19 de abril de 2015

Exultação

Louis-Jean-Francois Lagrenee
Não há maior maravilha do que percorrer
as alturas estreladas, abandonar as lúgubres regiões da terra,
cavalgar as nuvens, subir aos ombros de Atlas,
e ver muito distantes, lá em baixo, as pequenas figuras
que vagueiam e erram, desprovidas de razão,
inquietas, no temor da morte, e aconselhá-las,
e fazer do destino um livro aberto.

Ovídio (43 a.C.-17)

O Lago Morto

Modesto Brocos
O lago morto, o céu cinzento ao luar;
Pálida, lutando, coberta pelas nuvens,
A lua.

O murmúrio obstinado que cochicha e passa

(Dir-se-ia que tem medo de falar em alta voz).
Tão triste agora,
Recai sobre meu coração,
Onde a alegria morre como um rio deserto.

Minhas pobres alegrias...
Não as toqueis,
Floridas e sorridentes.

Lentamente, a raiz acaba de morrer.

Emily Brontë (1818-1848)
Tradução: Lúcio Cardoso

18 de abril de 2015

Estupendo

Alexandre Cabanel
Estupendo,
um jardim em chamas.

O meu coração carece de todas as formas:
um prado para as gazelas,
um mosteiro para os monges,
um chão sagrado para os ídolos,
ka'ba para o peregrino circular,
as tábuas de Tora,
os pergaminhos do Corão.

Eu creio no amor,
seja em que esquina a sua caravana vire.
e esta é a minha certeza,
esta é a minha fé.

Ibn Arabi (1165–1240)
Tradução: Pedro Calouste

Velhas Fábulas

Aleksandr Andreevich Ivanov
Quem disse alguma vez que há deuses lá nos céus?
Não há, não há, não há. Não deixem que ninguém,
mesmo crente sincero nessas velhas fábulas,
com ela vos engane e vos iluda ainda.
Olhai o que acontece, e dai a quanto digo
a fé que isto merece: eu afirmo que os reis
matam, roubam, saqueiam à traição cidades,
e, assim fazendo, vivem muito mais felizes
que quantos dia a dia pios são e justos.
Quantas nações pequenas, bem fiéis aos deuses,
sujeitas são dos ímpios com poder e força,
vencidas por exércitos que as escravizam.
E vós, se me vez de trabalhar rezais aos deuses,
e deixais de lutar para ganhar a vida,
aprendereis que os deuses não existem. Que todas
as divindades significam só
a sorte, boa ou má, que temos neste mundo.
Eurípedes (480-406 a.C.)
- Excerto de "Belerofonte"

Na Mitologia grega, Belerofonte foi um herói, venerado em Corinto.

17 de abril de 2015

Refletindo

Raymond Quinsac Monvoisin
Árvore sob céu azul
Com rosto indiferente e ar de pouco caso,
saúdo as madrugadas, os ocasos
Árvore, hei de olhar, com mirada isenta
o céu azul ou a fúria da tormenta.
A vida, digo, é féretro no qual
dor, alegria do homem têm o seu final.

Kóstas Karyotákis (1896–1928)
Tradução: José Paulo Pais

Um amor depois do outro

Norbert Schrödl - Anacreonte com suas Musas
Virá o tempo
quando exultante
hás de saudar-te ao chegar, em teu espelho, e cada qual
retribuirá sorrindo a saudação do outro,
e dirá, senta-te aqui. Come.
Amarás de novo a quem te era estranho: a ti mesmo.
Dá vinho. Pão. Teu coração de volta
a si mesmo, ao estranho que toda a vida

te amou, que, por causa de um outro,
desconsideras, quem te conhece de cor.
Pega as cartas de amor na estante,

As fotos, as anotações desesperadas,
Descasca do espelho tua imagem.
Senta-te. Refestela-te com tua vida.

Derek Walcott – Prémio Nobel em 1992
Tradução: Nelson Archer

16 de abril de 2015

Alma Minha

Pintura mural da necrópole de Poseidonia
Alma minha, brandinha, vagabunda,
do corpo acompanhante e moradora,
a que paragens vais subir agora,
assim lívida, e rígida, e tão nua?

Deixarás de gozar o que hoje gozas.

Imperador Adriano (76-138 d.C.)
Tradução: David Mourão-Ferreira

Bela

Walter Langley
Perto da minha dama e longe do meu querer,
tão cheio de desejo e medo ao mesmo tempo,
o coração me falha e nas palavras tremo
quanto a poder dizer o que quero dizer.

