13 de dezembro de 2017

A Imagem Divina

Gustave Doré
A Dó, Piedade, Paz e Amor,
Todos oram em sua aflição;
E a essas virtudes de valor
Retribuem com gratidão.

Pois Dó, Piedade, Paz e Amor
São Deus, nosso pai amado;
E Dó, Piedade, Paz e Amor
São o Homem, seu filho e cuidado.

E humano é o coração da Piedade,
O Dó se mostra em humana face,
O Amor é humana divindade
E a Paz, um humano disfarce.

Cada homem, de cada clima,
Que prece em desespero faz,
Reza à forma humano-divina:
Amor, Piedade, Dó e Paz.

E devem amar ao aspecto humano
Pagão, judeus e muçulmanos.
Onde há Amor, Dó e Piedade,
Também reside a Divindade.

William Blake (1757-1827)
Tradução: Gilberto Sorbini e Weimar de Carvalho

10 de dezembro de 2017

A Um Jovem Poeta

Salvador Dalí
Não escrevas um poema enquanto teu coração
arde. Deixa que a emoção arrefeça.
Depois, em silêncio, com ajuda da cabeça,
põe um tijolo sobre outro tijolo.
Tijolo? Tão frio o barro cozido...
Mas é dentro desse barro que acontecem as cópulas,
e as crianças choram pedindo leite.
Imagina um fruto amadurecido,
que pende de uma árvore: o vento o balança,
e o sol continua a aquecê-lo. Esta dança,
que não se vê,
é a poesia.

Armindo Trevisan

8 de dezembro de 2017

Centauro

Jean Baptiste Regnault
A moça de bicicleta
parece estar correndo
sobre um chão de nuvens.

A mecânica ardilosa
dos pedais multiplica
suas pernas de bronze.

O guidão lhe reúne
num só gesto redondo
quatro braços.

O selim trava com ela
um íntimo diálogo
de côncavos e convexos.

Em revide aos dois seios
em riste, o vento desfaz
os cabelos da moça

numa esteira de barco
– um barco chamado
Desejo onde, passageiros

de impossível viagem,
vão todos os olhos
das ruas por que passa.

José Paulo Paes (1926-1998)

6 de dezembro de 2017

Para o Livro de Literatura de Segundo Grau

Rick Beerhorst
Não leias odes, meu filho, lê os horários
(dos trens, dos ônibus, dos aviões):
são mais exatos. Abre os mapas náuticos
antes que seja tarde demais. Sê vigilante, não cantes.
Chegará o dia em que eles, de novo, pregarão listas
no portão e desenharão marcas no peito daqueles que dizem
não. Aprende a ir incógnito, aprende mais do que eu:
a mudar de bairro, de passaporte, de rosto.
Entende da pequena traição,
da salvação suja de todos os dias. Úteis
são as encíclicas para se fazer fogo,
e os manifestos: para a manteiga e sal
dos indefesos. É preciso raiva e paciência
para se soprar nos pulmões do poder
o fino pó mortal, moído
por aqueles, que aprenderam muito,
que são exatos, por ti.

Hans Magnus Enzensberger
Tradução: Kurt Scharf e Armindo Trevisan

4 de dezembro de 2017

O bonde do silêncio

Claude Monet
Já é noite e o bonde do silêncio
permanece intacto.

Nas ruas as pessoas observam os
pássaros a sobrevoarem as
correntezas.

E tudo permanece intacto.

Os amantes, os Deuses, as estátuas.

Só a poesia perambula.

Acaso os versos caminham ágeis e
desapercebidos.

E tudo permanece intacto.

Carlos Cardoso (1951-2000)

2 de dezembro de 2017

Confissão

Guido Reni
Não quero ser Deus por orgulho.
Eu tenho esta grande diferença de Satã.
Quero ser Deus por necessidade, por vocação.
Não me conformo nem com o espaço nem
com o tempo,
Nem com o limite de coisa alguma.
Tenho fome e sede de tudo,
Implacável,
Crescente,
Eterna,
– De mim que me desprezo e me acredito um nada.

