2 de março de 2015

A Alvorada do Amor

Peter Paul Rubens
Um horror grande e mudo, um silêncio profundo
No dia do Pecado amortalhava o mundo.
E Adão, vendo fechar-se a porta do Éden, vendo
Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,
Disse:

"Chega-te a mim! entra no meu amor,
E à minha carne entrega a tua carne em flor!
Preme contra o meu peito o teu seio agitado,
E aprende a amar o Amor, renovando o pecado!
Abençoou o teu crime, acolho o teu desgosto,
Bebo-te, de uma em uma, as lágrimas do rosto!

Vê! tudo nos repele! a toda a criação
Sacode o mesmo horror e a mesma indignação...
A cólera de Deus torce as árvores, cresta
Como um tufão de fogo o seio da floresta,
Abre a terra em vulcões, encrespa a água dos rios;
As estrelas estão cheias de calafrios;
Ruge soturno o mar; turva-se hediondo o céu...

Vamos! que importa Deus? Desata, como um véu,
Sobre a tua nudez a cabeleira! Vamos!
Arda em chamas o chão; rasguem-te a pele os ramos;
Morda-te o corpo o sol; injuriem-te os ninhos;
Surjam feras a uivar de todos os caminhos;
E, vendo-te a sangrar das urzes através,
Se emaranhem no chão as serpes aos teus pés...
Que importa? o Amor, botão apenas entreaberto,
Ilumina o degredo e perfuma o deserto!
Amo-te! sou feliz! porque, do Éden perdido,
Levo tudo, levando o teu corpo querido!

Pode, em redor de ti, tudo se aniquilar:
- Tudo renascerá cantando ao teu olhar,
Tudo, mares e céus, árvores e montanhas,
Porque a Vida perpétua arde em tuas entranhas!
Rosas te brotarão da boca, se cantares!
Rios te correrão dos olhos, se chorares!
E se, em torno ao teu corpo encantador e nu,
Tudo morrer, que importa? A Natureza és tu,
Agora que és mulher, agora que pecaste!

Ah! bendito o momento em que me revelaste
O amor com o teu pecado, e a vida com o teu crime!
Porque, livre de Deus, redimido e sublime,
Homem fico, na terra, à luz dos olhos teus,
- Terra, melhor que o céu! homem, maior que Deus!"

Olavo Bilac (1865-1918)

1 de março de 2015

Amigo

Candido Portinari
Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

Alexandre O'Neill (1924-1986)

A (de)formação do homem

Egon Schiele
Às vezes imagino um mapa-múndi aberto e você estendido transversalmente sobre ele. Para mim, então, é como se entrassem em consideração apenas as regiões que você não cobre ou que não estão ao seu alcance. De acordo com a imagem que tenho do seu tamanho essas regiões não são muitas nem muito consoladoras e o casamento não está entre elas.
Você me estimulava, por exemplo, quando eu batia continência e marchava direito, no entanto eu não era um futuro soldado; ou me estimulava quando eu comia vigorosamente e além disso, conseguia beber cerveja; ou quando sabia repetir canções que não compreendia, ou arremedar suas expressões prediletas; nada disso, entretanto, fazia parte do meu "futuro".
Franz Kafka (1883-1924)

28 de fevereiro de 2015

O Luto na Andaluzia

Koji Yamashita - Sunflower Andalucia (Spain)
Se na Andaluzia
branca é a cor
dos trajes de luto
- é justa coisa.

Não me vês, a mim,
vestido de cabelos brancos,
porque de luto estou
pela juventude?

Abu l-Hasan al-Husri (990-1077)
Tradução: Emilio Garcia Gómez (do árabe para o espanhol)
Tradução: Fernando Couto (do espanhol para o português)

Abu l-Hasan al-Husri foi um poeta Sufi e estudioso no século 11, também conhecido como "o cego", durante a ocupação muçulmana na península ibérica. Ele contribuiu de forma significativa para a difusão do Islã.
Dele se conservou apenas este poema.

Os Bois

Georgina de Albuquerque
É dolorosa a angélica atitude
Dos grandes bois lentos a trabalhar…
Sinto neles a força da saúde
A glória de viver para ajudar.

Da sua laboriosa juventude
Nada têm, pobres diabos a esperar…
Quem sabe? A vida pode ser que mude…
E eles se põem a olhar o campo, a olhar…

Tempo de safra. Brilham canaviais…
Gemem os carros e o rumor se irmana
À alma dos bois que geme muito mais.

