6 de julho de 2015

O Nascido Depois

Henri Martin
Eu confesso: eu
Não tenho esperança.
Os cegos falam de uma saída. Eu
Vejo.
Após os erros terem sido usados
Como última companhia, à nossa frente
Senta-se o Nada.

Bertolt Brecht (1898-1956)
Tradução: Paulo César de Souza

Das Alegrias e Paixões

Gustave Doré
“Irmão, quando possues uma virtude e essa virtude é tua, não a tens em comum com pessoa nenhuma. A falar verdade, tu queres chamá-la pelo seu nome e acariciá-la; queres puxar-lhe a orelha e divertir-te com ela. E já vês! Tens agora o seu nome em comum com o povo, e tornaste-te povo e rebanho com a tua virtude! Farias melhor dizendo: “Coisa inexprimível e sem nome é o que constitui o tormento e a doçura da minha alma, e o que é também a fome das minhas entranhas”. Seja a tua virtude demasiado alta para a familiaridade de denominações; e se necessitas falar dela não te envergonhes de balbuciar. Fala e balbucia assim: “Este é o meu bem, o que amo; só assim me agrada inteiramente; só assim é que quero bem! Não o quero como mandamento de um Deus, nem como uma lei e uma necessidade humana; não há de ser para mim um guia de terras superiores e paraísos. O que eu amo é uma virtude terrena, que se não relaciona com a sabedoria e o sentir comum. Este pássaro, porém, construiu o seu ninho em mim; por isso lhe quero e o estreito ao coração. Agora incuba em mim os seus dourados ovos”. É assim que deves balbuciar e elogiar a tua virtude. Dantes tinhas paixões e chamava-lhes males. Agora, porém, só tens as tuas virtudes: nasceram das tuas paixões. Puseste nessas paixões o teu objetivo mais elevado; então passaram a ser tuas virtudes e alegrias.
Fostes da raça dos coléricos, ou dos volutuosos ou dos fanáticos, ou dos vingativos, todas as tuas paixões acabaram por se mudar em virtudes, todos os teus demônios em anjos. Dantes tinhas no teu antro, cães selvagens, mas acabaram por se converter em pássaros e aves canoras. Com os teus venenos preparaste o teu bálsamo; ordenhaste a tua vaca de tribulação e agora bebes o saboroso leite dos seus úberes. E nenhum mal nasce em ti, a não ser aquele que brota da luta das tuas virtudes. Irmão, quando gozas de boa sorte tens uma virtude, e nada mais; assim passas mais ligeiro a ponte. É uma distinção ter muitas virtudes, mas é sorte bem dura; e não são poucos os que se têm ido matar ao deserto por estarem fartos de ser combatente e campo de batalha de virtudes. Irmão, a guerra e as batalhas são males? Pois são males necessários; a inveja, a desconfiança e a calúnia são necessárias entre as tuas virtudes. Repara como cada uma das virtudes deseja o mais alto que há: quer todo o teu espírito para seu arauto, quer a tua força toda na cólera, no ódio e no amor. Cada virtude é ciosa das outras virtudes, e os ciúmes são uma coisa terrível. Também há virtudes que podem morrer por ciúmes. O que anda em redor da chama dos ciúmes, acaba qual escorpião, por voltar contra si mesmo o aguilhão envenenado. Ai, meu irmão! Nunca viste uma virtude caluniar-se e aniquilar-se a si mesma? O homem precisa ser superado. Por isso necessitas amar as tuas virtudes, porque por elas morrerás”.
Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900),
in "Assim falava Zaratustra".

5 de julho de 2015

O Poeta

Henri Matisse
Já te despedes de mim, Hora.
Teu golpe de asa é o meu açoite.
Só: da boca o que faço agora?
Que faço do dia, da noite?

Sem paz, sem amor, sem teto,
caminho pela vida afora.
Tudo aquilo em que ponho afeto
fica mais rico e me devora.

Rainer Maria Rilke (1875-1926)
Tradução: Augusto de Campos

O que Nós Vemos

Thomas Benjamin Kennington
O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.

