saberás:
o que se ama não regressa.

O que se vive
não começa.

E o sonho
nunca tem pressa.

Mia Couto

Vestibular 2016

Tom Frazier
“Como proteção contra a fantasia e a demência financeiras, a memória é muito melhor do que a lei. Quando a lembrança do desastre de 1929 se perdeu no esquecimento, a lei e a regulação não foram suficientes. A História é extremamente útil para proteger as pessoas da avareza dos outros e dela mesma”.
John Kenneth Galbraith, "O Grande Crash, 1929".
a) Indique duas características principais do que o autor chama de “desastre de 1929”.
b) Identifique algum fenômeno posterior, comparável ao “desastre de 1929”, estabelecendo semelhanças e diferenças entre ambos.
Resolução:
a) - Desequilíbrio entre produção e consumo, gerando superprodução, sobretudo na indústria;
- especulação com ações, em descompasso com a real situação das empresas;
- inúmeras falências, incluindo centenas de bancos;
- desemprego em massa, com graves co0nsequensicas sociais;
- alastramento da depressão a todo mundo capitalista.

b) Comparando a crise de 1929 com a de 2008:
Semelhanças: Ambas ocorreram em um contexto de prática do liberalismo econômico e tiveram dimensão mundial.
Diferenças: A crise de 1929 decorreu principalmente de um desequilíbrio entre a produção e consumo, ao passo que a crise de 2008 surgiu da especulação imobiliária; além disso, a Crise de 1929 foi combatida governo Roosevelt por medidas econômicas e sociais abrangentes (New Deal), ao passo que os governos Bush e Obama priorizaram os aportes financeiros às empresas com risco de quebrar.

8 de fevereiro de 2016

Aqueles

Arte de James Durden
Aqueles
Acreditavam que era possível fazer a beleza.
Acreditavam na beleza e no fazer.

Resolveram emendar o que restava
partido
entre humanos e o divino.

Diziam deuses diziam natureza disseram espada
mas era só a beleza o que sentiam.

Trocavam o bem pelo belo.
Perderam-se de tudo e aqui
estamos.

(Eucanaã Ferraz)

Recolhimento

Pablo Picasso
Tem juízo, ó minha Dor, e faz por sossegar.
O Anoitecer querias, ei-lo que vem vindo:
Uma atmosfera obscura as ruas vai cingindo,
Que a uns promete a paz, e aos outros o pesar.
Enquanto dos mortais a multidão vulgar,
Ao chicote do Cio, esse carrasco infindo,
Remorsos colhe o Vício perseguindo,
Dá-me a tua mão, ó Dor, e vamos devagar

Longe de tudo. Vê: os anos mortos de outrora
Do céu espreitam em vestes já sem uso agora;
Sobe das fundas águas a Saudade casta;

O moribundo Sol num vão de arco descansa
E qual vasto lençol que se do oriente arrasta,
Escuta, oh escuta, a Noite que tão doce avança.

Charles Baudelaire (1821-1867)
Tradução: Jorge de Sena

7 de fevereiro de 2016

Não entres docilmente nessa noite serena

John Singer Sargent
Não entres docilmente nessa noite serena,
porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia;
odeia, odeia a luz que começa a morrer.

No fim, ainda que os sábios aceitem as trevas,
porque se esgotou o raio nas suas palavras, eles
não entram docilmente nessa noite serena.

Homens bons que clamaram, ao passar a última onda, como podia
o brilho das suas frágeis ações ter dançado na baía verde,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E os loucos que colheram e cantaram o voo do sol
e aprenderam, muito tarde, como o feriram no seu caminho,
não entram docilmente nessa noite serena.

Junto da morte, homens graves que vedes com um olhar que cega
quanto os olhos cegos fulgiriam como meteoros e seriam alegres,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E de longe, meu pai, peço-te que nessa altura sombria
venhas beijar ou amaldiçoar-me com as tuas cruéis lágrimas.
Não entres docilmente nessa noite serena.
Odeia, odeia a luz que começa a morrer.

Dylan Thomas (1914-1953)
Tradução: Fernando Guimarães

6 de fevereiro de 2016

Em memória de Sigmund Freud

Foto de Freud
Quando há tantas pessoas a quem devemos lamentar,
quando se tornou assim tão pública a aflição e expôs
à critica de toda uma época
nossa frágil consciência, nossa angústia,

de quem iremos falar? Se todos os dias morrem
entre nós os que nos faziam algum bem, embora
nunca o bastante, sabiam, mas
contavam, vivendo, aumentá-lo um pouco.