Pacientemente seguem, dois a dois…
Há uma filosofia muito humana
No mugido e no olhar, tristes, dos bois…

Olegário Mariano (1889-1958)

27 de fevereiro de 2015

Soneto

Paul Gauguin
Rudes e breves as palavras pesam
mais do que as lajes ou a vida, tanto,
que levantar a torre do meu canto
é recriar o mundo pedra a pedra;
mina obscura e insondável, quis
acender-te o granito das estrelas
e nestes versos repetir com elas
o milagre das velhas pederneiras;
mas as pedras do fogo transformei-as
nas lousas cegas, áridas, da morte,
o dicionário que me coube em sorte
folheei-o ao rumor do sofrimento:
ó palavras de ferro, ainda sonho
dar-vos a leve têmpera do vento.

Ruy Belo (1933-1978)

O Vestido

Tamayo Rufino
No armário do meu quarto escondo de tempo e traça
meu vestido estampado em fundo preto.
É de seda macia desenhada em campânulas vermelhas
à ponta de longas hastes delicadas.
Eu o quis com paixão e o vesti como um rito,
meu vestido de amante.
Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido.
É só tocá-lo, e volatiliza-se a memória guardada:
eu estou no cinema e deixo que segurem minha mão.
De tempo e traça meu vestido me guarda.

Adélia Prado

26 de fevereiro de 2015

Não voltes atrás

Iluminura Medieval
Se os portais do meu coração
Estiverem sempre fechados,
Rebenta-os e entra na minha alma,
Senhor, não voltes para trás.

Se um dia destes as cordas da minha harpa
Não ressoarem com o teu nome,
Na tua espera digna de piedade,
Senhor, não voltes para trás.

Se quando me chamares
A sonolência do meu sono não passar,
Bate-me e acorda-me com o teu trovão,
Senhor, não voltes para trás.

Se um dia destes no teu trono
Eu colocar alguém sem pensamentos,
Meu eterno Rei,
Não voltes para trás!

Rabindranath Tagore (1861-1941)
Tradução: José Agostinho Baptista

Antes de nós

Caspar David Friedrich
Antes de nós nos mesmos arvoredos
Passou o vento, quando havia vento,
E as folhas não falavam
De outro modo do que hoje.
Passamos e agitamo-nos debalde.
Não fazemos mais ruído no que existe
Do que as folhas das árvores
Ou os passos do vento
Tentemos pois com abandono assíduo
Entregar nosso esforço à Natureza
E não querer mais vida
Que a das árvores verdes.
Inutilmente parecemos grandes.
Salvo nós nada pelo mundo fora
Nos saúda a grandeza
Nem sem querer nos serve.
Se aqui, à beira-mar, o meu indício
Na areia o mar com ondas três o paga,
Que fará na alta praia
Em que o mar é o Tempo?

Ricardo Reis
Fernando Pessoa (1888-1935)

25 de fevereiro de 2015

Aquilo que agente lembra

Ivan Konstantinovich Aivazovsky
Aquilo que a gente lembra
Sem o querer lembrar,
E inerte se desmembra
Como um fumo no ar,
É a música que a alma tem,
É o perfume que vem,
Vago, inútil, trazido
Por uma brisa de agrado,
Do fundo do que é esquecido,
Dos jardins do passado

Aquilo que a gente sonha
Sem saber de sonhar,
Aquela boca risonha
Que nunca nos quis beijar,
Aquela vaga ironia

Que uns olhos tiveram um dia
Para a nossa emoção —
Tudo isso nos dá o agrado,
Flores que flores são
Nos jardins do passado

Não sei o que fiz da vida,
Nem o quero saber
Se a tenho por perdida,
Sei eu o que é perder?
Mas tudo é música se há
Alma onde a alma está,
E há um vago, suave, sono,
Um sonho morno de agrado,
Quando regresso, dono,
Aos jardins do passado.

Fernando Pessoa (1888-1935)

Os Sonhos

Gustav Klimt
“Os sonhos algumas vezes podem revelar certas situações muito antes de elas realmente acontecerem. Não é necessariamente um milagre ou alguma forma de previsão. Muitas crises em nossa vida tem uma longa história inconsciente. Caminhamos ao seu encontro passo a passo, desapercebidos dos perigos que se acumulam. Mas aquilo que conscientemente deixamos de ver é, quase sempre, captado pelo nosso inconsciente, que pode transmitir a informação através dos sonhos”.
Carl Gustav Jung (1875-1961)
O homem e seus Símbolos

24 de fevereiro de 2015

Querer é Poder

Naiden Stanchev
“O lema "querer é poder" é a superstição do homem moderno. Para sustentar essa crença, no entanto, o homem contemporâneo paga o preço de uma incrível falta de introspecção. Não consegue perceber que, apesar de toda sua racionalização e toda sua eficiência, continua possuído por "forças" fora do seu controle. Seus deuses e demônios absolutamente não desapareceram; tem, apenas, novos nomes. E o conservam em contato íntimo com a inquietude, com apreensões vagas, com complicações psicológicas, com uma insaciável necessidade de pílulas, álcool, fumo, alimento e, acima de tudo, com uma enorme coleção de neuroses”.
Carl Gustav Jung (1875-1961)
O homem e seus Símbolos

