21 de janeiro de 2017

Árvore Cintilante

Egon Schiele
Uma palavra
pela qual te perdi com prazer:
a palavra
Jamais.

Era,
e por vezes também tu o sabias,
era
uma liberdade.
Nadávamos.

Ainda te lembras que eu cantava?
Com a árvore cintilante cantava, com o leme.
Nadávamos.

Ainda te lembras que nadavas?
Aberta estavas ante mim,
estavas ante mim, estavas
ante mim ante
minha ante-
cipada alma.
Eu nadava por nós dois. Não nadava.
Nadava a árvore cintilante.

Ela nadava? Havia
um charco em volta. Era o lago infinito.
Negro e infinito, assim suspenso,
assim suspenso, mundo abaixo.

Ainda te lembras que eu cantava?

Esta —
oh, esta deriva.

Jamais. Mundo abaixo. Eu não cantava. Aberta
estavas ante mim ante
a alma errante.

Paul Celan (1920-1970)
Tradução: Gilda Lopes Encarnação

Unicamp – 2ª fase 2017

Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte.
A estrada que agora se abre a nossos olhos não se entrecruza com outra nenhuma. Está mais deitada que os séculos, suportando sozinha toda a distância. Pelas bermas apodrecem carros incendiados, restos de pilhagens. Na savana em volta, apenas os embondeiros contemplam o mundo a desflorir.
Um velho e um miúdo vão seguindo pela estrada. Andam bambolentos como se caminhar fosse seu único serviço desde que nasceram. Vão para lá de nenhuma parte, dando o vindo por não ido, à espera do adiante. Fogem da guerra, dessa guerra que contaminara toda a sua terra. Vão na ilusão de, mais além, haver um refúgio tranquilo. Avançam descalços, suas vestes têm a mesma cor do caminho. O velho se chama Tuahir. É magro, parece ter perdido toda a substância. O jovem se chama Muidinga. Caminha à frente desde que saíra do campo de refugiados.
(Mia Couto, Terra Sonâmbula.)
O trecho acima, escrito por Mia Couto, traz uma narrativa sobre o cenário de guerra de Moçambique pós-independência (1977-1992). A partir do texto, responda às questões abaixo.
a) O que são refugiados? Explique, relacionando-os ao processo moçambicano.

b) Apresente dois elementos históricos comuns a Angola e Moçambique, após a independência do domínio português.
Resposta:
a.) Refugiados são os indivíduos que se deslocam dentro do próprio país ou deste para outros, forçados por motivos diversos (guerras, miséria, catástrofes naturais ou perseguições de caráter político, religiosos, étnicos ou social). Os descendentes desses migrantes podem também ser considerados refugiados. No processo moçambicano, a existência de refugiados deveu-se à situação de guerra vivida pelo pais após sua independência.

a.) Tanto Angola como Moçambique sofreram longas guerras civis após a independência e se alinharam a URSS no contexto da Guerra Fria.

20 de janeiro de 2017

Unicamp – 2ª fase 2017

Victor Meirelles - A Primeira Missa no Brasil
Ao analisar A primeira missa no Brasil, obra de. 1860, feita por Victor Meirelles e exposta atualmente no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, o historiador Rafael Cardoso inseriu o quadro no gênero da pintura histórica. Para o autor, tal gênero “deveria partir de um grande e elevado tema e mostrar o domínio do pintor de um amplo leque de informações não pictóricas. Ou seja, em meados do século XIX, tanto a correção da indumentária representada quanto o espírito cívico da obra eram sujeitos a exame detalhado. O quadro teria grandes formatos, composições complexas e perfeito acabamento. A realização de uma pintura assim poderia levar anos e geralmente correspondia a um atestado de amadurecimento do pintor.”
(Adaptado de Rafael Cardoso, A arte brasileira em 25 quadros(1790-1930).
Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2008 p. 54-55.)
a) Explique as razões pelas quais podemos considerar que a obra em questão é baseada em uma noção de história oficial e heroica.