Ismael Nery (1900-1934)

30 de novembro de 2017

Homem carregando coisa

Ferdinand Georg Waldmüller
O poema tem que resistir à inteligência
Até quase conseguir. Exemplo:

Vulto pardo em tarde de inverno resiste
À identidade. O que ele carrega resiste

Ao sentido mais premente. Aceite-os, pois,
Como secundários (partes semipercebidas

Do todo óbvio, partículas incertas
Do sólido certo, primário indubitável,

Coisas a flutuar como os cem primeiros flocos
Da nevasca que há que suportar a noite inteira,

De uma tormenta de coisas secundárias),
Horror de pensamentos súbito reais.

Temos que suportá-los a noite inteira, até
Que o claro óbvio se mostre, imóvel, no frio.

Wallace Stevens (1879-1955)
Tradução: Paulo Henriques Britto

28 de novembro de 2017

Poema da Procura

Georges Seurat
Em nenhuma esquina do teu bairro
Encontrarás o Domingo de tua infância
Povoado de pássaros e melodias.
Hoje, o céu é o lamento das aves de metal,
E os realejos se converteram
Em sereias portadoras de cantos funestos.
Inutilmente recordarás
A sombra antiga das mangueiras
E os crepúsculos tranquilos do mundo que perdeste.
Hoje, és o ser penetrado de ruídos
E em redor de tua angústia
Desfilam máquinas estranhas
E a multidão de rostos que não reconheces...
Além do teu corpo sepultado entre blocos de pedra,
Há um anjo da morte em cada esquina do universo...

Paulo Bomfim

26 de novembro de 2017

Estátua

Sir Lawrence Alma-Tadema
Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor, de frio escalpelo,
O meu olhar quebrei, a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo.

Segredo dessa alma e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.
E o meu ósculo ardente, alucinado,

Esfriou sobre o mármore correto
Desse entreaberto lábio gelado...
Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado,
Sereno como um pélago quieto.

Camilo Pessanha (1867-1926)

24 de novembro de 2017

Varina

Jorge Barradas
Ó Varina, passa,
passa tu primeiro…
que és a flor da raça,
a mais séria graça
do país inteiro!

Teu orgulho seja
sonora fanfarra,
zimbório igreja!
Que logo te veja
quem entra na Barra.

Lisboa, esquecida
que é porto-de-mar,
fica esclarecida
e reconhecida
se te vê passar.

Dá-lhe a tua graça
clássica e sadia.
Ó varina passa…
na noite da raça
teu pregão faz dia!

Vê que toda a gente
ao ver-te, sorri.
Não sabe o que sente,
mas fica contente
de olhar para ti.

E sobre o que pensa
quem te vê passar,
eterna, suspensa,
acena a imensa
presença do mar!

Carlos Queiroz (1909-1949)

22 de novembro de 2017

Cantam ao longe

Miho Hirano
Cantam ao longe. Anoitece.
Faz frio pensar na vida;
E a natureza parece
Dizer em voz comovida,
Que o homem não a merece.

Carlos Queiroz (1909-1949)

20 de novembro de 2017

Morte

Sir Frank Bernard Dicksee
Um bicho à morte ignora
ânsia e temor; contudo
um homem, quando é hora,
anseia e teme tudo;
morreu vezes sem conta
e ergueu-se redivivo.
Um grande homem confronta
gente homicida, altivo,
escarnecendo o corte
do alento. Convivera
com a morte a vida inteira:
o homem criou a morte.

William Butler Yeats (1865 -1939)
Tradução: Nelson Ascher

18 de novembro de 2017

Para a puta que levou meus poemas

Rembrandt
Alguns dizem que deveríamos evitar remorsos
particulares no
poema,
manter-nos abstratos, e há certa razão nisso,
mas jezus;
lá se vão doze poemas e eu não tenho cópias deles em
carbono e você está com
minhas
pinturas também, as melhores; é sufocante:
quer me destruir como fez com todos os outros?
por que não leva meu dinheiro? é o que normalmente
fazem com
os bêbados desacordados na esquina de quem batem
os bolsos das calças.
da próxima vez leve meu braço esquerdo ou cinquenta
contos
mas não meus poemas:
eu não sou Shakespeare
mas vai chegar um tempo em que simplesmente
não haverá mais nenhum, abstrato ou como quer que
seja;
sempre haverá dinheiro e putas e bêbados
até a última bomba cair,
mas como Deus disse,
cruzando as pernas,
sei muito bem onde coloquei um bocado de poetas
mas não muita
poesia.