Mas isso
(tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores.
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.
Alberto Caeiro
Fernando Pessoa (1888-1935)

4 de julho de 2015

O Grito

Gustav Klimt
Se ao menos esta dor servisse
se ela batesse nas paredes
abrisse portas
falasse
se ela cantasse e despenteasse os cabelos

se ao menos esta dor se visse
se ela saltasse fora da garganta como um grito
caísse da janela fizesse barulho
morresse
se a dor fosse um pedaço de pão duro
que a gente pudesse engolir com força
depois cuspir a saliva fora
sujar a rua os carros o espaço o outro
esse outro escuro que passa indiferente
e que não sofre tem o direito de não sofrer

se a dor fosse só a carne do dedo
que se esfrega na parede de pedra
para doer doer doer visível
doer penalizante
doer com lágrimas

se ao menos esta dor sangrasse.

Renata Pallottini

SONETO CLXXX

Jean-Baptiste Greuze
Horas breves de meu contentamento,
Nunca me pareceu, quando vos tinha,
Que vos visse mudadas tão asinha
Em tão compridos anos de tormento.

As altas torres, que fundei no vento,
Levou, enfim, o vento que as sustinha:
Do mal, que me ficou, a culpa é minha,
Pois sobre coisas vãs fiz fundamento.

Amor com brandas mostras aparece,
Tudo possível faz, tudo assegura;
Mas logo no melhor desaparece.

Estranho mal! Estranha desventura!
Por um pequeno bem que desfalece,
Um bem aventurar, que sempre dura.

Luís Vaz de Camões (1524-1589)

3 de julho de 2015

A Fazenda

Louis-Jean-François Lagrenée
Seis horas... Salto do leito,
Que céu azul ! Que bom ar !
Ai, como sinto no peito,
Moço, vivo, satisfeito,
O coração a cantar !

No meu quarto, alegre e claro,
Há rosas e girassóis.
Eu, com enlevo, reparo
No mínimo do seu preparo,
Na alvura dos seus lençóis.

Que doce encanto, e que graça,
Nesta simples aldeã,
Tem sobre os vãos da vidraça,
Leves cortinas de cassa,
Bailando ao sol da manhã !

Paulo Setúbal (1893-1937)

Noite ao Luar

Caspar David Friedrich
Foi como se o céu, na imensidão,
A terra houvesse beijado,
E esta, no brilho da flor, desde então,
Só com ele tivesse sonhado.

Pelo prado se arrasta o vento,
Espigas balançam serenas,
O bosque sussurra tão lento,
A noite era clara de estrelas.

E minha alma assim desdobrou,
De modo bem amplo a asa,
Sobre terras tranquilas voou,
Como voasse de volta pra casa.

Joseph von Eichendorff (1788-1857)
Tradução: Felipe Maia da Silva

2 de julho de 2015

Dentro sem fora

(Marcus Stone)
A vida está
dentro da vida
em si mesma circunscrita
sem saída.

Nenhum riso
nem soluço
rompe
a barreira de barulhos

A vasão
é para o nada
Por conseguinte
não vasa.

Ferreira Gullar

Falar

Edward Cucuel
A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.

A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.

Ferreira Gullar
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1 de julho de 2015

As Flores e os Pinheiros

Guilherme Matter- Plantação de trigo no Paraná
Vi os pinheiros no alto da montanha
Ouriçados e velhos;
E ao sopé da montanha, abrindo as flores
Os cálices vermelhos.

Contemplando os pinheiros da montanha,
As flores tresloucadas
Zombam deles enchendo o espaço em torno
De alegres gargalhadas.

Quando o outono voltou, vi na montanha
Os meus pinheiros vivos,
Brancos de neve, e meneando ao vento
Os galhos pensativos.

Volvi o olhar ao sítio onde escutara
Os risos mofadores;
Procurei-as em vão; tinham morrido
As zombeteiras flores.

