Imagens, Poesias, Informações







Compartilhe comigo: da comunhão de escrever,
da alegria de ler e do eterno aprender.

Domingo, 12 de Julho de 2009

“A imaginação é mais importante que o conhecimento”. (Albert Einstein)
Ó noite, flor acesa, quem te colhe?
Sou eu que em ti me deixo anoitecer,
Ou o gesto preciso que te escolhe
Na flor dum outro ser?

Sophia de Mello Breyner Andresen
Não é que o mundo seja só ruim e triste.
É que as pequenas notícias
não saem nos grandes jornais.
Quando uma pena
flutua no ar por oito segundos
ou a menina abraça o seu grande amigo,
nenhum jornalista escreve a respeito.
Só os poetas o fazem.

Rita Apoena
"Às vezes ouço passar o vento.
E acho que,
Só para ouvir passar o vento,
Vale a pena ter nascido."

Fernando Pessoa
Enfeite-se com margaridas e ternuras
E escove a alma com flores
Com leves fricções de esperança
De alma escovada e coração acelerado
Saia do quintal de si mesmo
E descubra o próprio jardim

Carlos Drummond de Andrade
“-...o salgueiro é planta
que nasceu com mágoas ...
Até parece árvore católica,

Sempre ajoelhada assim ,nas
tardes comovidas,
molhando as longas ramas,
os longos dedos em cachos...

umedecendo a ponta de suas mãos compridas
nas águas-bentas dos riachos!...

Ernani Fornari
Quem morre, Querido, de pouco precisa
Apenas um Copo d'Água
O Rosto discreto da Flor
Pontuando a Parede lisa,
Um Leque, talvez, do Amigo a Mágoa
E a Certeza de que alguém
No Arco-íris não verá mais cor
Depois que você se for.

Emily Dickinson
O Estado não é a continuação da Família, afirma peremptório Sérgio Buarque de Holanda na primeira linha do capítulo sobre o homem cordial do seu clássico “Raízes do Brasil”.
Há 73 anos, em Outubro de 1936, o “pai do Chico” (como modestamente se apresentava nos últimos anos), identificou a marca diferenciadora da sociedade brasileira. A transferência dos valores e procedimentos da vida privada, doméstica, para a esfera pública foi, segundo ele, a responsável pelas distorções e disfunções que impedem o desenvolvimento de um Estado moderno, anti-familiar, impessoal, isonômico, democrático. E republicano.
A cordialidade que Buarque de Holanda diagnosticou não se situa no âmbito afetivo, sentimental. Não equivale à bonomia e ao bom mocismo, ao contrário, é tenaz e autoritária, clara transgressão às normas que devem imperar numa organização social sem privilégios. A falaciosa cordialidade contida no postulado “aos amigos, tudo” é elitista, opressora, preconceituosa, além de nepotista, patrimonialista e, basicamente, corrupta.
Informalidade não é prova de avanço ou modernidade, é atraso. Preceitos, regras e leis são formalidades adotadas de comum acordo pela maioria dos cidadãos para garantir o seu bem-estar.
O que nos leva à constatação de que nos últimos dias essa incontrolável vocação para a informalidade e para o desapego aos ritos nos levou a uma irregularidade institucional: José Alencar, o presidente em exercício esteve durante muitas horas incapacitado para exercer a sua função.
O país ficou sem presidente da República essa é a verdade. A ninguém ocorreu a idéia de transferir o poder para o presidente da Câmara Federal, Michel Temer (como o previsto no artigo 80 da Cara Magna) embora a opção pela nova cirurgia já estivesse cogitada desde o momento em que José Alencar deixou Brasília para internar-se no Hospital Sírio-Libanês, em S. Paulo.
A solidariedade e a simpatia pelo estado de saúde do vice-presidente, somadas talvez a algumas pitadas de superstição, impediram que se cumprisse uma formalidade comezinha, porém indispensável diante do imponderável e das exigências de um Estado organizado.
A cirurgia levou quase seis horas, depois da anestesia o paciente foi conduzido à sala de reanimação e em seguida à UTI onde deve ficar dois dias. Embora o primeiro boletim médico emitido nesta sexta-feira tenha garantido que o presidente em exercício estivesse “bem disposto e acordado”, é certo que esteve inconsciente e/ou incapacitado para tomar decisões durante um dia.
O regresso do presidente Lula ao território nacional restabelece a normalidade, mas não invalida as preocupações pelo descuido. Sobretudo porque o seu substituto deverá ficar internado dez dias e, além disso, poderá necessitar de novas intervenções já que nem todos os tumores foram retirados.
Não cabe à junta médica que assiste a José Alencar determinar se o seu paciente estava capacitado ou não para exercer a presidência da República. Muito menos ao gabinete do presidente Lula. A Constituição prevê a sucessão do primeiro mandatário, mas não estabelece critérios para avaliar as condições físicas ou mentais do Chefe da Nação em exercício.
Num Estado não-familiar, efetivamente funcional e institucionalizado, caberia aos chefes do Legislativo e do Judiciário antecipar-se a uma eventual fissura legal, sobretudo porque o presidente em exercício já estivera internado dias antes no mesmo hospital. Mas o chefe do Legislativo, José Sarney, é um morto-vivo e o sucessor de Alencar finge-se de morto para não ser envolvido na onda de escândalos.
Neste abençoado pedaço do mundo prevalece a informalidade e a cordialidade. Todos são amigos, todos são compreensivos, tolerantes, adversários de ritos, protocolos e códigos. Esta é uma Grande Família comandada por dois bordões - “Deus nos livre!” e “Dá-se um jeito”.

Sábado, 11 de Julho de 2009

“Consciência: asilo inviolável da liberdade do homem”. (Napoleão Bonaparte)
Amar é ser Sol e Lua
É ser metade da metade
Partilhando inocência crua.
"Perderei a minha utilidade no dia
em que abafar a voz da consciência em mim".

