19 de junho de 2019

Trilha da saudade

Leopoldo Gotuzzo
Gotinha meiga e mansa
acaricia meu rosto,
descendo suave
a trilha da saudade.

Lá fora as rosas rosas
E os hibiscos dourados
saúdam o outono.

Negro curió entre os poleiros
saltita de júbilo e gorjeia,
mesmo nos confins
das grades da vida.

Só eu,
do outro lado das coisas,
choro.

Tornei-me o poro por onde passa,
no vazio de uma lágrima,
o peso de tua falta.

Sonia Carneiro Leão

17 de junho de 2019

Saudade

Winslow Homer
Posto que nem é de bom-tom falar
sobre a tristeza insossa
cujo vaivém, quando se apossa
de mim, me embala como o som

sem fim das ondas do Leblon,
dispondo-me a curtir a fossa
a sós, pus na vitrola a bossa
nova de João, Vinícius, Tom,

menos pra ouvir o que ela tem,
porque talvez já nem me agrade
a ausência tanto faz de quem,

do que pra que, pouco à vontade,
meu coração se encha, se bem
que sob protesto, de saudade.

Nelson Ascher

15 de junho de 2019

História de vampiros

Edvard Münch
Era um vampiro que tomava água
pelas noites e pelas madrugadas
ao meio-dia e no jantar

era abstêmio de sangue
e por isso a vergonha
dos outros vampiros
e das vamps

contra vento e maré se propôs
fundar uma bandada
de vampiros anônimos

fez campanha sob a minguante
sob a cheia e a crescente
seus modestos cartazes proclamavam
vampiros bebam água
o sangue dá câncer

é claro que os quirópteros
reunidos em sua ágora de sombras
opinaram que isso era inaudito

aquele louco aquele alucinado
podia convencer os vampiros fracos
esses que tomam boldo após o sangue

de maneira que uma noite
com nuvens de granizo
cinco vampiros fortes
sedentos de hemácias plaquetas leucócitos
cercaram o adoidado o insurrecto
e acabaram com ele e sua imprudência
quando por fim a lua
pôde aparecer viu lá embaixo
o pobre corpo do vampiro anônimo
com cinco feridas que manavam
formando uma grande poça d’água

o que não pôde ver a lua
foi que os cinco executores
se refugiavam numa árvore
e a contragosto reconheciam
que o gosto não era ruim

dessa noite histórica em diante
nem os vampiros nem as vamps
chupam mais sangue resolveram
por unanimidade beber água

como costuma acontecer nesses casos
o singular vampiro anônimo
é venerado como um mártir.

Mario Benedetti (1920-2009)
Tradução: Julio Luís Gehlen

13 de junho de 2019

Soneto XLVIII

Daniel F Gerhartz
Já por bárbaros climas entranhado,
Já por mares inóspitos vagante,
Vítima triste da fortuna errante,
dos mais desprezíveis desprezado:

Da fagueira esperança abandonado,
Lassas as forças, pálido o semblante,
Sinto rasgar meu peito a cada instante
A mágoa de morrer expatriado.

Mas, ah! Quem bem maior, se contra a sorte
Lá do sepulcro no sagrado hospício
Refúgio me promete a amiga Morte!

Vem, pois, ó nume aos míseros propício,
Vem livrar-me da mão pesada e forte,
Que de rastos me leva ao precipício!


Manuel Maria Barbosa Du Bocage (1765-1805)

11 de junho de 2019

Poema 79: O Amor

Pierre-Auguste Renoir
Muitos, querendo dizer o que é o Amor,
preferiram muitas palavras, mas não puderam
dizer dele o que realmente parecesse
nem definir qual fosse seu valor.
Houve até quem dissesse que era ardor
da mente imaginado pelo pensamento;
e alguém disse que era desejo
de querer nascido por prazer do coração.
Eu afirmo que Amor não é substância
nem coisa corporal que tenha imagem,
mas é paixão em desejo,
prazer de forma dado pela natureza,
de tal modo que o querer do coração tudo excede:
e isso basta até que o prazer dure.

Dante Alighieri (1265-1321),
Tradução: Carlos E. Zampognaro

9 de junho de 2019

POR MIM?

Edvard Munch
Teus negros olhos uma vez fitando
Senti que luz mais branda os acendia,
Pálida de langor, eu vi, te olhando,
Mulher do meu amor, meu serafim,
Esse amor que em teus olhos refletia...
Talvez! – era por mim?

