19 de abril de 2014

A Cidade

Egon Schiele
A cidade é um chão de palavras pisadas
A palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
A palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco. Um pulmão que respira
Pela palavra água pela palavra brisa.
A cidade é um poro um corpo que respira
Pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem ruas de palavras abertas
Como estátuas mandadas apear.
A cidade tem praças de palavras desertas
Como jardins mandados arrancar.

A palavra esperança é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa-chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
Não há rua de sons que a palavra não corra
À procura da sombra duma luz que não há.
José Carlos Ary dos Santos (1937-1984)

18 de abril de 2014

Fugazes

Domenichino
Sobre a alvura e o vazio da página
voejam ideias e anjos.

Há que puxá-los pelas asas rápidas,
que não se rompa o fio da candura.
Cuidado com o cetim da vestimenta
e o arisco vaga-lume das espáduas.

E há que entretê-los - que não se extraviem
ou se desfaçam a algum ledo engano.
Há que agarrá-los pelas mãos de nuvens,
aprisioná-los nesse escasso armário.

Asas abertas sobre brancas folhas,
voam anjos de túnicas fugazes
trançando em dedos frágeis alguns fios
da vasta cabeleira das palavras.
Ymah Théres (1939-2008)

17 de abril de 2014

Os Ombros Suportam o Mundo

“Segue o teu caminho e deita-te nele apenas para morrer”.
Sidonie Colette (1873-1954)
Sir Edward John Poynter
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Cerimônia do Lava-pés.

Del Parson
A origem da prática pode estar nos costumes referentes à hospitalidade das civilizações antigas, especialmente naquelas onde a sandália (um calçado aberto) era o principal tipo de calçado. O anfitrião, ao receber um hóspede, providencia uma vasilha com água e um servo para lavar-lhe os pés.
Cristo fez isso com humildade. O colocar-se abaixo, considerar uns aos outros superiores a si mesmo.

16 de abril de 2014

Dois Meninos

Giulio del Torre
Meu menino canta, canta
Uma canção que é ele só que entende
E que o faz sorrir.

Meu menino tem nos olhos os mistérios
Dum mundo que ele vê e que eu não vejo
Mas de que tenho saudades infinitas.

As cinco pedrinhas são mundos na mão.
Formigas que passam,
Se brinca no chão,
São seres irreais...

Meu menino d'olhos verdes como as águas
Não sabe falar,
Mas sabe fazer arabescos de sons
Que têm poesia.

Meu menino ama os cães,
Os gatos, as aves e os galos,
(São Francisco de Assis
Em menino pequeno)
E fica horas sem fim,
Enlevado, a olhá-los.

E ao vê-lo brincar, no chão sentadinho,
Eu tenho saudades, saudades, saudades
Dum outro menino...
Francisco Bugalho (1905-1949)

harmonia

Jane Small
Como a floresta,
faz de mim a tua lira,
não importa que também as minhas folhas caiam,
o tumulto das tuas poderosas harmonias
virá arrancar-nos

um som profundo do Outono suave,
apesar da sua tristeza.

Percy Bysshe Shelley (1792-1822)

15 de abril de 2014

Coroa de Rosas

Jules Scalbert
Coroem-me de rosas
Entre folhas breves
Que se desfolhem
E desapareçam
Antes que eu veja
Sua peleja pela vida
Ao anoitecer
Molhadas de estrelas
Que descem do céu
Para entretê-las
Não quero um lírio
Agonizando de frio
Prefiro rosas que perfumem Meu jardim,
Rosas de folhas breves
Que se desfolhem diante de mim
E exalem seu perfume
Mesmo entre jasmins.
Vany Campos

Aprendi...

