20 de fevereiro de 2018

Jogos de sombras

Giorgio de Chirico
Sempre que me procuro e não me encontro em mim,
pois há pedaços do meu ser que andam dispersos
nas sombras do jardim,
nos silêncios da noite,
nas músicas do mar,
e sinto os olhos, sob as pálpebras, imersos
nesta serena unção crepuscular
que lhes prolonga o trágico tresnoite
da vigília sem fim,
abro meu coração, como um jardim,
e desfolho a corola dos meus versos,
faz-me lembrar a alma que esteve em mim,
e que, um dia, perdi e vivo a procurar
nos silêncios da noite,
nas sombras do jardim,
na música do mar…

Hermes Fontes (1888-1930)

19 de fevereiro de 2018

A mulher e a casa

Geza Voros
Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.
Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,
uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.
Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra:
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;
pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;
pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,
os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,
exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
e vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

17 de fevereiro de 2018

Nestes três dias esplêndidos

Sir Francis Dicksee
Nestes três dias esplêndidos
Em que o Prazer tudo arrasa
Desde o cristão ao ateu,
Quem se sente neurastênico
Faz como eu,
Fica em casa.

Euclides da Cunha (1866-1909)

16 de fevereiro de 2018

Infância

Henry Scott Tuke
Sobre o lado ímpar da memória
o anjo da guarda esqueceu
perguntas que não se respondem.

Seriam hélices
aviões locomotivas
timidamente precocidade
balões-cativos si-bemol?

Mas meus dez anos indiferentes
rodaram mais uma vez
nos mesmos intermináveis carrosséis.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

7 de fevereiro de 2018

Povoado

Albert Bierstadt
Sobre o monte pelado
um calvário.
Água clara
e oliveiras centenária.
Pelas ruelas
homens embuçados,
e nas torres
veletas girando.
Eternamente
girando.
Oh! povoado perdido,
na Andaluzia do pranto!

Federico Garcia Lorca (1898-1936)
Tradução: William Agel de Melo

4 de fevereiro de 2018

Ah Girassol

Gustav Klimt
Ah Girassol! do tempo o cansaço,
A contar do Sol cada passo,
Buscando a doce região dourada
Onde o viajante encerra a jornada;

Onde um Jovem o desejo definhara,
E a neve pálida Virgem amortalhara,
Erguidos de suas tumbas no ambicionar
O lugar em que o meu Girassol deseja estar!

William Blake (1757-1827)
Tradução: Afonso Henriques Neto

2 de fevereiro de 2018

Vaidade, meu amor, tudo vaidade!

John William Waterhouse
Vaidade, meu amor, tudo vaidade!
Ouve: quando eu, um dia, for alguém,
Tuas amigas ter-te-ão amizade,
(Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.

Vaidade é o luxo, a gloria, a caridade,
Tudo vaidade! E, se pensares bem,
Verás, perdoa-me esta crueldade,
Que é uma vaidade o amor de tua mãe...

Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
E eu vi-me só no mar com minha escuna,
E ninguém me valeu na tempestade!
br> Hoje, já voltam com seu ar composto,
Mas eu, vê lá! eu volto-lhes o rosto...
E isto em mim não será uma vaidade?

António Nobre (1867-1900)

31 de janeiro de 2018

O Karma

Gisela Fabian
A Natureza não pode escravizar a Alma
que obtém o Poder por meio da Sabedoria,
e em ambos emprega a Lei do Karma, que
nos conduz à Verdade.

(Helena Blavatski)
O Deus da Teosofia
Não é esse das seitas religiosas,
Que dorme noite e dia
Nas áreas luminosas
Das antigas mesquitas maometanas,
Ou das modernas catedrais romanas.

Força motriz dos múltiplos sistemas
Que dirigem os vultos planetários,
É a vibração, que despedaça algemas
Na eterna irradiação dos Setenários.

Essência pura, primordial, divina,
Desce do Todo à simples unidade;
E, se a matéria anima,
Volta de novo à espiritualidade.

E tanto impele as simples criaturas
Como equilibra os astros no infinito,
Por leis evolutivas e seguras
Do seu poder universal prescrito.

Pois bem: nós somos parte desse Todo;
Não o verme do lodo,
Mas a faísca que partiu da chama
Que este Universo inflama,
Semeando na amplidão as nebulosas
Entre as constelações mais radiosas,
E os errantes cometas solitários
Que fogem sempre aos corpos planetários.

Mas no eterno vaivém das existências,
Restritas da matéria às contingências,
Desde que o livre arbítrio nos foi dado,
Temos em nossa mão o próprio fado.

A lei que determina a recompensa
Dos males e dos bens que praticamos,
A lei de causa e efeito, que aplicamos,
Por lógica permuta
De princípios inatos,
É também aplicada aos nossos atos,
Desde que o homem sente, e quer, e pensa,
E pode, e executa.

