5 de dezembro de 2016

As Quatro Alegorias do Amor de Paolo Veronese

“O prazer do amor dura apenas um instante,
os desgostos do amor duram toda a vida”.

Jean-Pierre Florian
Paolo Veronese - Quatro Alegorias do Amor – União Feliz
Esta série de quatro pinturas, representam vários atributos de amor, ou talvez diferentes fases do amor como “infidelidade”, “desprezo”, “respeito” e culminando em “união feliz”. Elas foram claramente concebidas como compartimentos de um teto decorado e podem se relacionar com uma câmara nupcial. Veronese utilizou este tipo de “perspectiva oblíqua” para decorações de teto em Veneza: o ângulo de aproximação corresponde a um ponto de vista oblíquo por baixo da pintura, evitando a distorção extrema de figuras, diretamente acima da cabeça do espectador. Em 1637 as quatro alegorias, foram registradas na coleção em Praga do imperador Rudolph II, o grande patrono das artes de sua época, que provavelmente as encomendou.
Um casal está unido pelas mãos de uma mulher nua, assistida por um menino (possivelmente Vênus e Cupido, embora faltem características para identificá-los de forma segura). A união entre o casal é marcada por uma coroa de louros, significando sua virtude, e um ramo de oliveira simbolizando a paz. A corrente de ouro provavelmente se refere ao casamento, enquanto o cão é um símbolo de fidelidade.
Paolo Veronese - Quatro Alegorias do Amor – Infidelidade
A teoria dominante é que a imagem representa um triângulo amoroso clássico, com uma carta secreta que está sendo passada entre um dos homens e a mulher nua. O Cupido está à esquerda.
Paolo Veronese - Quatro Alegorias do Amor – Desprezo
O Cupido bate impiedosamente num homem prostrado, enquanto duas mulheres olham com as mãos entrelaçadas. A que está semi-nua, provavelmente, personifica o amor carnal, enquanto a outra, completamente vestida, carrega um arminho, usado frequentemente como um símbolo de castidade. Isto pode ser entendida como uma ilustração de como o amor engloba, mas também é dividido entre o desejo e devoção.
Paolo Veronese - Quatro Alegorias do Amor – Respeito
A interpretação dominante da imagem é que o homem com armadura é tentado pelo Cupido, mas desiste de dormir nu, em respeito.
Paolo Veronese - Quatro Alegorias do Amor – Respeito
Paolo Caliari Veronese (Verona, cerca de 1528 — Veneza, 19 de abril de 1588) foi um importante pintor maneirista da Renascença italiana. Nasceu com o nome de Paolo Cagliari, ou Caliari, tendo incorporado, como usado na Itália de seu tempo, o topônimo que o tornou conhecido, "Il Veronese", por haver nascido em Verona. Sua produção e vida artística, porém, desenvolveram-se em Veneza. Incorporou o estilo maneirismo, com suas complexas perspectivas e as posturas forçadas dos modelos, como as que se encontram em Michelangelo.

Fonte:
( ArteeBlog )

As Rimas

Robert Wade
As rimas são mais chatas do que
as damas de São Vicente: batem à porta
e insistem. Enxotá-las é impossível
mas desde que fiquem do lado de fora são suportáveis.
O poeta decente as afasta
(as rimas), as esconde, trapaceia, tenta
passá-las de contrabando. Mas essas beatas ardem
de zelo e cedo ou tarde (rimas e velhotas)
soam novamente e são sempre as mesmas. .

Eugenio Montale (1896-1981)
Tradução: Geraldo Holanda Cavalcanti

4 de dezembro de 2016

Vênus do Louvre

Vênus de Milo (Louvre - Paris)
No fundo do salão imenso,
qual estrela, ela cintila,
a mãe do amor, nascida da espuma e transmutada
em pedra.

Imortal, ainda respira.
Sem poder desfigurá-la,
mutilou-a
a mão brutal do tempo.

Quando a vi pela primeira vez,
de longe, a feiticeira deslumbrou-me a vista
E eu não a vi sozinha, serenamente pousada
no trono do seu culto universal,
guiando, como outrora,
o seu carro tirado pelas pombas.