Pendeste, suspirando, a face pura,
Morreu nos lábios teus um ai perdido...
Tão ébrio de paixão e de ventura!
Mulher de meu amor, meu serafim,
Por quem era o suspiro amortecido?
Suspiravas por mim?

Mas...eu sei!...ai de mim? Eu vi na dança
Um olhar que em teus olhos se fitava...
Ouvi outro suspiro... d’ esperança!
Mulher do meu amor, meu serafim,
Teu olhar, teu suspiro que matava...
Oh! não eram por mim.

Alvares de Azevedo (1831-1852)

8 de junho de 2019

Poema Noturno

James Allen lagasse
Não há nada a temer,
É apenas o vento
Movendo para o leste, é apenas
Teu pai o trovão
Tua mãe a chuva

Neste país aquático
Com sua lua parda e úmida feito cogumelo,
Seus tocos submersos e enormes aves
Que nadam, aonde o musgo cresce
Por todos os lados das árvores
E tua sombra não é tua sombra,
Mas teu reflexo,

Teus verdadeiros pais desaparecem
Quando as cortinas cobrem tua porta.
Nós somos os outros,
Os do fundo do lago
Silentes estamos ao pé de tua cama,
Com nossas cabeças de escuridão.
Viemos para cobrir-te
Com lã vermelha,
Com nossas lágrimas e sussurros distantes.

Tu balanças nos braços da chuva
A fria arca do teu sono,
Enquanto esperamos, teus noturnos
Pai e mãe
Com nossas mãos frias e lanternas mortas,
Sabendo que somos somente
As oscilantes sombras lançadas
Por uma vela, neste eco
Que ouvirás vinte anos mais tarde.

Margaret Atwood
Tradução: Lidia Rogatto

7 de junho de 2019

MEDO DA VIDA

Rembrandt
Dia de pedra
sol de pedra
silêncio de pedra

Morreram os cavalos na montanha
morreram as árvores na cal
tu não morreste

O som de seus cascos ao longe
o som do velho ofego
dentro do meio-dia marmóreo

E o medo de que talvez não tenhas morrido
e o medo da água que irá correr
o medo, a água, a respiração — vida.

Yiannis Ritsos (1909-1990)
Tradução: José Paulo Paes

5 de junho de 2019

Soneto 29

Peter Paul Rubens
Quando em desgraça aos olhos dos humanos,
Sozinho choro o meu maldito estado,
e ao surdo céu gritando vou meus danos,
e a mim me vejo e amaldiçoo o Fado,

Sonhando-me outro, rico de esperanças,
com a imagem dele , como ele tão respeitado,
invejo as artes de um, d’outro as usanças,
do que mais gosto menos sou tentado.

Mas se ao pensar assim, quase me odiando,
acaso penso em ti, logo meu estado,
como ave, às portas celestiais cantando,
se ergue da terra, quando o sol é nado.

Pois que lembrar-te, amor, tem tal valia,
que nem com grandes Reis me trocaria.

William Shakespeare (1564-1616)
Tradução: Jorge de Sena

4 de junho de 2019

O estudo de Amor

Hendrick Goltzius
Nasceste, Marcia formosa,
Nasceste só para amar;
Não queiras em tanto estudo
Rápida vida passar.

As doces horas do sono
Não queiras diminuir;
De nada presta a ciência,
Se não ensina a sentir.

Encaneceram os homens
Sem nada poder saber
São nada as artes, mais vale
Um dia só de prazer.

A rosa vive um momento,
E os nossos olhos encanta
Que nos importa esse cedro
Que altivo aos céus se levanta?

Agrada a pomba inocente
Que não se eleva no ar:
Deixa que as águias soberbas
Os astros vão devassar.

Do teu Pastor as endeixas
Traze contínuo na mão;
Que ao lado de uma beleza
Nunca achei graça a Platão.

Para uma eterna memória
Profundo estudo que vale?
Nos versos que tu me inspiras
Já tens um nome imortal.
José Agostinho de Macedo (1761-1831)

3 de junho de 2019

Amor e Medo

Edouard Manet
Quando eu te fujo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, oh! bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
— Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!

Como te enganas! meu amor é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo, é que te adoro louco…
És bela,— eu moço; tens amor,— eu medo!…

Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes.
Das folhas secas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.

O véu da noite me atormenta em dores,
A luz da aurora me entumece os seios,
E ao vento fresco do cair das tardes
Eu me estremeço de cruéis receios.