O homem é senhor do seu destino;
Mas já que tem tamanha liberdade,
Não deve se queixar do Ser Divino,
Nem recuar ante a Fatalidade.

Se o raciocínio é arma,
De que até nos servimos contra a crença,
Já foi lavrada Além nossa sentença,
Temos de obedecer à lei do Karma.

O que semeia o mal nesta existência,
Na seguinte existência há de expiá-lo;
Assim como o que nós hoje sofremos
É o castigo do mal que praticamos
Na vida já vivida
Neste mesmo planeta, onde ora estamos,
Ou em outra qualquer região perdida
Na multiplicidade das estrelas
Que povoam o azul do Firmamento,
Pois não foram criadas, todas elas,
Para estar em inútil movimento.

Os rápidos prazeres e alegrias
Que embalam nossos dias,
Já são as recompensas merecidas
Do bem que semeamos noutras vidas.

Quanto ao céu e o inferno, de que falam
As velhas escrituras,
São coisas que afinal já não abalam
As consciências seguras:
Por cinquenta ou noventa anos de vida
Na terra pervertida,
Lentas penas não há de
Penar a alma em toda a Eternidade.

A lei de causa e efeito
Sabiamente aplicada às nossas dores,
Como castigo ao mal que temos feito,
E às nossas alegrias
Premiando, com o bem, o bem perfeito,
É a corrente que enlaça os nossos dias
Desde a série das vidas anteriores
Até as mais remotas existências,
Nesses núcleos solares, onde as flores
Têm alma, e as almas – divinais essências.

Múcio Teixeira (1857-1926)

28 de janeiro de 2018

Sei, sei bem...

Franz Dvorak
Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos
Deixa-me crer
O que nunca poderei ser.

Ricardo Reis
Fernando Pessoa (1888-1935)

24 de janeiro de 2018

MERINA

Arthur Hughes
Rosto comprido, airosa, angelical, macia,
Por vezes, a alemã que eu sigo e que me agrada,
Mais alva que o luar de inverno que me esfria,
Nas ruas a que o gás dá noites de balada;

Sob os abafos bons que o Norte escolheria,
Com seu passinho curto e em suas lãs forrada,
Recorda-me a elegância, a graça, a galhardia
De uma ovelhinha branca, ingênua e delicada.

Cesário Verde (1855-1886)

20 de janeiro de 2018

Talvez não seja sempre assim

Cyril Rolando
Talvez não seja sempre assim; e assim te digo
Que se teus lábios, que eu amei, tocarem noutros,
E teus dedos, fortes e queridos, agarrarem
Um outro coração, como ao meu em tempo não remoto;
Se no rosto de outro tua doce cabeleira se esparzir
No silêncio que tão bem conheço, ou entre grandes
Palavras sofredoras, que exprimindo demais em seu murmúri
Impotentes se alinham ante o espírito acuado;

Se isto se der, se isto se der, repito
Tu que és tão minha, não o escondas de mim:
Para que eu possa ir a ele, e, tomando-lhe as mãos,
Dizer, Aceita de mim esta ventura toda.
Depois eu voltarei meu rosto, e ouvirei um pássaro
Cantar terrivelmente longe nas regiões perdidas.

E.E.Cummings(1894-1962)
Tradução: José Mindlin

18 de janeiro de 2018

Discurso na seção de achados e perdidos

Evelyn Pickering De Morgan – Aurora "Deusa do Amanhecer".
Perdi algumas deusas no caminho do sul ao norte,
e também muitos deuses no caminho do oriente ao ocidente.
Extinguiram-se para sempre umas estrelas, abra-se o céu.
Uma ilha, depois outra mergulhou no mar.
Nem sei direito onde deixei minhas garras,
quem veste meu traje de pelo, quem habita minha casca.
Morreram meus irmãos quando rastejei para a terra,
e somente certo ossinho celebra em mim este aniversário.
Eu saía da minha pele, desbaratava vértebras e pernas,
perdia a cabeça muitas e muitas vezes.
Faz muito que fechei meu terceiro olho para isso tudo.
Lavei as barbatanas, encolhi os galhos.

Dividiu-se, desapareceu, aos quatro ventos se espalhou.
Surpreende-me quão pouco de mim ficou:
uma pessoa singular, na espécie humana de passagem.
Wisława Szymborska (1923-2012)
Tradução: Regina Przybycien

16 de janeiro de 2018

Canção

Edvard Munch
Em minha sepultura,
Ó meu amor, não plantes
Nem cipreste nem rosas;
Nem tristemente cantes.
Sê como a erva dos túmulos
Que o orvalho umedece.
E se quiseres, lembra-te;
Se quiseres, esquece.