Mahatma Gandhi
"Nem tudo o que escrevo resulta numa realização,
resulta mais numa tentativa.
O que também é um prazer.
Pois nem em tudo eu quero pegar.
Ás vezes quero apenas tocar.
Depois o que toco floresce e os outros
podem pegar com as duas mãos".

Clarice Lispector
“O que mais se pode na vida desejar?...
Sentada na margem do caminho percorrido,
Ver os que passam, ansiosos, correndo, tropeçando...
E dizer baixinho:
Corri tanto quanto você.
E você se quedará, um dia como eu.
A certeza de ter vivido e vencido
A maratona da vida.”

Cora Coralina
Passam as horas, os minutos, os segundos
Passa o tempo, passa alegria,
Mas passa tristeza também,
Passa a adolescência,
Mas passa a imaturidade também
Passam as brincadeiras,
Mas passa a sobriedade também
Passam as dores, passam os amores,
Passam os dias,
Passa a lida,
Passa a vida.
Passam os desejos,
Passam os sonhos
Tudo passa,
Eu passo,
Tu passas,
Ele passa
E nós passamos...

Claudia Liz
Heal the World
Deve haver lugar
Dentro do seu coração
Onde a paz
Brilhe mais que uma lembrança!
Sem a luz, que ela traz
Já nem se consegue mais
Encontrar
O caminho da esperança
Sinta, chega o tempo
De enxugar o pranto dos homens
Se fazendo irmão
Estendendo a mão.
Só o amor
Muda o que já se fez
E a força da paz junta todos outra vez.
Se você for capaz
De soltar a sua voz
Pelo ar
Como prece de criança
Deve então começar
Outros vão te acompanhar
E cantar
Com harmonia e esperança.
Deixe que esse canto
Lave o pranto do mundo!
Pra trazer perdão
E dividir o pão.

Letra de Michael Jackson
Música de Lionel Rith
Petroleiras em Alta
Revista Fortune: Petrobras salta 29 empresas e é a 34ª do mundo.
Apedrejada diariamente pela mídia mercantil de seu próprio país, a Petrobras subiu da 63ª para a 34ª posição entre as 500 empresas de maior faturamento do mundo, no ranking da revista norte-americana Fortune. Pelo critério de lucratividade, a Petrobras apareceu na sexta posição, deixando em sétimo a Microsoft. A crise global provocou profundas mudanças no ranking.
A petroleira estatal foi a única companhia brasileira dentre as 100 maiores do mundo, segundo o levantamento, tendo registrado no ano passado um faturamento de US$ 118,2 bilhões. A segunda colocada brasileira foi o Bradesco, na posição de número 148. Seguiram-se a Itaúsa (controladora do Itaú Unibanco), Banco do Brasil, Vale e Gerdau, nos lugares 149, 174, 205 e 400, respectivamente.
Pelo critério de lucratividade, a Petrobras apareceu na sexta posição, superando gigantes como a Microsoft (7ª), General Electric (8ª), Nestlé (9ª) e Wal-Mart (14ª). Nesse quesito, a mineradora brasileira Vale ficou na 16ª posição.
A oposição brasileira apoiada pela mídia não se conforma e quer estragar com CPI, mas nada disso irá impedir o sucesso da Petrobrás.

Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

“É preciso ter caos e frenesi dentro de si para dar à luz uma estrela dançante”. (Nietzsche)
Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Eugenio de Andrade
É preciso amar as pessoas,
como se não houvesse amanhã.
porque se você parar pra pensar,
na verdade não há.

Renato Russo
Volto a cantar, e voltam-me à memória
As rústicas imagens,
Que guardei na retina
De menino:
O repique do sino
Depois das negras horas da Paixão,
E a brejeira
Canção
Que num toco
Já oco
De cerdeira
- Flauta que um pica-pau lhe dera -
A seiva assobiava à Primavera...

Miguel Torga
O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo
gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma cousa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um
girassol com a cara dela no meio.

Alberto Caeiro
Owen precisava de algum fator que o permitisse classificar o homem separadamente. Ele encontrou no cérebro. Estivera estudando o cérebro dos macacos por muito tempo e sendo uma "autoridade tão ilustre", zombou Darwin, "devia estar certo". Em 1857, Owen anunciou que os humanos possuíam um só lóbulo, um hipocampo menor e hemisférios cerebrais maiores do que os de qualquer outro mamífero, encobrindo completamente o cerebelo.
Por isso, o homem devia permanecer numa subclasse especial reservada somente para ele. O ser humano era tão diferente de um chimpanzé quanto o macaco de um ornitorrinco. Darwin era incrédulo e expressou sua total desesperança: "Não posso aceitar que um humano seja tão "diferente de um chimpanzé". Depois perguntou, com seu jeito muito alegre: "Fico imaginando o que um chimpanzé diria disso?"

Darwin: A Vida de um Evolucionista Atormento
Tradução: Cynthia Azevedo

Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

“A história é o incalculável impacto das circunstâncias sobre as utopias e os sonhos”. (Mariano Picón Salas)
- Quer um conselho?
- Esquece o chão.