Assim era este médico: aos oitenta desejava
refletir sobre a nossa vida, cuja indisciplina
tanto porvir plausível, jovem,
quer domar com ameaças ou lisonjas,

mas seu desejo foi negado: ele fechou os olhos
sobre o último quadro, a todos nós comum, de problemas
como parentes congregados
perplexos e ciumentos de morrermos.

À volta dele, até o último alento, se postaram
aqueles − fauna da noite − a quem havia estudado,
e sombras inda à espera de entrar
no claro âmbito do seu entendimento,

foram-se alhures com seu desaponto quando ele,
afastado do interesse de toda sua vida
voltou de novo à terra, em Londres,
importante judeu morto no exílio.

Só o Ódio é que ficou feliz, na esperança de aumentar
sua clinica então e sua sórdida clientela
que pensa curar-se com matar
e cobrir depois de cinzas os jardins.

Eles estão vivos ainda, mas num mundo que ele
mudou com olhar para trás sem falsos pesares;
tudo quanto fez foi, como os velhos,
lembrar e, como as crianças, ser honesto.

Nunca jamais foi esperto: limitava-se a dizer
ao Presente infeliz que recitasse o Passado qual
uma lição de poesia até
mais cedo ou mais tarde hesitar no verso onde,

havia muito, as acusações tinham começado,
e repentinamente descobrir quem o julgara,
como a vida fora rica e tola,
e, com a vida perdoada e mais humilde,

poder aproximar-se do Futuro como amigo
sem um guarda-roupa inteiro de desculpas, sem uma
máscara de retidão ou gesto
de embaraçosa e excessiva intimidade.

Não admira que as antigas culturas presunçosas
na técnica de deslocamento dele antevissem
quedas de reis, colapsos dos
seus lucrativos padrões de frustração:

se ele tivesse êxito, a Vida Generalizada
tornar-se-ia impossível, o monolito do Estado
seria quebrado e impedida
a colaboração dos vingadores.

Claro que invocavam a Deus, mas ele prosseguia em seu
caminho para baixo, até a perdida gente, como Dante,
até a vasa onde os ofensos
levam a vida vil dos rejeitados,

e nos mostrava o que eram o mal, não, como pensávamos,
atos a serem punidos, mas nossa falta de fé,
nosso modo desonesto de negar a concupiscência do opressor.

Se traços da atitude autocrática, do paternal
rigor por que tinha suspicácia, ainda se apegavam
às suas palavras e feições,
eram só um colorido protetor

de quem viveu tempo demais entre gente inimiga:
se estava amiúde errado e eram algumas vezes absurdo,
já não é mais uma pessoa
para nós, mas um clima de opinião

dentro do qual vivemos nossas diferentes vidas:
como o tempo ele só pode ajudar ou atrapalhar;
o soberbo continua a sê-lo,
acha porém mais difícil, o tirano,

tenta enganá-lo, mas não se importa muito com ele:
sem alarde ele afeta o nosso desenvolvimento
até os exaustos, mesmo no
ducado mais remoto e miserável,

sentirem em seus ossos a mudança e animarem-se,
até a criança inditosa, no seu pequeno Estado,
algum lar sem liberdade,
colmeia cujo mel é medo e angústia,

sentir-se mais calma agora e certa de uma saída
qualquer, enquanto, na grama da nossa negligência,
tantos objetos esquecidos
pelo seu brilho não encorajado,

nos são devolvidos e de novo tornam-se preciosos;
brinquedos que achávamos ter de deixar quando grandes,
barulhinhos de que não ousávamos
rir, caretas que fazíamos a furto.

Mas ele não deseja mais do que isso. Ser livre
é com frequência estar sozinho. Ele cuidava de unir
metades desiguais rompidas
por nossa boa intenção de sermos justos;

de devolver aos maiores a agudeza e vontade
que os menores possuem e costumam somente usar
em tolas disputas, dar de volta
ao filho a opulência do sentir materno:

ele cuidava acima de tudo era de lembrar-nos
que nos deixássemos arrebatar pela noite, não
apenas pelo senso de pasmo
que por si só nos dá, mas também

por que precisa o nosso amor. Os grandes olhos tristes
de suas doces criaturas rogam mudamente
que as convidemos a seguir-nos;
são banidos que aspiram ao futuro
que está em nossas mãos, eles também se alegrariam
se lhes permitissem servir, como ele, à iluminação,
e suportar nosso grito: “Judas!”
como ele suportou e os que o servirem.

