2 de julho de 2016

Doce e Suave Melodia

Michelangelo
“Duas pessoas com o mesmo grau de paz
não precisam falar da melodia que define as suas horas.
Essa melodia é o que elas têm de comum entre si e por si.
Existe entre elas algo como um altar ardente,
e elas aproximam-se da chama sagrada respeitosamente
com as suas raras sílabas”.

Rainer Maria Rilke (1875-1926)

Sobre o Aborto

Mariana Ruiz Johnson
Tendo ferido temerária o ventre grávido,
fraca Corina jaz: a vida em risco.
Porque em segredo o feito executou, é digna
da minha ira, mas esta cede ao medo.
Porém de mim engravidou, ou o penso eu:
tomo às vezes por certo o que é possível.
Isis, que o Paretônio e os campos do Canopo,
Mênfis e a rica em palmas Faro habitas,
onde o célere Nilo por amplos canais
desce e por sete portas chega ao mar,
por teus sistros suplico e pelo horrendo Anúbis,
(assim teus ritos ame o pio Osíris,
deslize entre as ofertas a serpente lenta,
se ajunte à procissão cornudo Ápis):
volta a mim a tua face e poupa, em uma, duas,
pois dás a ela vida, e ela a mim.
Com frequência ela esteve devota nos dias
certos, onde os gauleses tingem louros.
E tu, compadecida por meninas grávidas,
cujos corpos latente fardo estica,
sê benigna e atende a minha prece, Ilitia,
ela é digna de que lhe ordenes graças.
Darei eu mesmo incenso aos fumosos altares
e levarei ofertas aos teus pés,
“Nasão” inscrito “pela cura de Corina”.
Dá hoje ocasião para estes votos,
mas se entre tantos medos posso aconselhar-te,
te baste ter lutado essa batalha.

Ovídio (43 a.C.-17)
Tradução: Guilherme Duque

1 de julho de 2016

O Sentido da Vida

François Fressinier
Quando falham todas as seguranças,
quando todos os apoios humanos foram derrubados
e desapareceram os atavios e as vestes,
o homem, desnudo e livre, quase contrafeito,
encontra-se nas mãos de Deus.
Um homem desnudo é um homem entregue,
como essas aves desplumadas que se sentem
exultantes nas mãos cálidas do Pai.

Quando não se tem nada, Deus transforma-se em tudo.

Ignacio Larrañaga (1928-2013)

Traições

A traição, em seu sentido mais amplo, não se limita obviamente à infidelidade entre casais, seja ela anunciada ou repentina, virtual ou real, consentida ou desconhecida. A traição pode ser também de ordem ideológica, difamatória, familiar, profissional ou até mesmo em relação aos nossos próprios ideais, seja qual for o tipo de traição a deslealdade é sempre amarga e imperdoável.
Na literatura, a abordagem mais constante e, aparentemente, mais difícil de superar é a infidelidade conjugal. A lista abaixo é uma amostra do que já se escreveu sobre este tema em ordem cronológica.
20 Traições Famosas da Literatura.
Ordem
Obra
Autor
1
Otelo William Shakespeare
2
As Relações Perigosas Choderlos De Laclos
3
Madame Bovary Gustave Flaubert
4
Ana Karenina Leon Tolstói
5
O Primo Basílio Eça de Queirós
6
Memórias Póstumas de Brás Cubas Machado de Assis
7
Dom Casmurro Machado de Assis
8
O Amante de Lady Chatterley D. H. Lawrence
9
Voragem Junichiro Tanizaki
10
Diários Íntimos Anaïs Nin
11
Trópico de Câncer Henry Miller
12
São Bernardo Graciliano Ramos
13
Lolita Vladimir Nabokov
14
Perdoa-me por me traíres Nelson Rodrigues
15
Gabriela, Cravo e Canela Jorge Amado
16
Bonitinha, mas Ordinária Nelson Rodrigues
17
Pantaleão e as Visitadoras Mario Vargas Llosa
18
Hollywood Charles Bukowski
19
Trilogia Suja de Havana Pedro Juan Gutiérrez
20
Equador Miguel de Sousa Tavares

