24 de junho de 2017

Romance das matas no Rio de Janeiro

Armando Vianna - Morro do Borel em 1971
Navios vão-se atracando,
chegam noturnos mineiros,
andarilhos vêm andando
e em cavalos, cavaleiros
trocando o sul e os cavalos,
as colheitas e o dinheiro
por uma braça de um rio
de inexistente janeiro.

As casas vertiniginosas
na floresta de cimento
sobem doidas, caprichosas,
arranhando o firmamento.
As ruas crescem, comprimem
o corpo azul do gigante
que se levanta irrascível,
touro raivoso e espumante.

Medrosos troncos se abraçam
na floresta verdadeira.
Cipós covardes se enlaçam
pelo corpo das palmeiras.
Tudo debalde. O homem lança
um olhar de certeira flecha,
dardo de fogo que alcança
o coração da floresta.

Ai soluço ressequido,
pranto escuro de carvão!
Ai fundo e negro suspiro
que se eleva na amplidão!
Línguas de um fogo faminto
estralam gula e paixão.
Ai! Das matas sobe um grito,
descem lavas de um vulcão.

Os homens plantam sementes
de fogo e míseras casas,
crivam duros alfinetes
na renda verde das matas.
Nas grimpas nuas, as chagas,
ontem, rubras de clarão,
hoje são tendas plantadas
entre reboco e carvão.
E a miséria fecundada
no gineceu das taperas
rebenta nas densas matas
uma estranha primavera.

Celina Ferreira

23 de junho de 2017

Mar de ninguém

Gaston La Touche
No mar de ninguém
o navio fantasma e a sua hélice de sangue
à distância de um tiro
onde é a entrada abrupta dando para o torso adolescente
o de sempre quando é preciso procurar uma passagem
entre fios esticados de garganta a garganta
e um tambor estilhaçado à altura do peito.

António José Forte (1931-1988)

21 de junho de 2017

Se te chamasses...

Martin Johnson Heade
Se te chamasses Maria
a manhã que se prepara
em ti talvez moraria

ou, se te chamasses Clara
o teu nome despertasse
as luzes do fim do dia
para pintar tua face

mas quis chamar-te Alegria
o mistério de que és filha
e o teu nome apenas brilha
dentro da noite vazia.

Jayme Kopke

19 de junho de 2017

Colóquio sentimental

Briton Riviere - Jardim do Éden
No velho parque sozinho e gelado
Duas formas passaram, lado a lado...

De lábios moles e de olheiras cavas,
Mal se podendo ouvir suas palavras.

No velho parque sozinho e gelado
Dois espectros falaram do passado.

De nosso êxtase antigo tu te lembras sempre?
– Dize: Por que desejas que agora eu me lembre?

– Meu nome faz bater teu coração
Ainda e vês minha alma em sonhos? – Não.

— Ah! belos dias de glória indizível,
Sonorosos de beijos! – É possível.

– Como era azul o céu, como era grande a espera!
– Ah, como esta fugiu para negra atmosfera!

Iam assim entre as aveias alvas,
Só a noite escutou suas palavras.

Paul Verlaine (1844-1896)
Tradução: Jamil Almansur Haddad

17 de junho de 2017

Amor e seu tempo

Wesley Dallas Merritt
Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

16 de junho de 2017

Poesia Erótica

Andreas Heumann
Teu corpo seja brasa
e o meu a casa que se consome no fogo,
um incêndio basta pra consumar esse jogo,
uma fogueira chega pra eu brincar de novo.

- Alice Ruiz -

15 de junho de 2017

A um mestre alquimista

Émile Bernard
Nuvens de cores recortam-se em roupas
Desde véus bordados, o odor do incenso
Flores e folhas de lótus desenham-se
sobre a paisagem, delicada capa
Cessa todo passo ao cantar dos pássaros
Abre-se a gaiola, é liberto o grou
Primavera: deitar-se, o teto é alto
só acordar à chuva, ao final da tarde.

