27 de setembro de 2016

O Lavrador

Felix Vallotton
Perdido em pensamentos o
lavrador passeia sob a chuva
por seus campos vazios, mãos
nos bolsos,
na cabeça
a colheita já plantada.
Um vento frio vem encrespar a água
entre as ervas tostadas.
Por toda parte
o mundo rola friorento para longe:
negros pomares
escurecidos pelas nuvens de março -
deixando espaço livre aos pensamentos.
Lá embaixo, além da galharia
rente
ao carreiro encharcado de chuva
assoma a figura artista do
lavrador - compondo
- antagonista.

William Carlos Williams (1883-1963)
Tradução: José Paulo Paes

Pressentimento

Anthony Frederick Augustus Sandys
Imóvel como árvore no outono,
onde não bate o vento, onde não há
sopro ou movimento e, mesmo assim,
no alto, num galho,
por nenhuma razão aparente,
uma única folha oscila
violentamente.

Para que melodia
ela dança?
Que nota perdida vibra
em mim?
Do passado ou do futuro?
Memória
ou Pressentimento?

Anne Morrow Lindbergh (1906-2001)
Tradução: Thereza Christina Rocque da Motta

26 de setembro de 2016

A Sua Mulher

Felix Vallotton
Amor, vivamos como sempre, não esqueçamos
os doces nomes ditos na primeira noite,
e nunca venha o dia que nos veja velhos:
eu sempre o jovem teu, e tu a minha noiva.
Que mais do que Nestor provecto eu seja em anos.
e tu na idade venças a senil Sibila.
De tão extrema velhice ignoraremos tudo:
menos as ciências dela no escapar do tempo.

Décimo Magno Ausónio (310-395)
Tradução: Jorge de Sena

O Exilado

Sergei Dmitrievich Miloradovich
Meu corpo está cansado de suportar a máquina do mundo.
Os sentidos em alarme gritam:
O demônio tem mais poder que Deus.
Preciso vomitar a vida em sangue
Com tudo o que amaldiçoei e o que amei.
Passam ao largo os navios celestes
E os lírios do campo têm veneno.
Nem Job na sua desgraça
Estava despido como eu.
Eu vi a criança negar a graça divina
Vi o meu retrato de condenado em todos os tempos
E a multidão me apontando como o falso profeta.
Espero a tempestade de fogo
Mais do que um sinal de vida.

Murilo Mendes (1901-1975)

25 de setembro de 2016

Cólera do mar

[a Assis Brasil]
José Pancetti - São Pedro da Aldeia
Disse o rochedo ao mar, que plácido dormia:
“Quantos milênios há que, tu, negro elefante,
tragas covardemente esses, cuja ousadia
se arriscou em teu dorso enorme e flutuante?”

O mar não respondeu; mas um tufão horrendo
cavou-lhe a entranha e fez estremecer de medo
o coração do abismo. Então o mar se erguendo,

atirou um navio aos dentes do rochedo!

- Augusto de Lima (1859-1934)

Este Pão que venho Abrir

Johannes Vermeer
Este pão que venho abrir foi outrora centeio,
este vinho sobre uma ramada desconhecida
ficou submerso nos seus frutos;
o homem em cada dia, em cada noite o vento
arrancaram a alegria dos cachos e derrubaram as searas.

Com o vinho, outrora o sangue de estio
palpitava na carne que ornamentava a videira,
outrora neste pão
era feliz sob o vento o centeio;
mas o homem despedaçou o sol e abateu o vento.

Esta carne que despedaças, este sangue
que traz a desolação pelas veias,
eram os cachos e o centeio
nascidos das raízes e da seiva dos sentidos;
este meu vinho que bebes, este pão de que te alimentas.

Dylan Thomas (1914-1953)
Tradução: Fernando Guimarães

24 de setembro de 2016

Os Maus

Ludwig von Hofmann - Adam and Eve
Temeis-me?
Temeis o arco tenso?
Ah, quem pudesse assim dispor a flecha!

Ah, meus amigos!
Onde quem bom era dito?

Onde estão todos os "bons"?
Onde, onde, a inocência das mentiras?

Quem uma vez olha o Homem
A Deus vê como Bode.

O poeta capaz de mentir
Conscientemente, voluntariamente,
Só ele é capaz de dizer a Verdade.

"O Homem é mau",
O que os Mais Sábios disseram -
Para consolar-me.