b) Qual era a visão predominante dos integrantes da Semana de Arte Moderna de 1922 em relação à arte acadêmica? Justifique sua resposta.
Resposta:
a) A ideia de uma obra de arte baseada na “noção de história oficial e heroica” pode ser corroborada pelos seguintes aspectos: escolha de um evento de grande importância para a formação da nacionalidade brasileira (sob o ponto de vista da elite dominante), romantizando a relação entre dois grupos étnicos formadores do povo brasileiro, dentro de um padrão estético apoiado na grandiosidade da composição e na precisão do desenho. Deve-se acrescentar o aspecto religioso do tema, enfatizando a importância da Igreja Católica tanto na época do Desenvolvimento como no Segundo Reinado, quando Victor Meirelles pintou a tela em questão.

b) Os integrantes da Semana de Arte Moderna de 1922, na condição de representantes da vanguarda intelectual e artística da época, criticavam o academicismo dominante na arte brasileira de então, por ser fortemente influenciada pelos padrões europeus, dentro de uma estética superada pela modernidade.

Unicamp – 2ª fase 2017

Ticiano Vecellio - Allegory of Prudence
“Onde está aquela tua prudência? Onde está a sagacidade nas coisas que se devem discernir? Onde está a grandeza de alma? Já as pequenas coisas te afligem? (...) Nenhuma destas coisas é insólita, nenhuma inesperada. Ofender-te com estas coisas é tão ridículo quanto te queixares porque caíste em público ou porque te sujaste na lama. (...) O inverno faz vir o frio: é necessário gelar. O tempo traz de novo o calor: é necessário arder. A intempérie do céu provoca a saúde: é necessário adoecer. Uma fera em algum lugar se aproximará de nós, e um homem mais pernicioso que todas as feras. Algo a água, algo o fogo nos retirará. Esta condição das coisas não podemos mudar. Mas isto podemos: adotar um espírito elevado e digno do homem nobre para que corajosamente suportemos as coisas fortuitas e nos harmonizemos com a Natureza.”
(Sêneca, Carta de Sêneca a Lucílio, CVII. Prometeus.)
A partir da leitura do texto escrito pelo filósofo Sêneca.
a) identifique e explique um princípio do estoicismo latino;

b) cite dois legados culturais do mundo romano, além da filosofia, para a tradição ocidental.
Resposta:
a) O texto de Sêneca chama a atenção para as várias manifestações da natureza que são inexoráveis: o inverno que traz o frio, o verão que traz o calor, as intempéries que provocam doenças. Segundo o autor, essas são coisas que “não podemos mudar”. Entretanto, enquanto não podemos alterar as condições da natureza, podemos mudar o nosso comportamento enquanto seres humanos em relação a ela. Nestes termos, o estoicismo latino propõe que tenhamos força suficiente para suportaras adversidades e para harmonizar nosso comportamento com as forças da natureza.

b) Destacam-se entre os legados do mundo romano o Direito e as línguas neolatinas, a religião cristã, a organização administrativas e as técnicas de construção civil.

19 de janeiro de 2017

Fosses tu deus

Andrey Shishkin
Fosses tu deus, seria eu santo
alimentado a areia e gafanhotos,
sem cessar meditando o único nome
que o horizonte deserto não contém.
Sonho que acordo dentro do meu sonho
para o saber mais certo e mais real;
como o místico leio nas entranhas
da ausência a tua sombra desenhada.
E no entanto és gente, sangue e terra,
corpo vulgar crescendo para a morte;
incerto no que fazes, no que sentes,
e cioso do tempo que me dás.
Porque sei que me esqueces é que lembro
Cada instante o que perco e não vem mais.

António Franco Alexandre

Tão Pouco Sentimento é a Emoção

Andrey Shishkin
Tão pouco sentimento é a emoção, que quando
do chão a levantamos se fez leve
maneira de outras águas

Os camiões caminham para o norte
com serenos destroços
as maquinetas baças da invenção

Será verão, os panos levantados;
terás no espelho a idade, o jeito quase
infeliz de ser homem;

O pouco amor te imita; e nunca
chegarás a saber que não existes.

António Franco Alexandre

18 de janeiro de 2017

Teoria

Josephine Wall
Sou o meu redor.

As mulheres sabem.
Não se é duquesa a
Cem metros da carruagem.

Estes, então, são retratos:
Vestíbulo preto;
Cama alta abrigada por cortinas.

Estes são apenas exemplos.

Wallace Stevens (1879-1955)
Tradução: Paulo Henriques Britto

Poesia Mística

Tamara Phillips
Não tenho forma ou imagem
sou o que tudo permeia
Eu existo em todos os lugares
e ainda
estou além dos sentidos.
Não sou a salvação, nem nada que se possa conceber.