Vi aos seus pés um pálido judeu,
adorador fiel, de toda a vida,
ferido de morte,
soluçando adeus ao amor!

Aqui chorou Heine! Aqui
continuará chorando eternamente.
Ficará neste lugar a sombra dele,
enquanto houver um coração ardente e um
cérebro de poeta
que chore Helena desaparecida
e a mágoa de Israel.

Emma Lazarus (1849-1887)
Tradução: Carlos Ortiz

De "V Internacional"

Manifestação em confronto com a polícia na frente do Congresso
Eu
à poesia
só permito uma forma:
concisão,
precisão das fórmulas
matemáticas.
Às parlengas poéticas estou acostumado,
eu ainda falo versos e não fatos.
Porém
se eu falo
"A"
este "a"
é uma trombeta-alarma para a Humanidade.
Se eu falo
"B"
é uma nova bomba na batalha do homem.

Vladimir Maiakovski (1893-1930)
Tradução: Augusto de Campos

3 de dezembro de 2016

Menestrel

Vittore Carpaccio
Porque a minha boca
se abre em riso franco
e as canções nascem
do fundo da garganta
não acreditam que eu sofra
de ter carregado minha pena
tanto tempo.

Porque a minha boca
se abre em riso franco
não ouvem o grito
que sobe do meu peito
E como meus pés
se alegram na dança
não suspeitam sequer
que eu morro...

Langston Hughes (1902-1967)
Tradução: Sérgio Milliet

O Homem

Heinrich Friedrich Füger
Um animal mais santo que esses e mais capaz de
um espírito profundo,
e que pudesse dominar os outros, faltava até então.
Nasceu o homem. Ou o fez com a semente divina
aquele obreiro das coisas, origem de um mundo melhor,
ou a terra, nova e recentemente desviada do alto
éter, retinha sementes do irmão, o céu.
Essa terra, misturada com águas das chuvas, o filho
de Jápeto (*)
modelou à imagem dos Deuses que tudo mantêm
nas medidas.
Enquanto os outros animais, inclinados, olham a terra,
deu ao homem um rosto que se volta para o alto
e ordenou-lhe
ver o céu; e a face erguida, elevá-la aos astros.
Assim, a terra que, havia pouco, fora tosca e informe,
alterada, assumiu desconhecidas figuras humanas

Públio Ovídio Naso (43 a.C.-17)
Tradução: Maria da Gloria Nova

(*) Jápeto → Filho incestuoso de Urano, o céu estrelado, e Gaia, a Terra; o rebento de Jápeto a que o poeta se refere é Prometeu, criador dos homens e doador do fogo à humanidade.

2 de dezembro de 2016

Hino à Virgem de Dante

Virgem Mãe, filha de teu Filho,
humilde e alta mais que qualquer criatura,
termo prefixado de eterno desígnio,

Tu és aquela que a natureza humana
enobreceste de tal forma, que seu Criador
não desdenhou fazer-se sua criatura.

Em teu ventre reacendeu-se o amor,
por cujo calor na eterna paz
assim germinou esta flor.

Aqui és para nós luz meridiana
de caridade; e embaixo, entre os mortais,
és fonte vivaz de esperança.

Mulher, és tão grande e tanto vales,
que quem deseja graças, e a ti não recorre,
é como alguém que desejasse voar sem asas.

A tua benignidade não apenas socorre
quem pede, mas muitas vezes livremente
e antecipa ao pedido.
Em ti, misericórdia, em ti, piedade,
em ti, magnificência, em ti se coaduna todo o bem
que existe nas criaturas.

Dante Alighieri (1265-1321)
(Paraíso, canto XXXIII, vv. 1-21)

Edvard Munch - Sobre vida, amor e morte.