Tin-Tun-Sing
Tradução: Machado de Assis

A antecipação da fama vindoura

Sir Lawrence Alma-Tadema
“Há homens que entregaram voluntariamente a vida visando adquirir, após a morte, um renome do qual não mais poderiam desfrutar. A sua imaginação, entrementes, antecipava a fama que lhes seria concedida em tempos vindouros.
Os aplausos que jamais ouviriam soar nos seus ouvidos e os pensamentos daquela admiração, cujos efeitos jamais sentiriam, brincaram em torno dos seus corações, baniram dos seus peitos o mais forte dos medos naturais e levaram-nos a realizar ações que pareceriam quase fora do alcance da natureza humana”.
Adam Smith (1723-1790)

30 de junho de 2015

O Lago

Albert Bierstadt
Espelho cristalino
lânguido espraiar
suave exaltação de espuma
branda mão macio afago
sereno e tranquilo lago

Ilha azul líquida festa
úmido lábio a refrescar
o verde fulvo da giesta
dolente corpo arredondado
Sereno e tranquilo lago.

André Moa
José Guilherme Macedo Fernandes (1939-2011)

Para Ti

Pablo Picasso
Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida.

Mia Couto

29 de junho de 2015

Cais

Paul Gauguin
Tênue é o cais
no Inverno frio.
Tênue é o voo
do pássaro cinzento.
Tênue é o sono
que adormece o navio.
No vago cais
do balouço da bruma
tênue é a estrela
que um peixe morde.
Tênue é o porto
nos olhos do casario.
Mas o que em fora nos dilui
faz-nos exatos por dentro.

Fernando Namora (1919-1989)

Filha do Sol e da Lua

Sara M Butcher Burrie
Filha do Sol e da Lua!
Digo baixinho, se passas,
Se te encontro pela rua...

Filha do Sol e da Lua!
És do Sol, sim, por ser loira
Essa cabeleira tua.

Filha do Sol e da Lua!
Da Lua, sim, por ser branca
A carne que trazes nua.

Tranças d’oiro..., tranças d’oiro...
Filha do Sol e da Lua!
Transformam-te num tesouro.

Teus olhos, que são dois astros,
Filha do Sol e da Lua!
Deixa os contemple de rastros.

E te manche as finas vestes,
Filha do Sol e da Lua!
Com estes lábios agrestes...

Que doçura a imagem tua,
De fogo e neve celestes...
Filha do Sol e da Lua!

Gentil Valadares (1916-2006)

28 de junho de 2015

Cantigas

John White Alexander
Não há pressas, nem demoras,
No coração das cantigas;
Nem os relógios dão horas
Quando cantam raparigas.

Como algum dia ando hoje;
Sou o mesmo apaixonado;
Quem disser que o tempo foge
É de nunca ter amado.

A saudade é queda d'água
Que ao longe quebra, ao bater;
É um compasso de mágoa
Marcado por te não ver.

Como um adeus de saudade
Não há palavra tão louca:
Dizer adeus, ninguém há de
Ouvi-lo da minha boca.

Quem ama liga-se à terra,
Quem canta, ao reino dos céus;
Quem para que Deus o salve,
Quem anda que vá com Deus.

Afonso Duarte (1884-1958)

Homem dentro do pesadelo

Naoto Hattori
Patas de lobo arranham
seu pescoço enquanto
intenta em vão
com socos e chutes amortecidos
pelo ar pesado
romper a membrana do sono

Veio rompê-la - de fora -
o dia
com suas patas de lobo.

Carlito Azevedo

27 de junho de 2015

Sombra e Névoa

Camille Pissarro
Cai o crepúsculo. Chove.
Sobe a névoa... A sombra desce...
Como a tarde me entristece!
Como a chuva me comove!

Cai a tarde, muda e calma...
Cai a chuva, fina e fria...
Anda no ar a nostalgia,
Que é névoa e sombra em minh'alma.

Há não sei que afinidade
Entre mim e a natureza:
Cai a tarde... Que tristeza!
Cai a chuva... Que saudade!