30 de junho de 2016

Personagens Femininas

20 Personagens Femininas da Literatura Mundial de várias épocas.
Poul S. Christiansen - Dante and Beatrice in Paradise
Ordem
Personagem
Autor
Obra
1
Penélope Homero Odisséia
2
Beatrice Portinari Dante Alighieri A Divina Comédia
3
Julieta Capuleto William Shakespeare Romeu e Julieta
4
Dulcinea del Toboso Miguel de Cervantes Dom Quixote
5
Marguerite Gautier Alexandre Dumas Filho Dama das Camélias
6
Catherine Earnshaw Emily Brontë Morro Ventos Uivantes
7
Annabel Lee Edgar Allan Poe Manuscrito
8
Ema Bovary Gustave Flaubert Madame Bovary
9
Nastácia Filíppovna Fiódor Dostoiévski O Idiota
10
Ana Karenina Leon Tolstói Ana Karenina
11
Capitu Machado de Assis Dom Casmurro
12
Clarissa Dalloway Virginia Woolf Mrs. Dalloway
13
Mrs. Ramsey Virginia Woolf Rumo ao Farol
14
Mitsuko Tokumitsu Junichiro Tanizaki Voragem
15
Constance Reid D H Lawrence Amante Lady Chatterley
16
Lolita Vladimir Nabokov Lolita
17
Úrsula Iguarán Gabriel Garcia Márquez Cem Anos de Solidão
18
Blimunda José Saramago Memorial do Convento
19
Mulher do Médico José Saramago Ensaio Sobre a Cegueira
20
Briony Tallis Ian McEwan Reparação

Defesa dos Lobos contra os Cordeiros

Felix Nussbaum
Querem que o abutre coma miosótis?
O que exigem do chacal,
do lobo, que mude de pele? Querem
que ele mesmo extraia seus dentes?
O que é que não apreciam
nos comissários políticos e nos papas,
por que olham, feito burros,
o vídeo mentiroso?

Quem costura a faixa de sangue
nas calças do general? Quem
trincha, diante do agiota, o capão?
Quem pendura orgulhoso, a cruz de lata
sobre o umbigo que ronca de fome? Quem
aceita a propina, a moeda de prata,
o centavo para calar-se? Há
muitos roubados, poucos ladrões; quem
os aplaude, quem
lhes põe insígnias no peito, quem
é sequioso de mentiras?

Olhem-se no espelho: covardes,
temendo a fadiga da verdade,
sem vontade de aprender, entregando
o pensar aos lobos
um anel no nariz como adorno preferido
nenhuma ilusão burra o bastante, nenhum consolo
barato o suficiente, cada chantagem
ainda é clemente demais para vocês.

Ó cordeiros, irmãs
são as gralhas comparadas a vocês:
vocês se arrancam os olhos uns aos outros.
Fraternidade reina
entre os lobos:
andam em alcateias.

Louvados sejam os salteadores: vocês
convidam para o estupro
deitando-se no leito preguiçoso
da obediência. Mesmo gemendo
vocês mentem. Querem
ser devorados. Vocês
não mudam o mundo.

Hans Magnus Enzensberger
Tradução: José Marcos Mariani de Macedo

Os Desaparecidos

Felix Nussbaum
A terra não os engoliu, foi o ar?
Como a areia eles são numerosos, mas não em areia
se tornaram, sim em nada, em bandos
estão esquecidos. Aos montes e de mãos dadas,
como os minutos, mais do que nós,
mas sem lembrança. Não inventariados,
impossíveis de ler no pó, sim desaparecidos
estão os seus nomes, colheres e solas.

Não nos dão pena. Ninguém se pode
lembrar deles: nasceram,
fugiram, morreram? Ninguém os achou
menos. Sem falha
é o mundo, mas unido
por aquilo que ele não abriga,
pelos desaparecidos. Estão por toda a parte.

Sem os ausentes nada existiria.
Sem os fugitivos nada era firme.
Sem os imensuráveis nada mensurável.
Sem os esquecidos nada seguro.

Os desaparecidos são justos.
Assim nos desvanecemos também.