Uma voz racional calou-se. Sobre a sua tumba,
a família do Impulso pranteia um ente querido.
Eros está triste, o construtor
de cidades; chora a anárquica Afrodite.

W. H. Auden (1907-1973)
(AUDEN, 1986, p. 95, 97, 99 e 101)
Tradução: José Paulo Paes

5 de fevereiro de 2016

Poema Deserto

Salvador Dali
Todas as transformações
todos os imprevistos
se davam sem o meu consentimento.

Todos os atentados
eram longe de minha rua.
Nem mesmo pelo telefone
me jogavam uma bomba.

Alguém multiplicava
alguém tirava retratos:
nunca seria dentro de meu quarto
onde nenhuma evidência era provável.

Havia também alguém que perguntava:
Por que não um tiro de revólver
ou a sala subitamente às escuras?

Eu me anulo me suicido,
percorro longas distâncias inalteradas,
te evito te executo
a cada momento e em cada esquina.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

Retrato

Edgar Degas
Das palavras nascem o poema e a solidão.
O verbo é punhal traiçoeiro e rosa sangrenta.
Uma sílaba contém o amor e a outra o exílio.
Boca, por que hás de falar e sempre em vão?

Calcinada flor, desfaz-se em pó a retórica.
Que olhos abismados soletram a gramática?
Dançam os vocábulos o baile dos equívocos
em torno do home atônito, filho da treva.

Um destino se esconde no verso e a vida é drama.
Rito de ódio e canto de embalar irrompem das antologias.
O pecado e o crime foram gerados diante do pronome.

Rei e servo, santo e demônio, o lábio escolhe o tempo.
Alguém me absolverá quando todos me condenarem.
Estou marcado de culpas e sou um homem.

Mário da Silva Brito

4 de fevereiro de 2016

A Alma em Fuga

John William Waterhouse
Buscaram, já rompendo a madrugada,
olhos e braços meus sua presença,
e só achei, como sinal da ausência,
o oco da sua fronte na almofada.

Oh, que correr a angústia desatada,
que ulular
¹ na amplidão minha demência,
que farejar nos âmbitos a essência
da fugitiva planta perfumada!

Amigos, que elogiais sua formosura,
não me deixeis sozinho na amargura
do transe doloroso e imprevisto.

Perscrutai o perfil dos horizontes!
Batei os campos, derrubai os montes!
Por piedade, dizei se a tendes visto!

Enrique González Martínez (1871-1952)
Tradução: Renato Suttana
¹Ulular = Gritar como aves noturnas.

Quando sob os Pinheiros

George Inness
Quando sob os pinheiros, e quando escrava,
minha alma vestia um corpo torturado,
ainda a terra voava célere para mim
e as aves se desvairavam ao som rouco dos cavalos.

Agulhas negras, escamas de pinheiro,
as cascas,
e rubro sob os pés jorra
o mirtilo,
e meus furiosos dedos rasgam pálpebras,
meu corpo quer viver. Será que este
sou eu?
Serei eu de carbonizada boca procurando
os joelhos das raízes secas, e que a terra
engole como outrora o sangue, e as irmãs
de Faetonte se transfiguram, choram âmbar?

Arseny Tarkovsky (1907-1989)
Tradução: Filipe Guerra

3 de fevereiro de 2016

No Azul

Wassily Kandinsky
Asas no azul – melhor não merecê-las,
melhor não açular tal confusão,
nem desejar a fímbria das estrelas,
nem querer as vertigens da amplidão.

Melhor ficar em casa sem sofrê-las,
longe da mágoa em que redundarão
as angústias exaustas de perdê-las
quando estourar a fúria do tufão.

Asas na luz – melhor não cultivá-las,
nem o prazer senil de cobiçá-las,
havendo sempre inverno após o outono:

e desistir do voo e da afoiteza,
e aniquilar os sonhos de grandeza
num círculo de pasmo, queda e sono.

Renato Suttana

2 de fevereiro de 2016

Mapa

Kathy Hare
Ao norte, a torre clara, a praça, o eterno encontro,
A confidência muda com teu rosto por jamais.
A leste, o mar, o verde, a onda, a espuma,
Esse fantasma longe, barco e bruma,
O cais para a partida mais definitiva
A uma distância percorrida em sonho:
Perfume da lonjura, a cidade santa.