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900)
Tradução: Jorge de Sena

23 de setembro de 2016

Rothko

(A Andrés Sánchez Robayna)
Mark Rothko
As cores, não, tampouco a forma pura.
Rememorar da tinta. Sedimento
que se decanta, à luz, de seu pigmento,
além, além da tela e sua armadura.
Sombra alguma, nem linhas, nem textura,
nem a quase ilusão do movimento;
silêncio, nada mais: o sentimento
de já estar em presença: da Pintura,
suas franjas paralelas, cuja bruma
cruza o intacto da tela, colorida
embora de zarcão, vinho que esfuma;
cor púrpura, cinábrio, tez laranja...
O vermelho do sangue que se esbanja
selou sua exploração. Selou sua vida.

Severo Sarduy (1937-1993)
Tradução: Haroldo de Campos

O Canto e o Pensamento

Ludwig von Hofmann
Ao Princípio era o Ritmo, a Rima a terminar,
E a Música entra nisto qual seu almo Pio
¹:
A tão divino riquiquio
²
Chama-se Canto. Mas, para encurtar,
Um Canto, isso é "Palavras para pôr em Música".

O Pensamento é de uma outra esfera.
Se ele troça, ou se exalta, ou se encanta,
Jamais, é claro, um pensamento canta.
É "Sentido sem Canto" o Pensamento.
As duas coisas juntas: minha audácia é tanta?

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900),
Tradução: Jorge de Sena
¹ Almo Pio = piedoso
² Riquiquio = canto

Abelardo e Heloísa: amor e tragédia

Jean Vignaud - Abelardo e Heloísa
Pedro Abelardo (1079-1142) era um brilhante professor de Dialética (Lógica) em Paris, na França. Heloísa (1101-1164) era a jovem e culta sobrinha de Fulberto, o cônego da catedral de Notre-Dame. Quando se conheceram, ele tinha 36 anos e ela 17. Abelardo, para ficar mais próximo da moça, convenceu o cônego a dar-lhe abrigo e passou a lecionar para ela.
O cônego não suspeitou que os dois tivessem iniciado um relacionamento amoroso. Quando descobriu a paixão entre sua sobrinha e o professor, Fulberto expulsou Abelardo de sua casa.
O casal continuou a se encontrar secretamente e a moça engravidou, dando à luz o filho longe de Paris para evitar escândalos. Contrariado, o cônego consentiu que Abelardo e Heloísa se casassem às escondidas, mas não perdeu a chance de se vingar do ultraje: contratou uns homens para invadir os aposentos de Abelardo e castrá-lo. Humilhado e envergonhado, Abelardo se tornou monge, ordenando que sua esposa fizesse o mesmo.
A partir de então, nunca mais se viram, e comunicaram-se apenas por cartas. Mais do que protagonistas de uma trágica história de amor, Abelardo e Heloísa passaram a ser vistos como exemplos de liberdade intelectual e moral em uma época de rígidas convenções religiosas e sociais. Além disso, simbolizavam o amor em suas diversas formas (físico, intelectual e espiritual).
Não é possível comprovar a veracidade dos textos hoje conhecidos como as cartas de Abelardo e Heloísa, uma vez que, ao longo de séculos, tal correspondência foi numerosas vezes transcrita, recriada, poetizada. Alguns estudiosos se referem a elas como um mito literário. Ainda assim, a popularidade dessas cartas, em suas várias versões, traduzidas para diversas línguas, contribuíram para disseminar a história desse amor proibido, bem como os valores da época e a situação da mulher na sociedade medieval.
NAPOLITANO, Marcos; VILLAÇA, Mariana. História para o ensino médio. Volume 1. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 131.

22 de setembro de 2016

Chapéus Trocados

Vicente Romero Redondo
Tio desengraçado, a quem deu na veneta
meter na cabeça um chapéu de mulher,
embora sem graça, dá sempre prazer
o seu travestismo discreto e zureta,

que até nos constrange, e causa impaciência.
Pois não se discute costume, nem gosto.
Por isso é que as roupas do sexo oposto
inspiram essa espécie de experiência.

Ó tia anândrica, que lá na praia
resolve provar um boné de iatista
e dá um grito agudo, exibicionista,
até que os olhares de todos atraia,

a aba até o brinco – aproveite bem,
que a moda e as marés estão sempre mudando,
e esse boné que você está ostentando
talvez não se use no ano que vem.

E a quem parecer engraçado um cocar,
ou prato de uvas bancando sombreiro,
é recomendável que pense primeiro
que tais perversões podem bem agravar

loucuras que haja do lado de dentro.
E quando por fim desmorona a cartola,
expondo aos ventos mais frios a cachola,
que tal um barrete vermelho no centro?