Edvard Munch- Dance of Life – National Gallery, Norway
A Dança da Vida ocorre em uma brilhante noite de verão ao longo da costa de Aasgaardstrand no fiorde de Oslo. Iluminados por uma lua cheia, os casais se envolvem em uma dança energética. A Dança da Vida pertence a uma série chamada Friso da Vida. Os três principais temas do Friso da Vida, amor, ansiedade e morte, são claramente expressos em A Dança da Vida. Assim, esta pintura pode ser vista como um dos pontos centrais da série. A Dança da Vida pode ser interpretada a partir de vários pontos de vista e em vários níveis. A transição das figuras femininas da adolescência para a maturidade sexual até a velhice dá a entender que a pintura lida com o ciclo eterno da vida. Sobre essa "brilhante noite de verão", Munch escreveu: "a vida e a morte, dia e noite andam de mãos dadas". Munch expressa sua consciência sobre o ciclo biológico da existência humana pela maneira como ele dissolve as figuras na paisagem, como seu destino sendo indivisível do ritmo da natureza.
Edvard Munch – Ashes (Cinzas)
Na década de 1890 Munch dedicou-se a uma série ambiciosa de pinturas chamada The Frieze of Life. Este friso foi concebido como uma série de imagens livremente adjacentes, o que daria uma visão clara da vida e da situação do homem moderno. Munch escreveu: "Por meio de tudo, venta a linha curva da costa, e para além dela o mar, enquanto sob as árvores, a vida, com todas as suas complexidades de tristeza e alegria, continua sobre eles". Os três principais temas do Friso da Vida são: amor, ansiedade e morte. A série inclui esboços, pinturas, desenhos e gravuras. Munch não gostava de se separar de suas pinturas porque ele pensava em seu trabalho como um único corpo de expressão. Então, para capitalizar sobre sua produção e obter alguma renda, ele se voltou para artes gráficas para reproduzir muitas de suas pinturas mais famosas, incluindo aqueles nesta série, em gravuras.
As vinte e duas obras que Munch produziu ampliaram sua exploração obsessiva da sexualidade e da mortalidade. O Friso da Vida inclui “O Grito”, a imagem icônica de Munch da angústia moderna. Como fez com muitos dos seus quadros, ele criou diversas versões dela. Na sequência de um colapso nervoso em 1908 e posterior reabilitação, Munch, em grande parte se afastou de imagens de desespero e angústia e criou pinturas mais coloridas, otimistas.
Edvard Munch - O Grito
O segundo de cinco filhos, Edvard Munch (Løten, 12 de Dezembro de 1863 — Ekely, 23 de Janeiro de 1944) perdeu sua mãe e irmã favorita por tuberculose antes de seu décimo quarto aniversário. Tendo abandonado o estudo de engenharia devido a doenças frequentes, Munch decidiu se tornar um artista. Seus primeiros trabalhos revelaram a influência dos pintores plein-ar, como Monet e Renoir. Em 1889, Munch começou a passar longos períodos em Paris. Exposto ao trabalho de Gauguin e outros simbolistas franceses, Munch desenvolveu uma linguagem simplificada de cores ousadas e linha sinuosa para expressar sua visão do sofrimento humano, como a doença e a morte, depressão e alienação.
Como muitos artistas que amadureceram na esteira do impressionismo, Edvard Munch começou sua carreira pintando cenas estreitamente observadas do mundo em torno dele. Mas a obra de Munch assumiu uma ênfase cada vez mais profunda na subjetividade e uma rejeição ativa da realidade visível. O estilo único e altamente pessoal que ele desenvolveu para transmitir humor, emoção, ou memória influenciou fortemente o curso da arte do século XX e, em particular, o desenvolvimento do Expressionismo. Sobre sua arte, dizia: "Minha arte é realmente uma confissão voluntária e uma tentativa de explicar a mim mesmo minha relação com a vida. É, portanto, na verdade, uma espécie de egoísmo, mas eu constantemente espero que através desta, eu possa ajudar os outros a alcançar a clareza".
Fonte: ArteeBlog
Edvard Munch - O Friso da Vida.

30 de novembro de 2016

Oh! não, não jures...

Vincent Van Gogh
Oh! não, não jures; basta que me abraces...
Não creio em vãos protestos femininos.
Tua voz é suave...Inda mais suave
É o teu beijo, o beijo que te roubei.
Eu te possuo... e sei que falso canto
É a voz...Tua voz...

Não! Jura-me querida,
Ainda! ainda! sempre! amor protesta!
Eu creio em ti! Dize-me uma só palavra!
Contra o teu peito a fronte repousando
Eu sou feliz e creio na ventura!
Creio que amas; creio que hás de amar
Além da morte...sempre...eternamente.