A Revolução Constitucionalista de 1932
Getúlio em Itararé, após a Revolução
9 de Julho de 1932. Explode em São Paulo uma revolta contra o presidente Getúlio Vargas. Tropas federais são enviadas para conter a rebelião. As forças paulistas lutam contra o exército durante três meses. O episódio fica conhecido como a Revolução Constitucionalista de 1932. Em 1930, uma revolução derrubava o governo dos grandes latifundiários de Minas Gerais e São Paulo. Getúlio Vargas assumia a presidência do Brasil em caráter provisório, mas com amplos poderes. Todas as instituições legislativas foram abolidas, desde o Congresso Nacional até as Câmaras Municipais. Os governadores dos Estados foram depostos. Para suas funções, Vargas nomeou interventores. A política centralizadora de Vargas desagrada as oligarquias estaduais, especialmente as de São Paulo. As elites políticas, do Estado economicamente mais importante, sentem-se prejudicadas. E os liberais reivindicam a realização de eleições e o fim do governo provisório. O governo Vargas reconhece oficialmente os sindicatos dos operários, legaliza o Partido Comunista e apóia um aumento no salário dos trabalhadores. Estas medidas irritam ainda mais as elites paulistas. Em 1932, uma greve mobiliza 200 mil trabalhadores no Estado. Preocupados, empresários e latifundiários de São Paulo se unem contra Vargas.
Quando se inicia o levante, uma multidão sai às ruas em seu apoio. Tropas paulistas são enviadas para os fronts em todo o Estado. Mas as tropas federais são mais numerosas e bem equipadas. Aviões são usados para bombardear cidades do interior paulista. 35 mil homens de São Paulo enfrentam um contingente de 100 mil soldados. Os revoltosos esperavam a adesão de outros Estados, o que não aconteceu.
Em outubro de 32, após três meses de luta, os paulistas se rendem. Prisões, cassações e deportações se seguem à capitulação. Estatísticas oficiais apontam 830 mortos. Estima-se que centenas a mais de pessoas morreram sem constar dos registros oficiais. A Revolução Constitucionalista de 1932, foi o maior confronto militar no Brasil no século XX. Apesar da derrota paulista em sua luta por uma constituição, dois anos depois da revolução, em 1934, uma assembléia eleita pelo povo promulga a nova Carta Magna.

O Monumento
No concurso aberto para construção do monumento "Mausoléu do Soldado Constitucionalista de 32" (Obelisco), obteve o primeiro lugar o projeto de Galileu Emendabile, escultor italiano; o engenheiro Mário Pucci foi o responsável pela parte técnica das obras do monumento.
Esse monumento compõe-se de um obelisco de mármore travertino romano e de uma cripta, em formato de cruz grega. O viaduto que contorna o monumento aos heróis da Revolução de 32, e ainda o que fica próximo ao Pavilhão da Bienal, receberam nomes bastante significativos aos paulistas que veneram os heróis da epopéia de 1932; o general Euclides Figueiredo e o general Júlio Marcondes Salgado.
Teve como contexto político e social a Revolução de 1932. Os reconstitucionalistas, formados por paulistas civis e parte dos militares, brigavam por autonomia política e uma nova constituição contra os legalistas federais, ligados ao governo Vargas. O estopim da revolução acontece em 23 de maio, mas ela só será irrompida em 9 de julho de 1932. Emendabili construiu o obelisco com 72 metros de altura e esculturas em alto-relevo aplicadas nas faces. Apesar de ter sido inaugurado em 9 de julho de 1955, próximo ao parque do Ibirapuera, o monumento só foi concluído em 1970.
Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário que um
astrólogo arbitrário inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia, o outro desapareceu...

Cecília Meireles
Prêmio de Lula orgulha o país, mas imprensa esconde
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu ontem à noite, em Paris, o prêmio Félix Houphouët-Boigny concedido pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura).
Presidido por Henry Kissinger, ex-secretário de Estado dos Estados Unidos, o júri premiou Lula “por sua atuação na promoção da paz e da igualdade de direitos”.
Não é um premiozinho qualquer. Entre as 23 personalidades mundiais que receberam o prêmio até hoje _ anteriormente nenhum deles brasileiro _ , estão: Nelson Mandela, Yitzhak Rabin, Yasser Arafat, e Jimmy Carter.
Alioune Traoré lembrou durante a cerimônia na sede da UNESCO que um terço dos vencedores anteriores ganhou depois o Prêmio Nobel da Paz.
Pode-se imaginar no Brasil o trauma que isto causaria a certos setores políticos e da mídia caso o mesmo aconteça com Lula?
Thaoré disse a Lula que, ao receber este prêmio, “o senhor assume novas responsabilidades na história”.

Mas nada disso foi capaz de comover os editores dos dois jornalões paulistas, Folha e Estadão, que simplesmente ignoraram o fato em suas primeiras páginas. Dos três grandes jornais nacionais, apenas O Globo destacou a entrega do prêmio no alto da capa.
Para o Estadão, mais importante do que o prêmio recebido por Lula foi a manifestação de dois ativistas do Greenpeace que exibiram faixas conclamando Lula a salvar a Amazônia e o clima. “Ambientalistas protestam durante premiação de Lula”, foi o título da página A7 do Estadão.
O protesto do Greenpeace foi também o tema das únicas fotografias publicadas pela Folha e pelo Estadão. No final do texto, o Estadão registrou que Lula pediu desculpas aos jovens ativistas, retirados com truculência pela segurança, e “reverteu o constrangimento a seu favor, sendo ovacionado pelo público que lotava o auditório”.
“O alerta destes jovens vale para todos nós, porque a Amazônia tem que ser realmente preservada”, afirmou Lula em seu discurso, ao longo do qual foi aplaudido três vezes quando pediu o fim do embargo a Cuba e a criação do Estado palestino, e condenou o golpe em Honduras.
A honraria inédita concedida a um presidente brasileiro, motivo de orgulho para o país, também não mereceu constar da escalada de manchetes do Jornal Nacional. A notícia da entrega do prêmio no principal telejornal noturno saiu ensanduichada entre declarações de Lula sobre a crise no Senado e o protesto do Greenpeace.
É verdade que ontem foi o dia do grande show promovido nos funerais de Michael Jackson, mas também ganhou destaque na escalada e no noticiário a comemoração pelos quinze anos do Plano Real, promovida no plenário do Senado, em que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso aproveitou para atacar Lula.
Diante da manifesta má-vontade demonstrada pela imprensa neste episódio da cobertura da entrega do Prêmio da UNESCO, dá para entender porque o governo Lula procura formas alternativas para se comunicar com a população fora da grande mídia.

Valeu, Lula. Parabéns!