É que esse vento, que na várzea — ao longe,
Do colmo o fumo caprichoso ondeia,
Soprando um dia tornaria incêndio
A chama viva que teu riso ateia!

Ai! se abrazado crepitasse o cedro,
Cedendo ao raio que a tormenta envia,
Diz: — que seria da plantinha humilde
Que à sombra dele tão feliz crescia?

A labareda que se enrosca ao tronco
Torrara a planta qual queimara o galho,
E a pobre nunca reviver pudera
Chovesse embora paternal orvalho!
II
Ai! se eu te visse no calor da sesta,
A mão tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco,
Soltos cabelos nas espáduas nuas!…

Ai! se eu te visse, Madalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volúpia doce,
Os braços frouxos — palpitante o seio.

Ai! se eu te visse em languidez sublime,
Na face as rosas virginais do pejo,
Trémula a fala a protestar baixinho…
Vermelha a boca, soluçando um beijo!…

Diz: — que seria da pureza de anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
— Tu te queimaras, a pisar descalça,
— Criança louca, — sobre um chão de brasas!

No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem
Vil, machucara com meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!

Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra,
E tu serias no lascivo abraço
Anjo enlodado nos paúis da terra.

Depois… desperta no febril delírio,
— Olhos pisados — como um vão lamento,
Tu perguntaras: — que é da minha coroa?…
Eu te diria: — Desfolhou-a o vento !…

Oh! não me chames coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo, é que te adoro e muito,
És bela — eu moço; tens amor, eu — medo!…


Casimiro de Abreu (1839-1860)

1 de junho de 2019

O ódio

Aurelio Bulzatti - Os Emigrantes
Reparem como é eficiente,
e como se conserva bem
o ódio no nosso século.
Na leveza com que encara as maiores dificuldades.
No fácil que lhe é saltar, precipitar-se.
Não é como os outros sentimentos.
Mais velho e mais novo do que eles, ao mesmo tempo.
A dar ele próprio à luz as razões
que o acordam para a vida.
E se adormece, nunca é num sono eterno.
A insónia não lhe rouba as forças, antes lhas acrescenta.
Religião ou não —
contanto ajoelhe para o arranque.
Pátria ou não pátria —
contanto se atire correndo para a frente.
De início é bom e é justiça.
Depois seu próprio impulso lhe basta.
Ódio. O ódio.
De face arrepanhada num esgar de êxtase amoroso.
Pobres dos outros sentimentos —
frouxos e enfermiços.
Desde quando pode uma confraria destas contar com multidões?
Já alguma vez a piedade cortou a meta em primeiro?
Quantos voluntários leva atrás de si a dúvida?
Leva-se só a si mesma, ela que sabe das suas.
Wislawa Szymborska (1923-2012)
Tradução: Júlio Sousa Gomes

30 de maio de 2019

As cinzas de Gramsci

The Mythical Phoenix Rising from Ashes
IV
O escândalo de me contradizer, de estar
com e contra ti; contigo no peito,
à luz, contra ti nas negras entranhas;

de meu estado paterno traidor
– numa sombra de ação, em pensamento –,
sei que a ele me apego no calor

dos instintos, da paixão estética;
atraído pela vida proletária
mesmo antes de ti, sua alegria é

para mim religião, não sua luta
milenar; sua natureza, não sua
consciência; é a força originária

do homem, perdida enquanto se fazia,
que lhe dá um fervor da nostalgia,
uma luz poética; e outra coisa

dizer não saberia que não fosse
justa, mas insincera, abstrato
amor, não dolorosa simpatia…

Pobre entre pobres, assim como eles
me apego a esperanças humilhantes,
e como eles para viver combato

todo dia. Mas nesta condição
desesperadora de deserdado
eu possuo, possuo a mais exaltante

das possessões burguesas, o estado
mais absoluto. Mas, se possuo a história,
ela me possui, e dela me ilumino:

mas de que serve a luz?

Pier Paolo Pasolini (1922-1975)
Tradução: Maurício Santana Dias

28 de maio de 2019

Miséria Oculta

Enrique Serra Auqué
Bate nos vidros a aurora,
Vem depois a noite escura;
E o pobre astro que ali mora,
Não abandona a costura!

Para uns a vida é d'abrolhos!
Para outros moita de lírios!
Bem o revelam seus olhos,
Pisados pelos martírios!