Sou Bem aventurança e Consciência Eternas
Eu sou Shiva! Eu sou Shiva!

Nirvana Shatikam Stotram (788-821)

17 de janeiro de 2017

Árvore da Vida

Gustav Klimt
Eu estou empoleirada em cima da Árvore da Vida
canto como um pássaro.
Vários sóis me cercam,
não uma lua ...
O tempo tem deixado de alguma forma.
A vastidão luminosa quentes
vibra com a música das esferas ...
Para sair ou ficar?
Para retornar à terra?
Para quê? -

Abafando as harmonias celestiais
é o grito silencioso
nos olhos da minha filha,
implorando com gratidão lamentável:
Mamãe, acorda!

E você esquece
que você pode cantar como um pássaro.
Você encontra-se na sala de recuperação
Nua mais despojada do que uma árvore sem folhas em dezembro
e seus dentes estão novamente batendo
ao ritmo de vida difícil.

Bem-vindo de volta.

Oné Baliukonè (1948-2007)

16 de janeiro de 2017

Os Cinco Atos do Drama (Peça) do Mundo

E as estações vão girando e girando,
e os póneis pintados sobem descem...
Estamos cativos neste carrossel do tempo,
sem poder voltar para trás,
apenas olhando, de onde viemos.
E continuamos girando, girando,
e girando, no jogo do círculo...

Joni Mitchell

1º Ato: A Idade do Ouro
O 1º Ato inicia-se com a cena do despertar da idade do ouro. Cada indivíduo manifesta, no seu comportamento, a sua natureza divina de pureza, paz, felicidade, amor e verdade, em completa harmonia interior. As suas ações e relacionamentos, amorosos, são os fios que tecem o tecido da sociedade. São seres divinos, cujo respeito pela natureza é tal, que a Terra os serve com abundância. A vida familiar é plena de felicidade porque as relações são baseadas na honestidade e na confiança mútuas. O comportamento e as atitudes são altruístas e de partilha. A integridade da alma expressa-se através da sabedoria natural e da realização espiritual. É o paraíso.
2º Ato: A Idade da Prata
O 2º Ato continua com uma cena, em que a esplendorosa manhã do primeiro dia deu lugar a uma tarde amena e tranquila, onde se manifesta já um gradual declínio, desapercebido pelos próprios atores, que entretanto aumentaram significativamente em número. Embora continuem radiantes de amor e paz, embora a natureza continue resplandecente de cor e beleza, a frescura original que caracterizou a manhã, desapareceu. Os atores começam a prestar maior atenção à forma e funções externas, do que às realidades internas; as experiências dos sentidos vão deixando impressões na alma. A integridade começa a dar lugar à influência. Os recursos materiais são divididos em menor quantidade, para se ajustar à maior procura. Embora não haja negatividade ou tristeza, e todos continuem a ser mestres das artes de viver, a qualidade de vida é ligeiramente menor.
3º Ato: A Idade do Cobre
A mudança do 2º para o 3º Ato, à medida que começa a escurecer, é dramática. É marcada por uma radical mudança de consciência: do auto conhecimento para o auto esquecimento. Este esquecimento do verdadeiro “eu” espiritual, cria dualidade na mente dos atores. Os primeiros sinais de conflito interno e discórdia externa, aparecem dentro da própria peça. Esta queda do estado de graça da consciência da alma, para a ilusão da consciência do corpo, traz consigo a perda de auto-soberania. Os seres humanos são compelidos a procurar o poder e as posses, para compensar um vazio interno, crescente. Ao tentarem reencontrar a verdade e a iluminação perdidas, são enganados, acreditando que o acumular de bens materiais lhes trará segurança e paz mental.
4º Ato: A Idade do Ferro
O 4º Ato encontra o palco do mundo numa total escuridão, ilusão e desespero. Verifica-se um extraordinário declínio dos valores morais, éticos e espirituais. Os seres humanos encontram-se acorrentados aos pilares de práticas e hábitos imorais. A tristeza e a intranquilidade largamente espalhadas, tornam-se a regra do comportamento humano. O mundo está dividido em inúmeros grupos, muitos dos quais se opõem entre si em jogos de poder, com base nos seus próprios interesses e conveniências. A família humana está num ponto de rotura. À medida que a noite avança, a população sofre um aumento exponencial, até que os recursos do planeta alcançam os seus limites.
5º Ato: A Idade do Diamante
O 5º Ato consiste apenas numa cena, na qual o Diretor da Peça se torna o Ator Principal. Ele aparece silenciosamente, num canto do palco, e começa a desvendar as verdades inerentes à história da vida humana: a verdade da imortalidade da alma, o seu relacionamento eterno e verdadeiro com Deus, e o verdadeiro caminho para a elevação e preenchimento. Estas palavras de verdade suscitam, nos atores, lembranças profundas do seu passado longínquo; há um despertar... Diante do amanhecer, eles podem observar, de novo, o carrossel da vida, na sua totalidade: de uma natureza divina à dualidade, da Idade do Ouro à Idade do Ferro... cada alma moldando-se ao ritmo eterno de cada momento, até que o círculo se completa. Com o amor de Deus nos seus corações e a verdade a permear novamente o seu ser, os atores dão os últimos passos na sua saída do palco, unidos na visão da manhã dourada que se aproxima. A escuridão da noite vai dando, gradualmente, lugar à aurora do novo dia. À medida que a cortina vai descendo, no 5º Ato, ela sobe novamente para marcar o início do 1º Ato. A humanidade completou o círculo; a velha jornada da vida acabou; um novo mundo começa!...