O oeste, a casa grande, o corredor, a cama:
Esse carinho intenso de silêncio e banho.
A terra a oeste, essa ternura de pianos e janelas abertas
A rua em que passavas, o abano das sacadas: o morro
e o cemitério e as glicínias.
Ao sul, o amor, toda a esperança, o circo, o papagaio,
a nuvem: esse varal de vento,
No sul iluminado o pensamento no sonho em que te sonho
Ao sul, a praia, o alento, essa atalaia ao teu país

Mapa azul da infância:
O jardim de rosas e mistério: o espelho.
O nunca além do muro, além do sonho o nunca
E as avenidas que percorro aclamado e feliz.

Antes o sol no seu mais novo raio,
O acordar cotidiano para o ensaio do céu,
Preto e branco e girando: andorinha e terral.
Depois a noite de cristal e fria,
A noite das estrelas e das súbitas sanfonas afastadas,
Tontura de esperanças: essa mistura de beijos
e de danças pela estrada
Numa eterna chegada ao condado do Amor.

Marcos Konder Reis (1922-2001)

1 de fevereiro de 2016

A morte de um soldado...

Charles Courtney Curran
A morte de um soldado
A vida é movimento
O imperador do sorvete
Acrescenta isto à retórica
Da poesia moderna
Na estrada para casa
Estudo de duas peras
Os vermes de Heaven's Gate.

Wallace Stevens (1879-1955)
Tradução: Renato Suttana

O que é a História e para que serve?

Spencer Grant - Clio Muse of History
A função da história, desde seu início, foi a de fornecer à sociedade uma explicação sobre ela mesma. A história se coloca hoje em dia cada vez mais próxima às outras áreas do conhecimento que estudam o homem (a sociologia, a antropologia, a economia, a geografia, a psicologia, a demografia, etc.), procurando explicar a dimensão que o homem teve e tem em sociedade. [...]
A história procura especificamente ver as transformações pelas quais passaram as sociedades humanas. A transformação é a essência da história [...]. Nada permanece igual, e é através do tempo que se percebem as mudanças.
Estudar as mudanças significou durante muito tempo uma preocupação com momentos que são vistos como de crise e de ruptura... Hoje se sabe que mesmo mudanças que parecem súbitas, como os movimentos revolucionários, não somente foram lentamente preparados - de forma voluntária e involuntária, por diferentes circunstâncias - mas não conseguiram mudar totalmente as estruturas das sociedades onde se realizaram; são exemplos significativos tanto a Revolução Francesa como a Revolução Russa de 1917. Percebe-se, ligado a isso, uma preocupação cada vez maior dos historiadores não só com mudanças mas também com as permanências.
O tempo é a dimensão de análise da história. O tempo histórico através do qual se analisam os acontecimentos não corresponde ao tempo cronológico que vivemos e que é definido pelos relógios e calendários. No tempo histórico podemos perceber mudanças que parecem rápidas, como os acontecimentos cotidianos: por exemplo num golpe de Estado, cujo desenrolar acompanhamos pelos jornais. Vemos também transformações lentas, como no campo dos valores morais: o machismo, por exemplo, é um valor que impera na maior parte das sociedades que a história estuda, a ponto de se poder dizer que a história que está escrita mostra um processo praticamente só conduzido pelos homens. [...]
Quase sempre que a história da humanidade nos é apresentada, é a evolução da sociedade europeia ocidental que é tomada como modelo de desenvolvimento. Essa posição eurocêntrica é errada: do ponto de vista da história, a evolução da sociedade europeia ocidental, com seu alto grau atual de desenvolvimento tecnológico, não deve ser um padrão de comparação para se estudar a história de qualquer outra parte do sistema capitalista, como, por exemplo, a América Latina. Não se deve, por meio desse tipo de comparação, julgar se uma sociedade está "atrasada" ou "adiantada" em seu desenvolvimento histórico.
[...] Temos, ao mesmo tempo, hoje em dia, sociedades com formas de vida primitivas, consideradas ainda no chamado período pré-histórico (por exemplo, como certas tribos na Nova Zelândia), e sociedades com um grau de desenvolvimento que permite explorações interplanetárias (como fazem os americanos e os russos). Não se percebe, ainda como exemplo, uma linha constante e progressiva da passagem, a partir da Antiguidade, do trabalho escravo ao trabalho assalariado: a escravidão quase que desaparece na Europa Ocidental, durante a Idade Média, para reaparecer na Idade Moderna, imposta pelos europeus nas Américas, como forma de relação de trabalho dominante. [...]
[...]
As alterações são decorrentes da ação dos próprios homens, sujeitos e agentes da história. [...] São os homens constituídos em sociedade que, embora nem sempre deliberada e conscientemente, atuaram e atuam para que as coisas se passem de uma ou de outra maneira, para que tomem um rumo ou outro.
[...]
Não se deve buscar uma razão para um desenrolar da história da humanidade. O sentido dos diferentes acontecimentos históricos e dos processos específicos de transformações sociais devem ser procurados nos próprios acontecimentos [...].
Saber o que o homem fez em sociedade desde que está na Terra mostra muito sobre o próprio homem, ajuda a entendê-lo e a entender as sociedades [...]. Explicar as transformações sociais esclarecendo seus comos e porquês leva a perceber que a situação de hoje é diferente da de ontem. [...]
[...] A humanidade não é um todo homogêneo, e a história não a analisa assim. Na realidade, dificilmente o historiador pode tratar, ao mesmo tempo, de toda a humanidade. Ao escrever a história, em geral ele se ocupa especificamente de uma determinada realidade concreta, situada no tempo e no espaço. Estudam-se uma tribo, um povo, um império, uma nação, uma civilização, como, por exemplo, o povo judeu, antes do nascimento de Cristo, a formação do Império Macedônico, a civilização greco-romana, o surgimento da França, etc.
O homem é um ser finito, temporal e histórico. Ele tem consciência de sua historicidade, isto é, de seu caráter eminentemente histórico. O homem vive em um determinado período de tempo, em um espaço físico concreto; nesse tempo e nesse lugar ele age sempre, em relação à natureza, aos outros homens, etc. É esse o seu caráter histórico. Tudo o que se relaciona com o homem tem sua história; para descobri-la, o historiador vai perguntando: o quê? quando? onde? como? por quê? para quê?...
[...] Fazer uma história do presente não é, escrever sobre ele, mas sobre indagações e problemas contemporâneos ao historiador. É preciso conhecer o presente e, em história, nós o fazemos sobretudo através do passado, remoto ou bem próximo.
[...]
Para muitos, o conhecimento do passado serve para manter as tradições, por vezes no sentido de tentar impedir as permanentes mudanças; para outros, o sentido da história é propiciar o desenvolvimento de forças transformadoras das sociedades. [...]
BORGES, Vavy Pacheco. "O que é História".
São Paulo: Brasiliense, 1998. p. 49-58.