«Bela», disse eu, “de dor fazeis-me estremecer,
e nem sei o que digo, e nem sei o que penso,
perto da minha dama e longe do meu querer.

De todas as demais nem desejo saber,

numa só coloquei todo o bem a um tempo,
Libertar-me ousarei do terror em que tremo
para pedir enfim que me façais valer
perto da minha dama e longe do meu querer?”

Alain Chartier (1385-1433)

15 de abril de 2015

No templo da montanha

Giovanni Battista Tiepolo
Noite no templo
do alto da montanha.
Posso levantar a mão,
acariciar as estrelas,
mas não ouso falar
em voz alta.
Receio assustar
os habitantes do céu.

Li Bai (701-762) - poeta chinês

Canção Popular chinesa (Século XVIII)

Edmund Dulac
Meu marido labuta no campo,
eu não paro na lida da casa.
Um casal tem sempre que fazer,
e que ser unido no trabalho.

O casal camponês tem de zelar pelo amor.
O casal da cidade zela pela sua roupa.
Pode trocar-se um fato velho por um novo.
Não se troca o amor de uma vida inteira.

Eu cozo o arroz e preparo o chá.
Tu mondas, semeias, cavas e ceifas.
Quando como um ovo, deixo-te a gema.
Juntos envelheceremos.

Claude Roy (1915 -1997)
Tradução: António Ramos Rosa

14 de abril de 2015

Outros virão

Andrzej Malinowski
Outros virão depois de nós,
Mais pacientes, mais teimosos,
Mais fortes ou mais hábeis.

Hão de saber extrair à terra
Mais do que nós.

E hão de ter como suporte
O canto que foi cantado

Quando era a nossa vez.

Eugène Guillevic (1907-1997)
Tradução: David Mourão-Ferreira

Poesia-orgasmo

Phoebe Anna Traquair
De silabas de letras de fonemas
se faz a escrita. Não se faz um verso.
Tem de correr no corpo dos poemas
o sangue das artérias do universo.

Cada palavra há de ser um grito.
Um murmúrio um gemido uma ereção
que transporte do humano ao infinito
a dor o fogo a flor a vibração.

A poesia é de mel ou de cicuta?
Quando um poeta se interroga e escuta
ouve ternura luta espanto ou espasmo?

Ouve como quiser seja o que for
fazer poemas é escrever amor
a poesia o que tem de ser é orgasmo.

José Carlos Ary dos Santos (1937-1984)

13 de abril de 2015

Ulisses a Nausícaa

Lord Frederick Leighton – Nausícaa
Nunca meus olhos viram
criatura tão bela como tu,
nem homem nem mulher cuja beleza
me confundisse tanto!
Só uma vez em Delos, junto ao altar de Apolo,
vi qualquer coisa de parecido
um ramo de palmeira ... a subir para o céu.

Homero (928-898 a.C)
Tradução: David Mourão Ferreira

Na Mitologia grega, Nausícaa era filha do rei Alcínoo dos feácios. Na Odisseia, é ela quem encontra o náufrago Ulisses e o traz para terra, para junto do seu pai.

Pássaro Azul

Robert Lewis Reid
Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.

Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky para cima dele
e inalo fumo de cigarros
e as putas e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.

Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me?
queres foder-me o
meu trabalho?
queres arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?

Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.

depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e Tu?

Charles Bukowski (1920-1994)

12 de abril de 2015

O Vinho e as Rosas

Alphonse Mucha
Olho o céu sem fim
à espera de ver a estrela que tu vez

Vou ao encontro dos viajantes que chegam de todo o lado
à espera que alguém se tenha inebriado com o teu perfume

Enfrento os ventos
à espera que tragam uma mensagem tua

Vagueio sem destino
à espera de ouvir uma canção que fale de ti

Olho as mulheres que encontro sem outra intenção
que descobrir um toque da tua beleza nos seus rostos.

