25 de outubro de 2014

Vaso Chinês

Alfred Stevens
Estranho mimo aquele vaso! Vi-o,
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármor luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado.

Fino artista chinês, enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tinta ardente, de um calor sombrio.

Mas, talvez por contraste à desventura,
Quem o sabe?… de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura.

Que arte em pintá-la! A gente acaso vendo-a,
Sentia um não sei quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa.

Alberto de Oliveira (1857-1937)

Solitude

Cynthia Decker
Juntos, em solitude.
Cada qual com sua chaga.
Cada qual com sua cruz.
Dois corpos antes tão próximos,
separados pela geografia
que a mágoa desenha.
Entre os braços,
interpõe-se
desertos, salinas e dunas.
O amor morreu?
Não. Condensou-se.
Soterrou-se em veios
de duro e negro minério.
Duas árvores cujas raízes
trançaram-se rumo ao fundo.
Que frutos falhos e ásperos
nessas mãos antes tão íntimas,
que, mesmo durante o sono,
permanecem bem fechadas.

Donizete Galvão (1955-2014)

24 de outubro de 2014

Respiro-te

Marcus Stone
Respiro-te por teus poros
na ânsia de nada perder
de sermos dois, mas um.
Nada deixar, nada exceder
a não ser essência
que te impregna,
que nos envolve,
que me absorve
por teus poros.

Donald Malschitzky

Gota de água

Koho Shoda
Gravei tua figura
Em uma gota de água
Lancei a gota de água
Num pequenino arroio
O arroio foi rolando
E perdeu-se num rio
O rio entrou no mar
Depois te fui buscar
E te achei dividida
Teus cabelos ficaram
Numa curva do rio
Teus braços chamavam
Feitos ramos de uma árvore
As pernas completaram
Um corpo de sereia
Que ansiava ser mulher
De teu tronco nasceram
Algas e caracóis
Achei teus olhos garços
Em uma madrepérola
Teu vário coração
Um peixezinho de ouro
Alimentou-se dele
(Hoje no mar é rei
Por tão feliz façanha).

Como estou sem teus beijos
- A um tempo mel e sal -
Bebo a água do rio
Bebo a água do mar.

Homero Icaza Sánchez (1925-2011)
Tradução: Manuel Bandeira

23 de outubro de 2014

Eu canto para ele

Christiane Vleugels
Eu canto para ele.
Eu elevo o presente sobre o passado
(Feito uma árvore perene e livre de raízes, o presente no passado,)
Com tempo e espaço eu o dilato e fundo às leis imortais,
Para a partir delas fazer dele próprio a sua própria lei.

Walt Whitman (1819-1892)
Tradução: Arthur Nogueira

Desesperação de cinzas

Ismael Nery - Anunciação
No martírio das minhas esperanças,
Tive raivas, blasfêmias, desvarios...
E ergui meus braços, hirtos como lanças,
Contra os astros sonâmbulos e frios.

Porque jamais os sóis, em noites mansas,
Rasgassem luz nos meus fatais transvios,
Abri-me em ódios e desesperanças,
Como um vulcão se abre em clarões bravios.

E - cratera de anátemas e assombros —
Tudo queimei em brasas de tormentos...
E, hoje, que o amor despenha em lama e escombros,
- Contra as constelações, a escurecê-las,
Arrojo as cinzas do meu tédio aos ventos
E a fumaça dos sonhos às estrelas...

Moacir de Almeida (1901-1924)

22 de outubro de 2014

Ó amigo!

Pat Brennan
Não busques o jardim distante. Fique onde estás.
Pois em ti mesmo há um jardim florido.

Toma teu lugar sobre o lótus das mil pétalas,
E dali contempla a beleza infinita.

Kabir (1440-1518)
Poeta Hindu

Educação

“Ousarei expor aqui a mais importante,
a maior, a mais útil regra de toda a educação?
É não ganhar tempo, mas perdê-lo”.

