23 de julho de 2014

Eu desvesti todas as diferenças

Charles Edward Perugini
O que pode ser feito, ó irmãos?
Não sei quem sou!
Não sou Cristão, nem Judeu, nem Mago, nem Muçulmano.
Não sou do Ocidente, nem do Oriente, da terra ou do mar.
Não fui formado pela natureza, nem pelas esferas celestes;
Nem pela terra, água, ar ou fogo.
Não sou rei nem mendigo;
Nem feito de substância ou de forma.
Nem sou da Índia, China, nem de um país fronteiriço;
Nem da Pérsia, nem das terras de Korasan.
Não sou deste mundo e nem do próximo;
Nem do céu, nem do inferno.
Não vim de Adão nem de Eva;
Não moro no Éden nem nos jardins do paraíso;
Meu lugar é um não lugar, minhas pegadas não deixam marca.
Nada é meu, nem corpo nem alma -
Tudo pertence ao coração do meu Amado.
Eu desvesti todas as diferenças,
e agora vejo os dois mundos como um..

Jalaludin Rumi (1207-1273)

Falar

Essud Fungcap
A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.

A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.

Ferreira Gullar

22 de julho de 2014

O que é a felicidade?

Goyo Dominguez
“Procuremos compreender agora – uma vez que todo o saber e toda a intenção têm um bem por que anseiam – (...) qual será o mais extremo dos bens susceptível de ser obtido pela ação humana. Quanto ao nome desse bem, parece haver acordo entre a maioria dos homens. Tanto emagrecer a maioria como os mais sofisticados dizem ser a felicidade, porque supõem que ser feliz é o mesmo que viver bem e passar bem. Contudo, acerca do que possa ser a felicidade estão em desacordo e a maioria não compreende o seu sentido do mesmo modo que o compreendem os sábios.”
Aristóteles (384-322 a.C.)

21 de julho de 2014

Ciúmes...um desvario

Chaim Goldberg
“Como ciumento sofro quatro vezes:
porque sou ciumento, porque me reprovo de sê-lo,
porque temo que meu ciúme machuque o outro,
porque me deixo dominar por uma banalidade:
sofro por ser excluído,
por ser agressivo,
por ser louco e
por ser comum”.
Roland Barthes (1915-1980)

20 de julho de 2014

Coração

Hazel Soan
No lugar secreto do coração
é onde verdadeiramente está o grande sustentáculo.
Nele está centrado tudo que se move,
que respira, que abre e fecha os olhos.
Conhece-o como ser, como não ser,
como o supremo objetivo a ser atingido,
o mais elevado, além do alcance do entendimento humano.

Upanishad

Especulações em torno da palavra homem

Thomas Cole
Mas que coisa é homem,
que há sob o nome:
uma geografia?
um ser metafísico?
uma fábula sem
signo que a desmonte?
Como pode o homem
sentir-se a si mesmo,
quando o mundo some?

Como se fazer
a si mesmo, antes
de fazer o homem?
Fabricar o pai
e o pai e outro pai
e um pai mais remoto
que o primeiro homem?

Há alma no homem?
E quem pôs na alma
algo que a destrói?
Como sabe o homem
o que é sua alma
e o que é alma anônima?

Que milagre é o homem?
Que sonho, que sombra?
Mas existe o homem?

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

19 de julho de 2014

Soneto 91

Ikahl Beckford
A uns, o berço dá a glória, a outros, o talento,
A uns, a riqueza, a outros, a força,
A uns, as vestes, mesmo espaventosas,
A uns, suas águias e cães, a outros, seus cavalos,
E todo humor provê o seu próprio prazer,
Vendo alegria acima de tudo o mais;
Mas essas questões de nada me servem;
Supero tudo isso com um único trunfo.
Teu amor é mais que um berço de ouro,
Mais rico que a riqueza, mais caro do que roupas,
Mais prazeroso que águias e cavalos;
E tendo a ti, desdenho de todo o humano orgulho –
Apenas triste por um motivo: que possas privar-me
De tudo, tornando-me o mais infeliz.