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

“A história do mundo é o registro do homem em busca do pão de todos os dias”. (Hendrik Van Loon)
Tu já tinhas um nome, e eu não sei
se eras fonte ou brisa ou mar ou flor.
Nos meus versos chamar-te-ei amor.

Eugénio de Andrade
"No ponto onde o silêncio e a solidão
Se cruzam com a noite e com o frio,
Esperei como quem espera em vão,
Tão nítido e preciso era o vazio."

Sophia de Mello Breyner
Sou seu poeta só
Só em você descubro a poesia
Que era minha já
Mas eu não via.

Só eu sou seu poeta
Só eu revelo a poesia sua
e à noite indiscreta
você de lua.

Antonio Cicero
Não me salvo
Porque não me acho
Não me acalmo
Porque não me vejo
Percebo até
Mas desaconselho... (...)
"Enquanto durmo."

Zélia Duncan
Não existe o esquecimento total:
as pegadas impressas na alma
são indestrutíveis.

Michael Jackson que o diga!
Thomas de Quincey
Eles são parecidos fisicamente.
Acho que dão o mesmo valor para a educação.

Pelo menos é o que os professores do Estado de São Paulo acham.
Nas Escolas Estaduais de SP, os alunos do Ensino Fundamental recebem livros, distribuído pelo Governo de SP, com a ”historinha” do Chapeuzinho Vermelho em que o Lobo Mau “comeu” a Chapeuzinho. Porém, esse comer foi de forma sexual, com o Chapeuzinho sendo levada para a cama. O caso tem sido abafado pela mídia para que Serra não perca votos.
Pois é, por que será que a mídia abafa o caso?
E também por que a sociedade acha tudo muito natural, tão natural que não se assustem quando daqui alguns anos estiver escrito, nos jornais, educação assim “educassão”.
Só não se esqueçam do modo demotucano de governar que está no governo de SP desde 1993, ou seja, 16 anos.

E o povo vota!

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

“O regador é uma mentira que eu tenho de contar às flores, todas as manhãs.” (Rita Apoema)
Você pensa que em algum lugar
podemos não ser Natureza,
que somos diferentes da Natureza?
Não, nós estamos na Natureza e,
pensamos exatamente como ela.

Carl G. Jung
O passado arrasta consigo um índice secreto que remete à salvação. Será que não há, em vozes a que prestamos atenção, um eco de vozes agora silenciadas? Será que as mulheres que cortejamos não têm irmãs que elas mesmas não chegaram a conhecer? Se assim é, então existe um acordo secreto entre as gerações passadas e a nossa.
Walter Benjamin (1892-1940)
Ai, Senhor, quero ser simples. E tão banal
que até os passarinhos reconheçam
e, sem estranhamento, pousem perto.
Quero ser a que Deus quase esquece,
alma quieta sob o Seu comando,
apenas uma ovelha no rebanho que o segue.
Ai, Senhor, quero ser doce. E tão sutil
que nenhum som se mova em minha voz,
e que ela caia no ar com a leveza de uma folha.
Quero ser aquela de quem Deus não espera
nada de grandioso, o filho mais fraco
e amoroso, a quem Ele lança o olhar mais terno.
Ai, Senhor, quero ser simples e doce. E tão banal e tão sutil
que a violência jamais enxergue o meu rosto no tumulto do mundo.

Murilo Mendes
Belo, belo, belo
tenho tudo quanto quero.
Tenho o fogo de constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo - que foi? passou - de tantas estrelas cadentes.
A aurora apaga-se,
e eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.
O dia vem, e dia adentro
continuo a possuir o segredo grande da noite.

Belo, belo, belo
tenho tudo quanto quero.

Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.
As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
os anjos não compreendem os homens.

Não quero amar,
não quero ser amado.
Não quero combater,
não quero ser soldado.
- Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.

Manuel Bandeira
Dá para Confundir?
Fui assistir ao filme Jean Charles, com o excelente Selton Mello no papel daquele rapaz brasileiro que foi estupidamente assassinado num vagão de metrô, quatro anos atrás, confundido com um terrorista. O filme é quase um documentário, não tem artifícios técnicos, é uma narrativa comum, descolorida, acinzentada como a Londres dos imigrantes.
Jean Charles de Menezes morava numa cidadezinha no interior de Minas e resolveu ir para o exterior tentar ganhar a vida como eletricista, imaginando um futuro melhor pra sua família. Passou a viver com mais três primos, todos tentando faturar algum em moeda forte. Eu saí do cinema pensando em como essa ilusão custa caro. Há um momento em que a atriz Vanessa Giácomo, que interpreta a prima Vivian, que largou o namorado no Brasil para trabalhar em Londres como garçonete numa espelunca onde o dono cospe nos pratos que serve aos muçulmanos, diz a Jean Charles algo como: "maldita a hora que eu vim pra cá para ralar nessa porcaria de cidade". Diz isso à beira do Tâmisa, em frente ao deslumbrante prédio do Parlamento, que para ela não tem nenhum significado - ela está na Europa apenas pelo dinheiro, longe do seu amor, do seu idioma e sem nenhuma oportunidade de crescimento real. Numa situação como essa, é perfeitamente compreensível que Londres se transforme numa porcaria, por mais que doa no nosso ouvido associar essa palavra à terra de Shakespeare.
Jean Charles se divertia como? Não era ouvindo jazz no Ronnie Scott´s, e sim ouvindo Sidney Magal ao vivo num teatro de quinta, cercado de outros brasileiros, muitos deles ilegais no país, saudosos da pátria, do feijão, da goiabada, sem a possibilidade de absorver a cultura do lugar onde estão vivendo, sofisticar o gosto, viver uma experiência nova. O lance era economizar, faturar o máximo possível e voltar pra casa assim que desse. Como fazem milhares de trabalhadores rurais que se transferem para centros urbanos, que saem do interior para as capitais. O êxodo atrás de grana, de trabalho, de dignidade. Não bastasse a dureza que é viver desse modo, em Londres, ainda levar uns tiros na cabeça às dez da manhã dentro de um transporte público, sem chance de defesa, entra pra categoria das histórias inacreditáveis.