Tio desengraçado, no seu chapéu-coco
maior que a cabeça, ou nos dois que você
pôs um sobre o outro, o que é que se vê?
Há estrelas, talvez, nesse seu domo oco?

Ó tia exemplar, com suas formas esguias,
seus olhos avernos e desassombrados
que lentas mudanças verão, ocultados
sob abas enormes, pesadas, sombrias?

Elizabeth Bishop (1911-1979)
Tradução: Paulo Henriques Brito

Degeneração

Ludwig von Hofmann
Dos homens de civismo a pura raça
No torrão brasileiro degenera;
A uberdade tornou-se tão escassa,
Que o terreno parece que não gera.

Por mais irrigação que se lhe faça,
Os frutos já não há, como os houvera;
A lavoura de outrora hoje é fumaça,
Cultivada fazenda hoje é tapera.

A indústria nacional é quase nula,
E é só de cavalheiro a que regula,
Consistindo nas trocas e baldrocas.

A terra, enfim, não é como era d'antes:
Depois de produzir muitos gigantes,
Produz agora lesmas e minhocas.

José J. C. de Almeida (1820-1905)

21 de setembro de 2016

Nome

Christian Schloe
Algo é o nome do homem
coisa é o nome do homem
homem é o nome do cara
isso é o nome da coisa
cara é o nome do rosto
fome é o nome do moço
homem é o nome do troço
osso é o nome do fóssil
corpo é o nome do morto
homem é o nome do outro.

Arnaldo Antunes

Síntese

Bryce Cameron Liston
Noite silenciosa. Casa silenciosa.
Mas sou a mais calma estrela,
Eu também produzo luz própria
Além dos limites de minha noite.

Cerebralmente, voltei para casa
De infernos, céus, lixo e gado
E também o que se concede à mulher
É obscura e doce masturbação.

Revolvo o mundo. Agonizo a presa.
E depois dispo-me na alegria:
Não há morte, nem pó malcheiroso
Que me leve, eu-conceito, de volta ao mundo.

Gottfried Benn (1886-1956)
Tradução: Claudia Cavalcanti

20 de setembro de 2016

Sois homem, não procureis predizer portanto

Pino Daeni
O que o amanhã vos guarda,
nem quão longa a felicidade possa ser.
Porque nem mesmo o ruflar de asas de uma mosca
é tão rápido quanto a mudança.

Simônides de Céos (556-468 a.C.)
Tradução: Wagner Schadec

Crítico

Louis Treseras
Chegou uma cara visita
Que a mim não era um parasita.
Com minha modesta comida
Empanturrou-se. E com a bebida
Da sobremesa então deu cabo.
Vizinho a mando do Diabo,
Ao terminar a minha ceia,
Raciocinou de boca cheia:
“Na sopa faltava cominho,
O assado cru, azedo o vinho.”
Que coma a maldita migalha!
É um crítico. Morte ao canalha!

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)
Tradução: Wagner Schadec

19 de setembro de 2016

A Canção Universal

Michael Cheval
Queres mover com certeza
As cordas de um coração?
Dedilha o tom da tristeza
O tom da alegria, não!

Há quem tenha à farta mesa
Da alegria estado já.
Mas quem ao pão da tristeza
Não provasse, esse não há.

Friedrich Rückert (1788-1866)
Tradução: João Ribeiro

Misérrimo montão de vaidades do homem

Jan Miense Molenaer - Alegoria da Vaidade
Misérrimo montão de vaidades do homem,
Sonhos! que o menor vento e o menor sopro somem
Como se acaba tudo e tudo se dispersa!
O poderio, a dor, a dor na noite imersa,
Cólera, orgulho, amor, tudo, tudo, em resumo,
Não é mais do que pó, não é mais do que fumo!
Para que tanto afã, por que tanta esperança,
Se em vão se corre atrás de um bem que não se alcança?
Dizei, homens! por quê? Por que sempre rugindo
Ameaçais mar e céu? Dir-se-ia, em vos ouvindo
Soprar nesse braseiro aceso de paixões,
No meio do furor das vossas ambições,
Em torno do que a alma abraça, crê e espera,
Que sois feitos de bronze, e entanto sois de cera!