Heinrich Heine (1797-1856)
Tradução: Raul Pompéia

Vestibular Fuvest 2017

A adoção do cardápio indígena introduziu nas cozinhas e zonas de serviço das moradas brasileiras equipamentos desconhecidos no Reino. Instalou nos alpendres roceiros a prensa de espremer mandioca ralada para farinha. Nos inventários paulistas é comum a menção de tal fato. No inventário de Pedro Nunes, por exemplo, efetuado em 1623, fala-se num sítio nas bandas do Ipiranga “com seu alpendre e duas camarinhas no dito alpendre com a prensa no dito sítio” que deveria comprimir nos tipitis toda a massa proveniente do mandiocal também inventariado. Mas a farinha não exigia somente a prensa – pedia, também, raladores, cochos de lavagem e forno ou fogão. Era normal, então, a casa de fazer farinha, no quintal, ao lado dos telheiros e próxima à cozinha.
Traduz corretamente uma relação espacial expressa
no texto o que se encontra em:

A prensa é paralela aos tipitis.
A casa de fazer farinha é adjacente aos telheiros.
As duas camarinhas são transversais à cozinha.
O mandiocal e o Ipiranga são equidistantes do sítio.

Alternativa B
Conforme o texto: “Era normal, então, a casa de fazer farinha, no quintal, ao lado dos telheiros e próxima à cozinha.”

29 de novembro de 2016

Vestibular Fuvest 2017

Evidentemente, não se pode esperar que Dostoiévski seja traduzido por outro Dostoiévski, mas desde que o tradutor procure penetrar nas peculiaridades da linguagem primeira, aplique-se com afinco e faça com que sua criatividade orientada pelo original permita, paradoxalmente, afastar-se do texto para ficar mais próximo deste, um passo importante será dado. Deixando de lado a fidelidade mecânica, frase por frase, tratando o original como um conjunto de blocos a serem transpostos, e transgredindo sem receio, quando necessário, as normas do “escrever bem”, o tradutor poderá trazê-lo com boa margem de fidelidade para a língua com a qual está trabalhando.
Boris Schnaiderman, Dostoiévski Prosa Poesia.
De acordo com o texto, a boa tradução precisa:

Evitar a transposição fiel dos conteúdos do texto original.
Desconsiderar as características da linguagem primeira para poder atingir a língua de chegada.
Desviar-se da norma-padrão tanto da língua original quanto da língua de chegada.
Buscar, na língua de chegada, soluções que correspondam ao texto original.

Alternativa D
A fim de “penetrar nas peculiaridades da linguagem primeira”, é necessário “afastar-se do texto para ficar mais próximo deste”, ou seja, diante das especificidades de cada idioma, é preciso buscar soluções que comuniquem a mensagem, de maneira que o interlocutor a compreenda de forma completa, fiel e dentro de sua cultura.

Eu me perdi

Frederick Arthur Bridgman
Eu me perdi na sordidez de um mundo
Onde era preciso ser
Policia agiota fariseu
Ou cocote

Eu me perdi na sordidez do mundo
Eu em salvei na limpidez da terra

Eu me busquei no vento e me encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

Depois vieste tu

Paul Gauguin
Depois vieste tu
(tu quem?)
e meteste nos sonhos, no mel, nos cravos
as pedras que piso.
E apedrejaste a morte
com o teu sorriso.

José Gomes Ferreira (1900-1985)

28 de novembro de 2016

Matem-me, fiéis amigos

Jake Baddeley
Matem-me, fiéis amigos
Porque em ser morto está a minha vida

Amor é o que resta
na frente do teu Amado
Quando estás despido de todos os atributos
Então Seus atributos se tornam tuas qualidades