Vincent van Gogh
Aprendi que se aprende errando
Que crescer não significa fazer aniversário
Que o silêncio é a melhor resposta, quando se ouve uma bobagem
Que trabalhar significa não só ganhar dinheiro
Que amigos a gente conquista mostrando o que somos
Que os verdadeiros amigos sempre ficam com você até o fim
Que a maldade se esconde atrás de uma bela face
Que não se espera a felicidade chegar, mas se procura por ela
Que quando penso saber de tudo ainda não aprendi nada
Que a Natureza é a coisa mais bela na Vida
Que amar significa se dar por inteiro
Que um só dia pode ser mais importante que muitos anos
Que se pode conversar com estrelas
Que se pode confessar com a Lua
Que se pode viajar além do infinito
Que ouvir uma palavra de carinho faz bem à saúde
Que dar um carinho também faz…
Que sonhar é preciso
Que se deve ser criança a vida toda
Que nosso ser é livre
Que Deus não proíbe nada em nome do amor
Que o julgamento alheio não é importante
Que o que realmente importa é a Paz Interior
E finalmente, aprendi que não se pode morrer,
pra se aprender a viver…

Carlos Castañeda (1925-1998)

14 de abril de 2014

A Beleza…

Paul Fischer
Eu sou bela, ó, mortais! Como um sonho de pedra,
E o meu seio, onde cada um se fere um pouco,
É feito para inspirar ao poeta um amor louco
Eterno e mudo como Fedra.
Reino no azul como uma esfinge indecifrada;
Coração, igual aos cisnes, branco como a neve,
Odeio o movimento que a linha do tempo descreve.
Nunca choro nem jamais acho graça de nada.
Os poetas, diante das minhas graves atitudes,
Que pareço copiar de monumentos semelhantes,
Gastarão os seus dias em austeras virtudes;
Pois tenho, para fascinar esses tolos amantes,
Espelhos cristalinos que tornam as coisas mais belas:
Meus olhos, meus largos olhos que brilham como telas!

Charles Baudelaire (1821-1867)