Charles Bukowski (1920-1994)
Tradução: Pedro Gonzaga

16 de novembro de 2017

Voo

Gianni Strino
Somos duas águias
que revoam juntas,
por baixo dos céus,
por cima dos montes,
ao vento alongadas,
- que o sol revigora,
cega neve ilude,
e as nuvens perseguem
tênues e emaranhadas.

Nós somos como águias.
Porém quando a Morte
vencer a um de nós,
humano e humilhado,
- possa o outro segui-lo,
e acabar-se o voo!
Fique extinto o fogo.
Seja o livro fechado.

Sara Teasdale (1884-1933)
Tradução: Cecilia Meirelles

14 de novembro de 2017

Adolescência

Renoir
O que havia nas horas que passavam
e ardia, ardia, no ar, imensamente;
o que havia (era tanto!) e já formava
um ser que se buscava e se não via,

era um mas, ou um talvez, era a incerteza
do que, sendo, não sendo, se furtava
à vista que, no entanto, a si se dava
o que, essência de sonho, já floria.

Eram germes de mitos que nasciam,
o amor sorrindo, absurdo, à eternidade
de um momento, não mais, talvez nem isso.

Era a voz das distâncias sem limites,
a alma boiando, fluída, sobre o mundo,
era o medo da morte, sempre a morte.

Emílio Moura (1902-1971)

12 de novembro de 2017

Contranarciso

Ford Maddox Brown
Em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós.

Paulo Leminski (1944-1989)

10 de novembro de 2017

As Atrizes

John Singer Sargent
Naturalmente
ela sorria
Mas não me dava trela
Trocava a roupa
Na minha frente
E ia bailar sem mais aquela
Escolhia qualquer um
Lançava olhares
Debaixo do meu nariz
Dançava colada
Em novos pares
Com um pé atrás
Com um pé a fim

Surgiram outras
Naturalmente
Sem nem olhar a minha cara
Tomavam banho
Na minha frente
Para sair com outro cara
Porém nunca me importei
Com tais amantes
Os meus olhos infantis
Só cuidavam delas
Corpos errantes
Peitinhos assaz
Bundinhas assim

Com tantos filmes
Na minha mente
É natural que toda atriz
Presentemente represente
Muito para mim.

Chico Buarque de Hollanda - Tom Jobim

8 de novembro de 2017

O Farrista

Luis Ricardo Falero
Quando o almirante Cabral
Pôs as patas no Brasil
O anjo da guarda dos índios
Estava passeando em Paris.
Quando ele voltou de viagem
O holandês já está aqui.
O anjo respira alegre:
"Não faz mal, isto é boa gente,
Vou arejar outra vez."
10 O anjo transpôs a barra,
Diz adeus a Pernambuco,
Faz barulho, vuco-vuco,
Tal e qual o zepelim
Mas deu um vento no anjo,
Ele perdeu a memória...
E não voltou nunca mais.

Murilo Mendes (1901-1975)

6 de novembro de 2017

Sol e Amor

Adrienne Stein
Leves e alvas à plaga ocidental,
As nuvens vão: seja por onde for,
Sorri o céu, como o humano labor
Saúda o sol, benigno, triunfal.

Em mil flechas desponta a catedral
E santos de ouro e rosado fulgor,
Radia então a hosana e há o rumor
Dos falcões, este alívolo coral.

Assim, depois que o Amor – riso de calma –
Nuvens rasgou que me agravaram tanto,
Pode exsurgir à luz do sol de minha alma.

E lhe sorri multiplicado o santo
Ideal da existência: é uma harmonia
O pensamento: e o sentimento do canto.