William Shakespeare (1564-1616)
Tradução: Thereza Christina Motta

Liberdade? Sofisma dos saudáveis

Tristram Paul Hillier
“Mesmo que possa lutar contra um ataque de depressão, em nome de que vitalidade me obstinaria contra uma obsessão que me pertence, que me precede? Quando estou bem de saúde, escolho o caminho que me agrada; ‘doente’, já não sou eu quem decide: é meu mal. Para os obcecados não existe opção: sua obsessão já optou por eles. Uma pessoa se escolhe quando dispõe de virtudes indiferentes; mas a nitidez de um mal é superior à diversidade dos caminhos a escolher. Perguntar-se se se é livre ou não: futilidade aos olhos de um espírito a quem arrastam as calorias de seus delírios. Para ele, exaltar a liberdade é dar provas de uma saúde indecente.
A liberdade? Sofisma dos saudáveis.”
Emil Michel Cioran (1911-1995),
in Silogismos da amargura

18 de julho de 2014

Há em toda a beleza uma amargura

Amedeo Modigliani
Há em toda a beleza uma amargura
secreta e confundida que é latente
ambígua indecifrável duplamente
oculta a si e a quem na olhar obscura

Não fica igual aos vivos no que dura
e a não pode entender qualquer vivente
qual no cabelo orvalho ou brisa rente
quanto mais perto mais se desfigura

Ficando como Helena à luz do ocaso
a língua dos dois reinos não lhe é az
senão de apartar tranças ofuscante

Mas à tua beleza não foi dado
qual morte a abrir teu juvenil estado
crescer e nomear-se em cada instante?

Walter Benjamin (1892-1940)
Tradução: Vasco Graça Moura

Sobre Pranto e Riso

Franz Marc
“Se o Pranto e o Riso aparecessem neste grande teatro no traje da verdade (sempre nua), sem dúvida seria a vitória do Pranto. Mas vestido, ornado e armado de uma tão superior eloquência, que o Riso se ria do Pranto, não é merecimento, foi sorte. De tudo quanto ri saiu vestido, ornado e armado o Riso: riem-se os prados e saiu vestido de flores: ri-se a Aurora, e saiu ornado de luzes; e se aos relâmpagos e raios chamou a Antiguidade Risus Vestae, et Vulcani, entre tantos relâmpagos, trovões e raios de eloquência, quem não julgará ao miserável Pranto cego, atónito e fulminado? Tal é a fortuna, ou a natureza, destes dois contrários. Por isso nasce o Riso na boca, como eloquente, e o Pranto nos olhos, como mudo.”
Padre Antônio Vieira (1608-1697)

17 de julho de 2014

Os iluminados e os tenebrosos

Louis Marie de Schryver
“Sois vós um daqueles a quem se chama feliz? Pois bem, vós estais tristes todos os dias. Cada dia tem uma grande amargura e um pequeno cuidado. Ontem tremíeis pela saúde de alguém que vos é caro, hoje receais pela vossa; amanhã será uma inquietação de dinheiro, depois a diatribe de um caluniador ou a infelicidade de um amigo, mais tarde o mau tempo que faz, qualquer coisa que se quebrou ou se perdeu, uma vez um prazer que a vossa consciência e a coluna vertebral reprovam, outra vez a marcha dos negócios públicos. Isto sem contar as penas de coração. E assim sucessivamente. Uma nuvem que se dissipa e outra que se forma logo. Apenas um dia em cem de plena felicidade e cheio de sol. E sois desse pequeno número que é feliz! Quanto aos outros homens, envolve-os a noite estagnante.
Os espíritos refletidos usam pouco desta locução: os felizes e os infelizes. Neste mundo, evidentemente vestíbulo de outro, não há felizes. A verdadeira divisão humana é esta: os iluminados e os tenebrosos.
Diminuir o número dos tenebrosos e aumentar o dos iluminados, eis o fim. É por isso que nós gritamos: ensino, ciência! Aprender a ler, é alumiar com fogo; toda a sílaba soletrada cintila. De resto, quem diz luz não diz, necessariamente, alegria. Também se sofre com a luz; em demasia queima. A chama é inimiga da asa. Queimar-se sem deixar de voar, é o prodígio do gênio.
Quando conhecerdes e quando amardes, sofrereis ainda. O dia nasce em lágrimas. Os iluminados choram quando mais não seja sobre os tenebrosos”.
Victor Hugo (1802-1885), in 'Os Miseráveis'