Yu Xuanji (844-869)
Tradução: Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao

13 de junho de 2017

As Famílias mais importantes da História

Famílias importantes na história :
  • A família Tudor que governou Inglaterra de 1485 e 1603, mais de um século.
  • A família dos Stuart reinou na Inglaterra e Escócia por 111 anos 1603-1714
  • A família Kennedy, a família mais célebre e influente dos Estados Unidos (século XX).
  • A família dos Médicis, sem dúvida, foi a mais importante da história. Dominaram Florença durante 300 anos.
Eleonora di Toledo Medici - Quadro de Agnolo Bronzino
Médici foi uma dinastia política italiana, inicialmente uma família de Médicos que ajudavam as vítimas da peste negra e mais tarde uma casa real por eleição do povo, cujo primeiro membro de destaque que uniu a família foi Carolimbo de Médici, que se tornou o maior Médico da Europa na época durante o século XIV. A família teve origem na região de Mugello da Toscânia, aumentando gradualmente até que eles foram capazes de fundar o Hospital tozzi Firenze. O hospital foi o maior da Europa durante o século XV, e proporcionou grande poder político para os Medici, até que passaram a governar Florença - embora oficialmente eles fossem apenas cidadãos comuns, ao invés de monarcas. Da Casa de Médici provieram quatro Papas e, a partir de 1531, os Médici tornaram-se os líderes hereditários do Ducado de Florença. Além da política e governação, os Médici notabilizaram-se em outros campos, principalmente no mecenato. Medicis - Estavam na vanguarda da ciência, pois por ordem deles Galileu Galilei não foi executado pela Inquisição. Financiaram arquitetos, pintores, escultores e atraiu a maior quantidade de gênios por metro quadrado que o mundo já viu. Entre os séculos 14 e 16, a cidade foi palco de revoluções na cultura.
  • Na literatura: Dante Alighieri (1265-1321), Francesco Petrarca (1304-1374), Giovanni Boccaccio (1313-1375),
  • Na ciência: Galileu Galilei (1564-1642),
  • Na política: Maquiavel (1469-1527),
  • Na escultura: Donatello (1386-1466), Ghiberti (1378-1455), Michelangelo (1475-1564), Giambologna (1529-1608),
  • Na pintura: Rafael Sânzio(1483-1520), Giotto(1266-1337), Michelangelo (1475-1564), Botticelli (1445-1510), Leonardo da Vinci (1452-1519, Filippo Lippi (1406-1469),
  • Na arquitetura: Bruneleschi (1377-1446), Giorgio Vasari (1511-1574).
Retrato de Juliano de Médici- Sandro Botticelli

12 de junho de 2017

Alta é minha janelinha

Vittorio Reggianini
Alta é minha janelinha!
Não a alcança seu mindinho!
No muro, com sua luz,
O sol deitou uma cruz.

Cruz sutil de uma moldura.
Paz que para sempre dura.
E me parece o próprio
Céu, a sepultura!
Marina Tzvietáieva (1892-1941)
Tradução: Aurora Fornoni Bernardini

11 de junho de 2017

O Estranho

Hugo Simberg
Não sei dizer quando começou, não sei.
Faz um mês que me dei conta, e
desde então sucedeu cada noite.

Tomei todas as precauções necessárias:
deixar o carro no lugar seguro de costume,
assegurar-me de ter fechado bem as portas. Em vão.

Ao dia seguinte o encontraria aberto.
No princípio decidi estacionar
por outros bairros. Em vão.

O encontrava aberto. Ao parecer,
alguém costumava dormir dentro.
E eu ia trabalhar com seu odor.

Logo pensei que se não fazia outra coisa que dormir,
não era tão grave. Ao fim e ao cabo,
não levava o carro. E mais,

me resultava agradável aquele perfume distante.
Me perguntava sobre sua origem,
pela cor da pele, seria negra ou da cor do mel?

Uma vez lhe deixei uma flor. Colheu-a.
No dia seguinte lhe deixei uma mensagem. Em vão. Não voltou a aparecer.