O prazer do difícil

Francesco Melzi
O prazer do difícil tem secado
A seiva em minhas veias. A alegria
Espontânea se foi. O fogo esfria
No coração. Algo mantém cerceado
Meu potro, como se o divino passo
Já não lembrasse o Olimpo, a asa, o espaço,
Sob o chicote, trêmulo, prostrado,
E carregasse pedras. Diabos levem
As peças de sucesso que se escrevem
Com cinquenta montagens e cenários,
O mundo de patifes e de otários,
E a guerra cotidiana com seu gado,
Afazer de teatro, afã de gente.
Juro que antes que a aurora se apresente
Eu descubro a cancela e abro o cadeado.

William Butler Yeats (1865-1939)
Tradução: Augusto de Campos.

23 de fevereiro de 2015

Deixei a Acrópole, em Atenas

Kenyon Cox
Deixei a Acrópole, em Atenas,
como a encontrei.
Pisei suas pedras
olhei as sobrantes figuras derruídas
e agora parto para meu distante país.
Não o fizeram assim os persas,
os turcos,
e aquele inglês avaro
que levou seus mármores.

No topo da montanha, a Acrópole resiste.

No café da manhã, a olhava.
No entardecer, a olhava.
À noite, iluminada, a olhava.
Certa madrugada levantei-me
para (há quatro mil anos)
contemplá-la.

Eu
— exposto a pilhagens e desmontes,
admirei sua permanência.

Um dia estarei morto.
Ela sobreviverá aos bárbaros
e aos que, como eu,
depositaram
aqui
o seu pasmo.

Affonso Romano de Sant'Anna

Sonetos de Orfeu - XIX

Friedrich Wilhelm Schadow
Ainda que se mude rápido o mundo
como figuras de nuvens,
todo o perfeito tomba
de volta ao primordial.

Por sobre a mudança e a marcha,
mais longe e mais livremente,
dura ainda o teu pré-canto,
deus com a lira.
Os sofrimentos não são reconhecidos,
o amor não é aprendido,
e o que na morte nos afasta

não é desvelado.
Unicamente a canção por sobre o campo
santifica e celebra.

Rainer Maria Rilke (1875-1926)
Tradução: José Miranda Justo.

22 de fevereiro de 2015

Gozemos a vida, Lésbia

Sir Edward John Poynter - Lesbia e seu pássaro
Gozemos a vida, Lésbia, fazendo amor,
desprezando o falatório dos velhos puritanos.
A luz do sol pode morrer e renascer
mas a nós, quando de vez se nos apaga a breve luz da vida,
resta-nos dormir toda uma noite sem fim.
Beija-me mil vezes, mais cem;
outras mil, outras cem.
Depois, quando tivermos ajuntado muitos milhares,
vamos baralhá-los, perdendo-lhes a conta,
para que nenhum invejoso, incapaz de contar beijos tantos,
possa mau-olhado nos lançar.

Caio Valério Catulo (84–54 a.C.)

Para um amigo cujo trabalho deu em nada

Anthony Frederick Augustus Sandys
Agora sabe-se toda a verdade,
Sê reservado e aceita a derrota
De qualquer garganta sem vergonha,
Pois como podes tu competir,
Sendo educado na honra, com alguém
Que, se se provasse que mente,
Não se sentiria envergonhado nem aos seus
Olhos nem aos dos vizinhos?
Educado para uma tarefa mais dura
Do que o Triunfo, afasta-te
E como uma corda sorridente
Tocada por dedos loucos
No meio de um lugar de pedra,
Sê misterioso e exulta,
Porque acima de tudo
Isso é o mais difícil.

William Butler Yeats (1865-1939)
Tradução: Maria de Lourdes Guimarães e Laureano Silveira.

20 de fevereiro de 2015

Dia de Anos

Jan Gerritsz van Bronchrorst
Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse…
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado…
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz, o mesmo? Coitado!

Não faça tal porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa; que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua
E fá-los queira ou não queira!

João de Deus (1830–1896)

Tivesse eu sabido

Emile Bernard
Tivesse eu sabido, quando a vida era um vento tépido e feliz,
Brando e ruidoso na aurora e na névoa brilhante do orvalho,
Que havia de chegar o tempo em que, suspirando os corações diriam:
“Tivesse eu sabido…”

Nem sequer as rosas rindo ao beijarem-se,
Nem, ao sol, o mais encantador riso ondulante do mar,
Teriam vindo fascinar a minha alma para que neles reparasse.