Entre mim e Ti, apenas eu estou
Tire o mim, e só Tu ficarás

Mansur al-Hallaj (858-922)
Mestre Sufista de origem Persa

A Saga da Família Buarque de Hollanda

Chico Buarque é o seu representante mais famoso. Mas a família reúne outros nomes de importância na área intelectual e política do Brasil.
O compositor Chico Buarque de Hollanda e seus olhos cor de ardósia nunca existiriam se o corajoso Arnau de Hol-landa não tivesse embarcado na caravela que o trouxe de Portugal para o Brasil, em 1535. O marujo foi o marco inicial da família do compositor. Personalidades como o historiador Sérgio, o filólogo Aurélio e tantos outros Buarque de Hollanda também devem sua existência ao tripulante da nau que Duarte Coelho comandou para ocupar sua capitania. A descrição dessa linhagem, dos tempos coloniais até hoje, está em Buarque – uma família brasileira, de Bartolomeu Buarque de Holanda (Casa da Palavra). São dois livros (um ensaio histórico-genealógico de 1.200 páginas e um romance de 200 páginas), resultado da pesquisa de 24 anos em mais de 15 mil documentos. Enquanto conta a saga dessa família repleta de personalidades importantes, o autor vai revelando aspectos pouco conhecidos da história do Brasil. A genealogia ganha ares romanescos e vice-versa. O padre cujo amor à sinhazinha o leva a largar a batina, o senhor de engenho que se casa com a escrava e o ministro que agoniza sob os olhos do imperador, são alguns dos casos relatados. Era uma vez um Buarque, um dentre vários que já existiram e outros tantos que ainda estariam por vir. Era 1797 e, naquela ocasião, José Ignácio Buarque sai para pescar no mar de Maragogi, próximo de Recife. Um infortúnio das águas e dos ventos faz com que o barco vire e Ignácio fique prestes a se afogar. Se as águas tivessem vencido, tragando a vida de Ignácio, seria o fim de uma longa árvore genealógica, que privaria o Brasil de um número imenso de homens e mulheres que fizeram história como desembargadores, juízes, historiadores, pesquisadores e, claro, o músico.
Ignácio sobreviveu e deu origem a dezenas de descendentes, sendo que um em especial preocupou-se em registrar a história de seu antepassado, Bartolomeu Buarque de Holanda, autor do livro “Buarque – Uma Família Brasileira”, lançado este ano. Trata-se de um estudo detalhado sobre a origem da família “Buarque de Holanda”, desde a migração das primeiras famílias que carregavam o sobrenome Buarque. A história do afogamento foi contada a Bartolomeu ainda criança e, segundo ele, este foi o estopim de sua pesquisa.
“Lembro que meu pai contou essa história e eu fiquei fascinado. Ele dizia que esse quase foi o fim da nossa família, afinal, ninguém teria nascido se o Ignácio tivesse morrido. A partir daí, fiquei curioso sobre a vida dele e isso acabou me levando para histórias paralelas, que me levaram mais longe ainda”, comenta Bartolomeu, em entrevista por telefone. Bartolomeu Buarque é economista, mas a profissão não impediu sua paixão pela história da família.
Sua pesquisa data do início da década de 70, coletando depoimentos e materiais em cartórios de todo o país. Em 1992, Bartolomeu ganhou a ajuda de Rosana Delácio e de Yony de Sá Barreto Sampaio, professor do Departamento de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade Federal de Pernambuco. Juntos, eles foram responsáveis pela catalogação de 15 mil documentos. Para que a pesquisa não se tornasse maçante e, ao mesmo tempo, representasse boa parte do pensamento da época, Bartolomeu escreveu uma versão romanceada, misturando ficção e fatos históricos. Para os mais curiosos, o livro também tem uma versão “acadêmica”, como a pesquisa pura, detalhada em cerca de 1.200 páginas.
“Optei pelas duas versões justamente para que as pessoas pudessem escolher. O romance mostrará não só a história dos Buarque de Holanda, mas a história cultural das famílias que cruzaram seus nomes com os nossos”, diz Bartolomeu. O berço desta história está no nordeste, no trecho que compreende Alagoas e Recife, onde há registros de que o padre Antônio Buarque Lisboa se apaixonou pela sinhazinha Ana Tereza Lins, na cidade de Porto Calvo (Alagoas). A união, que já não era bem vista na época, gerou Manuel Buarque de Jesus.
“Um dos documentos mais preciosos que encontrei durante a pesquisa foi um pedido de legitimação do Padre Antônio Buarque, que deseja assumir seu filho com Ana Tereza. Naquela época, não era uma coisa tão absurda os padres terem filhos, mas era preciso ter o reconhecimento da Igreja em Portugal”, explica Bartolomeu. O romance, que já está ganhando destaque tanto no Brasil, quanto em Portugal, não chega a ser uma apologia aos “Buarque de Holanda”, ou mesmo uma biografia do famoso Chico Buarque, primo de segundo grau do autor. A obra é uma visão histórica sobre o desenvolvimento de uma das famílias que sempre estiveram presentes em fatos importantes do país.
ESTUDO
A trama começa no século XVI, ainda na colonização do Brasil, e segue até 1881, com a vida do Ministro Buarque de Macedo, conhecido por ter sido um político que não quis enriquecer às custas do povo. “Eu quis mostrar estes personagens que foram marcantes na árvore genealógica da família. Acredito que, entre todas as ramificações, a mais curiosa é a que gerou a união de José Ignácio Buarque de Macedo e a escrava Maria José. Apesar de analfabeta, ela foi a primeira mulher na família a colocar o estudo como prioridade. Curiosamente, seus descendente fizeram jus à dedicação e geraram figuras como Aurélio Buarque, Chico Buarque e Cristóvam Buarque, entre outros”, explica o autor.
Apesar dos Buarque terem se espalhado principalmente pelos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco e Alagoas, há registros de descendentes no Pará. O desembargador Manoel Buarque da Rocha Pedregulho viveu no Pará no final do século XIX e trabalhou em diversos municípios do interior, como Muaná, Curralinho e São João do Araguaia.
Atualmente, um das herdeiras do nome em Belém é a juíza Filomena Buarque, que esteve presente no lançamento do livro, evento que contou com mais de mil Buarque, Hollanda e curiosos afins. Aliás, aos curiosos, a junção do nome surgiu apenas quando Maria Madalena Paes Barreto de Hollanda Cavalcante casou-se com Manoel Buarque, neto de Maria José (a ex-escrava). A pesquisa de Bartolomeu Buarque é um convite a rever a história do país na perspectiva de duas famílias que estiveram presentes em grandes momentos. A história de “Buarque – Uma Família Brasileira” termina em 1881, no entanto, o autor sabe que há muito mais narrativas que devem ser contadas. “Existem muitas histórias até o dia de hoje e, quem sabe, isso pode se transformar em mais um livro”, diz o autor empolgado.