Miséria afugenta tudo!
Miséria tem dons funestos!
Quem é que gaba o veludo
D'aquelles olhos honestos!...

Ninguém seus olhos brilhantes
Descobre n'essas alturas...
E aquelas formas tão puras,
E aquelas mãos elegantes!

Sempre á costura inclinada!
Morra o sol ou surja a lua
Nunca vi descer á rua
Aquela loura encantada!

Aquele lírio dobrado
Por que assim vive escondido!
Eu bem sei!--não tem calçado!
E é muito usado o vestido!

Por isso não tem porvir
Morrerá virgem e nova,
E aguarda-a bem cedo a cova...
Que eu bem a ouço tossir!

Miséria afugenta tudo!
Miséria tem dons funestos!
Quem é que gaba o veludo
D'aquelles olhos honestos!

Pobre flor desfalecida
Tão nova e ainda em botão!
Como teve estreita a vida,
Terá estreito o caixão!
António Gomes Leal (1848-1921)

26 de maio de 2019

Guarda-chuvas

Claude Théberge
Tenho quatro guarda-chuvas
todos os quatro com defeito;
Um emperra quando abre,
outro não fecha direito.

Um deles vira ao contrário
seu eu abro sem ter cuidado.
Outro, então, solta as varetas
e fica todo amassado.

O quarto é bem pequenino,
pra carregar por aí;
Porém, toda vez que chove,
eu descubro que esqueci…

Por isso, não falha nunca:
se começa a trovejar,
nenhum dos quatro me vale –
eu sei que vou me molhar.

Quem me dera um guarda-chuva
pequeno como uma luva
Que abrisse sem emperrar
ao ver a chuva chegar!

Tenho quatro guarda-chuvas
que não me servem de nada;
Quando chove de repente,
acabo toda encharcada.

E que fria cai a água
sobre a pele ressecada!
Ai…

Rosana Rios

24 de maio de 2019

O Melro

Martin Johnson Heade
De que fala quando canta
o melro à minha janela?
Fala do amor ausente
ou recorda simplesmente
os tempos que não viveu
porque morreu?

Vestiu de luto para sempre
e as penas pretas que veste
não consentem alegria:
apenas deixam ouvir
a sua melancolia
num cantar de dor presente.

Carlos Mendonça Lopes

22 de maio de 2019

O Meu Guri

Retrato de Chico Buarque pintado por Di Cavalcanti em 1972
Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei lhe explicar
Fui assim, levando, ele a me levar
E na sua meninice
Ele um dia me disse que chegava lá

Olha aí!
Olha aí!

Olha aí!
Ai, o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega

Chega suado e veloz do batente
Traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí!

Olha aí!
Ai, o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega

Chega no morro com carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assalto está um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente, acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí!

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guri, olha aí! (Ah, olha aí meu guri)
Olha aí! (Ah, meu guri)
É o meu guri e ele chega (olha aí meu guri)

Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá

Olha aí!
Olha aí!

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guri, olha aí! (Ah, olha aí meu guri)
Olha aí! (Ah, meu guri)
É o meu guri (olha aí meu guri)

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guri, olha aí! (Ah, olha aí meu guri)
Olha aí! (Ah, meu guri)
É o meu guri (olha aí meu guri)

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guri, olha aí! (Ah, olha aí meu guri)
Olha aí! (Ah, meu guri)
É o meu guri (olha aí meu guri)

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guriQuando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei lhe explicar
Fui assim, levando, ele a me levar
E na sua meninice
Ele um dia me disse que chegava lá

Olha aí!
Olha aí!

Olha aí!
Ai, o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega

Chega suado e veloz do batente
Traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí!

Olha aí!
Ai, o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega

Chega no morro com carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assalto está um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente, acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí!

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guri, olha aí! (Ah, olha aí meu guri)
Olha aí! (Ah, meu guri)
É o meu guri e ele chega (olha aí meu guri)

Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá

Olha aí!
Olha aí!

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guri, olha aí! (Ah, olha aí meu guri)
Olha aí! (Ah, meu guri)
É o meu guri (olha aí meu guri)

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guri, olha aí! (Ah, olha aí meu guri)
Olha aí! (Ah, meu guri)
É o meu guri (olha aí meu guri)

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guri, olha aí! (Ah, olha aí meu guri)
Olha aí! (Ah, meu guri)
É o meu guri (olha aí meu guri)

Olha aí! (Ah, olha aí)
Ai, o meu guri

Chico Buarque de Holanda

19 de maio de 2019

Canto da Morte de Abel

Keith Vaughan
Morto jaz na relva Abel:
fugiu seu irmão Caim.
Um pássaro aproxima-se, mergulha o bico
no sangue, leva um susto e sai voando.