13 de abril de 2014

As 10 maiores pinturas do mundo

As 10 maiores pinturas do mundo, segundo
o critico de arte do Dailymail Brian Sewell
1 . MASACCIO 1401-1428
Seus afrescos são monumentos ao Humanismo e introduzem uma plasticidade nunca antes vista na pintura. Foi o primeiro grande pintor italiano depois de Giotto e o primeiro mestre da Renascença italiana. Masaccio entendeu o que Giotto iniciara no fim da Idade Média e tornou essa compreensão acessível a todos. Morreu aos 27 anos, mas sua obra é madura.
Foi chamado Masaccio (Tommaso Grandão). Apesar de sua breve carreira, ele afetou profundamente a obra de outros artistas. Foi um dos primeiros a usar a perspectiva científica na pintura.
Masaccio - O Batismo dos Neófitos
O Batismo de Neófitos: A figura de São Pedro é monumental, como arredondado como uma escultura, a verdadeira luz da janela capela parecendo cair sobre suas costas. Três convertidos ao cristianismo devem ser batizados: um se ajoelha em águas rasas do rio Jordão, o segundo arrepios na margem, o terceiro está puxando suas roupas. Na Renascença esta é a mais antiga evidência de tal realismo na pintura do nu de um modelo vivo.
2. LEONARDO DA VINCI 1452-1519
O próximo grande inovador . Como escultor, arquiteto, engenheiro, matemático e cientista este "gênio universal" legou apenas cadernos e desenhos que eram mais ou menos desconhecido até o século 19, mas de pinturas Leonardo deixou uma dúzia que eram famosos no seu dia, ainda venerada como entre a maior já realizada. A Última Ceia continua a ser uma obra-prima sem precedentes de organização dramática.
Leonardo da Vinci - A Última Ceia
A Última Ceia: A representação tradicional da Última Ceia foi uma classificação de 11 apóstolos e Cristo de um lado de uma longa mesa, e Judas Iscariotes, de outro. Leonardo os trouxe todos juntos, ilustrando o momento em que Cristo anunciou que um iria traí-lo, e, em seguida, descreveu suas respostas assustados de espanto, consternação e recuo.
3. RAPHAEL 1483-1520
15 anos depois de A Última Ceia de Leonardo, Raphael deu um grande salto para além dela, muito ampliando a arquitetura do espaço pictórico, parecendo preencher toda divulgação e aprofundamento medida com figuras, desenvolvendo e multiplicando-se a classificação na etapa superior - ainda afrouxá-los também - que são o equivalente a posição de Leonardo dos Apóstolos. Uma composição muito mais complexo do que encontramos ecos na arte acadêmica até quase o final do século 19.
Raphael - Escola de Atenas
Raphael - Escola de Atenas: Raphael construiu uma maravilha irreal da arquitetura clássica para a sua montagem de filósofos, matemáticos e sábios do mundo antigo. Que Platão e Aristóteles são gigantes entre eles é claro, e não pelo tamanho, mas, colocando-os centralmente na composição, emoldurado por arco, o espaço antes deles aberto, atraindo os olhos em direção a eles.
4. MICHELANGELO 1475-1564
Michelangelo, que era o rival um pouco mais velho e desdenhoso de Rafael, foi menos influenciado por Leonardo, e talvez mais influenciado por Masaccio - é possível sentir uma lembrança da Capela Brancacci mesmo , nas últimas pinturas de sua vida longa, os afrescos gêmeos da crucificação de São Pedro e A Conversão de São Paulo. Mas Michelangelo é muito mais conhecido por suas ilustrações bíblicas no teto da Capela Sistina - pinturas que dotados pintores europeus com mil ideias e imagens para mendigar, pedir emprestado e roubar . O teto conta os contos de Gênesis, enfeitados com profetas e sibilas , santos e pecadores , jovens nus heroicos e Adão imortal no momento da sua criação. O Juízo Final é uma lembrança dramática do céu e do inferno, o ressuscitado convocado por anjos, os salvos , os condenados e a descida ao inferno . Onde é que Rubens, no século 17 foi se inspirar?
Michelangelo - A Criação de Adão