Já se passaram quatro anos e ninguém foi punido pela morte de Jean Charles de Menezes. Os policiais que participaram da ação e seus superiores foram inocentados no episódio. A Justiça britânica considerou que houve erro, mas não crime, na morte de Menezes.
Como se vê, quando reclamamos daqui que não tem justiça, lá também não. Não se iludam!

Domingo, 5 de Julho de 2009

“O amor é uma amostra mortal da imortalidade”. (Fernando Pessoa)
Das coisas
que eu fiz a metro
todos saberão
quantos quilômetros são.
Aquelas
em centímetros
sentimentos mínimos
ímpetos infinitos
não?

Paulo Leminski
"Há três categorias de homens:
1. os que contam a sua história;
2. os que não a contam;
3. os que não a têm."

Max Aub
"Algumas pessoas têm amor por você, outras têm raiva.
O que sentem nem sempre depende de seu comportamento.
As reações delas às vezes são justas, outras vezes são injustas.
Dê sem contabilizar.
E esteja atento às necessidades delas."

Dalai Lama
Não te chamo para te conhecer
Eu quero abrir os braços e sentir-te
Como a vela de um barco sente o vento.

Não te chamo para te conhecer
Conheço tudo à força de não ser

Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Há quem garanta que a História
É carroça abandonada
Numa beira de estrada
Ou numa estação inglória

A história é um carro alegre
Cheio de um povo contente
Que atropela indiferente
Todo aquele que a negue!

Chico Buarque de Holanda
Roubo do hoje a força
Fazendo nascer o amanhã.
Da janela acompanho com olhar
As nuvens do céu.
De novo a sombra sinistra
Tolda tristemente meus sonhos.
Tua imagem me acompanha
Por todos os lugares por onde ando.
E em todos os momentos
É a tua presença que espanta
As brumas do desconhecido.
Não faço perguntas.
Tenho medo das respostas que já sei.
Liberta do invólucro físico
Devolverei a matéria ao pó de que fora feito.
Vivi meus três caminhos na terra.
Purgatório. Inferno. Céu.
Tudo de acordo com meus projetos,
Minhas atitudes,
Procurando não reincidir nos mesmos erros.
Agora - vago e espero
Entre ápodos e flagelos
O ressurgir da verdade

R. Tagore
As Estrelas Brilham, Os Homens Sofrem.
Os que olham para as estrelas dizem possuir a verdade. Mas os que olham para os jardins sabem que tudo o que sabem é provisório.
Os olhos da Igreja Católica não vêem jardins; só vêem as estrelas. E é do seu olhar para as estrelas imóveis que ela deseja governar a Terra. Já os jardineiros sabem que há muitos jardins diferentes, nenhum deles é verdadeiro, mas todos são belos...
O SS Bento 16 acredita que Deus revelou à Igreja Católica e somente a ela a verdade total das estrelas. Segue-se, por necessidade lógica, que todos os homens, indivíduos ou igrejas, que têm idéias diferentes das suas, estão privados da verdade. O que torna sem sentido os esforços ecumênicos de aproximação entre as igrejas. O ecumenismo é baseado na crença de que Deus, jardineiro supremo, planta muitos jardins diferentes... Mas quem só olha para as estrelas não pode se deleitar na variedade dos jardins. A Igreja Católica, mãe e mestra de todos, nada tem a aprender.
Segue-se a conclusão ética: compete aos homens encarnar na Terra a verdade eterna das estrelas. Aquilo que deve ser feito é decidido não pela análise da situação qual o comportamento que traria o bem maior ao maior número de pessoas, mas pela imitação da perfeição divina.
A Igreja tem horror à experiência. Experiência é conhecimento que cresce da terra como as plantas. E ela contesta a verdade das estrelas. Roger Bacon, precursor da ciência moderna, por haver afirmado que o conhecimento vem pela experiência, amargou 15 anos na prisão. E a luneta de Galileu quase o levou à fogueira...
Assim, as difíceis questões que a experiência moderna coloca, a AIDS, a camisinha, o aborto, o divórcio, a inseminação artificial, o uso de células-tronco, a ortotanasia, como se não existissem. Indiferentes ao sofrimento dos homens, as estrelas decretam: é pecado abortar um feto sem cérebro, a despeito da inutilidade da gravidez e do sofrimento dos pais... As estrelas brilham no céu. Os homens sofrem na Terra.
Rubem Alves

Sábado, 4 de Julho de 2009

“Só tem convicções aquele que não aprofundou nada”. (Emil Cioran)
Que nome tem uma flor
Que voa de pássaro em pássaro?

Pablo Neruda . "Livro das Perguntas".
"Famílias! Odeio-vos!
Lares herméticos; portas trancadas;
possessões ciumentas da felicidade!"

André Gide
Que as barcaças do Tempo me devolvam
A primitiva urna de palavras.
Que me devolvam a ti e o teu rosto
Como desde sempre o conheci: pungente
Mas cintilando de vida, renovado
Como se o sol e o rosto caminhassem
Porque vinha de um a luz do outro.
Que me devolvam a noite, o espaço
De me sentir tão vasta e pertencida
Como se as águas e madeiras de todas as barcaças
Se fizessem matéria rediviva, adolescência e mito.
Que eu te devolva a fome do meu primeiro grito.