Victor Hugo (1802-1885)
Tradução: Fontoura Xavier

18 de setembro de 2016

Jardim Abstrato

Pedro Weingärtner
A maçã sobre seu ramo é seu desejo, ―
Brilhante suspensão e mímica do sol.
O ramo aprisionou-lhe o sopro, e sua voz
Mudamente articulada na queda e na ascensão
De galho sobre galho acima dela ofusca-a
Prisioneira da árvore e de seus dedos verdes.
E sonha-se ela assim a própria árvore,
Possuída pelo vento, que lhe tece as veias jovens,
Segurando-a contra o céu e o azul breve
Mergulhando no sol a febre de seus braços.
Não tem memória, medo ou esperança
Além da grama e das sombras a seus pés.

Hart Crane (1899-1932)
Tradução: Benedito Nunes

Sapiência

Louis Treseras
Os móveis, as cartas,
A roupa engomada,
As estantes fartas,
Não arrumes nada.

As obras de arte,
A imagem fanada,
Tudo, tudo parte.
Não arrumes nada.

Como nos obriga
A ordeira morada,
Quanta dor mitiga.
Não arrumes nada.

Vais e tudo fica
Um mundo, uma estrada.
Quem o identifica?
Não arrumes nada.

Que pó, fungo, insetos,
Musgo e água parada
Tratem teus objetos.
Não arrumes nada.

Alexei Bueno

17 de setembro de 2016

Sobre o amar e o ouvir

Ilustração: © Alessandra Vitelli
Amamos não a pessoa que fala bonito, mas a pessoa que escuta bonito... A arte de amar e a arte de ouvir estão intimamente ligadas. Não é possível amar uma pessoa que não sabe ouvir. Os falantes que julgam que por sua fala bonita serão amados são uns tolos. Estão condenados à solidão. Quem só fala e não sabe ouvir é um chato... O ato de falar é um ato masculino. Fala é falus: algo que sai, se alonga e procura um orifício onde entrar, o ouvido... Já o ato de ouvir é feminino: o ouvido é um vazio que se permite ser penetrado. Não me entenda mal. Não disse que fala é coisa de homem e ouvir é coisa de mulher. Todos nós somos masculinos e femininos ao mesmo tempo. Xerazade, quando contava as estórias das 1001 noites para o sultão, estava carinhosamente penetrando os vazios femininos do machão. E foi dessa escuta feminina do sultão que surgiu o amor. Não há amor que resista ao falatório.
- Rubem Alves (1933-2014)

O Pão

Camille Pissarro
A superfície do pão é maravilhosa primeiro por causa desta impressão quase panorâmica que dá: como se tivesse ao dispor, sob a mão, os Alpes, o Taurus ou a Cordilheira dos Andes.
Assim pois uma massa amorfa enquanto arrota foi introduzida para nós no forno estelar, onde, endurecendo, se afeiçoou em vales, cumes, ondulações, ravinas... E todos esses planos desde então tão nitidamente articulados, essas lajes finas em que a luz aplicadamente deita os seus lumes, - sem um olhar sequer para a flacidez ignóbil subjacente.
Esse lasso e frio subsolo que se chama o miolo tem o seu tecido semelhante ao das esponjas: folhas ou flores são aí como irmãs siamesas soldadas por todos os cotovelos ao mesmo tempo.
Logo que o pão endurece essas flores murcham e contraem-se: destacam-se então umas das outras e a massa torna-se por isso friável.
Mas quebremo-la, calemo-nos: porque o pão deve ser a nossa boca menos objeto de respeito do que de refeição.
Francis Ponge (1899-1988)
Tradução: Manuel Gusmão

16 de setembro de 2016

Pelo sonho é que vamos

William Adolphe Bouguereau
Pelo sonho é que vamos,
Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não frutos,
Pelo Sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria, ao que é do dia a dia.
Chegamos? Não chegamos?
-Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama (1924-1952)

Surdina

David G Paul
Minha poesia é toda mansa.
Não gesticulo, não me exalto...
Meu tormento sem esperança
tem o pudor de falar alto.

No entanto, de olhos sorridentes,
assisto, pela vida em fora,
à coroação dos eloquentes.
É natural: a voz sonora
inflama as multidões contentes.

Eu, porém, sou da minoria.
Ao ver as multidões contentes
penso, quase sem ironia:
“Abençoados os eloquentes
que vos dão toda essa alegria.”

Para não ferir a lembrança
minha poesia tem cuidados...
E assim é tão mansa, tão mansa,
que pousa em corações magoados
como um beijo numa criança.

Ribeiro Couto (1898-1963))