Michelangelo - A Criação de Adão: aplicou seu conhecimento do nu para a construção de uma figura ideal imaginado perfeito na proporção e na musculatura hercúlea, realista, mas não contido pelo realismo; Deus, apoiado pelos anjos dentro de sua capa que flui, chega em sua direção, e suas mãos estendidas e os dedos apontando são drasticamente silhueta como uma ponte através de um céu sem nuvens.
5. TITIAN 1480-1576
Uma obra que mistura beleza e sensualidade, encomendada pelo Duque de Urbino para servir de modelo a sua futura esposa. Considerado um dos mais versáteis pintores da Itália, o renascentista Ticiano concebeu no ano de 1538 a obra Vênus de Urbino, encomendada pelo Duque de Urbino para celebrar o seu casamento.
O Duque estava para se casar com Giulia Varano, uma moça extremamente jovem, e aparentemente encomendou a tela para que ela tivesse um modelo a seguir e agradar o seu marido após o matrimônio.
Ao fundo, você pode notar a presença de duas senhoras, sendo que uma delas está mexendo num baú. Trata-se das empregadas da Vênus, que provavelmente estão a procura de suas roupas.
Titian - Venus Of Urbino:
Em cima da cama não está apenas a moça, mas também um cão, que costumava ser retratado para representar a fidelidade. O colchão, abaixo dos lençóis brancos, é vermelho, podendo representar a volúpia.
A cortesã Angeladel Moro foi a modelo usada por Ticiano na criação da Vênus, e ela olha diretamente na direção do espectador, como se não sentisse nenhum pudor com a sua nudez.
Atualmente, a obra pode ser vista na Galleria degli Uffizi, em Florença.
6. CARAVAGGIO 1571-1610
Caravaggio não devia nada a qualquer mestre anterior, mas foi imediatamente individual, peculiar em sua escolha de jovens andróginos em indivíduos ambígua, erótica e ilusionista.
Caravaggio - A Vocação de São Mateus
Um cenário de uma conversa ou um debate, representando o naturalismo, onde se têm homens e uma mulher na cena, quatro homens e uma mulher sentada e mais dois homens em pé. Há uma parte superior, ocupada só por uma janela, e o inferior, no que se representa o momento preciso no que Cristo apontando a são Mateus. O santo está sentado frente a uma mesa com um grupo de pessoas, vestidas como os contemporâneos de Caravaggio, como numa cena de taberna. Cristo traz a luz verdadeira a este espaço escuro dos angariadores de impostos. Para acentuar a tensão dramática da imagem e focalizar sobre o grupo dos protagonistas a atenção de quem olha, recorre ao expediente de submergir a cena numa penumbra cortada por raios de luz branca, que faz emergir os gestos, as mãos, ou parte da roupa, e deixa quase invisível o resto. Apenas são Mateus enxerga o Cristo e reconhece o seu chamado. Alguns olhares estão tão atentos em contar o dinheiro que nem o percebem.
Elementos visuais: Na figura são usadas cores escuras, enfatizando mais o vermelho, há formas bem definidas do rosto, corpo, roupas e os movimentos. Há uma composição diagonal no feixe de luz no meio da cena apontando ao santo.
É uma imagem que nos transmite emoção, drama e certo suspense por causa do ambiente escuro e pela tensão demonstrada no rosto das pessoas. E pelos movimentos dos personagens.
7. REMBRANDT 1606-1669
Ronda Noturna é talvez um dos mais importantes e polêmicos quadros pintados por Rembrandt.
Quadro pintado por encomenda, seu nome original era “A Mudança da Guarda da Companhia do Capitão Frans Banning Cocq”, que servia no Regimento dos Arcabuzeiros de Amsterdam. O capitão está todo de negro, enquanto o tenente Willem van Ruytenburch está de amarelo. Com o uso perfeito da luz e da sombra, Rembrandt leva nosso olhar para as mais importantes figuras no meio da multidão, os dois oficiais e uma menina, a mascote, à esquerda. Atrás deles, o alferes Jan Visscher Carnelissen, carrega as cores da Companhia.
Rembrandt - A Ronda da Noite
