31 de outubro de 2014

União

Constantino Brumidi
A mim se uniu o mundo, as pálpebras
do mundo revestem as minhas.
A mim, à minha liberdade se uniu o mundo
qual dos dois cria o outro?

Adonis (pseudônimo de Ali Ahamed Said Esber)
Poeta e ensaísta sírio
Tradução: Michel Sleiman

Por Vezes

Anna Razumovskaya
Quando conheces alguém
mais inteligente ou mais estúpido do que tu -
não faças caso disso.
As formigas e os deuses,
acredita, sentem o mesmo.
Que exista mais gente na China,
digamos, que em San Marino,
não é uma desgraça.
A maioria das pessoas, sem dúvida, é
mais negra ou mais branca que tu.
Por vezes és um gigante,
qual Gulliver, ou um anão.
Em algum lugar ou outro estás sempre a descobrir
uma beleza ainda mais radiante,
alguém ainda pior.
És medíocre,
felizmente. Aceita-o!
Sete graus centígrados a mais
ou a menos no termómetro -
e estarias além da salvação.

Hans Magnus Enzensberger
Tradução: João Luís Barreto Guimarães

30 de outubro de 2014

Criança Eterna

Betsy Cameron
“A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
[...]
Ela dorme dentro da minha alma
e às vezes acorda de noite
e brinca com os meus sonhos.”
Alberto Caeiro
Fernando Pessoa (1888-1935)

Que tempos os nossos!

O tempora! O mores!
(Que tempos os nossos! E que costumes!)
Cícero

N. C. Wyeth
“Os animais lutam, mas não fazem guerra.
O homem é o único primata que planeja
o extermínio dentro de sua própria espécie
e o executa entusiasticamente e,
em grandes dimensões”.
Hans Magnus Enzensberger

29 de outubro de 2014

Soneto

Emile Vernon
Amor que imaginei, mas nunca tive,
Tão doce enlevo e tão cruel tormento,
Por tua causa choro e me lamento,
Sem que às dores duríssimas me esquive.

Aquele antigo sonho ainda vive
Neste meu coração triste e sedento
E, posto que me seja sofrimento,
Imploro ao céu que dele me não prive.

Bem, que a males perpétuos me condenas,
Sem a tua presença pura e mansa
As horas vão e vêm, mas não serenas.

De tanto padecer o peito cansa.
Mas entre mil torturas e mil penas
Ainda permanece uma esperança.

José Albano (1882-1923)

O Bardo

Carel Van Rooijen
Não entres nessa noite acolhedora com doçura,
Pois a velhice deveria arder e delirar ao fim do dia;
Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura.

Embora os sábios, ao morrer, saibam que a treva lhes perdura,
Porque suas palavras não garfaram a centelha esguia,
Eles não entram nessa noite acolhedora com doçura.

Os bons que, após o último aceno, choram pela alvura
Com que seus frágeis atos bailariam numa verde baía
Odeiam, odeiam a luz cujo esplendor já não fulgura.

Os loucos que abraçaram e louvaram o sol na etérea altura
E aprendem, tarde demais, como o afligiram em sua travessia
Não entram nessa noite acolhedora com doçura.

Os graves, em seu fim, ao ver com um olhar que os transfigura
Quanto a retina cega, qual fugaz meteoro, se alegraria,
Odeiam, odeiam a luz cujo esplendor já não fulgura.

E a ti, meu pai, te imploro agora, lá na cúpula obscura,
Que me abençoes e maldigas com a tua lágrima bravia.
Não entres nessa noite acolhedora com doçura,
Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura.

Dylan Thomas (1914-1953)
Tradução: Ivan Junqueira

28 de outubro de 2014

Amantes

William Powell Frith
Uma flor
na lonjura da noite
meu corpo calado
se abre
à delicada urgência do orvalho.

Alejandra Pizarnik (1936-1972)
Tradução: João Renato Marino

O Sabiá

............ (Cançoneta)
Foto de Manequinho Correia
Oh! meu sabiá formoso,
Sonoroso,
Já desponta a madrugada,
Desabrocha a linda rosa
Donairosa,
Sobre a campina orvalhada.

Manso o regato murmura
Na verdura
Descrevendo giros mil,
Some-se a estrela brilhante,
Vacilante,
No horizonte cor de anil.
Sobre a campina orvalhada.

Ergue-te, oh! meu passarinho,
De teu ninho,
Vem gozar da madrugada...
Modula teu terno canto,
Doce encanto
De minh’alma amargurada.

Vem junto à minha janela,
Sobre a bela
Verdejante laranjeira,
Beber o eflúvio das flores,
Teus amores,
Nas asas de aura fagueira.

Desprende a voz adorada,
Namorada,
Poeta da solidão,
Ah! vem lançar com encanto
Mais um canto,
No livro da criação!