Al-Thurthusi (Andaluzia, século XI)
Tradução: Jorge Sousa Braga

A Noite Abre Meus Olhos

Edvard Munch
E, por fim, Deus regressa
carregado de intimidade e de imprevisto
já olhado de cima pelos séculos
humilde medida de um oral silêncio
que pensámos destinado a perder

Eis que Deus sobe a escada íngreme
mil vezes por nós repetida
e se detém à espera sem nenhuma impaciência
com a brandura de um cordeiro doente

Qual de nós dois é a sombra do outro?
Mesmo se piedade alguma conservar os mapas
desceremos quase a seguir
desmedidos e vazios
como o tronco de uma árvore.
José Tolentino de Mendonça

11 de abril de 2015

Morada Terrestre

Hans Memling
Habito um castelo de cartas,
Uma casa de areia, um edifício no ar,
E passo os minutos esperando
O desmoronamento do muro, a chegada do raio,
O correio celeste com a última notícia,
A sentença que voa numa vespa,
A ordem como um látego de sangue
Dispersando ao vento uma cinza de anjos.
Então perderei minha morada terrestre
E me encontrarei nu novamente.
Os peixes, os astros,
Remontarão o curso de seus céus inversos.
Tudo que é cor, pássaro ou nome,
Volverá a ser apenas um punhado de noite,
E sobre os despojos de cifras e plumas
E o corpo do amor, feito de fruta e música,
Baixará por fim, como o sonho ou a sombra,
O pó sem memória.
Jorge Carrera Andrade (1903-1978)
Tradução: Manuel Bandeira

Conhecimento científico e Humanização do mundo

Laurent de La Hyre
“À medida que aumenta o conhecimento científico, diminui o grau de humanização do nosso mundo. O homem sente-se isolado no cosmos porque, já não estando envolvido com a natureza, perdeu sua “identificação emocional inconsciente” com os fenômenos naturais. E estes, por sua vez, perderam aos poucos as suas implicações simbólicas. O trovão já não é a voz de um deus irado, nem o raio o seu projétil vingador. Nenhum rio abriga mais um espírito, nenhuma árvore é o princípio de vida do homem, serpente alguma encarna sabedoria e nenhuma caverna é habitada por demônios. Pedras, plantas e animais já não têm vozes para falar ao homem, e ele não se dirige mais a eles na presunção de que possam entendê-lo. Acabou-se o seu contato com a natureza, e com ele foi-se também a profunda energia emocional que esta conexão simbólica alimentava.”
Carl Gustav Jung (1875-1961)
O homem e seus Símbolos

9 de abril de 2015

É tão fundo o silêncio

Dorina Costras
“É tão fundo o silêncio entre as estrelas.
Nem o som da palavra se propaga,
Nem o canto das aves milagrosas.
Mas lá, entre as estrelas, onde somos
Um astro recriado, é que se ouve
O íntimo rumor que abre as rosas.”

José Saramago (1922-2010)

Meio-dia

Pierre-Auguste Renoir
Meio dia. A abrasada calmaria
No amplo manto de fogo a mata esconde,
Na fornalha que envolve o meio-dia
O ouro do sol tempera o ouro da fronde.

Pesa o silêncio sobre a frontaria…
Desponta o rio não se sabe donde.
Só, com a voz da mata, em agonia,
Uma cigarra zine e outra responde…

É o grito humano que da natureza
Sobe ao tranquilo azul da imensidade,
Ungido de amargura e de incerteza…

Querem chorar as árvores sem pranto
E as cigarras ao sol clamam piedade
Para suas irmãs que sofrem tanto!

Olegário Mariano (1889-1958)

O Rio Sinuoso

Albert Bierstadt
Todo dia, ao voltar da audiência imperial,
empenho minha roupa de primavera.
Vou para a margem do rio,
e só depois de bêbado
retorno a casa.
Dívidas de vinho,
deixo penduradas em qualquer cabide.
Nessa vida, chegar ao setenta,
é muito raro,
desde os tempos antigos.
As borboletas esvoaçam
sobre as flores,
e de tempos em tempos
uma de mim se aproxima.
As libélulas roçam a água
em seus leves voos.
Breve é o tempo
de estarmos juntos.
Melhor gozá-lo,
já que não obedece
aos nossos desejos.

Du Fu (712-770) - poeta chinês
Tradução: Sérgio Capparelli e Sun Yuqi

Dou-te a minha alma inteira

Rarindra Prakarsa
Dizes que brevemente
serás a metade de minha alma.
A metade?
Brevemente?
Não: já agora és,
não a metade, mas toda.
Dou-te a minha alma inteira,
deixe-me apenas uma pequena parte
para que eu possa existir por algum tempo
e adorar-te.
Graciliano Ramos (1892-1953)
"Cartas de amor à Heloísa".

8 de abril de 2015

Venho do Sono

Guglielmo Zocchi
Venho do Sono,
desse fluido país
do pensamento visível,
dos endereços divinos,
dos nomes de amor,
das gloriosas ressurreições.

Venho do Sono.