Hans Magnus Enzensberger
Tradução: José Marcos Mariani de Macedo

29 de junho de 2016

O Oleiro

Sir Lawrence Alma-Tadema
Há em todo o teu corpo
uma taça ou doçura a mim destinada.

Quando levanto a mão
encontro em cada lugar uma pomba
que andava à minha procura, como
se te houvessem, meu amor, feito de argila
para as minhas mãos de oleiro.

Os teus joelhos, os teus seios,
a tua cintura,
faltam em mim como no côncavo
duma terra sedenta
a que retiraram
uma forma,
e, juntos,
estamos completos como um só rio,
como um só areal.

Pablo Neruda (1904-1973)

Os mais velhos

Jacques-Louis David
São de pedra, os mais velhos. Ermos, sós.
O gesto hirto. As mãos perdidas
Da remota brandura, como pranto
Vidrado e recolhido, água rasa:
Nada o mundo vos deu: (sois vós, e basta).
Inocente da morte que aceitais,
Recolho dessas mãos de cardos secos
A herança dos nardos imortais.

José Saramago (1922-2010)

28 de junho de 2016

Só é meu o país que trago dentro da alma

Marc Chagall – Eu e a Aldeia
Só é meu
O país que trago dentro da alma.
Entro nele sem passaporte
Como em minha casa.
Ele vê a minha tristeza
E a minha solidão.
Me acalanta.
Me cobre com uma pedra perfumada.

Dentro de mim florescem jardins.
Minhas flores são inventadas.
As ruas me pertencem
Mas não há casas nas ruas.
As casas foram destruídas desde a minha infância.
Os seus habitantes vagueiam no espaço
À procura de um lar.
Instalam-se em minha alma.

Eis porque sorrio
Quando mal brilha o meu sol.
Ou choro Como uma chuva leve na noite.

Houve tempo em que eu tinha duas cabeças.
Houve tempo em que essas duas caras
Se cobriam de um orvalho amoroso.
Se fundiam como o perfume de uma rosa.

Hoje em dia me parece
Que até quando recuo
Estou avançando para uma alta portada
Atrás da qual se estendem muralhas
Onde dormem trovões extintos
E relâmpagos partidos.

Só é meu
O mundo que trago dentro da alma.

Marc Chagall (1887-1985)
Tradução: Manuel Bandeira

Anoitecer

Cornelius Krieghoff
Homem, cantava eu como um pássaro
ao amanhecer. Em plena unanimidade
de um mundo só.
Como, porém, viver num mundo onde todas as coisas
tivessem um só nome?

Então, inventei as palavras.
E as palavras pousaram gorjeando sobre o rosto
dos objetos.

A realidade, assim, ficou com tantos rostos
quantas são as palavras.

E quando eu queria exprimir a tristeza e a alegria
as palavras pousavam em mim, obedientes
ao meu menor aceno lírico.

Agora devo ficar mudo.
Só sou sincero quando estou em silêncio.

Pois, só quando estou em silêncio
elas pousam em mim - as palavras -
como um bando de pássaros numa árvore
ao anoitecer.

Cassiano Ricardo (1895-1974)

27 de junho de 2016

Aprendemos o Todo do Amor

John Atkinson Grimshaw
Aprendemos o Todo do Amor —
O Alfabeto — as Palavras —
Um Capítulo — depois o Livro imenso —
E — a Revelação — então fechou-se —

Mas uma Ignorância se fitou
No Olhar de Cada um de Nós —
Mais divina do que é a da Infância —
E cada um para o outro, uma Criança —

Tentando definir e explicar
O que Nenhum de nós — compreendia —
Ah, que é tão larga a Sabedoria —
E a Verdade — têm formas tão diversas!

Emily Dickinson (1830-1886)
Tradução: Ana Luísa Amaral

E se eu disser que não vou esperar

Martin Weblus
E se eu disser que não vou esperar!
Se eu rebentar Portões carnais —
E conseguir chegar — a ti!

Se eu me livrar de ser Mortal —
Onde doer — Dizer não mais —
E em Liberdade mergulhar!