Kirmen Uribe
Tradução: Angela Caon Pieruccini

10 de junho de 2017

Trajetória Poética do Ser

Jim Warren
De delicadezas me construo. Trabalho umas rendas
Uma casa de seda para uns olhos duros.
Pudesse livrar-me da maior espiral
Que me circunda e onde sem querer me reconstruo!
Livrar-me de todo olhar que quando espreita, sofre
O grande desconforto de ver além dos outros.
Tenho tido esse olhar. E uma treva de dor
Perpetuamente.
Do êxodo dos pássaros, do mais triste dos cães,
De uns rios pequenos morrendo sobre um leito exausto.
Livrar-me de mim mesma. E que para mim construam
Aquelas delicadezas, umas rendas, uma casa de seda
Para meus olhos duros.

Hilda Hilst (1930-2004)

9 de junho de 2017

Prometeu

Jan Cossiers
Encobre o teu céu, ó Zeus,
Com vapores de nuvens,
E, qual menino que decepa
A flor dos cardos,
Exercita-te em robles e cristas de montes;
Mas a minha Terra
Hás-de-ma deixar,
E a minha cabana, que não construíste,
E o meu lar,
Cujo braseiro
Me invejas.

Nada mais pobre conheço
Sob o sol do que vós, ó Deuses!
Mesquinhamente nutris
De tributos de sacrifícios
E hálitos de preces
A vossa majestade;
E morreríeis de fome, se não fossem
Crianças e mendigos
Loucos cheios de esperança.

Quando era menino e não sabia
Pra onde havia de virar-me,
Voltava os olhos desgarrados
Para o sol, como se lá houvesse
Ouvido pra o meu queixume,
Coração como o meu
Que se compadecesse da minha angústia.

Quem me ajudou
Contra a insolência dos Titãs?
Quem me livrou da morte,
Da escravidão?
Pois não foste tu que tudo acabaste,
Meu coração em fogo sagrado?
E jovem e bom – enganado –
Ardias ao Deus que lá no céu dormia
Tuas graças de salvação?!

Eu venerar-te? E por quê?
Suavizaste tu jamais as dores
Do oprimido?
Enxugaste jamais as lágrimas
Do angustiado?
Pois não me forjaram Homem
O Tempo todo-poderoso
E o Destino eterno,
Meus senhores e teus?

Pensavas tu talvez
Que eu havia de odiar a Vida
E fugir para os desertos,
Lá porque nem todos
Os sonhos em flor frutificaram?

Pois aqui estou! Formo Homens
À minha imagem,
Uma estirpe que a mim se assemelhe:
Para sofrer, para chorar,
Para gozar e se alegrar,
E pra não te respeitar,
Como eu!

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)
Tradução: Paulo Quintela

8 de junho de 2017

Mefisto

Eugène Delacroix
Espírito flexível e elegante,
Ágil, lascivo, plástico, difuso,
Entre as cousas humanas me conduzo
Como um destro ginasta diletante.

Comigo mesmo cínico e confuso,
Minha vida é um sofisma espiralante;
Teço lógicas trêfegas e abuso
Do equilíbrio, na Dúvida flutuante.

Bailarino dos círculos viciosos,
Faço jogos sutis de ideias no ar,
Entre saltos brilhantes e mortais,

Com a mesma petulância singular
Dos grandes acrobatas audaciosos
E dos malabaristas de punhais...

Raul de Leoni (1895-1926)