31 de janeiro de 2016

Mar

Thomas Gainsborough
Mar!
Tinhas um nome que ninguém temia:
Era um campo macio de lavrar
Ou qualquer sugestão que apetecia...

Mar!
Tinhas um choro de quem sofre tanto
Que não pode calar-se, nem gritar,
Nem aumentar nem sufocar o pranto...

Mar!
Fomos então a ti cheios de amor!
E o fingido lameiro, a soluçar,
Afogava o arado e o lavrador!

Mar!
Enganosa sereia rouca e triste!
Foste tu quem nos veio namorar,
E foste tu depois que nos traíste!

Mar!
E quando terá fim o sofrimento!
E quando deixará de nos tentar
O teu encantamento!

Miguel Torga (1907-1995)

Antologia

Edward Hopper
A vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
Os corpos se entendem mas as almas não.
A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Vou-me embora p’ra Pasárgada!
Aqui eu não sou feliz.
Quero esquecer tudo:
– A dor de ser homem...
Este anseio infinito e vão
De possuir o que me possui.

Quero descansar
Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei...
Na vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Quero descansar.
Morrer.
Morrer de corpo e alma.
Completamente.
(Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.)

Quando a Indesejada das gentes chegar
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa.
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

Manuel Bandeira (1886-1968)

30 de janeiro de 2016

Arima

William Ireland
Uma gaivota - dizes.
Sim, uma gaivota
passa distante, e arde.
O teu rosto é azul,
e contudo está cheio
de oiro da tarde.

Uma gaivota.
Alma do mar e tua,
abandona-se à luz.
E na boca nem eu sei
se me nasce o coração,
ou se é a lua.