Giosuè Carducci (1835-1907)
Tradução: Olegário Mariano

4 de novembro de 2017

A Lorelai

Rob Gonsalves
Eu Não sei como explicar
Porque ando tão triste à beça;
Uma história de ninar
Não me sai mais da cabeça.

Dia ameno, a noite cai
Sobre o Reno devagar;
Na montanha, a luz se esvai
Faiscando pelo ar.

Uma chuva de centelhas
Repentinas alumbra o céu;
A mais linda das donzelas
No penhasco apareceu.

Com escova de ouro escova
Seus cabelos incendidos;
E as canções que cantarola
Arrebatam os sentidos.

Uma dor logo fulmina
O barqueiro num batel;
Ele olha para cima:
Os escolhos esqueceu.

No final, creio que o rio
Engoliu o batel e - ai! –
O barqueiro que caiu
No canto da Lorelai.

Heinrich Heine (1797-1856)
Tradução: André Vallias

2 de novembro de 2017

O esqueleto lavrador – XCIV

Adolf von Menzel
Nas lâminas de anatomia
Amontoadas no cais poeirento
Onde muito livro ao relento
Dorme como múmia sombria,

Desenhos aos quais a grandeza
E o cabedal de um velho artista,
Conquanto a dor no tema existia,
Comunicaram a Beleza,

Veem-se, o que faz mais completos
Esses fantásticos horrores,
A escavar como lavradores
Escalpelados e esqueletos.

Charles Baudelaire (1821-1867)
Tradução: Ivan Junqueira

31 de outubro de 2017

O amanhecer das criaturas

Vladimir Volegov
O dia forma-se
de quase nada:
um seio nu
por entre pálpebras,

o sol que raia
e a luz acesa
no arranha-céu
que a aurora lava.

A mão incerta
deixa na rósea
carne dormida
o gesto equívoco.

Tudo é lilás
na luminosa
e vã partilha.

No dia imenso
nascem tesouros:
curvos, redondos.

O pão à porta,
depois o leite,
e o erguer dos corpos.

Lêdo Ivo

29 de outubro de 2017

Ode IV.1

Cláudio Dantas
De novo moves, Vênus, guerras
há tanto interrompidas? Poupa-me, rogo-te, rogo-te.
Já não sou quem era, no reinado
da boa Cínara. Deixa, cruel mãe

dos doces Desejos,
de vergar com suaves ordens um homem empedernido
que já quase cinco décadas viveu.
Vai, para onde te reclamam as doces preces dos jovens.

Mais a tempo te irás divertir
para casa de Paulo Máximo,
nos teus purpúreos cisnes voando,
se inflamar procuras um coração que te convenha.

E depois de assaz se ter rido
ao triunfar sobre os sumptuosos presentes do rival,
perto dos lagos albanos
uma estátua de mármore colocará sob um telhado de cedro.

Aí, ao nariz te há de chegar
o perfume de muitos incensos, deleitar-te-ás
com as melodias conjuntas da lira,
da tíbia de Berecinto, e também da siringe.

Ai, duas vezes por dia,
rapazes com gentis virgens, louvando tua divindade,
três vezes no chão hão de bater
com o cândido pé, como é costume dos Sálios.

Quanto a mim, nem mulheres,
o nem rapazes, nem a crédula esperança num amor recíproco
me agradam, nem as ébrias rixas,
nem cingir a testa com frescas flores.

Mas então por que, ah, Ligurino,
porque escorre por minha face rara lágrima?
Por que, a meio de uma palavra,
cai minha eloquente língua no indecoroso silêncio?

Em noturnos sonhos
ora te tenho cativo, ora a ti voando te sigo
através do campo de Marte,
a ti, cruel, através das volúveis águas.

Quinto Horácio Flaco (65 - 8 a.C.)
Tradução: Pedro Braga Falcão

27 de outubro de 2017

O Tolo e o Sábio

Catrin Welz-Stein
O sábio que há em você
não sabe o que sabe
o tolo que não se vê.

Sabe que não se vê
o tolo que não sabe
o que há de sábio em você.

Mas do tolo que há em você
não sabe o sábio que você vê.

Mário Chamie (1933-2011)