6 de junho de 2017

As maiores crenças do mundo

Provenientes de praticamente todos os cantos do mundo, as maiores crenças são tão diversificadas quanto suas culturas. Algumas se originaram na pré-história, mas o séc. XX viu surgirem várias novas religiões que atraíram milhões de seguidores.
Nome
Local/Data
Adeptos
Fundador
Textos
Religião tradicional chinesa Pré-História 400 milhões Autóctone Não documentada
Hinduísmo Índia,
- Pré-História
900 milhões Autóctone Os Vedas,
os Upanixades
- os Épicos Sânscritos
Xintoísmo Japão,
- Pré-História
3 a 4 milhões Autóctone Kojik,
Nihon-gi
Vodu África Ocidental
8 milhões Autóctone Não documentadas
Zoroastrismo Irã, séc. VI a.C.
200 mil Zaratustra O Avesta
Taoísmo China 550 a.C.
20 milhões Lao-Tsé Tão Te King
Jainismo Índia 550 a.C.
4 milhões Mahavira - Ensinamentos de Mahavira
Budismo Nordeste da Índia 520 a.C.
375 milhões Sidhartha Gautama Os Sutras Mahayana
Confucionismo China séc. VI a.C.
5 a 6 milhões Confúcio Os Quatro Livros
os Cinco Clássicos
Judaísmo Israel, 1300 a.C.
15 milhões Abraaão; Moisés Bíblia Hebraica
Talmude
Cristianismo Israel, 30 d.C.
2 bilhões Jesus Cristo Bíblia (Antigo e Novo Testamento)
- Islamismo - Arábia Sáudita,revelado séc. VII
- 1,5 bilhão - Maomé - O Corão
- Siquismo - Punjab, Índia, 1500
- 23 milhões - Guru Nanak - Guru Adi Granth Sahib
Mórmon Nova York, 1830
13 milhões Joseph Smith Bíblia;
O Livro de Mórmon
Tenrikyô Japão, 1838
1 milhão Miki Nakayama Mikigaurata,
Ofudesaki, Osashizu
- Bahaísmo - Teerã, Irã, 1863
- 5 a 7 milhões - Bahá'u'lláh - Escritos Bahais
- Ciência Cristã - Nova York, EUA, 1879
- 400 mil - Mary Baker Eddy - A Bíblia;
- Ciência e saúde com a chave das Escrituras
- Caodaísmo - Vietnã, 1926
- 8 milhões - Ngô Văn Chiêu - Cão Dai
- Rastafarismo - Jamaica, anos 1930
- 1 milhão Halié Selassié I - Piby sagrada
- Associação das Famílias para a Paz Mundial e a Unificação - Coreia do Sul, 1954
- 3 milhões - Sun Myung Moon - Sun Myung Moon, o princípio divino
- Wicca - Década 1950
- 1 a 3 milhões - Gerald Gardner - Não Documentada
- Falun Gong - China 1992
- 10 milhões - Li Hongzhi - Escritos do mestre Li, incluindo Zhuan Falun

5 de junho de 2017

A Porta

David Lloyd Glover
Eu sou feita de madeira
Madeira, matéria morta
Mas não há coisa no mundo
Mais viva do que uma porta.

Eu abro devagarinho
Pra passar o menininho
Eu abro bem com cuidado
Pra passar o namorado
Eu abro bem prazenteira
Pra passar a cozinheira
Eu abro de supetão
Pra passar o capitão.

Só não abro pra essa gente
Que diz (a mim bem me importa...)
Que se uma pessoa é burra
É burra como uma porta.

Eu sou muito inteligente!

Eu fecho a frente da casa
Fecho a frente do quartel
Fecho tudo nesse mundo
Só vivo aberta no céu!

Vinícius de Moraes (1913-1980)

4 de junho de 2017

Aos que Vão Nascer

David Adolph Constant Artz
I
Realmente, eu vivo num tempo sombrio.
A inocente palavra é um despropósito. Uma fronte sem ruga
denota insensibilidade. Quem está rindo
é só porque não recebeu ainda
a notícia terrível.

Que tempo é este em que
uma conversa sobre árvores chega a ser falta,
pois implica silenciar sobre tantos crimes?
Esse que vai cruzando a rua, calmamente,
então já não está ao alcance dos amigos
necessitados?

É verdade: ainda ganho o meu sustento.
Porém, acreditai-me: é puro acaso. Nada
do que faço me dá direito a isso, de comer a fartar-me.
Por acaso me poupam. (Se minha sorte acaba,
estou perdido.)
Dizem-me: – Vai comendo e vai bebendo! Alegra-te com o que tens!
Mas como hei de comer e beber, se
o que eu como é tirado a quem tem fome, e
meu copo d’água falta a quem tem sede?
Contudo eu como e bebo.

Eu bem gostaria de ser um sábio.
Nos velhos livros consta o que é sabedoria:
manter-se longe das lidas do mundo e o tempo breve
deixar correr sem medo.
Também saber passar sem violência,
pagar o mal com o bem,
os próprios desejos não realizar e sim esquecer,
conta-se como sabedoria.
Não posso nada disso:
realmente, eu vivo num tempo sombrio!