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)

Procure Deus no coração

Oleg Trofimov
Onde estiveste, meu filho?
Onde estiveste por tão longo tempo?
Onde andaste?
Que procuraste no mundo?
Prazer e alegria?
Onde devias procurá-las senão em Deus? ...
E onde procurar a Deus senão no seu templo?
E qual é o templo do Deus vivo, senão o templo vivo,
que ele preparou para si mesmo, o teu próprio coração?

Jan Amos Comenius (1592-1670)
em 'O Labirinto do Mundo e o Paraíso do Coração'

21 de outubro de 2014

O Tempo

Paul Gauguin
Sou o Tempo que passa, que passa,
Sem princípio, sem fim, sem medida!
Vou levando a Ventura e a Desgraça,
Vou levando as vaidades da Vida!

A correr, de segundo em segundo,
Vou formando os minutos que correm...
Formo as horas que passam no mundo,
Formo os anos que nascem e morrem.

Ninguém pode evitar os meus danos...
Vou correndo sereno e constante:
Desse modo, de cem em cem anos,
Formo um século, e passo adiante.

Trabalhai, porque a vida é pequena,
E não há para o Tempo demoras!
Não gasteis os minutos sem pena!
Não façais pouco caso das horas!

Olavo Bilac (1865-1918)

O povo é bom tipo.

Georges Barbier
“O povo nunca é humanitário. O que há de mais fundamental na criatura do povo é a atenção estreita aos seus interesses, e a exclusão cuidadosa, praticada sempre que possível, dos interesses alheios.
Quando o povo perde a tradição, quer dizer que se quebrou o laço social; e quando se quebra o laço social resulta que se quebra o laço social entre a minoria e o povo. E quando se quebra o laço entre a minoria e o povo, acabam a arte e a verdadeira ciência, cessam as agências principais, de cuja existência a civilização deriva.
Existir é renegar. Que sou hoje, vivendo hoje, senão a renegação do que fui ontem, de que fui ontem? Existir é desmentir-se. Não há nada mais simbólico da vida do que aquelas notícias dos jornais que desmentem hoje o que o próprio jornal disse ontem. Querer é não poder. Quem pôde, quis antes de poder só depois de poder. Quem quer nunca há de poder, porque se perde em querer. Creio que estes princípios são fundamentais”.
Bernardo Soares
(heterônimo de Fernando Pessoa)
Livro do Desassossego

20 de outubro de 2014

Ácidos e Óxidos

Pierre Auguste Renoir
“Nesta altura do ano quando o vento sopra
Sobre os nossos dias, sabes quem gostava de ser?
Não, cargos ou honras não. Um simples gato ao sol,
Talvez uma maneira ou um sentido para as coisas”.

Ruy Belo (1933-1978)

Cala-te...

Egidio Antonaccio
Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não contempla,
sempre o amor procura,
tacteia no escuro,
essa perna é tua? esse braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua,
morreria agora se mo pedisses,
dorme,
nunca o amor foi fácil,
nunca, também a terra morre.

Eugénio de Andrade (1923-2005)

19 de outubro de 2014

De tudo ficaram três coisas

Sir Peter Paul Rubens
De tudo ficaram três coisas:
A certeza de que estamos começando,
A certeza de que é preciso continuar e
A certeza de que podemos ser
interrompidos antes de terminar
Fazer da interrupção um caminho novo,
Fazer da queda um passo de dança,
Do medo uma escola,
Do sonho uma ponte,
Da procura um encontro,
E assim terá valido a pena existir!

Fernando Sabino (1923-2004)
em "Encontro Marcado"

Fragmento

Caspar David Friedrich
É curioso. Vós suspeitais de que nós dois somos a mesma pessoa. Porém, vós recordais muitas coisas da vossa vida e eu pouquíssimas da minha. Pelo contrário, como prova o vosso diário, vós não sabeis nada de mim, enquanto eu me estou a aperceber de que recordo outras coisas, e não poucas, do que vos aconteceu e - nem por acaso - exatamente aquelas de que parece que vós não conseguis recordar-vos. Deverei dizer que, se posso recordar tantas coisas de vós, então eu sou vós?
Talvez não; somos duas pessoas diferentes, envolvidas por qualquer misteriosa razão numa espécie de vida comum, eu sou, no fundo, um eclesiástico, e sei de vós talvez aquilo que me haveis contado sob o segredo da confissão. Ou sou aquele que tomou o lugar do Dr. Froïde e, sem que vos recordeis disso, extraiu do mais profundo do vosso ventre aquilo que tentáveis manter sepultado?
Umberto Eco
"O Cemitério de Praga".