Foge o pássaro pelo mundo inteiro,
molhado o voo, estridulante a voz,
carpindo o seu lamento interminável:
sobre o formoso Abel e a dor da sua morte,
sobre o feio Caim e seu mortal pecado,
sobre seus próprios dias juvenis.

Logo lhe atira Caim ao coração sua flecha:
e logo há de levar disputa e guerra e morte
a todas as cabanas e cidades,
fará inimigos para assassiná-los,
a eles e a si mesmo em desespero odiando,
a eles e a si mesmo por todos os becos
caçando torturado até à próxima Noite Universal,
até de si por fim vomitar-se Caim.

Foge o pássaro: do seu bico ensanguentado
um lamento de morte faz-se ouvir cobrindo o
mundo inteiro.
Caim o escuta, o morto Abel o escuta,
mil o escutam sob o toldo celeste,
dez mil e mais não o escutam, porém,
sobre a morte de Abel não querem saber nada,
nada sobre Caim e o peso em seu coração,
nada do sangue a jorrar de tantas feridas,
nada da guerra que estava aí ainda ontem
e da qual sabem agora lendo romances.
Para esses todos, alegres e satisfeitos,
fortes e brutos,
Caim e Abel, tristeza e morte, não existem:
louvam a guerra como um tempo formidável.

E quando passa voando o pássaro lamentoso
dizem que é agourento e pessimista,
sentem-se fortes e invictos,
e apedrejam o pássaro
até fazê-lo calar e sumir,
ou tocam música para não mais o ouvirem
porque a voz triste dele os incomoda.

O pássaro com suas pequeninas
gotas de sangue no bico, voa de um a outro lugar
e o seu pranto por Abel não para de ressoar.

Hermann Hesse (1877-1962)
Tradução: Geir Campos

17 de maio de 2019

Ilusões

Henri Gervex
Ela, que eu não julgo feia,
possui a pupila azul
e dá sempre certa ideia
das filhas de John Buli.
Os bons pintores de França
coloriram lhe o cabelo…
Que trança de ouro! Que trança
se os seios não fossem gelo!
Seduz quando se lhe vê
do colo a brancura, e enfim
tem de alvos lírios o pé
e a mão é como um jasmim.
Ninguém no mundo presuma
sonhar beldade maior;
nasceu num lençol d’espuma
depois de um sonho de amor.
É pena ter, como a face,
o seio desfeito em neve:
por mais que à porta se passe
a sorrir jamais se atreve!
Esbanjei tempos imensos
no fervor de remirá-la
e, apesar dos meus incensos,
nunca chegámos à fala.
Por fim mais me aproximei
um dia pelo sol posto
e então com pasmo notei
que era pintura o seu rosto.
Fez-lhe o vestido a Férin
de um estofo um pouco espesso,
mas logo vi muito bem
uma boneca de gesso.
Uma boneca de sala,
inerte, desanimada,
sem luz, sem vida, sem fala,
uma boneca e mais nada!

Diogo Macedo (1844-1938)

15 de maio de 2019

Ebulição da Escravatura

Tarsila do Amaral
A área de serviço é senzala moderna,
Tem preta eclética, que sabe ler “start”;
“Playground” era o terreiro a varrer.

Navio negreiro assemelha-se ao ônibus cheio,
Pelo cheiro vai assim até o fim-de-linha;
Não entra no novo quilombo da favela.

Capitão-do-mato virou cabo de polícia,
Seu cavalo tem giroflex (radiopatrulha).
“Os ferros”, inoxidáveis algemas.

Ração poder ser o salário-mímino,
Alforria só com a aposentadoria
(Lei dos sexagenários).

“Sinhô” hoje é empresário,
A casa-grande verticalizou-se.
O pilão está computadorizado.
Na última página são “flagrados”
Em cuecas, segurando a bolsa e a automática:
Matinal pelourinho.

A princesa Áurea canta,
Pastoreia suas flores.
O rei faz viaduto com seu codinome.

– Quantos negros? Quanto furor?
Tantos tambores... tantas cores...
O que comparar com cada batida no tambor?

¤¤¤¤ ¤¤¤¤ ¤¤¤¤ ¤¤¤¤

“A escravatura não foi abolida;
foi distribuída entre os pobres”.