Hilda Hilst
Filho de um padre Ortodoxo e de uma mulher não muito religiosa, e sensível à música, Emil Cioran, nasceu em 8 de abril de 1911, no pequeno vilarejo de Rasinari, na Transilvânia romena. Conforme conta, sua infância não poderia ter sido mais feliz: o pequeno Emil passava os dias brincando pelos campos e montanhas da região, que considerava o verdadeiro paraíso terrestre. Logo cedo, contudo, seria forçado a abandonar este paraíso de infância, por decisão de seu pai, que o enviaria à vizinha Sibiu para que ingressasse no Liceu e aprendesse o alemão - língua e cultura dominantes no contexto do Império Austro-Húngaro ao qual pertencia a Romênia. A mudança resulta dolorosa e traumática: Cioran sente-se despedaçado, como se lhe houvesse sido arrancada uma parte do próprio ser.
A relação difícil que mantinha com o seu pai, devido ao fato do pai ser sacerdote cristão. Desde cedo, Cioran demonstrava uma tendência de fuga e negação da fé cristã, que considerava inaceitável, injustificável. Anos mais tarde, o seu ateísmo e o seu anti-cristianismo ganhariam força através da leitura dos filósofos alemães, Nietzsche principalmente. Leitor do arauto da morte de Deus e, assim como ele, em guerra contra o Cristianismo.
A religião permanecerá tendo um valor ambíguo para ele, que, aos vinte anos, passará por uma crise religiosa pautada pela tentação da fé, da qual resulta seu segundo livro. Se, por um lado, nutre uma paixão confessa pelos místicos cristãos, como Teresa d’Ávila e Meister Eckhart, por outro, vai além das fronteiras do Cristianismo e se interessa também por místicos e filósofos orientais, como Nagarjuna e Cândrakiti, entre outros.
Por volta dos 26 anos, Cioran perde o sono: passa dias inteiros na cama, os olhos pregados no teto, ou, para desespero maior de sua mãe, sai de casa no meio da madrugada para perambular pelas ruas obscuras de Sibiu. Não muito tempo depois, teria uma breve e frustrada experiência como professor. “Eu fui professor durante um ano: os alunos me chamavam de louco demente...”
A insônia também marca sua ruptura em relação à filosofia de Heidegger, cuja “extravagância terminológica”, outrora tida em tão alta estima, Cioran acabaria por desprezar completamente. Trata-se de um acontecimento decisivo para sua mudança de direcionamento intelectual: a insônia esgota a razão, que se revela impotente enquanto recurso existencial nos momentos de maior sofrimento. Sua decepção com a filosofia heideggeriana corresponde à sua decepção com a filosofia acadêmica em geral: “eu deixei de acreditar na filosofia em virtude de uma catástrofe pessoal da qual falo nos meus livros: a perda do sono. Assim, aos vinte e seis anos, abandonei a filosofia, já que ela não me servia para nada.”.
Um episódio notável é quando, farto daquele suplício todo, ele desabafa para a mãe: “Não agüento mais!”; ao que ela responde: “Se eu soubesse, teria abortado”. Mas, disso Cioran se lembra não com pesar, senão que demonstra uma certa gratidão pelo fato de sua mãe lhe ter feito compreender que ele, bem como qualquer existência individual, não passa de uma contingência.
Em 1937, Cioran escreve “Lágrimas e Santos”, livro que, além de refletir o prolongamento da insônia, testemunha uma profunda obsessão pelos santos e místicos cristãos - de onde sua temática fortemente religiosa, ainda que de forma bastante heterodoxa. O livro escandaliza pelo seu caráter blasfemo, ainda que Cioran o defenda das críticas vindas de todos os lados, alegando tratar-se de uma obra verdadeiramente religiosa, fruto de sua crise religiosa.
Depois de escrever, enquanto já reside na França, mais dois livros em romeno - “O Ocaso do Pensamento” e “Breviário dos vencidos” -, Cioran adota o francês como língua oficial.
Suas amizades parisienses são um detalhe importante de sua vida francesa; em Paris, conhece escritores e artistas, mas também mendigos e fracassados em geral, que, se não são citados em seus livros, pelo menos recebem uma referência constante em seus cadernos e entrevistas. Amigos de todos os lugares; dentro da França: Beckett, Michaux, Ionesco; fora dela: os espanhóis Fernando Savater e María Zambrano, o mexicano Octavio Paz, o poeta Paul Celan (seu tradutor na Alemanha), entre outros.
Inclassificável, o pensamento de Cioran é daqueles que não se enquadram em nenhum sistema, nenhuma doutrina filosófica. Pensamento que denuncia tudo, inclusive a si mesmo, consiste em um exercício de desfascinação e clarividência. Filosofia da insônia, da lucidez.
Uma filosofia comprometida com o homem concreto, de carne e osso (Unamuno), que respeita suas contradições e conflitos. “Uma filosofia dos momentos únicos”, com a legítima finalidade de nos ajudar a suportar a vida, uma forma de sabedoria para os tempos modernos, pautada na tomada de consciência da provisoriedade e da vanilidade absoluta da vida.
Cioran faleceu em Paris, no dia 20 de junho de 1995, acometido de Alzheimer. Seus restos mortais estão enterrados no cemitério de Montparnasse, na capital francesa.

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

“O vestuário é uma encadernação que frequentemente vale mais que o livro”. (Pierre Verón)
O que é a História?
É o trabalhar para elucidar progressivamente
o mistério da morte e vencê-la um dia.

Boris Pasternak
Quando lanço a rede,
para apanhar as melhores coisas da vida,
estas me escapam.
Não sei para onde.
Quando lanço em
busca da virtude,
que forma a mim mesma,
são as coisas boas da vida,
que batem à minha porta.

R. Tagore
Tal é a nostalgia: habitar sobre as ondas
e jamais ter abrigo no tempo.
E tais são os desejos: diálogo em surdina
da hora cotidiana com a eternidade.

Tal é a vida. Até o dia em que de ontem
se eleva a mais solitária dentre todas essas horas,
e, sorrindo diferentemente das irmãs,
em silêncio se oferece ao eterno.
Cala-se, como uma oferta ao eterno.

Rainer Maria Rilke
Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.
Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?
Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz do inocente que não sou?

Ninguém responde, a vida é pétrea.