Oh! meu sabiá formoso,
Sonoroso,
Já desponta a madrugada...
Deixa teu ninho altaneiro,
Vem ligeiro
Saudar a luz da alvorada.

Fagundes Varela (1841-1875)

27 de outubro de 2014

Cosmogonia

Michael R Warren
Nem treva nem caos. A treva
Requer olhos que veem, como o som.
E o silêncio requer o ouvido,
O espelho, a forma que o povoa.
Nem o espaço nem o tempo. Nem sequer
Uma divindade que premedita
O silêncio anterior à primeira
Noite do tempo, que será infinita.
O grande rio de Heráclito o Escuro
Seu irrevogável curso não há empreendido,
Que do passado flui para o futuro,
Que do esquecimento flui para o esquecimento.
Algo que já padece. Algo que implora.
Depois a história universal. Agora.

Jorge Luís Borges (1899-1986)
Tradução: Hector Zanetti

Reflexão:

Claude Monet
Um homem me perguntou
porque eu vivia
nestas verdes colinas,
Sem responder, eu sorri,
com o coração sereno:
flores de pessegueiro
na água corrente:
tudo vai embora e se apaga.
Aqui é outra, a terra.
e outro, o céu.
Nada em comum
com o mundo dos humanos
lá embaixo.

Li Bai (701-762)

26 de outubro de 2014

Polemizar

Hans Zatzka
“É isso. É primavera.
estou feliz, em febre.
Outros
polemizam suas dores.
Eu me polemizo
ou polemizo
_com as flores”.

Affonso Romano de Sant'Anna

Tudo Flui

Colin Campbell Cooper
A terra bebeu a neve
E, de novo, desabrocham
As flores de pessegueiro.
O lago é prata derretida
E são ouro recente
As folhas do salgueiro.
Sobre as flores,
Borboletas empoadas
Descansam suas cabeças de veludo.
Quebra-se a superfície do lago
Quando, do barco parado,
O pescador lança as redes.
Seu pensamento está com a mulher amada.
Ele regressa ao lar,
Tal como a andorinha
Leva comida ao seu par.

Li Bai (701-762)

25 de outubro de 2014

Vaso Chinês

Alfred Stevens
Estranho mimo aquele vaso! Vi-o,
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármor luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado.

Fino artista chinês, enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tinta ardente, de um calor sombrio.

Mas, talvez por contraste à desventura,
Quem o sabe?… de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura.

Que arte em pintá-la! A gente acaso vendo-a,
Sentia um não sei quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa.

Alberto de Oliveira (1857-1937)

Solitude

Cynthia Decker
Juntos, em solitude.
Cada qual com sua chaga.
Cada qual com sua cruz.
Dois corpos antes tão próximos,
separados pela geografia
que a mágoa desenha.
Entre os braços,
interpõe-se
desertos, salinas e dunas.
O amor morreu?
Não. Condensou-se.
Soterrou-se em veios
de duro e negro minério.
Duas árvores cujas raízes
trançaram-se rumo ao fundo.
Que frutos falhos e ásperos
nessas mãos antes tão íntimas,
que, mesmo durante o sono,
permanecem bem fechadas.

Donizete Galvão (1955-2014)

24 de outubro de 2014

Respiro-te

Marcus Stone
Respiro-te por teus poros
na ânsia de nada perder
de sermos dois, mas um.
Nada deixar, nada exceder
a não ser essência
que te impregna,
que nos envolve,
que me absorve
por teus poros.

Donald Malschitzky

Gota de água

Koho Shoda
Gravei tua figura
Em uma gota de água
Lancei a gota de água
Num pequenino arroio
O arroio foi rolando
E perdeu-se num rio
O rio entrou no mar
Depois te fui buscar
E te achei dividida
Teus cabelos ficaram
Numa curva do rio
Teus braços chamavam
Feitos ramos de uma árvore
As pernas completaram
Um corpo de sereia
Que ansiava ser mulher
De teu tronco nasceram
Algas e caracóis
Achei teus olhos garços
Em uma madrepérola
Teu vário coração
Um peixezinho de ouro
Alimentou-se dele
(Hoje no mar é rei
Por tão feliz façanha).

Como estou sem teus beijos
- A um tempo mel e sal -
Bebo a água do rio
Bebo a água do mar.

Homero Icaza Sánchez (1925-2011)
Tradução: Manuel Bandeira

23 de outubro de 2014

Eu canto para ele

Christiane Vleugels
Eu canto para ele.
Eu elevo o presente sobre o passado
(Feito uma árvore perene e livre de raízes, o presente no passado,)
Com tempo e espaço eu o dilato e fundo às leis imortais,
Para a partir delas fazer dele próprio a sua própria lei.