16 de julho de 2014

Os povos primitivos não conheciam a necessidade de dividir o tempo

Paul Gauguin
“Os povos primitivos não conheciam a necessidade de dividir o tempo em filigranas. Para os antigos não existiam minutos ou segundos. Artistas como Stevenson ou Gauguin fugiram da Europa e aportaram em ilhas onde não havia relógios.
Nem o carteiro nem o telefone apoquentavam Platão. Virgílio nunca precisou de correr para apanhar um comboio. Descartes perdeu-se em pensamentos nos canais de Amsterdam. Hoje, porém, os nossos movimentos são regidos por frações exatas de tempo. Até mesmo a vigésima parte de um segundo começa a não mais ser irrelevante em certas áreas técnicas.”
Paul Valéry (1871-1945)
A Busca da Inteligência

A fonte da felicidade reside dentro de nós

Katerina Belkina
“O hábito de me recolher a mim mesmo acabou por me tornar imune aos males que me acossam, e quase me fez perder a memória deles. Desse modo, aprendi com base na minha própria experiência que a fonte da felicidade reside dentro de nós e que não está no poder dos homens fazer com que fique realmente desgostosa uma pessoa determinada a ser feliz. Por quatro ou cinco anos desfrutei regularmente de alegrias interiores que almas gentis e afetuosas encontram numa vida de contemplação”.
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)

15 de julho de 2014

Tao Te King, cap. 47

Scott Stulberg
Sem sair pela porta da frente de casa,
pode-se conhecer o mundo.
Sem olhar para fora,
pode-se conhecer o caminho para o céu.
Quanto mais se viaja, menos se sabe.
O sábio conhece sem viajar,
vê sem olhar,
e age mediante o não fazer.

Lao-Tsé (1324 a.C. - 1408 a.C.)

Não se pode perder o que não se tem

Paul Hedley
“Fosse a tua vida três mil anos e até mesmo dez mil, lembra-te sempre que ninguém perde outra vida que aquela que lhe tocou viver e que só se vive aquela que se perde. Assim a mais longa e a mais curta vida se equivalem. O presente é igual para todos, e o que se perde é, por isso mesmo, igual, e o que se perde surge como a perda de um segundo. Com efeito, não é o passado ou o futuro que perdemos; como poderia alguém arrebatar-nos o que não temos?
Por isso toma sentido, a toda a hora, nestas duas coisas: primeiramente, que tudo, desde toda a eternidade, apresenta aspecto idêntico e passa pelos mesmos ciclos, e pouco importa assistir ao mesmo espetáculo em duzentos anos ou toda a eternidade; depois, que tanto perde o homem que morre carregado de anos como o que conta breves dias, consistindo a perda no momento presente; não se pode perder o que não se tem.”
Marco Aurélio (121-180)
Imperador Romano

14 de julho de 2014

As baixas paixões que o futebol alimenta

Norman Rockwell
“Ao espectador não lhe importa nada o futebol, embora sustente freneticamente o contrário. Nem lhe interessa que exista uma humanidade vigorosa, nem que tal ou qual indivíduo tenha desenvolvidos ao máximo seus bíceps ou seus músculos gêmeos. Tampouco lhe importa que a equipe mais ligeira, mais enérgica ou mais preparada triunfe. O que lhe interessa, o que persegue com intransigência permanente, com avidez doentia, é o êxito de um certo grupo, ao qual atribui suas simpatias por razões de vizinhança, de amizade ou de uma difusa preferência enraizada às vezes nas causas mais incongruentes. O homem enamorado quer porque quer. O fanático de uma equipe procede pela mesma razão.”
Wenceslao Fernández Flórez (1885-1964)

Simpatia

Mark Arian
Numa tarde longa e mansa,
os dois pela estrafa vão: o cão estima a criança, e a criança estima o cão.
Que delicada aliança dos seres da criação: uma risonha criança, um robustíssimo cão.
Deus percebeu a lembrança e sorriu lá na amplidão: ele gosta da criança, que trata bem o seu cão.
Por isso, na tarde mansa,
os dois felizes lá vão:
a delicada criança
e o robustíssimo cão.

Augusto Frederico Schmidt (1906-1965)

13 de julho de 2014

A morte

Eustache le Sueur
“A morte pode dar ensejo a dois sentimentos opostos: ou fazer pensar que morrer é tornar-se o mais vulnerável dos seres, sem defesa contra o desconhecido; ou que é tornar-se invulnerável e afastado de todos os males possíveis. Em quase todos, esses dois sentimentos existem e alternam-se. Passa-se a vida temendo ou desejando a morte.”
Paul Valéry (1871-1945)

Memória

Jacky Kobelt
A voz rouca da noite exprime
a nossa memória poderia dizer a
nossa história mas evito

o que possa
anular o sentido
do que procuro manter vivo.