Fonte:
Este: ( Brahma Kumaris World Spiritual Organization. )

15 de janeiro de 2017

Estações

Paul Cézanne - Seasons
I
O centro do mundo está em toda a parte e em nós

Uma rua ofereceu-se ao sol
Onde se situava ela e qual a sua importância
Na luz suplicante
Do inverno nascido de um amor menor

Do inverno uma criança coisa de nada
Com o seu séquito de andrajos
Com o seu cortejo de pavores
E de pés frios caminhando sobre túmulos

No deserto tépido da rua.

II
O centro do mundo está em nós e em toda a parte

E de súbito a terra bem-vinda
Foi uma rosácea de sorte
Visível com espelhos louros
Em que tudo cantava com a rosa na mão

À folha verde e ao metal branco
Pegajoso de embriaguez e de calor
Ouro sim ouro para brotar do chão
Debaixo da imensa mole humana

Aos pés da vida opressiva e boa.

Paul Éluard (1895-1952)
Tradução: Maria Gabriela Llansol

14 de janeiro de 2017

Na Pele

John Melhuish Strudwick
O mar, venho ver-lhe a pele a rebentar
ao longo das falésias, o que sempre
me traz a exaltação desses rapazes que circulam
por Lisboa no verão.
O mar está-lhes na pele. Partilho
com eles os quartos das pensões, sentindo as ondas
a avançar entre os lençóis. Perco-me à vista
da pedra onde o mar vem largar a pele.

Luís Miguel Nava (1957-1995)

Vendo-a Sorrir

William Stephen Coleman
(A Minha Filha)
Filha, quando sorris, iluminas a casa
Dum celeste esplendor.
A alegria é na infância o que na ave é asa
E perfume na flor.

Ó doirada alegria, ó virgindade santa
Do sorriso infantil!
Quando o teu lábio ri, filha, a minha alma canta
Todo o poema de Abril.

Ao ver esse sorriso, ó filha, se concentro
Em ti o meu olhar,
Engolfa-se-me o céu azul pela alma dentro
Com pombas a voar.

Sou o Sol que agoniza, e tu, meu anjo loiro,
És o Sol que se eleva.
Inunda-me de luz, sorri, polvilha de oiro
O meu manto de treva!

Guerra Junqueiro (1850-1923)