Fonte:
( Uma Família brasileira )

27 de novembro de 2016

Uma gentileza

Mary Ellenrieder
Estar viva é estar curiosa.
Quando perder interesse pelas coisas
E não estiver mais atenta, álacre
Por fatos, acabo este minguado inquérito.
A morte é a condição do supremo tédio.

Vou deixar que me desintegre
E aí, por saber da paz que a morte traz,
Seria bom seguir convencendo o destino
A ser mais generoso, estender, também,
O privilégio do tédio a todos vocês.

Laura Riding (1901-1991)
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

Massa

Maurice Denis
Ao findar a batalha,
e morto o combatente, dirigiu-se lhe um homem
e lhe disse: - “Não morras; te amo tanto!”
Mas o cadáver continuou morrendo.

Acercaram-se dois e repetiram-lhe:
- “Não nos deixes! Coragem! Volta à vida!”
Mas o cadáver continuou morrendo.

Vieram a ele vinte, cem, mil, quinhentos mil, clamando:
- “Tanto amor, e não poder nada contra a morte!”
Mas o cadáver continuou morrendo.

Já milhões de pessoas o rodeavam,
com a mesma rogativa: - “Fica, irmão!”
Mas o cadáver continuou morrendo.

Rodearam-no, por fim, todos os homens
da Terra: e, vendo-os, o cadáver, triste, emocionado,
a pouco e pouco se incorpora,
abraça o primeiro homem; põe-se a andar...

César Vallejo (1893-1938)
Tradução: Aurélio Buarque de Holanda

26 de novembro de 2016

Para um quase amigo

Johannes Vermeer
Para trás!

Sou pedra.
Você tem de rasgar sua carne para escavar meu peito.

Sou tempestade.
Ninguém relaxa comigo.