Carlos Drummond de Andrade
O animal humano, como os outros animais, está adaptado para uma certa luta pela vida e quando, graças à sua riqueza, o homo sapiens pode satisfazer todos os desejos sem esforço, a simples ausência do esforço na sua vida afasta dele um elemento essencial de felicidade. O homem que adquire facilmente as coisas pelas quais sente apenas um desejo moderado, conclui que a realização do desejo não dá felicidade. Se tem disposição para a filosofia, conclui que a vida humana é essencialmente desprezível, pois o homem que tem tudo o que precisa ainda assim é infeliz. Esquece-se de que privar-se dalgumas coisas que precisa é parte indispensável da felicidade.
Bertrand Russell, in "A Conquista da Felicidade"
Sei não! Tenho minhas dúvidas.

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

“O historiador é o profeta que olha para trás”. (Heinrich Heine)
As pessoas escrevem a partir de uma
necessidade de comunicação e comunhão com os outros.
Para denunciar aquilo que perturba e
compartilhar o que traz alegria.
As pessoas escrevem contra sua própria solidão
e a solidão dos demais porque supõem que a
literatura transmite conhecimentos,
age sobre a linguagem e a conduta de quem a recebe,
e nos ajuda a conhecermo-nos melhor,
para nos salvarmos juntos.

Eduardo Galeano
Caminho nestas praias entre a areia e a espuma.
A maré alta apagará as marcas dos meus pés
e o vento dissipará a espuma,
mas o mar e a praia permanecerão para sempre.

Khalil Gibran
As Rosas
Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Despedida
Correnteza abaixo, riacho frio, para o mar,
a onda libertadora ela refere:
Não mais por ti meus passos irão,
para sempre e sempre
Corrente, doce corrente, por gramado e prado
Um riacho, então, um rio:
Agora, por ti meus passos devem ir,
para sempre e sempre

Mas aqui suspirará vosso carvalho
E aqui vosso arbusto estremecerá
E aqui por ti zumbirão as abelhas
para sempre e sempre

Milhares de sois jorrarão sobre ti,
Milhares de luas rebrilharão;
Mas não por ti meus passos irão,
para sempre e sempre.

Alfred Tennyson (1809-1892)
A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalha e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas.
Disso eu quis fazer a minha poesia. Dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta as pessoas e as coisas que não têm voz.

(Ferreira Gullar)

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

“Atroz contradição a da cólera; nasce do amor e mata o amor”. (Simone de Beauvoir)
Tanto que choveu
Tanto que molhou
Coração se encheu de amor e transbordou.
Água que correu ribeirão levou
Foi pro oceano e lá se evaporou.

Almir Sater
Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor, - frio escalpelo,
O meu olhar quebrei, a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo.

Segredo dessa alma e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.

E o meu ósculo ardente, alucinado,
Esfriou sobre o mármore correto
Desse entreaberto lábio gelado…

Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado,
Sereno como um pélago quieto.

Camilo Pessanha (1867-1926)
"Como Nasceu a Alegria"
Você pode não acreditar, mas é verdade: muitos anos atrás a terra era um jardim maravilhoso. É que os anjos, ajudados pelos elefantes, regavam tudo, com regadores cheios de água que eles tiravam das nuvens. Esta era a sua primeira tarefa, todo dia. Se esquecessem, todas as plantas morreriam, secas, estorricadas... Para que isso não acontecesse, Deus chamou o galo e lhe disse:
- Galo, logo que o sol aparecer, bem cedinho, trate de cantar bem alto para que os anjos e os elefantes acordem...
E é por isto que, ainda hoje, os galos cantam de manhã...
Flores havia aos milhares. Todas eram lindas. Mas, infelizmente, todas elas eram igualmente vaidosas e cada uma pensava ser a mais bela.
E, exibindo as suas pétalas, umas para as outras, elas se perguntavam, sem parar:
- Não sou a mais linda de todas?
Até pareciam a madrasta da Branca de Neve. Por causa da vaidade, nenhuma delas ouvia o que as outras diziam e nem percebiam que todas eram igualmente belas.
Por isso, todas ficavam sem resposta.
E eram, assim, belas e infelizes.
No meio de tanta beleza infeliz, entretanto, certo dia uma coisa inesperada aconteceu. Uma florinha, que estava crescendo dentro de um botão, e que deveria ser igualmente bela e infeliz, cortou uma de suas pétalas num espinho, ao nascer. A florinha nem ligou e vivia muito feliz com sua pétala partida. Ela não doía. Era uma pétala macia. Era amiga.
Até que ela começou a notar que as outras flores a olhavam com olhos espantados. E percebeu, então, que era diferente.
- Por que é que as outras flores me olham assim, papai, com tanto espanto, olhos tão fixos na minha pétala...?
- Por que será? Que é que você acha?, perguntou o pai.
Na verdade, ele bem sabia de tudo. Mas ele não queria dizer. Queria que a florinha tivesse coragem para olhar para as vaidosas e amar a sua pétala.
- Acho que é porque eu sou meio esquisita..., a florinha respondeu.
E ela foi ficando triste, triste... Não por causa da sua pétala rachada, mas por causa dos olhos das outras flores.
- Já estou cansada de explicar. Eu nasci assim... Mas elas perguntam, perguntam, perguntam...
Até que ela chorou.
Coisa que nunca tinha acontecido com as flores belas e infelizes.
A terra levou um susto quando sentiu o pingo de uma lágrima quente, porque as outras flores não choravam.
E ela chamou a árvore e lhe contou baixinho:
- A florinha está chorando.
E a terra chorou também.
A árvore chamou os pássaros e lhes contou o que estava acontecendo. E, enquanto falava, foi murchando, esticando seus galhos num longo lamento, e continua a chorar até hoje, à beira dos rios e dos lagos, aquela árvore triste que tem o nome de chorão. E das pontas dos seus galhos correram as lágrimas que se transformaram num fiozinho de água...
Os pássaros voaram até as nuvens.
- Nuvens, a florinha está chorando.
E choraram lágrimas que se transformaram em pingos de chuva...
As nuvens choraram também, juntando-se aos pássaros numa chuva enorme, choro do céu.As lágrimas das nuvens molharam as camisolas dos anjinhos que brincavam no céu macio. E quiseram saber o que estava acontecendo. E quando souberam que a florinha estava chorando, choraram também...
E Deus, que era uma flor, começou a chorar também.
E a sua dor foi tão grande que, devagarinho, como se fosse espinho, ela foi cortando uma de suas pétalas.
E Deus ficou tal e qual a florinha.
E aquele choro todo, da terra, das árvores, dos pássaros, dos anjos, de Deus, virou chuva, como nunca havia caído.
O sol, sempre amigo e brincalhão, não agüentou ver tanta tristeza. Chorou também. E a sua boca triste virou o arco-íris...
E as chuvas viraram rios e os rios viraram mares. Nos rios nasceram peixes pequenos. Nos mares apareceram os peixes grandes.
A florinha abriu os olhos e se espantou com todo aquele reboliço. Nunca pensou que fosse tão querida. E a sua tristeza foi virando, lá dentro, uma espécie de cócega no coração, e sua boca se entortou para cima, num riso gostoso...
E foi então que aconteceu o milagre.
As flores belas e infelizes não tinham perfume, porque nunca riam. Quando a florinha sorriu, pela primeira vez, o perfume bom da flor apareceu. O perfume é o sorriso da flor.
E o perfume foi chamando bichos e mais bichos...
Vieram as abelhas... Vieram os beija-flores... Vieram as borboletas... Vieram as crianças. Um a um, beijaram a única flor perfumada, a flor que sabia sorrir. E sentiram, pela primeira vez, que a florinha, lá dentro do seu sorriso, era doce, virava mel...
Esta é a estória do nascimento da alegria.
De como a tristeza saiu do choro, do choro surgiu o riso e o riso virou perfume. A florinha não se esqueceu de sua pétala partida. Só que, deste dia em diante, ela não mais sofria ao olhar para ela, mas a agradava, como boa amiga.
Quanto aos regadores dos anjos, nunca mais foram usados.
De vez em quando, olhando para as nuvens, a gente vê um deles, guardado lá dentro, já velho e coberto de teias de aranha... Enquanto a florinha de pétala partida estiver neste mundo, a chuva continuará a cair e o brinquedo de roda em volta do seu sorriso e do seu perfume não terá fim.
Rubem Alves