O quadro ficou pronto em 1642, no auge da Era de Ouro dos Países Baixos. E foi o primeiro fracasso do pintor. O capitão não gostou porque encomendara um retrato seu e não da companhia, e também porque percebeu que Rembrandt não pintara a mudança da guarda, mas um retrato de cada um deles. O preço também não agradou. Achou caro.
O quadro tem um efeito dramático, muito característico da obra de Rembrandt. O clima é de vitória, o amarelo enfatiza isso, e a galinha morta no chão, quase em frente à menina, é também símbolo da vitória contra o inimigo.
É uma tela enorme que perpassa para o espectador uma espantosa ideia de movimento. A mão do capitão, que passa o comando ao subordinado, salta para fora da tela. É realmente impressionante.
Mas como em todos os retratos que pintou, Rembrandt põe na tela não o exterior de seus retratados, mas seu interior. O que talvez tenha sido o grande motivo da ira do capitão.
8. RUBENS 1577-1640
Entre 1611 e 1614, o artista alemão Peter Paul Rubens pintou sua primeira grande obra, a célebre "Descida da cruz", que já mostrava o equilíbrio da composição e o intenso dramatismo das figuras, característicos de sua produção. A pintura é considerada a obra-prima de Rubens, principal pintor do barroco flamengo, e está exposta na Catedral de Antuérpia, na Bélgica.
Peter Paul Rubens - A Descida da Cruz
Nessa obra foram colocados todos os traços do estilo barroco: a iluminação teatral, o céu escuro e Cristo banhado em uma profusão de luz. A forma é curvilínea, conduzindo à figura central de Cristo. É um tema trágico que induz a reação emocional. O pintor inglês Sir Joshua Reynolds, classificou essa obra como: "uma das melhores imagens jamais criadas". A cabeça, pendida para um lado, o corpo caído, tudo evoca o peso da morte.
9. VELAZQUEZ 1599-1660
É uma das obras pictóricas mais analisadas e comentadas no mundo da arte. Como tema central mostra a infanta Margarida de Áustria, embora a pintura apresente outras personagens, incluída o próprio Velázquez.
Diego Velázquez - As meninas
As Meninas, é o nome de um famoso quadro pintado em 1656 pelo pintor espanhol Diego Velázquez. A obra está no Museu do Prado. Ao centro pode-se ver a infanta Margarida Teresa de Habsburgo, filha de Filipe IV, acompanhada de suas damas de companhia, de seus criados, de uma anã e uma criança que mexe com um cão. Já no canto esquerdo, vê-se um auto-retrato de Velázquez, em cuja veste percebemos a cruz da Ordem de Santiago, que foi incluída na tela somente após sua morte. Os reflexos do rei e da rainha da Espanha surgem num espelho atrás da infanta. Acima do retrato há dois quadros do acervo do palácio e, mais ao fundo, um homem entra em cena e movimenta a cortina, trazendo mais luminosidade à tela.
Nomeada originalmente como A Família, a tela foi salva de um incêndio que atingiu o Palacio Real de Madrid em 1750, passando ao Museu do Prado em 1819 e recebendo, posteriormente, o título de Las Meninas. Embora «menina» seja uma palavra da língua portuguesa, era usada na corte espanhola com o sentido de «dama de companhia», segundo a opinião de investigadores linguísticos.
10. PICASSO 1881-1973
Picasso, três séculos depois de Velázquez. Esta obra-prima feia, uma composição monocromática fraturado a partir do qual toda a cor foi drenada, foi definido assim por Picasso: "Todas as criaturas vivas em Guernica, humana e animal, foram transformados em objetos torturados, decomposto , distorcido e gritando sua agonia para o céu. A pintura é apenas uma representação simbólica, como visto em minha própria mente - isso é tudo.
Pablo Picasso - Guernica
Foi a última grande pintura. Nada tem acompanhado desde seu imaginário gritante, emoção impetuoso e feroz resposta à tragédia, pois em 1937 a arte da pintura era em si já em seu leito de morte - duas décadas antes Marcel Duchamp, em expor uma bacia mictório, havia proclamado que qualquer coisa que poderia ser um trabalho da arte, e o mundo da arte tinha acreditado nele. Agora, um século depois, ninguém sabe o que é arte e o que não é.