II
Às cidades cheguei em tempo de desordem,
com a fome imperando.
Junto aos homens cheguei em tempo de tumulto
e me rebelei com eles.
Assim passou-se o tempo
que sobre a terra me foi concedido.

Minha comida mastiguei entre refregas.
Para dormir deitei-me entre assassinos.
O amor eu exercia sem cuidado
e olhava sem paciência a natureza.
Assim passou-se o tempo
que sobre a terra me foi concedido.

As ruas do meu tempo iam dar no atoleiro.
A fala denunciava-me ao carrasco.
Bem pouco podia eu, mas os mandões
sem mim sentiam-se mais garantidos, eu esperava.
Assim passou-se o tempo
que sobre a terra me foi concedido.

Minguadas eram as forças. E a meta
ficava a grande distância;
claramente visível, conquanto para mim
difícil de alcançar.
Assim passou-se o tempo
que sobre a terra me foi concedido.

III
Vós, que vireis na crista da maré
em que nos afogamos,
pensai,
quando falardes em nossas fraquezas,
também no tempo sombrio
a que escapastes.

Vínhamos nós então mudando de país mais do que de sapatos,
em meio às lutas de classes, desesperados,
enquanto apenas injustiça havia e revolta nenhuma.

E entretanto sabíamos:
também o ódio à baixeza
endurece as feições,
também a raiva contra a injustiça
torna mais rouca a voz. Ah, e nós,
que pretendíamos preparar o terreno para a amizade,
nem bons amigos nós mesmos pudemos ser.
Mas vós, quando chegar a ocasião
de ser o homem um parceiro para o homem,
pensai em nós
com simpatia.

Bertolt Brecht (1898-1956)
Tradução: Geir Campos

3 de junho de 2017

Cidade dos Estios

Henri Rousseau
Cidade acidental
dos estios. Senhoras
sobre luz, em azul.

Sedas, sedas extremas
insinuam, evitam
os ângulos fugitivos.

Desliza pelo seu carril
a reta. Corre, corre,
corre para a sua conclusão.

Ai! a cidade está
Louca de geometria,
Ó muito elementar!

Agosto é sábio
Com toda a simplicidade. Vértice,
Fatalidade sutil.

Por uma rede de caminhos,
De claríssimas tardes,
Seguem as delícias exatas.

E aos raios de sol
Evidentes, aconchega-se
A cidade essencial.

Jorge Guillén (1893-1984)
Tradução: Luís Costa

2 de junho de 2017

Lavado e perfumado

Hokusai Katsushika
Banhado em fragrância,
não esfregue os cabelos.
Lavado em perfume,
não sacuda sua roupa.
Saiba: o mundo
detesta o que é puro.
O homem de coração nobre
esconde seu brilho.
Na beira do rio,
um velho pescador.
Ele e eu somos irmãos
e juntos regressaremos.

Li Bai (701-762)
Tradução: Sérgio Capparelli e Sun Yuqi

1 de junho de 2017

Uma Dedicatória

Annael Anelia Pavlova
Hans, há momentos em que todo o espírito
Se transforma num par de olhos transbordantes, ou lábios
Abrindo-se para beber da funda nascente de uma morte
Cuja frescura ainda não precisam de entender.
São estes os momentos, se os há, em que um anjo entra
No espírito, como reis nas vestes
De um pobre cabreiro, para os seus atos de caridade.
Há momentos em que a fala é apenas uma boca colada
Revê e humildemente na mão do anjo.

James Merrill (1926-1995)
Tradução: José Alberto de Oliveira.