18 de outubro de 2014

Cantiga

John William Waterhouse
Ai! A manhã primorosa
do pensamento...
Minha vida é uma pobre rosa
ao vento.

Passam arroios de cores
sobre a paisagem.
Mas tu eras a flor das flores,
imagem!

Vinde ver asas e ramos,
na luz sonora!
Ninguém sabe para onde vamos
agora.

Os jardins têm vida e morte,
noite e dia...
Quem conhecesse a sua sorte,
morria.

E é nisso que se resume
o sofrimento:
cai a flor, - e deixa o perfume
no vento!

Cecília Meireles (1901-1964)

Análise: A vida é apresentada metaforicamente como uma rosa. O eu lírico cria a analogia a partir da ideia de que os seres humanos se apegam às aparências (à imagem), que estão destinadas a desaparecer com a passagem do tempo. A regularidade dos ciclos da natureza (vida e morte, noite e dia) comprova a transitoriedade da vida. Na última estrofe, revela-se a razão do sofrimento humano: as lembranças do passado (o perfume da rosa) continuam a existir, mesmo depois da destruição da forma que as gerou.
Recorrendo a formas poéticas simples como a cantiga, Cecília Meireles desenvolve temas como o amor, o tempo, a transitoriedade da vida e a fugacidade das coisas. Em sua poesia, a natureza marca os ritmos da vida. Resta-nos aceitá-los com tranquilidade.

Retrato

Dario Villares Barbosa - A moura
Deixei em vagos espelhos
a face múltipla e vária,
mas a que ninguém conhece
essa é a face necessária.

Escuto quando me falam,
de alma longe e rosto liso,
e os lábios vão sustentando
indiferente sorriso.
A força heroica do sonho
me empurra a distantes mares,
e estou sempre navegando
por caminhos singulares.

Inquiri o mundo, as nuvens
o que existe e não existe,
mas, por detrás das mudanças,
permaneço a mesma, e triste.

Marly de Oliveira (1935-2007)

17 de outubro de 2014

Livro do Desassossego

Pierre Puvis de Chavannes
Há uma erudição do conhecimento, que é propriamente o que se chama erudição, e há uma erudição do entendimento, que é o que se chama cultura. Mas há também uma erudição da sensibilidade.
Étienne Bonnot de Condillac (1715-1780) começa o seu livro célebre,
Por mais alto que subamos e mais baixo que desçamos, nunca saímos das nossas sensações. Nunca desembarcamos de nós. Nunca chegamos a outrem, senão outrando-nos pela imaginação sensível de nós mesmos. As verdadeiras paisagens são as que nós mesmos criamos, porque assim, sendo deuses delas, as vemos como elas verdadeiramente são, que é como foram criadas. Não é nenhuma das sete partidas do mundo aquela que me interessa e posso verdadeiramente ver; a oitava é a que percorro e é a minha ”.
Bernardo Soares
(heterônimo de Fernando Pessoa)
Livro do Desassossego, Fragmentos 138

Os Dias de Vinho e Rosas

Christopher and Amanda Elwell
Não são longos, o riso e o choro,
o amor, o desejo e o ódio;
Porção nenhuma em nós terão,
imagino,
após o portal cruzarmos.

Não são longos, os dias de vinho e rosas:
De um sonho em névoa
nosso caminho por um instante desperta
depois dentro de um sonho
se encerra.

Ernest Dowson (1867-1900)
Tradução: Fernando Campanella

16 de outubro de 2014

Há Dias

Joachim Faber
Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-me comigo
quero eu dizer:
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça ou da alegria
um sorriso abre-se então num verão antigo
e dura... dura ainda.

