7 de março de 2012

Van Gogh - Blossoming chestnut
O sonho é sempre igual:
um castanheiro com flores vermelhas,
um estuante jardim estival,
e mais a solitária casa velha.
Lá, onde o calmo jardim se estende,
minha mãe me ninava;
talvez - já tanto tempo faz -
casa, árvore, jardim nem hajas mais.
Agora talvez uma picada
por onde relha e arado passem:
de pátria, jardim, casa, castanheiro,
nada haveria além do sonho que ficasse.

Hermann Hesse (1877-1962)

PARAÍSOS

Arvid Frederick Nyholm
Temos dois paraísos: o da infância
E o da velhice;
O da flor e o do fruto,
O da loucura e o da razão.
O Jardim e o Pomar,
A Primavera, Deusa helénica,
O Outuno, Deus da Ibéria.
O resto é Inverno até à Groenlândia
E Verão até ao Cabo.

Teixeira de Pascoais (1877-1952)

6 de março de 2012

Elegia do Amor

George Cochran Lambdin - Loves me he-Loves me not
Tudo, em volta de nós,
Tinha um aspecto de alma.
Tudo era sentimento,
Amor e piedade.
A folha que tombava
Era alma que subia…
E, sob os nossos pés,
A terra era saudade,
A pedra comoção
E o pó melancolia.

Teixeira de Pascoais (1877-1952)
Jenny Terasaki
Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas.

Manoel de Barros
Paul Cézanne - Os Jogadores de Cartas
“Não há como substituir um velho companheiro.
Nada vale o tesouro de tantas recordações comuns,
de tantos momentos difíceis vividos juntos,
tantas desavenças e reconciliações,
tantas emoções compartilhadas.
Não se reconstroem essas amizades.
É inútil plantar um carvalho na esperança de poder,
em breve, se abrigar sob a sua sombra.”

Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944)

5 de março de 2012

Iniciação do prisioneiro

Theresa Tahara - Old World Roses
É preciso que Amor seja a primeira
palavra a ser gravada nesta cela.
Para servir-me agora e companheira
seja amanhã de quem precise dela

Não sei o que vai vir, mas se desprende
dessa palavra tanta claridão,
que com poder de povo me defende
e me mantém erguido o coração.

No muro sujo, Amor é uma alegria
que ninguém sabe, livre e luminosa
como as lanças de sol da rebeldia,
que é amor, é brasa e de repente é rosa.

Thiago de Mello

Cidadania

Michelle Wiarda
Cidadania é um dever
do povo.
Só é cidadão
quem conquista o seu lugar
na perseverante luta
do sonho de uma nação.
É também obrigação:
a de ajudar a construir
a claridão na consciência
de quem merece o poder.
Força gloriosa que faz
um homem ser para outro homem,
caminho do mesmo chão,
luz solidária e canção.

Thiago de Mello

4 de março de 2012

Yiannis Dimkopoulos - Door
Já não temo fantasmas
invoco a todos
que venham em bando
povoar meus dias
atormentar minhas noites
entre tantos
loucos e livres
existe um
que é doce
e que me falta.

- Alice Ruiz -
Rob Hemphill - After Sunset
Na mata o silêncio
cobre as folhas:
todas as palavras
que não foram ditas,
as que ficaram presas
no fundo da garganta
aqui habitam,
metade terra-metade ar.
As que mudariam
o rumo de uma vida,
as que se perderam,
as que se desmancharam,
as que nem nasceram.

Roseana Murray

3 de março de 2012

No deserto da vida eu erro e ardo
a gemer sob o peso do meu fardo,
mas em algum lugar quase esquecidos
sei de frescos jardins em sombra e em flor.

Em algum lugar, nos confins do sonho,
sei que um abrigo vela
onde a alma volta a ter pátria
e estão à espera o sono, a noite e as estrelas.

Hermann Hesse (1877-1962)
Foto de Clarice
“Tem uma passagem estreita dentro de mim,
tão estreita que suas paredes me lenham toda,
mas essa passagem desemboca na largura de Deus.
Nem sempre tenho força para atravessar
este deserto sangrento, mesmo sabendo que,
se me forçar a me doer todo entre as paredes,
mesmo sabendo que desembocarei para a luz aberta
de uma dia trêmulo de sol macio...”

Clarice Lispector (1920-1977)

2 de março de 2012

Person agem
Edmond Aman Jean
Teu nome é quase indiferente
e nem teu rosto já me inquieta,
A arte de amar é exatamente
a de ser poeta
.

Para pensar em ti, me basta
o próprio amor que por ti sinto:
és a ideia, serena e casta,
nutrida do enigma do instinto.

O lugar da tua presença
é um deserto, entre variedades:
mas nesse deserto é que pensa
o olhar de todas as saudades.

Meus sonhos viajam rumos tristes
e, no seu profundo universo,
tu, sem forma e sem nome, existes,
silencioso, obscuro, disperso.

Todas as máscaras da vida
se debruçam para o meu rosto,
na alta noite desprotegida
em que experimento o meu gosto.