Aí! distâncias profundas…
E olho-me ao espelho.

Cecília Meireles (1901-1964)

Em que pensam os Historiadores?

Auguste Rodin - O Pensador
Em que pensam os historiadores? É a pergunta colocada na obra de Jean Boutier e Dominique Julia. Segundo esses autores, nos últimos anos – mais precisamente desde a década de 1960 – surgiu urgência de uma retomada da reflexão sobre a profissão do historiador, ainda que não lhes fosse esperado que elaborassem complexas arquiteturas teóricas. A aceleração das mudanças nos últimos anos levou certos historiadores a falar de crises, dúvidas, e incertezas – e isso não somente na França.
dentro dessa perspectiva, tais questionamentos foram, provavelmente, resultado de três séries de fenômenos:
1. Primeiramente as rápidas transformações do ensino secundário, tornado ensino de massa. Os historiadores tiveram de lutar para manter a história nos programas diante da invasão das ciências exatas, consideradas mais úteis.
2. Em segundo lugar ocorreu uma separação entre a história acadêmica e a história vulgar, praticada – mediocremente – por amadores. Surge aqui uma crescente demanda por livros destinados ao grande público instruído, e um novo diálogo nasce– entre pesquisa de ponta e o mercado editorial. Tenta-se ocupar o vazio entre o jornalismo histórico e as teses dificilmente acessíveis. “A própria escrita da história sentiu os efeitos dessa abertura” . A terceira e última série de fenômenos foi, sem dúvida, a mais importante: A história é levada a redefinir métodos, objetivos, e problemáticas em face às ciências sociais e humanas. O que fazemos, perguntam-se os historiadores.
A grande questão que permanece então é: Porque certos historiadores insistem em falar de crise em meio a um panorama tão rico e abundante? O que ocorre, segundo Boutier e Julia é uma transformação dos grandes modelos de inteligibilidade que, por muitos anos, foram usados pelos historiadores no exercício de sua profissão. Além disso, trata-se dos desafios impostos por outras disciplinas à história. O próprio estatuto da disciplina é colocado em jogo. A história tornar-se-ia simples gênero literário, perdendo, consequentemente, toda a pretensão de discurso verdadeiro. Uma das fontes do problema está justamente no fato da história tornar-se patrimônio comum. Assim como a pintura e a música de amadores, qualquer um pode fazer história, diferente do que acontece com disciplinas como a antropologia, a biologia ou a matemática. Haja vista tal discussão – que é muito antiga na historiografia, remontando a Bloch – é no método, nas operações técnicas e nos procedimentos que os historiadores vão se apegar para legitimar seu ofício.
Os grandes paradigmas dão lugar então a um arsenal diversificado de instrumentos e de abordagens teóricas tomadas de empréstimo das outras ciências sociais.
Como disciplina, a história não para de reformular seus próprios problemas, pois, afinal, a percepção das realidades humanas que nos cercam também não para de se modificar. O presente não deixa de interrogar o passado, obrigando o historiador a retomar suas pesquisas, reformular questões, e mudar métodos. “Como qualquer outra disciplina científica, a história possui suas dinâmicas internas: ela conhece os entusiasmos e os desânimos dos pesquisadores, as submissões e as rebeldias, ela possui suas enquetes ‘normais’ e suas ‘revoluções científicas’”.
Referência: BOUTIER, Jean e JULIA, Dominique. Passados recompostos: campos e canteiros da história. Rio de Janeiro: UFRJ e Fundação Getúlio Vargas, 1998, pp. 21-53.

7 de abril de 2015

Soneto

Martin Johnson Heade
Eu a vi passar por meus jardins
quando minha alma era luz da luz.
Eu a vi mirar o berço
onde a Luxúria morde as crinas.

Eu a vi rezar na penumbra
no altar dos sacros martírios,
azul e pálida como os lírios,
com a luz de meu peito que a ilumina.

Nunca mais a vereis, pois a minha alma
já entrou no reino do prazer sombrio,
jardim sem lua, sem paixão, sem flores.

Murchou a flor; e acalmou-se
minha ilusão. Já longínquo o vozerio,
o coração penetrou nas dores.
Federico Garcia Lorca (1898-1936)

Sinto

Sir Frank Bernard Dicksee
Sinto
que em minhas veias arde
sangue,
chama vermelha que vai cozendo
minhas paixões no coração.

Mulheres, por favor,
derramai água:
quando tudo se queima,
só as fagulhas voam
ao vento.
Federico Garcia Lorca (1898-1936)