Eugénio de Andrade (1923-2005)

Pedra

Jean-Léon Gérôme
A pedra
é uma criatura perfeita

igual a si mesma
percebe seus limites

é perfeitamente preenchida
por seu sentido de pedra

seu cheiro não lembra nada
não assusta não excita

seu ardor e frieza
são justos e dignos

sinto um grande remorso
quando a pego na mão
e seu corpo nobre
é envolvido pelo meu falso calor

– Pedras não podem ser domadas
até o fim nos olharão
com olhos calmos e transparentes.

Zbigniew Herbert (1924-1998)
Tradução: Sylvio Fraga Neto e Danuta Nóbrega

29 de janeiro de 2016

As duas palavras que são uma prece

Edmund Blair Leighton
Uma coisa sabes quando as dizes:
por toda a terra há gente a dizê-las contigo;
uma criança proferindo-as quando a apreensão a domina,
uma mulher recitando-as sobre um berço num hospital.
E se apanhares um táxi que vá por Tenderloin:
a uma luz vermelha, um homem com um gorro,
fios de lã desenredando-se ao longo do rosto, bate no vidro;
e diz, Por favor.
No momento em que ouves o que ele diz
a luz muda, o táxi afasta-se
e tu não voltas atrás, sabendo contudo
que alguém acabou de te suplicar tal como tu suplicas.
Por favor: duas palavras tão breves
que tanto se podem perder no ar
como flutuarem - como penas que são - até chegarem a Deus,
batendo e batendo, e finalmente
caindo na terra como chuva,
como pepitas de gelo, embebendo um ramo negro,
recolhendo-se nos esgotos, infiltrando-se no solo,
e tu caminhas com este tempo todos os dias.

Ellery Akers

28 de janeiro de 2016

Bach numa estação de Metro

Caravaggio
Como experiência
o Washington Post
pediu a um violinista de formação clássica -
usando ganga, tênis
e um boné de basebol -
que se instalasse junto ao recipiente do lixo
na hora de ponta à entrada do Metro
e tocasse Bach
com um Stradivarius.
A Partita nº2 em Dó Menor
emergiu das colunas
como um oceano nasce das ondas
e, soando, revelou à estação
porque nos devemos dar ao trabalho
de viver.
Um milhar de pessoas
foi fluindo como uma corrente. Sete delas
pararam por um minuto (mais ou menos)
e trinta e dois dólares pousaram
no estojo aberto do violino.
Uma empregada de café impelida
para a porta aberta
sempre que estava livre
disse mais tarde que Bach
a pacificou,
e todas as crianças,
todas sem exceção,
imergindo na música
como se esta fosse água,
puseram-se a ouvi-la até que tiveram que ser
resgatadas pelos pais
que tinham que ir a outro lugar qualquer.

David Lee Garrison

27 de janeiro de 2016

Música

Nicolas Poussin - Concert of Cupids
Há nela uma fulgência milagrosa,
cujas facetas sempre me encantaram.
Foi a única a falar-me, corajosa,
quando os outros, medrosos, se afastaram.

Depois que se desviou o último olhar,
no túmulo ao meu lado ela cantava –
como a primeira chuva que o chão lava,
ou mil flores num campo a conversar.

Anna Akhmátova (1889-1966)
Tradução: Renato Suttana

Velho Motivo

Palma Vecchio - O beijo de Raquel e Jacob
SONETO de Jacob, pastor antigo,
—soneto de Rachel, serrana bela…
Oh quantas vezes o relembro e digo,
pensando em ti, como se foras ela!

O que eu servira, para viver contigo,
—tão doce, tão airosa e tão singela!
Assim, distante do teu rosto amigo,
em torturar-me a ausência se desvela!
E vou sofrendo a minha pena amarga,
—pena que não me deixa nem me larga,
bem mais cruel que a de Jacob pastor!

Rachel não era dele e sempre a via,
enquanto que eu não vejo, noite e dia
aquela que me tem por seu senhor!

António Sardinha (1888-1925)

26 de janeiro de 2016

Musa

Fritz Zuber-Buhler
Quando à noite eu espero a sua vinda,
numa balança a minha vida pende.
Que é a honra, a liberdade, a juventude?
Fumo que de um cachimbo se desprende.

Veio, jogando o manto para trás,
e uma atenção cordial me concedeu.
“Foste – eu lhe disse – quem ditou a Dante
as páginas do Inferno?” E ela: “Fui eu.”

Anna Akhmátova (1889-1966)
Tradução: Renato Suttana