Eugénio de Andrade (1923-2005)

Porque viajas Marco Polo?

Uma parte do Atlas Catalão que foi criado pelo cartógrafo de Maiorca Abraham Cresques
Em uma das várias conversas entre o viajante Marco Polo e o imperador Kublai Khan, Khan questiona qual o propósito de viajar.
"Marco entra numa cidade; vê alguém numa praça que
vive uma vida ou um instante que poderiam ser seus; ele podia estar no lugar daquele homem se tivesse parado no tempo tanto tempo atrás, ou então se tanto tempo atrás numa encruzilhada tivesse tomado uma estrada em vez de outra e depois de uma longa viagem se encontrasse no lugar daquele homem e naquela praça.
Agora, desse passado real ou hipotético, ele está excluído; não pode parar; deve prosseguir até uma outra cidade em que outro passado aguarda por ele, ou algo que talvez fosse um possível futuro e que agora é o presente de outra pessoa. Os
futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos.
- Você
viaja para reviver o seu passado? - era, a esta altura, a pergunta do Khan, que também podia ser formulada da seguinte maneira - Você viaja para reencontrar o seu futuro?
E a resposta de Marco:
- Os outros lugares são espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu ao descobrir o muito que não teve e não terá.
Italo Calvino (1923-1985)
(As Cidades Invisíveis)

15 de outubro de 2014

Aos nossos filhos

Patrick William Adam
Meu filho, se acaso chegares, como eu cheguei a uma campina de horizontes arqueados, não te intimidem o uivo do lobo, o bramido do tigre; enfrenta-os nas esquinas da selva, olhos nos olhos, dedo firme no gatilho.
Meu filho, se acaso chegares a um mundo injusto e triste como este em que vivo, faze um filho; para que ele alcance um tempo mais longe e mais puro, e ajude a redimi-lo.
Paulo Mendes Campos (1922-1991)

Dia dos Professores

“A educação tem raízes amargas,
mas os frutos são doces”.

Aristóteles
Winslow Homer - The Country School
Professor é uma pessoa que ensina uma ciência, arte, técnica para outros (alunos). É uma das profissões mais antigas e mais importantes, tendo em vista que as demais, na sua maioria, dependem dela.
Já Platão, na sua obra A República, alertava para a importância do papel do professor na formação do cidadão.
Platão acreditava que, por meio do conhecimento, seria possível controlar os instintos, a ganância e a violência. O acesso aos valores da civilização, portanto, funcionaria como antídoto para todo o mal cometido pelos seres humanos contra seus semelhantes.
↬↬ O Dia Mundial dos Professores celebra-se a 5 de Outubro. ↠ No Brasil, o Dia do Professor é dez dias depois, em 15 de Outubro.
A sala de aula é o espaço privilegiado de negociações e de produção de novos sentidos e isso acontece em uma rede interativa em que se tornam presentes e se atualizam a história de vida.
Do professor espera-se que conduza o seu grupo de alunos, buscando compreender e negociar os diferentes processos de significação que envolvem as situações de aprendizagem que planejou. Tem sido comum identificar o professor nesse papel de mediador, atribuindo a ideia à abordagem histórico-cultural.

14 de outubro de 2014

Entendimento Perfeito

Foto de Jessica Jenney
Sentaram-se no banco e se calaram,
tentando entender o silêncio.
As palavras tinham um sentido além
delas mesmas. O silêncio seria,
sempre, o único meio de
entendimento perfeito.

Fernando Sabino (1923-2004)
In "O Encontro Marcado"

Uma Cena

Antoine Auguste Ernest Herbert
Vês acordada como em sonho
o sonho mau tal fosse belo
— o belo horror do real
ou lúcida, clara, exata,
não como é visto sol a pino
ou através da água,
como quem vê dentro do mar
ou através de um vidro fosco,
mais, no fundo de um espelho,
não o que mostra a imagem
mas aquele que a deforma
inteiro fora de foco.
Olga Savary