Já não me podem mais — prender!
Masmorras — Armas implorar
Nada me dizem — já — a mim —

Tal como o riso — há — uma hora —
Os Laços — Festas — o que fora —
Ou mesmo quem ontem — morreu!

Emily Dickinson (1830-1886)
Tradução: Ana Luísa Amaral

26 de junho de 2016

Se eu pudesse ancorar em ti esta noite

Matisse - A leitora distraída
Noites Loucas — Noites Loucas!
Estivesse eu contigo
Tais Noites o nosso
Deleite seriam!

Fúteis — os Ventos —
A Coração em Porto —
Inútil a Bússola —
Como o Mapa inútil!

Remando em Éden —
Ah, o Mar!
Se eu pudesse ancorar
Em ti esta noite!

Emily Dickinson (1830-1886)
Tradução: Ana Luísa Amaral

Estilos de vida

“O homem devia orgulhar-se da dor;
toda dor é uma manifestação de nossa elevada estirpe.”

– Novalis
Edoardo Ettore Forti
“Cada época, cada cultura, cada costume e tradição têm o seu próprio estilo, têm sua delicadeza e sua severidade, suas belezas e crueldades, aceitam certos sofrimentos como naturais, sofrem pacientemente certas desgraças. O verdadeiro sofrimento, o verdadeiro inferno da vida humana reside ali onde se chocam duas culturas ou duas religiões. Um homem da antiguidade, que tivesse de viver na Idade Média, haveria de sentir-se tão afogado quanto um selvagem se sentiria em nossa civilização. Há momentos em que toda uma geração cai entre dois estilos de vida, e toda a evidência, toda a moral, toda salvação e inocência ficam perdidos para ela. Naturalmente isso não atinge a todos da mesma maneira”.
Hermann Hesse (1877-1962)
in: ‘O Lobo da Estepe’

25 de junho de 2016

Em Paz

Baron Arild Rosenkrantz
Já bem perto do ocaso, eu te bendigo, ó Vida,
porque nunca me deste esperança mentida,
nem trabalhos injustos, nem pena imerecida.

Porque vejo, ao final de tão rude jornada,
que a minha sorte foi por mim mesmo traçada;
que, se extraí os doces méis ou o fel das cousas,
foi porque as adocei ou as fiz amargosas:
quando eu plantei roseiras, eu colhi sempre rosas.

...Decerto, aos meus ardores, vai suceder o inverno:
Mas tu não me disseste que maio fosse eterno!
Longas achei, confesso, minhas noites de penas;
Mas não me prometeste noites boas, apenas,
E em troca tive algumas santamente serenas…

Fui amado, afagou-me o Sol. Para quê mais?
Vida, nada me deves! Vida, estamos em paz!

Amado Nervo (1870–1919)
Tradução: Aurélio Buarque de Holanda

Azul de Ti

Baron Arild Rosenkrantz
Pensar em ti é azul, como ir vagando
por um bosque dourado ao meio-dia:
desabrocham jardins na fala minha,
com minhas nuvens por teus sonhos ando.

E nos une e separa um vento brando,
uma distância de melancolia;
alço os braços de minha poesia,
azul de ti, dolorido e esperando.

É como um horizonte de violins
ou um tíbio sofrimento de jasmins
pensar em ti, de azul temperamento.

O mundo se me volve cristalino,
e miro-te, entre lâmpadas de trino,
azul domingo do meu pensamento.

Eduardo Carranza (1913-1985)
Tradução: Aurélio Buarque de Holanda

24 de junho de 2016

A Máquina do Mundo

Sir Frank Bernard Dicksee
O que procuraste em ti
ou fora de teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo ...

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola,
essa ciência sublime e formidável,
mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular
que nem concebes mais,
pois tão esquivo se revelou
ante a pesquisa ardente em que te consumiste ...

vê, contempla, abre teu peito para agasalhá-lo.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Um mover de olhos

John William Waterhouse - Circe
Um mover de olhos, brando e piedoso,
Sem ver de quê; um riso brando e honesto,
Quase forçado; um doce e humilde gesto,
De qualquer alegria duvidoso;

Um despejo quieto e vergonhoso;
Um repouso gravíssimo e modesto;
Ũa pura bondade, manifesto
Indício da alma, limpo e gracioso;

Um encolhido ousar; ũa brandura;
Um medo sem ter culpa; um ar sereno;
Um longo e obediente sofrimento;

Esta foi a celeste formosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu pensamento.