Eu não verei as sombras
Quando a tarde baixar;
Não ouvirei de noite
O rouxinol cantar.
Sonhando em meu crepúsculo,
Sem sentir, sem sofrer,
Talvez possa lembrar-me,
Talvez possa esquecer.

Christina Rossetti (1830-1894)
Tradução: Manuel Bandeira

13 de janeiro de 2018

Vademecum

Ferdinand Georg Waldmüller
Atraem-te o meu modo e a minha língua?
Segues-me? Vens atrás de mim?
Segue fiel atrás de ti mesmo: –
Assim me seguirás – devagar! devagar!

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900)
Tradução: Paulo Quintela

10 de janeiro de 2018

Quando os dias se movem

John William Waterhouse
Usamos nalgumas coisas uma violência simples
isso é romper os símbolos que envidraçam o resto
mas parte quem amamos quando os dias se movem
se escolheu os limites para a pele aderir

No fundo de nós mesmos omitem-se tais coisas
e criam-se ficções, defesas, crueldades
dos jogos da aparência (à vista nos perdemos)
e movem-se nos dias seus múltiplos contrários

E contudo se movem se quem amamos fere
e o faz de razão fria ou esquecidamente
e a alegria se torna um torpe imaginários
quem muito amamos mata: vai-nos desinventando.

Vasco Graça Moura (1942-2014)

8 de janeiro de 2018

Viajar! Perder países!

William Powell
Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!

Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E da ânsia de o conseguir!

Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.


Fernando Pessoa (1888-1935)

6 de janeiro de 2018

A Adoração dos Magos

Pieter Bruegel - A Adoração dos Reis
Vendo surgir a súbitas, no oriente,
Luz de formosa estrela nunca vista,
Os três Magos convieram: “Para a frente!
A voz enfim cumpriu-se do Salmista!”

Partiram. Dá-lhes rumo o astro, e com a vista
Ao céu voltada, no deserto ardente
Caminham, sem saber onde imprevista
A casa surgirá, do Deus vivente.

Jerusalém! Aos místicos clarões.
Eis Belém de Judá, a humilde gruta,
A Mãe, que o Filho ao colo traz suspenso...

E ali onde o adoraram os pastores.
Agora os Reis: já derredor se escuta
O hino da oferta de ouro e mirra e incenso...

Aloísio de Castro (1881-1959)
Tradução: Jamil Almansur

3 de janeiro de 2018

Chove

Chove uma grossa chuva inesperada
que a tarde não pediu, mas agradece.
Chove na rua, já de si molhada
duma vida que é chuva e não parece.
Chove grossa e constante,
uma paz que há de ser.
Uma gota invisível e distante
na janela, a escorrer.

Miguel Torga (1907-1995)

1 de janeiro de 2018

Dia a dia mudamos

Pablo Picasso
Dia a dia mudamos para quem
Amanhã não veremos. Hora a hora
Nosso diverso e sucessivo alguém
Desce uma vasta escadaria agora.

É uma multidão que desce, sem
Que um saiba de outros. Vejo-os meus e fora.
Ah, que horrorosa semelhança têm!
São um múltiplo mesmo que se ignora.

Olho-os. Nenhum sou eu, a todos sendo.
E a multidão engrossa, alheia a ver-me,
Sem que eu perceba de onde vai crescendo.

Sinto-os a todos dentro em mim mover-me,
E, inúmero, prolixo, vou descendo
Até passar por todos e perder-me.

Fernando Pessoa (1888-1935)

2018

Centenário em 2018
✔ 06 de fevereiro - 100 anos da morte do pintor Gustav Klimt.
✔ 14 de julho -100 anos do nascimento do cineasta Ingmar Bergmann.
✔ 17 de julho - A família do último Czar da Rússia, Nicolau Romanov, é assassinada pelos sovietes.
✔ 18 de julho - 100 anos do nascimento de Nelson Mandela.
✔ 11 de novembro - 100 anos do fim da Primeira Guerra Mundial.
✔ 18 de dezembro - 100 anos da morte de Olavo Bilac.

31 de dezembro de 2017

Para pintar o retrato de um pássaro

Jacob Maris
Pintar primeiro uma gaiola
Com a sua porta aberta
Em seguida pintar
Alguma coisa bonita
Alguma coisa simples
Alguma coisa bela
Alguma coisa útil
Para o pássaro
Pendurar em seguida a tela numa árvore
Num jardim
Num bosque
Ou numa floresta
Se esconder atrás da árvore
Sem falar
Sem se mover...
Às vezes o pássaro chega logo
Mas pode acontecer também que ele demore anos
Para se decidir
Não há que desanimar
Esperar
Esperar durante anos se for o caso
Já que a rapidez ou lentidão da chegada
Do pássaro não tem nenhuma relação
Com o resultado do quadro
Quando o pássaro chega
Se ele chega
Guardar o mais profundo silêncio
Esperar que o pássaro entre na gaiola
E quando estiver dentro
Fechar devagarinho a porta com o pincel
Depois
Apagar uma a uma todas as grades
Tendo o cuidado de não tocar em nenhuma pena do
pássaro
Pintar em seguida a figura da árvore
Escolhendo o galho mais bonito
Para o pássaro
Pintar também o verde das folhas e o frescor do vento
A poeira do sol
E o rumor dos insetos no capim sob o calor do verão
E depois esperar que o pássaro se decida a cantar
Se o pássaro não canta
É mau sinal
Sinal de que o quadro é mau
Mas se ele canta é bom sinal
Sinal de que você pode assinar
Então você arranca delicadamente
Uma pena do pássaro
E escreve seu nome num canto do quadro.