13 de janeiro de 2017

Bordadeiras do Instituto Dumont

Trabalho das bordadeiras do Instituto Antônia Diniz Dumont
O Brasil toma cor e forma nas mãos de milhares de mulheres bordadeiras. O bordado gera renda para muitas famílias em vários pontos do País e se coloca como uma das mais puras formas de expressão popular, em motivos do folclore brasileiro, da história, da natureza.
A arte milenar que chegou ao Brasil em tempos coloniais adaptou-se aos gostos e cores daqui, transformando a rotina de toda a nossa gente. Virou tradição ensinar o bordado de mãe para filha, criando registros das características do povo através dos anos.
Em Pirapora, interior de Minas Gerais, a família Diniz Dumont encontrou no bordado muito mais que sua fonte de renda. O trabalho das bordadeiras Dumont, desde os primeiros bordados da matriarca Antônia, mostram uma filosofia de inspiração e carinho, em que é possível transformar o artesanato em expressão puramente artística.
O Grupo Matizes Dumont já ilustrou 19 livros para grandes autores como Jorge Amado, Manoel de Barros, Thiago de Mello, Rubem Alves, Marina Colassanti e Ziraldo, entre outros. Ganharam muitos prêmios, como o “Jabuti” (de ilustração) em 1998 e 2000, e entraram na seleta lista do “International Book for Young People” (1999), com o Prêmio Revelação de ilustração.
Em 2006 a família resolveu fazer uma homenagem a um parente distante, Alberto Santos Dumont – o pai da aviação, no ano de seu centenário. A exposição passou por São Paulo, Paris, Belo Horizonte, Brasília e Rio de Janeiro. Depois das mostras, uma das telas ficou de acervo para a família e as demais foram colocadas à venda.
O Instituto Antônia Diniz Dumont (ICAD) foi criado pela família, com o apoio de vários parceiros, com o objetivo de multiplicar a geração de empregos, renda e arte através do bordado e outras atividades inclusivas.

12 de janeiro de 2017

A Floresta do Contrário

Carl Frederic Aagaard
Todas as florestas existem antes dos homens. Elas estão lá e então o homem chega, vai destruindo, derruba as árvores, começa a construir prédios, casas, tudo com muito tijolo e concreto. E poluição também. Mas nesta floresta aconteceu o contrário. O que havia antes era uma cidade dos homens, dessas bem poluídas, feia, suja, meio neurótica.
Então as árvores foram chegando, ocupando novamente o espaço, conseguiram expulsar toda aquela sujeira e se instalaram no lugar.
É o que se poderia chamar de vingança da natureza – foi assim que terminou seu relato o amigo beija-flor. Por isso ele estava tão feliz, beijocando todas as flores – aliás, um colibri bem assanhado, passava flor por ali, ele já sapecava um beijão.
Agora o Nan havia entendido por que uma ou outra árvore tinha parede por dentro, e ele achou bem melhor assim.
Algumas árvores chegaram a engolir casas inteiras.
Era um lugar muito bonito, gostoso de se ficar. Só que o Nan não podia, precisava partir sem demora. Foi se despedir do colibri, mas ele já estava namorando apertado a uma outra florzinha, era melhor não atrapalhar.
LIMA, Ricardo da Cunha. Em busca do tesouro de Magritte
Fragmento

11 de janeiro de 2017

Fuvest 2017

Aí Fabiano parou, sentou-se, lavou os pés duros, procurando retirar das gretas fundas o barro que lá havia. Sem se enxugar, tentou calçar-se - e foi uma dificuldade: os calcanhares das meias de algodão formaram bolos nos peitos dos pés e as botinas de vaqueta resistiram como virgens. Sinhá Vitória levantou a saia, sentou-se no chão e limpou-se também. Os dois meninos entraram no riacho, esfregaram os pés, saíram, calçaram as chinelinhas e ficaram espiando os movimentos dos pais. Sinhá Vitória aprontava-se e erguia-se, mas Fabiano soprava arreliado. Tinha vencido a obstinação de uma daquelas amaldiçoadas botinas; a outra emperrava, e ele, com os dedos nas alças, fazia esforços inúteis. Sinhá Vitória dava palpites que irritavam o marido. Não havia meio de introduzir o diabo do calcanhar no tacão. A um arranco mais forte, a alça de trás rebentou-se, e o vaqueiro meteu as mãos pela borracha, energicamente. Nada conseguindo, levantou-se resolvido a entrar na rua assim mesmo, coxeando, uma perna mais comprida que a outra. Com raiva excessiva, a que se misturava alguma esperança, deu uma patada violenta no chão. A carne comprimiu-se, os ossos estalaram, a meia molhada rasgou-se e o pé amarrotado se encaixou entre as paredes de vaqueta. Fabiano soltou um suspiro largo de satisfação e dor.
Trecho do livro 'Vidas Secas' de Graciliano Ramos
a. O trecho pertence à parte de Vidas secas intitulada “Festa”, na qual se narra a ida da família de sertanejos, acompanhada da cachorra Baleia, à cidade, onde deve participar de uma festividade pública. Considerada esta questão no contexto do livro, como se passa essa participação e o que ela mostra a respeito da socialização da família?