31 de maio de 2017

Madrigal

Annael Anelia Pavlova
Enfim fenece o dia,
Enfim chega da noite o triste espanto,
E não chega desta alma o doce encanto:
Enfim fica triunfante a tirania,
Vencido o sofrimento,
Sem alívio meu mal, eu sem alento,
A sorte sem piedade,
Alegre a emulação, triste a vontade,
O gosto fenecido,
Eu infeliz enfim, Lauro esquecido.
Quem viu mais dura sorte?
Tantos males, amor, para uma morte?
Não basta contra a vida
Esta ausência cruel, esta partida?
Não basta tanta dor? tanto receio?
Tanto cuidado, ai triste, e tanto enleio?
Não basta estar ausente,
Para perder a vida infelizmente?
Se não também, cruel, neste conflito
Me negas o socorro de um escrito?
Porque esta dor que a alma me penetra
Não ache o maior bem na menor letra,
Ai! bem fazes, amor, tira-me tudo!
Não há alívio, não, não há escudo,
Que a vida me defenda,
Tudo me falte, enfim, tudo me ofenda,
Tudo me tire a vida,
Pois eu a não perdi na despedida.

Violante da Silveira (1601-1693)
Violante da Silveira ou Violante de Montesino nasceu em 1601 e faleceu em 1693.
Passou a chamar-se Sóror Violante do Céu após entrar para um convento de freiras enclausuradas aos trinta anos de idade.
Consta que não exilou-se da vida mundana por vocação, mas para se proteger de sentimentos amorosos que a arrebataram e fizeram sofrer.

30 de maio de 2017

O Iceberg Imaginário

Frederic Edwin Church
O iceberg nos atrai mais que o navio,
mesmo acabando com a viagem.
Mesmo pairando imóvel, nuvem pétrea,
e o mar um mármore revolto.
O iceberg nos atrai mais que o navio:
queremos esse chão vivo de neve,
mesmo com as velas do navio tombadas
qual neve indissoluta sobre a água.
Ó calmo campo flutuante,
sabes que um iceberg dorme em ti, e em breve
vai despertar e talvez pastar na tua neve?

Esta cena um marujo daria os olhos
pra ver. Esquece-se o navio. O iceberg
sobe e desce; seus píncaros de vidro
corrigem elípticas no céu.
Este cenário empresta a quem o pisa
uma retórica fácil. O pano leve
é levantado por cordas finíssimas
de aéreas espirais de neve.
Duelo de argúcia entre as alvas agulhas
e o sol. O seu peso o iceberg enfrenta
no palco instável e incerto onde se assenta.

É por dentro que o iceberg se faceta.
Tal como joias numa tumba
ele se salva para sempre, e adorna
só a si, talvez também as neves
que nos assombram tanto sobre o mar.
Adeus, adeus, dizemos, e o navio
segue viagem, e as ondas se sucedem,
e as nuvens buscam um céu mais quente.
O iceberg seduz a alma
(pois os dois se inventam do quase invisível)
a vê-lo assim: concreto, ereto, indivisível.

Elizabeth Bishop (1911-1979)
Tradução: Paulo Henriques Brito

29 de maio de 2017

Soneto

Jean Francois de Troy
O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
A força, a arte, a manha, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora;

O tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.

O tempo o claro dia torna escuro
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grão bonança.

Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.

Luís Vaz de Camões (1524-1589)

27 de maio de 2017

Parece igual esta flor...

Vladimir Volegov
Parece igual esta flor
mas já não é.
De corpo decepado, ainda a cabeça move
todo a graça!
Só amanhã secará.
Aguentasse um dia a nossa esperança,
um dia apenas de cabeça viva
e corpo decepado,
aguentássemos nós a vida em nossos olhos
depois do corpo morto,
e em nós começaria a eternidade.

Mas a seiva que ilude bela flor
é mais forte que o sangue verdadeiro.

Maria Alberta Menéres

26 de maio de 2017

O pássaro da poesia

Lourry Legarde
O pássaro da poesia
O pássaro da poesia
soma de tanta asa
tanta pena
tanta amplidão,
é animal de grande potência
e autonomia,
os poetas, não.

Gotas de sangue eles são
nas veias do Pássaro-Mãe
e têm de cuidar de si
e do ávido bico materno
que se alimenta
dos filhos que gera.

Voa a Poesia
as grandes asas sombreando os caminhos.
O poeta vai a pé
sob olhares e zumbidos
junto a invisíveis muradas.

Sente frio
sob o sol
sente febre
e solidão.
Por onde vai os dedos apontam o vagabundo,
ele prossegue, entretanto.
É seu destino.
E ele não o troca
por nada deste mundo.

Abel Silva