Todas as mãos vindas ao mundo
desfalecem sobre o meu peito,
e escuto o suspiro profundo
de um horizonte insatisfeito.

Oh! que se apague a boca, o riso,
o olhar desses vultos precários
pelo improvável paraíso
dos encontros imaginários!

Que ninguém e que nada exista,
de quanto a sombra em mim descansa:
- eu procuro o que não se avista,
dentre os fantasmas da esperança!

Teu corpo, e teu rosto, e teu nome,
teu coração, tua existência,
tudo - o espaço evita e consome:
e eu só conheço a tua ausência.

Eu só conheço o que não vejo.
Em nesse abismo do meu sonho,
alheia a todo outro desejo,
me decomponho e recomponho...

Cecília Meireles (1901-1964)
Histórias Íntimas
Sexualidade e Erotismo Na História do Brasil
Autor:Mary Del Priore
Editora: Planeta do Brasil
Especialidade: História

Em "História Íntimas – Sexualidade e erotismo na história do Brasil", lançado pela Editora Planeta, a historiadora Mary del Priore mostra resultados de sua pesquisa sobre hábitos e costumes brasileiros ao longo de cinco séculos. Nudez e pudor, hábitos de higiene, afrodisíacos, crendices, homossexualidade, prostituição, o surgimento da lingerie, a popularização do biquíni, remédios caseiros para aborto, bailes de Carnaval e a revolução sexual.
Com uma narrativa leve e envolvente, a autora detalha, com impressionante riqueza de detalhes, as preferências, os hábitos e os costumes de cada época que resultaram em nossa sociedade contemporânea, vista por ela como ávida por sexo. “Se antes o sexo era proibido, hoje ele é obrigatório. Atualmente gozar tornou-se praticamente um dever das pessoas”, acredita.
Mary questiona também o caráter do brasileiro, que em sua opinião apresenta uma dupla moral: “em casa somos racistas em segredo, mas na rua ou em grupo somos politicamente corretos. As agressões contra os homossexuais nas grandes cidades estão aí para comprovar”.
Além de um livro riquíssimo em termos históricos, a extensa pesquisa rendeu diversos fatos e frases curiosas. Nos séculos XVII e XVIII, por exemplo, a mulher era vista pela Igreja como venenosa e traiçoeira, considerada uma das formas do mal sobre a terra, um “ninho de pecados”. Por causa dos mistérios de sua fisiologia – fluxo menstrual, odores, líquido amniótico e outras secreções – seu corpo era apontado como impuro.
Mary destaca que o século XIX foi o do adultério e que o exemplo vinha de cima, ou seja, da família real, ilustrando casos de nobres personagens, como o insaciável D. Pedro I. Mas o adultério era “válido” apenas para os homens, já que às mulheres, submissas, cabia aguardar em casa seus maridos. Entre os “súditos”, “fazia-se amor com a esposa quando se queria descendência; o resto do tempo era com a outra”.
Finalmente, o século XX “descobriu” o corpo. Mary aponta que a multiplicação de ginásios e de professores de ginástica, o incentivo ao exercício, o trabalho nas ruas, a aceleração das cidades, tudo isso fez com que as mulheres abandonassem a simbólica couraça em que estavam até então, e que as protegia do desejo masculino, e passassem a se expor publicamente. O espartilho deu lugar à lingerie. Surgiram também os primeiros nus em teatros e os filmes e revistas eróticas, até que os anos 60 e 70 trouxeram o biquíni e a revolução sexual, enquanto os anos 90 e 2000 apresentaram as mulheres chefes de família.

Esse livro vai virar vai virar documentário de Júlio Lellis.
No elenco, Regina Duarte, Simone, Nélida Piñon, Euclydes Marinho e mais de 30 atores.
Vamos aguardar!

1 de março de 2012

O Mundo

Nicolas Lancret - The music
O mundo, tal como o entendo,
Não vai além daquilo que o cego
De cor e sombra pode encontrar
Na escuridão que é a sua sina;
Este mundo, imenso e luzente,
O qual nós viemos herdar
Com um orgulho inconsciente,
Vale tanto quanto as nossas rimas
E haveres, sua lama dourada —
Nada, é o mais que dele vou falar
E aqui, no leito do nada,
Para o outro lado vou-me voltar.

Alexander Search
Fernando Pessoa (1888-1935)
Frederic Soulacroix
Querem um verso,
mas não sou capaz.
Vejo a palavra fraturar
as entrelinhas,
tento soldá-las,
mas não são minhas.
Rompeu-se o verbo
e me deixou pra trás.

Flora Figueiredo

29 de fevereiro de 2012

Burne-Jones-Song of Love
Eu cantarei de amor tão fortemente
Com tal celeuma e com tamanhos brados
Que afinal teus ouvidos, dominados,
Hão de à força escutar quanto eu sustente.

Quero que meu amor se te apresente
— Não andrajoso e mendigando agrados,
Mas tal como é: — risonho e sem cuidados,
Muito de altivo, um tanto de insolente.

Nem ele mais a desejar se atreve
Do que merece; eu te amo, e o meu desejo
Apenas cobra um bem que se me deve.