b. O tratamento narrativo dado aos eventos apresentados no trecho confere a ele um tom que contrasta com o que é dominante, no conjunto de Vidas secas. Qual é esse tom? Explique sucintamente.
Resolução:
a) O trecho em análise apresenta a família de Fabiano indo à cidade para acompanhar os festejos de. Natal. O primeiro fato que chama a atenção é o caráter inusitado dessa participação, pois Fabiano e família não se socializam, ou seja, não interagem com os outros. Essa inadaptação reforça a marginalidade da família. Um dos exemplos é a incapacidade de os meninos de manipularem uma linguagem e até entenderem o que se passa à volta deles. Outro exemplo que ganha destaque, no excerto, é o protagonista sofrer muito para calçar suas botinas. Tais fatores servem para criar um contexto que revela a dificuldade de socialização das personagens exclusão social. É por causa disso tudo que, no decorrer da festa, há um anticlímax. Fabiano e família estão alienados em relação ao festejo e até a cadela Baleia considera estranha a quantidade de pessoas.

b) O excerto destacado apresenta a família de Fabiano preparando-se para o festejo de Natal num povoado nordestino. Assim, esse evento acaba servindo para mostrar essas personagens no esforço de assumir elementos civilizadores: a prática de higiene e a preocupação com a indumentária. Essa tentativa de integração social e civilizatória contrasta com a secura existencial a que estão submetidos os protagonistas no conjunto do romance, já que são apresentados como párias, seres alijados da sociedade.

A Natureza Está Falando

“Eu sou a Amazônia, a maior floresta tropical do mundo. Eu mando chuva quando vocês precisam. Eu mantenho seu clima estável. Em minhas florestas, existem plantas que curam suas doenças. Muitas delas vocês ainda nem descobriram. Mas vocês estão tirando tudo de mim. A cada segundo, vocês cortam uma das minhas árvores, enchem de sujeira os meus rios, colocam fogo, e eu não posso mais proteger as pessoas que vivem aqui. Quanto mais vocês tiram, menos eu tenho para oferecer. Menos água, menos curas, menos oxigênio. Se eu morrer, vocês também morrem, mas eu crescerei de novo...”

10 de janeiro de 2017

Fiei-me nos sorrisos da ventura...

Henri Matisse
Fiei-me nos sorrisos da ventura,
Em mimos feminis, como fui louco!
Vi raiar o prazer; porém tão pouco
Momentâneo relâmpago não dura:

No meio agora desta selva escura,
Dentro deste penedo húmido e oco,
Pareço, até no tom lúgubre, e rouco
Triste sombra a carpir na sepultura:

Que estância para mim tão própria é esta!
Causais-me um doce, e fúnebre transporte,
Áridos matos, lôbrega floresta!

Ah! não me roubou tudo a negra sorte:
Inda tenho este abrigo, inda me resta
O pranto, a queixa, a solidão e a morte.


Manuel Maria Barbosa Du Bocage (1765-1805)

Pequena Ária

Jean Auguste Dominique Ingres
I
Alguém uma solitude
Sem o cisne e sem o cais
Mira sua dessuetude
No olhar que já não é mais

Aqui onde a glória finge
Alta que ninguém a tange
Da qual muito céu se tinge
Nos ouros que o sono abrange

Mas languidamente linda
Como livre de alva anágua
Exultadora deslinda

Na onda em que te Insinua
Tua jubilação nua.

II
Indomavelmente vai
Se a minha esperança a aspira
Soar lá no alto onde cai
Perdida em silêncio e ira,

Voz rara ao jardim que a via
Sem nenhum eco talvez,
A ave que uma vez havia
E não se ouve outra vez.

O músico sem receio
Na dúvida perde a vida
Se, não do seu, do meu seio
Sai o ai da despedida

Dilacerado e sem eco
Vai recolher-se a algum beco!