Jacques Prévert (1900-1977)
Tradução: Ferreira Gullar

29 de dezembro de 2017

Calendário

Alphonse Mucha
Juntei as minhas convicções umas às outras e dilatei a tua Presença. Outorguei aos meus dias um novo curso, sustentando-os nessa força imensa. Expulsei a violência que me limitava o ascendente. Agarrei sem ruído o pulso do equinócio. O oráculo deixou de avassalar-me. Penetro: sinto-me ou não em estado de graça.
A ameaça é agora mais polida. A praia que todos os Invernos ficava atravancada de lendas regressivas, de sibilas¹ com os braços pesados de ortigas, apresta-se agora ao socorro das criaturas. Sei que a consciência que se arrisca nada tem que temer da plaina.
René Char (1907-1988)
Tradução: Margarida Vale de Gato
¹ Sibilas são um grupo de personagens da mitologia greco-romana descritas como sendo mulheres que possuem poderes proféticos sob inspiração de Apolo.

27 de dezembro de 2017

Ao rapaz que dorme

Louis-Jean-François Lagrenée
Ao rapaz que dorme
surge o corpo do amor.
O que destrói.
Pedras sem adeus.

Sobre o dia do seu coração
cai a tribo do crepúsculo.
Crescem os braseiros,
os sarros, os saques.

Queres que viva e evite a vida?
Ame e evite amar-te?

Os olhos dizem-lhe que não.
O fatigado alarme do corpo
ergue-se noutra chama.

O mundo vai morrer neste poema.

Joaquim Manuel Magalhães

25 de dezembro de 2017

Amanhecer

Paul Gauguin
Amanhecer: o mais antigo
sinal de vida sobre a Terra.
Amanhecer: ainda o mais novo
sinal de vida sobre a Terra.
Amanhecer e vida humana
se entrelaçam na mesma luz.
Mas andemos. Que tal esses ornatos
de rua, a celebrar os velhos ritos?
Eu acho que o Natal ronda por fora
dos signos natalinos: sua rara
contextura de sonho e de esperança
num Deus garoto abriga-se no esconso
particular da alma; esse, o presépio
mais real, mais tocante; esse, o cardápio
da ceia imaterial, sem mesa posta
e sem badalação, sem jingle e cesta.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

24 de dezembro de 2017

Natal

Heidi Malott: Natividade
Também sei de paisagem
onde há carneiros de lã
e árvores cheias de folhas
e muitas estrelas líquidas
e onde a vida não tem nome
nem tem neve, nem crepúsculo.

Também sei de uma paisagem
(além da terra do mundo)
que se abre como uma rosa
– Ali nasceremos todos
noutro cartão de natal.

Gilberto Mendonça Teles

21 de dezembro de 2017

Saudade

Sir Edward Burne-Jones
Vem, ó saudade, toma-me em teu carro,
Em teu regaço leva-me dormindo,
Entre fagueiros sonhos embalado
Por esse espaço infindo.
Leva-me além daquele erguido monte,
Que lá campeia quase que sumido
Nas brumas do horizonte.

Leva-me além - oh! muito além ainda;
Do eterno plaino largo campo fende;
E entre escalvadas serranias broncas
O carro teu suspende.
Aí nas abas de sombrio morro
Abate o voo, e deixa-me nos braços
Daquela por quem morro.

Bernardo Guimarães (1825-1884)

19 de dezembro de 2017

Um estranho no meu túmulo

Christian Schad
Chegamos tarde a nós.
Eu tinha a pele gasta, o coração no fio.
Tu eras um longo muro de cimento areado
em que deixava a carne inteira
a caminho do encontro.

A primavera ficava-nos sempre
à esquerda e tu cada vez mais
dentro de mim até não sentir nada,
até estares já do outro lado.
Para trás, a cova matinal na almofada,
o postal entre a leitura suspensa,
o número a chamar de um fantasma.

Se apagar as marcas de onde pousaste
a cabeça sobre a minha vida,
se ganhar novo espaço para o fôlego,
faz-me só um favor:
nunca mais me reconheças.

Inês Dias