Walt Whitman (1819-1892)
Tradução: Arthur Nogueira

Desesperação de cinzas

Ismael Nery - Anunciação
No martírio das minhas esperanças,
Tive raivas, blasfêmias, desvarios...
E ergui meus braços, hirtos como lanças,
Contra os astros sonâmbulos e frios.

Porque jamais os sóis, em noites mansas,
Rasgassem luz nos meus fatais transvios,
Abri-me em ódios e desesperanças,
Como um vulcão se abre em clarões bravios.

E - cratera de anátemas e assombros —
Tudo queimei em brasas de tormentos...
E, hoje, que o amor despenha em lama e escombros,
- Contra as constelações, a escurecê-las,
Arrojo as cinzas do meu tédio aos ventos
E a fumaça dos sonhos às estrelas...

Moacir de Almeida (1901-1924)

22 de outubro de 2014

Ó amigo!

Pat Brennan
Não busques o jardim distante. Fique onde estás.
Pois em ti mesmo há um jardim florido.

Toma teu lugar sobre o lótus das mil pétalas,
E dali contempla a beleza infinita.

Kabir (1440-1518)
Poeta Hindu

Educação

“Ousarei expor aqui a mais importante,
a maior, a mais útil regra de toda a educação?
É não ganhar tempo, mas perdê-lo”.

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)

Procure Deus no coração

Oleg Trofimov
Onde estiveste, meu filho?
Onde estiveste por tão longo tempo?
Onde andaste?
Que procuraste no mundo?
Prazer e alegria?
Onde devias procurá-las senão em Deus? ...
E onde procurar a Deus senão no seu templo?
E qual é o templo do Deus vivo, senão o templo vivo,
que ele preparou para si mesmo, o teu próprio coração?

Jan Amos Comenius (1592-1670)
em 'O Labirinto do Mundo e o Paraíso do Coração'

21 de outubro de 2014

O Tempo

Paul Gauguin
Sou o Tempo que passa, que passa,
Sem princípio, sem fim, sem medida!
Vou levando a Ventura e a Desgraça,
Vou levando as vaidades da Vida!

A correr, de segundo em segundo,
Vou formando os minutos que correm...
Formo as horas que passam no mundo,
Formo os anos que nascem e morrem.

Ninguém pode evitar os meus danos...
Vou correndo sereno e constante:
Desse modo, de cem em cem anos,
Formo um século, e passo adiante.

Trabalhai, porque a vida é pequena,
E não há para o Tempo demoras!
Não gasteis os minutos sem pena!
Não façais pouco caso das horas!

Olavo Bilac (1865-1918)

O povo é bom tipo.

Georges Barbier
“O povo nunca é humanitário. O que há de mais fundamental na criatura do povo é a atenção estreita aos seus interesses, e a exclusão cuidadosa, praticada sempre que possível, dos interesses alheios.
Quando o povo perde a tradição, quer dizer que se quebrou o laço social; e quando se quebra o laço social resulta que se quebra o laço social entre a minoria e o povo. E quando se quebra o laço entre a minoria e o povo, acabam a arte e a verdadeira ciência, cessam as agências principais, de cuja existência a civilização deriva.
Existir é renegar. Que sou hoje, vivendo hoje, senão a renegação do que fui ontem, de que fui ontem? Existir é desmentir-se. Não há nada mais simbólico da vida do que aquelas notícias dos jornais que desmentem hoje o que o próprio jornal disse ontem. Querer é não poder. Quem pôde, quis antes de poder só depois de poder. Quem quer nunca há de poder, porque se perde em querer. Creio que estes princípios são fundamentais”.
Bernardo Soares
(heterônimo de Fernando Pessoa)
Livro do Desassossego

20 de outubro de 2014

Ácidos e Óxidos

Pierre Auguste Renoir
“Nesta altura do ano quando o vento sopra
Sobre os nossos dias, sabes quem gostava de ser?
Não, cargos ou honras não. Um simples gato ao sol,
Talvez uma maneira ou um sentido para as coisas”.

Ruy Belo (1933-1978)

Cala-te...

Egidio Antonaccio
Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não contempla,
sempre o amor procura,
tacteia no escuro,
essa perna é tua? esse braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua,
morreria agora se mo pedisses,
dorme,
nunca o amor foi fácil,
nunca, também a terra morre.

Eugénio de Andrade (1923-2005)

19 de outubro de 2014

De tudo ficaram três coisas

Sir Peter Paul Rubens
De tudo ficaram três coisas:
A certeza de que estamos começando,
A certeza de que é preciso continuar e
A certeza de que podemos ser
interrompidos antes de terminar
Fazer da interrupção um caminho novo,
Fazer da queda um passo de dança,
Do medo uma escola,
Do sonho uma ponte,
Da procura um encontro,
E assim terá valido a pena existir!

Fernando Sabino (1923-2004)
em "Encontro Marcado"