- Stéphane Mallarmé (1842-1898)
Tradução: Augusto de Campos

9 de janeiro de 2017

Rios palpitantes por dentro do cristal

Charles Edward Wilson
Rios palpitantes por dentro do cristal,
A montanha assomando na bruma, mar enfurecido,
E tu com a bola de cristal nas mãos,
Sentada num trono enquanto dormes,
- Deus do céu! -, tu pertences-me.
Acordas para transfigurar
As palavras de todos os dias,
E o teu discorrer transbordante
De poder revela na palavra «tu»
O seu novo sentido: significa «rei».
Simples objetos transfigurados,
Tudo – a bacia, o jarro -, tudo
Uma vez de sentinela entre nós
Se forma límpido, laminar e firme.

Arseny Tarkovsky (1907-1989)
Tradução: Paulo da Costa Domingos

Epifania

Paul Klee
Eu te procurei tal qual os três reis magos
Que caminhavam através de mares e desertos,
Até que um dia uma estrela enviada por ti mesmo
Me trouxe até a tua inefável presença.
Não posso te ofertar o ouro, o incenso e a mirra:
Ofereço-te a minha alma que tu mesmo criaste
Ofereço-te a minha aridez e o meu pecado.
Ilumina agora e sempre todos os que te procuram
E todos aqueles que acreditam no teu fim.
Angústia e escuridão dominam o homem
Porque tu ainda não deste a volta ao mundo.

Murilo Mendes (1901-1975)

8 de janeiro de 2017

Ode XXIV

Louis-Jean-François Lagrenée
Pois que mortal, homem, nasci,
O caminho da vida transporei.
Só sei do tempo em que vivi,
Do que falta correr, eu nada sei...
Deixai-me, pois, tetros cuidados!
Vindo de vós, nada me afeta:
Jamais a vós me renderei
Nem me fareis triste nem fraco.
Antes que eu chegue à grande meta,
Rirei brincando e dançarei
Aos pés do belo e moço Baco!

Anacreonte (563-478 a.C.)
Tradução: Almeida Cousin

A variedade do mundo

Lisa Falzon
Este nasce, outro morre, acolá soa
Um ribeiro que corre, aqui suave,
Um rouxinol se queixa brando e grave,
Um leão com rugido o monte atroa.

Aqui corre uma fera, acolá voa
Com grãozinho na boca ao ninho, uma ave,
Um derruba o edifício, outro ergue a trave,
Um caça, outro pesca, outro enferroa.

Um nas armas se alista, outro as pendura,
Ao soberbo Ministro aquele adora,
Outro segue do Paço a sombra amada.

Este muda de amor, aquele atura.
Do bem, de que um se alegra, o outro chora.
Oh Mundo, oh sombra, oh zombaria, oh nada!

António Barbosa Bacelar (1610-1663)

7 de janeiro de 2017

Tão Longe

Marjorie Miller
Desta memória eu quereria dizer...
Tão apagada agora... quase nada resta
porque ficou tão longe, nos meus anos primeiros de ser homem.

Uma pele como de jasmim... Na noite
de Agosto... Era de Agosto?... Mal relembro
os seus olhos... Eram, suponho, azuis...
Ah sim, azuis. Azuis como safira.

Konstantinos Kaváfis (1863-1933)
Tradução: Jorge de Sena

Filhos

Betsy Cameron
A meu filho Marcos
Daqui escutei
quando eles
chegaram rindo
e correndo
entraram
na sala
e logo
invadiram também
o escritório
(onde eu trabalhava)
num alvoroço
e rindo e correndo
se foram
com sua alegria

se foram
Só então
me perguntei
por que
não lhes dera
maior
atenção
se há tantos
e tantos
anos
não os via crianças
já que
agora
estão os três
com mais
de trinta anos.

Ferreira Gullar (1930-2016)

6 de janeiro de 2017

Cinzentos

Claude Monet
Ao olhar uma opala meio cinzenta
lembrei-me de dois belos olhos cinzentos
que vi; haverá uns vinte anos...

Durante um mês amamo-nos.
Foi-se embora depois creio que para Esmirna,
para lá trabalhar, e nunca mais nos vimos.
Ter-se-ão desfeado - se vive - os olhos cinzentos;
ter-se-á estragado o belo rosto.
Memória minha, guarda-os tu tais como eram.
E, memória, o que podes deste meu amor,
o que podes traz-me de volta esta noite.

Konstantinos Kaváfis (1863-1933)
Tradução: Joaquim Manuel Magalhães