Fonte:
Daily Mail: ( As 10 melhores pinturas do mundo. )

Reflexões sobre a Semana Santa

Philippe de Champaigne - A última Ceia
Conforme estudiosos, tudo começou em Jerusalém durante a Páscoa do ano 33, festa judaica (em hebraico: Pessach ou Passagem) que comemora a saída do povo hebreu do jugo dos egípcios com destino à Terra Prometida, sob o comando de Moisés. O fato ocorreu entre os séculos XVII e XIII a.C.
Naquele ano a festa caía num sábado. Jesus, na noite de quinta-feira, após cear com seus discípulos, foi preso por uma força da Guarda Herodiana no Getsênami. Durante o decorrer daquela noite foi julgado pelo Sinédrio judaico e pelo governador romano, Pôncio Pilatos. Na sexta-feira, foi levado à crucificação, morto (no Gólgota, por volta das 15h) e enterrado no mesmo dia (a religião judaica não permite sepultamentos após o crepúsculo).
No domingo, dia 5 de abril, seu corpo não foi mais encontrado no túmulo e, segundo os Evangelhos, ele reapareceu para seus discípulos com os quais conversou e instruiu.
Quarenta dias após subiu aos céus no Monte das Oliveiras. A partir daí, os seguidores do Cristo passaram a celebrar e rememorar o episódio nas datas correspondentes à Páscoa judaica.
Essas datas no Hemisfério Norte coincidem com o término do inverno e o começo da primavera, época da semeadura, quando tudo se renova e o frio e a escuridão cedem lugar ao sol e ao calor.
A Semana Santa é uma festa móvel que se inicia, segundo o calendário litúrgico católico, após a Quaresma (os 40 dias que compreendem da Quarta-Feira de Cinzas ao Domingo de Ramos), na qual os principais dias são a Sexta-Feira da Paixão (dia da crucificação e morte de Jesus), o Sábado de Aleluia (período de vigília dos fiéis, quando também ocorre a lamentável Malhação de Judas pelos populares) e o Domingo de Páscoa (a ressurreição de Cristo).
Das antigas tradições judaicas ficou para os cristãos, por ligarem a imagem de Jesus à do cordeiro imolado, proibiram a carne vermelha estipulando o peixe como alimento permitido, talvez pela profissão da maioria dos apóstolos: pescador. O costume de consumir bacalhau na Semana Santa foi introduzido por nossos ex-colonizadores, os portugueses que o consumiam desde o século XV, na época das grandes navegações.
Durante a expansão do Cristianismo pela Europa, a tradição da Páscoa encontrou entre os povos ditos pagãos festividades que ocorriam igualmente no período do fim do inverno e início da primavera no Hemisfério Norte.
Entre os povos teutônicos (germânicos que, inicialmente, habitavam as margens do Báltico) havia uma comemoração à deusa Easter (daí a palavra anglo-saxônica, Easter, que designa a Páscoa) que representava a primavera e a fertilidade.
Nessa festa apresentavam como símbolo da fertilidade a lebre ou o coelho, enquanto distribuíam entre si ovos comuns pintados com desenhos de cores fortes e brilhantes representando o colorido do sol na primavera e a renovação da vida.
Com o passar dos séculos, os cristãos absorveram essas tradições. Nessa fusão, procuraram usar o Cristo ressuscitado como símbolo da renovação e mantiveram o Coelho da Páscoa, que distribuía seus ovos no domingo pascal.
Hoje, as religiões esqueceram as verdadeiras origens da data e o caráter comercial que se abateu sobre todas as manifestações - antes espontâneas do povo - transformou o ovo verdadeiro em ovo de chocolate (produto do cacau descoberto pelos colonizadores europeus nas Américas), fazendo desse antigo símbolo da vida um simples objeto de consumo sem maior significado.

12 de abril de 2014

Uma Certa Quantidade

Ferdinand Georg Waldmüller
Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade

Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião

Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá

E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar

Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro.
Mário Cesariny (1923-2006)

11 de abril de 2014

Coração descuidado

Henri Martin
Lugar sem comportamento é o coração.
Ando em vias de ser compartilhado.
Ajeito as nuvens no olho.
A luz daz horas me desproporciona.
Sou qualquer coisa judiada de ventos.
Meu fanal é um poente com andorinhas.
Desenvolvo meu ser até encostar na pedra.
Repousa uma garoa sobre a noite.
Aceito no meu fado o escurecer.
No fim da treva uma coruja entrava.
Manoel de Barros

10 de abril de 2014

Cedo ou tarde

Arthur Walker Redgate
Devias saber
que é sempre tarde
que se nasce, que é
sempre cedo
que se morre. E devias
saber também
que a nenhuma árvore
é lícito escolher
o ramo onde as aves
fazem ninho e as flores
procriam.