Da Costa e Silva (1885-1950)

À Garrafa

Vincent van Gogh
Contigo adquiri a astúcia
de conter e de conter-me.
Teu estreito gargalo
é uma lição de angústia.

Por translúcida pões
o dentro fora e o fora dentro
para que a forma se cumpra
e o espaço ressoe.

Até que, farta da constante
prisão da forma, saltes
da mão para o chão
e te estilhaces suicida,

numa explosão
de diamantes.

José Paulo Paes (1926-1998)

26 de junho de 2015

Pensando Melhor

Sakai Hoitsu
Mesmo em tardes muito quentes de Verão,
há sempre uma ave aventureira
que sobrevoa a terra.

(Pensando melhor, o que de fato há
é terra, apenas terra — que a seu tempo
há de sobrevoar o voo das aves.)

A.M. Pires Cabral

O Mundo Como Ideia

Claude Monet
O mundo como ideia (ou pensamento).
Entre a gnose e o real (talvez) o acordo.
Mas no ramo (imperene) cantão tordo
(provisório) e invisível vem o vento
e leva o canto e deixa um desalento,
a queixa dos sentidos... Não recordo
se sonhei tudo isso ou não: um tordo
e a noite em meus ouvidos um momento,
outro rapto no vento... Mas supor
que o triunfo moral do cognitivo
restitua-me o ser menos a dor,
é resignar-me a um perfume tão rápido
que não existe quase, insubstantivo
como a Ideia... Não: o mundo como rapto!

Bruno Tolentino (1940-2010)

25 de junho de 2015

Ai, Margarida

Ismael Nery
Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.

Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.

E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.

Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.

Comunicado pelo Engenheiro Naval
Sr. Álvaro de Campos em estado
de inconsciência alcoólica.

Álvaro de Campos
Fernando Pessoa (1888-1935)

24 de junho de 2015

Paisagem pelo Telefone

Cícero Dias
Sempre que no telefone
me falavas, eu diria
que falavas de uma sala
toda de luz invadida,

sala que pelas janelas,
duzentas, se oferecia
a alguma manhã de praia,
mais manhã porque marinha,

a alguma manhã de praia
no prumo do meio-dia,
meio-dia mineral
de uma praia nordestina,

Nordeste de Pernambuco,
onde as manhãs são mais limpas,
Pernambuco do Recife,
de Piedade, de Olinda,

sempre povoado de velas,
brancas, ao sol estendidas,
de jangadas, que são velas
mais brancas porque salinas,

que, como muros caiados
possuem luz intestina,
pois não é o sol quem as veste
e tampouco as ilumina,

mais bem, somente as desveste
de toda sombra ou neblina,
deixando que livres brilhem
os cristais que dentro tinham.

Pois, assim, no telefone
tua voz me parecia
como se de tal manhã
estivesses envolvida,

fresca e clara, como se
telefonasses despida,
ou, se vestida, somente
de roupa de banho, mínima,

e que por mínima, pouco
de tua luz própria tira,
e até mais, quando falavas
no telefone, eu diria

que estavas de todo nua,
só de teu banho vestida,
que é quando tu estás mais clara
pois a água nada embacia,

sim, como o sol sobre a cal
seis estrofes mais acima,
a água clara não te acende:
libera a luz que já tinhas.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

23 de junho de 2015

Bach Segovia Guitarra

Edmund Blair Leighton
A música do ser
Povoa este deserto
Com sua guitarra
Ou com harpas de areia
Palavras silabadas
Vêm uma a uma
Na voz da guitarra
A música do ser
Interior ao silêncio
Cria seu próprio tempo
Que me dá morada
Palavras silabadas
Unidas uma a uma
Às paredes da casa
Por companheira tenho
A voz da guitarra
E no silêncio ouvinte
O canto me reúne
De muito longe venho
Pelo canto chamada
E agora de mim
Não me separa nada
Quando oiço cantar
A música do ser
Nostalgia ordenada
Num silêncio de areia que não foi pisada.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)