Luís Carlos de Oliveira

13 de maio de 2019

As árvores

Vincent van Gogh
As folhas rebentam nas árvores
Como algo que quase se diz;
Os novos botões espreguiçam-se,
O verde é uma forma de mágoa.

Será que renascem, e nós
A envelhecer? Não, também morrem.
O truque que as faz parecer novas
Está escrito no grão dos anéis.

Porém os castelos inquietos
Adensam e crescem com o Maio.
Dizem: “passou, morreu o ano –
Recomecem, recomecem…”

Philip Larkin (1922–1985)
Tradução: Rui Carvalho Homem

11 de maio de 2019

Onde estará a Guilhermina?

Quando a minha irmã a convidou
e eu corri a abrir-lhe a porta,
entrou o sol, entraram estrelas,
entraram duas tranças de trigo
e dois olhos intermináveis.
Eu tinha catorze anos
e era orgulhosamente calado,
magro, severo, sisudo,
funéreo e cerimonioso:
vivia com as aranhas,
humedecido pela mata,
conheciam-me os coleópteros
e as abelhas tricolores,
adormecia com as perdizes
metido todo em hortelã.
Então entrou a Guilhermina
com dois relâmpagos azuis
que atravessaram o meu cabelo
e me cravaram como espadas
contra as paredes do Inverno.
Isto aconteceu em Temuco.
Lá para o Sul, na fronteira.
Passaram lentos os anos
pisando como paquidermes,
regougando como raposas loucas,
passaram impuros os anos
crescentes, poídos, mortuários,
e eu andei de nuvem pra nuvem,
de terra em terra, de olho em olho,
enquanto a chuva na fronteira
caía, com o mesmo fato.
Caminhou o meu coração
com intransmissíveis sapatos,
e digeri muitos espinhos:
não tive tréguas onde estive:
onde eu bati, bateram-me,
onde me mataram caí
e ressuscitei com frescura,
e depois, depois, depois, depois
é tão longo contar as coisas.
Não tenho nada para acrescentar.
Vim viver para este mundo.
Onde estará a Guilhermina?

Pablo Neruda (1904-1973)
Tradução: Fernando Assis Pacheco

9 de maio de 2019

Canção noturna do andarilho

Jean-Marc Janiaczyk
No alto das colinas
há paz;
não se ouve, ali nas
frondes, mais
que um sopro manso.
Nem há no bosque um trino. Aguarda:
tampouco tarda
o teu descanso.
o teu descanso.

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)
Tradução: Nelson Ascher

7 de maio de 2019

Canção da breve serenidade

Paul Gauguin
Ouço a chuva cair. Olho as ruas molhadas.
Penso nas violetas e nos jardins em flor.
Desce ao meu coração uma paz sem memória.
Desce ao meu coração uma doçura imensa…

Lembro o amor a dormir tranquilo e sossegado
A rua esquiva e sem pregões, a rua pobre,
A rua humilde e a casa pequenina, em que se abriga
Lembro a infância que foi e outras manhãs já longe.

Sinto a vida como a chuva descendo
Sobre os quietos beirais, sobre as ruas, descendo
Sinto que o tempo é bom porque não para nunca

Um ritmo de abrigo envolve as coisas, tudo,
Vontade de dormir o grande sono calmo
Ouvindo a chuva triste e mansa a descer sobre mim.

Augusto Frederico Schmidt (1906-1965)

5 de maio de 2019

Do Supérfluo

Henri Matisse
Também as cousas participam
de nossa vida. Um livro. Uma rosa.
Um trecho musical que nos devolve
a horas inaugurais. O crepúsculo
acaso visto num país
que não sendo da terra
evoca apenas a lembrança
de outra lembrança mais longínqua.
O esboço tão somente de um gesto
de ferina intenção. A graça
de um retalho de lua
a pervagar num reposteiro.
A mesa sobre a qual me debruço
cada dia mais temerosa
de meus próprios dizeres.
Tais cousas de íntimo domínio
talvez sejam supérfluas.
No entanto
que tenho a ver contigo
se não leste o livro que li
não viste a rosa que plantei
nem contemplaste o pôr do sol
à hora em que o amor se foi?
Que tens a ver comigo
se dentro em ti não prevalecem
as cousas – todavia supérfluas –
do meu intransferível patrimônio?

Henriqueta Lisboa (1901-1985)