Albano Martins

Repartir

Paul Cézanne
“...E quando os homens são de tal condição, que cada um quer tudo para si, com aquilo com que se pudera contentar a quatro, é força que fiquem descontentes três. O mesmo nos sucede. Nunca tantas mercês se fizeram em Portugal, como neste tempo; e são mais os queixosos, que os contentes. Por quê? Porque cada um quer tudo. Nos outros reinos com uma mercê ganha-se um homem; em Portugal com uma mercê, perdem-se muitos. Se Cleofas fora português, mais se havia de ofender da metade do pão que Cristo deu ao companheiro, do que se havia de obrigar da outra metade, que lhe deu a ele. Porque como cada um presume que se lhe deve tudo, qualquer cousa que se dá aos outros, cuida que se lhe rouba. Verdadeiramente, que não há mais dificultosa coroa que a dos Reis de Portugal: por isto mais, do que por nenhum outro empenho. (...) Em nenhuns Reis do mundo se vê isto mais claramente que nos de Portugal. Conquistar a terra das três partes do mundo a nações estranhas, foi empresa que os Reis de Portugal conseguiram muito fácil e muito felizmente; mas repartir três palmos de terra em Portugal aos vassalos com satisfação deles, foi impossível, que nenhum rei pôde acomodar, nem com facilidade, nem com felicidade jamais. Mais fácil era antigamente conquistar dez reinos na Índia, que repartir duas comendas em Portugal. Isto foi, e isto há de ser sempre: e esta, na minha opinião, é a maior dificuldade que tem o governo do nosso reino”.
Padre Antonio Vieira (1608-1697)
Sermão da Primeira Oitava da Páscoa

9 de abril de 2014

Querendo-te...

Auguste Rodin
Morde-me com o querer-me que tens nos olhos
Despe-te em sonho ante o sonhares-me vendo-te,
Dá-te vária, dá sonhos de ti própria aos molhos
Ao teu pensar-me querendo-te…

Desfolha sonhos teus de dando-te variamente,
Ó perversa, sobre o êxtase da atenção
Que tu em sonhos dás-me… E o teu sonho de mim é quente
No teu olhar absorto ou em abstração…

Possue-me-te, seja eu em ti meu espasmo e um rocio
De voluptuosos eus na tua coroa de rainha…
Meu amor será o sair de mim do teu ócio
E eu nunca serei teu, ó apenas-minha?

Fernando Pessoa (1888-1935)

Caprichos e Relaxos

Steve Hanks
enxuga aí

vê se enxerga

essa lágrima
eu deixei cair
examina

examina bem

vê se não é
água da pedra
ouro da mina
essa gota d’água

minha obra-prima.

Paulo Leminski (1944-1989)

8 de abril de 2014

No silêncio dos olhos

Alexei Harlamoff
Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?

José Saramago (1922-2010)

Legenda

Stephen Reid
Tarde
regressam
as manhãs
ou seu
imprevisto azul.

Cedo
se colhe
o cintilante
e frágil
perfume das laranjas.

Albano Martins

7 de abril de 2014

As Estações

Leonid Afremov
“Estão em mim as estações
como se fossem uma só
as quatro sempre estão em mim
são quatro faixas de um abismo
da aurora até o ocaso
a chuva o verde o sol o vento
sem me desvelar estão em mim
são a missão recém-nascida
e são os mortos do meu mundo
minhas ocultas estações
me fazem feliz / sofrem por mim
cada uma delas tem um céu
e cada céu é um espelho
que fala de todos e de mim
as estações se congregam
se reconhecem e se abraçam
as quatro sempre estão em mim
sou seu fervor suas folhas mortas
seu granizo suas colheitas
sua porta aberta seus cadeados
sua insolação seus aguaceiros
como um destino estão em mim
as estações se embaralham
para se mesclar com minha vida
para se juntar com minha morte
e então fugir de mim”.

Mario Benedetti (1920-2009)

6 de abril de 2014

Reflexão:

Albrecht Dürer
Perguntaram a Saramago:
→ Como pode o homem ser bom sem Deus?
E Saramago devolveu outra pergunta:
→ Como pode o homem com Deus ser mal?