Agora o vento é como uma alma desterrada a rezar inutilmente
As preces que não conseguimos ouvir se o coração lhes resiste,
Agora que a minha própria alma, à deriva e perdida como o vento, suspira:
“Tivesse eu sabido…”

A. C. Swinburne (1837-1909)
Tradução: Maria de Lourdes Guimarães

19 de fevereiro de 2015

Poesia

Louis-Jean-François Lagrenée
Existe em nós
um sentido especial para a poesia,
uma disposição poética.
A poesia é absolutamente pessoal,
e por isso indefinível.
Quem não souber nem sentir
de forma imediata
o que é a poesia,
nunca poderá aprendê-lo.
Poesia é poesia.
Diferente, como a noite do dia,
da arte da fala e da palavra.

Novalis (1772-1801)
Tradução: João Barrento

Os Sonetos a Nize do Abade de Jazente

Jean Frederic Schall
Eu como, eu bebo, eu durmo, e sem receio
Do que há de vir a ser, a vida passo,
Ora de Nize no gentil regaço,
Ora das Musas no sonoro enleio.

Às vezes pesco, às vezes jogo, ou leio,
E torres vãs também no vento faço;
Depois me vou meter naquele espaço,
Onde Descartes tinha o seu passeio.

De lá mil orbes vejo, e de improviso
Soltando ao pensamento as vagas velas,
Turbilhões de cristal sem medo piso.

E pondo-me por cima das estrelas,
Descubro a terra em baixo, e me dá riso
Contemplando do mundo bagatelas.

Paulino Cabral de Vasconcelos (1719-1789)

18 de fevereiro de 2015

A Cíntia

Auguste Jean Baptiste Vinchon - Propertius and Cynthia
Oh, que feliz me sinto! Ó noite assinalável
com uma pedra branca! E tu, pequena cama,
pelo prazer que me deste, eis-te santificada…
Que murmúrios, à luz duma velada lâmpada!
E que luta, depois com a luz apagada!
Tão breve ao meu ardor a túnica interpunha,
como, de seios nus, comigo enfim lutava!
Se me via a dormir, logo os lábios depunha
em meus olhos, dizendo: “Indolente, assim jazes?…”
E os braços de nós dois renovavam abraços;
e meus beijos sem fim detinham-se em teus lábios.

Sextus Aurelius Propertius (43 a.C. - 17)
Tradução: David Mourão-Ferreira

Os Donos do Poder

Spyros Papaloukas
“O estamento, cada vez mais de caráter burocrático, filho legitimo do Estado patrimonial, ampara a atividade que lhe fornece os ingressos, com os quais alimenta sua nobreza e seu ócio de ostentação, auxilia o sócio de suas empresas, estabilizando a economia, em favor do direito de dirigi-la, de forma direta e intima. O encadeamento das circunstâncias históricas, que parte do patrimonialismo e alcança o estamento, fecha-se sobre si mesmo, com a tutela do comércio de transito, fonte do tesouro régio, do patrimônio do rei, fonte das rendas da nova aristocracia, erguida sobre a revolução do Mestre de Avis, engrandecida na pirataria e na guerra que incendeiam os oceanos Índico e Atlântico.”
Raimundo Faoro (1925-2003)

17 de fevereiro de 2015

Montanhas Minhas

Gustav klimt - Schubert at the Piano
Em montanhas me criei,
mais de três dúzias se erguiam.
Parece que nunca, nunca,
embora escute os meus passos,
as perdi, nem quando é dia,
nem quando é noite estrelada,
e embora veja nas fontes
a cabeleira nevada,
não fugi nem me deixaram
como filha mal lembrada.

E embora sempre me chamem
uma ausente e renegada,
possuí-as e ainda as tenho,
persegue-me o seu olhar
ao longo da minha estrada.


Gabriela Mistral (1889-1957)

Sorriso Interior

Pierre-Auguste Renoir
O ser que é ser e que jamais vacila
Nas guerras imortais entra sem susto,
Leva consigo este brasão augusto
Do grande amor, da grande fé tranquila.

Os abismos carnais da triste argila
Ele os vence sem ânsias e sem susto...
Fica sereno, num sorriso justo,
Enquanto tudo em derredor oscila.

Ondas interiores de grandeza
Dão-lhe esta glória em frente à Natureza,
Esse esplendor, todo esse largo eflúvio.

O ser que é ser transforma tudo em flores
E para ironizar as próprias dores
Canta por entre as águas do Dilúvio.

Cruz e Sousa (1861-1898)

16 de fevereiro de 2015

Noite

Iluminura
“A mão do amor vestiu-nos,
durante a noite, com uma túnica de abraços
que só a mão da aurora
veio por fim rasgar”.

Ibn Jafäya (1058-1138)
Tradução: David Mourão-Ferreira