Sou montanha.
Moureje até o topo, e vire um solitário.

Sou gelo.
Você tem que congelar para que eu derreta.

Sou mar.
Não vou devolver você.

Se isto o assusta,
Para trás! Para trás!

Ainda que, se você for meu amigo,
Não lhe serei nada disso.

Laura Riding (1901-1991)
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

Augúrios da Inocência

Francois Boucher
Ver um mundo num grão de areia,
E um céu numa flor do campo,
Capturar o infinito na palma da mão
E a eternidade numa hora.

Um tordo rubro engaiolado
Deixa o Céu inteiro irado…
Um cão com dono e esfaimado
Prediz a ruína do estado…
Ao grito da lebre caçada
Da mente, uma fibra é arrancada
Ferida na asa a cotovia,
Um querubim, seu canto silencia…
A cada uivo de lobo e de leão
Uma alma humana encontra a redenção.
O gamo selvagem acalma,
A errar por aí, a nossa alma.
Se gera discórdia o judiado cordeiro,
Perdoa a faca do açougueiro…
A verdade com mau intuito
Supera a mentira de muito.
É justo que assim deva ser:
É do homem a dor e o prazer;
Depois que isso aprendemos a fundo,
Seguros podemos sair pelo mundo…
O inquiridor, que astuto se posta,
Jamais saberá a resposta…
O grito do grilo ou uma charada
À dúvida dão resposta adequada…
Quem duvida daquilo que vê
Jamais crerá, sem como e porquê.
Se duvidassem, sol e lua
Apagariam a luz sua.
Soltar tua ira pode ser um bem,
Mas bem nenhum quando a ira te retém…
Toda manhã e todo entardecer
Alguém para a miséria está a nascer.
Em toda tarde e toda manhã linda
Uns nascem para o doce gozo ainda.
Uns nascem para o doce gozo ainda.
Outros nascem numa noite infinda.
Passamos na mentira a acreditar
Quando não vemos através do olhar,
Que uma noite nos traz e outra deduz
Quando a alma dorme mergulhada em luz.
Deus aparece e Deus é luz amada
Para almas que na noite têm morada,
Mas com a forma humana se anuncia
Para as que vivem nas regiões do dia.

William Blake (1757-1827)
Tradução: Paulo Vizioli

25 de novembro de 2016

A Disciplina do Amor

Carl Vilhelm Holsoe
“Solução melhor é não enlouquecer mais do que já enlouquecemos, não tanto por virtude, mas por cálculo. Controlar essa loucura razoável: se formos razoavelmente loucos não precisaremos desses sanatórios porque é sabido que os saudáveis não entendem muito de loucura. O jeito é se virar em casa mesmo, sem testemunhas estranhas. Sem despesas.”
- Lygia Fagundes Telles

Nunca Tomar Ninguém como Modelo

Utagawa Kunisada
Para as nossas ações e omissões, não é preciso tomar ninguém como modelo, visto que as situações, as circunstâncias e as relações nunca são as mesmas e porque a diversidade dos carácteres também confere um colorido diverso a cada ação. Desse modo, duo cum faciunt idem, non est idem (quando duas pessoas fazem o mesmo, não é o mesmo). Após ponderação madura e raciocínio sério, temos de agir segundo o nosso caráter. Portanto, também em termos práticos, a originalidade é indispensável; caso contrário, o que se faz não combina com o que se é.
Arthur Schopenhauer (1788-1860)
'Aforismos para a Sabedoria de Vida'.

24 de novembro de 2016

Onde estou?

Yoshitoshi Tsukioka
Onde estou? Este sítio desconheço:
Quem fez tão diferente aquele prado?
Tudo outra natureza tem tomado;
E em contemplá-lo tímido esmoreço.

Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço
De estar a ela um dia reclinado:
Ali em vale um monte está mudado:
Quanto pode dos anos o progresso!

Árvores aqui vi tão florescentes,
Que faziam perpétua a primavera:
Nem troncos vejo agora decadentes.

Eu me engano: a região esta não era:
Mas que venho a estranhar, se estão presentes
Meus males, com que tudo degenera!

Cláudio Manuel da Costa (1729-1789)