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

“A cor é a música dos olhos”. (Goethe)
Dia de chuva é para viajar
na neblina e no vento
para dentro para dentro.

Um livro fechado espera
que se abram as suas portas
com as chaves do pensamento.
Roseana Murray
... Clamamos por aí, em botequins
e livros, "que o país é uma choldra".
Mas que diabo!
Porque é que não trabalhamos
para o refundir, o refazer
ao nosso gosto e pelo molde
perfeito das nossas idéias?...
Eça de Queiroz (Os Maias)
"Por que tão duro?
- falou certa vez ao diamante o carvão de cozinha;
não somos parentes próximos?"
Por que tão moles? Ó meus irmãos,
assim vos pergunto; pois não sois meus - irmãos?
Por que tão moles, tão amolecidos e condescendentes?
Por que há tanta negação, abnegação em vossos corações?
Tão pouco destino em vosso olhar?
E se não quereis ser destinos e inexoráveis:
como podereis um dia comigo - vencer?
E se a vossa dureza não quer cintilar, cortar e retalhar:
como podereis um dia comigo - criar?
Pois todos os que criam são duros.
E terá de vos parecer bem-aventurança imprimir
vossa mão nos milênios como se fossem cera
- Bem-aventurança escrever na vontade
de milênios como se fossem bronze
- mais duros que bronze, mais nobres que bronze.
Apenas o mais nobre é perfeitamente duro.
Esta tábua, ó irmãos, ponho sobre vós: tornai-vos duros!
Nietzsche, In:Crepúsculo dos Ídolos.
(Embora dureza demais não é bom né?)
- Qual a mais forte das armas,
A mais firme, a mais certeira?
A lança, a espada, a clavina,
A pistola? O bacamarte?
A espingarda, ou a flecha?        
O canhão que em praça forte
Faz em dez minutos brecha?
- Qual a mais firme das armas?
O terçado, a fisga, o chuço,
O dardo, a maça, o virote? 
A faca, o florete, o laço, 
O punhal, ou o chifarote?...       
A mais tremenda das armas,
Pior que a durindana,
Atendei, meus bons amigos:
Se apelida: - A língua humana!
Fagundes Varela
As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpa. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes. Algumas palavras sugam-nos, não nos largam: são como carraças: vêm nos livros, nos jornais, nos slogans publicitários, nas legendas dos filmes, nas cartas e nos cartazes. As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras.
José Saramago
Bernard Madoff (um dos maiores fraudadores de todos os tempos), foi condenado nesta segunda-feira (29/06) a 150 anos de prisão por um tribunal de Nova York.
* Igualzinho aqui né?

Domingo, 28 de Junho de 2009

“Aconteceu-me do alto do infinito...Esta Vida”. (Fernando Pessoa)
Sou homem: duro pouco...
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.
Octávio Paz (1914 1998)
Pode alguém dizer-me
até onde vai a minha vida?
Sou um sopro na tempestade,
uma onda no lago?
Ou serei, talvez,
essa branca e pálida bétula
arrepiada de primavera?
Rainer Maria Rilke
Abismo
Talvez o abismo nos engula
Talvez cheguemos a Atlântida
Talvez não tenhamos mais a força
de mover montanhas.
Mas somos o que somos.
Alfred Tennyson (1809-1892)
Não saber o que aconteceu
antes do teu nascimento
seria para ti a mesma coisa
que permanecer criança para sempre.
Marcus Tullius Cícero