Clamo, e não gemo; avanço, e não rastejo;
E vou de olhos enxutos e alma leve
À galharda conquista do teu beijo.

Vicente de Carvalho (1866-1924)

Antônia

Guilherme de Faria
Amei Antônia de maneira insensata.
Antônia morava numa casa que para mim
não era casa, era um empireo.
Mas os anos foram passando.
Os anos são inexoráveis.
Antônia morreu.
A casa em que Antônia morava foi posta abaixo.

Eu mesmo já não sou aquele que amou
Antônia e que Antônia não amou.
Aliás, previno, muito humildemente,
que isto não é crônica nem poema.
É apenas
Uma nova versão, a mais recente, do tema "ubi sunt",
Que dedico, ofereço e consagro
A meu dileto amigo Augusto Meyer.

Manuel Bandeira (1886-1968)

28 de fevereiro de 2012

Perfeição

Guido Borelli - Alla Parete
Vejo a Perfeição em sonhos ardentes,
Beleza divina aos sentidos ligada,
Cantando ao ouvido em voz olvidada
Que do peito irrompe em raios candentes

Que não posso prender. Seu cabelo vem
Pelo peito inocente onde, confundidos,
O ideal e o real são tecidos
E algo de alegre que ao céu fica bem.

Então chega o dia e tudo passou;
A mim regresso em dorido sentir,
Qual marinheiro que o naufrágio acordou

Do sonho de um campo em dia luminoso:
Ergue a cabeça e estremece ao ouvir
O rumor da descida ao abismo penoso.

Alexander Search
Fernando Pessoa (1888-1935)
Andorinha
Tarda a aurora
e não tarda o tardo
Tardam os anos
tarda e é ébrio
o sonolento vir das manhãs.

Há o ciclo das romãs e o do grão sem cor
o ciclo das maçãs e o da flor na macieira
o ciclo do trigo e o da tenra haste.

Entre a hora e o século
tarda a cor e luze
o iminente
inevitável
tarda e existe.

Signo em rotação
cor e sentido
entreabrem-se
o poeta trava a língua
entre pedra e água
versocriação.

Violação
é dar nome ao sentido
o perfume das formas
gesto finito
um dia
tudo o mais entorna.

Michel Suleiman
Divulgador da cultura Árabe no Brasil

27 de fevereiro de 2012

Quem Sonha Mais?

Ostritskogo Arcadia Gershevich
Quem sonha mais, vais me dizer —
Aquele que vê o mundo acertado
Ou o que em sonhos se foi perder?

O que é verdadeiro? O que mais será —
A mentira que há na realidade
Ou a mentira que em sonhos está?

Quem está da verdade mais distanciado —
Aquele que em sombra vê a verdade
Ou o que vê o sonho iluminado?

A pessoa que é um bom conviva, ou esta?
A que se sente um estranho na festa?

Alexander Search
Fernando Pessoa (1888-1935)
As Vozes da Natureza
Ferdinand Georg Waldmuller
As vozes que nos vêm da natureza
Traduzem sempre um mútuo sentimento.
Cantam as frondes pela voz do vento,
Pelo manancial canta a represa.
Pelas estrelas canta o firmamento
Nas suas grandes noites de beleza.
Cada nota a outra nota vive presa,
É um pensamento de outro pensamento.
Pelas folhas murmura a voz da estrada,
Pelos salgueiros canta a água parada
E o amigo sol, apenas se levanta,
Jogando o manto de ouro ao céu deserto,
Chama as cigarras todas para perto,
Que é na voz das cigarras que ele canta.

Olegário Mariano (1889-1958)

26 de fevereiro de 2012

Renoir - Girls on the River
“Palavra puxa palavra,
uma ideia traz outra e assim se faz um livro,
um governo ou uma revolução.
Alguns dizem que assim é que a Natureza
compôs as espécies”.

Machado de Assis (1839-1908)
Walter Crane - Diana and Endymion

Já que buscas um sonho e não o alcanças,
pastor de enganos, cala a tua avena!
Foram-se todas as ovelha mansas
que conduzias na manhã serena...

Da tua terra fértil mas pequena
tirou-te um dia a sede das andanças!
Partiste, então; mas nessa idade amena
tangias um rebanho de esperanças!

Hoje, nas tardes tristes e vermelhas,
anda a apascentar outras ovelhas,
e estás perdido de intranquilidades...

Buscas (não vês?) um bem que não existe;
e nem percebes que vagueias, triste,
conduzindo um rebanho de saudades...

Sânzio de Azevedo
Ethan Harris - The Optimistic Crag
“As lendas são a poesia do povo;
elas correm de tribo em tribo,
de lar em lar, como a história doméstica das idéias e dos fatos;
como o pão bento da instrução familiar... mas o povo crê,
e não convém destruir as fábulas do povo...
Este cultivo dos mitos, não é, talvez,
o guardar laborioso das verdades eternas?”

Machado de Assis (1839-1908)

25 de fevereiro de 2012

Janet Hill
Não foram os anos
que me envelheceram –
longos, lentos, sem frutos.
Foram alguns minutos.

Cassiano Ricardo (1885-1974)