Luís Vaz de Camões (1524-1580)

23 de junho de 2016

Ao Fogo

Paul Gauguin
Chama da inspiração, que me devoras,
Alarga o teu abraço ao mundo inteiro!
Reduz o pesadelo destas horas
A um braseiro
De amor!
Funde no teu calor
A montanha de gelo e de tristeza
Que nos oprime o corpo e o coração.
E que a grande fogueira da beleza
Seja o sol duma nova redenção.

Miguel Torga (1907-1995)

A Idade não nos Torna mais Sábios

Viktor Schramm
As pessoas imaginam que precisamos de chegar a velhos para ficarmos sábios, mas, na verdade, à medida que os anos avançam, é difícil mantermo-nos tão sábios como éramos. De fato, o homem torna-se um ser distinto em diferentes etapas da vida. Mas ele não pode dizer que se tornou melhor, e, em alguns aspectos, é igualmente provável que ele esteja certo aos vinte ou aos sessenta.
Vemos o mundo de um modo a partir da planície, de outro a partir do topo de uma escarpa, e de outro ainda dos flancos de uma cordilheira. De alguns desses pontos podemos ver uma porção maior do mundo que de outros, mas isso é tudo. Não se pode dizer que vemos de modo mais verdadeiro de um desses pontos que dos restantes.
Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)

22 de junho de 2016

Luz

Elena Lishanskaya
Quando o coração é luz,
tudo se veste de luz.
Dos altos cumes não descem águas turvas,
mas transparentes.

Ignacio Larrañaga (1928-2013)

Homenagem a Tomás António de Gonzaga

Bandeira de Minas Gerais
Gonzaga: podias não ter dito mais nada,
não ter escrito senão insuportáveis versos
de um árcade pedante, numa língua bífida
para o coloquial e o latim às avessas.

Mas uma vez disseste:
“eu tenho um coração maior que o mundo”.
Pouco importa em que circunstâncias o disseste:

Um coração maior que o mundo –
uma das mais raras coisas
que um poeta disse.

Talvez que a tenhas copiado
de algum velho clássico. Mas como
a tu disseste, Gonzaga! Por certo

que o teu coração era maior que o mundo:
nem pátrias nem Marílias te bastavam.

(Ainda que em Moçambique, como Rimbaud na Etiópia,
engordasses depois vendendo escravos).

Jorge de Sena (1919-1978)

21 de junho de 2016

Seleção

Daniel Garber
Não é mesmo a minha
trilhar o caminho certo,
andar na linha,
equilibrista no circo.

Olhado à distância,
o passado é uma mancha,
um feixe de nervos
e ânsias.

Não me pergunte
como saí vivo
da infância
e de tudo
que veio em sequência.

Outros encham a boca:
“viveria tudo
outra vez”.
Escolho os melhores dias
e vivo só mais um mês.

Ricardo Silvestrin

Meu Rei

June Carey
Meu Rei, houve um tempo em que eu não estava pronto para Ti.
Todavia, sem que eu pedisse,
entraste em meu coração como um desconhecido qualquer,
e marcaste os momentos fugazes da minha vida com Teu selo de
eternidade.
Hoje, quando me deparo ao acaso com esses momentos
e neles vejo a Tua marca,
percebo que eles ficaram espalhados no pó,
misturados com a lembrança de alegrias
e tristezas dos meus dias esquecidos.
Tu não desprezavas os meus brinquedos de criança pelo chão,
e os passos que eu ouvia em meu quarto de brincar
são os mesmos que agora ecoam de estrela em estrela.

Rabindranath Tagore (1861-1941)

20 de junho de 2016

Fanatismo

Vladimir Volegov
Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah! podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!..."

Florbela Espanca (1894-1930)