Gastão Cruz

12 de julho de 2014

A colher

Jelena Jovanovic

Reabro uma
gaveta da infância
e encontro a colher em desuso caída
a sopa lentamente se escoando
no prato fundo:

a vida em certos dias tinha a forma
daquele objeto antigo
tocando-me nos
lábios com um calor excessivo.

Gastão Cruz

Pássaros matinais

Henry Siddons Mowbray
Desperto o automóvel
que tem o para-brisas coberto de pólen.
Coloco os óculos de sol.
O canto dos pássaros escurece.

Enquanto isso outro homem compra um diário
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.

Não há vazios por aqui.

Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta como foi caluniado
até na Direção.

Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agoirento.
E o melro que se move em todas as direções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:

Não há vazios por aqui.

É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.

Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.

Tomas Tranströmer
Poeta sueco, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura 2011.
Tradução: João Luís Barreto Guimarães.

11 de julho de 2014

O Tempo e o Vento

Lonely Woman
“ (...)
O tempo passou.
Dizem que tempo é remédio para tudo.
O tempo faz a gente esquecer.
Há pessoas que esquecem depressa.
Outras apenas fingem que não se lembram mais
(...)”

Erico Veríssimo (1905-1975)

Chegaremos a ser aquilo que temos que ser?

John Melhuish Strudwick
“O mal e o remédio estão em nós. A mesma espécie humana que agora nos indigna, indignou-se antes e indignar-se-á amanhã. Agora vivemos um tempo em que o egoísmo pessoal tapa todos os horizontes. Perdeu-se o sentido da solidariedade, o sentido cívico, que não deve confundir-se nunca com a caridade. É um tempo escuro, mas chegará, certamente, outra geração mais autêntica. Talvez o homem não tenha remédio, não tenhamos progredido muito em bondade em milhares e milhares de anos sobre a Terra. Talvez estejamos a percorrer um longo e interminável caminho que nos leva ao ser humano. Talvez, não sei onde nem quando, cheguemos a ser aquilo que temos de ser. Quando metade do mundo morre de fome e a outra metade não faz nada... alguma coisa não funciona. Talvez um dia!”
José Saramago (1922-2010)

10 de julho de 2014

Foi-se a Copa

Regina Mendonça
Foi-se a Copa? Não faz mal.
Adeus chutes e sistemas.
A gente pode, afinal,
cuidar de nossos problemas.

Faltou inflação de pontos?
Perdura a inflação de fato.
Deixaremos de ser tontos
se chutarmos no alvo exato.

O povo, noutro torneio,
havendo tenacidade,
ganhará, rijo, e de cheio,
A Copa da Liberdade.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Fernão Capelo Gaivota

Danielle Richard
“Quase todos nós percorremos um longo caminho. Fomos de um mundo para o outro, que era praticamente igual ao primeiro, esquecendo logo de onde viéramos, não nos preocupando para onde íamos, vivendo o momento presente. Tem alguma ideia de por quantas vidas tivemos que passar até chegarmos a ter a primeira intuição de que há na vida algo mais do que comer, ou lutar, ou ter uma posição importante dentro do bando? Mil vidas, Fernão, dez mil! E depois mais cem vidas até começarmos a aprender que há uma coisa chamada perfeição, e ainda outras cem para nos convencermos de que o nosso objetivo na vida é encontrar essa perfeição e levá-la ao extremo.”
Richard Bach
Fernão Capelo Gaivota
Fragmento

9 de julho de 2014

Ser, parecer

Valeri Tsenov
Entre o desejo de ser
e o receio de parecer
o tormento da hora cindida.

Na desordem do sangue
a aventura de sermos nós
restitui-nos ao ser
que fazemos de conta que somos.

Mia Couto

A vida nos ensina

Bev Doolittle
“A vida nos ensina silenciosamente, enquanto os homens instruem em voz alta. A preciosa descoberta do verdadeiro EU dentro de nós só pode ser feita quando a mente estiver em repouso; as palavras apenas confirmam a realidade, mas não a explicam e jamais a poderão explicar, pois a Verdade é um estado de ser e não uma torrente de verbosidade”.
Paul Brunton (1898-1981)